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Jovens Mulheres e Relações Sociais de Gênero no Projeto

Educativo da Ordem Internacional das Filhas de Jó

Universidade Católica de Goiás Mestrado em Educação

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Jovens Mulheres e Relações Sociais de Gênero no Projeto

Educativo da Ordem Internacional das Filhas de Jó

Dissertação apresentada à Banca Examinadora do Mestrado em Educação da Universidade Católica de Goiás como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Educação, sob a orientação da Profa. Dra. Maria Tereza Canesin Guimarães.

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Banca Examinadora

____________________________________ Profa. Dra. Maria Tereza Canesin Guimarães

- Presidenta -

____________________________________ Profa. Dra. Lúcia Helena Rincón Afonso ____________________________________

Profa. Dra Marília Pontes Sposito

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Repito por pura alegria de viver: a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena.

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Dedicatória

Dedico este trabalho a mim mesma. Por todas as rupturas exigidas, pelo sangue vertido, pelo choro engolido, pelo prazer da produção intelectual, que, nesta trajetória acadêmica, me levaram a compreender um pouco de mim mesma e das “verdades” que compõem o meu mundo.

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À orientadora Maria Tereza Canesin Guimarães, por ter confiado em mim, compreendido as minhas razões de viver, e por ter sido, sobretudo, uma orientadora de tempo integral, profissional com prática docente fundamentada na ética e no respeito, com paixão pelo ofício de ensinar, pesquisar e aprender, e consciente de que “os caminhos sempre poderiam ter sido outros, mas as circunstâncias e as escolhas...”

À minha filha Laura e aos meus filhos Pedro e João Paulo que, na alegria e entusiasmo transbordantes da condição juvenil que vivenciam, me deram estímulo para concluir esse trabalho e buscaram compreender a minha caminhada na corda bamba do equilíbrio entre a condição de mãe, profissional, militante dos movimentos sociais e mestranda.

Ao companheiro de jornada, Rosair Marques de Souza, por seu amor incondicional e pelo respeito e apoio à minha luta cotidiana para defender meus ideais, embora nem sempre concorde com eles.

À amiga e comadre, Maria Tereza Pereira de Souza Rosa, admiradora da produção acadêmica e intelectual, que insistiu até me levar, literalmente, pela mão, ao Curso de Especialização em Língua Portuguesa da Universidade Federal de Goiás (UFG) e ao Curso de Mestrado em Educação da Universidade Católica de Goiás (UCG).

Ao meu pai, Antônio Francisco de Oliveira (in memoriam), que, da sua dura saga de nordestino migrante, legou-me a disposição de não me acomodar, de não desistir, de sempre buscar progredir.

À minha mãe, Maria Jerônima de Oliveira, meu primeiro exemplo de resistência, de ruptura com os padrões estabelecidos e de luta pelo acesso ao conhecimento e por uma vida feliz e sem opressão para as mulheres.

Às jovens mulheres Filhas de Jó que se dispuseram a falar sobre suas vivências juvenis e que me confiaram o uso de seus depoimentos para realização dessa pesquisa. Às mães e aos pais dessas jovens, que não só permitiram o envolvimento das filhas nessa pesquisa, como também deram seus depoimentos.

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Às companheiras do Centro Popular da Mulher, Maria de Fátima Veloso Cunha, Rita Aparecida de Azevedo Silva, Eline Jonas, Célia Carvalho Pimentel, Elaine de Barros Cunha, Stphaine Machado de Sousa Moura, Gildeneide dos Passos Freire, Marta Ivone de Oliveira, Celma Grace de Oliveira, por me incentivarem e assumirem minhas tarefas nessa instituição para que eu pudesse me dedicar ao mestrado.

À amiga Sônia Cleide Ferreira da Silva, do Grupo de Mulheres Negras Malunga, uma jovem mulher negra guerreira e solidária, com quem dividi grande parte das angústias que marcaram a realização desse mestrado.

Ao professor Jadir Pessoa da UFG, que, sem medir esforços pessoais e profissionais, aceitou compor a banca de qualificação desse trabalho. Meu reconhecimento pelas enriquecedoras sugestões e pelo seu carinho de educador. À amiga e componente das bancas de qualificação e defesa, Lúcia Helena Rincón Afonso, a quem devo, além da valiosa contribuição crítica a esse trabalho, também o despertar da consciência de que um novo mundo de igualdade e solidariedade é possível e que a luta feminista é fundamental no processo de construção desse novo mundo.

À Marília Pontes Sposito da Universidade de São Paulo (USP), pela disposição de dirigir-se a Goiânia para compor a banca de defesa deste trabalho, apesar de seus inúmeros compromissos, prova de seu interesse em contribuir para a ampliação de estudos que busquem a compreensão do significado da condição juvenil brasileira na atualidade.

Às colegas e aos colegas do curso de mestrado, pela convivência alegre, afetuosa e solidária, condição fundamental para serem suportados os sacrifícios exigidos nesse tortuoso percurso de estudo e de elaboração de dissertação. Não só o aprendizado teórico demarcará esse mestrado, mas também os nossos fraternos lanches comunitários, as nossas animadas festas e as amizades que construímos ao longo desses anos.

Às caríssimas Luciana Campos Dias e Tangriane Montenegro, companheiras de orientação e de pesquisa sobre o tema da juventude, com as quais pude discutir questões importantes deste trabalho. Ao colega Murilo de

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Morais Miranda que não pôde concluir conosco esse mestrado, mas sempre foi e será Mestre na arte da amizade, da solidariedade e de deixar saudades. E à especial amiga e colega de turma, Thelma Íris Perini, pelo incentivo ao meu trabalho acadêmico e pela coragem de estar ao meu lado nas situações mais insólitas.

Às professoras e aos professores da turma de 2003, pela dedicação e generosidade, e especialmente à professora Maria Esperança F. Carneiro, pelo destemor em lutar pela democratização do acesso ao conhecimento e pelas mudanças no mundo.

À Cislene da Cunha P. Mota, pela contribuição imprescindível na digitação e formatação deste trabalho, e à professora Darcy Costa, pelo rigoroso trabalho de revisão do texto final.

Às pessoas que, na cegueira de suas incompreensões com a minha luta em defesa das mulheres vítimas de violência, buscaram deliberadamente, nesse período crítico de produção intelectual, colocar ainda maiores desafios para a minha vida pessoal e profissional; pois, à revelia de suas vontades, tornaram-me mais forte, decidida e leve.

“Todos esses que aí estão Atravancando meu caminho. Eles passarão.

Eu passarinho.”

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S U M Á R I O

RESUMO... . 11

ABSTRACT... . 12

INTRODUÇÃO... 13

CAPÍTULO I A ORDEM INTERNACIONAL DAS FILHAS DE JÓ: A MAÇONARIA e a MULHER... 34

1.1 Aspectos históricos e de organização da maçonaria ... 34

1.2 A exclusão das mulheres na institucionalização da maçonaria... 41

1.3 Ordens paramaçônicas de mulheres: a participação consentida ... 48

1.4. A Ordem Internacional das Filhas de Jó (OIFJ) ... 49

1.4.1 Histórico das Filhas de Jó ... 51

1.4.2 Descrição de Cerimônia Pública de Divulgação da OIFJ ... 58

1.4.3 Organicidade da OIFJ ... 66

CAPÍTULO II JOVENS MULHERES: SITUAÇÃO JUVENIL E OS MECANISMOS DE ADESÃO À ORDEM INTERNACIONAL DAS FILHAS DE JÓ ... 72

2.1. Maria: “A ordem [Internacional das Filhas de Jó] é maravilhosa (...) pertencer a esta ordem é um privilégio” ... 73

2.2. Ana: “Sou uma pessoa diferenciada das outras (...)sou uma jovem privilegiada por ter tido a oportunidade de entrar nessa ordem”... 96

