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A utilização do argumento de autoridade no Tribunal do Júri

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THAMIRES CRISTINA LÔNDERO RUPP

A UTILIZAÇÃO DO ARGUMENTO DE AUTORIDADE NO TRIBUNAL DO JÚRI

Florianópolis 2017

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THAMIRES CRISTINA LÔNDERO RUPP

A UTILIZAÇÃO DO ARGUMENTO DE AUTORIDADE NO TRIBUNAL DO JÚRI

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Direito, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Direito.

Orientadora: Profª. Cristiane Goulart Cherem, MSc.

Florianópolis 2017

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RESUMO

O presente trabalho de conclusão de curso objetivou discutir as diferentes visões acerca da possibilidade ou não de utilização do argumento de autoridade em plenário do Tribunal do Júri, a partir da compreensão do art. 478, do Código de Processo Penal. Para tanto, analisou-se o histórico do instituto do Tribunal do Júri, bem como o analisou-seu atual procedimento, alterado pela Lei n. 11.689/2008, mas, sobretudo, acerca das vedações trazidas pelo referido art., sob o ponto de vista doutrinário e jurisprudencial. Utilizou-se o método de abordagem dedutivo no presente estudo, com o uso da técnica de pesquisa documental e bibliográfica. Como proposto, a pesquisa possibilitou a verificação das diferentes posições adotadas pela doutrina, bem como pelos Órgãos de Justiça. A Ciência Jurídica, por sua vez, não utiliza posição de dualidade definida. Por ser argumentativa, os entendimentos adotados derivam da capacidade de convencimento de cada parte. Logo, conclui-se que as posições adotadas doutrinária e jurisprudencialmente, caracterizam verdadeiro paradoxo acerca da possibilidade de utilização do argumento de autoridade em plenário do Tribunal do Júri.

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SUMÁRIO

1 INTRODUÇÃO... 12

2 VISÃO GERAL SOBRE O TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL ... 14

2.1 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO TRIBUNAL DO JÚRI NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO... 14

2.2 O TRIBUNAL DO JÚRI NA CONSTITUIÇÃO DE 1988 ... 19

2.2.1 Plenitude de Defesa ... 20

2.2.2 Sigilo das Votações ... 22

2.2.3 Soberania dos Veredictos... 23

2.2.4 Competência para Julgamento dos Crimes Dolosos Contra a Vida ... 25

3. RITO DO TRIBUNAL DO JÚRI: O PROCEDIMENTO NO JULGAMENTO DOS CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA ... 27

3.1 INSTRUÇÃO PRELIMINAR OU SUMÁRIO DE CULPA (IUDICIUM ACCUSATIONES) ... 28

3.1.1 Pronúncia e Impronúncia ... 33

3.1.2 Desclassificação... 37

3.1.3 Absolvição Sumária... 40

3.2 IUDICIUM CAUSAE ... 42

3.2.1 Preparação dos autos para julgamento no plenário do Tribunal do Júri ... 42

4 ANÁLISE DA UTILIZAÇÃO DO ARGUMENTO DE AUTORIDADE NO PLENÁRIO DO TRIBUNAL DO JURI, À LUZ DO ART. 478 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL ... 50

4.1. VEDAÇÃO ÀS PARTES DURANTE O DEBATE ... 50

4.2. ARGUMENTO DE AUTORIDADE ... 51

4.2.1. Pronúncia ... 55

4.2.2. Uso de algemas pelo acusado em plenário ... 60

4.2.3. Silêncio do acusado no interrogatório ou sua ausência por falta de requerimento 62 4.3. SANÇÃO DE NULIDADE ... 66

5 CONCLUSÃO ... 78

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1 INTRODUÇÃO

O argumento de autoridade pode ser definido como o argumento que relaciona a validade de uma tese com a reputação e prestígio do seu autor, corroborando a sua argumentação por meio dos ensinamentos de uma terceira pessoa, conhecida e reconhecida na sua área de atuação, a fim de persuadir o destinatário que, dentro do sistema judiciário, materializa-se através do Juiz, Desembargador, Ministro e, inclusive, dos jurados que compõem o Conselho de Sentença no Tribunal do Júri.1

Com o intuito de atualizar o procedimento à luz da ordem constitucional vigente, em 09 de junho de 2008 foi publicada a Lei n. 11.689, instituída com o objetivo de alterar dispositivos do Código de Processo Penal, entre eles o art. 478, o qual veda às partes, em sessão de julgamento no plenário do Tribunal do Júri, fazer uso do argumento de autoridade. Ou seja, ao legislador coube proibir, sob pena de nulidade, os discursos que fizessem referência à decisão de pronúncia ou posteriores que determinaram a admissibilidade da acusação, à determinação do uso de algemas pelo acusado durante a sessão plenária, bem como ao silêncio ou ausência do réu em interrogatório judicial em seu desfavor, de modo a não influenciar os jurados nas suas decisões, preservando-se, desse modo, a soberania dos veredictos.

Sob tal premissa, o presente trabalho de conclusão de curso se propõe a analisar a vedação trazida pelo art. 478, do Código de Processo Penal, à luz dos entendimentos doutrinários e àqueles firmados pela jurisprudência dos Tribunais brasileiros. Logo, questiona-se: quando uma das partes fizer menção a uma ou algumas das hipóteses vedadas pelo art. 478, do Código de Processo Penal, em julgamento no plenário do Tribunal do Júri, fará utilização do argumento de autoridade?

Para tanto, este trabalho segmentar-se-á em três capítulos, além da introdução e da conclusão.

O primeiro capítulo teórico tem por objetivo esboçar uma síntese histórica acerca do instituto do Tribunal do Júri no Brasil, com ênfase à Constituição Federal atualmente

1ARISTÓTELES. Arte retórica e arte poética. 14. ed. São Paulo: Ediouro. Tradução de: Antônio Pinto de Carvalho. p. 39-40; RODRÍGUEZ, Víctor Gabriel. Argumentação jurídica: técnicas de persuasão e lógica informal. 6. ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015. p. 112-114.

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vigente e seus princípios informadores, quais sejam, o princípio da plenitude de defesa, do sigilo das votações, da soberania dos veredictos e da competência para julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

No segundo capítulo teórico, busca-se analisar o rito do Tribunal do Júri, isto é, o procedimento adotado pela legislação infraconstitucional no julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

O terceiro capítulo de desenvolvimento, por sua vez, tem por objetivo tratar da especificidade do objeto deste trabalho de conclusão de curso, qual seja, a análise da vedação imposta às partes pelo art. 478, do Código de Processo Penal, no que se refere à utilização do argumento de autoridade em plenário no Tribunal do Júri e a sanção trazida pelo dispositivo, à luz dos entendimentos doutrinários e jurisprudenciais dos Tribunais brasileiros.

Dessa forma, para a efetiva realização deste trabalho, utilizar-se-á o método de abordagem dedutivo, que partirá de uma premissa geral, um modelo extremamente genérico, qual seja: a instituição do Tribunal do Júri e o procedimento adotado para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida, para uma premissa específica, que é a proposta de análise do art. 478 do Código de Processo Penal, e a sanção trazida pelo dispositivo.

Deste modo, adotar-se-á a técnica de pesquisa bibliográfica, empregando-se, para tanto, a análise da legislação constitucional e infraconstitucional, a descrição dos principais entendimentos doutrinários, bem como a análise da visão dos Tribunais brasileiros em relação ao tema, com o objetivo de compreender as divergências entre tais entendimentos.

O presente trabalho não tem por finalidade esgotar a discussão acerca da problemática escolhida, mas nortear e incentivar novas pesquisas sobre um instituto tão relevante e repleto de minúcias que se afigura o Tribunal do Júri.

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2 VISÃO GERAL SOBRE O TRIBUNAL DO JÚRI NO BRASIL

Inicialmente, faz-se relevante e necessário tecer, ainda que de forma breve e contextualizada no tempo, os principais marcos teóricos acerca da instituição do Tribunal do Júri no que diz respeito à sua evolução histórica no Brasil, com ênfase à disposição dada pelo legislador na Constituição Federal atualmente vigente, e os seus princípios específicos, que, em conjunto, serviram como base para que fosse recepcionado pela legislação infraconstitucional e suas posteriores modificações.

