Professor Miguel Teixeira de Sousa
Direito
Processual
Civil I
葡京的法律大学 | 大象城堡
2015/1016大象城堡
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Atualização das folhas do Professor Miguel Teixeira de Sousa com apontamentos e resumes
de outra doutrina
Leiam com atenção porque podem existir erros!!
Desejando boa sorte, cabe-me alertar para o facto de a sebenta ter, certamente, pequenas
imprecisões que, por lapso e sem intenção, nela perpassaram.
E não dispensem a consulta dos manuais (isto ajuda e tem muita coisa resumida mas não
terá tudo e poderá ter erros, e nada como comprar os manuais ou consultá-los na
biblioteca
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Direito Processual Civil e Direito Privado
1: o Direito Processual Civil é um ramo de Direito quediz respeito a um conjunto de normas com a função instrumental de concretização jurisdicional das normas de conduta de Direito Privado Material ou substantivo. As normas de Direito Privado pressupõem a ponderação de interesses conflituantes perante bens e consagram normalmente uma solução que faz prevalecer um desses interesses. No Direito português, o princípio é o da proibição da autotutela privada (artigo 1.º CPC). O conflito de interesses traduzir-se-á, então, numa pretensão de tutela jurídica formulada perante uma instância com funções de composição de interesses. Os titulares dos interesses em conflito recorrera aos tribunais para tutela dos direitos subjetivos (artigos 2.º, n.º1 e 2 e 3.º, n.º1 CPC).
A função das normas de Direito Processual Civil: as normas de Direito Processual Civil
destinam-se fundamentalmente a regular a atividade desenvolvida nos tribunais judiciais. A atividade de heterocomposição de conflitos não se inicia sem que seja formulada uma pretensão de tutela jurídica perante uma instância com poderes para a exercer. Nesta medida, o Direito Processual Civil tem como finalidade regular a atividade de pretender e de realizara tutela do Direito Material objetivo (função mediata), bem como a função de tutela das situações jurídicas substantivas, isto é, dos direitos subjetivos e interesses legalmente protegidos (função imediata); artigo 4.º CPC. A função das normas de Direito Processual Civil é, assim, uma função combinada de regulação da atividade de:1.
Heterocomposição do conflito de interesses traduzido na pretensão;2.
Realização do Direito Material através da tutela das situações jurídicas substantivas (direitos e interesses legalmente protegidos).Por último, note-se que a lei processual admite a proposição de ações com vista à tutela dos chamados interesses difusos (artigo 31.º CPC).
O direito de ação: são as normas de Direito Proe3ssual Civil que disciplinam o exercício do direito
de ação, uma das dimensões do direito fundamental à jurisdição consagrado no artigo 20.º CRP: consiste no direito do autor a que a sua pretensão seja formulada perante o tribunal e que por este seja apreciada e no direito de obter uma decisão conforme ao Direito. O direito de ação é um direito processual, instrumental, no sentido de que consiste no direito de deduzir num tribunal uma concreta pretensão relativamente a uma situação jurídica que se quer ver tutelada. O artigo 2.º, n.º2 CPC, consagra o direito de ação quando afirma que, salvo quando a lei determine o contrário, a todo o direito corresponde a ação adequada a fazê-lo reconhecer em juízo. De acordo com o artigo 2.º, n.º1 CPC, o direito à tutela das situações jurídicas implica o direito de obter uma decisão judicial que aprecie a pretensão regularmente deduzida em juízo. O artigo 8.º, n.º1 estabelece a proibição de non liquet, o que reforça o direito de ação na vertente do direito de obter uma decisão judicial.
1 Xavier, Rita Lobo; Folhadela, Inês; Castro, Gonçalo Andrade e; Elementos de Direito Processual Civil;
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§1.º - Ação e processo
2: a garantia da norma de Direito Civil, que, como toda a normajurídica, requer a possibilidade de coativamente ser feita respeitar, postula a recorribilidade aos tribunais para reintegrar as situações jurídicas afetadas pela sua violação, prevenir violações ainda não consumadas ou exercer direitos potestativos que não possam ser feitos valer extrajudicialmente. O recurso ao tribunal faz-se mediante a propositura duma ação. Por ela, normalmente afirmando-se titular de uma situação jurídica para a qual requer a tutela do tribunal. Consoante o tipo de pedido deduzido, a ação proposta diz-se declarativa ou executiva: é declarativa quando o autor pede ao tribunal que declare a existência ou inexistência de um direito ou facto jurídico (ação de simples apreciação), que condene o réu na prestação duma coisa ou de um facto a que o autor tem direito (ação de condenação) ou que altere as situações jurídicas das partes em conformidade com um direito potestativo do autor (ação constitutiva); é executiva quando visa a reparação material dum direito violado, no pressuposto da sua existência. O Direito Processual Civil é o conjunto de normas, com natureza instrumental (ou adjetiva) relativamente às normas primárias (materiais ou substantivas) de Direito Civil, que visam, direta ou indiretamente, regular as atuações dos sujeitos de Direito Privado e dos tribunais conducentes à concretização da garantia dessas normas de conduta do Direito Civil. Estas atuações inserem-se, primacialmente, num processo jurisdicional, segundo uma sequência predefinida na sua estrutura essencial: os atos jurídicos aí praticados (pelas partes – autor, ´reu ou parte acessória –, pelo juiz, pelos funcionários da secretaria ou pelos intervenientes acidentais no processo) são, naturalmente, atos processuais, como tais de demarcando dos atos de Direito material, ainda que possam produzir efeitos de Direito material combinar-se, em termos doutrinariamente controvertidos, com atos de Direito Material; mas há também atos das partes que, embora praticados fora dessa sequência, se destinam a conformar os requisitos (constitutivos ou impeditivos) dos pressupostos processuais ou de atos da sequência processual, e que por isso igualmente constituem atos processuais e igualmente são objeto do Direito Processual.
2 Freitas, José Lebre de; A Ação Declarativa Comum, à luz do Código de Processo Civil de 2013; 3.ª
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A estrutura da relação jurídica processual
3: a relação jurídica processual existe entre sujeitose incide sobre um objeto. Estabelece-se entre cada uma das partes (o autor e o réu) e o tribunal. Na verdade, as partes não se dirigem uma à outra, mas ambas se dirigem ao tribunal. No entanto, existem deveres recíprocos, por exemplo, pelo dever de cooperação, de boa fé processual e de recíproca correção (artigo 7.º, n.º1, 8.º e 9.º CPC). O Código de Processo Civil português designa a relação processual por instância. A lei processual reconhece direitos e faculdades às partes, impendendo sobre elas também devere3s, ónus e sujeições. As partes não assumem deveres uma perante a outra (artigos 221.º e 255.º CPC). Contudo, à omissão destes deveres seguir-se-á apenas, em princípio, uma consequência desfavorável dentro do processo, pelo que tais deveres constituirão antes simples ónus, atualmente bastante temperados com os poderes-deveres de iniciativa do juiz (artigo 6.º CPC). As partes têm o dever de cooperar com os outros intervenientes no processo com vista a obter, com brevidade e eficácia, a justa composição do litígio e de agir de boa fé (artigo 7.º e 9.º CPC). A lei prevê as consequências desfavoráveis da omissão do ato previsto, que até podem consistir numa desvantagem económica, mas que não revestem o caráter de sanção. O juiz exerce os poderes-deveres de que está incumbido pela lei para o exercício da função jurisdicional com vista à justa composição do litígio, designadamente no que se refere à gestão do processo e à adequação formal, assegurando o normal prosseguimento da ação, devendo dar resposta às solicitações das partes e recusando tudo o que for impertinente ou dilatório (artigo 6.º, n.º1 CPC). Os elementos estruturais (conteúdo) desta relação são: o direito de ação (relação do autor com o tribunal), o direito de defesa ou de contradição (relação do réu com o tribunal), e o poder jurisdicional (poder de heterocomposição em conformidade com o Direito Material). A relação processual tem algumas características essenciais:
1.
É autónoma relativamente às situações jurídicas de Direito Material;2.
