Notas de aula de ´ Algebra Linear
Programa de Ver˜ao 2012 B.6 - ´Algebra Linear (turma 2)
Gustavo de Lima Prado - [email protected] v1.1
Espa¸ co vetorial
Defini¸c˜ao 0.1. Seja X um conjunto n˜ao vazio. Uma opera¸c˜ao bin´aria sobre X ´e uma aplica¸c˜ao
∗:X×X →X
que, a cada par de elementos (x, y)∈X×X, associa um elemento x∗y∈X.
Exemplo 0.2. Seja N := {0,1,2,3, . . .} o conjunto dos n´umeros naturais.
Ent˜ao a adi¸c˜ao entre n´umeros naturais
+ : N×N → N (m, n) 7→ m+n
´
e uma opera¸c˜ao bin´aria sobre N.
Observa¸c˜ao 0.3. Denotaremos N∗ :=N\ {0}.
Defini¸c˜ao 0.4. Um conjunto n˜ao vazio K ´e um corpo se pudermos definir duas opera¸c˜oes bin´arias sobre K, + e ·, satisfazendo:
(a1) α+β=β+α, α, β ∈K
(a2) α+ (β+γ) = (α+β) +γ, α, β, γ ∈K (a3) existe 0∈K tal que α+ 0 =α, α∈K
(a4) para todo α∈K, existe −α∈K tal que α+ (−α) = 0 (m1) α.β =β.α, α, β ∈K
(m2) α.(β.γ) = (α.β).γ, α, β, γ ∈K (m3) existe 1∈K tal que α.1 = α, α∈K
(m4) para todo α∈K\ {0}, existe α−1 ∈K tal que α.α−1 = 1
(d) (α+β).γ =α.γ+β.γ, α, β, γ ∈K
Exemplo 0.5. Seja R o conjunto dos n´umeros reais. Ent˜aoR com a adi¸c˜ao entre n´umeros reais, +, e a multiplica¸c˜ao entre n´umeros reais,·, ´e um corpo.
Ainda, o conjunto dos n´umeros complexos, C :={a+bi : a, b∈ R}, com a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao entre n´umeros complexos tamb´em ´e um corpo.
Entretanto N com a adi¸c˜ao entre n´umeros naturais, +, e a multiplica¸c˜ao entre n´umeros naturais, ·, n˜ao ´e um corpo. De fato, j´a n˜ao vale (a4) (na verdade, n˜ao valem (a4) e (m4)).
Mostre que o conjunto dos n´umeros inteirosZcom a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao entre n´umeros inteiros n˜ao ´e um corpo.
Observa¸c˜ao 0.6. De agora em diante, procuraremos denotar a multiplica¸c˜ao entre dois elementos α, β ∈K, K um corpo, simplesmente por αβ :=α.β.
Ainda, observamos que, neste texto, os elementos de um corpo s˜ao chamados de escalares.
Defini¸c˜ao 0.7. Um conjunto n˜ao vazioV ´e umespa¸co vetorial sobre(um corpo) K se pudermos definir uma opera¸c˜ao bin´aria,+++++++++, e uma multiplica¸c˜ao por escalar, ·, sobre V:
+++++++++ : V ×V → V (u, v) 7→ u+++++++++v
·: K×V → V (α, v) 7→ α.v satisfazendo:
(A1) u+++++++++v =v+++++++++u, u, v ∈V
(A2) u+++++++++(v+++++++++w) = (u+++++++++v)+++++++++w, u, v, w ∈V (A3) existe →0∈V tal que u+++++++++→0 =u, u∈V
(A4) para todo u∈V, existe −u∈V tal que u+++++++++(−u) =→0 (M1) α.(β.u) = (αβ).u, α, β ∈K, u∈V
(M2) 1.u=u, u∈V, onde 1 ´e o elemento dado por (m3) (D1) α.(u+++++++++v) =α.u+++++++++α.v, α∈K, u, v ∈V
(D2) (α+β).u=α.u+++++++++β.u, α, β ∈K, u∈V
Observamos que os elementos de um espa¸co vetorial s˜ao chamados de vetores e, em particular, →0 ´e chamado de o vetor nulo de V. Ainda, um espa¸co vetorial sobre K tamb´em ´e chamado de um K-espa¸co vetorial.
Vejamos agora alguns exemplos de espa¸cos vetoriais.
Exemplo 0.8. Todo corpo K ´e K-espa¸co vetorial.
Com efeito, sejaKum corpo. Ent˜ao temos definidas duas opera¸c˜oes bin´arias, + e ·, sobre K, satisfazendo as propriedades mencionadas na defini¸c˜ao de corpo. Da´ı, pelas propriedades de (a1) at´e (a4), verificamos que + satisfaz as propriedades desde (A1) at´e (A4). Agora, por (m2), notamos que·satisfaz (M1) e, por (m1) e (m3), vemos que 1.u=u.1 =u, para todo u∈K, donde
· satisfaz (M2). Verifique agora que + e · satisfazem (D1) e (D2).
Exemplo 0.9. Sejam K um corpo e n ∈ N∗ = {1,2,3, . . .}. Ent˜ao Kn :=
{(α1, . . . , αn)∈K×· · ·×K:αi ∈K, i= 1, . . . , n}´e um espa¸co vetorial sobre K com a adi¸c˜ao entre vetores e a multiplica¸c˜ao por escalar feitas componente a componente, isto ´e:
+++++++++ : Kn×Kn → Kn
((a1, . . . , an),(b1, . . . , bn)) → (a1, . . . , an)+++++++++(b1, . . . , bn) :=
(a1+b1, . . . , an+bn)
·: K×Kn → Kn
(α,(b1, . . . , bn)) → α.(b1, . . . , bn) :=
(αb1, . . . , αbn)
Verifique este fato, ou seja, mostre que +++++++++ e · satisfazem as propriedades mencionadas na defini¸c˜ao de espa¸co vetorial.
