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Zero, 1988, dez.

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Texto

(1)

Ribeirão da

Ilha,

Ontem

e

Hoje

Páginas 10,

11 e 12 JacquesBâick:

Sem

terra

escreve e

Zero

publica

'H

"Eu

e

você

num

super

papo

nas

páginas

14

e

15"

Página

3

Na

Central

I

A

mina dos mineiros

Exclusivo:

Evandro

Mesquita

no

Caderno

Z

'"';'

(2)

Tiragem:

exemplares

-,

3.000

EXPEDIENTE

Melhor

Peça

Gráfi­

caISet

Universitá­

rio Maio 88 Zero JornalLaboratório do

Curso

de

Comu­

nicação

Social da

Universidade

Fe­ deral de Santa Ca­ tarina

Texto: Ana Cristi­

na

Lavratti,

André

Rhode,

Cláudia

Aguirre,

Dauro Ve­ ras, Geraldo Hoff­ mann, Ilka Golsch­

mídt,

Marta

Moritz,

Monique

Vandresen,

Milene

Corrêa,

Ozias Al­

ves

Jr.,

Rubens

Vargas,

Sidnei Vol­

pato,

Taciana Xa­ vier

Diagramação:

Cláudia

Carvalho,

Analú

Zidko,

Ilka

Goldschmidt,

Mar­ ta

Moritz,

Nilva

Bianco,

Rute En­ riconi.

Arte: Betta de Bra­ sília

Fotografia:

Bido

Muniz,

Maria Cris­ tina

Joshizato,

Jac­ ques

Mick,

Karla

Bastos,

Roseli

Ma­

ria de

Souza,

Simo­

neDias

Laboratório

Foto­

gráfico:

Ilka

Goldschmídt,

Nil­ va

Biapco,

Marta

Moritz,

Sabrina

Franzoni,

Karla Bastos

Supervisão: Aglair

Bernardo e Henri­ que Finco

Edição:

Cláudia

Carvalho,

Ilka

Goldschimidt,

Nil­ va

Bianco,

Rute Enriconi Telefone:

(0482)

33-9215 Telex:

( 0482)

240 BR

Correspondência:

Caixa Postal

472,

Departamento

de

Comunicação

eEx­

pressão,

Curso

de

Jornalismo,

Flo­

rianópolis/SC

Acabamentoe Im­

pressão:

Diário

Catarinense

Distribuição

Gra­ tuita

Circulação Dirigi­

da

OPINIÃO

Moscou,

retirada de

tropas

do

Afeganistão

e rebeliões mili­

tares

na

Argentina.

Democra­

ciana

América Latina?

nal,

o

grande

favorecido dos

nossos recordes de

exporta­

ção.

O governo

reprime

osnegros no

Centenário

da

Abolição

e

mata a pau

quem luta

pela

sobrevivência

(ninguém pode

esquecera

repressão

e os as­

sassinatos na

Companhia

Si­

derúrgica

Nacional,

emVolta

Redonda-RJ),

mas deixa sol­ tososcriminosos de colarinho

branco,

de que ele

próprio (go­

verno)

está

infestado.

O

presi­

dente

Sarney

usou a

máquina

para

c-omprar

cinco anos de mandato e

presidencialismo,

descarrilhounaFerrovia Nar­

te-Sule

acabou enterrado

atéo

pescoço

no mar de lama do

poder

público.

O trabalhador­ contribuinte

paga

aconta sob

as

ameaças

de trileões cada

vezmais ferozes.

primeira

página

"TRAIÇÃO

DO MIRAD" esob otítulo "MIRAD TRAPACEIA

POLACOS",

assi­ nada

pelo

nãomenosbrilhante

(do

que a sua

pérola,

naturalmente)

Geraldo

Hoffmann,

quese consi­ dera o defensor

implacável

dos

despossuídos

docampo.Gostaria delembrá-lo

que

cada

jornalista

deve

responder

com

responsabili­

dade por

aquilo

que informa, ou

desinforma,

equese

deseja

de fato fazerdenúncias,que procure

algo

maissérioecom

fundamento,

que

explorar

aboafé

daquelas

famí­

lias de

imigrantes

poloneses (po­

lacoé

pejorativo)

que residemem

Ibiramahá mais de meio

século,

para fazersensacionalismo.

Não

bastasse

a praga da

corrupção

e osdesmandos de

um

governoquenadafaz

"pelo

social",

anatureza

também

se

rebelou

contra

osbrasileirose

brasileiras.

Enchentes,

secas, vendavaisechuvas de

granizo

colheram boa

parte

da

produ­

ção

agricola.

Incêndios

cri­ minosos

devastaram

enormes

extensões

de nossas escassas reservas

florestais.

A falta de

perspectivas

ar­

rastou

milhares

de brasileiros

a

aventuras

no

Exterior, prin­

cipalmente

na

Europa,

que, em

1992, passa

a serum

único

País.

Quem

não saiu empurra­

do

pela desesperança

foiven­

didono

tráfego

de

bebês.

E,lá

fora,

deu

Buch

(EUA),

Mítte­

rand

(França),

"NÃO"

a Pi­

nochet,

no

Chile,

"cessar fo­

go"

no

Golfo

Pérsico,

conferência

de

cúpula

em

Mirad

contesta

matéria

o

ano

da

repressão

Escreveu que os

agricultores

foram

tra8aceados

e vão pagar

pela

terra que ocupam, mas es­

queceu deescreverdequeforma

os

agricultores

de Ibirama vão reporaoscofres

públicos

os recur­ sosoriundos dos bolsos dos contri­

buintes,

utilizadosparapagamen­

to da

indenização expropriatória

-regularizações

fundiárias recen­

tesdemonstramqueos

agriculto­

resvêm

pagando

suasterrascom o

equivalente

aoitooudezsacosde

milho,

eainda emcincoanos.

Não

compreendo

a

intenção

do

jornalista

Geraldo Hoffmann

quando

acintosamente escreve

mentirassobreotrabalho

execu-O

Brasil, entretanto,

deuum

passo

largo

rumoà democrati­

zação.

Nas

eleições

muníci­

pais,

opovo demonstrou matu­

ridade

política.

Derrotou a

Nova

República,

simbolizada

no

PMOB

e no "Centrão" da

Constituinte

e votouna es­

querda.

A

estrela

do PT subiu alto e, agora,

aponta

o cami­ nho da

esperança

deum novo

Brasil.

