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EDITORIAL EXPEDIENTE. Editoras

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Academic year: 2022

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O Centro Universitário Metodista IPA, através da Revista Fólio, em sua 24ª edição, oferece à Comunidade Acadêmica e aos interessados artigos científicos produzidos por discentes e docentes dos cursos de Jornalismo, Turismo e Publicidade e Propaganda.

Entretanto, essa edição é especial, pois a Fólio recebeu o qualis B2 – CAPES. As editoras e professoras doutoras Cláudia Tacques e Valéria Deluca desde que assumiram, no ano de 2016, a responsabilidade de manter em constante produção e divulgação essa revista, buscam a qualidade dos trabalhos apresentados. Fruto dessa dedicação e empenho a Revista Fólio passa por uma nova avaliação e sua alteração de categoria.

O processo da cientificação é algo que deve ser instigado por todos os docentes para que a divulgação do conhecimento acadêmico transpasse os muros das Instituições de Ensino Superior (IES). É com este objetivo que as editoras estão constantemente em contato com outras universidades para que a troca de informações seja uma constância, pois não existem fronteiras para o saber.

Nessa edição será apresentada uma entrevista realizada pela jornalista, professora doutora Sandra Bitencourt ao sociólogo espanhol Manuel Castells, conhecido pesquisador de movimentos sociais, que contribuíram para a transformação da sociedade contemporânea. Com o seu posicionamento teórico e contundente a respeito de temas atuais é possível compreender o cenário mundial.

Na área do Turismo há o artigo intitulado: “Passado e presente – um comparativo do turismo acessível entre dois atrativos turísticos do município do Rio de Janeiro”, em que os autores abordam a acessibilidade de atrativos turísticos e a possibilidade de inclusão social em uma das cidades mais conhecidas mundialmente. Trazem a relação da acessibilidade e da inclusão como temas que provocam ao leitor uma reflexão sobre o outro.

No artigo “Artefatos producentes e ativismo de Design: uma contribuição para o processo de difusão da cultura da sustentabilidade na moda” o leitor encontrará a cultura sustentável, através do Design Estratégico, em que o processo dessa cultura é apresentado pela comunicação digital. Um trabalho que busca mostrar como a sustentabilidade está inserida em vários âmbitos.

Com a apresentação desses três trabalhos o leitor pode ter uma ideia do que encontrará nos demais artigos, visto que contribuem para a inovação do conhecimento, a transmissão da informação, bem como a propagação das pesquisas realizadas. O pensar, o refletir sobre temas atuais e, principalmente, escrevê-los ainda são práticas que necessitam ser estimuladas.

A Revista Fólio procurou manter aberto o canal de comunicação e de difusão dos artigos recebidos, pois na visão das editoras a sistematização das produções contribuem para reflexões e debates sobre a atualidade, além de instigar o conhecimento. Desejamos a todos uma leitura prazerosa.

Editoras Diretor Geral

Robson Ramos de Aguiar

CONSAD – Conselho Superior de Administração

Titulares: Valdecir Barreros (Presidente); Aires Ademir Leal Clavel (Vice-Presidente); Esther Lopes (Secretária); Marcos Gomes Torres; José Erasmo Alves de Melo; Renato Wanderley de Souza Lima; Jorge Pereira da Silva; Andrea Rodrigues da Motta Sampaio; Cassiano Kuchenbecker Rosing; Luciana Campos de Oliveira Dias

Suplentes: Eva Regina Pereira Ramão; Josué Gonzaga de Menezes

Reitor

Marcos Wesley da Silva

Coordenador de Pesquisa e Pós- Graduação Stricto Sensu

Edgar Zanini Timm Conselho Editorial

Presidente: Marcos Wesley da Silva Vice-Presidente: Edgar Zanini Timm Conselho: Caroline Dani; Jose Clovis de Azevedo; Marlis Morosini Polidori

Assistente Editorial: Ágata Cristina Silveira Pamplona

Editor Executivo: Sergio Marcus Nogueira Tavares

Conselho Editorial Revista Fólio Editoras: Profa.Dra. Claudia Tacques Profa. Dra. Valéria Deluca Soares Coordenador Escola de Comunicação e Hospitalidade: Prof. Dr. Fabio Berti Editora Universitária Metodista IPA

Rua Cel. Joaquim Pedro Salgado, 80 Prédio A – Sala A001 – Rio Branco

Capa e Projeto Gráfico: Thiago Wiedemann Diagramação: Juliane Lucca

Multiverso Comunicação Integrada

Rua Cel. Joaquim Pedro Salgado, 80, Sala 13, Praça de Alimentação - Rio Branco

[email protected] multiversoipa.metodistadosul.edu.br

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“O JORNALISMO PODE SER O CONTRA VENENO NA GALÁXIA DA MENTIRA”

ARTEFATOS PRODUCENTES E ATIVISMO DE DESIGN:

UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O PROCESSO DE DIFUSÃO DA CULTURA DA SUSTENTABILIDADE NA MODA

A HARMONIZAÇÃO DE VINHOS E ESPUMANTES COM

TRUFAS ARTESANAIS COMO ESTRATÉGIA DE MARKETING

DA TELONA PARA A TELINHA: CONSIDERACÕES SOBRE A RECEPÇÃO DA FINAL DO MASTERCHEF 2019 NO TWITTER

JORNALISMO E TECNOLOGIA: NOVAS REALIDADES, NOVAS FUNÇÕES E PROCESSOS MIDIÁTICOS DISTINTOS

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PASSADO E PRESENTE – UM COMPARATIVO DO TURISMO ACESSÍVEL ENTRE DOIS ATRATIVOS TURÍSTICOS DO MUNICÍPIO DO RIO DE JANEIRO

O TECNÓLOGO EM GESTÃO DESPORTIVA E DE LAZER: UMA ANÁLISE DE PERFIL PROFISSIONAL E O MERCADO DE TRABALHO EM PORTO ALEGRE, NO OLHAR DO EGRESSO.

HOTELARIA E SUSTENTABILIDADE: UM ESTUDO SOBRE OS MÉTODOS DE REDUÇÃO DO IMPACTO AMBIENTAL ADOTADOS POR HOSTELS DE PORTO ALEGRE – RS

SURFE COMO POTENCIAL PRODUTO TURÍSTICO EM SURF CITIES:

UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DE GAROPABA – SC

RELEVÂNCIA DO TURISMO DE EVENTOS ESPORTIVOS PARA CIDADES DE PEQUENO PORTE: UM ESTUDO DE CASO NA CIDADE DE LAC-MÉGANTIC – CANADÁ

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sociólogo espanhol Manuel Castells, um dos maiores pensadores mundiais na contemporaneidade visitou o Rio de janeiro em julho deste ano para participar do seminário “Educação, Cultura e Tecnologia: Escola do Século XXI”, promovido pela Prefeitura de Niterói, e para palestrar sobre “Comunicação, política e democracia”, na FGV. Na oportunidade, concedeu entrevista exclusiva para a professora da Escola de Comunicação e Hospitalidade do IPA e Diretora de Comunicação do Instituto Novos Paradigmas, Drª Sandra Bitencourt. Castells é um pioneiro na pesquisa sobre os reflexos da sociedade em rede na economia e nas sociabilidades em todo o mundo a partir do fenômeno da internet. Desde 1979, na Universidade da Califórnia (vizinho há décadas do Vale do Silício) é um estudioso das transformações do mundo proporcionadas pela web. Em seu último livro Ruptura, se debruça sobre a autodestruição do modelo democrático liberal, a derrocada dos partidos e a redução do papel dos meios de comunicação de massa ao entretenimento. Para o autor, o jornalismo seria o contraveneno ao ambiente tóxico de mentiras produzidas e disseminadas em proporções alarmantes, mas ao mesmo tempo sentencia que fora das redes, hoje, o discurso não existe. Abaixo, a reprodução da entrevista gravada e exibida para os alunos dos cursos de Jornalismo, Turismo e Publicidade e Propaganda.