2.1 BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DO TRIBUNAL DO JÚRI NO ORDENAMENTO JURÍDICO BRASILEIRO

De início, sobreleva destacar que o surgimento do Tribunal do Júri no Brasil se deu antes mesmo de declarada a independência pelo, até então, Príncipe Regente Dom Pedro de Alcântara, em 07 de setembro de 1822.

Em 04 de fevereiro de 1822, por iniciativa do Senado da Câmara do Rio de Janeiro e pela autoridade de José Bonifácio de Andrada e Silva2, fora sugerido ao Príncipe Regente a criação de um “Juízo de Jurados”, desta forma, sendo criado, em 18 de junho de 1822, mediante Decreto Imperial, o primeiro formato de Tribunal do Júri como instituição jurídica, inicialmente denominado como “Juízes de Fato”.3

Reconhecido, o Tribunal do Júri era composto por 24 (vinte e quatro) “Juízes de Fato”, nomeados pelo Corregedor e ouvidores do crime entre “homens, considerados bons, honrados, inteligentes e patriotas”, os quais detinham a competência estrita para julgamento dos delitos de imprensa e que, proferidas as decisões, estas só poderiam ser modificadas mediante único recurso – intitulado “Clemência Real” – dirigido ao Príncipe Regente.4

Nesta perspectiva, José Frederico Marques preleciona:

2

José Bonifácio foi filósofo, advogado, professor, intelectual, cientista e político. Além disso, foi tutor do Imperador Pedro II e articulador da independência brasileira.

3 SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do júri: o novo rito interpretado. Curitiba: Juruá, 2008. p. 21. 4 SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do júri: o novo rito interpretado. Curitiba: Juruá, 2008. p. 21.;

TUBENCHLAK, James. Tribunal do júri: contradições e soluções. 5. ed. atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 1997. p. 05.

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Coube ao Senado da Câmara do Rio de Janeiro, em vereação extraordinária de 4 de fevereiro de 1822, dirigir-se a Sua Alteza, o Príncipe Regente D. Pedro, solicitando a criação do juízo dos Jurados, para execução da Lei de Liberdade da Imprensa no Rio de Janeiro, aonde a criação do Juízo dos Jurados parece exeqüível sem conveniente, atenta a muita população de que se compõe, e as muitas luzes que já possui.5

Ainda que tenha sido, de fato, instituído em 1822, somente em 25 de março de 1824, com o advento da outorga da primeira Constituição Brasileira (Constituição Imperial), foi que o Tribunal do Júri passou a ser disciplinado como órgão concernente ao Poder Judiciário, ampliando o rol de competência para julgamento de causas cíveis e criminais.6

Os arts. 151 e 152, dispostos no Título 6º (“Do Poder Judicial”), Capítulo Único (“Dos Juizes e Tribunaes de Justiça”), da Carta Constitucional de 1824, estabeleciam, respectivamente que “o Poder Judicial independente, e será composto de Juizes, e Jurados, os quaes terão logar assim no Civel, como no Crime nos casos, e pelo modo, que os Códigos determinarem,” e que “os Jurados pronunciam sobre o facto, e os Juizes applicam a Lei.7

Ou seja, aos jurados conferiu-se a competência para se pronunciarem sobre o fato, enquanto o conhecimento da lei competia aos juízes.8

O autor Heráclito Antônio Mossin compara o sistema aplicado pela Constituição de 1824 e o sistema atualmente vigente e esclarece que essa sistemática ainda vem sendo utilizada no Tribunal do Júri atual, levando-se em conta a presença dos jurados, responsáveis pela decisão referente à matéria fática – o que fazem através da votação dos quesitos –, enquanto que o juiz-presidente – magistrado togado - tem por função reger os trabalhos e prestar a tutela jurisdicional de acordo com a vontade emanada pelo Conselho de Sentença.9

Após, em 1832, com a entrada em vigor do Código de Processo Penal do Império, o Júri passou a ser organizado da seguinte forma: era composto pelo “júri de acusação” (grande júri), formado por 23 (vinte e três) jurados, os quais se pronunciavam acerca da acusação apresentada em face do réu e, caso decidissem pela procedência, este seria levado a

5

ALMEIDA, Ricardo Vital de. O júri no Brasil: aspectos constitucionais – Soberania e Democracia Social. Leme, São Paulo: Edijur, 2005. p. 37; MARQUES, José Frederico. A instituição do júri. São Paulo: Edição Saraiva, 1963. p. 37-38.

6 NORONHA, E. Magalhães. Curso de direito processual penal. 20. ed. São Paulo: Saraiva, 1990. p. 243. 7

BRASIL. Constituição (1824). Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao24.htm>. Acesso em: 08 mar. 2017.

8 RANGEL, Paulo. Tribunal do júri: visão linguística, histórica, social e jurídica. 5. ed. rev. e atual. São Paulo:

Atlas, 2015, p. 61;TUCCI, Rogério Lauria. Tribunal do júri: estudo sobre a mais democrática instituição jurídica brasileira. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1999. p. 31.

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julgamento perante o “júri de julgação” ou “júri de sentença” (pequeno júri), constituído por 12 (doze) jurados, sendo que, em ambos, “as qualidades exigidas para a função de Jurado eram basicamente três: ser eleitor, possuir bom senso e probidade10.”11

Em contrapartida, Paulo Rangel ensina que, nos casos em que os jurados decidiam pela improcedência da pretensão acusatória, o Juiz de Direito julgava sem nenhum efeito a denúncia ou queixa oferecida em face do réu, nos termos do art. 251 do Código de Processo Penal Imperial: “Quando a decisão fôr negativa, o Juiz de Direito, por sua sentença lançada nos autos, julgará de nenhum effeito a queixa, ou denuncia.”12

Com a reforma do Código de Processo Penal Imperial pela Lei n. 261 de 03 de dezembro de 1841, regulada pelo Decreto n. 120, de 31 de janeiro de 1842, restou extinto o chamado “júri de acusação” ou “grande júri”, e a competência para a decisão de procedência (ou não) da pretensão acusatória passou aos Delegados e Subdelegados de Polícia, devendo ser confirmadas pelos Juízes Municipais.13

Paulo Rangel ainda acrescenta:

Os delegados, subdelegados e juízes municipais eram nomeados pelo Imperador, sendo que os dois primeiros poderiam ser também pelos Presidentes das Províncias, o que retirava deles a independência para proferir uma decisão que desagradasse a Corte. E mais: quem elaborava a lista dos jurados eram os delegados de polícia, que escolhiam os cidadãos que podiam ser eleitores, excluindo da lista os que não tivesse bom senso, integridade e bons costumes (arts. 27, 28 e 29 da Lei 261, de 1841) [...].14

Posteriormente, com o advento da Lei n. 2.033, de 20 de setembro de 1871, regulada pelo Decreto n. 4.824 de 22 de novembro do mesmo ano, é que se restabeleceu a competência do Júri, extinguindo os poderes de formação da culpa e pronúncia nos crimes

10

Art. 23. BRASIL. Lei de 29 de novembro de 1832. Promulga o Codigo do Processo Criminal de primeira instancia com disposição provisoria ácerca da administração da Justiça Civil. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM-29-11-1832.htm>. Acesso em: 10 jun. 2017.

11 RANGEL, Paulo. Tribunal do Júri: visão linguística, histórica, social e jurídica. 5. ed. rev. e atual. São

Paulo: Atlas, 2015. p. 63; STRECK, Lênio Luiz. Tribunal do júri: símbolos e rituais. 3. ed. rev., mod. e ampl. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998. p. 73; TUBENCHLAK, James. Tribunal do júri: contradições e soluções. 5. ed. atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 1997, p. 06;

12 BRASIL. Lei de 29 de novembro de 1832. Promulga o Codigo do Processo Criminal de primeira instancia

com disposição provisoria ácerca da administração da Justiça Civil. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LIM/LIM-29-11-1832.htm>. Acesso em: 08 mar. 2017; RANGEL, Paulo. Tribunal do júri: visão linguística, histórica, social e jurídica. 5. ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 2015. p. 63.

