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SIGNIFICADO E FUNÇÃO EM ORAÇÕES PARA + INFINITIVO

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SIGNIFICADO E FUNÇÃO EM ORAÇÕES PARA + INFINITIVO

Helena GRYNER – UFRJ

Introdução

Os lingüistas tentam explicar a capacidade das línguas intermediarem interações entre os falantes, ou seja, a capacidade de comunicação. Nesta situação, cada um dos participantes busca alcançar seus objetivos comunicativos. Assim, em contextos polêmicos, que promovem discursos argumentativos, a intenção do locutor é convencer o interlocutor dos pontos de vista defendidos.

As seqüências discursivas se organizam em níveis distintos e coerentes: relações estabelecidas em cada nível convergem visando a realizar a função do texto (Mann, Matthiessen and Thompson, 1992). Observe-se que, no âmbito da teoria funcionalista proposta pelos autores, o uso das duas variantes de PARA+Infinitivo, é visto como categórico. Ou seja , a discussão não contempla a distribuição quantitativa dos usos variáveis segundo a rede de contextos linguísticos e sociais que nos parece essencial para a compreensão do problema. Por outro lado, focalizamos a organização das sequências argumentativas sob perspectiva semelhante à apresentada por Labov (1967) para a análise das narrativas: como um esquema constituído por categorias previsíveis (Gryner, 2000).

Neste quadro, propomos as seguintes questões:

a) existe correspondência entre dois níveis de relação:

i) a nível sintático (-semântico), a relação variável entre orações Satélite e Núcleo das construções hipotáticas ( ditas “subordinadas adverbiais”) de PARA+Inf); e

ii) a nível do discurso (texto), a relação variável, entre complexo oracional de PARA + Infinitivo e a sua função na estrutura do texto?

e b) a nível sociolinguísticote? Isto é, até que ponto o uso da estrutura PARA+Infinitivo reflete a preferência de determinado por conteúdos e estratégias retóricas específicas?

Nas seções seguintes definimos as formas alternantes e discutimos as implicações decorrentes do emprego da análise variacionista para “variantes” portadoras de significado. Em seguida, descrevemos a amostra e discutimos as hipóteses gerais e específicas. A partir daí. procedemos à análise estatística dos dados, utilizando o arcabouço metodológico proposto por Labov (1972) para a Teoria da Variação e, por fim, passamos à interpretação dos resultados quantitativos, apontando a sua relevância para a testagem das hipóteses propostas.

1. O Fenômeno Estudado: as “variantes”

Mann, Mattiessen e Thompson(1972) distinguem dois tipos de complexos oracionais hipotáticos de PARA+INF, conforme a natureza semântica da relação:

i- orações de PROPÓSITO (intencionalidade, finalidade) expressa na oração satélite, e

ii- orações de SOLUÇÃO (resolução – parcial – do problema proposto na oração Satélite através da oração Núcleo ).

Observando o corpus, constatamos, com efeito, dois tipos básicos, semanticamente distintos, de oração PARA+Infinitivo. No entanto, como veremos abaixo, embora mantenhamos, por economia, os mesmos rótulos, as definições aqui apresentadas não coincidem totalmente com as formuladas por aqueles autores.

Por outro lado, desde já é preciso sublinhar que a distinção entre orações de PARA+Infinitivo de PROPOSITO vs de SOLUÇÃO não corresponde necessariamente à oposição entre

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antepostas vs. pospostas ao núcleo. Assim, de um total de 278 orações analisadas, apenas 21 (5%) se apresentavam em posição anteposta, não icônica. (Isto talvez decorra da natureza da amostra utilizada: em periódicos e literatura de ficção os resultados se apresentam mais equilibrados). Assim, as orações hipotáticas de PROPÓSITO e de SOLUÇÃO, aqui analisadas, ocorrem tanto em posposição quanto em anteposição à oração núcleo;.