Sandra: Começo perguntando, o senhor afirma tanto no livro como nas entrevistas que deu, que dois terços das pessoas do mundo não acreditam em seus representantes. Ou seja, a questão da ruptura é que existe uma separação entre representantes e representados. Com o qual, essa é a grande crise, a mais profunda, porque a democracia como a conhecemos, a democracia liberal já estaria morta. O que te faz pensar isso?

Castells: Bom, primeiro são dados, não é opinião. Quero dizer, este livro e toda uma parte da minha nova estratégia de publicação -- que é um livro pequeno e uma URL. Então, no livro, há uma referência para a URL, onde se encontra os dados de tudo que digo. Então, estes são dados de fontes distintas, World Economic Forum, Nações Unidas, o Latinobarómetro, o FBI. E todos coincidem. A média são ⅔ dos cidadãos. No Brasil são mais de 80%. Então, a situação já era ruim há 20, 15 anos, mas foi se deteriorando cada vez mais. A questão parte, de que há uma crise de legitimidade, medida em termo de opiniões, atitudes, pesquisas, estudos, mas logo, o que faço, é ver uma série de casos muito importantes, nos que já estamos falando de analisar comportamento político. Para ver se as atitudes se relacionam com as práticas políticas. E isso explica Trump, um dos meus estudos. Explica Brexit, na Europa. O porquê de um neo-fascista como Salvini, praticamente governa a Itália. Explica o Leste Europeu. Orbán, na Hungria, o presidente da Polônia, na Polônia. E explica a importância de um país tão democrático, como a França, a importância de um partido também neo-fascista como o Frente Nacional, que tem 23 ou 24% dos votos. E além disso, explica mais ainda e decomposição dos partidos. Na França já não há mais partidos políticos. Não há mais. Numa situação total de crise, surgiu um presidente, mais ou menos de centro-liberal, que ganhou porque todo mundo o apoiou contra o fascismo, e aí fez seu partido. Mas apenas 17% da população votou por ele. O que ocorreu, e é outra questão, é a abstenção massiva. As pessoas que não confiam e não pensam. Eu parto disso, e logo nessa transformação, nessa rejeição democrática a democracia liberal, porque se vota. Bolsonaro está

“O Jornalismo pode ser o contra veneno na galáxia da Mentira”

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diretamente alinhado a isso. E vamos por país em país no mundo, e o que encontramos? Os governos sólidos, e com confiança dos cidadãos, não são democráticos: Rússia e China.

Sandra: Não é um paradoxo isso? Ou seja, não demonstra com os dados que as pessoas não acreditam mais nem na política nem nas instituições. Mas de certa maneira substitui por outro tipo de instituição. Porque aqui, se for ver, os índices de confiança, acreditam na igreja, no exército.

Por que dentro deste…

Castells: Não na igreja católica.

Sandra: Não na igreja católica. São os neopentecostais.

Castells: A igreja católica está destruída. Eu estudei a fundo a igreja católica na América Latina, onde era forte, e está em processo de destruição. Segundo os próprios dados da igreja católica, em 2040, vão ter mais evangélicos que católicos na América Latina. E aconteceu 20 anos. E por que?

Porque é a instituição estabelecida. Em troca, não podemos dizer que desapareçam as igrejas, porque as igrejas evangélicas são mais importantes que nunca, estão crescendo cada dia mais. No Brasil e toda América Latina. Isso é um fator decisivo na política, porque são anti-estabelecimento e anti-elites tradicionais.

Sandra: Então tem vantagem quem se apresenta fora da política, descolado dessas instituições.

Mas em geral, são pessoas que assim se apresentam com um discurso de direita, com uma coisa mais de fascismo, ou não?

Castells: Não, não é um discurso de direita. É um discurso contra as elites estabelecidas e tradicionais. Contra os partidos tradicionais. Qualquer líder que consiga visibilidade nas redes- sociais, sobretudo, não nos meios tradicionais de comunicação. Em todas essas campanhas que eu analisei, os meios são contra esses líderes anti-establishment. Ganham nas redes sociais, que é onde há uma expressão mais ampla, que é mais manipulada, mas ao mesmo tempo cada vez mais livre, porque os meios grandes de comunicação estão controlados pelos grupos financeiros que os possuem. Então não estamos em uma situação de direita ou esquerda, estamos numa situação de a crítica de todo o tradicional: a crítica dos partidos políticos estabelecidos, a crítica das elites políticas e culturais tradicionais. O que ocorre, é que em quase todos os casos, essa crítica contra o establishment, está apoiada pelos grupos econômicos mais importantes e tradicionais.

Que viram que apoiar sistemas de democracia liberal tem muito perigo. No Brasil, perderam o poder durante muitos anos. E a mesma coisa nos Estados Unidos, com Obama perderam a capacidade de controle e então aí surge uma forma de ditadura sutil, que consiste em através da manipulação de informação e através da crítica de todo que existia como democracia liberal, consegue expressar o descontentamento das pessoas com os políticos e a política tradicional, ainda que paradoxalmente, eles se tornam políticos e entram no governo. Essa é grande parte da manipulação. Mas você disse muito bem: qualquer líder suficientemente apoiado, e com suficiente carisma ideológico que mobiliza contra os partidos tradicionais de direita ou esquerda, ganha. Um país atrás do outro. Continuamente.

Sandra: Dentro dos sintomas que o senhor menciona sobre essas crises. As várias crises, dentro desta mais profunda, está o assunto desse universo de comunicação dominado pela mentira.

Qual o papel do jornalismo, em sua opinião, ou mesmo da comunicação governamental mais organizada, nesse ambiente tóxico?

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Castells: A princípio, um dos contravenenos nessa campanha de intoxicação massiva, poderia ser o jornalismo profissional. Digo “podia ser”, porque na prática, o jornalismo tradicional, está muito mediatizado pelos interesses financeiros e políticos dos proprietários dos meios de comunicação.

Então os jornalistas -- sempre digo que os jornalistas profissionais são heróis cotidianos, porque mantém sua ética profissional, tentam desmentir o que está acontecendo, tratam de reportar os fatos, e os despedem. Colocam seu posto de trabalho em jogo todo dia. Dependendo do que a empresa pensa, interessa ou não interessa. Hoje, os grandes meios, os grandes grupos midiáticos, incluindo o Brasil, não estão atacando diretamente todas instituições. À medida que estas tendências de distintos tipos antidemocráticos vão tomando controle dos governos -- e em grande parte, dos grupos financeiros que os apoiam -- nessa medida, os meios de comunicação, que sempre são sensíveis ao poder, vão evoluindo para não ser demasiadamente críticos, porque podem ter muitos problemas. então, hoje os grandes meios ainda não formam parte desse bloco antidemocrático. E isso permite que os jornalistas façam jornalismo investigativo, ajudar, denunciar. Mas o espaço é cada vez mais reduzido. Porque um estado forte tem muitas formas de controlar, reprimir, e no fundo, intimidar

Sandra: Mas de outro lado, não tem mais credibilidade. As pessoas suspeitam muito dos grandes meios. E também o atacam, ou identificam como fazendo parte dessas elites.

