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Ideologia e cultura moderna - caps 1 e 2

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Dados lntemacionais de na (CIP) (Camara Brasileira do Uvro, Sp, Brasil)

Thompson, John B.

Ideologia e cultura modema : teoria social eritka na era dos

meios de comunica,ao de massa I John B. Thompson. 9. ed.-Petr6polis, RJ : Vozes, 2011.

Tradu<;i\o do Grupo de Estudos sobre Ideologia, comunica,ao e

sociais da p6s-graduay3.o do Instituto de Psicologia da

PUCRS.

TItulo Original: Ideology and modem culture: critical social

theory in the era of mass cornunication.

ISBN 978-85-326-1484-1

1. Comunica,ao de massa 2. Cultura 3. Idealogia 4. Jdeologia -Aspectos socials 1. Titulo. II. TItulo: Teana social critica na era dos meios de comunic8<;3o de massa.

CDD-306A

indices para cahilogo sistematico:

1. Ideologia e cultura : Sociologia 306.4

IDEOLOGIA

E CULTURA MODERNA

Teoria social crftica na era dos

meios de comunicayao de massa

JOHN B. THOMPSON

"'J/, . ;.- {

iii

EDITORA

Y VOlES

PetropoliS

Tradw;:ao do Grupo de Estudos sobre Ideologia, Comunicagao e Representagoes Sociais da

P6s-graduayao do Instituto de Psicologia da PUCRS: Carmen Grisci, Jefferson Bernardes, Marcos de O. Muller, Rosana Nora, P. Valerio Maya, sob a responsabilidade do Prof. Pedrinho A. Guareschi

(3)

© John B. Thompson, 1990

Publicado primeiramente por Polity Press em associa<;il.o com Blackwell Publishers, 1990

Titulo do original ingles: Ideology and modern culture: Critical social theory in the era of mass communication

Direitos de publicac;il.o em lingua portuguesa no Brasil: 2000, Editora Vozes Ltda.

Rua Prei Luis, 100 25689-900 Petropolis, RJ Internet: http://www.vozes.com.br

Brasil

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra podera ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletronico ou mecanico, incluindo fotoc6pia e grava<;il.o) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissao escrita da editora.

e organizarao literaria: Jaime A. Clasen

Capa: Bruno Margiotta

ISBN 978-85-326-1484-1 (edi<;iio brasileira) ISBN 0 7456 00816 (edi<;ao inglesa)

ISBN 0745600824 (pbk)

Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda.

Pre/acio, 7 IntrodufaO,9 .r.. .. .. .

Sumario

1 0 CONCErTO DE IDEOLOGIA Ideologia e os ide6logos, 44

As concep<;oes de ideologia de Marx, 49

Da ideologia para a sociologia do conhecimento, 62 Repensando a ideologia: uma concep<;ao critica, 71 Resposta a algumas possiveis obje<;Oes, 90

2 IDEOLOGIAS NAS SOOEDADES MODERNAS

Uma amilise critiea de alguns enfoques te6ricos

Ideologia e era modema, 105 Ideologia e reprodu<;iio social, 116 A crftica da industria cultural, 130 A transforma<;iio da esfera publica, 144

3 0 CONCEITO DE CULTURA

Cultura e dviliza<;ao, 167

Concep<;Oes antropol6gicas de cultura, 170

Repensando a cultura: uma concep<;ao estrutural, 181 A contextualiza<;ao social das formas simb6licas, 193 A valoriza<;ao das formas simb6licas, 203

(4)

4 TRANSMISSAO CULTURAL E COMUNICA<;:AO DE MASSA

o

desenvoluimenta das indus trias da midia Aspectos da transmissao cultural, 221

A escrita, a imprensa eo surgimento do comercio nas noticias, 228

o

desenvolvimento da difusao, 241

Tendencias recentes nas indus trias da midia, 253

o

impacto social das novas tecnologias da

5 PARA UMA TEORIA SOCIAL DA COMUNICA<;:AO DE MASSA

Algumas caracteristicas dos meios de 287 Comunica.,ao de massa e intera<;ao social, 295

Reconstituindo as fronteiras entre vida publica e vida privada,311

Meios de de massa entre 0 mercado e

o estado, 322

o

princfpio do servi<;o publico de difusao, 330 Repensando a ideologia na era da comunica<;ao de massa, 341

6 A METODOLOGIA DA INTERPRETA<;:AO Algumas herrneneuticas da

s6cio-hist6rica, 357

o

referencial metodo!6gico da hermeneutica de profundidade, 361

A da ideologia, 377

Analisando a comturica.:;ao de massa: 0 enfoque triplice ,391

A apropria.:;ao quotidiana dos produtos da comunica.:;ao de massa, 402

Interpreta.:;iio, autorreflexao e critica, 410

Condusao: Teoria critica e sociedades modemas, 423

,

or.. ...

-PrefoCio

E

ste livro e um desenvolvimento das ideias que foram ini-cialmente esbo.:;adas num volume anterior chamado Studies in

the Theory of Ideology. Esse volume anterior se interessava princi-palmente por uma avalia.,ao critica de um grande numero de im-portantes it teoria social contemporanea. No curso dessa avaiia<;;ao, apresentei algumas ideias construtivas sobre a natureza e 0 pape! da ideologia, sua rela<;;ao com a linguagem, com 0 poder e corn 0 contexte social e as maneiras como a

ideolo-gia pode ser analisada e interpretada em casos especfficos. Meu objetivo, neste livro,

e

retcmar essas ideias, desenvolve-Ias e in-corpora-las dentro de um referendal te6rico sistematico. Esta

e

uma tentativa que certamente con tara comcontribui<;;6es de mui-tos outros, isto

e,

recebera a colabora<;;ao de outros te6ricos e pes-soas engajados na pesquisa empfrica e hist6rica. Tento, contudo, ir alem do material sobre 0 qual me fundamentei, e ao qual eu sou devedor, numa tentativa de delinear os referendais de analise existentes e trazer algum estimulo para uma reflexao e pesquisa posterior.

Embora, de muitos modos, este livro possa ser uma conti-do projeto anunciaconti-do ern Studies, existe urn aspecto pelo qual ele difere significativamente do volume anterior: neste livro, procuro dar mais aten<;ao as formas e aos processos sociais dentro dos quais, e pelos quais, as formas simb6licas permeiam 0

mun-do social. Dediquei, por isso, urn espa.:;o consideravel a natureza e ao desenvolvimento dos meios de social, que eu considero como a caracteristica essencial da cultura moderna e uma dimensao central das sociedades modemas. Minha analise da natureza dos meios de comturica<;ao social e do desenvolvi-mento das institui<;;6es desses meios levanta mais problemas do

(5)

que posso discutir adequadamente dentro do escopo deste livro, mas sao problemas que penso discutir posteriormente, num vo-lume subsequente sobre teoria social e meios de comunica<;ao.

Ao refletir sobre as ideias discutidas neste livro, recebi gran-de auxilio dos comentarios e criticas gran-de outras pessoas. Anthony Giddens e David Held merecem men<;iio especial: foram meus companheiros num dialogo permanente que tern sido e certa-mente continuanl a ser de incalculavel valor. Peter Burke, Lizbeth Goodman, Henrietta Moore e William Outhwaite leram uma pri-meira versao do texto e forneceram-me urn excelente e encoraja-dor retorno. Sou tambem grato a Avil Symonds pela sua inteli-gente processa<;ao do texto, a Gillian Bromley por sua meticulosa

revisao e as muitas outras pessoas da Blackwell-Polity e Stanford University Press que contribufram para sua produ.:;ao e divulga-<;ao. Finalmente, gostaria de agradecer aos amigos que durante os ultimos dois anos me ajudaram a criar 0 espa.:;o para que esse li-vro fosse escrito: sua generosidade significou, para mim, muito mais que algumas poucas palavras de agradecimento possam sugerir. 8 John B. Thompson Cambridge Dezembro de 1989 <oi'.. . . .

.,s

-Introdupl0

hoje num mundo em que a circula.:;ao generali-zada de formas simb6licas desempenha urn papel fundamental e sempre crescente. Em todas as sociedades, a produ<;ao e a troea de formas simb6licas - express6es lingufsticas, gestos, a.:;5es,obras de arte, etc. - e, e sempre tern sido, uma caracterlstica onipresente da vida social. Mas, com a chegada das sodedades modernas, im-pulsionadas pelo desenvolvimento do capitalismo no inicio da era modema europeia, a natureza e a abrangencia da circula.:;ao de formas simb6lieas assumiu um aspecto novo e qualitativa-mente diferente. Foram desenvolvidos meios tecnicos que, em conjunto com institui.:;5es orientadas para a aeumula.:;ao capita-!ista, possibilitaram a produ.:;ao, reprodu.:;ao e circula<;ao das for-mas simb6licas numa escala antes inimaginavel. Jornais, panfle-tos e livros foram produzidos em quantidade sempre crescente atraves dos seculos XVII, XVIII e XIX; e, a partir do seculo XIX, os meios de e circula<;iio em expansao foram acompanha-dos pelo crescimento significativo nos niveis de na Europa e em outros lugares, de tal modo que os materiais impres-50s pudessem ser lidos por uma propor<;ao sempre crescente da popula<;ao. Esses desenvolvimentos do que normalmente se eha-mou de meios de eomunica<;ao de massa receberam urn impulso posterior com os progressos na transmissao e codifica<;ao eletr6-nica de forma. simb6lieas, avan<;os que nos trouxeram varieda-des de teleeomunicac;oes eletr6nicas, caracteristicas do final do s.kulo XX. Em muitas sociedades industria is do Ocidente de hoje pessoas adultas gastam entre 25 a 30 horas por semana olhando televisao - e isso sem contar 0 tempo que eles empregam escutan-do radio ou musica estereof6nica, lenescutan-do jornais, livros e revistas e consumindo outros produtos do que sao hoje as industrias de co-munica<;ao transnacionais de grande porte. Ainda mais: ha

(6)

cas sociedades, hoje, que nao foram atingidas pelas e mecanismos da comunica<;ao de massa, e, como consequencia, que nao estejam abertas

a

das formas simb6licas me-diadas pelos meios de comunica<;ao de massa.

