SUPLEMENTO ESPECIAL
PARA PAIS E PROFESSORES
O
E a mãe do menino
Menino
luciene regina paulino tognetta coleção: falando de sentimentos
Americana / SP - 2014
SUPLEMENTO ESPECIAL
PARA PAIS E PROFESSORES
O
E a mãe do menino
Menino
luciene regina paulino tognetta coleção: falando de sentimentos
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Luciene Regina Paulino Tognetta
Projeto Editorial
Magali Berggren Comelato
Projeto Gráfico Paula Leite Ilustrações Paulo R. Masserani Revisão Lara Milani
Este suplemento é parte integrante do livro O menino e a mãe do menino, Não pode ser vendido separadamente.
Uma palavra aos pais e professores
Muitos de nós costumamos dizer: “No meu tempo, sim, é que havia pessoas de valor: bastava o olhar do meu pai para nos chamar a atenção e tudo se resolvia”. Ou ainda: “No meu tempo, se respeitava a professora”. Esses e outros discursos saudosistas fazem parte de nosso cotidiano, tanto na escola como na família. Inúmeras vezes nos pegamos dizendo que nos-sos jovens e crianças de hoje não têm mais valores. Essa é uma discussão que mereceria muito mais atenção. Por ora, não seria possível fazer esta afirmação: nossas crianças e jovens têm outros valores que não aqueles que nós, há tempos, tínhamos; mas há valores1, isso não se pode negar.A questão que nos parece bastante interessante para iniciar a reflexão que O menino e a mãe do menino pode nos provocar é: qual é nosso papel enquanto autoridade tanto na escola como em casa?
Comecemos, então, exercitando nossa memória: quem se recorda de quando ganhava dos pais um brinquedo novo? E quem se recorda de quando tomava refrigerante? Uma última pergunta: quem se lembra de ter feito, no quintal, enterro de seus animais de estimação? Ah, bons tempos aqueles2...
No que essas perguntas podem contribuir para a compreensão do nosso papel como autoridade e, antes ainda, apontar se estamos certos ao dizer que tempos remotos eram melhores para que tivéssemos outros valores?
Em primeiro lugar é preciso pensar que nossos pais, ainda que não en-tendessem os pressupostos que apresentaremos aqui, agiam segundo a ne-cessidade, de forma a fazer com que tivéssemos valores morais que nossas crianças e adolescentes não têm hoje.
Vamos explicar: quando éramos crianças, por necessidade ou por falta de recursos (não havia supermercados em cada esquina, abarrotados de centenas de refrigerantes, nem mesmo lojas e shopping centers com tantas variedades e facilidades de comprar brinquedos; além disso, os animais que tínhamos eram doados pelo primo da amiga da filha da vizinha, e não comprados em pet shops...), nossos pais achavam maneiras adequadas de nos educar: muitas vezes, tínhamos de escolher ganhar um “brinquedo caro”, como dizíamos, no Natal ou no aniversário. Tínhamos de esperar
1 Num livro publicado pela Editora Artmed, intitulado Crise de valores ou valores em crise?, organizado por Yves de La Taille e Maria Suzana de Stéfano Menin, nós e outros autores discutimos essa questão apresentando dados de pesquisas que podem nos ajudar a respondê-la.
2 No livro A construção da solidariedade e a manifestação de sentimentos na escola, da Editora Mercado de Letras, o leitor pode encontrar mais discussões sobre essa questão.
pelo domingo para tomar refrigerante. Precisávamos passar pelo luto de perder um animalzinho querido e não ter outro imediatamente concedido pelos progenitores. O fato é que precisamos olhar sob a perspectiva da “forma” que nossos pais utilizavam para lidar com os problemas cotidianos, e não pelos “conteúdos” em jogo. Não significa que não podemos mais dar presentes aos nossos filhos3 nem lhes dar refrigerante (salvo que há
aí uma questão de saúde), e sim que devemos fazer isso “do jeito” que nossos pais agiam: eles nos davam escolhas, eles nos faziam passar pelas consequências das próprias ações ou dos acontecimentos. Por esse motivo, e não pelo fato de que eram autoritários, é que, convenhamos, podemos dizer que tínhamos valores morais que as crianças de hoje podem não ter.
Esta é a primeira lição que O menino e a mãe do menino pode nos ensi-nar: a mãe do menino permite que ele “escolha”, por exemplo, entre beber a água de coco sem cuspir ou não beber. Não é uma escolha aleatória, é coercitiva, pois impele a criança a tomar uma decisão não sobre o que quer fazer (que seria, na concepção da criança, continuar a cuspir), mas sobre o que é possível que se faça. O que está em jogo quando damos à criança ou ao adolescente a possibilidade de escolha?