13

SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do júri: o novo rito interpretado. Curitiba: Juruá, 2008. p. 22.

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comuns, até então atribuídos aos Delegados e Subdelegados de Polícia e transferindo-os aos Juízes de Direito das Comarcas.15

Ainda, em 11 de outubro de 1890 foi editado o Decreto n. 848, que no seu art. 41 instituiu o Júri Federal, o qual era composto por 12 (doze) “Juízes de Fato”, sorteados entre 36 (trinta e seis) cidadãos, competentes para julgamento dos crimes sujeitos a esta jurisdição.16

Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889 e, consequentemente, o fim do Império, ainda assim a instituição do Júri permaneceria sob a égide da primeira Constituição da República dos Estados Unidos do Brazil, em 24 de fevereiro de 1891, mais especificamente no seu “Título IV – Dos Cidadãos Brasileiros - Seção II – Declaração de Direitos – art.72, § 31º”.17 Como se vê, o Júri passou de um dos ramos do Poder Judiciário para o contexto dos direitos e garantias individuais.

Já em 16 de julho de 1934, promulgada a Constituição, o Júri novamente passou a compor o “Capítulo IV – Do Poder Judiciário”, assim como era na Constituição Imperial de 1822. O art. 72 da Carta Magna de 1934 estabelecia: “É mantida a instituição do júri, com a organização e as atribuições que lhe der a lei”.18

Entretanto, em 1937, com a revogação da Constituição de 1934 e instituição da nova Constituição durante o Regime Ditatorial do Estado Novo, outorgada pelo então presidente Getúlio Vargas, suprimiu-se o texto legal que regulamentava a instituição do Júri

15 MARQUES, José Frederico. A instituição do júri. Campinas, São Paulo: Bookseller, 1997. p. 44. 16 BRASIL. Decreto nº 848 de 11 de outubro de 1890. Organiza a Justiça Federal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/d848.htm>. Acesso em: 10 mar. 2017; MARTINS, Marcelo Guerra. Justiça Federal no Brasil – Um caminho republicano desde 1890. Revista da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2005. Disponível em:

<http://www.revistas.usp.br/rfdusp/article/viewFile/67682/70290> Acesso em: 10 mar. 2017.

17

BRASIL. Constituição (1891). Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao91.htm>. Acesso em: 10 mar. 2017; NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008. p. 43.

18 BRASIL. Constituição (1934). Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao34.htm>. Acesso em: 10 mar. 2017; TUBENCHLAK, James. Tribunal do júri: contradições e soluções. 4. ed. atual. e ampl. de acordo com a Constituição de 1988. São Paulo: Saraiva, 1994, p. 07; Nessa época, ocorreu – talvez – o maior erro judiciário já verificado no país, conhecido como o “Caso dos Irmãos Naves”, em 1935, na cidade de Araguari, Minas Gerais. Trata-se do caso dos “Irmãos Naves”, submetidos duas vezes a julgamento perante o Tribunal do Júri – nos quais restaram absolvidos em ambos, mas condenados em decisão reformada pelo Tribunal de Justiça, em verdadeira ofensa ao princípio da soberania dos veredictos – pelo suposto homicídio do primo, Benedito Pereira Caetano, que, em 1952, aparece andando pelas ruas da cidade. GARCIA DA SILVA, Camila. O caso dos irmãos Naves: “tudo o que disse foi de medo e pancada”. Revista Liberdades. São Paulo, n. 04, p. 78-85, 2010. Disponível em: <http://www.revistaliberdades.org.br/_upload/pdf/5/_historia.pdf>. Acesso em: 15 jun. 2017.

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no ordenamento jurídico brasileiro, retornando, porém, em 05 de janeiro de 1938, em decorrência do Decreto-Lei n. 167, que permitiu aos Tribunais de Justiça a reforma, pelo mérito, das decisões proferidas pelo Júri e, ainda, “com uma grande diferença: o veredicto dos jurados deixava de ser soberano”.19

Rodrigo Faucz Pereira e Silva, sobre o tema destaca:

[...] o Dec.-lei 167, de 1938, que pode ser considerado como um dos mais importantes a respeito da matéria, pois muitas das características do Tribunal do Júri de hoje foram definidas por esse instrumento. E, entre suas disposições mais importantes, podemos citar aquela a respeito da organização: vinte e um jurados, sendo o Conselho de Sentença formado por sete deles, sob a presidência de um juiz togado.Não obstante, podemos apontar um retrocesso sensível (entendível, considerando ser um governo absolutista), uma vez que a soberania do veredicto foi afastada. Caso o Tribunal de Apelação decidisse que a sentença teria sido equivocada, ele poderia modificá-la e até absolver o acusado, ou seja, poderia analisar o mérito da decisão e não somente ficar adstrito a anular o julgamento.20

A Constituição de 1946, promulgada em 18 de setembro do mesmo ano, marcou a redemocratização do País, restabeleceu a soberania dos veredictos, bem como recolocou a instituição do Júri como direito e garantia individual.21 O art. 141, § 28º, do referido Diploma Legal, assim estabelecia:

É mantida a instituição do júri, com a organização que lhe der a lei, contanto que seja sempre ímpar o número dos seus membros e garantido o sigilo das votações, a plenitude da defesa do réu e a soberania dos veredictos. Será obrigatoriamente da sua competência o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.22

Já pela Carta Constitucional de 1967, outorgada durante o período do Regime Militar no Brasil, foi mantida a instituição do Júri no rol dos direitos e garantias individuais e, de igual forma, manteve-se sua soberania e a competência para julgamento dos crimes dolosos contra a vida. No entanto, em 1969, com o advento da chamada Emenda Constitucional n. 1 à Constituição de 1967, a qual passou a vigorar em 30 de outubro do mesmo ano, o Júri, ainda que previsto, nada fazia menção a sua soberania.23

19

PAULO FILHO, Pedro. Grandes advogados, grandes julgamentos. Campinas, São Paulo: 2003. p. 03; RANGEL, Paulo. Direito Processual Penal. 21. ed. São Paulo: Atlas, 2013. p. 495.

20 SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do júri: o novo rito interpretado. Curitiba: Juruá, 2008. p. 23. 21 TUBENCHLAK, James. Tribunal do júri: contradições e soluções. 4. ed. atual. e ampl. de acordo com a

Constituição de 1988. São Paulo: Saraiva, 1994. p. 08.

22 BRASIL. Constituição (1946). Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm> Acesso em: 15 mar. 2017.

23 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 24. ed. rev. atual. e ampl. nos termos da

Reforma Constitucional. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 87; STRECK, Lênio Luiz. Tribunal do júri: símbolos e rituais. 3. ed. rev., mod. e ampl. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1998. p. 74.

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Realizada a análise da instituição do Júri nas Constituições Brasileiras desde a época do Império até a Carta Constitucional de 1967 e sua posterior alteração em 1969, partir-se-á, no próximo tópico, ao estudo específico da previsão atribuída pela Constituição Federal atualmente vigente, promulgada em 1988.

2.2 O TRIBUNAL DO JÚRI NA CONSTITUIÇÃO DE 1988

A Constituição Federal de 1988 - intitulada como “Constituição Cidadã” por Ulysses Guimarães -, foi promulgada em 05 de outubro do mesmo ano, em um momento de transição entre o Regime Militar e a “Nova República”, após aprovação do seu texto pela maioria absoluta dos membros da Assembleia Nacional Constituinte, composta por Deputados Federais e Senadores da República.24

Nela, a instituição do Júri foi inserida no capítulo destinado aos direitos e garantias fundamentais, sob o status de cláusula pétrea25 e prevê que “é reconhecida a instituição do Júri, com a organização que lhe der a lei, assegurados: a) a plenitude de defesa; b) o sigilo das votações; c) a soberania dos veredictos; d) a competência para julgamento dos crimes dolosos contra a vida” 26

.