Apesar da crescente importancia da de massa no mundo modemo, sua natureza e implicac;oes receberam relati-vamente pouca aten<;ao na literatura da teoria social e polftica. Ate certo ponto, esta negligencia deve-se a uma divisao disciplinar do trabalho: te6ricos sociais e polfticos se contentaram - erroneamen-te, a meu ver - em deixar 0 estudo dos meios de comunicac;ao de

massa a especialistas em pesquisa da rnidia. Ate certo ponto essa negligencia

e

tambem uma consequencia do fato de que os proble-mas que preocupam muitos teoricos hoje sao um legado do pensa-mento do seeulo XIX e infcio do seculo

xx.

Foram os escritos de Marx e Weber, de Durkheim, Siromel, Mannheim e outros que, sob muitos aspectos, estabeleceram a agenda para os debates teoricos contemporaneos.

E

claro, 0 legado desses e de outros pensadores

nao

e

necessariamente urn empecilho. Como analistas das transfor-ma.;Oes sociais e das insurrei<;Oes politicas que acompanharam 0 de-senvolvimento do capitalismo industrial, esses pensadores chama-ram a para urna gama de fenomenos sociais e elaboraram urna serie de conceitos e teorias que permanecem importantes, sob muitos aspectos, para as situa<;Oes do final do secuIo XX. Mas onde ha intui<;6es e ilumina<;iio, ha tambem cegueira, grandes simplifica-<;6es, otimismo ingenuo. Parte da tarefa que confronta os te6ricos socials e politicos, hoje,

e

joeirar este legado e procurar determinar que aspectos podem e devem ser retidos, e como esses aspectos po-dem ser trabalhados, de modo a levar em conta 0 carater de mudan-c;a das sociedades modernas. Ao confrontar fenomenos sociais e po-liticos, nao podemos comec;ar de uma tabula rasa: aproximame-nos desses fenomenos

a

luz dos conceitos e teorias que nos foram trans-mitidos do passado e prucuramos, denossa parte, revisar ou recole-car, criticar ou refazer estes conceitos e teorias

a

luz dos desenvolvi-mentos que estil.o acontecendo em nosso meio.

Nos capitulos seguintes, tomarei como meu ponto de partida o conceito e a teoria da ideologia. Uma que apareceu pela primeira vez no final do seculo XVIII, na Franc;a, 0 conceito de ideologia passou por muitas nos dois seculos se-guintes. Esse conceito foi torcido, reformulado e purificado; foi adotado por analistas sociais e politicoS e incorporado nos

dis-10

cursos emergentes das ciencias sociws; infiltrou-se na linguagem corrente da vida social e esse conceito e teoria da ideologia como meu ponto de partida, e porque eu acredito que existe nele algo de valioso e que vale a pena preservar, na tradi<;ao de reflexao que se interessou pela ideologia. Embora haja muita coisa enganadora e erronea nessa tradi<;ao, podemos, contudo, destilar dela urn residuo de problemas que retem sua relevilncia e urgencia nos dias de hoje. 0 conceito e a teoria de ideologia defi-nem urn campo de analise que permanece central as ciencias so-ciais contemporilneas e que constitui urn espac;o para um debate te6rico contfnuo e animado.

Minha preocupac;ao seni, entretanto, argumentar que a tra-di<;ao de reflexao sobre a ideologia padece tambem de certas limi-ta<;Oes. E mais importante ainda: os escritores que se interessaram pelos problemas da ideologia nao conseguiram tratar adequada-mente a natureza e 0 impacto dos meios de comunica<;ao no

mun-do modemo. Alguns desses escritores certamente reconheceram a importancia dos meios de comunicac;ao de massa - na verdade, eles estao entre os primeiros te6ricos sociais e politicos que cha-maram a aten<;ao para 0 papel crescente desses meios. Mas mes-mo esses escritores tenderam mais a adotar uma visao pessimista da natureza e do impacto dos meios de comunica¢o. Eles tende-ram a olhar 0 desenvolvimento dos meios de comunicaC;ao de massa como a emergencia de um novo mecanismo de controle so-cial nas sociedades modernas, um mecanismo atraves do qual as ideias dos grupos dominantes pudessem ser propagadas e difun-didas e atraves do qual a consciencia dos grupos dominados pu-desse ser manipulada e controlada. A ideologia foi entendida como uma espede de "cimento social", e os meios de comunica-<;cao de massa foram vistos como mecanisme especialmente eficaz para espalhar 0 dmento. Este enfoque geralsobre a entre

ideologia e comunica.;ao de massa e um aspecto que irei criticar detalhadamente.

E

urn enfoque que, explidta ou implicitamente, moldou muitas das recentes contribui<;oes ao permanente debate sobre ideologia e seu papel nas sociedades modernas, bern como algumas das tentativas para refletir-se teoricamente sobre a natu-reza e 0 impacto da comunica¢o de massa.

E,

contudo, no meu entender, um enfoque fundamentalmente falho.

Um dos meus objetivos centrais, neste livro,

e

elaborar urna teoria diferente da entre ideologia e meios de comunica-<;ao - ou, para colocar isso com mais precisao, repensar a teoria da ideologia

a

luz do desenvolvimento dos meios de comunica¢o.

(7)

Ao procurar atingir esse objetivo, adotarei uma estrategia argu-mentativa em tres est<igios. pela da his-t6ria do conceito de ideologia, seus contomos princi-pais e seus desvios ocasionais. Contrastando com 0 pano de fundo dessa breve hist6ria analitiea, formularei uma especial de ideologia que preserve algo do legado desse conceito, enquanto abandona pressupostos que me parecem iosustentaveis. Examina-rei, entao, algumas das te6rieas gerais que foram apresentadas nos ultimos anos com respeito it natureza e ao papel da ideologia nas sociedades modernas. Defenderei que essas

ex-sao inadequadas, sob inumeros aspectos, especialmente no que se refere ao tratamento que elas dao aos meios de

comuni-de massa e a sua importancia para a teoria da icomuni-deologia. A fim de superar essa deficiencia, devemos mudar 0 foco de

analise: esse Ii 0 segundo estagio de minha estraregia argumentati-va. Argumentarei, entao, que devemos elaborar urn referencial te6rico que nos possibilite compreender as caracterfstieas distinti-vas dos meios de e 0 curso especifico de seu desen-volvimento. A chave desse marco referencial

e

0 que eu chamarei

de da cultura moderna. Entendo corn isso 0 processo geml

atraves do qual a transmissao das formas simb6licas se tomou sempre mais mediada pelos aparatos tecnicos e iostitucionais das industrias da midia. Vivemos, hoje, em sociedades onde a

produ-e das formas simb6licas e sempre mais mediad a por uma rede complexa, transnacional, de interesses iostitucionais. A discussao desse processo implica varias Concei-tualmente, devemos exarninar a natureza das formas simb6licas e sua com os contextos sodais dentro dos quais elas sao pro-duzidas, transmitidas e recebidas, numa discussao que se situa dentro do territ6rio tradicionalmente marcado pelo conceito de cuItura. Historicamente, devemos reconstruir 0 desenvolvimento de alguns dos meios t€cnicos de transmissao e das formas institu-cionais dentro das quais esses meios tecnicos foram e, corrente-mente, ainda sao tratados. Teorieacorrente-mente, devemos refletir sobre a natureza desse processo geral de sobre seu impacto na vida social e politica do mundo modemo, sobre suas

implica-para a teoria sodal e politica ern geral e implica-para a teoria da ideolo-gia em particular.

o

estagio final de minha estrategia argumentativa se situa no myel da metodologia. Aqui, meu interesse

e

tomar presentes as implica.;6es metodol6gicas dos argumentos conceituais e

te6ri-12

cos desenvolvidos nos capitulos anteriores, e mostrar que esses

argumentos, por mais fazem uma

na pratica - tanto na pratica da pesquisa social e nas maneiras como n6s compreendemos a entre a pratica da pesquisa social, de urn lado, quanta nas praticas cotidianas dOB indivfduos que constituem esse mundo social, de outro. Ao discutir esses problemas metodol6gicos, tentarei mostrar 0 que esta implicado na analise das formas simb61icas em geral, e na analise das for-mas simb61icas mediadas pelos meios de de massa em particular. Apoiando-me no meu conceito reformulado de ideologia, tentarei mostrar como esse referendal metodol6gico pode ser empregado para a analise da ideologia. Essas reflex6es metodol6gicas nao tern como finalidade recolocar ou dispensar a pesquisa empfrica - nada poderia estar mais distante de minha inten<;ao. Ao contrario, elas sao apresentadas como urn estimulo para pesquisa social e como uma contribui<;ao para nossa com-preensao do que esta implicado no estudo de urn campo objetivo que consiste, entre outras coisas, de sujeitos que produzem, rece-bern e compreendem as formas simb6licas como uma parte roti-neira de suas vidas cotidianas.