Constitui-se com o pedido formulado pelo autor (princípio do pedido);3.
Desenvolve-se segundo o princípio de auto responsabilidade das partes completado com o poder-dever de gestão processual do juiz.Estrutura do processo: sequência de atos jurídicos praticados pelos sujeitos processuais
(forma processual): o processo desenvolve-se segundo uma sucessão de atos jurídicos, que se
entrecruzam numa sequência temporal, lógica e teleológica (atos processuais). A lei prevê, em abstrato, uma sequência de atos processuais (forma processual) que é concretizada pelos participantes no processo no decurso da instância (desenvolvimento da relação processual através da sucessão de concretos atos processuais que compõem um processo). A lei processual prevê diferentes formas de processo: modelos de sequências ordenadas de atos (a praticar pelas partes, pelo tribunal ou por outros intervenientes) dirigidos a um determinado fim, em função de providência judiciária requerida pelo autor, do valor atribuído aos interesses em conflito ou da natureza da relação substantiva subjacente à pretensão. Distingue-se assim o processo de declaração (artigos 548.º, 549.º e 552.º e seguintes CPC) do processo de execução (artigos 550.º e 703.º e seguintes CPC). O processo declarativo pode ser comum – o processo regra – ou especial – aplicável nos casos expressamente designados pela lei (artigos 546.º e 549.º CPC). No decurso do processo podem ser suscitadas questões distintas da questão principal mas com ela relacionadas que podem originar uma sequência processual autónoma com vista a obter uma decisão autónoma, antes da decisão da questão principal que aquela depende. Tais sequências designam-se por incidentes processuais ou incidentes de instância. A lei designa expressamente3 Xavier, Rita Lobo; Folhadela, Inês; Castro, Gonçalo Andrade e; Elementos de Direito Processual Civil;
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como tal incidentes de verificação do valor da causa (artigos 305.º, n.º2, 307.º a 310.º CPC), deintervenção de terceiros (artigos 311.º e seguintes CPC) e de habilitação dos sucessores (Artigos 351.º e seguintes CPC). Importa sublinhar que a previsão legal de sequências ordenadas de atos convive atualmente com o dever de adequação formal, consagrado no artigo 547.º CPC, quer quanto à tramitação adequada à especificidade da causa, quer quanto ao conteúdo e forma dos atos, e que introduz um princípio de flexibilização das formas legais.
Especificidade dos atos processuais: os atos processuais distinguem-se dos atos jurídicos em
sentido estrito. Sabemos que facto jurídico é todo o ato humano ou acontecimento natural juridicamente relevante e que os factos jurídicos podem ser voluntários ou involuntários. Os atos processuais são atos jurídicos – atos dirigidos à produção de efeitos jurídicos – cuja especificidade resulta de estarem integrados numa sequência ordenada ao fim de um determinado processo. OS factos jurídicos ocorridos fora do processo só podem ser nele conhecidos fora do processo se e quando forem praticados os respetivos atos processuais de integração. No entanto, repare-se que existem outros praticados fora do processo que têm relevância exclusivamente processual, como é o caso do mandato judicial conferido por documento público ou por documento particular (artigo 43.º, alínea a) CPC). Por outro lado, a desistência, a confissão ou a transação podem ser lavradas por termo (ato processual) (artigo 290.º, n.º1 e 2 CPC), produzindo os efeitos típicos dos mesmos atos quando representados por documento autêntico ou particular (artigo 290.º, n.º1 e 3 CPC).Disposições comuns aos atos processuais:
1.
Forma, lugar e momento em que se praticam: os atos a praticar pelas partes são dirigidosao tribunal. Os atos processuais devem usar língua portuguesa (artigo 133.º, n.º1 CPC) e terão a forma que, nos termos que visam atingir (artigo 131.º, n.1º CPC), podendo assim observar a forma oral ou escrita, e podendo a lei prever a obediência a modelos aprovados (artigo 131.º, n.º3 e 4 CPC). Nos termos do artigo 132.º a tramitação é efetuada eletronicamente, valendo como data da prática do ato processual a da respetiva expedição (artigo 144.º, n.º1 CPC). No entanto, sempre que se trate de causa que não importa a constituição de mandatário (artigo 40.º, a contrario) e a parte não esteja patrocinada, os atos processuais também podem ser apresentados por entrega na secretaria judicial, remessa pelo correio, sob registo, ou envio através de telecópia (artigo 144, n.º1, alíneas a), b) e c) CPC). Quanto ao lugar e momento em que se praticam os atos, nos termos do artigo 137.º não se praticam atos processuais nos dias em que os tribunais estejam encerrados, em durante o período de férias judiciais (n.º1), excetuando as citações, notificações e os atos que se destinem a evitar dano irreparável (n.º2), devendo os atos que implicam a receção dos mesmos pelas secretarias judiciais ser praticados durante as horas de expediente dos serviços (n.º 3). Na maior parte dos casos, a lei delimita um determinado intervalo temporal para a prática de um ato processual pela parte (prazo perentório), sob pena de ficar impedida de usar o direito ou a faculdade que visava exercer (preclusão) (artigo 139.º, n.º3 CPC). A lei estabelece duas diferentes modalidades do prazo (artigo 139.º, n.º1, 2 e 3 CPC):
a. Prazo dilatório: é aquele que difere para momento posterior o início da contagem de um outro prazo;
b. Prazo perentório: é aquele cujo decurso extingue o direito de praticar o ato. Quando a um prazo dilatório se segue um outro prazo perentório, ambos se contam como um único prazo (artigo 142.º CPC). Na falta de disposição especial, a lei fixa o prazo de 10 dias para a prática de qualquer ato pelas partes (artigo 149.º CPC). Decorrido o
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prazo fixado para a prática de um ato, este ainda pode ser praticado mediantepagamento de multa – o que, nos termos do artigo 139.º, n.º5 e 6 CPC, pode ocorrer nos três dias úteis posteriores ao termo do prazo – e em caso de justo impedimento (artigos 139.º, n.º4 e 140.º CPC). A estes requisitos gerais dos atos processuais acrescem os que eventualmente poderão ser exigidos para o particular ato em causa, no local sistemático próprio. No que diz respeito aos atos pelos quais o juiz exerce o seu poder de jurisdição, eles podem assumir a forma de sentenças ou despachos. Designa-se por sentença o ato pelo qual o juiz decide a causa principal ou algum incidente, denominando-se por acórdãos as decisões dos tribunais colegiais (artigos 152.º, n.º1, 2 e 3 CPC). Os demais atos proferidos pelo juiz tomam o nome de despachos (artigo 153.º, n.º4 CPC). Sentença será desde logo a sentença final, que põe termo à causa depois de instruída e discutida (artigo 607.º, n.º2 CPC), quer se trate de sentença de mérito, quer de sentença de absolvição da instância (artigos 608.º, n.º1 e 620.º CPC). Terá o valor de sentença o ato pelo qual o juiz decida sobre o mérito da causa no despacho saneador – antes da instrução e discussão da causa – (artigos 595.º n.º1, alínea b) e n.º3, in fine e 629.º CPC). Também é por sentença que o juiz admite a confissão, desistência ou transação (artigo 290.º, n.º3 CPC). Na categoria de despachos estão incluídos atos de índole muito diversa. Importará, assim, distinguir, em primeiro lugar, os despachos de mero expediente, que não exigem fundamentação, nem admitem recurso. A lei qualifica como despachos de mero expediente aqueles que são destinados a prover ao andamento regular do processo (artigo 152.º, n.º4 CPC). Não admitem recurso os despachos proferidos no uso legal de um poder discricionário, que decidem de matérias confiadas ao prudente arbítrio do julgador, embora se possa entender que carecem de fundamentação (artigos 630.º, n.º1, 152.º, n.º4 e 154.º, n.º1 CPC). Do enquadramento atual do despacho de convite ao aperfeiçoamento dos articulador parece resultar que o juiz está vinculado à sua prolação (artigo 590.º, n.º2, alínea b), 3.º e 4) CPC), mas não cabe recurso deste despacho, o que sugere a sua natureza discricionária (n.º 6). Ganharam hoje denominação e importância próprias o despacho de simplificação e adequação formal, a proferir em processo declaratório comum, em regra, na audiência prévia, dos quais também não é admissível recurso, salvo se contenderem com os princípios da igualdade ou do contraditório, com a aquisição processual de factos ou com a admissibilidade de meios probatórios (artigo 630.º, n.º2 CPC).
