BEn, 31 : 542-566, 1978
PÁGINA DO ESTUDANTE
ASSI ST�NC IA À UM PAC IENTE GERIATRICO
ESTU DO DE CASO
Raq uel M ari a M ir an da Guim arã es
Bn/ll
I - SITUAÇAO
M . F . S . , 79 anos, viúva há 20 anos, católica, nível de instrução primário, tem um único filho casado, o qual a mantém financeiramente e essa é uma das razões de desentendimentos cons tantes com a nora.
Há 12 anos fora colostomizada, é as mática desde a infância, tendo freqüen tes crises até ter chegado ao estado de mal asmático.
Emotiva, complexada.
Desde os 18 anos, tem o hábito de fumar cachimbo.
Acha-se "velha" demais, porém de monstra medo da morte.
Mora com uma sobrinha de 59 anos, solteira, muito religiosa, com a qual dis cute freqüentemente pelos hábitos e costumes de vida diferentes.
Acha-se em soroterapia e repouso.
PROCESSO DE ENVELHECMENTO
11 - A VELHICE
• Processos Biológicos do Envelheci mento :
O envelhecimento representa uma etapa do desenvolvimento individual cuj a característica .. principal é a acen tuada perda da capacidade de adaptação e menor expectativa de vida. Isso signi fica excessiva vulnerabilidade e reduzida viabilidade diante das forças normais de mortalidade.
A velhice é, no sentido genérico, um processo de diminuição gradual da ca pacidade fisiOlógica de cada órgão ou sistema, devido a atrofia progressiva dos tecidos.
Podemos dizer que a velhice resulta do resultado do somatório das lesões
pa-• Aluna do 6.° período da Escola de Enfermagem Ana Neri - UFJ. 42
GUAS, R.M.M. - Página do studante - Assisência à m paciene geriátrico - studo de o. Rev. Bra. Enr. ; DF. 31 : 542-566, 1978.
tológicas residuais sofridas pelo orga • Enfermagem Geriátrica : nismo.
Biologicamf'nte, os sinais de velhice Na Enfermagem Geriátrica, a capaci
de um organismo manifestam-se nas cé dade de .,'aliar a reação de cada indi
lulas, em que se notam mOdificações víduo é extremamente importante, por
morfológicas, químicas e enzimáticas, jue patOlogias múltiplas caracterizam o
nos órgãos, por diminuição de seu peso processamento do envelhecimento e di
e, nas funções, por perda graduál dos fIcultam . avaliacão.
seus mecanismos reguladores. A interptetação de observações reali
zadas em tono de um paciente idoso,
• Problema Socal da Velhice : requer do enfermeiro o conhecimento
das alterações decorrentes de seu estado,
Em quase todos os países, através da a fim de não fundamentar os cuidados
História, os velhos têm sido sempre co le en�ermagem em afirmações incom
locados como pessoas bondosas, sábias, pletas e Estereotipadas sobre o assunto. tranqüilas e tolerantes. Essa "teoria do - vivpncia com tais pacientes é que bom velhinho" é encoraj ada por quase fará o enfermeiro mais habiltado a cui
todos os meios de comunicação, a tal dar dos velhos e mais capacitado para
ponto que eles mesmos aceitam a fan entendê··los.
tasia que lhes é imposta. Precisamos conseguir do paciente sua
colabora�ão aos tratamentos e 'ma reabi No entanto, tanto na família como na
litação à sociedade; ter em mente a va sociedade em geral, e apesar de suas
lorização do ancIão. inúmeras "virtudes", os velhos são afas
tados do poder e despojados de autori Para haver a integração .. total, enfer dade real. meiro-paciente, devemos buscar dados e
informações importantes, quanto mais
A despeito de ser "um bom velhinho",
conhecemos a respeito do paciente, maior
as pessoas idosas não são em geral apre
e melhor será nossa-assistência.
ciadas nem dentro da sociedade, nem
dentro de suas próprias famílias. Os problemas dos anciães são maiores
e suas possibilidades para resolvê-los são Na realidade, o relacionamento dos ve
menores. lhos com a produtividade que a socie
dade hoje exige é insignificante.