Aos olhos e ouvídos

internacionais,

a

vítória

petís­

ta

é

aPerestroika brasileira. O

novo

Brasil,

porém,

deveser

definítivamente construído

a

partir

da

eleição

deumtraba­

lhador

à

Presidência

da Re­

pública

em 1989. Terminaum anode

pesade­

lo. Sob

constantes ameaças

de

golpe,

o Brasil

ganhou

uma

novaConstituição.

Embora

te­ nhamhavido

avanços

sociais,

ogoverno

manchou

aNova Carta. E o que é

pior:

com

sangue

de

trabalhadores

re­

primidos

e

mortos

nas gre­ vesque sacudiramo

País.

Na raíz da revolta

popular

está

uma

política

econômica

desa­

creditada,

que

empurrou

ain­

flação

para

1%

ao

dia,

emque umanota de

Cz$10

milnão vale mais nada.

O "arrozcom

feijão"

do mi­ nistro da

Fazenda,

Mailson

da

Nóbrega,

está

sendo cozido para

engordar

o

governo-e

os

empresários,

os

caloteiros.

Mantêm

famintos 70 milhões de

miseráveis,

às

custas

deum

acordo de cavalheiros com o

Fundo Monetário

Internacio-Essa tentativa

retrógrada

de exporoMIRADe osmovimentos

populares pela

reforma

agrária

em

posições

antagônicas,

parece­ meservirmuito maisaosinteres­

ses dos latifundiários do que á sociedade brasileira. A com­

preensão

exata do

papel

que deve assumir cada

segmento

envolvido

nessaluta foi

conquistada

amuito

custo, e não

pretendemos

abrir mão da

confiança

que

hoje

nos é

depositada,

pela

forma

irrespon­

sávele

maniqueísta

que

algumas

pessoas abordamosassuntosper­ tinentesâreforma

agrária.

Refiro-me â

"pérola

marrom"

publicada

na

edição

de Novembro do

jornal

Zero, comchamada de

tadocomseriedade

pelos

servido­

resdo MIRADemSanta

Catarina,

como a

entrega

de terrasalatifun­

diários

(edição

de

agosto)

ouqueo

delegadodoMIRADestaria

"infil­

trado" entre os

participantes

da

Romariada Terra

(edição

deou­

tubro).

A que

patrão

serve,

afinal,

posicionando-se

contraquembus­

cafazera

reforma

agrária?

Alexandre Inkotte

-Assessor de

Comunicação

Social do MI­

RAD/SC

edescendente de

polone­

ses.

N.R.: A carta não desmente a

reportagem.

Ao

contrário, confir­

maqueos

poloneses

pagamduas

vezes aterra.

2

ZERO

DEZ-88

(3)

o ZERO

publica

comexcluo sividadeo

diário

deumacamo

pado

da Fazenda

Taitalo,

em

Caçador.

O

texto,

manuscrito

emcaderno universitário por

Joacir Trindade

é

o

registro

de

um dos poucos aHabetizados

do

acampamento.

Serviu de

roteiro,

no último dia 27 de

outubro,

quando

mais de mil

trabalbadores

rurais sem-ter­

ra dramatizaram "in loco"a

ocupação

daárea.

Aqui

trans­

crevemosliteralmenteotexto do Joacir.

"Após

dois anos de

organíza­

ção

nascomunidadesnós

partí­

mosparauma

ocupação

de lati­

fúndiosno dia 30de outubro de 1987 as 11 horas da noite no

município

de

Campo

ErêeIrani.

Enquanto

os

'companheiros

se

reuniramum

companheiro

saiu

com umamoto para

envestigar

a estrada e ver se a area não

estava

guarnecida

e ver senão tinham

companheiros

prezo.

Perto da entrada da area o

companheiro persebeu

umaba­ reira de

polícia

passando

2vezes

pela

bareiraenão foi reconheci­

do,

voltando atras deusinalaos

caminhões os

quais

os compa­ nheiros se

dirigiam.

Vendo que a estrada esta­

vabaradapegaram outra estra­ da,aondese

dirigiam

afazenda

Campo

Grande.

Por volta das 5 horas dama­

nhã

chegaram

nolocaluma ca­ ravanade27caminhõese4 ôní­ bus.

Chegando

ao local os corn­

panheiros pediram permissão

para umafamílía que cuidava

para

entrar,

e afamilianãodeu ordem. Os

companheiros

sedes­ cidirameabriramo

portão

com as

próprias

mãos.Alémdacan­

seira dosono eda fome estavam todos animados

pela

vitóriade

conseguir

realizara

ocupação.

Eaoamanhecerodia realiza­

ram umaassembléiaecomeça­

ram a armar osbaracos.

Enquanto

o

tempo

se pas­

sa vaduranteodia escutamosno

rádio que 12 caminhões que

transportavam

os

companheí­

rosestavam prezos desdanoite

anterior com os

companheiros

nosolsem comerficando prezos

até o meio dia.

,

Nanoite do dia 31umgrupo de

companheiros

que foram bara­ dos se deslocaram da linha ca­

margo as 9 horas da noite em

médiade 700 pessoas

percorren­

do 24 K. a

pés crianças

com 6

anos

caregando

irmanzinhonas

costa.

Um senhor de idade de 68

anos

caregandoüü

K.nascostae maisuma

criança

de 5anos.

Um casal camsando na via­ gem acampam de não

poder

seguir

emfrente. Foram

obríga­

doapouzarnabeira da estrada

no dia

depois

os

companheiros

vieram emcontrar.

A comitiva

chegando

no rio

sargento

com20metros de Iar­ guras formaram uma comisão

,.

DIAS

DE

AGONIA

Sem-Terra

de 30 homens em questarn de

segurançapara pasaaspessoas

principalmente

as

crianças.

Seguindo

a caminhadatodos

com sono e comfome emuitos camsados fizeram uma

parada

para descanso 8 K.ls

longe

da

area.

Seguindo

emfrente

chegando

perto

da area deram falta de

umameninacom8anosde ida­ de. Formaramumacomissãode

3

companheiros

e voltaram a

procura da menina. Encontra­

ram amenina dormindonolocal onde fizerama

parada

acomís­ são voltandonolocal onde esta­

vam os

companheiros

esperan­

do

emtregaram

a

criança

para

os

pais.

Entrando

pelo

matoeseapro­

ximando daareapor volta das 9

horas da manhã do dia

primeiro.