Seguindo essa estrategia argumentativa, desenvolverei uma serie de propostas construtivas a respeito da ideologia, da cultu-ra, dos meios de da interpreta<;ao e da crftiea. Mi-nha

e

que estas propostas constituam urn enfoque coe-rente e plausfvel para urn conjunto de assuntos, tanto te6ricos como metodol6gicos, que sao centrais aos debates correntes na teoria social e politica e nas ciencias sociais em gemL No restante desta concentrar-me-ei nessas propostas construti-vas. Tentarei tomar explicitas algumas das ideias e pressupostos que definem 0 enfoque que defendo e que subjazem as minhas crfticas do trabalho de outros autores e indieam minha duvida para com eles.

o

CONCElTO E A rEORIA DE IDEOLOGIA

Quando empregamos 0 termo ideologia, quer seja na analise social e polftica, ou na conversa<;ao do dia a dia, n6s empregamos urn conceito que tern uma hist6ria longa e complicada. Parte dos motivos de este conceito ser tao ambiguo hoje, de ter tantas acep-<;6es e nuan<;as diferentes, deve-se ao fato de este conceito ter per-corrido urn caminho longo e sinuoso desde que foi introduzido nas Ifnguas europeias, hit dois seculos atras: a multiplicidade de

(8)

significados que ele tem hoje e um produto de seu itinerario his-t6rico. Mas ha outro fator que exacerba sua ambiguidade. Quan-do n6s usamos 0 termo ideologia, hoje, OU quando n6s 0 escuta-mos empregado por outros, nao estaescuta-mos totalmente seguros se ele esta sendo usado descritiva ou prescritivamente, se ele esta sendo ll:sado simp!esmente descrever urn estado de coisas (p. ex. um sIstema de Idelas pohticas) ou se ele esta sendo usado tambem, e talvez como sentido principal, para avaliar urn estado de coisas. Essa ambiguidade e evidente no uso cotidiano do termo. Pou-cas pessoas, hoje, proc!amar-se-iam orgulhosamente "ide6Iogos", embora muitos nao hesitassem em dedarar-se conservadores ou liberais ou democratas, feministas ou ecologistas. Ideo-logta, e 0 do outro, 0 pensamento de alguem diferente de nos. Caractenzar urn ponto de vista como ideol6gico e, tem-se a impressao, ja critiea-lo implicitamente, pois 0 conceito de ideolo-gia parece transrnitir urn sentido negativo, eritico.

Na literatura da teoria social e politica das duas tiJtimas de-cadas, ou mais ou menos, houve duas respostas comuns

a

ambigua do conceito de ideologia. Uma resposta foi tentar domar o cor;ceito. implicou, geralmente, uma tentativa explicita ou ImplIclta de tirar do conceito seu sentido ne2:ativo e de

incorpo-ra:lo .num conceitos empregados pelas

clenclas socials. Isso cnou 0 que hoje se pode chamar de

neutra da Ideologla. De com essa as ideologias

podem ser vistas como sistemas de pensamento", "sistemas de ou "sistemas simb6Iicos", que se referem a social ou

a yratica e feita, dentro dessa

concep-para dlstingurr entre os t;pos de a<;ao ou projetos que a ideolo-mce;ttive; a esta presente ern qualquer programa po-litico e e uma caractenstica de qualquer movimento polftico orga-Armado com e:sa 0 analista pode procurar de-Imear e descrever.os pnncIpals sistemas de pensamento ou cren.;;a que aru:nam a a<;ao social e poHtica. Essa linha de pesquisa e, pois, exemplIficada pela tendencia de pensar as ideologias em termo5 "ismos". -.conservadorismo, comunismo, reaganismo, thatche-nsmo, stalinismo, mannsmo. Esses e outros sistemas de pensa-mento ou - essas "ideologias" - podem ser eategorizados e analisados, desmembrados em seus elementos constitutivos e re-lacionados as SUitS fontes originais; e tudo isso pode ser feito, argu-mentana,o anahsta: sem fazer, sem que esteja implicado, ne-nhum JUlZO peJoratlvo corn respelto aos sistemas de pensamento ou de cren<;a.

14

L rna segunda resposta a essa heran<;a arnbigua do conceito de ideologia foi a de abandonar 0 sena, simples-mente, muito ambiguo, muitocontrovertido e contestado, demasia-damente marcado por urna hist6ria em que ele foi usado e abusado de diferentes mod os, a tal ponto que ele nao se presta mais, hoje em dia, para fins de analise social e politica. Nos tiltimos anos, esta res-posta ganhou terreno entre alguns dos mais originais e inteligentes pensadores sociais, ern parte como resultado da intelec-tual ao marxismo, corn 0 qual este conceito de ideologia esteve es-treitarnente Iigado. Mas esta resposta, parece-me,

e

superficial. Em vez de irmos mais a fundo no exame da ambigua do concei-to, e procurarrnos detectar se existe urn resid uo digno de ser conser-vado, esta postura prefere abandonar - ou, mais comumente, reCU-sa-se a iniciar- uma busca. Em vez de perguntar se a tradi¢o ou re-flexao associada ao conceito de ideologia levantou urna serie de pro-blemas que continuam a merecer nossa aten¢o, mesmo que ela te-nha tambem obscurecido esses mesmos problemas com pressupos-tos enganosos e insustentaveis, essa postura prefere abandonar a questao ou, com rnais frequencia, pressupOe urna resposta, fugindo do trabalho intelectual irnplieado na tentativa de determina-la.

A posi<;ao que desenvolvo aqui difere dessas duas respostas comuns a heran<;a ambigua do conceito de ideologia. Diferente-mente da segunda resposta, sustento que 0 conceito de ideologia permanece uma no<;ao util e irnportante no vocabulario intelec-tual da analise social e politica. Mas, diferentemente da primeira resposta, argumento que 0 conceito nao pode ser tao facilmente despojado de seu sentido negativo, critico- ou, mais precisamen-te, argumento que, na tentativa de despoja-lo de seu sentido ne-gativo, as pessoas menosprezaram urn conjunto de problemas ern rela<;ao aos quais esse conceito, ern algumas de suas versoes, procurou chamar nossa aten<;ao.

E

esse conjunto de problemas que tento discutir em minha do conceito deideolo-gia. Sendo que reo tento eliminar seu sentido negativo mas, ao contrario, toma-lo como urn indice dos problemas aos quais 0 conceito se refere, como um aspecto que deve ser retido e desen-volvido criativamente, essa reformula,ao pode ser vista como urna critica da ideologia. Ela mantem a conota<;ao negati-va que foi trazida pelo conceito atraves da maior parte de sua his-t6ria e liga a analise da ideologia

a

questao da critiea.

Na reformula<;ao do conceito de ideologia procuro reenfocar esse conceito nurna serie de problemas que se referem as

(9)

entre sentido (significado) e poder, Argumentarei que 0

conceito de ideologia pode ser usado para se referir as maneiras como 0 sentido (significado) serve, em circunstancias particulares,

para estabelecer e sustentar rela<;Oes de poder que sao sistematica-mente assimetricas-que eu chamarei de "rela<;Oes de domina¢o", Ideologia, falando de uma maneira mais amp la,

e

sentido a servifo do poder. Consequentemente, 0 estudo da ideologia exige que in-vestiguemos as maneiras como 0 sentido

e

construido e usado

pe-las formassimb6licas de varios tipos, desde as fape-las lingulsticas co-tidianas ate as imagens e aos textos complexos. Ele exige que in-vestiguemos os contextos sodais dentro dos quais essas formas simbOlicas sao empregadas e articuladas. Ele requer que pergunte-mas se - e, se este for 0 caso, como - 0 sentido

e

mobilizado pelas formas simb6licas em con textos especfficos, para estabelecer e sus-tentar rela<;6es de dOmina¢o. A distintividade do estudo da ideo-logia esta na ultima questao: ele exige que perguntemos se 0

senti-do, construfdo e usado pelas formas simb6licas, serve ou nao para manter rela<;Oes de poder sistematicamente assimetricas, Desafia-mos a estudar as formas simbolicas sob ceria luz: a luz das rela<;OeS sociais estruturadas, cujo emprego e articula<;iio podem ajudar, em circunstiindas especfficas, a aiar, alimentar, apoiar e reproduzir. Se reformulamos 0 conceito de ideologia desta maneira,

tra-zemos a analise da ideologia para urn campo de problemas con-ceituais e metodol6gicos que possuem uma finalidade e uma sig-nificancia mais gerais. A analise da ideologia pode ser vista como uma parte integrante de um interesse mais geralligado

as

carac-terfsticas da a<;ao e da intera<;ao, as formas de poder e de domina-"ao, a natureza da estrutura social,

a

reprodw;ao e

a

mudan<;a so-cial, as qualidades das formas simb6licas e a seus papeis na vida social. Este interesse mais amplo da animo aos argumentos e postas que desenvolvo no decorrer deste livro. Alguns dos pro-blemas mais amplos sao discutidos no capitulo 3, onde examino algumas das caracterfsticas das formas sirnb6licas e discuto sua rela<;ao com os contextos sociais que sao estruturados de varias maneiras, Outros assuntos ou problemas de carater metodologi-co geral sao discutidos no capitulo 6, onde examino oqueesta im-plicado estudar campo objetivo que e, ao mesmo tempo, urn cam-po subjetivo, em que as pessoas produzem, recebem e compreen-dem formas simb6licas que sao significativas tanto para eles como para 0 analista que procura interpreta-las. Pela reformu-la<;ao do conceito de ideologia, em termos de inter-rela<;"Oes en-tre sentido e poder, n6s somos convidados a procurar - e e-nos exigido que 0 fa<;"amos - esses problemas mais amplos. :-..lao posso

16

garantir que, neste livro, tenha discutido esses problemas mais amplos em todos os detalhes e eles exigem. Quando muito, indiquei urn caminho que, creio eu, pode ser coe-rente e plausivelmente seguido.