A dinâmica da instância: fala-se de dinâmica da instância para indicar que a relação processual
se desenvolve progressivamente desde a constituição (artigo 267.º CPC) até à extinção (artigo 277.º CPC). A instância inicia-se pela propositura da ação e esta considera-se proposta logo que a respetiva petição inicial seja apresentada por transmissão eletrónica de dados no sistema informático CITIUS ou recebida na secretaria (artigos 259.º, n.º1 e 144.º CPC). A partir do momento em que o réu é citado, a instância do processo (partes, pedido e causa de pedir) – princípio da estabilidade da instância: artigo 26.º CPC) –, embora a lei admita excecionalmente modificações subjetivas da instância (artigos 261.º, n.º1 e 262.º CPC) e modificações objetivas da instância pro alterações do pedido e da causa de pedir (artigos 264.º e 265.º CPC). Depois de iniciada a instância ela pode vir a suspender-se (artigos 269.º e seguintes) e extingue-se com o julgamento ou por uma outra das causas previstas no artigo 277.º CPC.A invalidade do ato processual: vimos que a especificidade dos atos processuais reside
fundamentalmente na circunstancia de estes estarem previstos numa sequência organizada de forma abstrata, em termos de ordenação temporal, lógica e teleológica. Tal especificidade explica o regime particular da invalidade do ato processual: será consequência da verificação de uma大象城堡
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variação na ordenação prevista e da apreciação da sua influência no exame ou decisão da causa,à luz da respetiva finalidade. Assim, quanto às regras gerais sobre a invalidade dos atos processuais:
1.
A Invalidade de um ato refere-se à concreta existência (ou não existência) do ato enquanto elemento de uma sequência (artigo 195.º, n.º1 CPC);2.
De acordo com o artigo 195.º, n.º1,«a prática de um ato que a lei não admita, bem como a omissão de um ato
ou de uma formalidade que a lei prescreva, só produzem nulidade quando a lei o declare ou quando a irregularidade cometida possa influir no exame ou na decisão da causa».
A lei pode prescrever expressamente que o ato tem como consequência a nulidade (v.g. artigo 186.º e 191.º CPC). Quando a lei não preveja a nulidade, mesmo assim, a prática de um ato pode conduzir à invalidade se a irregularidade cometida puder influir no exame ou na decisão da causa;
3.
Por outro lado, uma vez que cada ato processual integra uma sequência, a invalidade de um deles pode projetar-se sobre a validade de outros. O artigo 195.º, n.º2 CPC prevê que«quando um ato tenha de ser anulado, se anularão também os termos
subsequentes que dele dependam absolutamente».
Podemos, assim, concluir que a anulação de um ato processual não implica a anulação dos sucessivos atos, entretanto praticados que sejam independentes daquele.
O artigo 198.º diz respeito a nulidades principais e estas incluem, no n.º1, uma alusão ao artigo 193.º que se refere à anulação dos atos que não podem ser aproveitados. Mais, interessará o regime previsto para o conhecimento dos aos processuais inválidos e suas consequências. Assim: Existem nulidades de conhecimento oficioso que o tribunal pode conhecer sem arguição da parte interessada, a não se que se devam considerar sanadas (artigos 196.º, 198.º, 186.º, 1887.º, 191.º, n.º2, 193.º e 194.º CPC). O juiz deve conhecer as nulidades previstas nos artigos 187.º, 191.º, n.º2 e 194.º CPC ogo que delas se aperceba, podendo suscitá-las em qualquer estado do processo enquanto não devam considerar-se sanadas (artigo 200.º, n.º1 CPC). As nulidades a que se referem os artigos 186.º e 193.º, n.º1 CPC são apreciadas no despacho saneador se o houver (artigo 200.º, n.º2 CPC) ou, se não houver despacho saneador, até à sentença final e ressalvada a hipótese de sua sanação, exceto no caso do artigo 199.º (artigos 196.º e 200.º, n.º1 CPC). O erro a qualificação do meio processual utilizado pela parte é corrigido oficiosamente pelo juiz, determinando que se sigam os termos processuais adequados (artigo 193.º, n.º3 CPC);
Relativamente a outras invalidades (nulidades secundárias), a lei estabelece que apenas a parte interessada pode argui-las (artigos 196.º, n.º1, in fine e 197.º CPC) e dentro de um determinado prazo (artigo 199.º, n.º1 CPC).
Importa sublinhar que os poderes-deveres de gestão processual (artigo 6.º, n.º1 e 2 CPC) e da adequação formal (artigo 547.º CPC) permitem hoje a atenuação da rigidez da forma processual abstratamente prevista e orientam as decisões do juiz no sentido de eliminar obstáculos injustificados à obtenção de uma decisão de mérito, privilegiando a decisão de fundo sobre a decisão de forma com vista à definitiva e justa composição do litigio.
Os sujeitos da relação jurídica processual: os atos processuais são praticados pelos sujeitos da
relação jurídica processual que e estabelece entre cada uma das partes e o tribunal. Partes são o autor – aquele que propõe a ação – e o réu – aquele contra quem a ação é proposta. As partes ficam identificadas logo na petição inicial (artigo 552.º, n.º1, alínea a) CPC). Apesar do princípio大象城堡
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da estabilidade da instância (artigo 260.º CPC), a lei admite certas modificações subjetivas dainstância, por intervenção de novas partes (artigo 261.º, n.º1 CPC) ou por substituição de algumas delas, nomeadamente em virtude do seu falecimento (artigos 262.º, alínea a) e 351.º CPC). Os tribunais gozam de um estatuto de independência, garantida pela existência de um órgão privativo de gestão e disciplina da magistratura judicial, pela inamovibilidade dos juízes e pela sua não sujeição a quaisquer ordens ou instruções (artigo 203.º CRP). É também garantida a sua imparcialidade, não só pelo princípio do juiz natural que é aquele que é indicado pelas normas gerais de competência e pela concreta distribuição do processo para apreciar a causa, mas também e sobretudo para apreciar próprios mecanismos que permitem afastar o juiz natural de uma ação: impedimentos (artigos 115.º e 116.º CPC) e suspeições (artigos 119.º e 120.º CPC), constituindo exceções ao princípio da proibição do desaforamento (artigo 39.º LOSJ). Alçada de um tribunal é o valor até ao qual um tribunal julga definitivamente sem que da sua decisão seja admissível recurso ordinário.
Forma do processo declaratório comum: o processo de declaração comum segue forma única
(artigo 548.º CPC). No entanto, importa sublinhar flexibilização introduzida pelo poder-dever de gestão processual (artigo 6.º, n.º1 CPC) e pelo poder-dever de adequação formal (artigo 547.º CPC). O CPC de 2013 consagrou, ao lado do princípio da adequação formal que confere ao juiz o poder-dever de adequar a forma processual às especificidades da causa, o princípio da gestão processual. Este novo princípio faculta ao juiz um poder autónomo de direção ativa do processo e da conformação e modulação da concreta tramitação processual. O juiz determinará, após audição das partes, a adoção dos mecanismos de simplificação e agilização processual que respeitando os princípios fundamentais da igualdade das partes e do contraditório, garantam a composição do litigio em prazo razoável (artigo 591.º CPC).Determinação e fixação do valor da ação: um dos critérios para a determinação da forma do
processo é o valor da causa (artigo 296.º, n.º2 CPC):«A toda a causa deve ser atribuído um valor certo, expresso em moeda legal, o qual
representa a utilidade económica imediata do pedido»
(artigo 296.º, n.º1 CPC).