Adel El Tasse e Luiz Flávio Gomes ainda acrescentam:

O julgamento pelo Tribunal do Júri no Brasil é um direito e uma garantia constitucionais, que não podem ser eliminados por nenhum ato legislativo. Não pode ser objeto de deliberação qualquer proposta de Emenda Constitucional tendente a abolir os direitos e garantias individuais (CF, art. 60, § 4o, IV). Nem sequer por Emenda Constitucional o Tribunal do Júri pode ser eliminado.27

24 LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. 18. ed. rev. atual. e ampl. São Paulo: Saraiva, 2014.

p. 141; SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 24. ed. rev. atual. e ampl. nos termos da Reforma Constitucional. São Paulo: Malheiros, 2005. p. 88.

25

“A norma proíbe o Congresso Nacional de elaborar emenda constitucional que vise abolir as garantias que menciona. Por essa razão essas garantias são denominadas cláusulas pétreas, isto é, imodificáveis por meio de processo legislativo ordinário de emenda constitucional. [...] podem ser modificadas mediante manifestação inequívoca da soberania popular nesse sentido, exteriorizada por meio de plebiscito ou referendo”. NERY JUNIOR, Nelson; NERY, Rosa Maria de Andrade. Constituição Federal comentada e legislação constitucional. 4. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2013. p. 550.

26 SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do júri: o novo rito interpretado. Curitiba: Juruá, 2008. p. 25. 27 GOMES, Luiz Flávio; TASSE, Adel el. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 33. Disponível em:

<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502171244/cfi/0>. Acesso em: 24 mar. 2017. Acesso restrito via Minha Biblioteca.

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Assim, realizada uma breve abordagem sobre a sua disposição na Constituição Federal de 1988, tratar-se-á individualmente cada um dos princípios previstos, os quais devem servir de norte para os julgamentos de competência do Tribunal do Júri.

2.2.1 Plenitude de Defesa

Disposto na alínea a, do inciso XXXVIII, do art. 5º da Carta Magna Brasileira, o princípio da plenitude de defesa assegura aos acusados que respondam processo perante o Tribunal do Júri a plenitude de defesa, “diversa em significado e alcance da ampla defesa” (art. 5º, inciso LV, CRFB/88), tendo em vista que a “forma plena da defesa tem maior altitude que a ampla defesa, visto que a primeira realiza-se no contexto do Tribunal Popular, enquanto a segunda destina-se a qualquer corte togada criminal”.28

Acrescenta-se que, a defesa perante o Tribunal do Júri deve ser eficaz, impecável, sendo inaceitável, portanto, uma defesa “regular”.29

Nesses casos, cabe ao Promotor de Justiça (via requerimento) ou ao Juiz-Presidente (ex officio), quando constatar atuação mediana ou falhas advindas da defesa, dissolver o Conselho de Sentença e marcar novo julgamento com composição diversa.30

Ainda, toda forma de defesa é, em princípio – desde que, logicamente, não seja ilícita – válida no procedimento do Júri, e pode ser dividida em defesa técnica – desenvolvida

28 NUCCI, Guilherme de Souza. Princípios constitucionais penais e processuais penais. 3. ed. rev., atual. e

ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. p. 334.

29

“No processo criminal comum [...] o defensor não precisa atuar de maneira perfeita, sabendo falar, articular, construir os mais sólidos argumentos, enfim, pode cumprir seu papel de maneira apenas satisfatória. A ampla defesa subsite a tal impacto. No processo em trâmite no plenário do Júri, a atuação apenas regular coloca em risco, seriamente, a liberdade do réu. É fundamental que o juiz presidente controle, com perspicácia, a eficiência da defesa do acusado. Se o defensor não se expressa bem, não se faz entender – nem mesmo pelo magistrado, por vezes -, deixa de fazer intervenções apropriadas, corrigindo eventual excesso da acusação, não participa da reinquirição das testemunhas, quando seria preciso, em suma, atua pro forma, não houve, certamente, defesa plena, vale dizer, irretocável, absoluta, cabal”. NUCCI, Guilherme de Souza. Tribunal do júri. 6. ed. rev., atual. e ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2015. p. 26. Grifos do autor.

30 BONFIM, Edilson Mougenot. Curso de processo penal. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 708; CAMPOS,

Walfredo Cunha. Tribunal do júri: teoria e prática. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2015. p. 08; GOMES, Luiz Flávio; TASSE, Adel el. Processo Penal. São Paulo: Saraiva, 2012. p. 35. Disponível em:

<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502171244/cfi/0>. Acesso em: 24 mar. 2017. Acesso restrito via Minha Biblioteca.

(16)

pelo advogado - e autodefesa, realizada pelo próprio acusado por ocasião do seu interrogatório.31

Rogério Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto ainda nos ensinam que:

[...] no Júri, não apenas a defesa técnica, relativa aos aspectos jurídicos do fato, pode ser produzida. Mais que isso, dada às peculiaridades do processo e ao fato de que são leigos os juízes, permite-se a utilização da argumentação não jurídica, com referências a questões sociológicas, religiosas, morais, etc. Ou seja, argumentos que, normalmente, não seriam considerados fosse o julgamento proferido por um juiz togado, no Júri ganham especial relevância, podendo ser explorados à exaustão.32

Guilherme de Souza Nucci observa também que, haverá, de certo modo, um desequilíbrio entre as partes, ocasionado em virtude da busca pela defesa plena, de forma a privilegiar a atuação da defesa e garantir ao defensor do acusado o acesso à produção de todas as provas colhidas no decorrer do processo, bem como a dilação dos prazos para manifestação – desde que devidamente justificado -, ainda que estes tenham se esgotado.

O autor didaticamente preleciona:

[...] b) a maior proteção que se deve conferir ao réu, no Tribunal do Júri, dá-se justamente pela natureza da corte popular, que decide em votação sigilosa, sem qualquer fundamentação, o destino do acusado. Exige-se, portanto, uma impecável atuação defensiva, sob pena de se configurar um cerceamento pela fragilidade do próprio defensor; c) os jurados são pessoas do povo, sem as garantias dos juízes togados, podendo-se influenciar por atuações impecáveis das partes, durante as suas manifestações. Eis por que o defensor, no júri, precisa ser tarimbado, talentoso e combativo, além de bem preparado; d) no plenário do júri vigora a oralidade, a imediatidade e a identidade física do juiz, de modo que, a atuação da defesa necessita ser perfeito, visto inexistir outra chance [...]33

Como se observa, o princípio da plenitude de defesa possui maior amplitude se comparado ao princípio da ampla defesa, vez que possibilita, aos acusados que respondem processo perante o Tribunal do Júri, a utilização de todas as formas de defesa possíveis, ainda que, por esse motivo, decorra um evidente desequilíbrio entre as partes.34

31

CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Tribunal do júri: procedimento especial comentado por artigos. 2. ed. rev. ampl., e atual. Salvador: JusPodivim, 2016. p. 22; SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do júri: o novo rito interpretado. Curitiba: Juruá, 2008. p. 25.

32 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Tribunal do júri: procedimento especial comentado por

artigos. 2. ed. rev. ampl., e atual. Salvador: JusPodivim, 2016. p. 22.

33 NUCCI, Guilherme de Souza. Princípios constitucionais penais e processuais penais. 3. ed. rev., atual. e

ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. p. 335.

34 NUCCI, Guilherme de Souza. Princípios constitucionais penais e processuais penais. 3. ed. rev., atual. e

ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. p. 335; SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do júri: o novo rito interpretado. Curitiba: Juruá, 2008. p. 25.