A reformula<;"1io do conceito de ideologia proposta aqui nos possibilita evitar um sem-n1imero de tendencias que prejudicam a maioria da literatura te6rica recente. Em primeiro lugar, ela nos possibilita evitar a tendfficia, acenada anteriormente, de ver a ideologia como um U cimento social" que conseguiria estabilizar as sociedades, unindo conjuntamente seus membros e propician-do-lhes valores e normas coletivamente compartilhados. Esse pressuposto e generalizadona literatura contemporanea, mas ele esta baseado em pressupostos que sao duvidosos e, provavel-mente, insustentaveis. Ha pouca evidencia que garanta que cer-tos valores e sejam compartilhados por todos (ou, mes-mo, pela maioria) os membros das sociedades industriais moder-nas. Ainda mais, ha pouco fundamento para se supor que a esta-bilidade das sociedades industriais complexas exige e esta basea-da sobre urn consenso no que se refere a valores e normas particu-lares. Sendo nossas sociedades ordena<;"Oes sociais "estaveis", essa estabilidade pode ser 0 resultado de uma diversidade de va-lores e cren<;as, uma prolifera<;ao de divis6es entre individuos e grupos, ou uma falta de consenso naquele ponto espedfico onde atitudes opostas devem ser traduzidas em politicas. Ao acentuar esse ponto, nilo quero sugerir que nao haja para a analise dos valores e normas, Quero, porem, tomar 0 conceito de ideologia separadamente da procura por val ores coletivamen-te compartilhados, redirecionando-os para 0 estudo das

manei-ras complexas como 0 sentido

e

mobilizado para a manuten<;ao

de rela<;5es de domina<;ao,

A reformula¢o proposta nos possibilita tambem evitar a tendencia, prevalente na literatura, de pensar a ideologia como uma caracteristica ou atributo de certas formas simb6licas ou sis-temas sirnb6licos como tais (conservadorismo, comunismo, etc,), Do enfoque que desenvolvo aqui, segue-se que as formas simb6-licas, ou sistemas simb6licos, nao sao ideol6gicos em si mesmos: se eles sao ideol6gicos, e 0 quanto sao ideol6gicos, depende das maneiras como eles sao usados e entendidos em contextos sociais especfficos. Ao estudar a ideologia, nilo estamos simplesmente interessados em categorizar e analisar urn sistema de pensamen-to ou cren<;a, nem em analisar uma forma ou sistema simbolico tomado em si mesmo. Ao contra rio, estamos interessados em

(10)

guns dos que podem ser chamados de usos sociais das formas

sim-b6licas. Estamos interessados em se, em que medlda e como (se

for 0 caso) as formas simbolicas servem para estabelecer e sus-ten tar rela<;oes de domina<;ao nos contextos sodais em que elas sao produzidas, transmitidas e recebidas. Este enfoque pode levar-nos a olhar uma forma simbolica ou um sistema como ideologico num contexto e como radical, subversivo, contesta-dor noutro. Pode levar-nos aver 0 discurso sobre direitos hu-manos, por exemplo, como apoiando 0 status quo num contex-to e como subversivo noutro. A analise das formas simbolicas como ideologicas nos pede que as analisemos em rela;;ao aos contextos socio-historicos espedficos nos quais elas sao empre-gadas e persistem.

Ainda mais, a reformula<;ao proposta do conceito nos possi-bilita evitar a tendt?ncia de pensar a ideologia apenas, ou mesmo primariamente, em rela<;lio a formas de peder que estao institucio-nalizadas no estado modemo. As institui<;oes do estado moder-no e as numerosas outras organiza<.;oes (partides politicos, gru-pos de pressao, etc.), quenas sociedades modemas ocupam 0 ter-ritorio comumente chamado de poiftica, sao territories extrema-mente importantes de poder e domina<;ao. Mas elas nao sao os unicos territorios, nem mesmo necessariamente os mais impor-tantes, para a maioria das pessoas na maior parte do tempo. Para a maioria das pessoas, as rela<;oes de poder e domina<;ao que as atingem mais diretamente sao as caracterizadas pelos contextos sociais dentro dos quais elas vivem suas vidas cotidianas: a casa, o local de trabalho, a sala de aula, os companheiros. Esses sao contextos em que os indivfduos gastam a maior parte de seu tem-po, agindo e interagindo, falando e escutando, buscando seus ob-jetivos e seguindo os obob-jetivos dos outros. Esses contextos es-tao organizados de maneiras complexas. Eles implicam desigual-dades e assimetrias de poder e recursos, algumas das quais po-dem estar ligadas a desigualdades e a simetrias mais amplas, que passam de um contexte a outro e que se referem as rela<;oes entre homens e mulheres, entre negros e brancos, entre aqueles que tt?m riqueza e propriedade e aqueles sem riqueza e propriedade. Ao estudar a ideologia, estamos interessados tanto nos contextes da vida cotidiana como naquele conjunto especffico de institui: que compreende a esfera da no estrito. E evidente que isso nao quer dizer que a estera da polltlca, no seu sentido mais estrito, seja irrelevante, nem significa que devemos enfocar exdusivamente os minimos detalhes da vida cotidia-na, ignorando caracterfsticas e pressoes estruturais mais amplas.

18

Significa apenas que nao devemos as maneiras como as formas simbolicas sao articuladas e as maneiras como elas se entrecruzam com relal.;Oes de poder nos contextos sociais estruturados em que muitos de nOs vivemos a maior parte do nosso tempo.

Se reformulamos 0 conceito de ideologia em termos da

intera-<;;ao entre sentido e poder, podemos tambem evitar a tendencia, co-mum tanto na literatura teorica, como tambem no usc cotidiano, de pensar a ideologia como uma pura ilusao, como uma imagem invertida e distorcida do que e "real". Essa visao tem sua inspira-<.;ao numa passagem famosa e frequentemente citada em que Marx e Engels comparam a opera;;ao da ideologia com 0 trabalho de

uma cfimara escura, que reflete 0 mundo atraves de uma imagem invertida. Mas essa visao - atraente em sua simplicidade, alarman-te em sua autoconfian<;a alarman-te6rica - pode enganar-nos. Ela nos leva a pensar a ideologia como urn conjunto de imagens ou ideias que re-fletem inadequadamente a realidade social que existe antes e inde-pendentemente dessas imagens e ideias. Na verdade, 0 mundo so-cial raramente e tao simples como esta visao pode sugerir. Como pessoas, nos estamos imersos em conjuntos de rela<;oes sociais e estamos constantemente envolvidos em comenta-las, em repsenta-las a n6s mesmos e aos outros, em verbaliza-las, em re-cria-las e em transforma-las atraves de a<;Oes, sfmbolos e palavras. As formas simb6licas atraves das quais nos nos expressamos e en-tendemos os outros nao constituem um outro mundo, eb§reo, que se coloca em oposi<;;ao ao que e real: ao contrario, elas sao parcial-mente constitutivas do que em nossas sociedades

e

"real". Con-centrando 0 estudo da ideologia no terreno das formas simb6licas contextualizadas, para as maneiras como as formas simbolicas sao usadas para estabelecer e sustentar rela<;OeS de poder, estamos es-tudando um aspecto da vida social que e tao real como qualquer outro. Pois a vida social e, ate certo ponto, um campo de contesta-<;lio em que a luta se trava tanto atraves de palavras e simbolos como pelo uso da for<;a ffsica. Ideologia, no sentido que eu propo-nho e discuto aqui, e uma parte integrante dessa luta; e uma carac-terfstica criativa e constitutiva da vida social que e sustentada e re-produzida, contestada e transformada, atraves de a<;OO e intera-<;00, as quais induem a troca continua de formas simb6licas.