Castells: Tradicionalmente formava parte das instituições centrais da sociedade. Então, se tomarmos a hipótese central, que está em parte verificada não só por dados de opinião, mas por observação de processos políticos em todo mundo. E inclusive, metodologicamente, como você sabe, algo que em contexto diferente, reproduz o mesmo processo, quer dizer que é estrutural, não apenas problema de um país ou outro. Bom, se tem possibilidade de acreditar nessa hipótese central, há que explicar o porquê. E o fundamental é que a construção do comportamento, como demonstra a neurociência social, é emocional, não racional. Isso está demonstrado na neurociência hoje em dia. Somos animais emocionais, não racionais. Reagimos de acordo com nossas emoções, e logo, racionalizamos o que queremos. Isso na comunicação política de todo mundo, um dado fundamental é que as pessoas assistem os programas de televisão que sabem que estão de acordo com eles. Leem os jornais que sabem que estarão de acordo com eles. E muito mais importante: vão às redes sociais para se informarem. E vão aos grupos que sabem que estão de acordo com eles. Portanto, há uma fragmentação total. Não há comunicação de massa, há o que eu chamo de “autocomunicação de massa”. É um conceito que propûs há uns anos, porque é de massas, pois se difunde massivamente, porque todo mundo pode acessar -- muito mais que os meios tradicionais de comunicação -- todo mundo pode entrar na internet, informar- se do que quiser, expressar o que quiser, não há monopólio da expressão da opinião. Todo mundo pode fazer seu editorial, todo mundo pode ter no YouTube, seu próprio canal de televisão. Há uma difusão total da capacidade de intervir na galáxia de informações, portanto isso é “auto”, e é de massas. Mas ao ser “auto”, fragmenta totalmente a opinião e o comportamento e permite que grupos e redes organizadas, muito mais fortes sofisticadas, com mais recursos, controlem o debate e consigam com que as pessoas recebam as mensagens que querem receber e que seus cérebros bloqueiem as outras. Ou seja, a manipulação não consiste em lavagem cerebral, consiste em ativar certas imagens e certas opiniões que todos temos, mas que alguns controlam com outro tipo de educação, de experiência, de história… E que quando há um sistema em que vale tudo, então se pode duvidar da ciência, se pode pensar que vacinas são nocivas, podem pensar porque as mulheres têm direitos? Historicamente não tinham. Por que teriam agora? Se pode pensar que os animais servem para que os matemos e torturemos. Se pode pensar que a crise climática é uma invenção ideológica da esquerda… Se pode pensar o que quiser, porque há todas opiniões e tudo o que é ignorância, se expressa com mais força e grande capacidade técnica de

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comunicação, num cenário em que ninguém se informa nos grandes meios de comunicação -- que agora são puramente entretenimento. São telenovelas, programas de cinema… Mas já não são programas informativos com credibilidade, porque só coincidem com o que as pessoas querem saber do mundo através de sua própria opinião.

Sandra: E há como disputar isso? Porque havia toda uma esperança com a internet como algo virtuoso que poderia ajudar a superar os déficits democráticos, levar as vozes periféricas que não podiam se expressar…

Castells: Mas segue sendo isso!

Sandra: Segue sendo, mas de uma maneira muito material se vê que o uso das redes ou dessas lógicas, ajudam inclusive a tornar a democracia mais fraca e a atacar a democracia...

Castells: A democracia liberal…

Sandra: A democracia liberal, ou como a conhecemos, com o histórico material que temos Castells: A segunda questão é, eu acredito que há possibilidade que vão surgindo de reconstruir outras formas democráticas. Mas sim, o que dissestes é a chave. Digamos que nos enganamos, eu inclusive, em uma questão. Internet é claramente a tecnologia da autonomia e liberdade e ampliou a capacidade de todos humanos de organizar-se e expressar-se. O que não tomamos em conta, é que a liberdade, é liberdade de expressão para todo mundo. E que tinham e têm muitos humanos que não são favoráveis aos grandes valores universais éticos, morais, democráticos e políticos que muito defendemos. Então ao abrir essa Caixa de Pandora da liberdade de todos se expressarem, há uma contradição entre liberdade e democracia. Quanto mais livres as pessoas, quanto menos constrangidas estão com as instituições negociadas e discutidas, é um oceano infinito em que tudo vale e a capacidade de manipulação é a que ganha, não a capacidade de um processo democraticamente estabelecido, mesmo com todos os limites que conhecemos da democracia liberal. Mas é certo que a internet, neste momento é ao mesmo tempo instrumento de liberdade de expressão das minorias oprimidas, dos movimentos sociais, de mulheres. É isso e é todo o contrário. E agora, o que estamos vendo, é que “todo contrário”, tem mais peso.

Sandra: E a partir do ponto de vista da política, o senhor faz parte do conselho do Instituto Novos Paradigmas, junto com outros intelectuais como Boaventura de Souza Santos, Pillar del Río, Baltasar Garzon… Para o senhor, este tipo de organização, de movimento, que não obedece uma lógica partidária, senão que tenta buscar a reflexão e novos paradigmas para a política e democracia, é importante para fazer essa disputa?

Castells: É fundamental. Absolutamente fundamental. Veja, o que muda o mundo são ideias, sempre. Em bom e mau sentido. As ideias levam o poder. Porque o poder está na mente das pessoas e a mente das pessoas podem ser transformadas, desenvolvidas, manipuladas, com base em ideias. Então é claro que os partidos tradicionais estão piorados, totalmente e em todos os lugares.

Na Europa a grande social democracia desapareceu, salvo em Portugal e Espanha. E na Espanha esteve a ponto de desaparecer, até que Pedro Sánchez começou a reconstrui-la. Mas a estavam liquidando. Suécia talvez… Mas em geral, a social democracia, o grande ator político das reformas sociais e políticas da Europa desapareceu. Em grande parte. Não França não há mais… França, o país da república, das liberdades… Itália, nada… E país por país, na América Latina também,

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vemos que os partidos tradicionais colapsaram sistematicamente em todo o continente. Vamos de país em país e podemos rapidamente entrar de acordo… Bom, algo acontece, algo estrutural.

Então tudo que seja tentar repensar, reconstruir a partir de uma situação partidária, está fadada ao fracasso. Porque sequer tem credibilidade ou legitimidade. Portanto, eu estou apoiando o Instituto Novos Paradigmas, porque deve ser a partir de um compromisso de mudança social e política, com valores humanos e universais, mas sem estar ligado a nenhum aparelho partidário.

Isso é absolutamente indispensável. A questão é entender e praticar que não basta formular análises melhores -- que devem ser feitas -- ou propor políticas mais criativas, que se adaptem a sociedade atual, se não que sejamos capazes, como Instituto Novos Paradigmas de intervir de forma eficaz na esfera da comunicação. E fundamentalmente pensar que os artigos, os grandes meios de comunicação, ou as boas entrevistas e programas de televisão são muito secundários.

Ou aprendemos a difundir e debater nossas ideias nas redes sociais, ou estamos perdidos. Porque no século XXI, e no futuro, as redes sociais que vão mudar evoluir e se tornar mais complexas, são as esferas da comunicação. E depois temos grandes meios para o entretenimento. Então não basta pensar e elaborar, é preciso ser capaz de comunicar. E, portanto a comunicação é o mais importante.

Sandra: Muito obrigada!

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Deise da Luz Santos1 Karine de Mello Freire2

RESUMO: Este estudo apresenta uma cartografia dos processos de difusão da cultura da sustentabilidade na moda por meio do Design Estratégico. A aproximação da comunicação digital com o ativismo de design molda a cocriação de artefatos producentes circulados através de uma pesquisa-intervenção realizada no Ecossistema da Moda Sustentável do RS. Como resultados cartográficos, desenharam-se quatro tramas que conectam diferentes atores e aspectos da difusão da cultura da sustentabilidade em prol da inovação sociocultural.

Palavras chave: Design Estratégico. Comunicação Digital. Ativismo de Design. Artefatos Producentes.

ABSTRACT: This study presents a cartography about the diffusion processes of the fashion sustainability culture through Strategic Design. The approach of digital communication with design activism shapes the co-creation of productive artifacts circulated through an intervention research conducted in the Sustainable Fashion Ecosystem of Rio Grande do Sul. As cartographic results, we draw four plots that connect different actors and aspects of the diffusion of sustainability culture in favor of sociocultural innovation.

Keywords: Strategic Design. Digital Communication. Design Activism. Productive Artifacts.