· PROPÓSITO (intencionalidade, finalidade)

Na relação de propósito, a oração hipotática de PARA + Inf apresenta um fim-propósito para o qual a ação da oração núcleo foi assumida . A oração núcleo apresenta um meio, uma atividade, a oração satélite apresenta a situação a ser realizada. A combinação das orações núcleo e satélite apresenta na oração satélite o motivo pelo qual o meio-processo (meio-instrumento, etc) descrito na oração núcleo possibilita/ou/ará a realização de uma situação-fim (cf (1), (2) e (3)):

(1) E: E criança? Você acha que criança deve trabalhar?

I: Eu acho. Eu acho que quando não tem família, assim... Mesmo que tenha família. Tem gente que quer trabalhar [meio-instrumento] pra comprar [fim-propósito] os seus negócios mesmo. Pra não depender [fim-propósito] da família. Eu ando pensando nisso. Qualquer dia eu começo trabalhar.

(Inf 20: primário, jovem, feminino) Meio-instrumento: quer trabalhar

Fim-propósito: pra [poder] comprar, pra [poder] não depender

(2) A gente [chefe de equipe] acompanha sempre o operador e a manobra [meio-processos] pra ver [fim-propósito] se ele tá fazendo direito [o serviço de manutenção da Light]. (Inf 15: primário, adulto, masculino)

Meio-processo: acompanha (o serviço) Fim-propósito: pra [assim poder] ver

(3) Ele retorna [meio-processo] só pra visitar [fim-propósito] os parentes, mostrar a camisa, a calça, o rádio de pilha, não é... como se fossem conquistas da aventura dele lá na cidade grande, onde estaria o sucesso. (Inf 72: universitário, adulto, masculino)

Meio-processo: Ele retorna

Fim-propósito: pra [assim poder] visitar, pra [assim poder] mostrar · SOLUÇÃO (necessidade, eventualidade, (im)possibilidade de)

Na relação de solução, a oração satélite expressa um fim-problema que se quer resolver. A combinação das orações núcleo e satélite apresenta a situação expressa na oração núcleo como um meio-solução que deve ser cumprido/a para que o fim-problema expresso na oração satélite seja resolvido (cf. (4) e (5):

(4) O governo também devia ajudar. Porque também, né? O governo é que dá o lugar, lá onde é que vão fazer a creche. Acho que deve dar ajuda [solução] pra pessoas poderem

construir [problema]. (Inf 20: primário, jovem, feminino)

Meio-solução: (o governo) deve dar ajuda

Fim-problema: pra [= se quiser que] as pessoas poderem [possam] construir

(5) Não, não sei não, tenho muita dúvida. Eu não sei se as coisas (sobrenaturais) existem ou não existem, porque pra você dizer [fim-problema] que existe tem que saber se existe [meio-solução], pra dizer que não existe fim-[problema], tem também que saber que não existe [meio-solução]. Então uma pessoa fala uma coisa, eu não sei se existe ou se não

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(Inf 77: universitário, jovem, masculino) Fim-problema: pra [= se você quiser ] você dizer que existe

Meio-solução: tem que saber se existe

Fim-problema: pra [= se quiser ] dizer que não existe Meio-solução: tem que saber que não existe

2. O modelo Teórico-metodológico: a Teoria da Variação

Neste trabalho, seguimos o modelo variacionista (Labov 1972). Entretanto, para fins de análise dos usos variáveis em questão, expandimos o alcance teórico-metodológico original. Assim, o conceito de variantes sociolinguísticas foi alargado de modo a incluir não apenas os usos variáveis de formas distintas de “dizer a mesma coisa”, mas ainda os usos semanticamente distintos de uma mesma estrutura formal. Portanto, em que pesem as diferenças semântico-pragmáticas entre as orações de PROPÓSITO e SOLUÇÃO , propomos que sejam operacionalizadas como “variantes” de uma mesma variável dependente, qual seja, a variável construção de PARA + Infinitivo, caracterizada semanticamente como a conexão meio-fim. Justifica-se a aplicação pouco ortodoxa da análise probabilística ao uso de variantes semânticas, pela associação sistemática entre o significado das “variantes” semanticamente distintas e o dos contextos variáveis em que aquelas ocorrem. A mesma associação foi comprovada em estudos tradicionais de variantes formais que envolvem secundariamente mudança de significado ( cf. Gryner, 1996). A partir da análise procuramos identificar os traços semânticos que opõem as duas variantes. Embora tenha sido registrada a presença de alguns casos ambíguos de PARA + INF, ela é apenas residual (não ultrapassam os 5% da amostra), o que insignificate para nossas conclusões. Assim, partindo de um total de 278 orações não ambíguas , 67% correspondem inequivocamente à variante SOLUÇÂO e 33% à variante PROPÓSITO. Voltaremos adiante à caracterização destes dois tipos de relação meio-fim envolvidos nas orações introduzidas por PARA + Infinitivo.