Os

companheiros

que

esta­

vam na areaforam encontrara caravana

abraçando

os com­

panheirose ajudando

trazer as

mochilas.

Enquanto

os

companheiros

,;);/"

"" .". N"··.... ,"

:?"(���!�f'�,:;;;����'

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um menbro da U.D.R. fazendo varias

perguntas.

No dia 3 o oficial de

justiça

\

acompanhado

de dois

policias

chegaram

na area

exigindo

que

os sem terra

desocupasem

a areapara evitar queo

despejo

fose

realizado,

no mesmo dia

comesa as

mobílízações

da

poli­

cia.

Vindo

alguns policias

acamo

par 1000 métro

longe

da area

empedindo

aentradaesaídados

companheiros

ou

qualquer

pes­

soas que

quisessem

entrar. Os

companheiros

foram

impedido

de levar

crianças

para o

ospí­

tal.

Umamulher que estavapara

dar luza uma

criança

foi

obriga­

daa

ganhar

a

criança

embaixo do baraco. No dia4de novembro por volta das7horas da manhã

chegaram

nolocal1.800

policias

armados com fuzil baionetas bombas de

gás

e oBatalhão de

choque

alguns policias

com ca­

pas deasso etodo

tipo

dearma­

mento de gerracercandotodaa

aárea.

O oficial leu a eliminar de

despejo

dando meia hora de prazo para

desocupar

a area em

tão pouco

tempo,

negociaram

com o

juiz

e o

comandante

da

brigada

e

pediram

prazo mais

prolongado conseguindo

prazo atéomeio dia para

desocupar

a area numabase de 12.000 pes­

soas nas

quais

7.000eramcrían­

ças, Foram desmanchando os

baracos

estragando

as lonas e

alimentos saindo da area, sendo

obrigados

apasar porumabar­ reira de

polícia,

querevistaram todas as mochilas tirando os

facãms facas de mesa eferra­ mentas de trabalho. Varios

companheiros

foram prezosem­

trevistado

pela propria policia

logo

em

seguida

foram

jogado

emsima dos caminhãeseleva­ dos devoltaascomunidades de

origem.

des do

municipio

e do estado faziam festa comemorando a

vitória queelestiveram. Maisuma vesmostramosque

nossa

organização

foimais for­ te.

Reorganizamos

dois acam­

pamentos

um em linha Conti­

Quilombo

eoutroemlinha Tre­ visanem

Campo

Erê.

Éramos

três

acampamentos

Campo

Erê 600

Quilombo

200 e

Irani 400 durante 6 meses de

negociação

fazendo caravanas

de

companheiros

a

chapecó

Flo­

rianópolis

e até Brasilia 'não

conseguindo

solução

para o as­

sentamentodasfamíliasacamo

padas

dicidimos fazer a cami­ nhada

pela

reforma

agraria

.

Os

companheiros

dos 3acamo

pamentos

percoreramum

traje­

to de maisde150 K.a

abaixo de chuva esolsairam dia 26 de abril

chegando

em

Chapecó

dia1

de maio comemorando o dia do trabalhador entre cidade e

campo.

Uma

grande

comsentração

mais de1.000pessoas

partícípa­

rampermanesemos mais de 20

dias em

negosiação

com oMí­ rad. E não resolvendoo

proble­

ma voltamos para os acam­

pamentos

e resolvemos nova

ocupação

de latifundios. No dia 24 de maio a noite

os

companheiros

dos acampa­

mentos de Iranie

Quilombo

ríze­

ram uma

ocupação

naFazenda Volta Grande em Abelardo Luz.

No dia 25 de maio os com­

panheiros

de

Campo

Erêocupa­

ram aFazenda Roseiranomuni­

cípio

de Romelândia.

Permaneçemos

na areamais de 30 diasefomos

despejados

pela

policia,

aondeesses

companheí­

ros sofrerão mais de 30 horas

sem comer

jogados

amaioriana

comunidade deVila União e os

demaisnaLinhaTrevisan. Nós que estavanalinhaTrevi·

san

prendemos

a

caçamba

da

prefeitura

atéomeio dia

ejígín-do que soltassem

'os

5 compa­

nheiros que estavam prezos

pela

policia.

Por volta das 13 ho­

ras

chegou

um onibus com 60

policiais

todos

completamente

armados,para entrarno acam­

pamentoe

baternopessoal:

Mas nós tudo o que

tinha sofrido pegamosas

foiçe

e asferramen­ tas de trabalho e não deixa­

mosemtrarno

acampamento

se

elesnãosoltassemnossoseom­

panheiros

nós

queimava

ooní­ bus: Soltaram nossos compa­

nheiros quase mortos

arancaram a barba os cabe­ losecaminhavamemsima das costas. Num breve momentose

retiram do

acampamento

e fo­

rampra cidade.

Diário

de

urn

colono

DEZ-88

ZERO

3

Joacir

registrou

as

ocupações

de terra

que fizeram a caminhada dor­ miam os outros armavam os

baracos. Formamos uma co­

missãopara

negociar'

comopre­

feitoonde ficouprezoumcompa­

nheiro.

E outra comissão foiaFloria­

nópolis

para

negoçiar

ondenão foram recebidos

pelo

governa­ dor Pedro Ivo

Campos.

No

domingo

as 11 horas da noiteo

juiz

de

Campo

Erê maiso

prefeito

Darci Furtado assina­

ram aeliminar de

despejo.

No dia 2

chegam

no local

as

primeiras imvestigas

da

poli­

ciao

delegado

de

Campo

Erêe

, .

Os

companheiros

de Iraniem­

formadosofatoqueestavaacon­

teçendo

em

Campo

Erêsereuni­ rãono

acampamento

com uma

assenbléiaedisidiramde sair da

area parao assentamento vizi­

nho,

paraevitarque o

despejo

acontesesse onde permaneçe­

ram

acampado

na area da co­

munidade do assentamento. Como

despejo

de

Campo

Erê

ficou divididoos

companheiros

para

Quilombo

e

Campo

Erê,

emquanto

aUDR, as

autorída-Os

companheiros

da Víla União tentaram

negoçiar

com o

prefeito

de

Campo

Erênãocon­

seguiram

caminhães para vol­ tar resolveram fazer uma pa­

seata na cidade

parando

em

frente da

prefeitura agradeçen­

do por ele ser causador das 30 horas que as famílias ficaram

sem comer

prosegiram

apas­

seatafazendomais de 30 K.a

pés

até o

acampamento

de linha Trevisan.