Exemplo 0.10. C ´e um R-espa¸co vetorial com+++++++++ e · sendo tais que:
(a+bi)+++++++++(c+di) := (a+c) + (b+d)i, α.(c+di) := (αc) + (αd)i, a, b, c, d, α∈R. Verifique isto.
Exemplo 0.11. Seja K um corpo. Para todo m∈N∗, temos que o conjunto Pm(K) := {p(x) = anxn +· · ·+a1x+a0 : a0, . . . , an ∈ K,0 6 n 6 m} dos polinˆomios de grau menor ou igual a m (mais o nulo) com coeficientes em K´e um espa¸co vetorial sobre K com as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao entre polinˆomios e multiplica¸c˜ao por escalar.
Em particular, (a3x3+a2x2+a1x+a0)+++++++++(b1x+b0) = (a3+ 0)x3+ (a2+ 0)x2+ (a1+b1)x+ (a0+b0) e α.(b1x+b0) = (αb1)x+ (αb0).
Ainda, com estas mesmas opera¸c˜oes, o conjunto P(K) := {p(x) = anxn+
· · ·+a1x+a0 :a0, . . . , an∈K, n >0} dos polinˆomios com coeficientes em K tamb´em ´e um espa¸co vetorial sobre K.
Exemplo 0.12. Sejam X um conjunto n˜ao vazio e K um corpo. Ent˜ao o conjunto das fun¸c˜oes de X em K, F(X,K), ´e um K-espa¸co vetorial com+++++++++ e · sendo tais que:
(f+++++++++g)(x) := f(x) +g(x), (α.f)(x) := αf(x),
α ∈R, f, g ∈ F(X,K). Verifique este fato, isto ´e, veja que+++++++++ e · satisfazem as propriedades mencionadas na defini¸c˜ao de espa¸co vetorial.
Exemplo 0.13. Seja K um corpo. O conjunto das matrizes m × n com coeficientes em K, Mm×n(K) ´e um espa¸co vetorial sobre K com a adi¸c˜ao
entre matrizes e a multiplica¸c˜ao por escalar feitas entrada a entrada. Em particular,
(a
11a12 a13
a21a22 a23
)+++++++++(b
11b12b13
b21b22b23
)=(a
11+b11 a12+b12a13+b13
a21+b21 a22+b22a23+b23
)∈M2×3(K),
α.(b11 b12 b13
b21 b22 b23
)=(αb11αb12 αb13
αb21αb22 αb23
)∈M2×3(K).
A fim de termos mais com o que trabalhar, vejamos agora algumas proprie- dades de espa¸cos vetoriais.
Proposi¸c˜ao 0.14. Seja V um espa¸co vetorial sobre K. Ent˜ao o vetor nulo de V ´e ´unico.
Com efeito, suponhamos que existe ˜0∈V tal queu+˜0 = u, para todou∈V. Ent˜ao, em particular, tomando u=→0 , temos que→0 =→0 +˜0(A1)= ˜0+ →0(A3)= ˜0.
Proposi¸c˜ao 0.15. Sejam V um espa¸co vetorial sobre K e u ∈ V. Ent˜ao o vetor oposto de u, −u∈V, ´e ´unico.
De fato, suponhamos que existe ˜u ∈ V tal que u+ ˜u =→0 . Ent˜ao −u (A3)= (−u)+ →0 = (−u) + (u+ ˜u)(A2)= ((−u) +u) + ˜u(A1,A4)= →0 +˜u(A1,A3)= u.˜
Proposi¸c˜ao 0.16. Sejam V um espa¸co vetorial sobre K, α ∈ K e u ∈ V. Ent˜ao 0.u=→0 e α.→0 =→0. Ainda, se α.u=→0, ent˜ao α = 0 ou u=→0.
Mostremos que 0.u =→0 . De fato, por (A4), temos que existe −0.u ∈ V tal que 0.u+ (−0.u) =→0 . Da´ı, →0(A4)= 0.u+ (−0.u) (a3)= (0 + 0).u + (−0.u) (D2)= (0.u+ 0.u) + (−0.u)(A2)= 0.u+ (0.u+ (−0.u))(A4)= 0.u+→0(A3)= 0.u.
Mostremos agora que α.→0 =→0 . Com efeito, α.→0(A3)= α.(→0 +→0 )(D1)= α.→0 +α.→0 , donde →0(A4)= α.→0 +(−α.→0 ) = (α.→0 +α.→0 ) + (−α.→0 ) (A2)= α.→0 +(α.→0 +(−α.→0 ))(A4)= α.→0 +→0(A3)= α.→0 .
Finalmente, seja α.u =→0 . Suponhamos que α ̸= 0. Ent˜ao, por (m4), existe α−1 tal que αα−1 = 1. Da´ı, →0 = α−1. →0 = α−1.(α.u) (M= (α1) −1α).u (m1,m4)= 1.u(M2)= u.
Proposi¸c˜ao 0.17. SejamV um espa¸co vetorial sobreK, α∈Keu, v, w ∈V. Ent˜ao
1. (−α).u=α.(−u) = −(α.u) 2. −(−u) =u
3. u+v =u+w⇒v =w Exerc´ıcio.
Observa¸c˜ao 0.18. Denotaremos u−v := u+ (−v). Ainda, muitas vezes, denotaremos αu:=α.u, isto ´e, tamb´em omitiremos o ponto da multiplica¸c˜ao por escalar.
Base
Defini¸c˜ao 0.19. Seja V um espa¸co vetorial sobre K.