3. Procedimentos Metodológicos

Os dados pesquisados foram extraídos de entrevistas sobre tópicos polêmicos, propiciadores de intervenções argumentativas. Foram obtidos junto a uma sub-amostra constituída por 10 informantes cariocas (Amostra GRYNER 1990 (PEUL/UFRJ)), regularmente distribuídos por três grupos etários (jovens, adultos, idosos), dois gêneros (homens e mulheres) e dois graus escolaridade (primário e universitário).

Como vimos acima o uso das variantes PROPÓSITO E SOLUÇÃO foi correlacionado a contextos hipoteticamente relevantes, operacionalizados como variáveis independentes ou grupos de fatores. Seguindo a proposta teórico-metodológica de Labov, a análise estatística da relevância destes grupos de fatores para o uso das variantes utilizou o pacote de programas GOLDVARB (2001).

4. Hipóteses Gerais

A hipótese geral desta pesquisa afirma que, para convencer o interlocutor dos pontos de vista defendidos pelo locutor, a língua se organiza em níveis distintos mas interrelacionados. Em primeiro lugar, testamos a hipótese de que há correspondência entre três níveis de organização textual : a) o nível em que um esquema básico constituído pelas categorias organiza o texto argumentativo; b) o nível em que se estabelece a relação entre os constituintes das seqüências argumentativas concretas e c) o nível em que se dão as relações sintático-semântico e pragmático-discursivas entre a oração hipotática (como as introduzidas por PARA seguida de infinitivo) e a oração núcleo. Assim, a convergência dos contextos de diferentes níveis de abstração (sintático, semântico-pragmático e discursivo) em direção ao

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mesmo objetivo retórico comprovaria a integração funcional dos diversos componentes do sistema.

Em segundo lugar, testamos a hipótese de que os elementos de diferentes níveis do discurso co-variam sistematicamente . Embora a covariação constitua um pressuposto variacionista, no caso presente a confirmação da hipótese acima adquire um valor especial, na medida em que permitiria englobar sistematicamente os componentes variáveis do texto argumentativo.

Por fim, a terceira hipótese: testamos se grupos sociais específicos apresentam preferências sistemáticas por determinados usos semânticos e discursivos. A confirmação desta hipótese propiciaria questionamentos instigantes sobre as relações entre língua e sociedade.

5. Hipóteses Específicas

As hipóteses específicas são aquelas a serem operacionalizadas como variáveis independentes ou grupo de fatores. Isto é, são hipóteses de que certos contextos linguisticos - a nível sintático e a nível discursivo - e sociolinguisticos apresentam correlação estatistica relevante para a presença quer de orações de PROPÓSITO quer de SOLUÇÂO.