�pois

de2mesesdasocupa­

ções

da Fazenda olta Grande

AbelardoLuzeda Fazenda Ro­ seira- Romelãndiaresolvemos

ocupara Fazenda Taitalo com 150familias....

"

N .R.:

Aqui

termina o diá­ rio, mas luta dessas familias

pelas

terras continua. Atual­ mente, estão

acampadas

no as­

sentamento Matos

Costa,

à es­

pera de que o Mirad libere a

Fazenda Taitalo.

. . . •

... 11

, ) f' J

(4)

OS

FLUTUANTES

Energia

e

Respiração

Rosemary

M. M.

Fabrin,

residentenaBeira MarNortee

criadora do MEHU

(Movi­

mento

Ecológico

Humanitário

Universal)

lamenta que

"os homens não entendem que

têm

umanatureza

interdependen­

te e que

precisam

de

ajuda

mútua,

por isso não tem o

direito de alterara

natureza,

que

ela nãonos

pertence".

Rosemary

reclama que

"pela

manhã,

na hora do rush aos

banheiros,

o cheiro fica insu­

portável,

além

de quenosdias de

vento

forte o mau cheiro entra nos

apartamentos

até

pelos

ralos".

Grandes

avenidas,

lindos

edifícios

e

um

cheiro

horrível

Engenheiros

da

F

ATMA_,

da OABAN

e

Jalila-PV_,

têm

propostas

para

tratar

o

esgoto

que

vai direto pro

mar.

ESGOTO

burguês

também

temmau

cheiro! Prova disso é

oodor

insuportável

da Beira Mar Norte. Nemmesmoper­ fumes

importados

conseguem

disfarçar

o fedor que, sem

pedir licença,

invadeos

apar­

tamentos da Avenida Rubens de Arruda Ramosnosdias de vento forte.

Engenheiros

da

FATMA, daCASAN,

ea verea­

dora

.JalilaEIAchkartêm

pro­

postas

parao

tratamento

de

esgotos,

que

atualmente

são

despejados

direto

no mar em

Florianópolis.

A FATMA

(Fundação

de

Amparo

à

Tecnologia

e ao

MeioAmbiente)

é

responsável

pelo

controle de

esgotos

da

parte

industrialede

empreen­

dimentos. O

professor

Domin­ gos

Alberto

Rocco,

da

gerên­

cia

regional

da FATMA em

Florianópolis,

acredita

que

a

contribuição

dos efluentes in­

dustriais

paraa

poluição

da Beira Mar

é quase

insignifi­

cante

se

comparada

com os

residenciais,

que

têm

seussis­

temas

de

esgoto

controlados

pelo

Departamento

de

Saúde

Pública

e

pela

CASAN.

O

engenheiro

Ronald

Sotschnig,

da

FATMA,

dispõe

deuma

equipe

pequena, ••por

isso damos

prioridade

às

52

p�

que

temos para fiscali­

zar, onde os resultados são mais

compensadores".

Sotschnig

acredita queos es­

gotos

da

capital

deveriamser

tratados

em uma

lagoa

dees­

tabífíaação.

OengenheiroGrover,

daCA­

SAN

(CompanhiaCatarinense

de

Águas

e

Saneamento),

ex­

plica

que estão construindo

uma

lagoa

de

estabilização

no

continente.

"Nós também

te­

mos um

projeto

para a cons­

trução

deuma

lagoa

na

ilha,

perto

do

aeroporto,

mas fal­ tam verbas. A

solução

seriaa

CASAN cobrar uma taxa da

comunidade,

porque o trata­ mento dos

esgotos

beneficia­ riaa

todos",

conclui.

Pontos

Criticos

O

departamento

de

química

da

UFSC está

trabalhandono

projeto

"Determinação

das

Condições

Ambientais das Baías Norte e Sul da Ilha de Santa

Catarina"

etem

convê­

nio com a

Universitá

degli

Studi di Venezia. Um dos re­

sultados encontrados

até ago­

rafoi queos

pontos

mais

críti­

cossão: onde entrao

despejo

daruaOthon

GamaD'eça;

sob

a

ponte

Hercilio Luze

perto

da

Assembléia

Legislativa,

na

Beira Mar Sul.

A coordenadora do

projeto

é

a

professora

Duartina Gos

As­

sunção.

O

objetivo principal

é

determinar

a

qualidade

das

águas

daBeira Marecom os

resultados

forçar

autoridades

e tomarem

providências.

Duartina

afirma que "em

muitos

locais

pesquisados

.

apenas

dois mg de

oxigênio

por litro de

água,

onde é im­

possível

a vida paraum ani­ mal

aquático".

Ela

explica

que onormal seria oito mg. "A

redução

do nivel de

oxigênio

é devido aos

poluentes

orgâni­

cos e

inorgânicos

e aos

deje­

tos

que

vão

direto para

omar,

sem nenhum

tratamento",

completa

a

professora.

Ôníbus

à

gás

A vereadora Jalila El

Ach-o cheirAch-o da Beira Mar nãAch-o

permite

que se

respire

fundo

kar,

eleita

pelo

Partido

Verde

em 15 de

novembro,

tem a

proposta

de

reconstrução

da rede de

esgotosna

cidade. Ela defendea

criação

de

pequenas

estações

de tratamento

para

que dos

dejetos

retire-se bío­

gás,

que é viável como com­

bustível

e

podería

serutilizado

nacozinhaou como

gerador

de eletricidade. Como diz

Jalila,

"estas

estações

se

auto paga­

riamemcinco anos,eos

recur­

sosparasua

construção

pode­

riam

vii-

do Poder

Público

ou

de

empresários

interessados

no

gás".

Outro

projetoque

avereado­

ra

pretende

defender

é

a

apro­

vação

do uso de

biogás

com

combustível

em

táxi

e

ônibus,

eJalila

garante

que este

gás

é

90%

menos

poluente

e

75%

mais

econômico

queosoutros

combustíveis.

Em São Pau­ loo usode

biogás

foi

aprovado

na

Câmara

de Vereadorese o

Sindicato dos Taxixtas de Flo­

rianópolis

tembém

aderiu

à

idéia.

"Outra

vantagem

é que

asfontes de

biogás

são

inesgo­

táveis,

poque o lixo e

esgoto,

matérias-primas

para esse

tratamento,

são

gerados

per­

manentemente

pelo

homem" ,

enfatiza Jalila.