1. um vetor v ∈V ´e uma combina¸c˜ao linear (finita) de vetores v1, . . . , vn ∈ V se existem escalares α1, . . . , αn ∈ K tais que v = α1v1+· · ·+ αnvn.
2. Seja G ⊂ V um subconjunto qualquer de V. Dizemos que G gera V (ou que G ´e umconjunto gerador de V) se todo vetor de V for uma combina¸c˜ao linear de elementos de G.
Observa¸c˜ao 0.20. Destaquemos que uma combina¸c˜ao linear sempre ´e feita com uma quantidade finita de vetores.
Ainda, dizemos que uma combina¸c˜ao linear α1v1 +· · · +αnvn ´e trivial se α1 =α2 =· · ·=αn= 0 ∈K.
Observa¸c˜ao 0.21. Se V ´e um K-espa¸co vetorial e {v1, . . . , vn} ⊂V, ent˜ao o conjunto de todas as combina¸c˜oes lineares de v1, . . . , vn ´e novamente um K-espa¸co vetorial, denotado por[v1, . . . , vn]. Note que[v1, . . . , vn] := {α1v1+
· · ·+αnvn:α1, . . . , αn∈K}.
Para o caso n = 2, se γ ∈K e (α1v1+α2v2),(β1v1+β2v2)∈[v1, v2] s˜ao ele- mentos quaisquer, ent˜ao, usando as propriedades deV serK-espa¸co vetorial, obtemos que (α1v1+α2v2) + (β1v1+β2v2) = (α1+β1)v1+ (α2+β2)v2 ∈[v1, v2] e γ(β1v1+β2v2) = (γβ1)v1+ (γβ2)v2 ∈[v1, v2]. Conven¸ca-se de que, com esta adi¸c˜ao e com esta multiplica¸c˜ao por escalar, [v1, v2]´e um K-espa¸co vetorial.
Vejamos alguns exemplos.
Exemplo 0.22. SejamK um corpo en ∈N∗. Ent˜ao o conjunto dasn-uplas {(1,0, . . . ,0),(0,1,0, . . . ,0), . . . ,(0, . . . ,0,1)} ⊂ Kn ´e um conjunto gerador de Kn (sobre K). Com efeito, seja (α1, α2, . . . , αn) ∈ Kn ´e um elemento qualquer. Como (α1, α2, . . . , αn) = α1.(1,0, . . . ,0) +· · · +αn.(0, . . . ,0,1), segue que um elemento qualquer deKn´e uma combina¸c˜ao linear de elementos do conjunto acima.
Exemplo 0.23. Consideremos R2 como sendo espa¸co vetorial (sobre R).
Ent˜ao C := {(1,0),(0,1),(1,1)} ⊂ R2 gera R2. De fato, seja (r, s) ∈ R2. Como existem α, β, γ ∈ R, γ = s2, β = s2 e α = r − s2, tais que (r, s) = α(1,0) +β(0,1) +γ(1,1), segue que C gera R2. Assim, por este exemplo e pelo anterior, vemos que um espa¸co vetorial (sobre algum corpo) pode admitir diferentes conjuntos geradores.
Exemplo 0.24. {1, i} ⊂C ´e um conjunto gerador de C (sobre R).
Exemplo 0.25. {1, x, x2, . . . , xm} ⊂ Pm(K)´e um conjunto gerador dePm(K) (sobre K) e{1, x, x2, . . .} ⊂ P(K)´e um conjunto gerador deP(K)(sobre K).
Exemplo 0.26. {(1,0),(0,1)} ⊂ C2 n˜ao ´e um conjunto gerador de C2 so- bre R, pois existe (i,0) ∈ C2 tal que (i,0) ̸= α(1,0) +β(0,1), para todo
α, β ∈ R. Aqui vemos que a estrutura do espa¸co vetorial (o conjunto n˜ao vazio, o corpo e as opera¸c˜oes satisfazendo as propriedades) ´e essencial na hora de dizermos se um conjunto ´e ou n˜ao gerador dele. Verificamos que {(1,0),(0,1)} n˜ao ´e gerador. Precisamos ent˜ao de mais ”gente”. Por exem- plo, {(1,0),(0,1),(i,0),(0, i)} j´a ´e um conjunto gerador de C2 sobre R. Ve- rifique.
Proposi¸c˜ao 0.27. Seja V um K-espa¸co vetorial. Se B ⊂ C ⊂ V e B ´e um conjunto gerador de V, ent˜ao C tamb´em o ´e.
De fato, seja u ∈ V. Como B gera V, ent˜ao existem αi ∈ K, ui ∈ B, com i = 1, . . . , m, tais que u = α1u1 +· · ·+αmum. Mas B ⊂ C. Logo, ui ∈ C, para todo i= 1, . . . , m. Portanto, C gera V.
Observa¸c˜ao 0.28. Inicialmente, consideremos o espa¸co vetorial unit´ario {→0} (defina opera¸c˜oes, + e ·, neste conjunto e conven¸ca-se de que ele ´e um espa¸co vetorial (sobre qualquer corpo)). Feito isto, temos que conjunto {→0} ⊂ {→0} gera o espa¸co vetorial {→0}, pois sempre ´e poss´ıvel escrevermos a seguinte combina¸c˜ao linear: →0 = 0.→0.
De um modo mais geral, se V ´e um espa¸co vetorial sobre K, ent˜ao o conjunto V ⊂ V sempre ´e um conjunto gerador do espa¸co vetorial V. De fato, seja v ∈V um vetor qualquer. Desde que, por (M2), v = 1.v, segue que v ´e uma combina¸c˜ao linear de elementos de V (s´o precisamos usar o pr´oprio vetor).
