O MISTÉRIO DENTRO DE NÓS
Pauline Hopkins
Editora Escureceu
Copyright © 2020 Pauline Hopkins Publicado em 1900
Título original: The Mistery Within Us
TRADUÇÃO João Souza REVISÃO William Alves
EDIÇÃO Stefano Volp Stefano VolpCAPA
ILUSTRAÇÕES DO MIOLO Raw Pixel
DIAGRAMAÇÃO Rute Sant'Anna
— Quando tratamos de fenômenos es- pirituais, da existência de anjos da guar- da, dos meios de comunicação real entre os habitantes da Terra e os espíritos bene- volentes — sim, meu caro Jack, eu acredi- to mesmo nessas coisas.
— Então você concorda com o poeta imortal que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.”
Quando saí de casa, cinco anos atrás, havia me preocupado muito com meu
O MISTÉRIO DENTRO DE NÓS
Pauline Hopkins
amigo Tom Underwood. Sabia que ele estava com problemas financeiros, mas seu orgulho indomável era tamanho que não me atrevi a oferecer-lhe a ajuda pe- cuniária que eu ansiava dar-lhe e sentia ser profundamente requerida. Eu nada podia saber por meio de suas cartas es- porádicas, apenas que ele estava bem.
Após meu retorno de um longo exílio, nos encontramos e retomamos, de certo modo, nossa amizade, ainda que eu sen- tisse haver algo escondido de mim, e que, caso me fosse revelado, explicaria o mo- tivo de seu grande sucesso e da distinção que conquistara em sua profissão como médico e, também, como autor de traba-
lhos científicos procurados em assuntos que cobriam a ciência da preservação da vida. De fato, tive uma grande fascinação ao ler o mais maravilhoso dentre os tra- balhos desse tipo, algo com o qual nunca havia me deparado, intitulado “A Ética da Vida”, e não me admirei com seu su- cesso.
Ele havia me convidado para um jan- tar tête-à-tête hoje à noite em seu aloja- mento militar, e foi a primeira vez em que jantamos assim desde meu retorno. Após terminar nossa refeição, me acomodei na posição mais confortável e, enquanto es- perei em silêncio para que meu amigo me desse a confiança natural naquela hora e naquele lugar, aproveitei seus excelentes
charutos cubanos e admirei a elegância das instalações.
O quarto de Tom ocupava o último an- dar de um daqueles maravilhosos prédios, como os que as grandes cidades agora se empenham em servir para atender aos gostos refinados daqueles homens que, ao que parece, abdicaram do matrimônio, pelo desespero do sexo frágil e para o en- canto e o lucro do especulador que tem o prédio como uma mina de ouro. Com curiosidade, olhei de relance ao meu re- dor para a luxuosa mobília de um supos- to homem bem aculturado e afortunado.
Um funcionário atencioso andava para dentro e para fora do cômodo ao cuidar de nosso conforto. Era como uma história
do livro “As Mil e uma Noites” — o luxo, o conforto, a elegância. Do lado de fora, as sombras do crepúsculo agrupavam- -se sobre os telhados da cidade agitada, mesclavam-se e derretiam-se umas nas outras; as nuvens, tingidas com o doura- do de um pôr do sol sofisticado pareciam, por um momento, radiantes formas an- gelicais, revestidas em tecidos celestiais feitos de luz, cobrindo a cidade com seus mantos divinos antes de perderem-se na queda rápida das sombras da noite. Tom atirou a guimba de seu charuto para lon- ge e, dirigindo-se a mim, disse:
— Os pensamentos que o poeta expres- sou há tantos anos provam a inspiração de seu talento; e se as diversas coisas es-
tranhas que acontecem em nossas vidas individuais pudessem ser gravadas, ha- veria justificativas para diagnosticar esse mundo como mentalmente desequilibra- do.
“Quando você foi embora de casa, Jack, eu estava, como você sem dúvida algu- ma deduziu, falido. Meus pacientes eram tão pobres quanto eu próprio, e a maio- ria deles eu tratava de graça. Havia per- dido minha oportunidade em cada volta da Roda da Fortuna. O amor, uma vez, pareceu apresentar um bom presságio para um bom futuro. Eu, entretanto, era um pobre coitado. Ela virou-me as costas com desdém por minha pobreza.