In ENFERMAGEM
Aparentemente a sociedade cria uma - PROCESSO DE ideologia da velhice que, pelos dados
cisponíveis, depende da força de traba • Histórico de Enfermagem : lho e da adaptação do velho aos arran
cos da tecnologia. 1 . Identificação :
A inteligência e a eficiência com que
M . F . S . , anos, feminino, branca,
as gerações produtivas preparam a sua 79
viúva há 20 anos, com um único filho
própria velhice pode ser o índice mais
católica. valioso da; soluções que as sociedades
terão que adotar. Estudou o curso primário completo, é
Cada slciedade terá a velhice que me toméstca, natural de São Paulo, e mora recer; é lícito admitir que a velhice é 10 Rio de Janeiro há 40 anos.
a conseqüência do tratamento que a so Foi internada há 3 dias no setor C,
ciedade lá a sua mocidade e à sua adul leito 5, através do ambulatório, com
tividade. diagnóstico de desidratação.
GUAS, R.M.M. - Página do studante - Assisência à m paciene geriátrico - studo de o. Rev. Bra. Enr. ; DF. 31 : 542-566, 1978.
? . Dados Clínicos de Interesse para a 4 . Necessidades Básicas na
Hospitalt-Enfermagem: zação:
Acha-se com a seguinte prescrição No hospital dorme e acorda 2 horas medicamentosa: mais tarde do que em, casa. Dorme bem. gosta da cama e trouxe travesseiros de
.• Soro glicosado + soro fisiológico casa.
Aceita e compreende sobre sua dieta.
• Iodeto de potássio - xarope Toma bastante água durante o dia Urina 2 a 3 vezes, tem evacuado 7 a 8
• Oxigênio - se necessário vezes por dia, fezes diarréicas. Fuma cach!mbo 4 a 5 vezes ao dia. Gosta de conversar, contar sobre sua • Broncodilatadores (aminofUina) - famílla, fazer erochê.
se necessário
5 . Exame físico :
• Antidiarréicos (e. paregórico) Pesa : 59 kg e mede : 1,56m.
• Ansiolitico Sinais vitais :
T . P . � . - 35,8°C - 80 15 Está respondendo bem às medicações.
T.A - 190 x 90 mm Hg. Dieta branda com restrição de feijão,
reolho, pepino. Apresenta expressão facial ansiosa
Encontra-se em repouso devido a soro terapia e dispnéia.
3 . Entrevista e Observação do Paciente: Permanece geralmente em decúbito dorsal, com 2 travesseiros sob a cabeça. sente-se irritada e nervosa durante
e após as crises asmáticas. Preocupa-se Locomove-se devagar apresentando acentuada cifose.
com suas eliminações diarréicas e odo
rs exalados. Sabe contar sobre sua ci Mostra-se melancólica, nervosa. Apre senta momentos de amnésia ao relatar n1rgia. Atualmente encontra-se no hos
sobre fatos passados. pital, por ter ," abusado" de alimentos
Pele adelgaçada, ressequida, propensa a condimentados, o que causou há uma
prurido. semana atrás fezes diarréicas. Diz que
Cabelos curtos e eSbranquiçados, lim o tratamento atual está lhe fazendo
pos. " muito bem".
Lábios, mucosas e lingua sem anor Fora cirurgiada há 12 anos (colosto
mia) , quando ficou hospitalizada Qli malidade.
m Apresenta diminuição da acuidade vi
rante mês. Procura médico sempre
sual, olfativa, gustativa, auditiva e que apreser.ta distúrbios digestivos ou as
tactil. rrises asmáticas.
Musculatura ligeiramente enfraqueci
Pensa ticar no hospital por mais u-.a da, rede venosa invisível, porém palpá
semana porque quer r embora curada. vel nos membros inferiores e superiores.
GUAS, R.M.M. - Página do studante - Assisência à m paciene geriátrico - studo de o. Rev. Bra. Enr. ; DF. 31 : 542-566, 1978.
Apresenta pele de contono ao esto sobre suas preferências alimentares. ma abdominal, pouco irritada e ave' com a nutricionista.
melhada. Pediu informação sobre os dias de vi- \
Não relata nenhuma alergia a medi sita do :acerdote católlco ao hospital. camentos.
Tabagista inveterada; não bebe. 7 . Impressões do ntrevistador sobre o
Paciente:
6 . Ajustamento do Paciente ao Hos : comunicativa, emociona-se e êxte
pital: rioriza seus problemas familiares com
Relaciona-se bem com 2 companhei facllldade.
ras de enfermaria. Diz ter muita con" Acha-se muito "velha" e apresenta fiança no seu médico. Conversa bastan momentos de euforia e tristeza subse te com a equipe de enfermagem. Fa)a qüentes.
N.O DE PROBLEMAS IDENTIFICDOS DPEND:NCIA
ORDEM
1 Desentendimento com a familla k. E .
2 Colostomizada T .
3 Humor lábU A.
4 Problemas econômicos A . E .
5 Acha-se muio "velha" A.
6 Cifose A.
7 Momentos de amnésia A.
8 Diminuição da acuidade sensorial A. E .
9 Tosse produtiva com expectoração mucóide A . E . .
10 Diminuição da resistência orgânica A.
II Distúrbios digestivos A.