Ate aqui foi discutido 0 conceito de ideologia e as vantagens e desvantagens das diversas maneiras de responder a heran<;a

(11)

ambigua desse conceito. Contudo, muitos dos autores que em-pregam esse conceito, hoje, estao interessados primeiramente em problemas substantivos de reprodu<;ao social e de so-cial. Em seus escritos 0 conceito de ideologia desempenha um pa-pel especifico, dentro de um referendal ou um argumento te6ri-cos mais amplos. Esses autores podem empregar 0 conceito de

uma maneira mais frouxa, mais ampla e imprecisa, e podem ser legitimamente criticados devldo a essa imprecisao. Mas, se que-remos compreender e avaliar 0 uso que eles fazem desse conceito, devemos reconstruir e avaliar 0 referendal te6rico mais amplo dentro do qual ele desempenha seu papel. Essa

e

a tarefa que eu enfrento no capitulo 2. Aqui, meu interesse nao e tanto pela traje-t6ria hist6rica do conceito e as propostas para sua reformula<;ao hoje, mas, ao contnhio, pela serie de referendais e argumentos te6ricos apresentados por um grande numero de autores contem-poraneos e dentro dos quais 0 conceito de ideologia desempenha um papel central. Diseutirei, por exemplo, 0 trabalho de Aron, de Bell e Gouldner, de Althusser e Poulantzas, de Horkheimer, Adorno e de Habermas. Ao trazer a diseussao para esse myel teO-rico mais geral, n6s podemos ter uma visao mals clara das manei-ras como os te6ricos sociais e polfticos contemporane05 usaram 0 coneeito de ideologia 0 que eles tentaram real<;ar atraves des-se conceito e 0 que eles tentaram explicar com ele. Podemos tam-bem fazer uma ideia do que esses te6ricos negligenciaram ou nao conseguiram levar adequadamente em considera<;ao.

o

argumento-chave que desenvolverei a esse respeito e que os te6ricos contemporaneos que empregam 0 conceito de ideola-gia nao conseguiram tratar adequadamente a natureza e 0

desen-volvimento da de massa e seu papel como media<;ao ideol6gica nas sociedades modemas. Em alguns casos, isso se deve ao fato de 0 conceito de ideologia ser parte de urna grande narrativa te6rica, referente as traosforrna<;Oes culturais associadas ao surgimento das sociedades industriais modemas. De acordo com essa grande narrativa, 0 desenvolvimento das sociedades in-dustriais modemas foi acompanhado, na esfera da cultura, pela seculariza<;ao progressiva das e praticas e pela racionaliza-<;ao progressiva da vida social.

A

medida que a religiao e a magia perdiam sua sobre os individuos atingidos pela atividade in-cansavel da industrializa<;ao capitalista, 0 terreno era preparado

para 0 surgimento de urn novo tipo de sistema de creno;;as: para 0

surgimento de sistemas de cren<;as seculares que pudessem

mobi-20

lizar as pessoas independentemente valores ou seres de outro mundo. sao esses sistemas secularitlllil5'sde"crenqas que alguns teO-ricos contemporilneosdescrevemcom6 ideologias. Do seu ponto de vista, 0 desenvolvimento do capitalismo industrial propiciou 0

sur-gimento de urna "era de ideologias", que foi inaugurada pela Revo-lu<;ao Francesa e que culminou com os movimentos revoludoruirios radicais dos inicios do seculo XX. A grande narrativa da transforma-<;ao coruere, pois, urn papel especffico ao conceito de ideologia (en-tendido como uma concep<;ao neutra no sentido explicado acima).

o

conceito de ideologia e usado para descrever os sistemas de cren-<;as que - conforme essa perspectiva te6rica afirma - preencheu 0 vacuo cultural criado com 0 declfnio da religiao e da magia e que

trouxe as pessoas novas formas de conscifficia, novos referenciais de sentido, num mundo que sofrera uma mudan.;a social riipida e sem precedentes.

A grande narrativa da transforma<;ao cultural esta profunda-mente implicada no discurso da teoria social e politica. Ela serviu como urn construto te6nco geral, muitas vezes implicito, atraves do qual muitos autores viram e analisaram 0 desenvolvimento das

sociedades modemas. Penso que essa perspectiva te6rica contem algumas intui<;oes que sao importantes para a compreensao das condi<;Oes em que as sociedades modemas emergiram a partir da Europa medieval e dos inicios da era modema. Mas essa grande narrativa e tambem enganadora, sob certos aspectos fundamentais. Urn desses aspectos

e

0 seguinte: os te6ricos dessa grande

narrati-va, argumento eu, identificaram mal a grande transforma<;ao cul-tural associada com 0 desenvolvimento das sociedadesmodemas. Preocupados com 0 suposto processo de seculariza<;1io e

racionali-za<;ao, esses te6ricos tenderam a negligenciar um processo de mui-to maior significado que estava acontecendo diante de seus olhos: istoe, a prolifera<;ao rapida de institui<;oes e meios de comunica<;ao de massa e 0 crescimento de redes de traosmissiio atraves das quais forrnas simb6licas mercantilizadas se tomaram acessfveis a um grupo cada vez maior de receptores. Esse e 0 processo que descre-vo como a "midia<;ao" da cultura modema. Esse processo consti-tui, no meu ponto de vista, uma das traosforrna<;Oes-chave associa-das com 0 surgimento associa-das sociedades modemas. A compreensao desse processo e fundamental para se entender 0 mundo de hoje, um mundo que e sempre mais atravessado por redes institucio-nalizadas de e em que as experiencias das pessoas e8M cada vez mais mediada por sistemas tecnicos de produ<;ao e transmissao simb61ica. A compreensao desse processo trara

(12)

bem urn referencial te6rico alternativo em que um conceito refor-mulado de ideologia pode desempenhar um papel especifico.

A MIDIA<;Ao DA CULTURA MODERN A

Ao procurar compreender 0 processo que descrevo como a midia<;ao da cultura modema, come.:;o com 0 conceito de cultura. A que estamos nos referindo quando falamos em "cultura", ou naquela esfera da vida social que £oi, e continua a ser, transforma-da pelo desenvolvimento transforma-da comunica.:;iio de massa? E como po-demos nos compreender 0 desenvolvimento da comunica.:;ao de massa como um desenvolvimento na esfera da cultura, como uma transforma<;iio cultural? 0 conceito de cultura tern uma his-t6ria propria, longa e complicada, uma hishis-t6ria que provavel-mente tem produzido tantas variantes e tanta ambiguidade como a hist6ria do conceito de ideologia. Penso, contudo, que 0 concei-to de cultura continua a ser uma no.:;ao importante e valiosa e que, convenientemente reformulada, define urn campo funda-mental de analise social. No capitulo 3, enfrento a tarefa de escla-recer e reformular 0 conceito de cultura. Seguindo 0 trabalho de antrop610gos como Geertz, argumento que 0 conceito de cultura pode ser adequadamente usado para se referir, de uma maneira geral, ao carater simb6lico da vida social, aos padroes de significa-do incorporasignifica-dos as formas simb6licas compartilhadas na intera-<;ao social. Mas essa enfase no carater simb6lico da vida sodal deve ser complementada por uma enfase no fato - nemsempre evidente nos escritos de Geertz - de que as formas simb6licas estao inseri-das em contextos socials estruturados que envolvem rela<;Oes de poder, formas de confiito, desigualdades em termos de

distribui-<;1\0 de recursos e assim por diante. Essa dupla enfase define 0 que eu chamo de" concep,ao estrutural" da cultura. Fenomenos cultu-rais, dentro dessa visao, podem ser vistos como formas simbOlicas em contextos estruturados; e a analise cultural pode ser vista como um estudo da constituit;8.o significativa e da contextualiza,ao so-cial das formas simb6licas.

Tomar as formas simb6licas como fenomenos contextualiza-dos eve-las como geralmente produzidas e recebidas por pessoas situadas em contextos s6cio-hist6ricos espedficos e providas de recursos e capacidades de varios tipos. As formas simb6licas

po-dem possuir de suas sociais de - do

mesmo modo como, por exemplo, urna fala pode estar marcada pelo acento, pelo dialeto e pelo tom de uma determinada classe

22

social ou de uma origem regional. A social das formas simb61icas implica formas podem tor-nar-se objetos de processos complexos'de valoriza<;ao, avaJia<;iio e conflito. Aqui, refiro-me ao que chama de processos de

isto e, processos com os quais, e atraves dos quais, e conferido as formas simb6licas determinado "valor".

Ha

dois tipos de valor que sao particularmente importantes a esse respeito. Um tipo e 0 que pode ser chamado de "valor simbOlico": 0 valor que as formas simb6licas possuem em virtude das maneiras como elas siio apre-ciadas pelas pessoas que as produzem e as recebem, em virtude das maneiras como elas sao apreciadas ou denunciadas, queridas ou desprezadas por esses individuos. Um segundo tipo de valor e o "valor economico", que pode ser entendido como 0 valor que as formas simb6licas adquirem em virtude de serem trocadas num mercado. Nem todas as formas simb6licas tern valor economico nesse sentido, mas a valora<;ao econornica das formas simb61icas e urn processo importante que se desenvolveu historicamente e as-sumiu um papel sempre mais importante nas sociedades moder-nas. Quando as formas simb6licas estao sujeitas a valoriza<;iio eco-nomica, tornam-se mercadorias ou, como geralmente digo, "bens simb6licos" que podem ser comprados, vendidos ou trocados de qualquer modo no mercado. 0 desenvolvimento de urn mercado para obras de aIte, cu1minando no estabelecimento de galerias e casas de leiliio em que essas obras podem ser trocadas por somas extraordinarias, oferece um exemplo daro do processo de valori-za<;iio economica.