CAPÍTULO III JOVENS MULHERES: SITUAÇÃO JUVENIL E AS RUPTURAS COM A ORDEM INTERNACIONAL DAS FILHAS DE JÓ ... 111

3.1 Ester: “Acho que foi muito importante (participar da OIFJ), aprendi muito e me decepcionei muito”... 111

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3.2 Raquel: “Tia manda em Filha de Jó, e Filha de Jó fica calada. Eu não

aceitava e não aceito” ... 125

CONSIDERAÇÕES FINAIS... 142

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS... 156

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RESUMO

O propósito deste trabalho é analisar jovens mulheres de um determinado agrupamento juvenil, a Ordem Internacional das Filhas de Jó (OIFJ), e apreender quais sentidos atribuem à condição juvenil e a essa ordem. Com esse objetivo buscou-se compreender quem são essas jovens mulheres, o que significa para elas ser uma jovem mulher, como vivem sua condição juvenil, porque aderem ou não aderem integralmente ao projeto de formação dessa organização juvenil que tem a destacada peculiaridade de ser patrocinado pela maçonaria, qual projeto educativo desenvolvido pela OIFJ para incorporar as jovens às suas concepções e à sua dinâmica de funcionamento e qual modelo ideal de jovem mulher que interessa à essa organização formar. As quatro jovens mulheres entrevistadas expressam a ampla diversidade da juventude brasileira, ou melhor dizendo, das juventudes brasileiras, considerando-se que a alta complexidade do universo juvenil contemporâneo impõe a necessidade de se falar em juventudes, no plural, e não no singular e que, por isso, necessitam de olhares e de análises, que busquem abordar a multiplicidade que forma o perfil da juventude brasileira. Buscou-se delinear, por meio das entrevistas realizadas, uma dessas facetas desse universo juvenil – jovens mulheres na OIFJ – e apreender quem são essas jovens. Além da dimensão simbólica ou condição juvenil, “o modo como uma sociedade constitui e atribui significado a esse momento do ciclo de vida”, foram consideradas, as trajetórias pessoais: a posição na estrutura social, a convivência familiar, a etnia, a religião e os espaços físicos e culturais pelos quais essas jovens circulam. A condição juvenil das jovens pesquisadas é mediada por um contexto político-histórico contemporâneo da modernidade, no qual vigoram a sociedade de mercado (que considera a juventude uma nova fatia do mercado), a sociedade do conhecimento, a globalização, uma crise social sem precedentes com desemprego de longa duração, o crescimento da violência urbana, e um individualismo pautado pelo ideário neoliberal. As entrevistas e a pesquisa sobre a organicidade da OIFJ possibilitaram apreender o modo de ser jovem das entrevistadas e como essas jovens mulheres, que têm vínculo com a OIFJ, vivem a condição juvenil.

Palavras-chave:

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ABSTRACT

The purpose of this work is to analyse young women that belong to one specific group of juvenile, the International Order Job’s Daughters (OIFJ), and to understand which senses they attribute to the youth condition and to that order. With that objective on mind, the research looked for the comprehension on who are those young women, what being a young women mean for them, how do they live their juvenile condition, and why do they join or not, to the formation project of that juvenile organization, that has the attached peculiarity of being sponsored by the masonry; what is the educational project developed by the OIFJ in order to incorporate the youth to its conception, and to its dynamics, and which is the ideal young women model that the organization is interested to form. The four young women interviewed expresses the large diversity of Brazilian youth, or, in other words, Brazilian youths, considering the high complexity of the contemporary juvenile universe, it is imperative to mention in terms of juveniles, using the plural, not the singular, and that, therefore, need more than one way of looking, and analyses, focused on the approach of the multiplicity that models the profile of the Brazilian youth. In order to delineate, trough the interviews done, one of the many ways the juvenile universe is presented: young women on OIFJ, and to apprehend who are these young ones beyond the symbolic dimension or youthful condition - "the way as a society constitutes and attributes meaning to this moment of the life cycle" – the personal trajectory had been considered: the position in the society, the relationship with the family, the race, the religion, and, physical and cultural spaces on which those young circulates. The juvenile condition of the young women interviewed is mediated by a contemporary political historical context of modernity, in which predominates the market society (that considers the youth as a new and important part of the market), the knowledge society, the globalization, a social crises without precedents, that brings long term unemployment , the increase of the urban violence and an individualism based on neoliberal ideas. The interviews and the research on the way OIFJ is organized made possible to apprehend the way of living the youth of the interviewed girls, and how those young female, who belong to the OIFJ, live the juvenile condition.

Words-Key:

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INTRODUÇÃO

Somos tão necessárias(os) como o ar e a água para sobreviver, sem nós o mundo morreria ... Assim dizemos para enfatizar que somos uma parte vital de toda sociedade.

Declaração de Jovens da América Latina e do Caribe1

A temática da juventude, nos últimos anos, emerge de forma significativa em vários espaços sociais. Os meios de comunicação de massa, os meios acadêmicos, os atores políticos de instituições governamentais e não- governamentais têm dedicado atenção especial ao segmento juvenil (Abramo, 1997).

Tal atenção justifica-se, a princípio, pelo expressivo número de jovens atualmente no mundo. Alguns estudos, como o de Madeira (1998), expressam a presença de uma onda jovem em curso. Metade dos 6.3 bilhões de pessoas do planeta tem menos de 25 anos de idade, mais de 1 bilhão tem entre 10 e 19 anos e, no Brasil a população jovem2, na faixa de 10 a 24 anos de idade, chega a 52

milhões (30% do total). Com referência ao grupo de 15 a 24 anos de idade, o Brasil é o quinto do mundo com maior percentual de juventude em sua população, 34 milhões, correspondendo a 20% do total. O Brasil também é responsável por cerca de 50% da população jovem da América Latina e 80% do Cone Sul (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai), segundo dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, 2003).

No Brasil, não existe uma definição legal de população jovem. Somente a partir de 1990, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – BRASIL, 1990)

1 Apresentada durante a Reunião da Mesa Diretora Ampliada de Comitê Especial sobre População

e Desenvolvimento do período de sessões da Comissão Econômica para América-Latina e Caribe (CEPAL), em Santiago do Chile, em 10 e 11 de março de 2004 (in Declaração, 2004, p. 35).

2 Conceito de população jovem do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e da

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passou a considerar criança a “pessoa de doze anos de idade incompletos” e adolescente “aquela entre doze e dezoito anos de idade”. Atualmente, a definição das Nações Unidas de juventude (15 a 24 anos) e de população jovem (10 a 24 anos) tem sido utilizada com maior freqüência por programas governamentais e por diversos autores e autoras brasileiros.

Os dados demográficos apresentados caracterizam um momento de alargamento dessa faixa etária entre 15 e 24 anos, por isso, a temática da juventude assumiu, nas últimas décadas, destaque em instâncias sociais, jurídicas, assistenciais, educacionais, institucionais, dentre outras. Conforme Charbonneau (1980),

o seu peso demográfico crescente lhes confere um novo estatuto: eles se impõem numa onipresença que é extremamente fácil de perceber, a juventude tornou-se um novo Norte da formação e é com relação a ela que agora a educação se define. (Charbonneau apud Mancini, 2004, p. 1)

Em razão do alargamento dessa faixa etária no Brasil, a produção e o mercado, mediados pelos meios de comunicação de massa, investem em inúmeros produtos dirigidos à população jovem que se apresenta como consumidora em potencial. São veiculados programas de televisão, de rádio, revistas e cadernos especiais nos grandes jornais que têm como público alvo a juventude. O conteúdo desses produtos refere-se à música, à moda, ao estilo de vida, ao esporte e ao lazer. Em geral, os jovens e as jovens são identificados com problemas sociais (violência juvenil, gravidez na adolescência, desemprego, envolvimento com drogas, desinteresse pela escola, pela política, etc.) percebidos como fatores que afetam a condição juvenil e para os quais o mundo adulto busca mecanismos de combate.