12 Tendência a hipertensão arerial A.
13 Alteração da ellminação renal A.
14 Tendência a hipercolesterolemia O .
15 Medo da Morte A.
A = Ajuda
O = Orientação
S = Supervisão
E = Encaminhameno
T = Total
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paciene
geriátrico
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Orientar
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CUIDADOS
.
paciente
Saúde.
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integra Manter odores
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Evitar necessãrio
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•
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•
DO FUNDAMENTAÇAO
PROBLEMA PROBLEMA
IDENTIFICADO
DE N.O PROBL.
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Sempre
1
-1
0 PROBL. N.O DE PROBLEMA
IDENTIFICADO
FUNDAMENTAÇAO DO PROGR�MA
CUIDADOS DE ENFERMAGEM
• Conversar com o paciente ex
plicando-lhe o prejuízo do
fumo à saúde.
APRAZAMENTO
15: 04/12/78)
• Ensinar um método para, gra- 15: 04/12/78)
dativamente diminuir o fumo.
• Orientar parentes e amigos 16 : ( 15/12/78)
para que não tragam fumo.
• Oferecer balas.
• Atender rapidamente a situa- Sempre que necessário
ção.
• Elevar a cabeceira da cama. Continuamente
• Promover ambiente arejadO. "
• Manter vias respiratórias 11- "
vres e descongestlonadas.
• Observar e anotar freqüência
respiratória em intervalos fre qüentes.
8 : 12: 18 : 22 :
• Chamar médico. Sempre que necessário
• Acalmá-la através o diálogo.
GUAS,
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isência
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geriátrico
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umede
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CUIDADOS
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Articulações trites ficas.
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(14/12/78) :
15
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cuidados higiênicos
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15
ENFERMAGEM
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DO FUNDAMENTAÇAO
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diminuição nutrientes
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necessário
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18:
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( 13/12/78)
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12:
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fazer sabão a
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necessário
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10
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e
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e horas. CUIDADOS
Orientar zer
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FUNDMENTAÇAO
ição PROGRMA
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1978.
PRAZAMENTO
Continuamente
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3/12/78)
solicitado
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ENFRMAGEM
sufi-
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evitar colesterol.
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GUAS, R.M.M. - Página do studante - Assisência à m paciene geriátrico - studo de o. Rev. Bra. Enr. ; DF. 31 : 542-566, 1978.
PROGNÓSTICO DE ENFRMAGEM próprias para a velhice, delineam um
quadro assustador, frente ao problema.
- Mais de 90% dos pacientes com car Permitir que as pessoas idosas traba
cinomas de cólon e reto são, passíveis lhem, exerçam alguma atividade seria
de ressecção curativa, ou paliativa. o ideal.
- A maioria dos pacientes com asma
Outra importante solução seria a cria se adapta bem à necessidade de tra
ção de hotéis, especialmente idealizados tamento médico contínuo durante
par apessoas idosas, onde fosse possível toda a vida.
o ancião ocupar-se e divertir-se. Tais CONCLUSAO hotéis, embora elitizantes teriam uma função também emocional, de tal sorte
O despreparo para se cuidar dos ve que o velho não encarasse a velhice
lhos, bem como a falta de atividades como crepúsculo.
BIBLIOGRAFIA
SILVA, W. N. - Temas de Clínica Ge neiro, Guanabara Koogan, 5.a edi
riátrica - Fundo Editorial Bik - ção, 1975.
procienx - São Paulo.
HORTA, W. A. - O histórico de en
AMANCIO, A. e UCHOA, P. - Clínica fermagem simplificado - Rev. Enf.
Geriátrica - Rio de Janeiro, Athe Novas Dimensões, 2 : (3) - julho/
neu, 1975. agosto, 1976.
BRUNNER, L. S. e SUDDARTH, D. S. PAIM, L. ; HOELTZ, L. M. e CASTRO,
Enfermagem Médico-Cirúrgica. Ter I. B. - Iniciamento à Metodologia
ceira Edição, Interamericana. do Processo de Enfermagem
ABEn. REIS, J. J. - Medicina Geriátrica
Lisboa, Citécnica, 1967.
KRUPP, M. A. e CHATON, M. J.
-MACBRYDE
'
C. M. e BLACKLOW, R. S. Diagnóstico e Tratamento � São_ Sin is e Sintomas - Rio de J�- Paulo, Atheneu, 1973.