1 Deise da Luz é Mestre em Design Estratégico pela Unisinos, Professora na FACS – Faculdade de Comunicação Social da UniRitter e Consultora de Comunicação Digital. Contato: [email protected]

2 Karine Freire é Doutora em Design pela PUC-RJ e Coordenadora do PPG em Design da Unisinos. Contato: kmfreire@

unisinos.br

ARTEFATOS PRODUCENTES E ATIVISMO DE DESIGN:

UMA CONTRIBUIÇÃO PARA O PROCESSO DE DIFUSÃO DA CULTURA DA SUSTENTABILIDADE NA MODA

PRODUCTIVE ARTIFACTS AND DESIGN ACTIVISM: A CONTRIBUTION TO THE DIFFUSION PROCESS OF FASHION SUSTAINABILITY CULTURE

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INTRODUÇÃO

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odemos observar que a comunicação digital democratizou e acelerou o processo social para que demandas emergentes sejam reconhecidas como pautas estratégicas em diferentes tipos de organizações. Um exemplo é a recente problematização sobre a moda rápida, mais conhecida como fast fashion, que através do movimento global Fashion Revolution ganhou força e visibilidade, mexendo com os padrões da indústria da moda em todas as esferas: da produção ao consumo.

O Movimento Fashion Revolution incentiva maior transparência, sustentabilidade e ética na indústria da moda. Seu propósito é a união de pessoas em prol da revolução para mudar radicalmente o modo como roupas são produzidas e consumidas, para que elas sejam feitas de maneira segura, limpa e justa, através da conscientização, mobilização e educação. O Movimento foi criado após o desabamento do Rana Plaza, que abrigava confecções de roupas em Bangladesh, no dia 24 de abril de 2013, deixando mais de 1.134 mortos e 2.500 feridos.

Presente em 92 países, o Fashion Revolution desenvolve ações mobilizadoras e incentiva os consumidores a questionarem suas marcas favoritas, convidando-os à reflexão através da hashtag3 #quemfezminhasroupas?

A transição rumo à sustentabilidade requer um processo de aprendizagem social que depende da abertura e flexibilidade no que tange aos processos inerentes ao desenvolvimento de iniciativas e ações. O aprendizado social acontece a partir de colaborações e trocas entre os pares. Colaborações e trocas que costumam acontecer, primeiro, de forma local, através de comunidades criativas que desempenham um papel importante na construção de soluções.

(MANZINI, 2008). Nesse sentido, a iniciativa estudada é o Ecossistema da Moda Sustentável do RS, que nasceu com o objetivo de unir esforços para fortalecer e difundir a cultura da sustentabilidade na moda no estado do

3 Uma palavra ou frase precedida por um sinal de hash (#), usado em sites e aplicativos de mídia social, especialmente no Twitter, para identificar mensagens sobre um tópico específico. Fonte: https://

en.oxforddictionaries.com/definition/hashtag.

Rio Grande do Sul. O Ecossistema pode ser interpretado como um projeto de Design Estratégico, cujas características estão relacionadas com a noção de Franzato et al. (2015) sobre ecossistemas criativos: são ecossistemas socioculturais em que diferentes atores interagem entre si, através de processos mais ou menos estruturados, resultando em dispositivos sociotécnicos capazes de gerar mudanças sociais e culturais. Essa noção foi construída com base nos estudos da comunidade científica do Politécnico de Milão que apresenta a evolução do design, deixando de ser solucionador de problemas e atuando como produtor de sentido. A produção de sentido está relacionada com a capacidade do design em estabelecer estratégias capazes de orientar ações organizacionais em direção à inovação e sustentabilidade. Essas estratégias envolvem todo o ecossistema de atuação (designers, empresas, sociedade e meio-ambiente) por meio de um processo de codesign. (MERONI, 2008; ZURLO, 2010).

O Movimento Fashion Revolution utiliza o ambiente digital para ativar suas ideias e ações através do uso de artefatos de design, como ambientes educativos, cards e hashtags.

Inspirada nessas estratégias, esta pesquisa trata-se de uma cartografia dos processos de difusão da cultura da sustentabilidade na moda, cujo objetivo é mapear as tramas da comunicação capazes de gerar laços sociais fortes e fracos em benefício da moda sustentável. A pesquisa considera as iniciativas a partir do núcleo da própria sociedade como plano de fundo e base estratégica para as mudanças no sistema moda.

Para tanto, encontramos na cartografia caminhos metodológicos pertinentes, tomando a experimentação como base de observação. Esse estudo configura-se como uma pesquisa-intervenção com carácter exploratório, através de um estudo empírico indutivo, que se propõe a mapear processos que possam nortear outros coletivos de moda a partir do Design Estratégico. As intervenções e o mapeamento dos processos foram realizados em territórios estratégicos, projetados através da co-criação com os atores

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do Ecossistema. A cartografia, enquanto metodologia de pesquisa apropriada para as ciências sociais é interpretada a partir das sete pistas propostas por Passos, Kastrup e Escóssia (2015): atenção cartográfica;

acompanhamento de processos; delimitação de territórios; uso de dispositivos; coletivo como plano de experiência; realização de pesquisa intervenção e dissolvência do ponto de vista do observador.

Vamos agora entender os caminhos teóricos que acompanharam o processo de pesquisa, dando embasamento para o desenho das tramas de conexão apresentadas como resultados.

CULTURA DA PARTICIPAÇÃO E ATIVISMO DE DESIGN

A apropriação dos sites de redes sociais como ferramentas de comunicação humana popularizou-se mundialmente a partir dos anos 2000. Uma característica dessa cultura é a prática diária do uso de computadores, notebooks e celulares para a troca de ideias e conexão com outras pessoas, em que a tecnologia propicia espaços conversacionais, ou seja, espaços de interações com outros indivíduos. Esses novos tipos de conversações, mais públicas, permanentes e rastreáveis, podem ser chamadas de conversações em rede. As redes se formam na medida em que existe interação entre as pessoas, trazendo informações sobre sentimentos coletivos, tendências, interesses e intenções de grandes e pequenos grupos. Essas conversas públicas e coletivas influenciam a cultura através da construção de fenômenos, propagação de informações, debates e organização de protestos, críticas e acompanhamento de ações políticas e públicas. Esses fenômenos dependem da intensidade dos laços sociais estabelecidos nas redes. (RECUERO, 2014).

Os laços sociais na internet podem ser fortes ou fracos. Laços fortes são aqueles que se caracterizam pela intimidade, proximidade e intencionalidade de manter uma conexão entre pessoas, podendo ser observados através de conversas mais formalizadas nos ambientes digitais, como mensagens inbox,

comentários com respostas em redes sociais e blogs. Já os laços fracos são percebidos por relações esparsas, que não traduzem proximidade e intimidade, como o caso dos likes tão conhecidos nas redes sociais. (RECUERO, 2009). “Laços fortes constituem-se em vias mais amplas e concretas para as trocas sociais, enquanto os fracos possuem trocas mais difusas”. (RECUERO, 2009, p. 41). É importante, porém, problematizar a denominação de laços fortes e fracos que, apesar de popular, pode ser reducionista, levando-nos a acreditar que um laço será sempre forte ou sempre fraco. Quando, na realidade, os níveis dos laços dependem do tempo e da quantidade de interação investida no contexto, podendo variar entre forte e fraco.

(RECUERO, 2009).

A mudança comunicacional caracteriza um movimento na direção de um modelo mais participativo de cultura, em que o público deixa de ser um mero espectador de mensagens pré-definidas e passa a ser atuante na criação, produção, reconfiguração e compartilhamento de conteúdo midiático, fazendo isso em rede, de forma globalizada, sem a barreira do espaço geográfico. Esse modelo subverte a lógica do que conhecemos até hoje em relação à participação da sociedade na produção de cultura. (JENKINS, 2014).

As redes sociais digitais oferecem muitas possibilidades de modos de estar junto, contribuindo para que ações ativistas de rua sejam coordenadas e estimuladas através da internet, causando a aceleração na forma como nos manifestamos, muitas vezes efemeramente e sobrepondo as novas informações em relação às antigas. Essa efemeridade pode ser percebida como a forma de vida própria das redes sociais digitais, uma sociabilidade baseada na celeridade. O ativismo em rede carrega características muito fortes: grupos e comunidades virtuais focados em interesses, ideologias e práticas comuns. O aprimoramento técnico da web permite com que usuários possam se conectar entre si, fazendo com que o ativismo se multiplique e se intensifique, valorizando o discurso das minorias. As minorias tem um papel muito importante de ativar atos de rua que podem acontecer de forma isolada ou

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aglomerada. Essas manifestações acontecem porque sem intermediários é possível exprimir os sentimentos de forma mais livre, sem a necessidade de depender de uma entidade para se expressar. Essa comunicação acaba explodindo falas silenciadas. (MALINI, 2017).