Os meios acadêmicos brasileiros, na década de 1990, portanto, recentemente, têm dado visibilidade à temática e ampliado o número de estudos voltados para os setores jovens. Há que se ressaltar que, como assinala Spósito (2002), muitos desses estudos estão orientados pelo recorte pedagógico. Constata-se, também, a partir dos últimos dez anos, o interesse de estudiosos e estudiosas da temática (Sposito, 1997; Abramo, 1997; Carrano, 2000; Canesin, 2004; Abad, 2002; etc.), por investigar os jovens e as jovens em outra

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abordagem: suas experiências, seus modos de viver e significar a condição juvenil, as formas de pertencimento aos agrupamentos e suas formas de relacionamento com as agências socializadoras.

Recentemente, organismos da sociedade civil têm apresentado em suas agendas a preocupação com os agrupamentos juvenis e instituições governamentais pautam-se por iniciativas na formulação de políticas públicas para a juventude. A criação de assessorias especiais para assuntos da juventude no âmbito do poder público municipal constituem exemplos que traduzem sinais de novas institucionalidades em curso, conforme aponta Spósito (2003a) em estudo sobre juventude e políticas públicas no Brasil.

No campo da sociedade civil – instituições e agências de trabalho social, organizações não-governamentais (ONGs), associações beneficentes, instituições de assistência, etc. – focam suas atenções na temática da juventude. Contudo, Abramo (1997) observa que:

a maior parte desses programas está centrado na busca de enfrentamento dos “problemas sociais” que afetam a juventude (cuja causa ou culpa se localiza na família, na sociedade ou no próprio jovem, dependendo do caso e da interpretação), mas, no fundo, tomando os jovens eles próprios como problemas sobre os quais é necessário intervir, para salvá-los e reintegrá-los à ordem social. (p. 26)

Outros organismos, orientados por concepções diversas, voltam-se para as questões relativas aos segmentos jovens; dentre eles, destacam-se os partidos políticos, os sindicatos, as centrais sindicais e outras instituições como, por exemplo, as igrejas católicas e evangélicas, e até mesmo organizações seculares como a maçonaria.

A presença de projetos dirigidos ao segmento juvenil no interior da maçonaria é instigante no sentido de indagar o que faz essa instituição secular e de âmbito mundial movimentar-se para desenvolver atividades visando a adesão de jovens à sua lógica, em especial, mulheres que tradicionalmente foram excluídas de sua configuração.

A maçonaria constitui uma organização tradicional, permeada por uma série de rituais internos exclusivos para os seus adeptos e, ao longo da história, desenvolve projetos e ações fundamentados no ideário liberal e com centralidade na figura masculina. O desenvolvimento recente de um projeto como a Ordem

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Internacional das Filhas de Jó (OIFJ), voltado para a formação de jovens mulheres, na faixa etária entre 11 e 20 anos, revela-se intrigante. Surgem, portanto, inúmeras questões: quem são estas jovens mulheres que aderem à OIFJ? Por que o fazem? Como vivem a condição juvenil? Quais as práticas educativas desenvolvidas pela OIFJ que buscam incorporar as jovens à sua dinâmica de funcionamento? Qual o formato organizacional da OIFJ no interior da maçonaria? Qual o modelo ideal de jovem mulher que interessa a essa organização formar?

A maçonaria é uma instituição que atuou decisivamente na Independência do Brasil, na libertação dos escravos e na Proclamação da República, e, no momento, tem ressaltado que, em razão das transformações que levaram a sociedade a se afastar dos valores defendidos por ela no passado, retomará seu papel de resgatar os seus valores de liberdade, igualdade e fraternidade. Para tanto, afirma que dirige atualmente seus recursos humanos para

a construção do futuro e trabalha para que as transformações, pelas quais as sociedades necessariamente passam, sejam lideradas por pessoas comprometidas com a qualidade de vida da sociedade, com os mais elevados princípios éticos e morais, com a liberdade intelectual e que respeite os limites estabelecidos pela consciência religiosa das pessoas.(Os valores da maçonaria. Disponível em: http//geocities.yahoo.com.br/demolays/fdj.htm). Acesso em: 14 abr. 2004.

Em atendimento ao propósito de colaborar para a formação de líderes do futuro, a maçonaria trouxe para o Brasil duas ordens juvenis: a Ordem DeMolay para jovens do sexo masculino, e a Ordem Internacional das Filhas de Jó, para jovens do sexo feminino. Evidencia-se que, para cumprir seu objetivo declarado de interferir nos destinos da sociedade brasileira e da humanidade, a maçonaria usa a estratégia de formar jovens líderes, de ambos os sexos, com habilidades morais superiores, e considera ser esta sua mais importante tarefa na atualidade.

A Ordem Internacional das Filhas de Jó abriga moças de parentesco maçônico. Foi criada nos Estados Unidos da América (EUA), em 1920. Estendeu-se ao Alaska, Havaí, Canadá, Filipinas, e chegou ao Brasil em 1993. Reúne jovens mulheres com a idade de 11 a 20 anos e tem as atividades

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supervisionadas por um conselho de adultas e adultos. O objetivo manifesto dessa organização é o aperfeiçoamento do caráter das jovens que dela participam, por meio do desenvolvimento “espiritual e moral de liderança, encontrado nos ensinamentos que destacam a reverência a Deus e às Sagradas Escrituras, lealdade com a bandeira do país e às coisas que ela representa” (Constituição e regulamentos da OIFJ, 1987).

A Ordem Internacional das Filhas de Jó, é uma organização paramaçônica3, e, em seus documentos, exalta a democracia, o lar, a pátria, o trabalho, a religião e a fraternidade. Ademais, expressa sua intenção de estimular a auto-estima, a auto-confiança, a oratória em público e despertar o espírito de liderança que reside em cada jovem iniciada na ordem. As atividades externas das jovens incluem vários projetos filantrópicos, como a ajuda a hospitais, escolas, creches, lares de órfãos e idosos, campanhas governamentais de saúde e auxílio à população em geral, dentre outros programas. Também, é mantido um Fundo Educacional, por meio do qual as Filhas de Jó conseguem, quando necessário, recursos para seus estudos.

Como a maçonaria, a OIFJ é uma ordem iniciática, cujas sessões de ritualística são restritas às componentes da ordem, ao Conselho Guardião, aos maçons em situação regular4 e a homens e mulheres que apresentem critérios de elegibilidade específicos (como, por exemplo, ser pai ou mãe, avô ou avó, padrasto ou madrasta de uma Filha de Jó). São realizadas também cerimônias públicas e abertas à comunidade. O recinto das reuniões é chamado de bethel, que significa lugar sagrado. A palavra também é usada para referir-se ao grupo como um todo. A ordem está dividida em bethéis, ou seja, cada localidade possui um bethel ou mais de um, dependendo do número de habitantes onde se instala a OIFJ. Quase sempre um bethel se reúne em um templo maçônico, uma vez que a ordem é patrocinada pela maçonaria.

3 Organizações que possibilitam à maçonaria atuar “no mundo profano através de instituições que

fomenta, cria ou dirige, mas que têm a sua vida própria, desligada da vida maçônica interna. Não interessa à Maçonaria que, nestas instituições, todos os membros lhe pertençam. Pelo contrário, prefere que alguns ou muitos lhe sejam alheios, para que o relacionamento com o mundo profano se mostre tão grande quanto possível. Basta-lhe assegurar que o espírito de tais instituições se mantenha maçônico e que se possível, a orientação geral ou, pelo menos, um certo controle, estejam nas mãos de Maçons” (Oliveira apud Costa, 1994, p. 80 e 81)

4 Maçom em situação regular é aquele que não deve contribuição financeira à ordem nem está

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Cada bethel envolve suas componentes em inúmeras atividades e, segundo o documento Regulamento interno do Bethel, não é permitido que as atividades da ordem prejudiquem qualquer atividade escolar, religiosa ou familiar. São promovidas e estimuladas atividades, visando formar nas jovens princípios como fraternidade, respeito à vida e defesa plena e irrestrita da liberdade. Para as Filhas de Jó, uma das maiores lições, e a primeira a ser ensinada, é a igualdade, independentemente das ocupações ou posições das componentes fora do bethel.