Portanto, V sempre gera V. Ser´a que existe G ⊂V tal que G ̸=V e G gera V?
Defini¸c˜ao 0.29. Sejam V um K-espa¸co vetorial e B ⊂ V um subconjunto qualquer. Dizemos que B ´e linearmente independente (LI) se toda com- bina¸c˜ao linear de vetores deBresultando no vetor nulo for tal que os escalares j´a sejam todos nulos, isto ´e, seα1v1+· · ·+αnvn=→0, comαi ∈K, vi ∈ B, im- plicar que α1 =· · ·=αn = 0. E dizemos queB´e linearmente dependente (LD) se n˜ao for LI.
Observa¸c˜ao 0.30. Explicitamente, dizemos que B ⊂ V, V um K-espa¸co vetorial, ´e LD quando o vetor nulo for uma combina¸c˜ao linear n˜ao trivial de elementos de B.
Observa¸c˜ao 0.31. Todo conjunto contendo o vetor nulo ´e LD. Por quˆe?
SejamV um espa¸co vetorial (sobre algum corpo) ev ∈V um vetor n˜ao nulo.
Ent˜ao {v} ´e LI. Por quˆe?
Exemplo 0.32. Notemos que se consideramos C como C-espa¸co vetorial obtemos que {1, i} ⊂ C ´e LD e se consideramos C como R-espa¸co vetorial segue que{1, i} ⊂C´e LI. Aqui verificamos que a estrutura do espa¸co vetorial (o conjunto n˜ao vazio, o corpo e as opera¸c˜oes satisfazendo as propriedades)
´
e crucial no momento de dizermos se um conjunto ´e ou n˜ao LI.
Exemplo 0.33. {senx,cosx} subconjunto do R-espa¸co vetorial das fun¸c˜oes cont´ınuas de [0,2π] em R, C([0,2π],R), ´e LI. De fato, sejam α, β ∈ R tais que αsenx+βcosx=→0. Mas esta igualdade deve valer para todo o dom´ınio das fun¸c˜oes. Logo, tomando orax= 0, ora x=π/2, obtemos queβ= 0 =α.
Proposi¸c˜ao 0.34. Seja V um K-espa¸co vetorial. Se B ⊂ C ⊂ V e C ´e um conjunto LI, ent˜ao B tamb´em o ´e.
Com efeito, sejam αi ∈ K, ui ∈ B, com i = 1, . . . , m, tais que α1u1+· · ·+ αmum =→0 . Mas B ⊂ C. Logo, ui ∈ C, para todo i= 1, . . . , m. Como C ´e LI, segue que α1 =· · ·=αm = 0 ∈K. Portanto, B´e LI.
Defini¸c˜ao 0.35. Seja V um espa¸co vetorial (sobre algum corpo). Dizemos que um subconjunto B ⊂V ´e uma base de V se B for um conjunto gerador de V e LI.
Retomemos alguns exemplos.
Exemplo 0.36. SejamK um corpo en ∈N∗. Ent˜ao o conjunto dasn-uplas BC :={(1,0, . . . ,0),(0,1,0, . . . ,0), . . . ,(0, . . . ,0,1)} ⊂Kn ´e uma base de Kn (sobre K), chamada de base canˆonica de Kn.
Exemplo 0.37. {(1,2),(3,1)} ⊂R2 ´e uma base de R2 (sobre R). De fato, mostremos inicialmente que A := {(1,2),(3,1)} gera R2. Seja (r, s) ∈ R2 um elemento qualquer. Escrevendo (r, s) = x(1,2) +y(3,1), com x, y ∈ R, e resolvendo o sistema (em x e y), obtemos que x = 3s5−r e y = 2r5−s s˜ao escalares tais que (r, s)´e combina¸c˜ao linear de vetores deA. Vejamos agora que A ´e LI. Escrevendo (0,0) = α(1,2) +β(3,1), com α, β ∈ R, segue que α + 3β = 0 e 2α +β = 0, donde α = −3β e −5β = 0. Logo, devemos ter α = β = 0. Portanto, A ´e base. Notemos que, pelo exemplo anterior, BC ={(1,0),(0,1)} tamb´em ´e base deR2. Logo, um espa¸co vetorial pode ter mais de uma base.
Exemplo 0.38. {1, i} ⊂ C ´e uma base de C (considerado como R-espa¸co vetorial).
Exemplo 0.39. {1, x, x2, . . . , xm} ´e uma base de Pm(K) e {1, x, x2, . . .} ´e uma base de P(K), chamadas de bases canˆonicas respectivamente de Pm(K) e P(K). Verifique que {1, x, x2+ 1} ⊂ P2(K) tamb´em ´e uma base de P2(K).
Espa¸ co vetorial finitamente gerado
Defini¸c˜ao 0.40. Dizemos que um espa¸co vetorial (sobre algum corpo) ´e fi- nitamente gerado se admitir um conjunto gerador finito.
Proposi¸c˜ao 0.41. Seja V um K-espa¸co vetorial finitamente gerado por um conjunto {v1, . . . , vm} ⊂V. Ent˜ao todo subconjunto LI de V tem no m´aximo m elementos.
Seja A := {u1, . . . , un} ⊂ V, com n > m. Mostremos que A ´e LD. Seja 16j 6n. Ent˜aouj =α1jv1+· · ·αmjvm (*), para algum α1j, . . . , αmj ∈K, pois {v1, . . . , vm} ´e gerador. Consideremos uma combina¸c˜ao linear qual- quer de vetores de A, λ1u1 + · · · + λnun, com λi ∈ K, para todo i =
1, . . . , n. Ent˜ao λ1u1 +· · ·+λnun = ∑n
j=1λjuj (=∗) ∑n
j=1λj(∑m
i=1αijvi) (D1)
∑n =
j=1
∑m
i=1λj(αijvi) (M1)= ∑n j=1
∑m
i=1(λjαij)vi = ∑m i=1
(∑n
j=1(λjαij))
vi (**).