O

engenheiro

Grover não

está

tao

entusiasmado

quanto

avereadora: "

A coisa não é tão

simples

assim,

é

muito mais

técnica

do que

parece".

diz.

Ana Lavratti

4

c o

ZERO

,

.

DEZ-88

.... ,,�����_. ,

(5)

Heróis

da

Resistência

Quemfaz

greve

paga.

Quem

não

faz ganha.

Filmes

pornográficos,

futuras

promoções,

pagamento

de

diárias

antecipadas

e

transporte

de gra­

ça.

Essesforam

alguns

dos

privi­

légios

dos

quais

os

funcionários

da Eletrosul que não aderiramagre­

ve,

dispuseram

nos

últimos

dias. Tudovale

quando

setrata deman­

teraempresaem

funcionamento,

até

mesmo a

formação

de grupos

de

operadores

aposentados,

esta­

giários

e pessoas da chefia que

atendem

pelo

nomede

"Comando

Delta". Desde o

ínicio

da

greve

esse

grupo

vemcolocando preca­

riamente as

estações

eusínas da empresaemfuncionamento.

Enquantoisso,doladodeforada

empresa, apesar das

demissões,

ameaçase

suspensões,

os

grevis­

tas continuam unidos no movi­ mento que

levaum

mês.

Aosom

da

Rádio

Pantaneira,

ummicrofo­

ne e

algumas

caixas desominsta­ ladas no

Centro

Comunitário do

Pantanal,

osfuncionários se dis­ traem com as brincadeiras de José Carlos

Leite,

umlocutor que

usade

todaasuacriatividade para

ironicamente

criticaraempresa.

Nos intervalos

comercias,

Leite

capricha

na

entonação

da voz e

solta o

slogan

bastante co­

nhecido: "Tudo está tão

bom,

tudo estatão

bem,

vem

prá

greve

pelego

vem".

A

programação

daPantaneira

começa

cedinhocoma"conversa

ao

no saco".

Depois

vem o

jornalismo

nagreve que situaos

funcionários

quanto.

as

negocia­

ções

através

do "Bom dia

grevis­

ta"e"Informes Sindicais". Para

a

descontração

do

pessoal

Leite

apresenta

oshow do Xuxo.Como

qualquer

rádio que se preze, a

Pantaneira

também

presta

servi­

ços

de

utilidade

pública,

como

informes doshorários dos

ônibus

KarlaBastos/Zero

ELETROSUL

Foto deKarlsBaatos

Sem

garantia

de emprego eles não voltamaotrabalho.

da

Pelegosul,

nomeoficial da Ele­

trosul,

dado

pelos

radialistas. A

rádio

criadanagreve

anterior,

é

segundo Leite,

umamaneira dos

grevistas

"botarem a boca no

mundo".

ondeascoisas sérias são ditasna

brincadeira",

acres­

centa.

Mentiras,

mentiras

Apelos

aos

funcionários para

voltaremaotrabalhocom

garan­

tias de atendimentocom achefiae

publicações

de editais

tranquílí­

zandoacomunidade de queosiste­

ma

eletricitário

nãosofre

riscos,

são

algumas

das

afirmações

que constroem o

"eastelo

de men­

tiras" da

Eletrosul.

Amais absur­

da,

segundo

os

grevistas,

foi a

declaração

do

presidente

da Ele­

trosul,

Paulo

Melro,

de queo

salá­

riomédio dos

funcionários

é de 700 milcruzados. Irritado com a de­

claração,

um

engenheiro

formado

25anos,duas

pós-graduações

e

17anosde

Eletrosul,

mostrouseu

contra-cheque

de 624 mil cruza­

dos: "Todos sabemos queo

salário

médio

da empresa não

chega

aos

300 mil. Nemeuque

cheguei

no

topo

da

pirâmede ganho

os 700 mil afirmados por Paulo Mel­

ro. Embora as

pessoas

tenham

a

impressão

de que somos ma­

rajás,

ao

contrário

somos a

ralé

do sistema

eletricitário",

protestou

o

engenheiro

que não

quis

seídentí­ ficar temendo

represálias

daem­

presa.

Negociações.

Quando?

A greve que

já completa

um

mês se

mantém

pela

garantia

de emprego e não mais

pelas

questões

econômicas

que

foram

parcialmente

atendidas.

Os

funcionários

recusam-se avol­ tar ao trabalho

enquanto

as 15 demisões e 50

punições

forem mantidas. Esse

impasse

envolveu

políticos

quecomo osenador Dir­

ceuCarneiro

(PMDB-SC),

defen­ de os

grevistas

na

qualidade

de intermediárionas

negociações

en­

tre

empresa,

governoe

funcioná­

rios.

Além

disso,

umacomissão for­ mada por

representantes

da inter­ sindical dos

quatro

estados ondea

empresa atua

(Paraná,

Santa Ca­

tarina,

RioGrande do SuleMato

Grosso)

e

parlamentares,

espe­

ram

há diasem

Brasília

uma

solução

para

o

impasse.

As infor­

mações

são de que falta ape­

nasumaatitude do Ministro das Minase

Energia,

Aureliano Cha­

ves, de quemseespera por fim à

intransigência

dos diretores da Eletrosul. O

problemí\

é quenum

dia Aureliano

está

viajando,

no

outro

está

como

machucado,

e

por

ai

vai....Como comenta um

grevista,

naverdade ele estáes­

corregando

como

sabonete,

que

umadecisãoafavor dosfuncioná­ rios

irá

desmoralizarachefia da empresa. O

grevista

João José Cascaes Dias acrescenta dizendo que a

questão

no momento

está

mais

para

Freud do que para Sar­ ney,

que o Ministro Aurelia­

no procurauma maneira de não desautorizar aempresa

publica­

mente,

apesar

de concordarcom

a:

reivindicação

dos

funcionários.

Reivindicações

Os 29 dos 31

ítens

da

pauta

de

reivindicações

dos

grevistas

fo­

ramdeixados

para

seremdiscuti­ dos

quandoos-funcionárioS

vólta­

remaotrabalho. O

presidente

da

Associação

dos Profissionais da

Eletrosul,

(APROSUL).

Cláudio

Corradini,

diz queas reivindica­

ções

visamacabarcomos

apadri­

nhamentose

extinguir

os

privilé­

gíos,

Os

funcionáriosexigem

ofim das

contratações

ea

convocação

de

eleições

para

díretoría.