Ao categorizarmos as formas simbolicas como fenomenos significativos que sao tanto produzidos como recebidos por pes-soas situadas em contextos espedficos, tambem supomos que as formas simb61icas sao geralmente transmitidas, de uma maneira ou outra, de produtor para receptor. Descreverei esse fato como a

transmissiio cultural das formas simMlicas e distinguirei Ires aspec-tos desse processo. Em primeiro lugar, a transmissiio cultural en-volve 0 usa de um meio Mcnico, ou substrato material, pelo qual

uma forma simb61ica e produzida e transmitida. 0 melD Mcnico garante certo grau de fixa<;ao do conteudo significativo, como tambem permite certo grau de reprodu<;ao das formas simb6li-cas. 0 grau de fixa<;ao e reprodu<;ao depende da natureza do meio-urna mensagem gravada em pedra tera, em geral, urn grau

mui-to maior de mas um grau bem menor de do

que uma mensagem escrita ou impressa em pape\. Um segundo aspecto de transmissao cultural se refere ao aparato institudo-nal em que 0 meio teemeo e desenvolvido. 0 desenvolvimento dos

(13)

meios teaucos

e,

muitas vezes, parte de urn contexte institucional bem mais amplo, que inclui sistemas de produ.,ao de formas simb6-licas e canais de difusao seletiva. 0 terceiro aspecto tem a ver com 0 que pode ser chamado, seguindo autores como Harold Innis e Anthony Giddens, de" distanciamento implicado na transmissao cuitural. A transmissao de uma forma simb6lica im-plica necessariamente a separa<;ao, ate certo ponto, dessa fonna do contexto original de sua produ.,ao; ela se distancia desse contexto, tanto espacial como temporalmente, e

e

inserida em novos contex-tosque estao localizados em tempos e espa<;os diferentes. Dessa ma-neira, as fonnas simb61icas adquirem 0 que eu chamarei de "acessi-bilidade ampliada", no tempo e no espa<;o. Elas se tomam acessf-veis, mais amplamente acessiacessf-veis, no tempo e no Tomam-se acessiveis a urn mimero bem mais amp 10 de possiveis receptores que podem estar situados em contextos remotos, tanto espacial como temporalmente, dos contextos originais de produ.,ao.

Essa reflexao te6rica sobre 0 conceito de cuitura e de t6picos a ela reladonados nos prove urn marco referendal com 0 qual pode-mos come.;ar a pensar sabre a ernergencia e 0 desenvolvimento da comunica<;ao de massa. Podemos conceber, de maneira ampla, a emergenda da comunica<;ao de massa em tennosdo estabelecimen-to gradual de urna serie de institui<;Oes, apoiadas em detenninados meios teaucos de transmissao cuitural, e orientadas para a

produ-em larga escala e para uma difusao generalizada das fonnas simb6licas mercantilizadas. As fonnas primitivas de comunica<;ao de massa estavam baseadas em tecnicas de impressao e no uso do papel impressa como urn meio de transmissao. Os desenvolvimen-tos cruciais, nesse aspecto, foram os comumente assodados com 0

ourives de Mainz, Johann Gutenberg, que inventou urn metodo para impressao de letras de chumbo e que adaptou a prensa tradi-donal para fins de confec<;ao de textos irnpressos.Pelo fim do secuio

xv,

maquinas de impressao ja tinham sido estabelecidas nos maio-res centmaio-res comerciais da Europa e tinha se inidado a era da comuni-ca.,ao de massa.

o

capitulo 4 descreve a emergenda eo desenvolvimento da comunica<;ao de massa desde 0 seculo XV ate hoje, enfatizando as formas institucionais mais importantes, descrevendo os meios h,;cnicos basicos e real<;ando as tendencias de desenvolvirnento mais recentes. Tentarei mostrar como, desde 0 inicio, 0 desenvol-vimento dos meios de comunica<;ao de massa esteve intimamen-te ligado

a

expansao das organiza<;5es comercials e ao desenvol-vimento do estado modemo. Embora apresente uma descri<;ao

24

hist6rica geral, dedico uma pgI:tjcular a relativamente re-cente emerg@ncia dos meios de difUS/io - isto e, os meios que en-volvem a transmissao de mensagens atraves de ondas eletromag-netic as para uma audiencia indetenninada e ampla. Hoje, os mei-os mais importantes de difusao sao mei-os que tern a ver com a trans-missao televisi va, e por isso discuto esses meios com certo detalhe. Examino tarnbem os desenvolvimentos recentes dentro das indus-trias da rnfdia como um todo, desenvolvimentos esses que estao baseados em fatores economicos, politicos e tecnol6gicos. Esses desenvolvirnent05 induem uma concentrac;ao e uma

diversifica-sempre crescentes dentro das indlistrias da midia, urna globa-lizac;iio crescente das atividades referentes aos meios e ao desdo-bramento de novas tecnologias de comunica.,ao como, por exem-plo, aquelas associadas

a

transmissao por cabo e via satelite. Esses processos levaram it formac;ao de conglomerados de comunica¢o de grande porte, que possuem grandes interesses numa variedade de indlistrias associadas

a

produc;ao e difusao da informac;ao e da co-munica<;ao. Esses conglomerados com caracteristicas de multi-mfdia e de multinacionais se difundem pelo globo, comprando e vendendo, de fonna febril, empresas especfficas ligadas

a

midia, transferindo informa.,ao e comunica;;ao de um hemisferio a outro de fonna instant1inea (ou praticamenteinstantanea), bombardean-do mensagens as salas de estar de urna infinidade de pessoas, em escala mundial.

Os desenvolvimentos e tendencias documentados no capitulo 4 sao 0 <imago institucional, por assirn dizer, da midia.,ao da

cultu-ra modema. Elas plasmacultu-rarn, de maneicultu-ra profunda e irreverslvel, as maneiras como as fonnas sirnb6licas sao produzidas, transmiti-. das e recebidas nas sociedades modemas, bem como as maneiras

como as pessoas experimentam as ac;6es e os acontecimentos que se dao em contextos dos quais estiio distanciados, tanto no

como no tempo. Esses desenvolvirnentos sao parcialmente consti-tutivos das sociedades modernas e sao parcialmente consticonsti-tutivos do que e "modemo" nestas sociedades em que hoje vivemos. Isto

e,

parte do que constitui as sociedades modernas como "moder-nas"

e

0 fato de que a troca de formas sirnb6licas MO esta mais

res-trita primariamente a contextos de face a face, mas e me-diada, de maneira sempre mais ampla e crescente, pelas institui-c;6es e mecanismos da comunicaC;ao de massa.

E

claro que esse pro-cessa de media<;ao da cultura modema e apenas urn aspecto da formac;ao das sociedades modemas,

e

urn processa que caminhou de maos dadas com 0 desenvolvimento do capitalismo industrial

(14)

(e formas alternativas de desenvolvimento industrial) e com 0 nas-cimento do estado modemo (e formas associadas de participac;ao political. Esses processos se sobrepuseram um ao outro de manei-ras complexas. Eles tomaram caminhos diferentes em contextos hist6ricos e geograficos diferentes. Mas, conjuntamente, definiram os contomos basicos das sociedades em que vivemos hoje, contor-nos que assurnem caracteristicas sempre mais globalizantes.

Quais sao as caracteristicas do novo regime de transmissao cultural criado com 0 advento da comunicac;ao de massa? Como devemos entender a natureza da comunica<;ao de massa, as manei-ras como ela afeta a intera,ao social, 0 pa pel que e!a desem penha, e deve desempenhar, na vida social e poHtica? Essas sao questoes que discuto no capitulo 5, onde esbo,o os inicios de uma teoria so-dal de comunica<;ao de massa. Enfatizo 0 fa to de que, embora a co-munica<;ao de massa envolva a troca de formas simb6licas, os tipos de estabelecidos a partir dai sao totalmente dife-rentes dos envolvidos e implicados na conversa,ao rotineira do dia a dia. Pois a comuniea<;ao de massa implica, geralmente, 0

flu-xo em mao Unica de mensagens do produtor para 0 receptor.

Di.fe-rentemente da situa<;ao dial6gica de uma conversa<;ao, em que aquele que ouve e tambem urn possive! respondente, Ii

comunica-fao de massa institui um corte fundamental entre 0 produtor e 0 receptor,

de tal modo que os receptores tem relativamente pouca possibili-dade de intervir no processo comunicativo e de eontribuir para seu curso e contelido.

E

claro que os receptores possuem alguma possi-bilidade de intervenc;ao; eles podem, por exemplo, escrever cartas ao editor, telefonar para as companhias de televisao e expressar seus pontos de vista, ou boicotar 0 meio. Embora as instituiC;Oes

particulares e os meios tecnieos admitam determinados tipos de respostas dos receptores, a assimetria fundamental do processo eomunieativo permanece intacta.

Esta assimetria possui que chama de 0 impacto

interativo dos meios tecnicos. Uso essa expressao para referir-me as maneiras como os meios tecnicos de de massa transformaram, e sao capazes de transformar, a natureza da

inte-social nas sociedades modemas. 0 desenvolvimento dos meios tecnicos nao deve ser visto como um mero suplemento das rela<;6es sociais preexistentes; ao contr;irio, devemos ver esse de-senvolvimento como servindo para mar novas rela,6es sociais, novas maneiras de agir e interagir, novas maneiras de

expressar-26

mo-nos e de respondermos as de outros. 0 carater cria-tivo dos meios tecnicos foi assim chamados te6ri-cos dos meios, de modo muito espedal por Marshall McLuhan; mas as maneiras como McLuhan elaborou este ponto foram bas-tante idiossincriiticas e, sob alguns aspectos, implausiveis. Desen-volvo, portanto, 0 tema de uma maneira diferente. Enfocando a

co-munica,ao de massa mediada e!etronicamente, e principalmente pela televisao, distingo varias dimensOes do impacto interacional e analiso cada uma com algum detalhe. No myel mais basico, 0 de-senvolvimento dos mews tiicnicos separa Ii wcial do local fisico,

de tal modo que as pessoas podem interagir uma com a outra mes-mo que nao compartilhem uma situa,ao espa<;otemporal comum. Essa implica,ao e caracteristica de todos os meios tecnicos que en-volvam algum grau de distanciamento espa<;otemporal (urna con-versa telef6mca, por exemplo). Mas, no caso da comunica<;ao de massa, a intera,ao estabelecida desse modo assume urna forma particular. Sendo que a comunicac;ao de massa institui urn corte fundamental entre a produ<;ao e a recepc;ao de formas simb6licas, ela torna possivel um tipo espedfico de interac;ao, atraves do tem-po e do espa<;o, que tem-podemos chamar de uma

mediada".