(17)

2.2.2 Sigilo das Votações

O sigilo das votações, por sua vez, é constitucionalmente previsto na alínea “b”, inciso XXXVIII, do art. 5º, da Constituição Federal de 1988. No entanto, é o art. 485 do Código de Processo Penal que estabelece seu modus procedendi, senão vejamos: “Não havendo dúvida a ser esclarecida, o juiz presidente, os jurados, o Ministério Público, o assistente, o querelante, o defensor do acusado, o escrivão e o oficial de justiça dirigir-se-ão à sala especial a fim de ser procedida a votação.”35

Sobreleva destacar, de início, que não se desconhece o fato de que a publicidade dos atos processuais e sessões de julgamento são regra no ordenamento jurídico brasileiro, com exceção das questões que envolvem a intimidade, nos casos de interesse social ou público e, notadamente, nas votações pelo Conselho de Sentença no Tribunal do Júri, situações estas em que prevalecerá o sigilo.36

Walfredo Cunha Campos ensina:

Pacificou-se, hoje em dia, que tal previsão legal que estabelece o sigilo de uma decisão judicial – pelo Júri – ocorrida em recinto não aberto ao público, não viola o preceito constitucional que assegura a publicidade, em geral, dos autos processuais (art. 93, IX, da CF); isto porque, a própria Lei Maior, em seu art. 5º, LX, faz ressalva de que a lei pode restringir a publicidade de atos processuais quando o interesse social exigir. [...] com tal procedimento não se vislumbra qualquer prejuízo à licitude do julgamento, uma vez que a votação será sempre fiscalizada pelo magistrado, membro do Ministério Público e defensor.37

Sobre o tema, Renato Brasileiro de Lima ressalta que “não se trata de uma sala secreta, mas sim de sala que se realiza a votação mediante publicidade restrita, porquanto estão presentes, além do juiz e dos jurados, o órgão do Ministério Público e o defensor”.38

Importante enfatizar que o principal fundamento trazido pela doutrina, no que concerne ao sigilo das votações, é o de propiciar aos jurados que compõem o Conselho de

35 BRASIL. Decreto-Lei n. 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 24 mar. 2017.

36 NUCCI, Guilherme de Souza. Princípios constitucionais penais e processuais penais. 3. ed. rev., atual. e

ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. p. 420.

37 CAMPOS, Walfredo Cunha. Tribunal do júri: teoria e prática. 4. ed. São Paulo: Atlas, 2015. p. 09. 38

LIMA, Renato Brasileiro de. Manual de processo penal. 2. ed. Niterói, Rio de Janeiro: Impetus, 2012. p. 45. v. 1.

(18)

Sentença decidir de acordo com a sua livre convicção, sem pressões externas e, tampouco, medo de represálias por parte do réu.39

Entretanto, há quem se contraponha a este entendimento, como é o caso de Marcus Vinícius Amorim de Oliveira, o qual adverte quanto à desnecessidade do caráter secreto atribuído ao procedimento de votação pelos jurados que compõem o Conselho de Sentença. Segundo o autor, a Constituição Federal de 1988 garante o sigilo da votação e, não especificamente, do voto dos jurados o que, para tanto, “a lei prevê uma série de precauções a fim de garantir a sua inviolabilidade, dentre elas, a incomunicabilidade dos jurados”.40

2.2.3 Soberania dos Veredictos

Soberano significa supremo, absoluto, que ocupa o primeiro lugar.41

A soberania dos veredictos, estabelecida no art. 5º, inciso XXXVIII, alínea “c”, da Constituição Federal de 1988, “é a alma do Tribunal Popular”.42

No contexto do Tribunal do Júri, o princípio da soberania dos veredictos diz respeito à decisão coletiva dos jurados (veredicto), não passíveis de modificação por juízes togados, sejam eles pertencentes a qualquer das instâncias do Poder Judiciário. Ou seja, a soberania dos veredictos assegura “efetivo poder jurisdicional e não somente a prolação de um parecer, passível de rejeição por qualquer magistrado togado”.43

Pedro Paulo Filho nos ensina que:

A soberania do júri pode ser definida como a impossibilidade de os juízes togados se substituírem aos jurados na decisão da causa, e, por isso, o Tribunal, julgando apelação de qualquer das partes, dando provimento ao recurso, sujeitará o réu a novo julgamento pelo conselho de sentença, mas não poderá, em nenhum caso, apreciar o mérito do apelo”.44

Entretanto, não se quer aqui dizer, por óbvio, que as decisões proferidas pelo Conselho de Sentença não estão sujeitas ao duplo grau de jurisdição, haja vista que, assim

39

CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Tribunal do júri: procedimento especial comentado por artigos. 2. ed. rev. ampl., e atual. Salvador: JusPodivim, 2016. p. 22.

40 OLIVEIRA, Marcus Vinícius Amorim de. Tribunal do júri popular na ordem jurídica constitucional.

Curitiba: Juruá, 2002. p. 83.

41

TERSARIOL, Alpheu. Minidicionário da Língua Portuguesa. Erechim: Edelbra, 2000. p. 329.

42 NUCCI, Guilherme de Souza. Princípios constitucionais penais e processuais penais. 3. ed. rev., atual. e

ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. p. 421

43 NUCCI, Guilherme de Souza. Princípios constitucionais penais e processuais penais. 3. ed. rev., atual. e

ampl. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2013. p. 421.

(19)

como os juízes dotados de conhecimento técnico-jurídico, os jurados, leigos que são, poderão incorrer a erro. Por isso, o Código de Processo Penal estabeleceu em seu art. 593, inciso III, alínea “d”, a possibilidade de interposição de recurso de apelação ao Tribunal ad quem, no prazo de 5 (cinco) dias, quando “for a decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos autos”. Nestes casos, sendo a decisão voltada pelo provimento do recurso, os autos serão encaminhados para nova apreciação e julgamento pelo Tribunal do Júri. 45

Importa sublinhar, ademais, que o art. 593, § 3º, in fine, veda a possibilidade de interposição de segunda apelação com o mesmo argumento de que a decisão proferida pelo Conselho de Sentença é manifestamente contrária à prova dos autos.46 Veja-se da redação do referido dispositivo:

Art. 593. § 3º. Se a apelação se fundar no no III, d, deste artigo, e o tribunal ad quem se convencer de que a decisão dos jurados é manifestamente contrária à prova dos autos, dar-lhe-á provimento para sujeitar o réu a novo julgamento; não se admite, porém, pelo mesmo motivo, segunda apelação.47

Como bem ensina Renato Brasileiro de Lima:

[...] a expressão pelo mesmo motivo constante do art. 593, § 3º, in fine, do CPP, deve ser compreendida como mesma hipótese de cabimento, ou seja, o mesmo fundamento legal. Logo, conhecida uma primeira apelação interposta com base na alínea “d” do inciso III do art. 593 do CPP, uma vez realizado novo julgamento perante o Júri, não se afigura cabível nova apelação com base na mesma hipótese.48

O autor ainda ressalta que o fato de o réu não poder ser julgado duas vezes pelo Tribunal do Júri em função da interposição de recurso de apelação fundamentado na alínea “d”do inciso III do art. 593 do Código de Processo Penal, não há qualquer obstáculo ao

45 “Art. 593. Caberá apelação no prazo de 5 (cinco) dias: III – das decisões do Tribunal do Júri, quando: d) for a

decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos autos”. BRASIL. Decreto-Lei n. 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 10 jun. 2017; “[...] para que seja cabível apelação com base na alínea “d” do inciso III do art. 593 do CPP, e, de modo a se compatibilizar sua utilização com a soberania dos veredictos, é necessário que a decisão dos jurados seja absurda, escandalosa, arbitrária e totalmente divorciada do conjunto probatório constante dos autos”. LIMA, Renato Brasileiro de. Código de Processo Penal comentado. Salvador: Juspodivm, 2016. p. 1420.

46 BRASIL. Decreto-Lei n. 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 13 jun. 2017; LIMA, Renato Brasileiro de. Código de Processo Penal comentado. Salvador: Juspodivm, 2016. p. 1425.

47 BRASIL. Decreto-Lei n. 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 13 jun. 2017.

48

LIMA, Renato Brasileiro de. Código de Processo Penal comentado. Salvador: Juspodivm, 2016. p. 1425. Grifos do autor.