“Uma manhã, sentei-me em meu quar-
to melancólico e calculei cuidadosamente cada evento de minha vida — dificulda- des e decepções, frente aos poucos suces- sos que havia conquistado. O resultado foi demais para mim. Fui até meu armá- rio de remédios e selecionei uma garra- fa de ácido prússico, com a intenção de acabar com tudo ali mesmo. Sentei-me à beira do sofá e observei uma vela quase apagada enquanto se preparava para sua desaparição final na exata hora em que de um relógio, em um quarto vizinho, so- aram doze badaladas. Devo estar assim em pouco tempo, pensei, enquanto ob- servava a vela moribunda. Afinal, qual é o sentido da vida, questionei, se não ape- nas uma chama facilmente apagada pelas
rudes mãos do destino ou do azar? E não é mais másculo enfrentar um mar tem- pestuoso com as próprias mãos e acabar com tudo, do que suportar com mansi- dão os golpes do azar e o frio desdém do mundo? Levei a garrafa até os lábios com a intenção de esvaziá-la, mas em meio ao gesto, meu braço perdeu sua capacidade motora. Sentei-me à beira do sofá assus- tado em um momentâneo esquecimento dos meus planos, enquanto pensava so- bre a condição do braço. Outra vez, en- saiei levantar o membro, mas ainda que minha mente estivesse mais ativa do que fora por um bom tempo, descobri que todo meu corpo havia perdido o poder de autogovernar-se! Imagine todas as mi-
nhas sensações! De modo algum eu po- deria ser o responsável por essa condição.
Minha saúde corpórea estava perfeita.
“Não basta dizer que eu estava atôni- to. Eu estava estupefato! Estava prestes a me gabar, se você se lembra, Jack, que meus nervos estavam impermeáveis ao medo, mas agora sentia um terror abso- luto. Levantei-me do sofá e, então, venci- do por um irresistível impulso de fraque- za, afundei novamente no móvel e fechei os olhos. No instante seguinte, uma voz soou em meus ouvidos:
“‘Não tenha medo. Sou eu’.
“Minha mente reagiu com a veloci- dade de um raio; conclui estar passando por uma experiência psicológica. Então,
tentando vencer meu medo, empenhei- -me em pôr em prática algumas regras que governam tais fenômenos. Pensei em uma pergunta e a resposta veio: — Olhe e verá.
“Com tais palavras, senti-me persuadi- do a descerrar os olhos e sentar-me com a postura ereta. Uma luz fraca havia pousa- do na única poltrona do cômodo e minha mente parecia forçada a centrar-se nessa auréola. Aos poucos, os contornos obscu- ros assumiram a forma de um homem, e eu era capaz, inclusive, de traçar suas fei- ções, mas nenhuma feição me fascinava mais que seus olhos; eles me ofuscavam, pois eram tão brilhantes — como poços de luz perfurante. Todas as sensações de
temor cessaram, então fitei suas límpidas profundidades. O pesar me deixou e a paz assumiu o lugar do desespero negro.
“E, finalmente, a Presença falou. Digo falou, mas, na realidade, nenhum som quebrou o silêncio do cômodo. A Presen- ça pareceu falar, ainda que eu estivesse bastante consciente de que ela não fala- ra. Eu havia escutado e lido muito sobre o poder que se encontra na ação de uma mente magnética em relação à outra, mas nunca antes havia me deparado com uma impressão elétrica vívida.
“‘O que você faria, homem precipitado?
Vencido pelos insignificantes obstáculos que impediam um caminho cuja orienta- ção levava ao fim em benefício próprio e
de outros, após as necessárias lições, cru- ciais para desenvolver as faculdades la- tentes com as quais você fora mais gene- rosamente dotado, você destruiria a vida que não lhe pertence? Pela sagrada vonta- de de Deus, você fora projetado como um instrumento para a realização de certos planos, traçados antes de seu nascimen- to. No desespero precipitado da cegueira humana, você destruiria a morada e redu- ziria o espírito da vida que há em você à escuridão impenetrável e às tempestades violentas do oceano do arrependimento onde os autodestruídos são eternamente condenados?’