O ritual5 da ordem foi escrito com base no Livro de Jó do Antigo Testamento, com referências particulares ao capítulo 42, versículo 15: “em toda a terra não se acharam mulheres tão formosas como as filhas de Jó, e seu pai lhes deu herança entre seus irmãos”. Conforme material de divulgação da ordem, a beleza, nesse caso, está relacionada à virtude, por isso o lema da ordem é: “Virtude é uma qualidade que enobrece uma mulher”.

A organização funcional da ordem envolve cargos oficiais com atribuições definidas. Há uma rígida hierarquia na disposição dos cargos executivos, na feitura das tarefas correspondentes às funções e na relação com o Conselho Guardião, que é composto por adultas e adultos e que fiscaliza todas as atividades das jovens no bethel.

O projeto da Ordem Internacional das Filhas de Jó evidencia fortes preocupações com a formação de jovens lideranças femininas em espaços do complexo contexto de práticas sociais educativas que extrapolam os muros escolares. Essas práticas, sua natureza e as relações de gênero que as permeiam, assumem destaque em uma instituição que, secularmente, excluiu a mulher, e em razão disso suscita muitos questionamentos.

A pertinência de tomar como objeto de análise deste estudo “Jovens Mulheres e Relações Sociais de Gênero no Projeto Educativo da Ordem Internacional das Filhas de Jó” relaciona-se, sobretudo, com a visibilidade que os jovens e as jovens têm adquirido nas sociedades contemporâneas em diferentes

5 Documento privativo das iniciadas na OIFJ, o qual apresenta informações acerca do histórico da ordem. Revela todo simbolismo da ordem e o sentido místico das cerimônias, além de descrever,

detalhadamente, todas as cerimônias secretas, também chamadas de cerimônias ritualísticas, às quais só têm acesso as iniciadas, os maçons regulares, homens que sejam parentes em primeiro grau das Filhas de Jó e mulheres acima de 21 anos e que possuam relacionamento de parentesco com maçons.

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campos sociais (cultural, midiádico, institucional, etc) e tem a preocupação teórica de conceituar quem são essas jovens em termos de categoria social.

Referencial teórico e delimitação do universo empírico

O escopo de tornar compreensível a análise sobre o objeto de estudo desta pesquisa impôs a necessidade de destacar conceitos e formulações, como juventude, relações de gênero, e instituições socializadoras.

Esses conceitos e formulações têm o propósito de contribuir e esclarecer a abordagem que orientou o processo de pesquisa da qual resultou o presente trabalho que não tem a pretensão de esgotar as múltiplas incursões conceituais da temática. A compreensão da interface entre as categorias juventude, relações sociais de gênero e educativas constituiu o parâmetro da análise.

Recentes estudos sobre a temática juventude buscam o significado de ser jovem, na atualidade, além das visões estereotipadas e generalizantes já elaboradas sobre esse ciclo da vida, nas quais o jovem e a jovem são qualificados como apáticos, conservadores, individualistas, apolíticos ou promotores de mudanças sociais, revolucionários, enfim, classificam-nos com os mais diferentes adjetivos. Com outra perspectiva, os referidos estudos orientam-se para a compreensão do que é ser jovem, de como os jovens e as jovens se relacionam simbolicamente com as instituições formadoras e avaliam sua condição de agentes sociais diante das transformações em processo nas sociedades contemporâneas.

Em relação aos critérios relacionados à faixa etária e aos aspectos geracionais utilizados para delimitar o ser jovem nas sociedades contemporâneas, Carrano (2000) afirma:

As idades não possuem um caráter universal. A própria noção de infância, juventude e vida adulta é resultante da história e varia segundo as formações humanas. Os estudos antropológicos nos mostram que os sentidos dos relacionamentos entre as gerações se distinguem nos tempos e espaços das sociedades. (p. 12)

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Juventude é uma construção social e uma invenção da sociedade moderna, ou seja, juventude e sociedade estão intrinsecamente ligadas. E as jovens e os jovens formam-se conforme as determinações da cultura em que estão inseridos, assim como contribuem para perpetuar ou transformar os valores dessa cultura.

Para Bourdieu (1983a), as divisões entre idade são arbitrárias, as funções sociais da juventude e o desempenho de papéis atendem a interesses diversos em cada cultura, em cada processo histórico vivido pela sociedade. Além disso, o conceito juventude não revela uma unidade social. O autor destaca que a inserção dos jovens e das jovens na estrutura social revela as diferenças de origem de classe. Por isso, para ele, não “se pode subsumir no mesmo conceito [juventude] universos sociais que praticamente não possuem nada de comum” (p. 114). Nessa perspectiva, Bourdieu (1983a) considera que juventude é apenas uma palavra se está descontextualizada das condições objetivas de classe social.

Outros autores e autoras como Melucci (1997), Abramo (1997, 2005), Novaes (2003, 2005), Madeira (1998), Abad (2003), Carrano (2003), Sposito (1997, 2003, 2005), Dayrell (2003), Canesin (2003a, 2003b, 2003c, 2004), Castro (2004), Castro e Abramovay (2005), dentre outros e outras que se dedicam ao estudo desse tema, também apontam as diferenças entre as juventudes, determinadas pelas condições sociais, culturais, geracionais, materiais, estéticas, de raça e gênero a que estão submetidas. Nesse sentido, indicam e enfatizam a diversidade de modos de ser jovens existentes, ou seja, em razão das diferenças e desigualdades que atravessam esse período da vida, existem juventudes, no plural, e não no singular.

Contudo, esses mesmos autores e autoras, que têm como referência a pluralidade de tipos de juventude, também assinalam a existência de “uma série de construtos que identificam juventude como um ciclo da vida que socialmente se singulariza, quer no plano de direitos, linguagens e exclusões sociais, quer nas vulnerabilidades”, como o faz Castro (2005, p. 41). Por isso, Abramo e Branco (2005) ressaltam que existem “alguns elementos, atitudes e percepções similares, comuns a diferentes setores e situações sociais, que podem dar consistência ao termo ‘juventude’ e aparecer como marcas geracionais, por meio do que se pode esboçar a singularidade da condição juvenil no Brasil de hoje” (p. 16). Também

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Castro e Abramovay (2005) chamam a atenção para a compreensão desse ciclo de vida em termos das diferentes referências objetivas e subjetivas que demarcam aqueles e aquelas que as vivenciam:

Em síntese, o termo “juventude” refere-se ao período do ciclo da vida em que as pessoas passam da infância à condição de adultos, e durante o qual se produzem mudanças biológicas, psicológicas, sociais e culturais que se realizam em condições diferenciadas, segundo as sociedades, as culturas, as etnias, as classes sociais e o gênero, bem como segundo outras referências objetiva e subjetivamente relevantes para aqueles que as vivenciam. (p. 42)

Neste sentido, Abramo (2005) discorre sobre as possibilidades de se falar na existência de uma condição juvenil, na atualidade. A autora enfatiza a dificuldade de precisar o termo juventude: “cada disciplina das ciências humanas faz um tipo de recorte e, dentro delas, diferentes correntes teóricas ressaltam dimensões distintas desse complexo ao qual o termo pode se referir” (Abramo, 2005, p. 38). O termo juventude adquiriu grande relevância no atual contexto político brasileiro, sobretudo com o debate sobre a necessidade de políticas para esse segmento. Em decorrência disso, Abramo (2005) afirma ser necessário buscar compreender o que constitui a juventude como singularidade em relação aos outros segmentos populacionais. Para tanto, é necessário, em primeiro lugar, definir o que é ser jovem, quem é jovem e qual a faixa etária limite para ser considerado jovem, uma vez que essas definições “têm mudado no tempo e no espaço e refletem disputas no campo político, no campo econômico e também entre gerações” (Novaes, 2003, p. 121).