Db

Goldschmidt

DEZ-88

ZERO

5

(6)

EDUCAÇÃO

DO

MENOR

nho: "Teve uma

época

que eu

tavacom o

braço

preto

detanto

levar beliscão deum

deles,

que

queria

chamar a minha aten­

ção".

De início o

projeto

da Escola

previa

o atendimento

misto,

mas as

condições

precá­

rias detrabalho, aliadasaonú­

mero pequeno de funcionários

para tomarconta detodaa ex­

tensão do

prédio,

criaram pro­ blemas

ligados

à sexualidade.

Assim,asmeninas deixaram de

seratendidas. "àsvezessurgem

casos de homossexualismo" ,

admite a

religiosa,

"etambém deconsumode

drogas".

Anor­ maénão fumar

aqui

dentro. Se

alguém

usamaconhaláfora a

gente

nota. Eles vêm

depressi­

vos ou

agressivos".

Mas,segun­ do

ela,

o furto tem sido um

problema

bem maior.

Os meninos não encaram o

furtocomo

algo

moralmenteer­

rado. Para eles, como o super­ mercadorouba, oque fazemao

surripar algum

objeto

é sim­

plesmente

um

ajuste

decontas. "Temos o cuidado para não in­ centivaraatitudenemrecrimi­

nar

severamente",

frisa. Nor­

malmente,

a

preferência

recai sobre chocolates e outros ali­

mentos,

ouentãoroupas tiradas devarais.

Aquestão

étrabalha­ dacom

tato, para

não

reforçar

um

comportamento

delituoso

nemestimulara

aceitação

pas­

siva das

desigualdades

sociais. Também

quanto

à

religião,

to­

ma-se o

cuidado

de enfatizara

formação espiritual

de forma

ecumênica,

sem

dogmas

e fór­ mulas

prontas.

Eofuturo?

"Alguns

saemda­

qui

e conseguem trabalho...",

dizairmã,

depois

deumapausa

mais

longa

queohabitual.E os

outros?Reticências...

Os

menores

recebem

alimentação

e

treinamento

profissional

Quem

visitaa Escola do Me­

norTrabalhador

pela primeira

vez eespera encontrar

algo

pa­ recido a um

colégio

convencio­ nal deve se preparar para um

choque.

Dentro do

prédio

antigo

píntado

de cor creme, na rua

VictorKonder, 53,centro de Flo­

rianópolis,

as

crianças

eadoles­ centes entre11e16anos

(todos

dosexomasculino)têmumpon­ to em comum facilmente per­

ceptivel

à

primeira

vista: a

agressividadelatente.

Elaserve para esconderaextremacarên­

cia deafetoe as marcas

impie­

dosas do cotidiano de

pobre­

za.

Fundadaem1984,aEscolado Menor Trabalhador deinícioera

administrada

pela

Secretaria Estadual da

Educação. Depois

foi assumida

pelas

irmãs da

Congregação

Salesiana

(atual­

mente

três),

que

junto

com 21

funcionários-entre

professores,

vigias,

assistentessociaisecozi­ nheiros- tomam conta de deze­

nas de meninos considerados

"desajustados" pelo

conceito­

padrão

da sociedade. Atualmen­ te há 80

matriculados,

dos

quais

50vêmsempree uns20,espora­

dicamente. Nãohálista de pre­

sençanaentidade, que é manti­ da

pela Fundação

Vidal Ra­

mos.Um dos

grandes

apelos

que levamosalunosa

frequentar

o

lugar

éodo

estômago:

são servi­ dos todososdias,

gratuitamen­

te,

café da manhã,

almoço

e

A

vez

do

menor

Fotosde MariaCristina JoshizatoeSimone Dias

lanche. Um

paraíso

para crian­ ças que, inúmerasvezes,

preci­

sam fazer pequenos furtos em

supermercados

para

poder

se

alimentar. A única

exigência

para usufruir da comida daes­

colaé

participar

deumdos "re­ cantos" - atividades

grupais

de

alfabetização,

arte,

esporte

ou

treinamento

profissional.

"Mas a

gente

nota que eles

gostam

daescola", diz a irmã Maria Teresinha Dalla Porta.

ounicoespaço queeles têm para extravassar.

Às

vezesaté

mesmo

quando

são suspensos.A

suspensão

éo

castigo

mais gra­ ve

aplicado

aosalunos,namaio­ ria dasvezes

quando

cometem

atos de

violênciaexagerada

con­

traos

companheiros

oufuncio­

nários.A irmãTeresinhatem26

anos, trabalha há

quatro

com

crianças

e desde fevereiroúlti­

mo

¥tá

na Escola do Menor Trabalhador- única entidade do

gênero registrada

emSanta Ca­ tarina.

Emfevereiro,o

'regimento

in­ ternofoi

aprovado pela

Secreta­ riada

Educação,

oque

permite

aosalunoscursar o

equivalente

às

quatro

primeiras

séries do

primeiro

grau. Caso vença os

conteúdos básicos - transmiti­

dos de maneira bemdiversa do ensinoformal-oestudante esta­

apto

aentrarna

quinta

série

quando

sair. Isto não acontece

com

frequência,

lamenta a ir­

mã, pois

amaioria dosmenores

entram na escola

analfabetos,

ou

vêm

expulsos

de outros estabelecimentos de ensino por não teremse

adaptado.

A linha

pedagógica

é a

dialética,

que visa preparar a

criança

para

desenvolvera

espírito

criticoem

relação

à sociedade. O horário

de funcionamento é das 8h às 17h, comfériasde fim deano e

atividades de lazerem

janeiro

e

fevereiro.

IrmãTeresinha

observaque,

_

curiosamente,

a

agressividade

dos meninosé usadatambémco-

Dauro Veras

moforma de demonstrar

cari-,,,

Leitura

sem

inocência

Aplicar

umtextodeBertold Brechtem

garotos

deruaque mal sabiam

ler, parecia

uma

idéia meioabsurda. Mesmo

(

assimresolvemosinsistir nelae ver oqueeles

conseguiam

captar

dahistóriados tubarões

eâos

peixinhos,

oqueera

sociedadee,

principalmente,

comoviamaescola

tradicional,

deondemuitos

foram

expulsos.

"O tubarão émalvado paraos

peixe.