Muito embora o atual CPC não distinguir formas de processo em função do valor da causa, o artigo 597.º CPC prevê especificidades quanto à tramitação das ações cujo valor não seja superior ao valor de metade do valor da alçada do Tribunal da Relação. A lei estabelece critérios gerais para a fixação do valor da causa (artigo 297.º CPC) e critérios especiais (artigos 298.º, 300.º, 301.º, 302.º, 303.º, 304.º e 307.º CPC). O autor deve indicar o valor do pedido na petição inicial (artigo 552.º, n.º1, alínea f) CPC), valor que pode ser impugnado pelo réu (artigo 305.º CPC). Contudo, a quem compete a fixação do valor da causa é ao juiz, em princípio, no despacho saneador (artigos 306.º n.º1 e 2 CPC).
Breve descrição da tramitação do processo declaratório comum (forma única): a sequência
de atos a praticar no processo declaratório comum está prevista nos artigos 552.º e seguintes CPC e estão ordenados em fases sucessivas. Seguindo um paradigma de ação contestada e eu haja de seguir até ao julgamento:1.
Fase inicial – dos articulados: as partes apresentam a matéria de facto e a de direito大象城堡
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2.
Fase intermédia: gestão inicial do processo (eventual despacho pré-saneador) e audiênciaprévia. Esta fase está centrada na audiência prévia (artigo 591.º CPC). Antes de marcar a data da audiência prévia, é de realização obrigatória, sendo neste contexto que se concretizarão as atividades classicamente designadas como de saneamento e condensação que se traduzirão na prolação do despacho saneador e do despacho de fixação do objeto do litigio. Assim, no final da audiência prévia serão proferidos os quatro despachos que permitem a transição para a fase final:
a. Despacho saneador: também pode integrar uma decisão de mérito ou de absolvição da instância (artigos 595.º, n.º1, alínea b), n.º3, in fine, CPC);
b. Despacho de fixação do objeto do litígio e de enunciação dos temas da prova; c. Despacho de adequação formal e de simplificação e agilização;
d. Despacho de programação.
3.
Fase final: audiência final (artigo 604.º CPC), onde ocorrerá a discussão e julgamento(sentença) (artigo 607.º CPC).
Conteúdo das normas de Direito Processual Civil: as normas de Direito Processual Civil são
normas que ordenam, encadeiam e articulam, lógica e temporalmente, os atos em que se concretiza a atividade dos sujeitos processuais dirigida à realização da função do Direito Processual Civil. Assim, estes atos hão-de desenvolver-se nessa unidade pré ordenada à realização:a. De heterocomposição do conflito de interesses traduzido na pretensão;
b. Do Direito Material através da tutela das situações jurídicas substantivas (direitos e interesses legalmente protegidos).
O dever-ser presente nas normas de Direito Processual modelam diferentes processos ou procedimentos: sequência de atos dos sujeitos processuais, que se vão desenvolver ordenadamente no tempo com vista à realização da função pretendida pelo autor, isto é, de acordo com a pretensão solicitada e a atividade de heterocomposição correspondente. Dirige-se, assim, à sequência de atos processuais previstos de forma abstrata como adequados à finalidade de cada pedido. Envolvem igualmente um dever-ser dirigido às condutas concretas dos sujeitos processuais, isto é, relativo a comportamentos a observar no desenvolvimento da instância, de acordo com a finalidade normativa do Direito Processual Civil. Finalmente, repare-se que existem normas de Direito Processual Civil que não se referem propriamente a atos processuais, mas a exigências ligadas à realização da atividade heterocompositiva, como é o caso das normas sore os pressupostos processuais que regulam os requisitos necessários para que a pretensão formulada pelo autor possa ser apreciada. A função do processo só se cumpre realmente quando o tribunal realiza a atividade heterocompositiva de acordo com o Direito. Contudo, o tribunal tem de resolver sucessivamente uma série de questões preliminares ou prejudiciais: o conhecimento dos elementos necessários à decisão é adquirido de forma progressiva.
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Atos processuais: são atos jurídico que produzem efeitos em processo. Para serem processuais,
os seus pressupostos devem estar regulados em Direito Processual, bem como aqueles cujos efeitos característicos se produzem em processo. Abrangem a atuação da parte ou do juiz, com eficácia direta no processo, independentemente do seu conteúdo. Os efeitos processuais produzidos pelos atos processuais devem ser direitos.
Validade e eficácia: certos pressupostos processuais são igualmente pressupostos de atos
processuais:1.
Atos do tribunal: o seu pressuposto específico é a competência funcional, aquela querespeita a cada um dos órgãos do tribunal (juiz e secretaria). A falta deste leva a uma nulidade processual, a qual é sanável de acordo com o artigo 202.º CPC;
2.
Atos das partes: no âmbito dos pressupostos subjetivos, têm de ter: capacidade judiciária;patrocínio judiciário obrigatório, e legitimidade ad actum. A falta destes leva à ineficácia do ato praticado, não produzindo efeitos. A sua falta corresponde a uma exceção dilatória, absolvendo o réu da instância (artigo 576.º e 577.º CPC).
3.
Falta de pressupostos:a. Sanação: a falta destes pressupostos é conhecida oficiosamente pelo tribunal e em certos casos é sanável através da renovação do ato ou a ratificação do ato praticado;
4.
Nulidades processuais: verificam-se sempre que seja praticado um ato que não épermitido, ou seja, omitido um ato imposto ou uma formalidade essencial (artigo 195.º CPC). Implicam:
a. Anulabilidade do ato praticado e demais atos dependentes dele;
b. Em casos em que a invalidade representa uma exceção dilatória, implica a absolvição do réu da instância.
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A instância: traduz a relação que se estabelece entre as partes e o tribunal durante a pendência
da causa. É uma relação dinâmica, que se mantém desde a propositura da ação (artigo 259.º CPC), até ao seu termo, coincidindo com o julgamento.
Condições de existência: são as circunstâncias necessárias para a existência de um processo, e
referem-se à pendência de uma causa. Para que o processo se inicie, tem de ter dado entrada na secretaria do tribunal uma Petição Inicial.1. Efeitos da pendência simples:
a. Necessidade de proceder à distribuição da petição inicial ou requerimento (artigo 206.º CPC) e, eventualmente, ao proferimento de um despacho liminar da indeferimento da petição inicial ou citação (artigo 226.º-A CPC);
b. Inadmissibilidade da propositura de outra ação igual (artigo 580.º CPC);
c. Irrelevância das modificações de facto posteriores à propositura da ação para a determinação do tribunal competente.
Para o autor, a pendência simples determina a exigência da desistência como forma de pôr termo ao processo (artigo 285.º CPC).
Condições de validade: são condições de dois tipos: algumas decorrer de atos processuais
cuja invalidade afeta todo o processo e outras respeitam a circunstâncias ou ocorrências verificadas durante a pendência da causa e que justificam a possibilidade de impugnar o caso julgado da respetiva decisão.1.
Ineptidão da petição inicial: a invalidade de alguns atos processuais determina a nulidade de todo o processo, como ocorre neste caso (artigo 186.º CPC).Condições de admissibilidade: são as condições necessárias para eu, no processos
declarativo, possa ser proferida uma decisão sobre o mérito da causa. Os pressupostos processuais atribuem, assim, um valor de admissibilidade – tornam admissível a decisão de mérito ou as medidas coativas. Os pressupostos requerem a existência de um processo, porque a admissibilidade de uma sentença de mérito ou das medidas coativas, só é possível num processo pendente. A falta de pressuposto determina a inadmissibilidade da pronúncia sobre o mérito da causa.1.