Agora, simplesmente, consideremos o seguinte sistema de equa¸c˜oes:
∑n
j=1(λjα1j) = 0
∑n
j=1(λjα2j) = 0 ...
∑n
j=1(λjαmj) = 0
Como este sistema homogˆeneo tem mais inc´ognitas λ1, . . . , λn do que equa-
¸c˜oes (pois n > m), segue que ele admite uma solu¸c˜ao n˜ao trivial, ou seja, existem γ1, . . . , γn ∈Kn˜ao todos nulos tais que ∑n
j=1(γjαij) = 0, para todo i= 1, . . . , m. Logo, tomandoλj =γj em (**), obtemosγ1u1+· · ·+γnun =→0 , com γ1, . . . , γn∈K n˜ao todos nulos. Logo, A ´e LD.
Exerc´ıcio 0.42. Usando as propriedades de espa¸co vetorial, verifique que
∑3 j=1
(∑2
i=1(λjαij)vi
)=∑2 i=1
(∑3
j=1(λjαij)) vi.
Corol´ario 0.43. Seja V ̸= {→0} um K-espa¸co vetorial finitamente gerado.
Ent˜ao duas bases quaisquer de V tˆem o mesmo n´umero de elementos.
De fato, sejam C,D duas bases de V. Desde que V ´e finitamente gerado e C e D s˜ao LI, ent˜ao, pela proposi¸c˜ao anterior, C e D s˜ao conjuntos finitos (digamos que com c > 0 e d > 0 elementos respectivamente). Mas C ´e um conjunto LI num espa¸co vetorial finitamente gerado por D, donde c 6 d.
Analogamente, D ´e um conjunto LI num espa¸co vetorial finitamente gerado C, donded6c. Portanto, c=d.
Defini¸c˜ao 0.44. SejaV umK-espa¸co vetorial. SeV for finitamente gerado, chamamos o n´umero de elementos de uma base de V simplesmente de di- mens˜ao de V (sobre K). Caso contr´ario, isto ´e, se V n˜ao for finitamente gerado, dizemos que a dimens˜ao deV (sobreK) ´e infinita. Nota¸c˜ao: dimKV.
Observa¸c˜ao 0.45. Usando a conven¸c˜ao de que o conjunto vazio ∅ ´e uma base para o espa¸co vetorial unit´ario U := {→0}, temos que dimKU = 0. De fato, os ´unicos subconjuntos de U s˜ao ∅ e {→0}. Como {→0} ⊂ U gera U, mas ´e LD, segue que n˜ao pode ser base de U. Da´ı, a ´unica base de U ´e ∅ e faz sentido escrevermos dimK{→0}= 0 (que ´e o n´umero de elementos de uma base qualquer de {→0}). Na verdade, dimKV = 0 se, e somente se,V ={→0}. Exemplo 0.46.
dimKK= 1, dimCC= 1, dimRC= 2, dimKKn=n,
dimKPm(K) =m+ 1, pois {1, x, . . . , xm} ⊂ Pm(K)´e base, dimKP(K) = ∞, pois {1, x, . . .} ⊂ P(K) ´e base,
dimKMm×n(K) = m.n. Por exemplo, para o caso m = n = 2, {(1 0
0 0
), (0 1
0 0
),(0 0
1 0
),(0 0
0 1
)} ⊂M2×2(K)´e base, chamada de base canˆonica deM2×2(K), donde dimKM2×2(K) = 4 = 2.2. A partir deste exemplo, que subconjunto de M3×2(K) seria a base canˆonica de M3×2(K)?
Corol´ario 0.47. Seja V umK-espa¸co vetorial, comdimKV =n >0. Ent˜ao 1. todo conjunto de vetores de V com mais do que n vetores ´e LD.
2. todo conjunto de vetores de V com menos do que n vetores n˜ao gera V.
Exerc´ıcio (use a proposi¸c˜ao anterior).
Proposi¸c˜ao 0.48. Seja V um K-espa¸co vetorial. Seja C ⊂ V, C LI. Se existe v ∈V que n˜ao ´e combina¸c˜ao linear de elementos de C, ent˜ao C ∪ {v}
´ e LI.
De fato, sejav ∈V qualquer. Sejac:=α1v1+· · ·+αnvn+βv uma combina¸c˜ao linear qualquer de vetores de C ∪ {v}. Suponhamos que c´e o vetor nulo. Se β ̸= 0, ent˜ao v = −α1βv1+· · ·+ −αnβvn. Logo, se v n˜ao ´e combina¸c˜ao linear de elementos de C, ent˜ao β deve ser 0. Da´ı, α1v1+· · ·+αnvn =→0 e portanto, como C ´e LI e v1, . . . , vn ∈ C, temos que α1 =· · ·=αn = 0. AssimC ∪ {v}´e LI.
Teorema 0.49. Todo espa¸co vetorial finitamente gerado possui uma base.