Os tubarãocome os

peixe

no mar. O

peixe

tem que

fugir

dos tubarão. O tubarão maltrata os

peixe

no mar.O

prefeito

é tubarão

grande.

Os

peixe

tem que

respei­

tar os mais

grandes

no mar. Os tubarão são malvadoscom os

pei­

xes.Nomarchefe éotubarão. O

meusobrinho é

peixinho

e eu sou

tubarão. Nomartemvárias

espé­

cies de

peixe.

Seeufosse

peixinho

eusaiadomarpara

longe daqui.

Nós

peixes

vamosreuniruma

tur-'- ..ma para

espantar

os tubarão".

(Carlos)

"Eusou,um

peixinho,

sou

explo­

rado

pela

política.

Os tubarões são

mausporque acham queos

peixi­

nhos não servem para

nada;

servem para roubar,

matar,

an­

dar

sujos.

Na sociedadeos

peixi­

nhossão descriminados porquea

maioria são negros. Eu'sou um

peixinho

Jiscriminado porquesou

negro". (André).

"O

Sarney

é o tubarão porque

põe

a

polícia

pra cima denós.Os

peixinhos

são

aqueles

que não tem alimento paracomer.Ostubarões querem que os

peixinhos

obede­

çam'para eles

poder

comer. Os tubarões devia ensinar elesabrin­

car, sedivertirenão fazer artes. Os

peixinhos

devem

agradecer

suamãe. Eles devem terumacasa

feliz e

contente,

muito

longe

da­

qui".

(Marcos)

"Da

minha parte

quemé tuba­

rãoéoJosé

Sarney

ePedro Ivo. Os tubarão são os

prizidente

e os

prefeitos

que

gosta

denosmaltra­

taros

peíxínhos.que

sãonóselefaz nÓS paga

passagem",

(Ema­ nuel).

6

-ZERO

t)

DEZ-88

(7)

PERFIL

DO MENOR

o Futuro

do

país

fotos: MariaCristina JoshizatoeSimone Dias

A

Escola

do Menor Traba­ lhador

tenta

daraosmeninos

carentes

uma visão

crítica

sobre

arealidadeemque eles

vivem.

Fazer deles

garotos

críticos

e conscientes da in­

justiça

social.

"Agentes

da

Transformação",

define

Jú­

lio

Cesár

Broch,

com sua

experiência

de

quatro

anos como

professor

de

Educação

Física

das

crianças.

Sãome­

ninos carenteseaescola pre­

tende

orientaressarebeldia para

algo positivo. Aqui

co­

meça

a

revolução.

ninos

emfilaedeuas

ordens,

1, 2,

3,

4,

...

Seguidamente

levaa

garotada

paraoAterro da

Baía

Sul para

jogar

fute­

bol. Masnunca

apita

aspar­

tidas.

Deixa que elesacusem as

faltas

e decidam regras.

Júlio

logo

começou

asentira

relação

de

poder

entre eles. o mais forte sempre domina­

va.

"Agora

mudou muito. Antes era uma brincadeira

danada.

Pancadaria

geral.

A fila do

almoço

erauma

grita­

ria

só."

Muito

rebeldes,

os

meninos são

agressivos

a

primeira

vista.

"Ás

vezes eu

ficava

puto

com

eles",

admi­ te esse

gaúcho

de 33 anos, natural de

Espumoso.

"Po­

rém,

é

preciso

diálogo,

amor e

conquista".

Em seu

apartamento

no

Córrego

Grande,

Júlio con­

touumpouco sobreosmeni­

nos elevouumsusto

quando

se viu frente a umapergun­ ta: "E

qual

é ofuturo deles?"

"Queres

um

chimarão?",

desconversou

e foi

para

a

cozinha.

difícil saber. O que nós

tentamos

fazeré dar

aelesas

condições

paraque

possam

questionar

a

pobre­

za".

Na escola só entram

crianças

interessadasalere escrever

Ferrugem,

de 11 anos, bri­ gava muito. "Ele

quebrava

tudo

na

escola",

conta

Júlio.

uma grana

prà

casa". viviamnarua, atéumagang

da cidade foi ter aulas. "A

gente

olhava para o lado e

tinha

alguém

cheirando cola

ou fumando

maconha",

re­

vela. Nessa

época

acontece­

ram14assaltosnaescolae os

professores chegaram

acon­

clusãode que "nãoera essa a

clientela que nós

queria-mos".

Após

muitas discus­

sões,

eles decidiram man­

dar a gang embora e só

aceitar meninos que

quises­

sem realmente

aprender

a

lere escrever.

Na

relação

que mantém

com os

meninos,

Júlio

César

segue o sistema

preventivo

Dom Bosco e tenta ser o menos

repressivo

possível.

Júlio

conta que

logo

que foi

fundadaa

escola,

os

profes­

sores tinham apenas o co­

nhecimento teórico sobre o

trabalho com menores ca­

rentes. E haviam

figurinhas

ainda mais

difícieis

que Fer­

rugem. Eram meninos que

Ferrugem

moranoMorro do

Horácio,

mas

fugiu

de ca­ sa e

passou

mesesvivendona rua.

Hoje,

ele cuida decarros em frente a Macarronada Italianae todos os dias leva

André Rohde

Nas aulas de

educação

físi­ ca, ele

jamais

colocouos

me-o cme-otidianme-o

de

um

garoto

marginalizado

Aprendendo

a

Jogar

traamãe, Enendina, faxineira.Ele

nãolembradaidadedamãenemado

pai,

oSeu

Sérgio,

pintor

de

paredes.

Os irmãos estãoem casatambém:a

. Cleusa,de11 anos, a

Eliane,

com9

anos e oPaulo, de12

anos,'

além da Sônia

Aparecida,

aque fazo

almoço

todososdias.

Depois

de tomarem café . Antô­

nio adora cafécom

tão

doce - vão

todos assistir televisão. Os olhos de Antônio vibram

quando

come­

ça o filme do

"Esquadrão

Classe

A", na SBT. Estórias que prome­

tem bonssonhos.

Antônio temum

quarto

onde dor­

mem ele e oirmão Paulo. Os dois irmãosdormemem um

beliche,

em

cimaou embaixo,conformeavonta­ de. Esteéumdos

quatro quartos

da

casa,"Tembanheiro,tem

umasala,

cozinha,temum

pedacinho

decam­

pinho

ali atrás. Casa de

madeira,

nova,

grande,

é boa de morar." Tem

gente

lá dentro, tem

comida,

tem

cama, tem televisão, tem banhei­

ro com

laje!