Preenchimento: compete ao autor assegurar o preenchimento dos pressupostos processuais, e o se não preenchimento importa uma exceção dilatória e impede que o autor posa obter a tutela pretendida.Exceções dilatórias: se faltar algum pressuposto processual positivo (que se refira às condições
que devem estar preenchidas para que possa ser proferida uma decisão de mérito) ou se relevar alguns dos pressupostos negativos (que se refiram às condições que não se podem verificar par que seja admissível o proferimento da sentença de mérito), os pressupostos processuais não se encontram preenchidos. Estas exceções são as que impedem o conhecimento de mérito da causa ou a realização coativa da prestação, e que conduzem à absolvição do réu da instância ou remessa do processo para o tribunal competente (artigo 576.º CPC).Exceções perentórias: consistem na verificação de um facto impeditivo, modificativo ou
extintivo do direito invocado pelo autor, e conduzem à absolvição, total ou parcial, do pedido. Possuem um fundamento e determinam uma decisão de mérito absolutória.大象城堡
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Apreciação genérica dos pressupostos processuais: o momento para apreciar os pressupostos
é o despacho (artigos 591.º e 595.º CPC) ou sentença final (artigo 608.º CPC). A generalidade das exceções dilatórias determinam a absolvição do réu da instância (artigo 576.º e 278.º CPC).
Apreciação prévia dos pressupostos processuais: os pressupostos devem ser apreciados antes
do julgamento do mérito da causa. Para valorar a imposição da apreciação prévia dos pressupostos processuais, têm de se considerar duas situações:1.
O tribunal, quando conclui pela falta de um pressuposto processual, ainda não pode proferir qualquer decisão sobre o mérito da causa;2.
Quando o tribunal, no próprio momento em que aprecia a falta de um pressuposto processual, está em condições de julgar a ação procedente ou improcedente;O critério a definir a necessidade da apreciação prévia dos pressupostos processuais encontra-se no artigo 278.º CPC.
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§2.º - Formas de processo
4:Processo comum e processo especial: a definição dos atos essenciais da sequência
processual, mediante a sua identificação e caracterização, é feita pela lei, embora o juiz deva fazer as adaptações que as especificidades da causa aconselhem, quando a definição legal abstrata dos atos da sequência a elas não se adequem. Não há um modelo legal único de processo civil, mesmo considerando apenas a ação declarativa. Quer esta, quer a ação executiva, podem, em casos expressamente designados na lei (artigo 546.º, n.2º CPC), normalmente em função do tipo de pretensão deduzido pelo autor, dar lugar a formas de processo especiais, isto é, a sequências ordenadas de atos especificamente predispostas para de fazer valer esse tipo de pretensão. No Código de Processo Civil, tratam de vários processos (contenciosos) especiais os artigos 878.º e seguintes CPC. Não havendo lugar a processo especial, emprega-se o processo comum (artigo 546.º, n.º2 CPC), cuja forma é única. Na base da opção do novo Código pela unidade da forma comum está a ideia de que a matriz processual legal se apresenta já muito simplificada, mormente na fase dos articulados, na condensação e na da discussão e julgamento. Se essa matriz não se adequar às especificidades da causa, ao juiz caberá fazer as adaptações que se imponham, usado o meio da adequação formal (artigo 547.º CPC), isto é, tornando a forma processual mais complexa ou mais simples, ou apenas diversa, consoante essas especificidades concretas. A adequação formal é particularmente recomendada ao juiz quando a ação não tem valor superior a metade da alçada da Relação (artigo 597.º CPC).
Alçada do tribunal: entende-se por alçada um valor, fixado pela lei de orgânica judiciária,
até ao qua um tribunal de instância julga definitivamente as causas da sua competência. O conceito de alçada interessa, pois, antes de mais, aos recursos: a decisão proferida em causa de valor contido na alçada do tribunal que a profere não é, em regra, suscetível de recurso ordinário, ao passo que a proferida em causa de valor superior a essa alçada é-o em regra, desde que seja desfavé-orável para é-o recé-orrente em valé-or superié-or a metade da mesma alçada (artigo 629.º, n.º1 CPC). Mas a alçada tem outras funções, entre as quais a de distribuir a competência do tribunal de comarca entre as secções cíveis da sua instância central (valor superior à alçada da Relação: artigo 117.º LOSJ) e as secções de competência genérica cível das suas instâncias locais, bem como a de determinar a aplicação do disposto no artigo 597.º CPC. Estritamente dependentes do valor da moeda e por isso sucessivamente alteradas pelas leis de organização judiciária a alçada do tribunal de comarca é hoje de 5000€ e a do tribunal da Relação de 30000€ (artigo 44.º, n.º LOSJ).
Valor da causa: o valor da causa, monetariamente expresso, representa a utilidade
económica do pedido (artigo 296.º, n.º1 CPC). Quando o pedido tem por objeto uma quantia pecuniária líquida (quantia certa em dinheiro), a determinação está in re ipsa, constituindo essa quantia a utilidade tida em vista por quem o deduz,
4 Freitas, José Lebre de; A Ação Declarativa Comum, à luz do Código de Processo Civil de 2013; 3.ª
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independentemente de ser pedida a condenação no seu pagamento, a simplesapreciação da existência do direito a essa quantia ou a sua realização em ação executiva; nos outros casos há que encontrar o equivalente pecuniário correspondente à utilidade visada (beneficio) (artigo 297.º, n.º1 CPC). Este critério geral é concretizado e adaptado nos artigos 298.º e 300.º a 302.º CPC, que consagram critérios especiais, determinados pelo tipo de pedido formulado, respetivamente para a ação de despejo, a ação referente a contrato de locação financeira, a ação de alimentos definitivos e de contribuição para despesas domésticas, a ação de prestação de contas, a ação em que sejam pedidas prestações vencidas e vincendas, a ação de apreciação da existência, validade, cumprimento, modificação ou resolução dum negócio ou outro ato jurídico, a ação de propriedade ou outro direito real de gozo e a ação de divisão de coisa comum. Para a fixação do valor, atende-se ao momento em que o pedido é deduzido (artigo 299.º, n.º1 e 2 CPC), sem prejuízo de o valor inicial vir a ser corrigido nos processos em que a utilidade económica do pedido só se define na sequência da ação, como é o caso dos de liquidação de patrimónios (artigo 299.º, n.º4 CPC). Sujeitas a uma norma específica estão as ações cujo objeto não versa sobre valores patrimoniais, isto é, as ações de estado e as relativas a interesses imateriais. Não podendo, para os efeitos decorrentes do valor da causa, deixar de ter um valor; este é atribuído de modo a que seja sempre garantido o direito ao recurso: o valor é o equivalente à alçada da Relação mais um cêntimo (artigo 303.º, n.º1 CPC).
Regime subsidiário: as normas que disciplinam o processo comum de declaração têm,
além do seu âmbito de aplicação direto, o âmbito de aplicação indireta definido pelo artigo 549.º CPC: na falta de disciplina específica de um processo especial, aplicam-se as normas estabelecidas para o processo comum (n.º1), ressalvando o estabelecido no n.º2 quanto à venda de bens. Aplicam-se, além disso, obviamente, em qualquer forma do processo, as disposições gerais do Código (artigos 1.º a 545.º CPC). O estudo das formas de processo da ação declarativa é, pois, sobretudo, o estudo das normas que disciplinam o processo comum de declaração.
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Introdução
5: agrupamos estes princípios destacando, em primeiro lugar, os princípiosconstitucionais, isto é, aqueles que dimanam do direito à jurisdição consagrado no artigo 30.º CRP, salientando que constituem direitos fundamentais do cidadão e que são comuns a todos os ramos de Direito Processual. Num segundo grupo, estão os princípios gerais do Direito Processual Civil. Dentro deles, realçamos os princípios gerai estruturantes do Processo Civil, ou seja, aqueles que constituem os pilares deste ramo do Direito Processual, iluminado e concretizando as opções legislativas respeitantes ao modelo adotado, sobretudo no que respeita à função do processo e à repartição de tarefas entre os sujeitos processuais. Nesta perspetiva, tais princípios apenas relevam diretamente no âmbito particular do Processo Civil. Finalmente, e ainda dentro dos princípios gerais de Direito Processual Civil, reunimos princípios que protejam a respetiva influência prioritariamente em diferentes atividades, aspetos, momentos ou fases processuais. Estes princípios poderão ter aplicação no contexto de outros ramos do Direito Processual, na medida em que se harmonizem com a atividade e a função neles prosseguida.
3.
Princípios constitucionais do Direito Processual Civil
a.