Nossos pais, sem saber, permitiam que nos responsabilizássemos pelas consequências naturais dos atos: essa é uma maneira que podemos utilizar para formar nossos filhos e alunos – ora, se a escolha deles é continuar a cuspir a água de coco; se a escolha deles é, quando estão com o som alto em casa, continuar com o barulho, mesmo quando lhes damos a opção de ou-vir mais baixo ou desligar o aparelho de som, é preciso que eles sofram as consequências de sua decisão. Mas há algo bastante importante a conside-rar nesse instante de nossa ação: não gritamos, não esbravejamos, não nos colocamos alucinados por toda a confusão instaurada nesse turbilhão de choros que as crianças ou os adolescentes farão. Isso porque simplesmente somos os “adultos da relação” (Vinha, 2000) ou aqueles que já consegui-ram algo que para as crianças e os adolescentes ainda falta: o controle sobre suas próprias emoções e a transformação destas em palavras, em formas mais evoluídas de resolução de conflitos que os tapas e gritos. Pelo menos é isso que se espera de nós...
Nesse impetuoso momento é preciso reconhecer que há algo por trás da ação da criança: há uma energia, aquela da qual tratamos no livro anterior
3 Presentear é uma forma de se lembrar do outro. É inócuo se a relação entre pai e filho ou entre professor e aluno for de confiança. Será um problema se houver de alguma das partes a ausência de amor, de respeito ou se “faltar” a presença psicológica constante daquele que ouve, que acolhe os medos, as tristezas, e que, mesmo reconhecendo os sentimentos das crianças, diz os “nãos” necessários.
a este – O reizinho e ele mesmo4 –, que nos leva a querer ser importantes, a querer satisfazer os próprios desejos antes que consigamos equilibrar
os desejos de um e de outro. Por isso, dizemos com sinceridade ao outro: “Imagino quanto você estava gostando desse som alto”; “Puxa vida, que pena que você ficou sem sua água de coco”; “Estou vendo quanto você está com raiva para ter batido em seu amigo...” como formas de reconhecer os sentimentos que geraram determinada ação. Na verdade, comumente fazemos o contrário: fazemos sermões sobre os direitos de cada um, sobre suas opiniões e sentimentos, mas, na prática, sempre que as crianças expressam esses sentimentos, nós os sufocamos e não permitimos que elas os tornem conscientes e que sejam considerados pelos outros. Nossa mensagem oculta é sempre: “Você está errado em sentir o que sente; em vez disso, ouça-me” (Faber & Mazlish, 2003), e isso deve ser revisto por nós.
A mãe do reizinho sabe que, para que ele possa tomar consciência de seus erros e repará-los, o que é uma necessidade da qual não abrimos mão, é preciso que haja caminho aberto para isso. Quando a criança se vê res-peitada naquilo que sente, ela não precisa se defender. Quando não precisa se defender, há então uma possibilidade de tomar consciência do problema e decidir por uma solução boa para si e para os outros com quem convive (Ginot, 1989; Faber & Mazlish, 1985; Gordon, 1985). Foi assim com o menino e sua mãe, ainda que a mudança em sua ação, ou seja, a escolha por reparar um erro, não tenha acontecido na primeira vez em que o me-nino teve de decidir. Aliás, essa é uma conquista progressiva; e somen-te numa relação de confiança, quando outras de nossas ações enquanto autoridade forem tomadas, é que poderemos notar que nossos filhos e alunos progridem.
Recordamos que tínhamos, em nossa época, de viver o luto pela perda de um bicho estimado. Da mesma forma, quando “perdem” a água de coco por não saberem tomá-la sem cuspir, nossos filhos e alunos poderão se dar conta de uma consequência desagradável. Sim, pois, como nos lembra sa-biamente Ginot (1989), “não somos responsáveis pela felicidade de nossos filhos, e sim pelo seu caráter”.
Dissemos anteriormente que somente um ambiente em que haja rela-ção de confiança com a autoridade favorece que crianças e adolescentes construam por si um autorrespeito capaz de proporcionar o tão esperado respeito pelos outros.
Como vimos no início dessas reflexões, muitos de nós ainda
acredita-4 Retomar o suplemento para pais e professores de O reizinho e ele mesmo, primeiro livro da coleção Falando de Sentimentos, pela Editora Adonis.