De fato, seja V um K-espa¸co vetorial finitamente gerado. Suponhamos que V ´e gerado por um conjunto com n > 0 elementos. Ent˜ao existe v1 ∈ V, v1 ̸=→0 . Temos que {v1} ´e LI. Se {v1} gera V, ent˜ao {v1} ´e base de V e acabou. Caso contr´ario, ent˜ao existe v2 ∈ V tal que v2 n˜ao ´e combina¸c˜ao linear dev1 e pela preposi¸c˜ao anterior{v1, v2}´e LI. Se{v1, v2}geraV, ent˜ao
´
e base e acabou. Sen˜ao, como, por uma proposi¸c˜ao anterior, n˜ao ´e poss´ıvel termos um subconjunto LI de V com n+ 1 elementos, ent˜ao, pelo menos no n-´esimo passo, obteremos um conjunto {v1, v2, . . . , vn} (LI pela preposi¸c˜ao anterior aplicada v´arias vezes) que dever´a gerar V e portanto ser´a base de V (notemos que este processo pode parar antes de n). Finalmente, observemos que se V ´e gerado por um conjunto com 0 elementos, ent˜ao V = {→0} e ∅ ´e uma base de {→0}.
Usando a mesma id´eia da demonstra¸c˜ao acima, verifiquemos o seguinte re- sultado:
Proposi¸c˜ao 0.50. Seja V um K-espa¸co vetorial finitamente gerado. Seja C ⊂ V, C LI. Ent˜ao existe uma base de V que cont´em C.
Com efeito, suponhamos queV ´e gerado por um conjunto comm>0 vetores.
Se C gera V, ent˜ao C ´e base de V e acabou. Caso contr´ario, ent˜ao existe u1 ∈ V tal que u1 n˜ao ´e combina¸c˜ao linear de elementos de C e portanto C ∪{u1}´e LI. SeC ∪{u1}geraV, ent˜aoC ∪{u1}´e base deV e acabou. Sen˜ao,
desde que n˜ao ´e poss´ıvel termos um subconjunto LI deV comm+ 1 vetores, ent˜ao, pelo menos nom-´esimo passo, obteremos um conjuntoC∪{u1, . . . , um} (LI pela preposi¸c˜ao anterior aplicada v´arias vezes) que dever´a gerar V e portanto ser´a base de V (notemos que este processo pode parar antes dem).
Exemplo 0.51. Consideremos (1,3,1)∈ R3. Como exibir uma base de R3 que cont´em C := {(1,3,1)}? Consideremos o conjunto de todas as com- bina¸c˜oes lineares de (1,3,1), isto ´e, [(1,3,1)] = {(α,3α, α)|α ∈ R}. To- mando, por exemplo,(1,3,0)∈R3, temos que(1,3,0)̸= (α,3α, α), para todo α ∈ R, donde D := C ∪ {(1,3,0)} ´e LI. Consideremos agora o conjunto de todas as combina¸c˜oes lineares de (1,3,1),(1,3,0), isto ´e, [(1,3,1),(1,3,0)] = {(α+β,3α+ 3β, α)|α, β ∈ R}. Tomando, por exemplo, (1,0,0) ∈ R3, se- gue que (1,0,0) ̸= (α+ β,3α + 3β, α), para todo α, β ∈ R, donde E :=
C ∪ {(1,3,0),(1,0,0)} ´e LI. Como existe uma base de R3 que cont´em E e como toda base de R3 tem exatamente 3 elementos (dimRR3 = 3), ent˜ao E ´e uma base de R3.
Proposi¸c˜ao 0.52. Seja V umK-espa¸co vetorial, comdimKV =n >0. Seja C ⊂ V. Ent˜ao as condi¸c˜oes abaixo s˜ao equivalentes:
1. C ´e base de V;
2. cada vetor de V se escreve de maneira ´unica como combina¸c˜ao linear de elementos de C.
De fato, suponhamos inicialmente que C ´e base de V. Como dimKV = n, podemos escrever C :={v1, . . . , vn}. Seja v ∈V qualquer. Desde que C gera V, existemα1, . . . , αn∈Ktais quev =α1v1+· · ·+αnvn. Suponhamos ent˜ao quev =β1v1+· · ·+βnvn, para algumβ1, . . . , βn ∈K. Da´ı,α1v1+· · ·+αnvn= β1v1+· · ·+βnvn e portanto (α1 −β1)v1+· · ·+ (αn−βn)vn =→0 . Como C
´
e LI, segue que (α1−β1) = · · ·= (αn−βn) = 0 e portanto v se escreve de
forma ´unica como combina¸c˜ao linear de elementos deC.
Reciprocamente, suponhamos que todo vetor deV se escreve de modo ´unico como combina¸c˜ao linear de elementos de C. Da´ı, j´a obtemos que C gera V. Mostremos que C ´e LI. Com efeito, consideremos uma combina¸c˜ao linear qualquer, c := γ1u1 +· · ·+γmum, de vetores de C. Suponhamos que c ´e o vetor nulo, isto ´e, γ1u1+· · ·+γmum =→0 . Mas →0 = 0u1+· · ·+ 0um. Desde que→0∈V se escreve de maneira ´unica como combina¸c˜ao linear de elementos de C, ent˜aoγ1 =· · ·=γm = 0. Portanto,C ´e base de V.
Exemplo 0.53. Consideremos C := {(1,0,0),(0,1,0),(1,1,0)} ⊂ R3. No- temos que (1,1,0) = 0.(1,0,0) + 0.(0,1,0) + 1.(1,1,0) e tamb´em (1,1,0) = 1.(1,0,0) + 1.(0,1,0) + 0.(1,1,0). Da´ı, (1,1,0) n˜ao se escreve de maneira
´
unica como combina¸c˜ao linear de elementos de C e portanto C n˜ao ´e base de R3.
Exemplo 0.54. Consideremos C := {2, x, 3x+ 5} ⊂ P1(R). Observemos que x+ 1 = 12.222 + 1.xxx+ 0.(3x3x3x+ 5+ 5+ 5) e tamb´em x+ 1 = (−2).222 + (−2).xxx+ 1.(3x3x3x+ 5+ 5+ 5). Assim, x+ 1 n˜ao se escreve de forma ´unica como combina¸c˜ao linear de elementos de C e portanto C n˜ao ´e base de P1(R).