(20)

Tribunal ad quem em determinar a realização de novo julgamento pelo Tribunal do Júri, quando constatada a ocorrência de nulidade.49

No que se refere à revisão criminal, Nestor Távora e Rosmar Rodrigues Alencar, entendem que o princípio da soberania dos veredictos não se trata de um princípio absoluto, isto é, quando constatada a inocência pelo Tribunal de Justiça, deve-se absolver de imediato o réu injustamente condenado pelo Tribunal do Júri em sentença já transitada em julgado.50

2.2.4 Competência para Julgamento dos Crimes Dolosos Contra a Vida

Por derradeiro, na sua alínea “d”, inciso XXXVIII, do art. 5º, a Constituição Federal de 1988 assegura a competência mínima para julgamento dos crimes dolosos contra a vida – consumados e tentados -, dispostos nos arts. 121 a 128 do Código Penal. São eles: homicídio (simples, privilegiado, qualificado e feminicídio), suicídio (induzimento, instigação e auxílio), infanticídio e aborto, em qualquer das suas modalidades.51

Nesse sentido, diz-se:

[...] mínima por que, no mínimo, os crimes dolosos contra a vida devem ser julgados pelo Tribunal do Júri, o que não impede ao legislador infraconstitucional ampliar tal competência para que outros delitos, de natureza diversa, sejam também apreciados pelo povo”.52

Denilson Feitoza assim assinala: “Se a Constituição utiliza o verbo assegurar, significa que é competência mínima e, portanto, é teoricamente possível que a lei amplie a sua competência para crimes diversos, além dos crimes dolosos contra a vida.”53

Luiz Flávio Gomes e Adel el Tasse, por sua vez, entendem que a competência atribuída ao Tribunal do Júri é absoluta (em razão da matéria; ratione materiae) e taxativa, pois não admite interpretação extensiva, salvo em relação aos crimes conexos.54

49 LIMA, Renato Brasileiro de. Código de Processo Penal comentado. Salvador: Juspodivm, 2016. p. 1425. 50 ALENCAR, Rosmar Rodrigues; TÁVORA, Nestor. Curso de direito processual penal. 5. ed. rev., ampl. e

atual. Salvador: Editora JusPodivim, 2011. p. 756.

51 BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>. Acesso em: 28 mar. 2017.

52 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Tribunal do júri: procedimento especial comentado por

artigos. 2. ed. rev. ampl., e atual. Salvador: JusPodivim, 2016. p. 25.

53 FEITOZA, Denilson. Direito processual penal: teoria, crítica e práxis. 6. ed. rev., ampl. e atual. Niterói, Rio

de Janeiro: Impetus, 2009. p. 493.

54 GOMES, Luiz Flávio; TASSE, Adel el. Processo Penal . São Paulo: Saraiva, 2012. p. 29. v. 4.Disponível em:

<https://integrada.minhabiblioteca.com.br/#/books/9788502171244>. Acesso em: 28 mar. 2017. Acesso restrito via Minha Biblioteca.

(21)

Quanto à conexão, estabelece o art. 78, inciso I, do Código de Processo Penal que “no concurso entre a competência do júri e a de outro órgão da jurisdição comum, prevalecerá a competência do júri”.55

Por exemplo, caso o acusado tenha sido denunciado por tentativa de homicídio qualificado e, também, por participação em organização criminosa, será o Tribunal do Júri competente para o julgamento deste último, ainda que não se trate de crime doloso contra a vida, nos termos do que dispõe o artigo acima referido.

Ressalte-se, ademais, que os delitos que têm por resultado o evento morte, como por exemplo, o latrocínio (art. 157, § 3º - segunda parte, do Código Penal) ou a extorsão mediante sequestro (art. 150, § 3º, do Código Penal), não se enquadram nos crimes dolosos contra a vida, tendo em vista que o Código Penal classificou-os como “crimes contra o patrimônio”, sendo competente para julgamento, portanto, o Juiz singular.56

Assim, pacificou-se o entendimento, por meio da edição da Súmula n. 603 pelo Supremo Tribunal Federal, a qual determina que “a competência para o processo e julgamento de latrocínio é do juiz singular e não do tribunal do júri”.57

Percebe-se, portanto, que, as alterações promovidas ao ordenamento jurídico brasileiro – e, especialmente, com relação ao procedimento dos processos em trâmite perante o Tribunal do Júri –, não lhe retiraram a importância, concluindo, pois, que a sua manutenção atende às necessidades de promoção da justiça no que se refere ao julgamento dos crimes dolosos contra a vida.

55 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de processo penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 28 mar. 2017.

56

BONFIM, Edilson Mougenot. Curso de processo penal. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 709; BRASIL. Decreto-Lei nº 2.848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.html> Acesso em: 30 mar. 2017;

FEITOZA, Denilson. Direito processual penal: teoria, crítica e práxis. 6. ed. rev., ampl. e atual. Niterói, Rio de Janeiro: Impetus, 2009. p. 493; GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal. 11. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 449; MARCÃO, Renato. Curso de processo penal. 2. ed. rev., ampl. e atual. de acordo com a Lei n. 13.105/2015 (Novo Código de Processo Civil). São Paulo: Saraiva, 2016. p. 912.

57 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Aplicação das Súmulas no STF. Disponível em:

<http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/menuSumarioSumulas.asp?sumula=2683>. Acesso em: 30 abr. 2017.

(22)

3. RITO DO TRIBUNAL DO JÚRI: O PROCEDIMENTO NO JULGAMENTO DOS CRIMES DOLOSOS CONTRA A VIDA

O objetivo do presente capítulo é analisar o rito do Tribunal do Júri e o procedimento adotado para julgamento dos crimes dolosos contra a vida. Sua alteração, promovida pela Lei n. 11.689/2008, objetivou promover a economia e a celeridade processual, bem como atualizar o procedimento à luz da ordem constitucional atualmente vigente. Entretanto, suscitaram certa desaprovação por parte de alguns estudiosos, como é caso de Edilson Mougenot Bonfim. Segundo o autor:

Evidentemente, uma boa reforma legal conservaria o que fosse bom, expurgaria o que fosse mau, rerratificando-se, destarte, a lei. Ao final, o balanço poderia dizer qual dos textos continha mais acertos: se o velho, que permaneceu, por bom, ou o novo, que sucedeu, por melhor.

O que se propôs, agora, a propósito da nova lei, não é necessariamente uma boa mudança, nem atende, invariavelmente, aos pressupostos de celeridade e combate à impunidade que mobilizaram a política de alteração legislativa.58

O procedimento, por sua vez, ainda desenrola-se de forma bifásica e escalonada. Contudo, o que diferencia o antigo procedimento deste atualmente adotado, é o marco inicial e final para cada fase. A primeira fase, denominada instrução preliminar, tem seu início no oferecimento da denúncia ou queixa-crime estendendo-se até a decisão de pronúncia; já a segunda fase ou iudicium causae – que só acontecerá se porventura o acusado for pronunciado – terá início com a preclusão da decisão de pronúncia até o julgamento em plenário.59

A contrario sensu, Guilherme de Souza Nucci se opõe a este entendimento e opina no sentido de tratar-se de um procedimento trifásico:

[...] após a reforma do capítulo concernente ao júri, torna-se clara a existência de três fases no procedimento. A primeira, denominada de fase de formação da culpa (judicium accusationis), estrutura-se do recebimento da denúncia ou da queixa até a pronúncia (ou outra decisão, proferida em seu lugar, como a absolvição sumária, a impronúncia ou a desclassificação). A segunda fase, denominada de preparação do processo para julgamento em plenário, tem início após o trânsito em julgado da decisão de pronúncia e segue até o momento da instalação da sessão em plenário do Tribunal do Júri. A terceira fase, denominada de fase do juízo de mérito (judicium causae), desenvolve-se em plenário, culminando com a sentença condenatória ou

58

BONFIM, Edilson Mougenot. Curso de processo penal. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 710.

(23)

absolutória, proferida pelo juiz presidente com base no veredicto dado pelos jurados.60

Assim, cabe a análise dos principais atos instrutórios e procedimentais do procedimento do Tribunal do Júri.