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mos que foi devido ao fato de nossos pais e professores agirem com au-toritarismo que, sob os efeitos da submissão, pudemos construir valores mais preciosos para a convivência com o outro. Temos de discordar dessa afirmação, até porque diferentes estudos comprovaram que a punição, o castigo, os gritos, os beliscões, o chamar a atenção de alguém na frente dos outros não são maneiras eficazes de conseguir o progresso do autorrespeito e do respeito ao outro (Milgram, 1974; Piaget, 1952; Kamii, 1991; La Tail-le, 2000; 2006; Vinha, 2000). Pelo contrário, são formas de fazer com que nossos meninos e meninas cresçam sendo pessoas que, para se sentirem felizes, precisam “mandar nos outros” ou “ser mandados por eles” o tempo todo (Wasserman, 1998).
Quem não conhece alguém incapaz de dizer obrigado numa situação qualquer, já que o ato de agradecer faria do outro melhor que a si? Por outro lado, quem não conhece pessoas que não conseguem tomar decisões ou que se conformam em não progredir na vida, que começam diferentes cursos e não terminam nenhum? Esses todos são vítimas de pais e profes-sores autoritários que não reconheceram os sentimentos de seus filhos, que não permitiram que eles tomassem uma decisão quando eram pequenos. Há um texto bastante interessante escrito por Piaget sobre os malefícios que a obediência cega pode trazer. Ele se refere ao “pseudomasoquismo”, que poderíamos traduzir como a conduta que muita gente tem de “parecer bom na frente dos outros”, só para conseguir o que quer, e o que nos parece pior: Piaget fala de uma espécie de “masoquismo”, um sofrimento que a pessoa impõe a si se conformando com uma situação de ser menosprezado, diminuído (Piaget, 1952).
Outro dia tivemos com um pai uma conversa interessante. Ele não sabia mais como conduzir a solução do problema de seu filho de 16 anos querer voltar para casa depois das 5h da manhã e nos dizia: “Não quero ser como meu pai, autoritário a ponto de me bater aos 18 anos se eu chegasse cinco minutos depois do horário, mas não sei se devo deixar meu filho chegar às 5h da manhã”.
Ora, trata-se de um conflito de tempos modernos, em que muitos de nós acabamos acreditando que a figura de autoridade de que nossos alunos ou filhos precisam é uma referência de “amigo” ou do que normalmente nossos adolescentes dizem em suas gírias: “chapas”. Não somos chapas de nossos filhos ou alunos. Somos sujeitos que esses pequenos humanos precisam admirar. O que colocamos como possibilidade é a escolha entre ir e voltar no horário combinado com os pais ou não ir. É a opção que damos aos menores, pois nós sabemos, ou deveríamos saber, quais são os prin-cípios em jogo: nesse caso, o princípio de garantir a saúde e o bem-estar
de um adolescente. Somado ao esforço de “suportar” os ataques que vi-rão desse filho ou aluno, é preciso que reconheçamos os sentimentos dele, quanto é difícil não poder voltar na hora que se quer, quanto é duro saber que outros pais aprovariam isso...
A mãe do reizinho, em nossa história, sabia que só depois de uma crian-ça ou adolescente se sentir bem é que pode pensar direito nos acontecimen-tos e agir de forma correta (Samalin, 2000). Essa é uma das grandes lições que, como autoridades, precisamos lembrar!
Há uma discussão da qual não podemos fugir antes de finalizarmos es-tas reflexões: muitos de nós ainda acreditamos que “bater” nas crianças é uma maneira eficaz de conseguir regular seus comportamentos. “Sim, funciona”, diriam os que assim agem. Da mesma forma que os castigos e punições têm resultados satisfatórios a curto prazo, bater pode ensinar a criança a regular seus comportamentos em função de uma autoridade ou “na frente dela”. Mas o que queremos de nossos pequenos? Que ajam bem em função de um princípio que é o respeito às pessoas ou apenas para agradar a alguém que os está vigiando?
Vejamos o que há implícito nessa discussão. Em primeiro lugar, pode-mos pensar o seguinte: quem bate usa de um critério de justiça bastante primitivo (como é comum entre os pequenos de 3 anos de idade, que não conseguem pensar em outra possibilidade de resolver seus problemas e en-tão usam do único recurso de que dispõem, a força física) chamado por Pia-get de “justiça retributiva” (PiaPia-get, 1932/1994; Menin, 1996; Vinha, 2001).