Coordenadas
Usando a proposi¸c˜ao anterior, vejamos uma forma de identificar umK-espa¸co vetorial finitamente gerado qualquer com Kn, para algum n∈N∗.
Observa¸c˜ao 0.55. Seja V um K-espa¸co vetorial, com dimKV = n > 0.
Notemos que, ao considerarmos uma base B := {v1, . . . , vn}, ent˜ao, pela proposi¸c˜ao anterior, dadov ∈V, existem ´unicos escalaresα1, . . . , αn tais que v =α1v1+· · ·+αnvn. Se considerarmos ainda que B ´e uma base ordenada, isto ´e, uma base onde a ordem em que os vetores s˜ao dados importa, podemos identificar v ∈V com (α1, . . . , αn)∈K. Ao considerarmos bases ordenadas,
temos, por exemplo, que B = {v1, v2, v3, . . . , vn} ̸= {v2, v1, v3, . . . , vn} =: B′ (ambos, B e B’, s˜ao bases, mas vistos como bases ordenadas s˜ao diferentes).
Defini¸c˜ao 0.56. Seja V um K-espa¸co vetorial finitamente gerado. Seja B := {v1, . . . , vn} uma base ordenada de V. Seja v ∈ V. Dizemos que (α1, . . . , αn)B ∈Kn ´e a n-upla das coordenadas de v com rela¸c˜ao `a base B se v =α1v1+· · ·+αnvn. Nota¸c˜ao: [v]B := (α1, . . . , αn)B.
Observa¸c˜ao 0.57. Quando n˜ao houver risco de confus˜ao, escreveremos sim- plesmente [v]B := (α1, . . . , αn).
Exemplo 0.58. J´a vimos queC :={(1,2),(3,1)},BC ={(1,0),(0,1)} ⊂R2 s˜ao bases de R2. Considerando-as ordenadas, temos que Ce:={(3,1),(1,2)}, BfC := {(0,1),(1,0)} ⊂ R2 s˜ao outras duas bases de R2. Consideremos (2,−1)∈ R2. Temos que [(2,−1)]C = (−1,1)C, pois (2,−1) = (−1).(1,2) + 1.(3,1). Ainda, [(2,−1)]BC = (2,−1)BC, pois (2,−1) = 2.(1,0) + (−1).(0,1).
Notemos ainda que [(2,−1)]Ce= (1,−1)Ce e [(2,−1)]Bf
C = (−1,2)Bf
C. Logo, as coordenadas de um dado vetor variam conforme mudamos a base do espa¸co vetorial.
Exemplo 0.59. Seja (α1, α2, . . . , αn) ∈ Kn qualquer. Consideremos BC = {(1,0, . . . ,0),(0,1,0, . . . ,0), . . . ,(0, . . . ,0,1)} ⊂ Kn a base canˆonica de Kn. Desde que (α1, α2, . . . , αn) = α1(1,0, . . . ,0) + α2(0,1,0, . . . ,0) + · · ·+ αn(0, . . . ,0,1), ent˜ao as coordenadas do vetor (α1, α2, . . . , αn) com rela¸c˜ao
`
a BC s˜ao [(α1, α2, . . . , αn)]BC = (α1, α2, . . . , αn).
Exemplo 0.60. Seja p(x) := a2x2 +a1x +a0 ∈ P2(K) qualquer. Con- sideremos BC = {1, x, x2} ⊂ P2(K) a base canˆonica de P2(K). Como p(x) = a2.xxx222+a1.xxx+a0.111, ent˜ao as coordenadas do vetor p(x) com rela¸c˜ao
`
a BC s˜ao [p(x)]BC = (a0, a1, a2).
Subespa¸ co vetorial
Defini¸c˜ao 0.61. Seja V um espa¸co vetorial sobre K. Dizemos que um subconjunto W ⊂ V ´e um subespa¸co vetorial de V se a restri¸c˜ao das opera¸c˜oes de V a W o tornarem um espa¸co vetorial sobre K.
Observa¸c˜ao 0.62. Ou seja, a restri¸c˜ao das opera¸c˜oes+++++++++e·deV aW devem ser tais que
+++
++++++ : W ×W ∋(u, v) 7→ u+++++++++v ∈W
·: K×W ∋(α, v) 7→ α.v∈W
e as propriedades de espa¸co vetorial sejam satisfeitas (com W no lugar de V).
Exemplo 0.63. Se V ´e um K-espa¸co vetorial, ent˜ao {→0} ⊂V e V ⊂V s˜ao subespa¸cos vetoriais de V, chamados de subespa¸cos triviais de V.
Proposi¸c˜ao 0.64. Seja V um K-espa¸co vetorial. Seja W ⊂ V um subcon- junto qualquer. Ent˜ao W ´e um subespa¸co vetorial de V se, e somente se, as condi¸c˜oes abaixo valem:
1. se →0 ´e o vetor nulo de V, ent˜ao →0∈W, 2. se u, v ∈W, ent˜ao u+++++++++v ∈W,
3. se α∈K e u∈W, ent˜ao α.u∈W. Exerc´ıcio.
Observa¸c˜ao 0.65. Se V ´e um K-espa¸co vetorial e C ⊂V ´e um subconjunto qualquer de V, ent˜ao podemos considerar o conjunto de todas as combina¸c˜oes lineares de elementos de C, denotado por [C]. Ent˜ao [C] ´e um subespa¸co vetorial de V, chamado de subespa¸co de V gerado por C. Se C ´e LI, ent˜ao C
´
e uma base de [C]. Notemos que se C :={v1, . . . , vn} (um conjunto finito de vetores), ent˜ao temos que [C] = [v1, . . . , vn].