3.1 INSTRUÇÃO PRELIMINAR OU SUMÁRIO DE CULPA (IUDICIUM

ACCUSATIONES)

Disciplinada no Capítulo II, Seções I e II, arts. 412 a 421 do Código de Processo Penal, a primeira fase, denominada iudicium accusationes ou instrução preliminar inicia-se com o oferecimento da denúncia - pelo Ministério Público -, ou queixa-crime - pelo ofendido ou seu representante legal -, e finda com a preclusão da decisão de pronúncia. Nela, busca-se auferir a existência da materialidade do delito e indícios suficientes de autoria para que, então, seja o acusado levado a julgamento pelo Conselho de Sentença, que se pronunciará relativamente ao meritum causae (mérito da causa).61

Como retrata Francisco Dirceu Barros:

A primeira fase é uma verdadeira fase de filtro em que é examinada a viabilidade da tese exposta na exordial acusatória e serve para filtrar as impurezas, ou seja, impedir que alguém seja levado à presença do Conselho de Sentença de maneira temerária, sem que haja um lastro probatório mínimo que viabilize o julgamento.62

Imperioso destacar que a maioria dos processos em trâmite perante o Tribunal do Júri, por se tratar de ação penal pública, tem como titular da pretensão acusatória o órgão do Ministério Público - representado pelo Promotor de Justiça -, o qual possui competência privativa para promovê-la (art. 129, inciso I, da CRFB/88). Assim, ainda que haja a possibilidade de ser oferecida queixa-crime, aqui se referire especificamente aos casos em que é ofertada denúncia por iniciativa do Parquet63, tendo em vista a prevalência, na prática, desta sob aquela. 64

60 NUCCI, Guilherme de Souza. Código de processo penal comentado. 15. ed. rev., atual. e ampl. Rio de

Janeiro: Forense, 2016. p. 928. Grifos do autor.

61

DEMERCIAN, Pedro Henrique; MALULY, Jorge Assaf. Curso de processo penal. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2012. p. 509.

62 BARROS, Francisco Dirceu. Teoria e prática do novo júri. Rio de Janeiro: Elsevier, 2009. p. 19. 63 Termo latino utilizado como sinônimo de Ministério Público.

64

BRASIL. Constituição Federal (1988). Disponível em:

(24)

Logo, ofertada a peça acusatória pública, os autos irão conclusos ao magistrado singular, que, constatando estarem preenchidos os aspectos formais regulados pelo art. 41 do Código de Processo Penal, irá recebê-la ou rejeitá-la liminarmente (art. 396, do Código de Processo Penal). Em não sendo o caso de rejeição liminar e, preenchidos os requisitos do art. 41, o Juiz receberá a denúncia nos termos em que foi proposta pelo Ministério Público e determinará a citação do – agora – réu, para que, no prazo de 10 (dez) dias, apresente resposta à acusação por escrito.65

Devidamente citado, o réu deverá constituir advogado ou, em não havendo condições financeiras para tanto, o que deverá ser certificado pelo Oficial de Justiça, ser-lhe-á nomeado Defensor (a) Público (a) para a defesa dos seus interesses.66 Cumpre registrar, ademais, que a Defensoria Pública dispõe de prazo em dobro para a prática de todos os atos processuais (arts. 44, inciso I, 89, inciso I e 128, inciso I, da Lei Complementar n. 80/199467 - art. 46, inciso I, da Lei Complementar n. 575/201268), o que foi consolidado em matéria penal pelo Superior Tribunal de Justiça por ocasião do julgamento do Agravo Regimental no Agravo Regimental no Habeas Corpus nº 146.183/RS.69

Nos casos em que a resposta não é apresentada pelo advogado constituído no prazo legal - contado a partir da citação válida e não da juntada aos autos do mandado de

65 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 30 maio 2017.

66 BRASIL. Tribunal Regional Federal (4. Região). Agravo Legal em Cautelar Inominada nº

5029235-84.2014.404.0000/SC. Relator: Des. Federal Fernando Quadros da Silva. Porto Alegre, RS, 04 de fevereiro de 2017. Disponível em:

<http://jurisprudencia.trf4.jus.br/pesquisa/inteiro_teor.php?orgao=1&documento=7284788>. Acesso em: 31 maio 2017.

67 BRASIL. Lei Complementar nº 80, de 12 de janeiro de 1994. Organiza a Defensoria Pública da União, do

Distrito Federal e dos Territórios e prescreve normas gerais para sua organização nos Estados, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LCP/Lcp80.htm>. Acesso em: 13 jun. 2017.

68 SANTA CATARINA. Lei Complementar n. 575, de 02 de agosto de 2012.

Cria a Defensoria Pública do Estado de Santa Catarina, dispõe sobre sua organização e funcionamento e estabelece outras providências. Disponível em:

<http://www.pge.sc.gov.br/index.php/legislacao-estadual-pge>. Acesso em: 13 jun. 2017.

69 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. AgRg no AgRg no HC nº 146823. Relator: Min. Assusete Magalhães.

Brasília, DF, 03 de setembro de 2013. Disponível em:

<https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/inteiroteor/?num_registro=200901752664&dt_publicacao=24/09/2013>. Acesso em: 01 maio 2017.

(25)

citação70 - o Juiz nomeará novo defensor “para oferecê-la em até 10 (dez) dias, concedendo-lhe vista dos autos”.71

Assim, importa ressaltar que a nova norma insculpida no art. 219, caput, do Código de Processo Civil de 2015, referente à contagem dos prazos somente em dia útil, não é aplicável à matéria processual penal, conforme entendimento já consolidado pelo Supremo Tribunal Federal. Veja-se:

Mostra-se importante destacar, ainda, que, tratando-se de prazo processual penal, o modo de sua contagem é disciplinado por norma legal que expressamente dispõe sobre a matéria (CPP, art. 798, “caput”), o que torna inaplicável a regra fundada no art. 219, “caput”, do Código de Processo Civil de 2015, pois, como se sabe, a possibilidade de aplicação analógica da legislação processual civil ao processo penal, embora autorizada pelo art. 3º do próprio Código de Processo Penal, depende, no entanto, para incidir, da existência de omissão na legislação processual penal (Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, art. 4º).

O que vigora na prática, entretanto, e no que diz respeito exclusivamente aos procuradores constituídos – tanto nos processos de competência do Tribunal do Júri, como àqueles sujeitos ao rito processual comum –, é que diante da desídia na realização do ato processual, o réu será novamente intimado – e frise-se – pessoalmente, para que constitua novo defensor, no prazo estipulado pelo magistrado. E, “só quando silente este, ocorrerá nomeação por escolha do juiz”.72

Isso porque, como oportunamente citado no item 2.2.1, cabe, aos acusados que respondem processo perante o Tribunal do Júri, a plenitude de defesa e, mesmo em relação aos acusados em geral, a apresentação de resposta à acusação é obrigatória (arts. 396 e 396-A, do Código de Processo Penal). Portanto, em qualquer caso, não há sequer a possibilidade de se dar prosseguimento ao feito criminal sem que tenha sido apresentada a peça defensiva.73

70 Art. 406, § 1º. BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal.

Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 03 maio 2017; Nesse sentido, o Supremo Tribunal Federal editou a Súmula n. 710, a qual determina que “no processo penal, contam-se os prazos da data da intimação, e não da juntada aos autos do mandado ou da carta precatória ou de ordem”. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Aplicação das Súmulas no STF. Disponível em: <http://www.stf.jus.br/portal/jurisprudencia/menuSumarioSumulas.asp?sumula=2634>. Acesso em 30 maio 2017.

71 “Art. 408. Não apresentada a resposta no prazo legal, o juiz nomeará defensor para oferecê-la em até 10 (dez)

dias, concedendo-lhe vista dos autos”. BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 03 abr. 2017.

72 NASSIF, Aramis. O novo júri brasileiro: conforme a Lei 11.689, atualizado com as Leis 11.690/08 e

11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 40.

73

BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 03 abr. 2017.