Os estudos brasileiros sobre juventude convencionaram classificar como jovens os brasileiros e as brasileiras de 15 a 24 anos de idade, utilizando os critérios da Organização Mundial de Saúde (OMS) e da Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com Abramo (2005), essa faixa de 15 a 24 anos está sendo adotada porque “corresponde ao arco de tempo em que, de modo geral, ocorre o processo relacionado à transição para a vida adulta” (p. 45). Contudo, os limites de idade são insuficientes e devem ser relativizados, pois, para alguns e algumas jovens sem direito à infância, a juventude começa mais cedo; para outros e outras, esse período é alargado até 29 anos (Novaes, 2003).

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Os estudos de Abramo (2005) consideram que Abad e Spósito contribuem para as investigações da temática ao estabelecerem a distinção entre condição e situação juvenil. Assim, Abramo (2005) define

condição (o modo como uma sociedade constitui e atribui significado a esse momento do ciclo de vida, que alcança uma abrangência social maior, referida a uma dimensão histórico geracional) e situação, que revela o modo como tal condição é vivida a partir dos diversos recortes referidos as diferenças sociais – classe, gênero, etnia etc. (p. 42)

Para falar de uma condição juvenil na atualidade, deve-se retomar a história do desenvolvimento da sociedade capitalista, quando se formata o significado da juventude. Por isso, cabe repetir que “a juventude é uma construção histórico-social que faz sua aparição primeiro no contexto burguês entre os séculos XVII e XVIII e mais tarde atravessa todos os estratos sociais” (Gomes apud Borrego, 2005, p. 6). A acumulação de capital e o desenvolvimento da indústria, naquele período da história, trouxeram alterações significativas à divisão social do trabalho e às relações sociais. Nas palavras de Borrego (2005),

as relações familiares modificam-se e faz-se necessário prestar atenção à reprodução da força de trabalho. Mesmo a infância começa a ser mais atendida pela necessidade de prepará-la para que dê continuidade às riquezas acumuladas pelas famílias burguesas. Com esses novos acontecimentos históricos e socioeconômicos prolonga-se a infância e se delineia a juventude como um grupo que necessita qualificar-se para assumir na posteridade as rendas do capital familiar. Surge a escola como via para capacitar e preparar as forças produtivas que marcariam o avanço tecnológico do sistema capitalista. (p. 7)

A condição juvenil gestada pela sociedade moderna ocidental tem como marcos a desobrigação do trabalho e a dedicação exclusiva ao estudo nas escolas, e tem o sentido de uma moratória, compreendida como um período de espera para a incorporação ao mundo adulto. Essa situação vivenciada, inicialmente, só pelos jovens burgueses, e, posteriormente, de forma gradativa, estendeu-se também às jovens da burguesia e aos jovens e às jovens de outras classes sociais.

Para Abramo (2005), moratória é “compreendida como esse adiamento dos deveres e direitos da produção, reprodução e participação, um tempo socialmente legitimado para a dedicação exclusiva à formação para o exercício

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futuro dessas dimensões da cidadania” (p. 41). Segundo a autora, essa moratória é responsável por um desencontro entre as capacidades físicas de produção e reprodução dos jovens e das jovens e a maturidade emocional e social para a sua realização, o que ocasionou a noção moderna de juventude “como um período de interregno, de transição, de ambigüidade, de tensão potencial” (p. 41).

Além da idéia de transição, de condição juvenil mediada pelas relações de “incorporação à vida adulta e à aquisição de experiência”, conceitua-se a juventude de certas camadas sociais como “etapa vital entre a infância e a maturidade”, marcada pelo vínculo com as instituições de transição ao mundo adulto (família, escola e emprego assalariado). Abad (2003) ressalta que

hoje dificilmente se pode negar que os jovens, inclusive do meio rural, têm-se convertido em uma categoria social, interclassista e comum a ambos os sexos, definida por uma condição específica que demarca interesses e necessidades próprias, desvinculadas da idéia de transição e suas instituições responsáveis. Efetivamente, a juventude passa, mas também fica. (p. 23)

Essa transição para a vida adulta determinada pela inserção no mercado de trabalho, o abandono da escola e a constituição de um novo núcleo familiar, tem sofrido modificações em razão sobretudo de

mudanças no mundo do trabalho e nas possibilidades e padrões de inserção no “mundo adulto”. Sobre o pano de fundo de uma relativa descronologização do percurso das idades, e uma dificuldade geral de lograr inclusão plena, a entrada no mundo adulto se faz cada vez mais tarde (estendendo mais o tempo da juventude), segundo etapas variadas e desreguladas, sem uma linearidade padrão (...). (Abramo, 2005, p. 44) Acontece, atualmente, na avaliação de Abad (2003), o aparecimento de uma nova condição juvenil, decorrente de um processo de desinstitucionalização desencadeado por uma crise das instituições: escola, família e emprego assalariado,

tradicionalmente consagradas à transmissão de uma cultura adulta hegemônica, cujo prestígio tem se debilitado pelo não-cumprimento de suas promessas e pela perda de sua eficiência simbólica como ordenadoras da sociedade. O espaço deixado passa a ser ocupado por um maior desdobramento da subjetividade juvenil (...) É nessa desinstitucionalização da condição juvenil que têm surgido as possibilidades de viver a etapa da juventude de uma forma distinta da que foi experimentada por gerações anteriores. (Abad, 2003, p. 25)

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A desinstitucionalização da condição juvenil provoca, de forma diferenciada para os jovens e as jovens das classes populares e das demais classes, uma alteração no conteúdo da moratória, que deixa de significar apenas suspensão e adiamento para realizações e fruições no futuro, na vida adulta, e passa a incorporar “variados processos de inserção em várias dimensões da vida pessoal e social, como sexualidade, trabalho, participação cultural e política etc. A vivência da experiência juvenil passa a adquirir sentido em si mesma e não somente como preparação para a vida adulta” (Abramo, 2005, p. 43). Abad (2003) destaca positivamente a desinstitucionalização da juventude, por propiciar uma nova sociabilidade mais próxima do desejo, da experimentação e da liberdade. Contudo, Sposito (2005) alerta que não se “pode desconsiderar a aspiração por escolaridade, os sentidos atribuídos à instituição escolar e a importância das redes familiares para muitos jovens, sobretudo aqueles que, em decorrência das estruturas desiguais, situam-se na base do sistema social” (p. 92). E também não se pode deixar de analisar nessa nova sociabilidade juvenil a reprodução das relações de poder, por meio de velhas e novas formas de dominação presentes na experiência juvenil contemporânea nas múltiplas instâncias de socialização.