Foram analisados os efeito de três variáveis independentes (grupos de fatores): a) Modalidade epistêmica;

b) Funções na seqüência argumentativa; e c) Nível de escolaridade

VARIÁVEIS INDEPENDENTES: · Modalidade epistêmica

MODALIDADE é uma traço reconhecidamente ligado à argumentação. Por outro lado, sabe-se que a distinção entre as três categorias da escala epistêmica está associada à flexão de tempo e modo. Portanto, no caso das orações reduzidas, em que não há flexão modo-temporal, a atribuição de um grau na escala epistêmica vai depender do tempo-modo verbal da oração núcleo. Este é um elo que vincula mais cerradamente as orações hipotáticas de PARA + INF à oração núcleo, no interior do complexo oracional . De acordo com a modalidade epistêmica da oração núcleo as oraçõles de PARA +Infinitivo podem ser:

a) fatuais (que pressupõe a afirmação: encontramos verbos no imperfeito e perfeito do indicativo) (cf exemplo (06);

b) hipotéticos (em que não há pressuposição: encontramos verbos no futuro do indicativo, no presente pelo futuro do indicativo, no presente e futuro do subjuntivo); (cf exemplo (07) e c) contrafatuais ( que pressupõe a negação: verbos no futuro do pretérito, no imperfeito pelo futuro do pretérito, no imperfeito do subjuntivo) (cf. exemplo (08)).

a) Fatual

(06) Todos sabemos que o plano do governo é redondamente enganado com relação a essa postura nuclear. Foi uma xavecada, na minha opinião, pra manter [propósito] a Alemanha funcionando. (Inf 52: universitário, adulto, masculino)

b) Hipotética

(07) – E o que você vai fazer? Você gostaria de continuar a estudar? – Vou fazer vestibular.

– Pra quê?

– Pra ser [propósito] marinheira. – Marinheira?

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(Inf 20; primário, jovem, feminino) c) Contrafatual

(08) A única vantagem que ele (o trabalhador) teria (se houvesse um ônibus fretado pelo prédio) era de saber que o ônibus ia partir a tantas horas, mas ele depois ainda teria que se virar[solução], né... pra ir procurar outra condução. (Inf 15: primário, adulto, masculino)

TABELA 1

Correlação entre modalidade epistêmica e

Uso das variantes de PARA + Infinitivo: Propósito vs Solução PROPÓSITO SOLUÇÃO Total

FATUAL 25 50% .67 25 50% .43 50 HIPOTÉTICO 56 32% .47 115 68% .53 171 CONTRAFATUA L 13 22% .39 44 77% .61 57

Os resultados da tabela 1 reafirmam que orações de PROPÓSITO, a forma privilegiada nas definições das gramáticas correntes, é na verdade a menos freqüente (33%) principalmente em contextos não fatuais.Trata-se, provavelmente, de uma peculiaridade do discurso argumentativo.

Quanto aos efeitos da modalidade epistêmica, propriamente, observa-se na tabela uma complementariedade: orações de PROPOSITO são favorecidas em contextos fatuais ou realis (.67), enquanto as de SOLUÇÃO tendem a ocorrer nos contextos contrafatuais ou irreais . Este resultado corresponde à incerteza ou imponderabilidade das orações de SOLUÇÃO. Vale ressaltar também o índice elevado de contextos hipotéticos (171/278), decorrente do caráter prospectivo das orações de PARA+INF (sejam de PROPOSITO sejam de SOLUÇÃO).

· Funções na seqüência argumentativa

No nível das relações retóricas (organização textual), as seqüências argumentativas tal como foi confirmado (Gryner 2000), são constituídas por um número reduzido de categorias com diferentes funções e que se repetem sistematicamente: posição ou ponto de vista, justificação, contraste, exemplificação e conclusão. Os enunciados de PARA+Infinitivo podem ocorrer em qualquer uma delas.

O Quadro 1, abaixo, apresenta dois exemplos de categorias constituintes das Seqüências Argumentativas. Em 1A constam as categorias constituintes de uma seqüência argumentativa em que ocorre uma oração hipotática de PARA + INF;

Em 1B (as três últimas linhas da tabela) acrescenta-se o resumo de uma seqüência imediatamente anterior à primeira, para fins de exemplificação do constituinte CODA ou AVALIAÇÂO

QUADRO 1

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POSIÇÃO (ponto de vista) (Asserção básica sustentada pelo locutor)

Ah, mulher trabalha se quiser, né?