Nesse sentido, a produção ativista pode estar relacionada com a produção de cultura, que é resultado de recursos culturais gerados a partir da participação das pessoas. Esses recursos são as válvulas que possibilitam com que cada comunidade contribua com o significado cultural que determinado artefato irá carregar.

Os conteúdos producentes, que são aqueles conteúdos que caracteristicamente permitem a participação dos públicos, fandoms, ou ativistas, na geração de seus efeitos de sentido, possibilitam produções populares, pois deixam pontas soltas, que serão amarradas a partir da interpretação e da co-criação dos públicos.

(JENKINS, 2014).

A aproximação entre ativismo e design nasce a partir da concepção de que o ativismo, como propulsor de mudanças sociais, culturais e políticas, estimula o questionamento em relação ao futuro com a seguinte pergunta:

em que tipo de sociedade nós queremos viver?

E é nessa projetação de futuros que entra o pensamento de design, capaz de contribuir com caminhos responsáveis por causar o bem para a sociedade e para o planeta. Podendo, o ativismo de design, ser descrito da seguinte forma: “o ativismo de design é pensamento de design, imaginação e prática aplicada conscientemente ou inconscientemente para criar uma contra narrativa destinada a gerar e equilibrar mudanças sociais, institucionais, ambientais e / ou econômicas positivas”. (FUAD-LUKE, 2009, p. 27).

Ativistas de design podem, a partir de suas habilidades, projetar os caminhos futuros da sociedade e do planeta. Entendemos essa tarefa como necessária quando observamos as atuais agendas públicas em relação ao desenfreado desgaste de recursos sociais, ambientais e econômicos causados pelo fenômeno da globalização. São nessas esferas que existem possibilidades de mudança, possibilidades de introdução de um novo modo

de ver e de viver o mundo, descontinuando sistemas estabelecidos em benefício de uma sociedade mais sustentável. Para Fuad-Luke (2009), o designer ativista pode interferir no funcionamento desses fluxos, e isso significa dizer que ele pode atuar promovendo mudanças culturais e sociais.

É importante, porém, apontar que o ativismo de design é uma ação colaborativa, que parte do princípio do codesign. Codesign é uma prática da cultura de design importante na projetação de artefatos: “a premissa subjacente do codesign é baseada no conceito de que as pessoas que usam um artefato projetado têm o direito de ter voz para determinar como esse artefato é projetado”.

(FUAD-LUKE, 2009, p. 147).

Na tentativa de aproximar a cultura da participação pautada por Jenkins (2014) com o ativismo de design, entendemos que artefatos projetados através de um processo de codesign e inseridos no contexto da comunicação digital, podem ser considerados artefatos producentes, ou seja, artefatos que contribuem para que diferentes atores participem da identificação do problema e da criação de possíveis soluções, aumentando as chances da efetividade dos projetos.

CULTURA DA SUSTENTABILIDADE NA MODA

A indústria da moda transformou-se, ao longo dos anos, em grande responsável por problemas ambientais e sociais relacionados ao consumo de roupas. A revolução industrial possibilitou a ascensão da produção e a democratização dos preços, a partir da metade do século passado, tornando a moda parte relevante do cotidiano da sociedade.

Nos últimos anos, o fast fashion tomou conta dos desfiles e das vitrines, fazendo com que as pessoas comprem novas roupas e acessórios a cada coleção ou troca de estação, sendo, a maioria delas, alheias aos problemas causados pelo excesso desse consumo. (FLETCHER;

GROSE, 2011).

Outra alavanca para a aceleração da produção e do consumo surge com a

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ser substituído pelo valor do cuidado, a fartura entendida como a possibilidade de reciclar e reutilizar materiais, a conveniência relacionar- se com a colaboração e equilíbrio entre atores, organizações e marcas, e a identidade subverter a lógica individualista e instituir-se com o aumento dos relacionamentos ocorridos a partir dos demais valores. Esses valores podem ser entendidos e transmitidos através do conceito de mentalidade lenta. A mentalidade lenta figura como evolução do sistema atual, que opera no âmbito do fast fashion. Nesse sentido, podemos entender que a cultura da sustentabilidade na moda tem como base a mudança de mentalidade através do aprendizado social, percorrendo o movimento slow fashion. (FLETCHER; GROSE, 2011).

HASHTAG #MODAMUDAMUNDO COMO ARTEFATO PRODUCENTE

Essa pesquisa trata-se de uma pesquisa- intervenção realizada no Ecossistema da Moda Sustentável do RS. O Ecossistema nasceu da necessidade de gerar inovação e colaboração entre os atores da cadeia da moda gaúcha, sendo eles estilistas de marcas locais, pesquisadores, ativistas, institutos ligados à indústria da moda e comunidade. O Ecossistema é um projeto experimental que funciona através de encontros mensais, ativações oportunas espalhadas pela cidade, como a participação na Virada Sustentável e Semana Fashion Revolution e, a partir de outubro de 2018, funciona também em um espaço físico para cursos, palestras, showroom e encontros colaborativos. O espaço físico está situado no Vila Flores, um complexo arquitetônico listado  no Inventário do Patrimônio Cultural de Bens Imóveis do Bairro Floresta, classificado como imóvel de estruturação e situado em área de interesse cultural de Porto Alegre.

A pesquisa-intervenção aconteceu a partir da cocriação de artefatos producentes pelos atores do Ecossistema. Cocriação que resultou em postais criados por artistas de Porto Alegre, cuja principal mensagem era para que as pessoas contassem a sua forma de mudar o mundo através da moda, utilizando a hashtag

#modamudamundo. Foi a partir da circulação instantaneidade dos meios de comunicação

atuais, em que o sapato ou a peça de roupa de uma celebridade, postados nas mídias sociais, vira objeto de desejo em questão de segundos, instigando os varejistas a terem sempre disponíveis novos produtos em um curto período de tempo. Para atender essa demanda, as marcas lançam, atualmente, em média 10 coleções por ano, sendo no caso da marca Zara, por exemplo, de duas em duas semanas.

(PINTO; SOUZA, 2015). Porém, assim como nas demais indústrias, a moda passa por um período de emergente reinvenção, em que não se pode mais negligenciar a responsabilidade que as marcas e as pessoas precisam ter com o meio ambiente e com questões sociais.

Nesse sentido, muda também o papel dos designers, que são incumbidos de projetar novos sentidos para os produtos, capazes de causar ressignificação na relação das pessoas com as roupas, contribuindo para a cultura da sustentabilidade.

A indústria têxtil impacta significativamente o planeta com a degradação de recursos naturais, em função da extração e utilização de matéria-prima para a confecção de roupas e acessórios.

Confecções que são aceleradas no intuito de cumprir as agendas da moda pautadas pela concorrência de mercado, fazendo com que muitas pessoas tenham condições injustas de trabalho, como os locais impróprios e a carga horária aumentada em função da demanda.

A falta de regras e leis mais acentuadas para garantir a decência e a transparência do setor é observada em diversos países.

Acredita-se que uma mudança sistêmica para com essas questões pode proporcionar um desenvolvimento econômico mais sustentável, no viés do trabalho justo e respeito ao meio ambiente, atualizando o sistema atual instituído desde meados do século passado.

A cultura da sustentabilidade na moda perpassa alguns valores relacionados ao consumo, fartura, conveniência e identidade.