Proposi¸c˜ao 0.66. SejamV umK-espa¸co vetorial e W1, W2 ⊂V subespa¸cos vetoriais de V. Ent˜ao W1∩W2 e W1+W2 :={w1+w2 :w1 ∈W1, w2 ∈W2} tamb´em s˜ao subespa¸cos vetoriais de V.
Exerc´ıcio (use a caracteriza¸c˜ao de subespa¸co vetorial dada pela proposi¸c˜ao acima).
Exemplo 0.67. Consideremos C como R-espa¸co vetorial. Consideremos {1, i} ⊂ C. Ent˜ao [1]∩[i] e [1] + [i] s˜ao subespa¸cos vetoriais de C. Com efeito, [1]∩[i] ={0} e [1] + [i] =C. Verifique isto. Notemos que [1]∪[i]n˜ao
´
e subespa¸co vetorial de C, pois, por exemplo, 1 +i̸∈[1] e 1 +i̸∈ [i], donde 1 +i̸∈[1]∪[i]. Na verdade, se W1, W2 s˜ao subespa¸cos de V, n˜ao segue, em geral, que W1 ∪W2 ´e um subespa¸co de V.
Exemplo 0.68. Consideremos R3 como R-espa¸co vetorial. Consideremos ainda W1 := [(1,0,0),(0,1,0)] ⊂ R3 e W2 := [(1,0,0),(0,0,1)] ⊂ R3 su- bespa¸cos vetoriais de R3. Ent˜ao W1∩W2 e W1+W2 tamb´em o s˜ao.
Proposi¸c˜ao 0.69. Sejam V um K-espa¸co vetorial e W ⊂V um subespa¸co vetorial de V, com W ̸=V e dimKW finita. Ent˜ao dimKW <dimKV. Se W ={→0}, ent˜ao, como {→0} ̸=V, segue que dimK{→0}= 0 <dimKV. Se W ̸= {→0}, existe B :={v1, . . . , vn} ⊂ W base de W, onde n = dimKW. Da´ı, se dimKV = ∞, ´e claro que dimKW = n < ∞. Suponhamos agora que dimKV < ∞ (ou seja, que V ´e finitamente gerado). Como W ̸= V, ent˜ao B n˜ao gera V, donde existe v ∈ V tal que v n˜ao ´e combina¸c˜ao linear de v1, . . . , vn. Da´ı, B ∪ {v} ⊂ V ´e LI e portanto existe uma base de V que cont´em B ∪ {v}. Logo, dimKV >n+ 1 > n= dimKW.
Proposi¸c˜ao 0.70. SejamV umK-espa¸co vetorial e W1, W2 ⊂V subespa¸cos vetoriais deV, ambos de dimens˜ao finita. Ent˜aodimK(W1+W2) = dimKW1+ dimKW2−dimKW1∩W2.
Primeiramente, comoW1 ´e finitamente gerado, ent˜aoW1∩W2 ⊂W1 tamb´em o ´e. Se W1 ∩W2 ̸= {→0}, seja B := {v1, . . . , vn} ⊂ W1 ∩W2 uma base de W1∩W2. Como B ´e um conjunto LI contido em W1, ent˜ao existe B1 ⊂W1
uma base de W1 que cont´em B, digamos B1 := {v1, . . . , vn, w1, . . . , wp}. Analogamente, existe B2 ⊂ W2 uma base de W2 que cont´em B, digamos B2 :={v1, . . . , vn, u1, . . . , um}.
Consideremos agora C := {v1, . . . , vn, w1, . . . , wp, u1, . . . , um} ⊂ V. Na ver- dade,C ⊂ W1+W2. Mostremos queC ´e uma base deW1+W2. Inicialmente, verifiquemos que ´e C ´e LI. Com efeito, seja c := ∑n
i=1αivi +∑p
i=1βiwi +
∑m
i=1γiui uma combina¸c˜ao linear qualquer de elementos deC. Suponhamos que c ´e o vetor nulo, ou seja, ∑n
i=1αivi +∑p
i=1βiwi +∑m
i=1γiui =→0 (*).
Logo,
W1 ∋
∑n i=1
αivi+
∑p i=1
βiwi =−
∑m i=1
γiui ∈W2, isto ´e, −∑m
i=1γiui ∈ W1 ∩ W2. Logo, como B gera W1 ∩ W2, existem λ1, . . . , λn ∈Ktais que −∑m
i=1γiui =∑n
i=1λivi. Da´ı,
∑n i=1
λivi+
∑m i=1
γiui =→0 .
Comov1, . . . , vn, u1, . . . , um ∈ B2 que ´e LI, segue queλ1 =λ2 =· · ·=λn = 0 e γ1 =γ2 =· · ·=γm = 0. Substituindo estes valores em (∗), segue que
∑n i=1
αivi+
∑p i=1
βiwi =→0 .
Desde quev1, . . . , vn, w1, . . . , wp ∈ B1 que ´e LI, ent˜aoα1 =α2 =· · ·=αn = 0 e β1 = β2 = · · · = βp = 0. Logo, os escalares s˜ao todos nulos em (∗) e portantoC´e LI. Mostremos agora queCgeraW1+W2. Sejad:=(∑n
i=1αivi+
∑p i=1βiwi
)+(∑n
i=1λivi+∑m i=1γiui
) ∈ W1 +W2 um elemento qualquer de W1 +W2. Como d = ∑n
i=1(αi +λi)vi +∑p
i=1βiwi +∑m
i=1γiui, ou seja, d se escreve como combina¸c˜ao linear de elementos de C, obtemos que C gera