O Direito à jurisdição como direito fundamental: o direito à jurisdição é estruturante do Estado de Direito Democrático e imprescindível à defesa dos direitos dos cidadãos. As ordens constitucionais reconhecem o direito de acesso ao Direito e à tutela jurisdicional efetiva no plano dos direitos, liberdades e garantias. O artigo 20.º, n.º1 CRP consagra o direito fundamental à jurisdição. Por força do artigo 16.º, n.º2 CRP, este preceito constitucional deve ser interpretado e integrado de harmonia com o artigo 1.º da Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH), segundo a qual todas as pessoas têm direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja examinada, equitativa e publicamente, por um tribunal independente e imparcial, que decidirá sobre os seus direitos e obrigações. A estas exigências, o artigo 20.º, n.º4 CRP adita o direito a que qualquer causa seja objeto de decisão num prazo razoável, e o artigo 6.º, n.º1 da Convenção Europeia dos Direitos do Homem (CEDH) exige que o tribunal seja criado por lei (proibindo, assim, os tribunais de exceção). A ideia de que o Estado deve assegurar o direito de acesso aos tribunais radica, ela própria, no princípio do monopólio estadual da administração da Justiça e, consequentemente, na proibição de recurso a meios privados de justiça. Como direito fundamental, o direito à jurisdição confere a cada cidadão uma posição jurídica subjetiva cuja tutela pode ser exigida diretamente nos tribunais nas relações entre os particulares, nos termos do regime constitucional aplicável a esta categoria de direitos (artigo 18.º, n.º1 CRP).i. Função normogénica do direito à jurisdição: numa outra perspetiva, o direito à jurisdição pode ser encarado como um princípio constitucional que desempenha uma função normogénica em relação ao sistema de administração da Justiça. Com efeito é certo que a tutela do direito à jurisdição tem de se manifestar igualmente no plano da conformação das normas jurídicas processuais, vinculando o legislador ordinário, também não pode deixar de se afirmar como princípio que enforma toda a atividade concreta dos órgãos que realizam a composição de conflitos, podendo até levar à rejeição de soluções consagradas na lei ordinária que lesem aquele direito. Atendendo à função que assinalámos às normas de Direito Processual Civil – a regulação da
5 Xavier, Rita Lobo; Folhadela, Inês; Castro, Gonçalo Andrade e; Elementos de Direito Processual Civil;
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atividade de heterocomposição do conflito de interesses traduzido no pedido e derealização do Direito material através da tutela das situações jurídicas substantivas –, a perspetiva que mais nos interessa adotar na abordagem do direito à jurisdição é a normogénica. Deste ponto de vista, o direito à jurisdição pode concretizar-se e analisar-se em diferentes princípios constitucionais que, para além de estarem a génese de diversas soluções consagradas na legislação processual, vinculam o exercício concreto de toda a atividade de heterocomposição de conflitos. No estudo dos princípios constitucionais do Direito Processual Civil procurar-se-á estabelecer a relação entre o seu conteúdo e as soluções constantes da lei processual que neles encontram a sua respetiva fundamentação.
ii. Os princípios constitucionais do Processo Civil e a sua concretização na lei processual: a) O direito de acesso aos tribunais: o direito de acesso aos tribunais desdobra-se
no direito de ação, no direito de defesa e no princípio da proibição da denegação de Justiça por insuficiência de meios económicos.
(a) Direito de ação: a todos os cidadãos é garantido o direito de utilizar o meio processual adequado à resolução dos conflitos de interesses que lhes digam respeito e que, para tanto, lhes seja disponibilizado pelo sistema de administração da justiça. Trata-se de um direito de exercer perante os órgãos de administração da Justiça, que é irrenunciável. Este direito garante ainda ao autor que a simples afirmação de que a situação jurídica existe é suficiente para a instauração do processo, com o consequente direito de a obter uma decisão conforme o Direito. Tal implica que a propositura de uma ação não depende da verificação de qualquer requisito adicional ao cumprimento dos requisitos (mínimos) estatuídos na lei processual, razão pela qual a atividade jurisdicional só é evitada nos casos em que a secretaria do tribunal tem a possibilidade de recusar a petição inicial, porque esta não cumpre aqueles requisitos mínimos (artigo 558.º CPC). No entanto, saliente-se que a secretaria não tem poderes de controlo ou de decisão quanto à situação jurídica afirmada pelo autor (ou quanto à situação negada pelo autor, no caso das ações de simples apreciação negativa). A secretaria realiza apenas um controlo de natureza estritamente formal que, como resulta do preceito, somente diz respeito a requisitos externos da própria petição inicial. O legislador processual permite, aliás, que o Autor reclame da recusa da secretaria em receber a petição inicial para o juiz que preside ao ato de distribuição (artigo 559.º CPC). Cremos que esta recusa opera mesmo no caso de receção eletrónica da petição, que é, como vimos, a regra para a prática de atos processuais (artigo 132.º CPC). O direito de ação aparece normalmente associado à titularidade de um direito ou interesse próprio (individual) de quem o exerce, ou seja, do autor6. Mas tal é dispensado no
caso do exercício do direito de ação popular relacionada com os interesses coletivos e difusos (artigos 52.º, n.º3 CRP, artigo 1.º Lei n.º 83/95, e artigo 31.º CPC). Nestes casos o direito de ação é reconhecido a pessoas singulares ou a
6 Note-se que o direito de ação é um direito de cariz processual que não se confunde com a situação
jurídica controvertida para que o autor solicita a tutela judiciária e que pretende fazer valer no processo. É que o autor tem o direito de recorrer aos tribunais (direito de ação), mas isso não significa que ele seja a o titular da relação jurídica substantiva, podendo haver ou não uma coincidência entre um e outro.
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associações, fundações e ao próprio Ministério Público, que possuem umalegitimidade originária específica (artigo 31.º CPC).
(b) Direito de defesa: poder-se-á dizer que o direito de defesa é o reverso do direito de ação, na medida em que se reporta ao réu em face do direito de ação que contra ele é exercido pelo autor. No entanto, para que o direito de defesa seja efetivo, não basta reconhecer ao réu a possibilidade de e defender perante a ação proposta pelo autor. É ainda necessário que:
O réu tenha consentimento efetivo do processo instaurado: a lei processual
consagra diversas exigências quanto ao ato pelo qual se chama, pela primeira vez, o réu ao processo, com vista a dar-lhe a conhecer a pretensão que contra ele foi formulada e convidá-lo, querendo, a defender-se7. Este
ato, que se chama citação (artigo 219.º CPC), deve obedecer aos requisitos plasmados no artigo 227.º CPC, e a sua inobservância dará origem à nulidade do ato de citação, arguível no prazo da contestação (artigo 191.º CPC). No caso de o réu não intervir no processo, a nulidade é, ainda, arguível no prazo da contestação (artigo 191.º CPC). No caso de o réu não intervir no processo, a nulidade é, ainda, arguível em recurso de revisão (artigo 696.º, alínea e) CPC) ou em oposição à execução baseada em sentença (artigo 814.º, alínea d) CPC). Por outro lado, sendo a citação um ato recetício, privilegiam-se as modalidades de citação pessoal e quase pessoal (artigo 225.º, n.º 1, a 5 CPC). A necessidade de dar conhecimento ao réu da existência do processo logo no seu início encontra uma exceção na dispensa de audição prévia do requerido nos procedimentos cautelares, quando esta audição possa pôr em risco sério o fim ou a eficácia da providência a decretar (artigo 366.º, n.º1 CPC). No entanto, nesta situação, o direito de defesa não é postergado, sendo apenas diferido para momento ulterior (artigo 372.º CPC). Em sentido estrito, só a citação pessoa do réu nos garante o cumprimento da exigência de conhecimento efetivo do processo. Na verdade, no caso de citação quase-pessoal (artigos 225.º, n.º4 e 228.º, n.º 2, 3 e 4 CPC) e de citação edital (artigo 225.º, n.º6 CPC) a certeza do conhecimento efetivo é substituída por uma presunção de conhecimento.