A proposta é que possa acontecer uma ressignificação desses valores por parte da humanidade. Nesse sentido, o consumo pode

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engajamento orgânicos observados. Portanto, a contabilização do uso dos postais não é nosso foco nesta pesquisa, mas sim os efeitos gerados a partir das publicações feitas com a #modamudamundo e seus cruzamentos com os demais territórios percorridos. Nosso levantamento de dados aconteceu de forma exploratória, num processo cartográfico que conectou pontos percebidos ao longo do percurso, como se um mapa estivesse sendo desenhado e as informações mais importantes estivessem, nesse momento, sendo priorizadas. O intuito também não foi contabilizar o número de likes de cada publicação e nem a quantidade de vezes que a mesma pessoa publicou.

Fonte: Compilação da autora4

4 Montagem a partir de imagens coletadas pelo fotógrafo Cereca (2018) e compartilhadas na pasta do Google Drive do Ecossistema da Moda Sustentável do RS.

desses postais em diferentes territórios ao longo do ano de 2018 que as publicações com a hashtag começaram a surgir. O mapeamento das publicações é o principal território de observação dessa pesquisa.

A hashtag #modamudamundo serviu de ponto de encontro e disseminação de relatos pessoais. Ao longo do processo de pesquisa de campo, podemos perceber que a utilização da hashtag aconteceu de forma orgânica, sem que pudéssemos saber se as pessoas estavam ativando suas redes e utilizando as hashtags a partir do contato com os postais ou não. Esse fenômeno foi interpretado como positivo, pois o objetivo principal, que é contribuir com a difusão da cultura da sustentabilidade na moda, parece ter sido cumprido a partir da disseminação e

Figura 1 - Ativação na Virada Sustentável e Semana Fashion Revolution 2018

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A hashtag foi acompanhada através da rede social Instagram5. A escolha dessa ferramenta aconteceu pela proximidade com o segmento da moda, por ser propícia para a publicação de conteúdos que correspondem à micro momentos das pessoas, além de oferecer a possibilidade de seguir hashtags, ou seja, seu algoritmo é otimizado para que facilmente as pessoas possam encontrar temáticas que lhes agradem, podendo seguir essas temáticas através do uso de hashtags.

Essa rede, por também oferecer um ambiente de interação mútua (conversação), pode ser considerada uma rede social multiplexa, que segundo Recuero (2009), são as redes que possibilitam o acontecimento de diferentes tipos de laços, potencializando as chances de gerar vínculos fortes.

É nessa perspectiva que tivemos a hashtag

#modamudamundo como ponto de partida para nossa análise. A partir dos percursos dessas análises, foram desenhadas as tramas cartográficas que serão agora apresentadas.

5 Instagram é uma rede social online de compartilhamento de fotos e vídeos entre seus usuários, que permite aplicar filtros digitais e compartilhá-los em uma variedade de serviços de redes sociais, como Facebook, Twitter, Tumblr e Flickr.

Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Instagram.

Recentemente, a rede social passou a usar e permitir a funcionalidade de seguir hashtags.

A primeira trama identificada é a conexão das ativistas da moda sustentável com a ação proposta pelo Ecossistema. Ativistas que foram reconhecidas por suas atuações em diferentes territórios ao longo do ano de 2018, como espaços de fala e articulação de eventos relacionados à moda sustentável. Mulheres que já exerciam um trabalho de ativação e que viram na iniciativa do Ecossistema, através do uso da hashtag #modamudamundo, mais um formato de repercurssão. A evolução aconteceu quando essas ativistas uniram seus conhecimentos de design com as suas ações, sendo capazes de promover diálogos estratégicos através de suas capacidades de recombinação de recursos e alcance, geralmente naturais de quem assume esse posicionamento e papel na sociedade (Figura 2). Ao longo dos percursos observados destacamos, então, as ativistas como importantes difusoras da cultura da sustentabilidade através da educação sobre sustentabilidade na moda, promovendo a conscientização social sobre o tema.

Figura 2 - Ativistas e Diálogos Estratégicos

Fonte: Elaborada pela autora com base nas publicações feitas com a

#modamudamundo.

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A segunda trama é denominada Questionamento e Conscientização, e está relacionada com a percepção de que diálogos estratégicos projetados por meio do ativismo de design podem estimular a cultura da participação através de artefatos producentes.

Esses artefatos podem ser cocriados e circulados por diferentes atores do Ecossistema, como as ativistas de moda sustentável, as instituições de ensino, os estudantes e as marcas. Essa fusão amplia a capacidade do alcance do questionamento proposto. A ampliação do alcance contribui com a formação de vínculos fortes e fracos por meio de ecossistemas criativos, oportunizando a difusão da cultura da

sustentabilidade na moda. Essa circulação gera novas conexões e novas relações sociais através das redes sociais da internet, estabelecendo laços associativos capazes de equilibrar o nível dos vínculos entre fortes e fracos. Os laços fracos, característicos das relações ocorridas das redes sociais, são importantes conectores de laços fortes.

Esse fenômeno foi percebido através do engajamento social para com a circulação de conteúdos e envolvimento com a Semana Fashion Revolution, em que atores se vincularam ao Ecossistema com diferentes níveis de envolvimento (Figura 3).

Figura 3 - Questionamento e Conscientização

Fonte: Elaborada pela autora com base nas publicações feitas com a #modamudamundo.

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sistêmico e de baixo para cima, ou seja, o próprio tecido social se auto-organiza e adota padrões de comportamentos coletivos. (JOHNSON, 2003). Nas redes sociais da internet, essas temáticas podem emergir a partir dos laços sociais dialógicos, ou seja, serem motivadas através de interações mútuas entre usuários, abrindo espaço para a geração de vínculos fortes. (RECUERO, 2009).

Acreditamos que o nível dos vínculos estabelecidos através das redes sociais pode estar relacionado com a temática emergente nascida e difundida através das próprias redes sociais. Ou seja, um ator pode estabelecer vínculo forte se a temática emergida competir aos seus interesses e valores pessoais, como no caso do reaproveitamento para a comunidade Gera Bomja, Banco Tecidos, Revoada, Colibri e demais atores (Figura 4). Ou estabelecer vínculo fraco, por ter uma relação mais difusa com tal temática. Isso significa que a intensidade dos vínculos estabelecidos pelo mesmo ator pode variar de acordo com o tema. Essa dinâmica faz parte do contexto dos ecossistemas criativos e aparentemente faz sentido também dentro do processo de difusão estabelecido a partir de artefatos producentes com o intuito de serem ativados nas redes sociais.

A terceira trama, intitulada Reaproveitamento e Coalisão de Design, sugere que os artefatos producentes circulados por meio das redes sociais da internet, nesse caso, as hashtags em conjunto com texto e imagem, podem servir como canal de mapeamento de temáticas, para que um processo de coalizão de design pode ser iniciado. A coalizão de design acontece através de redes de design em que atores colaboram para alcançar resultados comuns, compartilhando uma visão sobre o que fazer e como, e decidem fazê-lo em conjunto. As redes podem ser formadas por design difuso e design especializado. O design difuso é realizado por não especialistas em design que possuem capacidades naturais para o design, podendo ser organizações de base e ativistas culturais, ao passo que o design especializado é concebido por pessoas formadas para atuarem profissionalmente como designers através de empresas de tecnologia ou de comunicação.

O reaproveitamento fica bastante evidente como temática emergente observada nos fluxos das publicações realizadas com a hashtag #modamudamundo. Temáticas emergentes, num contexto de redes distribuídas, costumam ter um processo

Figura 4 –

Reaproveitamento e Coalizão de Design

Fonte: Elaborada pela autora com base nas publicações feitas com a

#modamudamundo.

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A quarta e última trama, chamada de Colaboração e Inovação Sociocultural, surge da identificação de que especialistas em design, atuantes no Ecossistema ou que tenham interesse em contribuir com ele, possam mapear e catalisar os temas emergentes, oferecendo suas habilidades de design para tornar esses temas visíveis e tangíveis para os demais atores e sociedade. Podemos interpretar que o papel dos especialistas em design que atuam no Ecossistema seja catalisar iniciativas e iniciar diálogos estratégicos para que elas sejam perceptíveis aos demais atores, estimulando a participação e a geração de valor social.