E

intera<;ao, porque ela envolve individuos se comuni-eando com outros, que respondem a eles de eerto modo e que po-dem eriar - as vezes intensos de amizade, afei<;ao e lealda-de. Mas e uma "quase-intera<;ao", porque 0 fluxo de comunicaC;ao

e predominantemente em mao Unica e os modos de respostas pos-siveis aos receptores sao estritamente limitados.

Separando a intera<;ao social do espa<;o fisico, 0 desenvolvi-mento dos meios possibilita as pessoas agir com vistas a

. Olllras que estiio distantes. Os meios tecnicos possibilitam as pes-soas comunicar-secom outras queestao longe espacial e temporal-mente, e as pessoas adaptam seu comportamento comunicativo para corresponder as oportunidades oferecidas pelo desenvol-vimento dog novos meios. A existencia de um meio de televisao deu origem a uma nova categoria de a<;;ao, que e desenvolvida com a finalidade de ser televisavel, isto e, que tenha a possibili-dade de ser transmitida via televisao para uma audiencia poten-cial nurnerosa, distante espapoten-cialmente. Pelo fato de ser televisio-nada, a a<;ao (e as pessoas que a praticam) adquirem um novo tipo de visibilidade que simplesmente nao era possivel antes da chegada da comunieaC;ii.o de massa em geral e da televisao em particular. Este aspeeto da comunicac;ao de massa jii foi

(15)

cido ha muito tempo por pessoas envolvidas na procura e noexer-cicio do poder dentro das do estado: na era da comunica-de massa, a politica Ii inseportivel da arte de administrar a visibilidade. Mas

e

importante acentuar que a crescente visibilidade pennitida pela de massa e uma fonte tanto de enormes oportu-nidades politicas como de riscos pollticos sem precedentes. Atra-ves do meio televisivo, as personagens politicas podem comuni-car-se com uma vasta e amplamente dispersa audiencia, podem apresentar-se e apresentar seus pontos de vista de uma manei-ra cuidadosamente controlada. Mas esse meio tambem da chance para a possibilidade de as figuras polfticas aparecerem incompe-tentes, mal informadas, sem controle, de maneiras tais, e em tal es--cala, como jamais se poderia pensar. Na esfera politica mediada eletronicamente, urn comentiirio inoportuno ou um descontrole emocional pode causar a queda de urn !ider que tenha determina-das aspirac;5es. Nao precisamos olbar muito longe para encontrar exemplos do tipo especifico de fragilidade politica criada pela visi-bilidade mediada pelos meios massivos, urna fragilidade que e in-trinseca as sociedades onde 0 processo de midiac;ao tenha penetra-do e, ate certo ponto, reconstitufpenetra-do a esfera polltica.

Se 0 desenvolvimento dOB meios transformou as

maneiras como as pessoas produzem e transmitem mensagens, ele tambem transformou as condic;6es de vida das pessoas que re-cebem essas mensa gens como parte rotineira de suas vidas coti-dianas. IS80 e verdade diante da evidencia de como 0 desenvolvi-mento de urn meio tecnico, como a televisao, pode transformar, e ate certo ponto significa tivo transformou, a organizac;i!o espacial e temporal da vida cotidiana da maioria das pessoas nas socieda-des modernas. 0 aparelho de televisao, muitas vezes, ocupa urn lugar central dentro da casa e toma-se 0 ponto ao redor do qual

outros espac;os e atividades sao organizados. 0 horario de deter-minados programas pode deterrninar a maneira como as pessoas organizam 0 fluxo temporal de suas atividades para urna noite,

urn dia ou uma semana. Mas 0 desenvolvimento dos meios tecni-cos pode transformar as condic;6es de vida dos receptores de urn modo mais complexo e menos evidente. Pois ele possibilita as pessoas experimentar acontecimentos que tem lugar em locais distantes espacial e temporalmente, e esta experiencia pode, por sua vez, criar ou estimular formas de ac;ao ou resposta da parte dos receptores, incluindo formas de coletiva ou organizada. A de acontecimentos mediada pela comunica<;ao au-menta enororemente 0 quadro de experiencias possfveis a que as

pessoas estao, em principio, expostas. Possibilita as pessoas de

28

urna parte do mundo testemunhar aCQ,ntecimentos que tern lugar em outras partes e responder, indM1f'ual ou coletivamente, a esses acontecimentos. Quando as pessoas' em Londres ou Nova York, Moscou ou Praga, ligam seus televisores e veem as tropas chine-sas agredindo e ferindo os estudantes na Pra<;a Tiananmen, ou os guardas da fronteira da Alemanha Oriental desmantelando 0 Muro de Berlim, elas estao testemunhando acontecimentos de importancia hist6rica muito grande, mesmo que esses aconteci-mentos estejam sucedendo-se em distantes regioes do mundo. E os pr6prios acontecimentos estao sujeitos, por is so mesmo, a urn novo tipo de exame global como nunca se testemunhara antes. As pessoas tern possibilidade de participar de um conjunto de ex-periencias culturais que nao esta mais restrito it partilha de urn local comum, enquanto as atividades dos estados e outras orga-niza<;6es estiverem abertas a exame de uma maneira cada vez mais global.

Apesar de 0 conjunto de experiencia mediada, criado pelo desenvolvimento da comunicao;ao de massa, nao estar mais sujei-to it necessidade de urn local comum, a natureza, porem, do im-pacto potencial dessa nova esfera de experiencia

e

moldada pe\as negocia<;oes institucionais e formas de poder que caracterizam os contextos em que as mensagensdos meios sao produzidas, trans-mitidas e recebidas. Os argumentos Jiberais tradicionais a favor da "liberdade de imprensa" se baseavam no pressuposto de que as formas de poder com mais possibilidade de serem restritivas e de impedir a capacidade dos meios emergentes de expressar a di-versidade de opinioes e pontos de vista seriam as formas de po-der institucionalizadas no estado modemo. Para os primeiros pensadores Hberais, como Jeremy Bentham, James :\fill e John Stuart Mill, 0 estabelecimento de uma imprensa independente,

que estivesse livre da censura e do controle do estado, era vital para 0 desenvolvimento de uma politica democratica, onde a

di-versidade de opini6es pudesse ser expressa e onde as atividades daquele que govema pudessem ser examinadas, criticadas e, se necessario, resmngidas. Haveria muita coisa para se dizer a favor dos argumentos apresentados pelos primeiros pensadores libe-rais, argumentos que retem sua importancia e urgencia hOje, num mundo onde as tentativas feitas pelos representantes do estado para restringir 0 fluxo de e a circulac;ao de ideias

ab-solutamente nao desapareceu, tanto no Ocidentecomo no Orien-te. Mas a teorla liberal tradicional da liberdade de imprensa

e,

conforme tentarei mostrar, de valor limitado hoje, quando se pensa sobre a natureza e 0 papel das institui<;6es dos meios de

(16)

nas sociedades modernas. Ao colocar tanta enfase nos perigos do poder do estado, os primeiros te6ricos liberais rno deram suficiente aten<;ao a amea"a que estava surgindo de urna fonte diferente: 0 erescimento ineontrolado das industrias dos meios de comuniea"ao como interesses comerciais. Mais: a teoria liberal tradicional se desenvolveu, primeiramente, com respeito ao jornal e as industrias de publica"ao, e nao pode ser, faei! e diretamente, transposta aqueles setores das industrias da midia que come<;aram a ter tanta impormncia no seculo XX, se-tores que sao baseados em meios tecnicos diferentes e que se de-senvolveram dentro de referenciais institucionais fundamental-mente diversos.