(26)

Todavia, nos casos em que não for encontrado o réu e, citado por edital, não comparecer aos autos, tampouco constituir defensor, o processo e o curso do prazo prescricional restarão suspensos, por força do que dispõe o art. 366, do Código de Processo Penal.74

Apresentada a resposta à acusação e a manifestação quanto às preliminares e documentos pelo Ministério Público (art. 409, do Código de Processo Penal), o Juiz designará data para realização da audiência de instrução e julgamento, ocasião em que será inquirida a vítima (se houver/puder), as testemunhas arroladas pela acusação e defesa, até o número máximo de 08 (oito) para cada uma das partes, posteriormente realizar-se-á o interrogatório do réu e, ao final os debates orais.75

Renato Brasileiro de Lima destaca que, ao contrário da regra prevista no art. 397, do Código de Processo Penal76 e que é aplicada ao procedimento comum ordinário, nos processos em trâmite perante o Tribunal do Júri não cabe a absolvição sumária do réu após a apresentação da resposta à acusação e antes da audiência de instrução e julgamento, uma vez que há determinação expressa no sentido de que o juiz só poderá absolver sumariamente o réu após o ato instrutório (art. 415, do Código de Processo Penal).77

Vicente Greco Filho, por sua vez, adota entendimento contrário. Segundo o autor, após a apresentação da resposta à acusação pelo réu, deverá o juiz absolve-lo quando

74

“Art. 366. Se o acusado, citado por edital, não comparecer, nem constituir advogado, ficarão suspensos o processo e o curso do prazo prescricional [...]”. BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 03 abr. 2017; Nesse sentido, o Superior Tribunal de Justiça editou a Súmula n. 415, que determina que “o período da suspensão do prazo prescricional é regulado pelo máximo da pena cominada”. BRASIL. Súmulas Anotadas. Disponível em:

<https://ww2.stj.jus.br/docs_internet/revista/eletronica/stj-revista-sumulas-2014_39_capSumula415.pdf>. Acesso em: 30 de maio 2017.

75

BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 03 abr. 2017.

76 “Art. 397. Após o cumprimento do disposto no art. 396-A, e parágrafos, deste Código, o juiz deverá absolver

sumariamente o acusado quando verificar: I - a existência manifesta de causa excludente da ilicitude do fato; II - a existência manifesta de causa excludente da culpabilidade do agente, salvo inimputabilidade; III - que o fato narrado evidentemente não constitui crime; ou IV - extinta a punibilidade do agente”. BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 10 jun. 2017.

77

LIMA, Renato Brasileiro de. Código de Processo Penal comentado. Salvador: Editora Juspodivm, 2016. p. 1123-1124.

(27)

verificar, desde logo, a presença dos requisitos (cumulativos ou não), previstos no art. 397, do Código de Processo Penal.78

E, ainda, complementa no sentido que “trata-se de julgamento antecipado da lide, extinguindo-se o processo com sentença de mérito, com força de coisa julgada material absolutória, isto é, imutável uma vez transitada em julgado [...]”79

Após a produção da prova testemunhal, acusação e defesa dispõem de 20 (vinte) minutos cada, prorrogáveis por mais 10 (dez) minutos para, respectivamente, apresentarem suas alegações orais, pugnando pela condenação ou absolvição do réu (art. 411, § 4º, do Código de Processo Penal).

Rogério Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto, no entanto, levantam a possibilidade de acusação e defesa optarem por ofertar suas manifestações por memoriais escritos80, o que se adota como regra na prática forense. E, acrescentam:

Sem embargo de tais observações, o certo é que a jurisprudência tende a amenizar o rigor dessa obrigatoriedade. Calhou o Superior Tribunal de Justiça assim que se posicionar sobre o tema: “Inexiste nulidade, caso o Ministério Público e a defesa concordem em substituir as alegações orais por memorial” (RT 697/360). [...] Cumpre ao Juiz, portanto, na análise do caso concreto – avaliando, por exemplo, a complexidade do caso, o número de testemunhas ouvidas, o número de acusados, as nuances da prova recém produzida – decidir se passa, de imediato, aos debates ou se permite que eles sejam substituídos por memoriais.81

Importante apontar também que, a priori, a audiência será una, em atendimento à economia e celeridade processual pretendida pelo legislador quando da edição da Lei n. 11.689/08, inclusive em razão do prazo ideal de 90 (noventa) dias previsto pelo art. 412 do Código de Processo Penal. Acontece que nem sempre tal previsão se mostra viável, considerando os percalços que podem surgir durante o andamento do processo, como, por exemplo, a ausência de testemunhas, a realização de diligências ou perícias requeridas pelas partes, pela organização da pauta de audiências pela Vara competente, ou ainda pelo excesso de demandas a depender do Estado da Federação em que se encontra.82

78 GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal. 11. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 436. 79 GRECO FILHO, Vicente. Manual de processo penal. 11. ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 436. 80 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Tribunal do júri: procedimento especial comentado por

artigos. 2. ed. ver., ampl. e atual. Salvador: JusPodivm, 2016. p. 80.

81 CUNHA, Rogério Sanches; PINTO, Ronaldo Batista. Tribunal do júri: procedimento especial comentado por

artigos. 2. ed. ver., ampl. e atual. Salvador: JusPodivm, 2016. p. 80.

82 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 02 abr. 2017; SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do Júri: o novo rito interpretado. Curitiba, Juruá: 2008. p. 39.

(28)

Encerrados os debates, cabe ao Juiz proferir sua decisão de imediato – “quando elegerá uma das alternativas possíveis neste momento processual: pronunciar, impronunciar, absolver sumariamente ou, ainda, desclassificar o delito de maneira que afaste a competência do Tribunal do Júri” – ou “quando houver a possibilidade de gravação simultânea das alegações orais”, poderá proferir a decisão no prazo máximo de 10 (dez) dias.83

3.1.1 Pronúncia e Impronúncia

O art. 413 do Código de Processo Penal estabelece que “o juiz, fundamentadamente, pronunciará o acusado, se convencido da materialidade do fato e da existência de indícios suficientes de autoria ou de participação”.84

James Tubenchlak ainda acrescenta que “ao lado da certeza da existência do crime, impõe-se uma prova indiciária forte, veemente, razoavelmente próxima da certeza, de ser o réu o seu autor”.85

Paulo Rangel registra que:

[...] embora a lei não traga mais a expressão crime, é intuitivo que o fato seja criminoso para que o réu seja pronunciado. Se o juiz verificar que o fato, materialmente falando, existiu, mas não constitui infração penal, o juiz deverá absolver sumariamente o réu (art. 415, III, CPP).86

Nesse sentido, constata-se que, para que seja o réu pronunciado e levado a julgamento perante o Tribunal do Júri, é necessário que o juiz se convença da materialidade do delito e da existência de indícios suficientes de autoria ou participação.

No que se refere à materialidade do delito, não é necessário que subsistam provas incontroversas da existência do delito, mas tão somente que o juiz se convença da sua materialidade.87 Pedro Henrique Demercian e Jorge Assaf Maluly orientam por essa mesma linha e explicam que “[...] a expressão não pode ser interpretada em seu sentido estrito. Não

83 NASSIF, Aramis. O novo júri brasileiro: conforme a Lei 11.689/08, atualizado com as Leis 11.690/08 e

11.719/08. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2009. p. 52; SILVA, Rodrigo Faucz Pereira e. Tribunal do júri: o novo rito interpretado. Curitiba: Juruá, 2008. p. 40.

84 BRASIL. Decreto-Lei nº 3.689, de 03 de outubro de 1941. Código de Processo Penal. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del3689Compilado.htm>. Acesso em: 14 abr. 2017; BONFIM, Edilson Mougenot. Curso de processo penal. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2015. p. 724-725.

85 TUBENCHLAK, James. Tribunal do júri: contradições e soluções. 5. ed. rev., atual. e ampl. São Paulo:

Saraiva, 1997. p. 63.

86 RANGEL, Paulo. Direito processual penal. 24. ed. rev. e atual. São Paulo: Atlas, 2016. p. 651. 87

MIRABETE, Julio Fabbrini. Processo penal. 18. Ed. rev. e atual. até 31 de dezembro de 2005. São Paulo: Atlas, 2006. p. 499.

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