É por meio das redes sociais da internet que laços fracos se estabelecem, e são os especialistas em design que podem operar para que esses laços se fortaleçam, contribuindo para a efetivação de mudanças no tecido social.

A manutenção dos laços pode contar com o uso de ferramentas de conversação como o Whatsapp, que podem também ser consideradas redes sociais funcionando com o propósito de estabelecer interações mútuas e mais duradouras entre os atores. (RECUERO, 2009).

Para a efetividade dos encontros colaborativos, também é necessário um ambiente que conte com tolerância, abertura e que gere a capacidade de aprendizado.

(MANZINI, 2017). Aparentemente, essas características já podem ser observadas nos encontros colaborativos ocorridos por meio do Ecossistema ao longo de 2018. Essa constatação surge a partir da observação dos relatos dos atores através das postagens.

Relatos que explicitam a união e a colaboração para o conserto de roupas, curadoria de tecidos e ideias de solução para os resíduos têxteis em que as palavras colaborar e contribuir, e as frases vamos consertar juntos e juntos somos mais fortes são identificadas (Figura 5).

Nesse sentido, acredita-se que novas iniciativas podem acompanhar esse processo, tornando o Ecossistema uma solução habilitante e tornando os encontros colaborativos efetivos e eficazes.

Nessa trama, portanto, podemos explorar o potencial da colaboração por meio do Ecossistema como ponto central e como conector das demais tramas apresentadas.

Acreditamos que a dinâmica da colaboração pode iniciar-se a partir de coalizões de design estabelecidas por meio das redes sociais da internet que tenham motivações e interesses comuns. Essas conexões podem ser mapeadas e tangibilizadas pelos especialistas e ativistas de design (vínculos fortes), gerando novas conexões e encontros colaborativos que podem reunir diferentes atores em torno de soluções futuras para questões emergentes, como a sustentabilidade na moda e as mudanças socioculturais que ela pode gerar.

Figura 5 – Colaboração e Inovação Sociocultural

Fonte: Elaborada pela autora com base nas publicações feitas com a

#modamudamundo.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse estudo é parte da pesquisa de dissertação de mestrado da autora e tem o papel de elucidar sobre os processos de difusão da cultura da sustentabilidade na moda por meio do Design Estratégico. O objetivo desse recorte foi apontar como os artefatos producentes podem contribuir com os processos de difusão dessa cultura. O artefato producente em questão foi cocriado e circulado pelos atores do Ecossistema da Moda Sustentável do RS, sendo postais artísticos contendo uma mensagem no verso: qual a sua forma de mudar a moda?

Compartilhe usando a #modamudamundo.

Artefato producente é um termo desenvolvido ao longo da pesquisa. O termo parte da aproximação de duas teorias, o ativismo de design (FUAD-LUKE, 2009) e a cultura da participação (JENKINS, 2014). Partimos do príncipio de que a união do ativismo de design com a cultura da participação seja um processo capaz de contribuir com a difusão da cultura da sustentabilidade na moda.

Ao longo da pesquisa-intervenção, embasada nas sete pistas cartograficas apresentadas por Passos, Kastrup e Escóssia (2015) e tendo como plano de fundo a hashtag #modamudamundo, desenhamos as tramas que conectam o tecido social no processo de difusão. As tramas desenhadas perpassam as ações das ativistas da moda sustentável de Porto Alegre, suas vozes e combinações de recursos para a propagação da cultura da sustentabilidade; a circulação dos postais artísticos em diferentes territórios no ano de 2018, gerando questionamento e conscientização em ambientes como eventos de moda e instituições de ensino; a identificação de temáticas emergentes, como o reaproveitamento de materiais na indústria da moda, sendo manifestadas pelas pessoas através das redes sociais; e a colaboração como forma de inovação sociocultural, ocorrida pelos atores do Ecossistema da Moda Sustentável do RS, principalmente pelos designers especialistas, na catalização e propagação de ações.

Essas tramas, integradas, apresentam alguns caminhos possíveis para inovações sociais em busca de um mundo mais sustentável. A comunicação digital nos permite uma maior formação de grupos capazes de gerar laços fortes e fracos, responsáveis pela disseminação de informações e mudança cultural.

REFERÊNCIAS

CERECA, G. Talk Moda e Colaboração. 168 fo- tografias, color. Disponível em: <https://drive.

google.com/drive/u/3/folders/1uqk3JvQX- GD8DMwyhNAcOpN19cYVhkYFe>. Acesso em:

5 jun. 2018.

FASHION REVOLUTION. Quem Somos – Fashion Revolution. Relatório Oficial 2017.

Acesso em: janeiro 2019.

FUAD-LUKE, A. Design activism: beautiful strangeness for a sustainable world. London:

Earthscan, 2009.

FLETCHER, K; GROSE, L. Moda e sustentabilidade: design para mudança. São Paulo: Senac São Paulo, 2011.

FRANZATO, C. et al. Inovação cultural e social:

design estratégico e ecossistemas criativos. In:

FREIRE, K. (Org.). Design Estratégico para a Inovação Social e Cultural. São Paulo: Kazuá, 2015. p. 157-182.

JENKINS, H. Cultura da Conexão: criando valor e significado por meio da mídia propagável. São Paulo: Aleph, 2014.

JOHNSON, S. Emergência: a dinâmica da rede em formigas, cérebros, cidades e softwares.

Tradução: Maria Carmelita Pádua Dias, Rio de Janeiro: Jorge Zahar editores, 2003.

MALINI, F. Internet é uma máquina que potencializa minorias. IHU On-line – Revista do Instituto Humanitas Unisinos. N° 502. Abril 2017.

Disponível em: http://www.ihuonline.unisinos.

br/media/pdf/IHUOnlineEdicao502.pdf MANZINI, E. Design para a inovação social e sustentabilidade: comunidades criativas,

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organizações colaborativas e novas redes projetuais. Rio de Janeiro: E-papers, 2008.

MANZINI, E. Design quando todos fazem design: uma introdução ao design para a inovação social. São Leopoldo: Editora Unisinos, 2017.

MERONI, A. Strategic design: where are we now? Reflection around the foundations of a recent discipline. Strategic Design Research Journal, v.1, n.1, Dec 1, p.31-38, 2008.

PASSOS, E; KASTRUP, V; ESCÓSSIA, L. Pistas do método da cartografia. Pesquisa intervenção e produção de subjetividade. Porto Alegre:

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PINTO, A; SOUZA, C. Roupas feitas de roupas. Revista Iniciação. Edição temática em sustentabilidade. v.5, n. 3. São Paulo: Centro Universitário Senac, 2015.

RECUERO, R. Redes sociais na internet. Porto Alegre: Sulina, 2009.

RECUERO, R. A conversação em rede:

comunicação mediada pelo computador e redes sociais na Internet. Porto Alegre: Sulinas, 2014.

ZURLO, F. Design Strategico. In: XXI Secolo, vol. IV, Gli spazi e le arti. Roma: Enciclopedia Treccani, 2010.

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André Luís Rech1 Débora Frizzo2

RESUMO: No presente artigo irá discorrer-se sobre a estratégia de marketing do Complexo Enoturístico da Cooperativa Vinícola Garibaldi para fidelização da marca dos Espumantes Garibaldi, trazendo a desmistificação do consumo de espumantes e vinhos, que podem acompanhar qualquer alimento em qualquer horário e na companhia que se prefere. A estratégia ocorre através da realização do projeto Taça e Trufa que harmoniza vinhos e espumantes com trufas artesanais de chocolate e sabores marcantes da empresa garibaldense Devorata Trufas Artesanais. Esse projeto tem como objetivo analisar as percepções, sensações e captar as emoções sentidas pelos participantes do que embarcam nesta experiência, e também tem como objetivo compreender o processo de harmonização como ferramenta de Marketing, o quanto isso atinge o íntimo das pessoas e os fideliza como clientes. Para o desenvolvimento, a captação das respostas fora realizada através de entrevista aberta captando pelo entrevistador as melhores percepções dos entrevistados, ocorrendo logo após a participação do projeto. Contudo pode-se concluir que o processo de harmonização é eficiente como ferramenta estratégica de marca para gerar emoções e memórias afetivas, fazendo com que os clientes repitam a compra dos produtos da Cooperativa Vinícola Garibaldi e desfrutando nos melhores momentos de suas vidas.