Houve um fato, há pouco tempo, que nos chamou a atenção5: uma
pro-fessora em Ceilândia, no Distrito Federal, segurou um garotinho, daqueles terríveis, que batem em todo mundo, para que os outros, que haviam apa-nhado dele, batessem de volta. Qual é o critério de justiça utilizado por essa professora? Exatamente aquele das crianças pequenas. As consequências de um ato como esse são inevitáveis: quem bate aprende da pior maneira possível que o que ele sente e o moveu a bater (sua falta de autocontrole, os problemas que tem em suas relações com os outros e o levam a sentir raiva, tristeza e a não saber transformá-las em palavras) não é importante e, por-tanto, se o que sente não importa, ele tampouco é alguém de valor. Moral da história: quem se sente com pouco valor há de provar para os outros que é pior do que ele: por isso, vai continuar a bater. Outra consequência: ele entende que violência se combate com violência, e essa deve ser a forma mais evoluída de conduzir a resolução de um problema, já que sua profes-sora, a quem ele deve admirar, valoriza tal ação. No entanto, há algo ainda mais grave: ela ensina aos espectadores da situação, da pior maneira
vel, que ser generoso não é importante. O que seria ser generoso numa situ-ação como essa? Seria permitir que alguém batesse e não fazer nada? Não, claro que não. Generosidade é algo que nos falta, tanto na escola como em casa, visto que infelizmente as virtudes cultivadas em nosso meio são na maioria das vezes a coragem, a força física, a virilidade (La Taille, 2000).
É generoso aquele que reconhece os sentimentos do outro. É generoso aquele que olha para o outro e pede que este utilize palavras para expressar o que está sentindo. É generoso aquele que, na avaliação do dia (no final do dia, em casa ou na escola), senta-se com todos os envolvidos numa relação para pensar o que não foi bom e se antecipar: analisar o que se pode fazer no outro dia para que seja melhor. Isso porque, como diria Comte-Sponvil-le (1999), a generosidade:
somada à coragem, pode ser heroísmo. Somada à justiça, fa-z-se equidade. Somada à compaixão, torna-se benevolência. Somada à misericórdia, vira indulgência. Mas seu mais belo nome é seu segredo, que todos conhecem: somada à doçura, ela se chama bondade (p. 113).
Enfim, enquanto essa “mania de bater”6 perdurar entre nós, em pleno
sé-culo XXI, não nos resta dúvida: ensinamos nossos filhos a, quando tiverem um problema, resolvê-lo como aqueles que têm poder, ou seja, batendo. Ensinamos nossos filhos que aquilo que eles têm de mais precioso, o que sentem, o que pensam e, portanto, o que são não é importante. Como quere-mos, então, que respeitem e deem importância aos outros? Lembremos que nosso reizinho ensinou a mais bela das lições: é exatamente quando menos mostram respeito que nossos filhos ou alunos precisam ser respeitados.
A segunda constatação que queremos fazer para então encerrar estas discussões é a seguinte: dissemos que nosso papel de autoridade está salva-guardado. Em outras palavras: é preciso, sim, sermos autoridade para nos-sos alunos e filhos. Mas, entendamos, a obediência que queremos desses fi-lhotes humanos não é à autoridade, e sim aos princípios. O que nos adianta alguém que mata porque uma autoridade ordenou? O que queremos dizer é que a tão sonhada autonomia descrita nos planos escolares dos professores e que os pais tanto procuram nas escolas em que matriculam seus filhos é, na verdade, uma capacidade de pessoas que agem em função de um prin-cípio, e não porque alguém mandou. E, infelizmente, convenhamos, é o
6 Há um livro, infelizmente esgotado, intitulado Mania de bater e organizado por Maria Amélia de Azevedo, que traz inúmeras pesquisas sobre essa maneira de educar e discute quão contraproducente é essa tendência para a constituição de pessoas equilibradas.
que mais nossas escolas fazem: achar que as crianças precisam obedecer... Longe de serem democráticas, seus discursos são pela autonomia, mas sua prática está anos-luz longe de conseguir que crianças e adolescentes pos-sam construir por si mesmos os princípios pelos quais a convivência deve ser regulada. Ora, quando nossas crianças podem pensar sobre as regras de convivência em nossas escolas? Quando podem planejar suas ações sem serem meras executoras do que pensam seus professores (Tognetta & Vi-nha, 2007)? De fato, ainda estamos longe de conseguir que a escola e mes-mo nossas famílias contribuam para a formação de pessoas autônomas7.