Seja concedido ao réu um prazo suficientemente amplo para apresentar a sua defesa: a lei processual estabelece um prazo para apresentação da
defesa que, em regra, é de 30 dias (o previsto nos termos do artigo 569.º, n.º1 CPC para o processo declaratório comum), salvo os casos em que as disposições dos processos especiais determinem prazo diferente (artigos 907.º, n.º1, 969.º, n.º1 e 981.º CPC). A preocupação em assegurar um prazo que permita ao réu organizar a sua defesa vai ainda mais longe. Nos termos dos n.º 4 e 5, do artigo 569.º CPC, o prazo de contestação pode ser
7 Do ponto de vista dos seus efeitos, a petição inicial é um ato postulativo – i.e. um ato através do qual é
solicitada uma decisão do tribunal e que só produz os seus efeitos mediante essa decisão – e não um ato constitutivo – quer dizer, um ato que produza imediatamente os seus efeitos, independentemente de uma decisão do tribunal. Trata-se, de outro aspeto, de um ato recetício – i.e. de um ato que só produz os seus efeitos quando se torna conhecido do destinatário. Ao contrário dos atos constitutivos, os atos postulativos das partes são livremente modificáveis enquanto não chegaram ao conhecimento do seu destinatário e livremente revogáveis enquanto não constituírem uma situação favorável para a contraparte, ou seja, enquanto esta última os não tiver contestado (artigo 296.º, n.º2 CPC).
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prorrogado a pedido do réu (com o limite máximo de mais de 30 dias), nocaso de ocorrer motivo ponderoso que impeça ou dificulte anormalmente ao réu ao seu mandatário judicial a organização da defesa (note-se que o pedido de prorrogação deve ser apresentado no decurso do prazo inicial e não suspende a respetiva contagem – artigo 569.º, n.º 6 CPC). Finalmente, refira-se que a lei contempla dilações para algumas formas de citação (artigo 245.º CPC), devendo, em tais situações, adicionar-se ao prazo perentório para contestar um prazo dilatório, contando-se ambos os prazos como um só (artigo 142.º CPC).
Seja moderada a rigidez das preclusões e cominações decorrentes da falta de apresentação da defesa do réu: em abstrato, podem conceber-se dois
sistemas relativos à falta de apresentação de defesa por parte do réu. No sistema da ficta confessio, o facto de o réu não contestar importará a própria confissão do pedido com a consequente condenação do réu). No sistema da ficta litis contestatio, decorrido o prazo para apresentar contestação, fica precludido o direito de o réu contestar, mas sobre o autor continua a incidir o ónus da prova dos factos que consubstanciam a causa de pedir. No caso português, o artigo 567.º, n.º1 CPC estabelece, para a hipótese de o réu se ter por regularmente citado na sua pessoa – isto é, ter sido citado pessoal ou quase-pessoalmente –, a cominação de se terem por provados os factos alegados na petição inicial (efeito cominatório semipleno). Contudo, caberá ao tribunal, perante tais factos, determinar se deles decorre a consequência jurídica pretendida pelo autor, julgando a causa conforme for de direito (não se ficcionando, neste caso, a confissão do pedido – artigo 567.º, n.º2 CPC). No caso de o réu ter sido citado por edital, o autor não fica dispensado do ónus de provar os factos, cabendo ao tribunal apreciar se os factos resultam provados e se determinam ou não, por aplicação do Direito, a procedência do pedido formulado (artigo 568.º, alínea b) CPC). É ainda de salientar que tal efeito da revelia conhece outras exceções, já que não se produz em todos os casos expressamente referidos no artigo 568.º CPC.
(c) Princípio da independência e imparcialidade dos tribunais: o poder jurisdicional é um dos poderes do Estado e a separação dos demais poderes está garantida pela independência e imparcialidade dos tribunais. A independência dos tribunais é assegurada pela inamovibilidade e irresponsabilidade dos juízes (artigo 216.º CRP), bem como pela própria existência e funções do Conselho Superior de Magistratura (artigo s217.º e 218.º CPC). A imparcialidade dos tribunais é assegurada pela dedicação exclusiva dos magistrados (artigo 216.º CRP) e pelo sistema de impedimentos, escusas e suspeições consagrado no Código de Processo Civil (artigos 115.º e seguintes).
(d) Direito ao contraditório: este direito não se confunde com o direito de defesa uma vez que assiste a ambas as partes – autor e réu. Trata-se de assegurar a participação efetiva das partes no desenvolvimento de todo o processo, permitindo-lhes, em condições de plena igualdade material, influir em todos os seus aspetos (alegação dos factos, proposição e produção da prova e discussão das questões de direito). O princípio do contraditório reflete-se:
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No plano da alegação dos factos: os factos alegados por uma partedevem poder ser contraditados pela outra parte, o que explica a existência dos sucessivos articulados. O direito ao contraditório justifica que a parte possa ainda responder a exceções no início da audiência prévio ou da audiência final (artigo 3.º, n.º4 CPC);
No plano da proposição e da produção da prova: as partes têm ao seu
dispor meios de prova das afirmações sobre os factos que alegaram. As provas podem ser produzidas no processo (provas constituendas) ou serem pré-constituídas (meios de prova que são juntos ao processo). O princípio do contraditório pressupõe nesta sede o tratamento igual das partes.
No plano da discussão das questões de direito: nos termos do artigo
604.º, n.º1, alínea e) CPC, antes de proferida a sentença, é facultada às partes a possibilidade de discutirem os fundamentos de direito. Este contraditório no plano do direito está, também, acautelado nos recursos (artigo 638.º, n.º5 CPC).
(e) Princípio da igualdade de armas (de igualdade de meios processuais): este princípio é uma manifestação do princípio da igualdade das partes (paridade simétrica) perante o tribunal (artigo 4.º CPC). Ao longo de todo o processo deve haver um equilíbrio quanto aos meios processuais de que cada parte dispõe para apresentar e fazer vingar os seus pontos de vista. Note-se, contudo, que não se trata de uma mera identidade formal quanto a faculdades, meios de defesa, ónus ou cominações. Do que se trata é de assegurar uma igualdade substancial entre as partes. No atual CPC ainda sobrevive uma desigualdade entre as partes, quando uma delas é o Ministério Público (artigo 632.º, n.º4).
(f) Princípio da fundamentação da decisão: o dever de fundamentação das decisões decorre para o tribunal do artigo 205.º CRP. Este dever assegura aos destinatários das decisões o conhecimento das razões de facto e de direito que levaram o juiz a proferi-las, reconstituindo o iter congnoscitivo do julgador que, com esta exigência, tende a ser melhor estruturado e ponderado. O dever de fundamentação não se manifesta apenas no momento da emissão da sentença, mas ao longo de todo o processo, nomeadamente na prolação de despachos interlocutórios que não revistam a natureza de despacho de mero expediente (v.g. o despacho que designa o dia para realização da audiência final) (artigo 154.º CPC). Em regra, a fundamentação não pode consistir na simples adesão aos fundamentos alegados por cada uma das partes (artigo 154.º, n.º2 CPC). O dever de fundamentação da sentença abrange o dever de o juiz discriminar os factos que considera provados, após ter procedido à análise crítica das provas, devendo especificar os fundamentos que foram decisivos para a sua convicção, tendo em consideração todos os factos e o respetivo valor provatório, e devendo compatibilizar toda a matéria de facto (artigo 607.º, n.º3, 1.ª parte e 4.º CPC) O juiz deve ainda indicar e interpretar as normas e princípios jurídicos que a decisão realiza no caso concreto (artigo 607.º, n.º3 CPC). A violação deste dever de fundamentação poderá ser causa de nulidade da sentença (artigo 615.º, n.º1, alínea b) CPC) e determinar a baixa
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do processo à 1.ª instância para efeito de obter tal fundamentação (artigo大象城堡
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4.
Princípios gerais do Direito Processual Civil:
a.