JUSTIFICAÇÃO / EXPLICAÇÃO

(Explicitação das causas e razões da posição defendida pelo locutor)

[Porque] Tendo um marido que não queira que trabalhe, ela... EVIDÊNCIA

(Fatos que sustentam a posição do locutor) EVIDÊNCIA EMPÍRICA (EXEMPLIFICAÇÃO) (Ilustração da posição através de fatos concretos). Por exemplo] Meu genro não quer que minha filhA trabalha.

CONTRASTE-1

(Apresentação de aspectos alternativos da posição-1) Agora, ela precisava trabalhar pra ganhar mais, pra dar

mais conforto pro meus neto. CONTRASTE -2

(Apresentação de aspectos alternativos da posição-2) Mas ele não quer.

CONCLUSÃO

(Fecho da argumentação, confirmação da posição defendida pelo locutor com base nas provas apresentadas) Aí, não é obrigada a trabalhar.

POSIÇÃO (ponto de vista) Homem tem que trabalhar...

CONCLUSÃO ...homem tem que trabalhar...

AVALIAÇÃO (CODA)

(“Moral” da história, asserção que expressa a atitude do locutor ) Bem feito!Quem mandou nascer homem?...

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A Figura 1 apresenta um fluxograma, demonstrando a presença variável das (sete) categorias constituintes da seqüência argumentativa, as mesmas que ocorreram nos Quadros 1A e 1B. As linhas em ambas as direções apontam as inúmeras possibilidades combinatórias entre as poucas categorias. A elas acrescente-se ainda a possibilidade de recorrência de cada uma delas, e de combinações de mais de uma categoria no interior da mesma oração.

A única categoria obrigatória – embora possa vir implícita no co-texto ou no contexto situacional – é a Posição , o ponto de vista a ser defendido. A Conclusão é a repetição (mais ou menos completa ) do conteúdo da Posição: pode, eventualmente, ser apagada. A categoria menos freqüente, a Coda, é uma forma particular de fechar a seqüência. O cerne da sustentação de um argumento está na Justificação (a categoria mais freqüente), na Especificação, no Contraste e no Exemplificação.

FIGURA 1

Fluxograma da dinâmica argumentativa

POSIÇÃOO

CONCLUSÃO CODA

JUSTIFICAÇÃO (Evidências)

CCONTRASTE (Evidência formal) Evid Evidência empírica)

EXEMPLIFICAÇÃO ESPECIFICAÇÃO-1

ESPECIFICACAO-2

POSIÇÃO

(09) – Olha, toda religião ela é comandada por Deus. Que se você vai na macumba ta o cara, pa, pa, pa, você fala em Deus, ele abaixa a cabeça. (Vo)cê vai na Bíblia

– Na macumba eles não mexem com o diabo? ...

– Ih! que, aquilo é conversa-fiada, é conversa-fiada pra enganar otário [propósito] Vai atrás-de... (Inf 07: primário, idoso. masculino) CONCLUSÃO

(10) Olha toda religião ela é comandada por Deus. ... ... A gente tem que olhar é pr'aquele lá de cima e (tem que) pedir a ele que dê força e coragem pra viver [solução]

(Inf 07: primário, idoso. masculino) JUSTIFICAÇÃO

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(11) Então você vai procurar emprego, não tem. Eu não sei. Eu não sei qual seria a medida [para resolver]. Porque é um problema tremendo né? Porque tem que dar espaço pra esse pessoal todo trabalhar [solução] (Inf 75; universitário, idosa, feminino) EXEMPLIFICAÇÃO

(12) Se pedir pra não contar [um segredo] [propósito], eu não conto. ..[Por exemplo] ... Minha mãe pede pra mim não contar [propósito] eu não conto, ... às vezes a minha patroa pede também para mim não contar [propósito], eu não conto.