Esta é a questão: adianta-nos termos pessoas reguladas pelos outros? Vejamos como é interessante quando o exemplo da falta de um princípio é manifestado entre os pequenos, como o que presenciamos outro dia numa festa de aniversário: uma garotinha de mais ou menos 3 anos de idade cutu-cava o bolo sobre a mesa, fazendo rombos enormes... E, claro, se deliciava chupando o dedinho. Outra garota, um pouco maior, a advertiu dizendo que não podia fazer aquilo. A pequena menina do dedinho sujo de bolo pareceu seguir as ordens da maior, mas, ao vê-la longe de si, voltou a fazer os bura-cos no bolo, como qualquer criança. A graça dessa história vem a seguir: a menina maior, transtornada, voltou-se à menor e, como a julgar necessária uma explicação para sua interdição, justificou à pequenininha: “Não pode cutucar o bolo. Sabe por quê? Porque a mãe do aniversariante vai te dar um pito”. Ora, por que não se pode cutucar um bolo? Só porque haverá uma autoridade e um castigo?
Lindo o exemplo, quando se trata de crianças. Contudo, nada belo ao notarmos que muitos de nós somos regulados por uma regra exterior. Não é difícil encontrar pessoas que dizem “Todo mundo faz assim, então eu também vou agir dessa forma”, por não serem movidas por um princípio interiorizado que regre sua conduta. Há adultos que acreditam que devem agir bem somente em função de uma autoridade: há alguns anos, assistimos a uma catástrofe na cidade de São Paulo em que o teto de uma igreja caiu sobre os fiéis que ali estavam. Qual não foi nossa surpresa ao ouvirmos um repórter, indignado, dizer que o problema e a responsabilidade eram da prefeitura por não ter fiscalizado o local. Ora, mais uma vez, por que é preciso cuidar do teto de um estabelecimento em que centenas, milhares de pessoas amontoam-se cotidianamente? Pelo bem dessas pessoas, pela vida delas, e esse é o princípio, não para “estar bem com a prefeitura” (nas palavras do repórter).
7 O livro República de crianças, de Helena Singer, é um material extremamente interessante para sabermos mais sobre como a escola pode se tornar democrática. Esse livro foi reeditado pela Editora Mercado de Letras.
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Quando batemos, castigamos, humilhamos as crianças, fazemos com que elas permaneçam acreditando que o problema está na obediência a uma autoridade, já que não damos a elas as condições de pensar na solução dos problemas, de se sentir capazes de poder decidir por uma ou outra possibi-lidade, de se sentir respeitadas naquilo que sentem.
Não é por acaso que o livro em questão faz parte de uma coleção intitu-lada Falando de Sentimentos. Quando permitimos que as crianças tomem uma decisão, estamos dando a elas a oportunidade de se sentirem impor-tantes e valorizadas por tornarem-se responsáveis por aquilo que decidem (Moreno & Sastre, 2002). Do ponto de vista afetivo, esta é a grande tarefa do mundo adulto: humanizar a criança significa dar a ela a oportunidade de resolver seus problemas de forma humana, equilibrada. E qual é a for-ma for-mais hufor-mana possível? Aquela que resgata sua capacidade de pensar – comparar, nesse caso, as possibilidades de ação – bem como sua capacida-de capacida-de se sentir “valor” aos próprios olhos e aos olhos do outro. Lembremos que, se de um lado há algo que varia – a forma de o ser humano se adaptar ao mundo, ou seja, o jeito como ele resolve seus problemas quando bebê e como adulto (um com ações de morder, bater, e outro com palavras) −, de outro lado há algo que se conserva, desde o momento de seu nascimento até o último suspiro em sua condição de homem: a busca de um valor posi-tivo de si8. Essa afirmação já fora confirmada por inúmeros autores que se
dedicaram a estudar o homem, como Adler, em 19359.
As atividades do livro O menino e a mãe do menino apontam para esta busca: pais e filhos podem falar sobre sentimentos, respeitando o limite da intimidade de cada um.
Enfim, o que queremos dizer é que, de fato, como pais e professores, temos a responsabilidade de educar moralmente nossas crianças. Somos, sim, responsáveis por inserir a criança no mundo da moral (Turiel, 1996; Vinha, 2000). Mas só o conseguiremos fazer quando levarmos em conta esses aspectos afetivos, escondidos nas ações das pessoas. Fazemos nossas as palavras de Herbert de Souza, o Betinho, as quais desejamos que sejam retomadas sempre que olharmos para as ações de nossos pequenos: “Se não vejo na criança uma criança, é porque alguém a violentou antes; e o que vejo é o que sobrou de tudo o que lhe foi tirado10”.
8 Para saber mais sobre essas duas capacidades humanas para a formação da personalidade ética, ler o capítulo II do livro A formação da personalidade ética: estratégias de trabalho com a afetividade
na escola, da Editora Mercado de Letras. 9 El sentido de la vida, de A. Adler.
10 “A criança é coisa séria”, de Herbert de Souza. Perdemos a referência desse texto.
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