Dados da pesquisa Perfil da juventude brasileira, publicados por Abramo e Branco (2005), atestam que, apesar da reconhecida desinstitucionalização da condição juvenil – em razão das mutações ocorridas nas instituições tradicionais (família e escola) – ainda existe uma forte influência dessas instituições na vida das jovens e dos jovens brasileiros. A família é a instituição em que os jovens e as jovens depositam maior confiança: 98% dizem que nela confiam e 83%, totalmente; a escola aparece em segundo lugar: 90% dizem que nela confiam, 53%, totalmente. Abramo (2005) então afirma que “a juventude é vivida centralmente no seio da família de origem, contando com sua estrutura (material e afetiva), valendo ressaltar que a família aparece como importante, mas não como idealizada, pois, na pesquisa, os jovens e as jovens relatam os conflitos e os aspectos negativos da família” (p. 67). A respeito da relação dos jovens e das jovens com a instituição escola, Sposito (2005) lembra que a expansão da escolarização no Brasil, durante os últimos cinqüenta anos,

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levou a escola a ocupar a centralidade das referências identificatórias dos jovens e das jovens. A autora assinala:

Os jovens assumem essas referências identificatórias e, de modo geral, não contestam fortemente sua legitimidade, embora reconheçam limites no impacto que a instituição escolar tem sobre suas vidas, sobretudo nos benefícios de uma provável inserção no mundo do trabalho. Sabem que a escolarização é uma entre outras possibilidades para se situar melhor no mundo, para além de um ganho imediato com o emprego ou um futuro profissional melhor. Consideram a existência de uma relativa abertura para as questões que envolvem o mundo contemporâneo e a própria juventude, mas não estabelecem críticas contundentes à qualidade da educação oferecida. Talvez reproduzindo os mecanismos contemporâneos da dominação, que trata a tarefa da socialização como “uma aparente escolha pessoal do sujeito”, consideram que são responsáveis pelas próprias dificuldades que apresentam no domínio das habilidades e competências a serem oferecidas pela unidade escolar. (p.123)

Diante do quadro de confiança na escola e de constatação das dificuldades atuais de mobilidade social, por meio da escolarização, estabelece-se uma tensão, uma ambigüidade, que tem marcado a relação dos jovens e das jovens com a apropriação do conhecimento escolar: ele é valorizado, mas ao mesmo tempo, não se sabe para quê.

Além de destacarem a família, a escola e o trabalho como importantes, os jovens e as jovens pesquisados também apontam a diversão, o lazer como elementos fortemente presentes e constituintes da condição juvenil brasileira, evidentemente “com grandes variações na forma, grau e qualidade com que são vividos, segundo as desigualdades de idade, gênero e classe” (Abramo, 2005, p. 67).

Carrano (2003) enfatiza a importância do lazer e do tempo livre para a formação da identidade do segmento juvenil: “Para os jovens, especialmente, as atividades de lazer se constituem num espaço/tempo privilegiado de elaboração da identidade pessoal e coletiva” (p. 138). Retomando a idéia da moratória social, o autor lembra que o tempo livre para jovens das classes populares pode ser o tempo da espera, não-legitimado e desvalorizado socialmente, podendo produzir um efeito perverso na elaboração da identidade e subjetividade desse jovem e dessa jovem. Carrano (2003) destaca a importância da turma de amigos e amigas para a construção de subjetividades positivas e que o estabelecimento de redes

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de amizades não é uma pura escolha pessoal, mas uma conseqüência do posicionamento dos indivíduos na estrutura social e no espaço físico.

Enfim, para compreender a diversidade dos modos de ser jovem nas suas especificidades, devem-se considerar os e as componentes desse segmento como agentes sociais que

têm apreensão ativa do mundo, constróem visões de mundo que contribuem de forma operante para conservar ou transformar a sociedade, dependendo das determinações estruturais e das posições internalizadas. (Canesin, 2002, p. 87)

Os jovens e as jovens, para Bourdieu (1983a) são agentes sociais atuantes e não apenas meros reprodutores das estruturas objetivas, porém agem em razão das disposições psíquicas que foram socialmente determinadas, ou seja, o autor considera que o agente se constrói na relação dialética com as condições objetivas. Acerca da disputa pela transmissão do poder entre os mais novos (os recém-chegados) e os mais velhos (já –recém-chegados), Bourdieu (1983a) observa que

estes conflitos são evitados durante o tempo em que os velhos conseguem regular o tempo de ascensão dos mais novos, regular as carreiras e os cursos, controlar a rapidez da ascensão nas carreiras, frear aqueles que não sabem se frear, os ambiciosos que “queimam etapas” (...) na maior parte das vezes, eles não precisam frear porque os “jovens” – que podem ter cinqüenta anos – interiorizam os limites, as idades modais, isto é, a idade na qual se pode “razoavelmente pretender” a uma posição, e não têm nem mesmo idéia de reivindicá-la antes da hora, antes de chegar “a sua hora”. (p. 121)

A diversidade de agrupamentos juvenis e a noção de jovem como agente social nortearam este estudo, que buscou analisar as jovens mulheres da OIFJ e, assim, compreender quem elas são e o que significa para elas ser jovem no contexto em que estão inseridas.

A categoria gênero, para este estudo, foi fundamental, pois as agências formadoras (escola, religião, família e outras instituições socializadoras) ainda têm suas concepções sobre as relações de poder entre o feminino e masculino marcadas pela idéia de uma superioridade natural dos homens sobre as mulheres, ou seja, as representações dominantes são apresentadas como naturais e inquestionáveis. Essa categoria de análise foi útil, então, para a compreensão das estratégias dessa formação e o seu reflexo sobre as novas

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gerações de mulheres e a maneira pela qual elas se percebem diante das elaborações que a sociedade construiu sobre o ser homem e o ser mulher, e diante das transformações sociais que, na atualidade, concebem as mulheres como seres destinados a cumprir determinados e subalternos papéis sociais.

Há que se considerar que é muito recente a inclusão de gênero nos estudos acadêmicos como categoria histórica e analítica. No final dos anos 1960,

o conceito de gênero foi trabalhado inicialmente pela antropologia e pela psicanálise, situando a construção das relações de gênero na definição das identidades feminina e masculina , como base para a existência de papéis sociais distintos e hierárquicos(desiguais). (Faria e Nobre, 1997, p. 30)

No início da década de 1970, as feministas anglo-americanas passaram a utilizar o conceito de gênero como categoria analítica e componente de um esforço teórico para ultrapassar a mera descrição da oposição binária homem/mulher e responder à questão de como ele se articula na dimensão social. Segundo Scott (1995), elas “queriam enfatizar o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava uma rejeição do determinismo biológico implícito no uso de termos como ‘sexo’ ou ‘diferença sexual’” (p. 72).

O conceito de gênero adquire, então, um caráter político, além de histórico e analítico. Mantém-se a concepção do gênero constituído sobre corpos sexuados, contudo, a ênfase dada ao fundamentalmente social destaca a construção social e histórica produzida sobre as características biológicas. Dessa forma, evidencia-se que é no campo do social que se constroem e se reproduzem relações entre mulheres e homens, notadamente desiguais. Superam-se, portanto, as justificativas para as desigualdades baseadas nas diferenças biológicas, uma vez que essas desigualdades são explicadas, segundo Louro (1998), “nos arranjos sociais, na história, nas condições de acesso aos recursos da sociedade, nas formas de representação” (p. 22).

Nesse sentido, o conceito de gênero passa a destacar o caráter relacional, ou seja, embora continuem priorizando as análises sobre as mulheres, os estudos passam explicitamente a referir-se também aos homens. Quando se emprega o conceito gênero, deve-se considerar que as condições femininas e

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masculinas têm um tempo histórico e um espaço cultural. De acordo com Louro (1998),

observa-se que as concepções de gênero diferem não apenas entre as sociedades ou os momentos históricos, mas no interior de uma dada sociedade, ao se considerar os diversos grupos (étnicos, religiosos, raciais, de classe) que a constituem. (p. 23)

Só no final dos anos 1980, as feministas brasileiras começaram a utilizar o termo gênero, com característica fundamentalmente social e relacional reafirmada e impulsionando uma importante transformação nos estudos feministas.