Temmesmo? Dormir. Sonhar. O sonho

impossí­

veilabicicleta.Possíveísi

-Queria aprender

a ser

pintor.

- Ah! Uni

pintor,

um

artista,

um

pintor

de

quadros?

- Não,

pintor

de

parede.

- Pintor de

parede?

- Como o

pai,

ele tem uma vida melhor. Eu não

queria

ser

rico,

queira

serdo mesmo

tipo

quesou, eutenhouma boa

vida,

alegre,

nunca

fuitriste. Antônio Carlos de Souza tem 16

anos,mora no"Passo do Gado

perto

daProcasa,

perto

daMarinha,pra lá do

Estreito".

Mora

longe,

masquase todosos diasvem até à Escola do Menor Trabalhador, no centro da cidade. Ele é um desses

garotos

conhecidoscomo

garoto

de rua,ca­

rente,

marginalzinho. É provável

que

seja,

masmuito mais porqueos

outros

garotos,

os contextulizados,

queiram

assim.

Antônio ébonito?

É

Forte? Tam­ bém. Talvezumpouco baixo paraa sua idade - 1m e 50 de altura.

É

tímido, calmo,

um

tipo

de calmo que

ninguém gostaria

de ver ner­ voso.

dação,

diz queosnegros

jogavam

ca­

poeira quando apanhavam

dos bran­

cos.

"Nospalmaresosnegrosusavama

capoeira

para lutar contra os seus

inimigos. Que

navioé

esse/Que chegou

agora/É

onavio

negreiro

com os escra­ vos de

Angola/Vinham

di!>

longe,

de

Angola

eGuiné/Trouxerama macum­ baolê

lê/Capoeira

eCamdoblé",canta

animadamenteBeto.

Aos seus 13 anos, José

Altino,

o

Ferrugem,

não

gosta

de muito papo.

Ferrugem prefere

mesmoé mostraro

quesabe,

desempenhando

váriospas­

sosde

capoeira,

como orabo-de-arraia

e o

gato.

Rostosardento, estaturabai­

xa, ele antende que

"capoeira

é só para se defender".

Acompanhado

de um

catuto,

ba­

se do

berimbau, Guaraci,

15 anos,

écontra-mestrede

capoeira,

comum

ano de

prática.

Guaraci

explica

que todo ano se faz exame para que os

capoeiristas

passemdeumcordão pa­ raoutro, até

chegar

à

posição

máxima

de mestre. O iniciante na

capoeira

começacom ocordão

azul, seguindo-se

verde,amareloe,finalmenteo

branco,

paraomestre."Sabendofazertodosos

golpes,

o carapassa deumcordão para ooutro. Para

chegar

amestre é

preciso

7anos de

prática",

completa

Guara­ ci.

Roberto Carlos não

pára

de'can­ tar ebatucar. O ritmoe aletra das músicas é

contagíante

"Minhavidaé

capoeira/E

eu sou

capoeira/Olha

a

manha,

mandingae

oração/Capoeiraé

religião".

.

Os

menores

acham

que

a

capoeira instiga

o

entendimento

da

sociedade.

"Meu mestremefalouumdia/Meni­

no preste

atenção/Vou

te ensinar a

capoeira/Tenha

muita

devoção".

Aos

primeiros

acordes doberimbauaroda

sefecha,todos batem

palmas

ecomeça a

paixão

dos meninos da

Fundação

do Menor Trabalhador: a

capoeira.

To­ dasàs

terças

e

quintas

feirasà

tarde,

Mestre

Pop,

dono da academia "Be­ rimbaude

Ouro",

ensina esta arte que

veio dosescravosafricanosparauma

platéia

sempreinteressada. "Eu vim paraa

Fundação

porcausada

capoei­

ra,que éuma

dança

legal

edesenvol­

ve o

corpo",

diz

Edilson,

16 anos,

com

jeito

tímido.

Para estes

garotos

de

origem

sim­

ples,

o ensino da

capoeira instiga

a

consciência sociale oatendimentode

nossa sociedade. Roberto

Carlos,

15

anos,umanimado cantor dasletrasde

capoeira,

demonstra conhecimentoso­

breahistória desta

dança

noBrasil."O rei da

capoeira

é Zumbi dos Pal­

mares,o1o

capoeirista

dentrodasen­

zala",

afirma convicto.

Beto,

comoé

conhecido

pelos companheiros

da Fun-Sobreos seusdias, ele conta que

a

primeira sensação

ao'acordaréa

preguiça.

Levanta, lava o ros­ to...nem toma café e sai

logo

por

ai,

vaidarumasvoltas.

Antonio

frequenta

a Escola do Menor

• o

feijão,

a carne.

Antônio descansada

comida,

esco­ va os dentes - às vezes fica

com

preguiça:

nãoescovaos

dentes;

mas os

tem,

escova edentes. Os outros

garotos

se

surpreendem

com essas

coisas.

Depois

dáumavontade de sair...Antônio vai para a Escola.

Ficalá até darvontade de ir

embora,

pelas

4 horas da tarde.

Pega

o

ônibusdoMonteCristoevai paraa casa.

Desce do ônibus encontra ami­ gos, bons de bola.

Jogam.

Brin­

cam até anoitecer no campo sa­

pé.

Quase

9 horas da

noite,

Antônio

não

gosta

de

chegar

cedoem casa.

Estácansado,

vaiembora.Láencon-Quando

Antônio ficaemcasadu­ rantea

manhã, gosta

de soltar

pipa

emcima da

lage

dobanheiro.Solta

pipa,

assiste televisão, brinca de

dominó.Lembra da bicicleta

(a

bici­

cleta!)do

primo

evaiatéa casada

tia,afinal ele também temumatia. Resolve

jogar

umas

partidas

de si­

nuca com o

primo, "quem perde

paga"

-então osoutros

garotos

esta­

vam

certos,

o

marginalzinho

dos bareseda sinuca finalmente apare­ ceu,heim?

Depois

eles brincam de

lutinha,

capoeira, alguma

coisapraespan­

tar o frio.

É

hora do

almoço.

A irmã, Sônia

Aparecida,

que tam­ bém tem16 anos, preparaoarroz,

Milene Correa

Rubens

Vargas

, .... t

DEZ·88

ZERO

7

Referências

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