Palavras-chave: Harmonização. Vinho. Espumante. Chocolate. Estratégia de MKT.

ABSTRACT: This article will discuss the marketing strategy of Cooperative Winery Garibaldi in Enotourism Complex for Garibaldi Sparkling Brand loyalty, bringing the demystification of the consumption of sparkling wines and wines, which can accompany any food at any time and in the company of if preferred. The strategy takes place through the realization of the Cup and Truffle project that harmonizes wines and sparkling wines with traditional chocolate truffles and outstanding flavors of the company garibaldense Devorata Truffles Crafts. This project aims to analyze perceptions, sensations and capture the emotions felt by the participants who embark on this experience, and also aims to understand the process of harmonization as a marketing tool, how much it reaches the intimate of people and loyalty as customers. For the development, the capture of the answers was accomplished through an open interview, capturing the interviewers’

best perceptions. However, it can be concluded that the harmonization process is efficient as a strategic brand tool to generate emotions and affective memories, causing clients to repeat the purchase of Cooperative Winery Garibaldi products and enjoy the best moments of their lives.

Keywords: Harmonization. Wine. Sparkling Wine. Chocolate. MKT Strategy.

1 Tecnologo em Processos Gerenciais pela FTEC Bento Gonçalves. E-mail: [email protected]

2 Doutora em Psicologia do Desenvolvimento humano pela UFRGS. E-mail: [email protected]

A HARMONIZAÇÃO DE VINHOS E ESPUMANTES COM TRUFAS ARTESANAIS COMO ESTRATÉGIA DE MARKETING

THE HARMONIZATION OF WINES AND SPARKLES WINES ARTISAN TRUFS AS A MARKETING STRATEGY

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INTRODUÇÃO

P

rotagonizar a junção de três sabores que caracterizam a Serra Gaúcha é uma estratégia para buscar aumento de vendas e consolidação de marca com novos consumidores dos vinhos e espumantes da Cooperativa Vinícola Garibaldi. Empresa com mais de 89 anos e 400 famílias associadas que produzem videiras e uvas de qualidade.

Proporcionando agregação de valor ao produto do cooperado e focando principalmente na produção e comercialização de espumantes.

A parceria da Cooperativa será desenvolvida com a tradicional e também garibaldense, Devotara Trufas Artesanais, que há mais de 30 anos transforma sensações gustativas inesquecíveis com seus saborosos chocolates artesanais.

Misturando a intensidade dos vinhos, com a leveza e características únicas dos espumantes da Garibaldi, reunindo com os melhores sabores de trufas artesanais da Devorata, a proposta do trabalho é captar as percepções dos mais variados públicos que visitam o Complexo Enoturístico, e disseminar a mudança de opinião dos que ainda acreditam que espumante e chocolate não combinam.

O presente artigo apresenta ainda o sentimento e comportamento das pessoas que testam essa ousada experiência, podendo identificar-se as mudanças de opiniões que traduzem essa proposta.

Vinhos e espumantes podem intensificar o sabor das trufas artesanais, ou ainda, os chocolates podem potencializar o sabor do Terroir dos espumantes e vinhos da Serra Gaúcha.

O artigo também, tem a proposta de modificar a mentalidade das pessoas e descomplicar o consumo dos vinhos e espumantes, que podem ser harmonizados com todos os tipos de alimentos, cada pessoa tem um paladar especial, que irá transformar os sabores.

Apresentando como objetivos, neste artigo, elenca-se o fato de compreender o uso da harmonização de trufas artesanais de chocolates com vinhos e espumantes, como uma estratégia

inovadora de Marketing. Com isso, analisando as percepções das pessoas que embarcam na experiência, verificando as sensações de desfrutar essa harmonização, identificando as emoções sentidas e compreendendo a ferramenta de Marketing.

A HARMONIZAÇÃO NA TEORIA

A Harmonização de vinhos e espumantes com chocolates é criada para alavancar a nova proposta de uma experiência que até então pode não agradar muitos paladares, porém o mercado turístico do Brasil, principalmente da Serra Gaúcha, conhecido pelas vinícola do Vale dos Vinhedos, pela gastronomia em sua maioria típica italiana, pelos chocolates e paisagens encantadores precisa se reinventar.

Harmonizar pratos com vinhos e espumantes é um processo muito particular, pois o que harmoniza para uma pessoa pode não agradar o paladar de outros. Como sugestão, essa harmonização foi definida por especialistas em chocolates, vinhos e espumantes, e feitos alguns testes com pessoas vinculadas às empresas envolvidas e sommeliers para definição de sabores do projeto. O difícil de harmonizar vinhos e espumantes com chocolates é que os sabores podem sobressair-se uns aos outros.

Para Rizzo (2001):

Vinho e comida têm, portanto, igualmente enorme poder um sobre o outro. Por isso é preciso escolher o vinho que vai ressaltar a qualidade dos pratos e vice-versa. A bebida também cresce se estiver acompanhada do prato certo. As regras da harmonização se estendem às especificidades de cada ingrediente principal.

A escolha dos produtos foi realizada com o maior cuidado possível para que todos os sabores fossem sentidos ao paladar de quem passa pela experiência.

O vinho não se trata de uma ciência exata, (CORDEIRO, 2009) toda a experimentação é válida e o objetivo de mesclar os sabores de vinhos com comidas, neste caso o chocolate, é o prazer de ampliar o sabor dos alimentos e potencializar suas sensações.

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Contudo, como sugestão de harmonização são expostos cinco conjuntos de chocolates com vinhos e espumantes, citados a seguir:

- Vinho Garibaldi Chardonnay com Trufa artesanal sabor maracujá; esta combinação ressalta o cítrico e a acidez do vinho mais jovem, que tem muitas notas desta fruta em seu aroma. A doçura deixa também o paladar bem agradável.

- Espumante Garibaldi Prosecco com Trufa artesanal sabor laranja; uma brincadeira que lembra do spritz, drink famoso na região do Vêneto, na Itália que combina Prosecco, Laranja e Aperol. A sensação refrescante vem da combinação surpreendente com um toque agridoce.

- Espumante Garibaldi Rosé Pinot Noir com Trufa artesanal sabor cereja; essa combinação traz uma releitura do lugar comum das frutas vermelhas, ou seja: o sensorial do morango contraposto ao espumante. Como um

drink, remete Kir Royal, com suas notas que lembram ao cassis.

- Vinho Garibaldi Cabernet Sauvignon com Trufa artesanal sabor meio amargo: a proposta ressalta as propriedades do cacau, matéria- prima do chocolate, suas características de aromas – destacados pela combinação com os taninos do vinho maturado em barricas de carvalho.

- Espumante Garibaldi Moscatel com Trufa artesanal sabor Espumante; esta trufa tem uma combinação poderosa: chocolates branco e preto, com toque de espumante da própria Cooperativa Vinícola Garibaldi. Sua combinação aposta no equilíbrio de sabores para ressaltar o uso criativo do Moscatel como sobremesa.

Com esta experiência, facilmente a memória das pessoas é levada para outros planos, para outros momentos e transformada em lembranças inesquecíveis, como se estivessem realizando uma viagem sem sair da cadeira.

Figura 1: Trufas artesanais e taças com os produtos degustados

Fonte: O Autor O paladar das pessoas traz traços pessoais,

particulares que definem os sabores e gostos que cada um tem por suas preferencias alimentares, neste caso, a proposta é fazer com que os indivíduos submetidos ao processo, quebrem paradigmas e consigam criar novas

emoções e memórias afetivas, lembranças de algum momento especial de suas vidas.

Para Portillo (2006):

“Uma memória afetiva pode se desenvolver a partir de uma percepção sensorial como

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