(Inf 15: primário, adulto, masculino) CONTRASTE

(13) – Ah, mulher trabalha se quiser, né? Tendu um marido que não queira que trabalhe, ela... Meu genro num quer que minha filha trabalha. Agora, ela precisava trabalhar, pra ganhar [solução] mais, pra dar [solução] mais conforto pro meus neto. Mas ele não quer. Aí, não é obrigada a trabalhar. Inf 08: primário, idosa. feminino) ESPECIFICAÇÃO

(14) Quer ver um cara que eu acho profundamente bem informado... dentro dessa política palaciana e tal, é o Castelo Branco. É. Logo depois da queda do Golbery... eu li, e tenho lido atentamente, exatamente pra ver [propósito] quais são as dicas que esse cara vai me dar, que esse cara tem ... . A única coisa que ele soube dizer é ... ninguém sabe.

(Inf 72: universitário, adulto, masculino )

Nos exemplos (09)-(14), acima, encontramos em todas as categorias argumentativas complexos oracionais, com a presença tanto de PROPÓSITO quanto de SOLUÇÂO,. Para testar a nossa hipótese era necessário medir se e até que ponto a realização de funções retóricas específicas são relevantes para o uso das duas variantes; Os resultados estatísticos constam da tabela (2):

TABELA 2

Correlação entre funções argumentativas e

Uso das variantes de PARA + Infinitivo: Propósito vs Solução

PROPÓSITO SOLUÇÃO Total

POSIÇÃO 08 57% .75 06 42% .25 14% CONCLUSÃO 15 36% .56 26 63% .44 41% JUSTIFICAÇÃO 22 35% .51 40 64% .49 62% EXEMPLO 13 33% .51 26 66% .49 39% CONTRASTE 13 33% .51 26 66% .49 39% ESPECIFIC 19 30% .39 43 69% .61 62% TOTAL 94 33% 184 66% 278

Os índices estatísticos da tabela 2 revelam uma complementariedade entre os dois usos de PARA + INF. Orações de PROPÓSITO são favorecidas pela POSIÇÂO (.75) o contexto mais autônomo e menos argumentativo, na medida em que funciona apenas como propiciador da argumentação. Inversamente, este é o contexto que mais desfavorece a SOLUÇÂO. Observe-se , por outro lado, que o contexto ESPECIFICAÇÃO, é o que mais desfavorece as orações de PROPOSITO (.39) ou, por outro âmgulo, o que mais favorece orações de SOLUÇÃO (.61). Os demais contextos (justificação, exemplo,

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contraste) são indiferentes quanto ao uso de PROPÓSITO OU SOLUÇÃO. Por outro lado, é importante marcar, em praticamente todos as seqüências que envolvem PARA + Inf. ocorre pelo menos uma daquelas categorias – principalemente a Justificação.

· Nível de escolaridade

TABELA 3

Correlação entre nível de escolaridade e

Uso das variantes de PARA + Infinitivo: Propósito vs Solução

PROPÓSITO SOLUÇÃO Total

FUNDAMENTAL 49 46% .62 57 53% .38 106 SUPERIOR 45 26% .43 127 73% .57 172 TOTAL 94 33% 184 66% 278

A Tabela (3), acima, evidencia uma distribuição peculiar das variantes de PARA + Infinitivo conforme os diferentes níveis de escolaridade. Enquanto os falantes de nível superior argumentam preferentemente com orações de SOLUÇÃO (.57 vs 43), os informantes menos expostos à escola, tendem caracteristicamente utilizar orações de PROPOSITO (.62 vs .38) para os mesmos fins.

Comentários Finais

Os resultados estatísticos dos contextos de nível sintático e discursivo comprovam as hipoteses iniciais do trabalho. Existe uma correspondência indiscutível entre os níveis sintático (inter-oracional) e retórico ou discursivo ( entre o complexo oracional PARA+INF e as categorias argumentativas). Ficou evidente que as orações de PROPOSITO tendem a ocorrer em contextos reais e na apresentação de posição ou ponto de vista, relacionados à maior objetividade e generalidade na argumentação; enquanto as orações de SOLUÇÃO tendem a ocorrer em contextos irreais e em argumentos especificadores, relacionados à maior subjetividade e restrição na argumentação. São estes os contextos preferidos, respectivamente, pelos que têm menor e maior escolaridade.

Referências

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