A análise das relações de gênero concebida na Ordem Internacional das Filhas de Jó, e as suas implicações na formação das jovens mulheres que dela fazem parte, serviram de suporte para se compreender a categoria gênero distinta da aprendizagem de papéis masculinos e femininos, enfatizando-a como constituinte da identidade dos sujeitos. Dessa maneira, foi possível perceber o gênero como parte do sujeito, constituindo-o. Louro (1998) assinala:

Nessa perspectiva admite-se que as diferentes instituições e práticas sociais são constituídas pelos gêneros e são, também, constituintes dos gêneros. Estas práticas e instituições “fabricam” os sujeitos (...) a justiça, a igreja, as práticas educativas ou de governo, a política, etc. são atravessadas pelos gêneros: essas instâncias, práticas ou espaços sociais são “generificados” - produzem-se, ou “engendram-se”, a partir das relações de gênero (mas não apenas a partir dessas relações, e sim, também, das relações de classe, étnicas, etc.). (p. 25)

Ao abordar as instituições educadoras, este estudo buscou compreender a “educação como um fenômeno plurifacetado, ocorrendo em muitos lugares, institucionalizados ou não e sob várias modalidades” (Libâneo, 2002, p. 26) e, com base nessa compreensão, considerou a maçonaria e a Ordem Internacional das Filhas de Jó como instituições educadoras por suas práticas sociais educativas.

Nesse sentido, é vital procurar ampliar as reflexões sobre as inúmeras possibilidades educativas no complexo contexto social da atualidade. Conforme Carrano (2003),

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a noção stricto sensu de educação escolar não dá conta do processo de educação ampliada que incorpora, mas não se limita ao espaço-tempo da escola. O reconhecimento da existência de múltiplas práticas educativas e tempos sociais produtores da totalidade histórica e cultural contribui para que o sujeito educacional não seja identificado apenas como um sujeito escolar (o aluno). (p. 20)

As práticas sociais educativas que ocorrem no interior da Ordem Internacional das Filhas de Jó podem ser consideradas não-formais. Segundo Libâneo (2002), “a educação não-formal seria a realizada em instituições educativas fora dos marcos institucionais, mas com certo grau de sistematização e estruturação” (p. 31). Por isso, essas práticas sociais devem ser incorporadas ao conceito de educação e a Ordem Internacional das Filhas de Jó considerada instituição educadora e, portanto, merecedora de tornar-se objeto de um estudo no campo da educação.

A teoria sociológica bourdieusiana para a pesquisa sobre juventude foi muito importante, porque essa teoria busca desvendar os mecanismos de poder presentes nas múltiplas redes de relações sociais construídas historicamente e oferecem

instrumentos conceituais para a compreensão das estratégias de reprodução da sociedade, das lutas simbólicas travadas pela apropriação de bens que, no plano cultural, são realizadas por agentes sociais visando o monopólio da competência e do poder. (Canesin, 2002, p. 86)

Os conceitos desenvolvidos pela sociologia de Bourdieu contribuíram para a compreensão da lógica de funcionamento da Ordem Internacional das Filhas de Jó e para a apreensão dos habitus, dos valores e das crenças, que permeiam o modo de ser das jovens mulheres que aderiram ou não à ordem.

Na esteira dos estudos de Bourdieu, esta pesquisa buscou analisar os propósitos da OIFJ em termos do seu interesse em desenvolver atividades educativas centradas em jovens mulheres. Neste sentido, os conceitos bourdieusianos contribuíram para a verificação da eficiência do trabalho educativo desenvolvido na ordem para a adesão das jovens e as disputas existentes naquele campo. Ademais, forneceram consistência teórica para se apreender e compreender: quem são essas jovens? Por quais universos culturais transitam? Qual a importância das agências socializadoras clássicas (família, escola e

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religião) no processo de formação de suas identidades? Como essas jovens mulheres se percebem como parte do projeto da Ordem Internacional das Filhas de Jó?

Esta pesquisa procurou investigar as questões propostas utilizando-se de alguns conceitos desenvolvidos por Bourdieu, considerando o contexto das condições objetivas das jovens entrevistadas e que elas são agentes sociais, capazes de apreender ativamente o mundo e de elaborar concepções de mundo determinantes da conservação ou da transformação da sociedade.

Dentre os conceitos bourdieusianos utilizados, destacam-se: habitus, campo, capital (social, cultural, econômico e simbólico), violência simbólica, estratégia, ação pedagógica, autoridade pedagógica, conatus, pequena burguesia em declínio, pequena burguesia de execução, nova pequena burguesia, ethos, hexis corporal. Esses conceitos serão devidamente explicitados à medida que forem aparecendo na análise das entrevistas.

Metodologia:

Este estudo desenvolveu-se por meio dos seguintes procedimentos: a) estudo bibliográfico da produção existente sobre a temática juventude, gênero e práticas educativas;

b) pesquisa bibliográfica sobre a maçonaria e a Ordem Internacional das Filhas de Jó;

c) pesquisa documental tendo como referência os principais documentos veiculados pela Ordem Internacional das Filhas de Jó – Constituição e regulamentos, Regimento interno de Bethel, materiais de divulgação (jornais, folderes, etc.) e sítios na Internet;

d) observação, gravação e filmagem assistemáticas das reuniões públicas das Filhas de Jó;

e) entrevistas aprofundadas com nove jovens mulheres pertencentes a um bethel, da cidade de Goiânia-Go, com as seguintes características – idade entre 15 e 22 anos; estudantes do ensino regular médio e superior; pertencentes a um determinado estrato sócioeconômico; quatro delas com adesão total ao projeto, e cinco que aderiram e depois deixaram a OIFJ; contudo, foram

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interpretadas apenas quatro entrevistas – duas com adesão total e duas que deixaram a ordem – por serem representativas do agrupamento e por que as informações das outras entrevistadas não apresentaram novos elementos de análise;

f) entrevistas com dois casais de pais e mães de jovens entrevistadas que aderiram ao projeto e com dois casais de pais e mães de jovens que abandonaram o projeto.

A entrevista aprofundada ou intensiva, como instrumento de pesquisa, foi utilizada com o objetivo de apreender quem são essas jovens que participam e aderem ao projeto da OIFJ, suas necessidades e perspectivas, seus modos de pensar, agir e de ser uma jovem mulher, as motivações para a adesão ao projeto, além de procurar explicitar o papel educativo desse projeto.

Sobre as entrevistas, é necessário salientar que elas foram elaboradas, aplicadas e analisadas, considerando, na medida do possível, as preocupações de Bourdieu (2003b). Acerca da participação do pesquisador na pesquisa e sua relação com o objeto de pesquisa, o autor afirma que a relação de entrevista é uma relação social que exerce efeitos sobre os resultados obtidos, e toda violência simbólica capaz de afetar as respostas deve ser evitada, por isso, o entrevistador necessita buscar “perceber e controlar no campo, na própria condução da entrevista, os efeitos da estrutura social na qual ela se realiza” (p. 649). Com essa preocupação, cabe esclarecer que as jovens dispuseram-se a participar das entrevistas porque foi estabelecida uma relação de confiança entre elas e a entrevistadora.

A pesquisa foi apresentada para as jovens como instrumento acadêmico para ajudar a traçar o perfil da juventude brasileira, especificamente de jovens mulheres organizadas em uma agremiação juvenil e pertencentes ao contingente de 34 milhões de jovens brasileiros que não se enquadram dentre os 500 mil jovens apresentados como problema social e por esse motivo, ainda, pouco consideradas como alvo de pesquisas acadêmicas e projetos governamentais. Foi explicado às jovens que suas respostas seriam analisadas para que se compreendesse quem são essas jovens mulheres da OIFJ, quais seus anseios, expectativas, por que aderem a um projeto de formação para lideranças proposto por uma instituição secular e tradicionalmente masculina,

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além de contribuir também para explicitar a dinâmica de funcionamento e os objetivos da agremiação juvenil da qual fazem parte.