Numa tentativa de ir alem da teona tradicionalliberal da li-vre imprensa e de pensar sobre os marcos referenciais institucio-nais mais apropriados para 0 desenvolvimento dos meios de co-munica<;ao no final do seculo XX, defendo 0 que pode ser cha-mado de a principia do pluralismo regulado. Por "pluralismo regu-lado", entendo urn marco referendal institucionalamplo que tan-to poderia acomodarcomoassegurar a existencia de uma plurali-dade de institui<;Oes de mldia independentes nas diferentes esfe-ras da comunica<;ao de massa. Este principio requer duas medi-das concretas: a desconcentra<;ao dos recursos nas industrias da mfdia e a separa<;ao das institui.;:oes da mfdia do exercicio do po-der estatal. Tal principio define urn espa<;o institucional amplo-urn espa.;:o entre a atua.;:ao desenfreada das fon;as do mercado, de urn !ado, e 0 controle direto das institui<;oes da rnidia pelo estado,

de outro- dentro do qual as organiza"oes da mldia podem operar e desenvolver-se. Esse e urn espa.;:o que pode abarcar uma varie-dade de formas organizacionais especificas, estejam elas localiza-das dentro da esfera publica, da esfera privada ou da esfera que pode ser descrita como organiza<;oes intermediarias. Mas e tam-bern urn espa"o que pode ser visto como existindo numa escala transnacional. As institui<;Oes da midia ja deixaram faz tempo de operar dentro dos limites de urn Unico estado-na<;ao. 0 carater transnacional das formas de transmissao, associado a tecnologia de satelites, representa apenas 0 estagio mais recente, ou talvez 0 mais dramatico, de urn processo de globaliza¢o que 0 desenvol-vimento da comunica<;ao de massa nao 56 promoveu, como tam-bern refletiu. Se quisermos tirar 0 melhor proveito possivel das novas oportunidades propiciadas pelo desenvolvimento das no-vas tecnologias na esfera da de massa, e se quiser-mos evitar os perigos que 0 desenvolvimento da de massa trouxe com isso, entao a implementa<;ao do principio do

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pluralismo regulado exigira urn niv'l,l de vontade politica e de internacional que se na maioria das vezes, ausente da cena politica contemporanea.

o

desenvolvimento da teoria social dos meios de comunica-¢o prove urn pano de fundo contra 0 qual n6s podemos reconsi-derar os problemas ligados

a

analise da ideologia nas socieda-des modernas. Se pensarmos ideologia em termos das maneiras como 0 sentido mobilizado pelas formas simb6licas serve para estabelecer e sustentar rela<;;oes de domina<;;ao, entao podemos ver que 0 desenvolvimento da comunica<;ao de massa traz conse-quencias enormes para a natureza e 0 alcance dos fen6menos

ideo-l6gicos. Com 0 desenvolvimento da comunica<;ao de massa, a cir-cula<;ao das formas simb6licas

e

sempre mais separada da neces-sidade de urn local fisico comum e por isso a mobiliza<;ao do sen-tido tern cada vez mais capacidade de transcender 0 contexto

so-cial dentro do qual as formas simb6licas sao produzidas.

E

ape-nas com 0 desenvolvimento da comunica<;ao de massa que os

fe-nomenos ideol6gicos podem tornar-se fen6menos de

massa,

isto 12, fen6menos capazes de afetar grande nUmero de pessoas em 10-cais diversos e distantes. Se a comunica<;ao de massa se tomou 0 meio mais importante para a operac;ao da ideologia nas socieda-des modernas, isso se deve ao fato de ela se ter transformado num meio importante para a prodw;ao e transmissao de formas sim-b6licas, e porque as formas simb6licas assim produzidas sao ca-pazes de circular nurna escala sem precedentes, alcan<;ando mi-Ihoes de pessoas que compartilham pouco em comum alem da capacidade de receber mensagens mediadas pelos meios. Mas, embora a importancia na comunica<;ao de massa nao deva ser su-bestimada, devemos acrescentar dois esclarecimentos. A comu-nicac;ao de massa se tornou urn fator principal de transmissao da ideologia nas modemas, mas ela rno e, de modo al-gum, 0 unieo meio. E importante aeentuar que a ideologia - en-tendida de forma ampla como sentido a servi<;o do poder - opera nurna variedade de contextos da vida cotidiana, desde as conver-sa<;5es cotidianas entre amigos ate as dec!ara<;Oes ministeriais no espa<;o nobre da televisiio. Aqueles que esmo interessados na teo-ria e na analise da ideologia enganar-se-iam se focalizassem ex-clusivamente a comunica<;ao de massa, como tambem estariam equivocados se a ignorassem. 0 segundo esclarecimento e 0 se-guinte: enquanto 0 desenvolvimento da comunica"ao de massa

criou urn novo conjunto de parametros para a opera<;ao da ideo-logia nas sociedades modernas, a questao de se mensagens espe-cificas mediadas pelos meios sao ideol6gicas e urn problema que

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nao pode ser respondido abstratamente, mas que deve ser inves-tigado dentro do marco referendal de uma metodologia interpre-tativa sistematica. Apenas deste modo podemos evitar a tenden-cia - muito comum na literatura - de supor que certas mensa gens da sao ideol6gicas em si mesmas e eficazes no mun-do social. de uma metodologia sistematica nos pos-sibilitara desenvolver urn enfoque referente ao carater ideol6gi-co das mensagens da midia que seja ao mesmo tempo mais rigo-roso e mais restrito.

A METODOLOGIA

DA

INTERPRETA(:.AO

A maior parte deste Iivro esta interessada em problemas de natureza te6rica geral-0 conceito do papel de ideologia, 0 concei-to de cultura e as caracterfsticas da transmissao cultural, 0 desen-volvimento da comunica<;ao de massa e suas implica<;6es para a vida social e polftica. Mas uma parte essencial de minha discus-sao

e

que esses problemas te6ricos gerais podem, e devem, ser

Ji-gados a problemas de carater mais concreto, metodol6gico. No capitulo 6, discuto algumas das conex6es entre teoria e metodolo-gia, entre reflexao te6rica e pesquisa met6dica detalhada. Meu objetivo nao

e

tanto prescrever ou proscrever metodos especifi-cos de pesquisa, mas sobretudo delinear um referendal metodo-l6gico amplo dentro do qual metod os especfficos possam ser co-locados e relacionados um com 0 outro, e dentro do qual seu va-lor (bem como seus limites) possa ser avaliado.

Ao desenvolver este marco referendal, apoio-me numa tra-di<;;.lo especifica de pensamento, uma tradi<;ao que e comumente conhecida como hermeneutica. Por que hermeneutical 0 que essa antiga tradi<;ao de pensamento, proveniente da Greda Cla5-sica, tem a oferecer a um estudioso da cultura moderna? Pode-mos responder a esta questao em dois nfveis. Num nfvel geral, esta tradi<;;.lo chama a nossa para 0 que eu poderia des-crever como as condiroes da pesquisa socio-hist6rica.

Essas condi<;5es se originam da constitui.;ao do campo-objeto de pesquisa socio-hist6rica, um campo-objeto que difere, em certos aspectos fundamentais, dos campos-objeto das ciencias naturais. Pois 0 campo-objeto da pesquisa s6cio-hist6rica nao e apenas

uma concatena.;ao de objetos e acontecimentos que estao ali para serem observados e explicados:

e

tambem um campo subjetivo (urn campo-sujeito) que e construfdo, em parte, pelos sujeitos que, no curso rotineiro de suas vidas cotidianas, estao

constante-32

mente interessados em a si pr6prios e aos outros, em produzir a,,5es e express5es' .significativas e em interpretar a¢es e express5es significativas produzidas pelos outros. Em outras palavras, 0 objeto-dominio da pesquisa s6cio-hist6rica e um campo pn£-interpretado em que os processos de compreensao e interpreta<;ao se dao como uma parte rotineira da vida cotidiana das pessoas que, em parte, constituem esse dominio. 0 carater pre-interpretado do mundo s6cio-hist6rico e uma caracteristica constitutiva que nao tern paralelo nas ciencias naturais. ),Ja con-secu<,ao dessa pesquisa s6cio-historica, procuramos compreen-der e explicar uma serie de fenomenos que sao, de algum modo, e ate certo ponto, ja compreendidos pelas pessoas que fazem parte do mundo s6do-hist6rico; estamos procurando, em poucas pala-vras, reinterpretar urn dominio pre-interpretado.

Ao mesmo tempo em que a tradi"ao da hermeneutica pode chamar nossa aten<;ao para essas e outras hermeneuti-cas da pesquisa s6cio-hist6rica, ela pode tambem nos propiciar, num nfvel mais concreto, algumas metodol6gicas para pesquisa. Desenvolvo essas orienta<;5es atraves do que cha-marei de referendal melodo16gico da hermeneutica de profundidade. A ideia da hermeneutica de profundidade e tirada do trabalho de Paul Ricoeur, entre outros. 0 valor dessa ideia

e

que ela nos possi-bilita desenvolver um referencial metodologico que esta orienta-do para a interpreta<;;ao (ou reinterpreta<;;.lo) de fenomenos signi-ficativos, mas em que os diferentes tipos de analise podem de-sempenhar papeis legitimados e que se apoiem reciprocamente. Ela nos possibilita ver que 0 processo de interpreta<;ao nao se op5e, necessariamente, aos tipos de analise que tratam das carac-terfsticas estruturais das formas simb6licas, ou as condi<;6es s6-cio-hist6ricas de a<;ao e intera<;iio, mas que, pelo contrario, esses tipos de analise podem estar conjuntamente Iigadose articulados como passos necessarios ao longo do caminho da interpreta<;ao. Possibilita-nos tambem ver que metodos particulares de analise podem iluminar alguns aspectos do fenomeno as custas de ou-tros, que sua for.,a analftica pode estar baseada em Iimites estri-tos, e que esses metodos particulares podem ser melhor analisa-dos como estagios parciais dentro de um enfoque metodologico mais abrangente.

Desenvolvo a hermeni'utica de profundidade como refe-rencial metodol6gico geral para analise dos fenomenos culturais, isto e, para a analise das formas simb6licas em contextos estrutu-rados. A hermeneutica em profundidade, nesse sentido, e um

Referências

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