“Sentei-me em silêncio, recebendo as impressões que emanavam da forma
diante de mim. Sobre as feições obscuras, várias emoções se dissipavam: denúncia inflexível, pena e, finalmente, luto, en- quanto continuava: ‘Uma vez, como você, eu vivia na carne, ainda que agora saiba que nunca havia vivido até morrer na Ter- ra e abandonar meu corpo para assumir a forma de meu Criador, pois, apenas em nossa essência espiritual é que assumi- mos a imagem de Deus. Essa casa de bar- ro não passa de um caixão dentro do qual Deus criou a humanidade à Sua imagem
— é a animação etérea e passageira que chamamos de vida; que vem sem que sai- bamos como, e se vai sem que saibamos para onde.’
“A Presença pausou novamente em
meio às impressões feitas diante de mim como ondas de choques elétricos dados do modo mais delicado. Eu parecia reco- nhecer as ideias expressas e, inclusive, a linguagem era familiar. Aos poucos, mi- nha mente fora levada a pensar em um médico que havia instituído uma nova era na medicina, na cura de certas do- enças crônicas, consideradas incuráveis pela classe médica. Esse homem morrera justo no momento em que sua fama apro- ximava-se de seu apogeu, e os médicos estavam rigorosamente contemplando a adoção de métodos um tanto quanto exó- ticos para as ideias da época. Os livros do Dr. Thorn (ele era o autor de três mara- vilhosos tratados sobre ‘A Filosofia dos
Três Éteres’) eram meus companheiros diários, e eu havia regularmente deseja- do ter tido o privilégio de ter conhecido o homem e testemunhado suas curas mis- teriosas. Quando alcancei o nome do Dr.
Thorn em minha mente, olhei de relance para a Presença. Os contornos haviam se convertido em um sorriso obscuro, e tive a impressão de que eu estava certo em crer que contemplava a essência espiritu- al daquele grande médico.
“‘É, eu fui o Dr. Thorn, e daria a tota- lidade de minha fortuna duramente con- quistada para ter permanecido naquele corpo por mais alguns anos. A transgres- são de certas leis na materialidade de meu ser físico levou à falha, em meu próprio
caso, da fórmula que eu usava para curar envenenamentos sanguíneos; então os glóbulos corrompidos dominaram todo meu sistema e fiz a grande mudança an- tes de perceber que ela havia chegado. Em meio a meu luto por aqueles que deixara e minha arte perdida, recebi a promessa da Divindade que minhas descobertas não seriam perdidas, e que eu seria dado a alguém, em quem reviveria e restaura- ria a totalidade de meu sistema. E é você.
Seja puro em pensamento e propósito; di- ligente e contente; procure e encontrará.’
“Quando voltei a mim, nas primeiras horas da manhã, acordei como de um sono profundo. Ainda estava sentado à beira do sofá, mas a garrafa de veneno não fora
vista desde então. O cômodo estava frio e melancólico, e sobre a mesa, que fica- va ao lado de meu cotovelo, estava o ma- nuscrito completo do livro que me fizera famoso e me trouxe grande fortuna. Nas manhãs quando acordo, continuamente encontro receitas e tratados sobre casos crônicos naquela mesa ao lado de minha cama.
“Não posso justificar tudo isso, exceto citando as palavras que você já usou: ‘Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia.’”
Pauline Hopkins
1859 - 1930
Este conto foi publicado na primeira edição da The Colored American Magazi- ne, em 1900, resgatado poor meio de do- cumentos escaneados.
Pauline Hopkins (1859-1930) escrevia sobre os diversos desafios do povo negro norte-americano, como o racismo, a vio- lência de raça e a brutalidade generaliza- da do pós-Guerra de Secessão.
Ela chegou a receber um cargo no cor- po diretor do periódico. Em vez de publi- car nas principais revistas literárias, como Harper's e Atlantic, que dominaram a
cena cultural americana na virada do sé- culo XX, Hopkins se manteve escrevendo apenas para periódicos voltados especifi- camente para a comunidade negra.
Mesmo com todo o racismo da socieda- de norte-americana e os preconceitos so- ciais recorrentes, Pauline foi ouvida e aju- dou a elevar a voz da comunidade negra, fazendo-os conhecer sua própria história.
Pauline passou seus últimos anos traba- lhando como estenógrafa no Instituto de Tecnologia de Massachusetts.
Ela faleceu em 13 de agosto de 1930, aos 71 anos, em Cambridge, devido a queimaduras que sofreu quando sua casa pegou fogo.
Este conto é integrante do Clube da Caixa Preta, da Editora Escureceu.
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