A análise e a publicização das entrevistas, segundo Bourdieu (2003b), esbarra na relação de familiaridade, de proximidade social e de confiança entre entrevistado e entrevistador, porque, se por um lado, minimiza um dos maiores fatores de distorção da relação de pesquisa – a violência simbólica capaz de afetar as respostas – por outro lado, envolve o entrevistador, pois ele compartilha os riscos aos quais o entrevistado se expõe ao declarar-se, e tende a tornar a entrevista “uma socianálise a dois na qual o analista está preso, e é posto à prova, tanto quanto aquele que interroga” (Bourdieu, 2003b p. 698). A entrevista é o momento em que o entrevistador propicia oportunidade ao entrevistado de construir seu próprio ponto de vista sobre ele mesmo e sobre o tema central da entrevista, no caso desta pesquisa, a Ordem Internacional das Filhas de Jó. Por esse motivo, foi tomado cuidado para proteger a identidade das entrevistadas, e as análises teóricas foram tecidas com o objetivo de conduzir o leitor e a leitora para a adequada compreensão da entrevista e das entrevistadas como pessoas que elas são, objetivamente, buscando apenas relacioná-las teoricamente às causas e às razões que elas têm de ser como são, pensar como pensam, agir como agem, sentir como sentem, e pertencer aos grupos sociais aos quais pertencem.

Do processo de investigação, resultaram três capítulos.

No primeiro traçou-se inicialmente um breve histórico sobre a maçonaria, tentando pontuar aspectos que a caracterizam e indicam como uma organização tradicionalmente masculina instituiu a Ordem Internacional das Filhas de Jó (OIFJ) que tem como escopo a formação de jovens mulheres. Esse capítulo também descreveu a dinâmica da OIFJ visando a compreensão do contexto das relações sociais de gênero e das práticas educativas em que se inserem as jovens mulheres que participam dessa ordem.

No segundo capítulo, foram analisadas, com base nos fundamentos teóricos do sociólogo Pierre Bourdieu, duas entrevistas aprofundadas com duas jovens mulheres, Ana e Maria, que estão posicionadas na alta hierarquia da OIFJ. A análise das entrevistas buscou apreender quem são essas jovens que participam e aderem ao projeto da OIFJ, suas necessidades e perspectivas, seus

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modos de pensar, agir e de ser uma jovem mulher. Nesse cenário, simultaneamente, procura-se explicitar o papel educativo da OIFJ e o tipo de jovem que está sendo formada no bojo das práticas educativas desenvolvidas.

No terceiro capítulo, foram analisadas as entrevistas de Ester e Débora, duas jovens mulheres que participaram da OIFJ, mas não aderiram integralmente ao seu projeto, e por isso, afastaram-se da ordem. Com base na referência teórica apontada, anteriormente, este capítulo, busca analisar as entrevistadas pontuando como são, pensam, agem, sentem, enfim, como vivem a condição juvenil participando dos grupos sociais com os quais têm ou não identificação.

Com o desenvolvimento deste estudo pretendeu-se:

a) apreender quem são as jovens Filhas de Jó, suas necessidades e perspectivas, seus modos de pensar, agir e de ser jovem;

b) contribuir para a compreensão de outras práticas sociais educativas extrapolando as experiências pedagógicas estritamente escolares em que os jovens e as jovens estão inseridos;

c) contribuir para superar as generalizações sobre a temática juventude e apresentar outras facetas que constituem o modo de viver, sentir, e agir de diferenciados agrupamentos juvenis;

d) contribuir para a implementação de diferentes perspectivas de abordagem da temática juventude, gênero e práticas sociais educativas.

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CAPÍTULO I

A ORDEM INTERNACIONAL DAS FILHAS DE JÓ: A MAÇONARIA e a MULHER

O objetivo do presente capítulo consiste em traçar um breve histórico sobre a maçonaria, tentando pontuar aspectos que a caracterizam e indicar como uma organização tradicionalmente masculina instituiu a Ordem Internacional das Filhas de Jó (OIFJ), cujo objetivo é a formação de jovens mulheres. Este capítulo tenta descrever a dinâmica da OIFJ, visando a compreensão do contexto das relações sociais de gênero e das práticas educativas em que estão inseridas as jovens mulheres.

1.1 Aspectos históricos e de organização da maçonaria

A maçonaria é uma instituição da sociedade civil bastante complexa, e as investigações de natureza acadêmica que a tomam como objeto de estudo são ainda incipientes. Serão mapeados, portanto, alguns aspectos, até mesmo factuais, para desenhar a dinâmica de seu funcionamento para entender a emergência da Ordem Internacional das Filhas de Jó (OIFJ).

A maçonaria tem sua origem localizada nas guildas6, nas corporações de ofício dos pedreiros livres7 da Idade Média, no final do século XIII, segundo estudiosos como Cerinotti (2004), Castellani (1991). Naquele período da história, não havia escolas para ensinar as técnicas da construção utilizadas sobretudo em

6Guildas: associações de auxílio mútuo, constituídas na Idade Média entre as corporações de

operários, artesãos, negociantes ou artistas. Como entidades classistas, essas associações marcaram o início de um novo período nas relações trabalhistas e sociais.

7 Os pedreiros medievais também eram chamados pedreiros-livres, pois estavam isentos da

jurisdição dos bispos. Podiam deslocar-se de um lugar a outro para exercer seu trabalho, sem serem submetidos a taxas ou trabalhos obrigatórios estabelecidos pelos senhores feudais locais. Daí, a expressão pedreiros-livres, tanto em inglês, freemasons, como em francês, franc-maçons.

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catedrais, por isso, as corporações de pedreiros, também chamadas guildas, incumbiam-se da tarefa de ensinar a arte do ofício. Após o expediente, aprendizes e mestres reuniam-se para compartilhar a ciência do ofício, discutir o andamento das obras e defender sua profissão. Este período foi chamado de operativo, pois os pedreiros preocupavam-se com atividades práticas e restritas ao ofício. Era comum os aprendizes e mestres levarem para essas reuniões seus instrumentos de trabalho, utilizados na elaboração dos projetos arquitetônicos (esquadro e compasso) ou na atividade braçal (avental, malho e cinzel). Estes instrumentos passaram a fazer parte dos rituais dos pedreiros livres.

Righetto (1994) informa que as corporações medievais eram agregadas a organizações religiosas, por isso seus componentes reforçavam a prática de rituais. A cada reunião, os maçons operativos desenhavam no chão, a giz, os símbolos, que conferiam à oração noturna, à oração matutina, ao rito alimentar, o caráter ritualístico de que se revestiam. Os desenhos a giz (painel8) eram apagados ao término da reunião. As reuniões eram realizadas em uma espécie de barracão situado no canteiro de obras, onde se reuniam para orar, meditar, traçar planos, analisar o trabalho realizado, prever o trabalho a realizar no dia seguinte, conhecer ordens de trabalho, receber salário, ajustar as desavenças. Mais tarde, após a expansão da maçonaria moderna ou especulativa, a partir de 1717, o termo loja passou a ser utilizado para designar os locais de reunião, já, então, bem diferentes daqueles localizados nos canteiros de obras medievais. As assembléias eram realizadas em albergues e tavernas que também eram o local de reunião de muitas outras confrarias (Cerinotti, 2004).

8 No fim do século XVIII o painel passou a ser bordado no formato de um tapete que era

conservado e, na abertura dos trabalhos, desenrolado. Foi o pintor Jonh Harris, em 1820, que desenhou os atuais painéis, mantendo os desenhos tradicionais com os principais símbolos do grau. Atualmente, esses painéis são confeccionados com material rígido em formato de quadro, medindo aproximadamente, 50 por 80 centímetros, sem medidas exatas e rigorosas. O painel simboliza que permanecem vivos os símbolos que orientam os trabalhos da loja (Camino, 2004).

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