Princípios fundamentais:i. Princípios estruturantes do Direito Processual Civil: a lei processual recorre abundantemente à formulação de princípios gerais. A adequada articulação e a compreensão de todos estes princípios é fundamental nas tarefas de interpretação e integração das normas processuais, uma vez que são critérios orientadores da busca das soluções mais adequadas para a atuação dos sujeitos processuais e para a própria sequência dos atos processuais nos casos concretos. Os princípios estruturantes exprimem os valores normativos enformadores do sistema e conferem-lhe a sua fisionomia particular no plano da articulação entre a atividade das partes e os poderes-deveres do juiz. É destes princípios que resulta a unidade de sentido das normas constantes do Código de Processo Civil e da legislação avulsa. No CPC de 2013, os princípios gerais do processo civil ganham uma importância acrescida em face do reforço dos poderes-deveres do juiz, designadamente no que diz respeito ao exercício do poder-dever de gestão processual (artigo 6.º, n.º1 CPC). Como veremos, o exercício destes poderes-deveres pressupõe um modelo de relação processual e um perfil de juiz colaborante e pró ativo. O exercício destes poderes-deveres está vinculado aos princípios que enformam o processo civil, desde logo, ao princípio do contraditório. E, na verdade, a forma processual mínima é, em si mesma, uma garantia: a forma legal processual (sequência de atos) visa assegurar a justa composição do litígio, no respeito pelos direitos das partes. Tendo como referência principal o processo declaratório, é possível afirmar que o nosso sistema processual é hoje o resultado da combinação de uma conceção publicista do processo, que se manifesta sobretudo na relevância que o princípio do inquisitório (em sentido amplo) assume no atual CPC, com uma conceção privatística do processo – patente na consagração do ónus do impulso processual e da alegação das partes (princípio dispositivo em sentido amplo e princípio da autorresponsabilidade das partes). A articulação entre a atividade das partes e os poderes-deveres do juiz é reforçada e complementada pelo princípio da cooperação com vista à justa composição do litígio. O princípio do contraditório e o princípio da igualdade de armas, emanações do direito constitucional à jurisdição, desempenham uma importante função ao longo de todo o processo, permitindo a cada parte o controlo da atividade desenvolvida pela outra e impondo-se ao próprio tribunal, incumbido de verificar a possibilidade da sua realização. No CPC de 2013, o princípio inquisitório (em sentido amplo) invadiu uma área nova, no plano da conformação do objeto do processo, aparentemente à custa de uma compressão daquele princípio no plano da alegação dos factos. Consagrou-se uma nova forma de articulação entre a atividade das partes e do juiz na formação do material fático a ter em consideração na sentença. Na verdade, assegura-se às partes que todos os factos relevantes poderão ser articulados ao longo de toda a tramitação, não existindo propriamente um momento processual para a sua alegação, fora do caso da situação da petição inepta (uma vez que continua a exigir-se, obviamente, um mínimo de determinação inicial do objeto do litígio, através do pedido e da causa de pedir, integrada pelos factos essenciais).
a) Princípio do inquisitório (em sentido amplo): o princípio do inquisitório (em sentido amplo) encontra na atual lei processual um amplo acolhimento, quer no âmbito do poder-dever de gestão processual, quer no campo da instrução (princípio do inquisitório em sentido restrito).
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Poder-dever de gestão processual: o n.º1 do artigo 6.º CPC atribui ao juiz,sem prejuízo do ónus de impulso especialmente imposto pela lei às partes, o poder-dever de
«dirigir ativamente o processo, de providenciar pelo seu
andamento célere, promovendo oficiosamente as diligências necessárias ao normal prosseguimento da ação, recusando o que for impertinente ou meramente dilatório e adotando, depois de ouvir as partes, mecanismos de simplificação e agilização processual que garantam a justa composição do litígio em prazo razoável».
No exercício do poder-dever de gestão processual deve o juiz orientar-se sempre pelo fim último que o legislador pretendeu obter com sua a consagração: a realização da função do processo, isto é, a prolação de uma decisão de mérito, justa (porque realiza o Direito substantivo de acordo com a verdade material), obtida de modo eficiente e rápido. O poder dever de gestão processual desdobra-se em:
(i) Poder-dever de direção do processo: o artigo 6.º atribui-se ao juiz o
poder-dever de direção do processo nos seus aspetos técnicos e de estrutura interna, que inclui:
a. O poder-dever de assegurar a regularidade da instância e o seu normal andamento;
b. O poder-dever de providenciar oficiosamente pela sanação da falta de pressupostos processuais, ou, no caso de esta depender de atos das partes, de convidar estas ao seu suprimento, evitando deste modo as situações em que, nos termos do artigo 590.º, n.º1 CPC seria admissível o indeferimento liminar da petição inicial8. Há, ainda, que
salientar que, nos termos do artigo 590.º, n.º2, alínea a) CPC, uma das finalidades do despacho pré-saneador será, precisamente, a de providenciar pelo suprimento das exceções dilatórias.
(ii) Poder-dever de adequação formal: o poder-dever do juiz adotar
mecanismos de simplificação e agilização processual, reconhecido no artigo 6.º, n.º1 CPC, é reforçado no artigo 547.º CPC. Ao juiz é conferido o poder-dever de adotar a tramitação processual às especificidades da causa e adaptar o conteúdo e a forma dos atos processuais, assegurando, dessa forma, um processo equitativo. Esta adequação formal visa a simplificação e a agilização processual, pelo que está estritamente relacionada com o direito a uma decisão
8"Acto do juiz pelo qual se rejeita a petição ou requerimento inicial, em função da manifesta inviabilidade da acção [em sentido lato], de erro na forma do processo, da caducidade do direito à acção, da incompetência absoluta do tribunal, da falta de personalidade, capacidade ou legitimidade [singular] das partes, determinante da extinção ou absolvição da instância." Para o que nos importa, basta reter isto: o despacho de indeferimento liminar é proferido nos casos previstos no art. 590.º/1 (cf. 226.º/4): manifesta improcedência do pedido; verificação de excepções dilatórias insupríveis e de conhecimento oficioso.
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em prazo razoável, razão pela qual a lei processual procura adequaro prazo para a prática dos atos processuais à maior ou menor complexidade do processo. A simplicidade dos atos está expressamente consignada no n.º1 do artigo 131.º CPC, de acordo com o qual os atos processuais terão a forma mais simples e adequada ao fim que visam.
b) Princípio do inquisitório em sentido restrito: este princípio está consignado no artigo 411.º CPC e aponta para uma conceção do processo em que a investigação da verdade material é também da responsabilidade do juiz, constituindo, dessa forma, uma compressão do princípio do dispositivo. Assim, a lei processual atribui ao juiz poderes em matéria de iniciativa da prova quanto aos factos que lhe é lícito conhecer. Daí que o juiz possa oficiosamente ordenar a realização de provas apesar de impender sobre as partes um ónus de iniciativa da prova. Sublinhe-se, no entanto, que os poderes de iniciativa do juiz restringem-se «aos factos que lhe é lícito conhecer» (artigo 411.º CPC), e que, nos termos do artigo 5.º, delimitam o âmbito dos poderes de cognição do tribunal
c) Princípio do dispositivo (em sentido amplo) e princípio da autorresponsabilidade das partes: o princípio do dispositivo pode ser entendido num sentido mais lato (o princípio do dispositivo propriamente dito), que se traduz na liberdade de decisão sobre a instauração do processo e sobre a conformação do seu objeto, bem como, embora com limitações, sobre o termo e suspensão do mesmo. Num sentido mais restrito, designa-se por princípio da controvérsia, que manifesta a responsabilidade das partes pelo material fático da causa, abrangendo a liberdade de as partes alegarem os factos destinados a constituir o fundamento da decisão, a liberdade de as partes acordarem sobre a existência de certos factos ou de os darem por assentes e a iniciativa das partes quanto à prova dos factos que forem controvertidos. O princípio do dispositivo reflete no Direito Processual Civil o princípio da autonomia privada que domina o Direito Privado. Numa conceção puramente privatística do processo, as partes teriam o direito de dispor do processo em termos equivalentes àqueles sem que lhes é lícito dispor da relação jurídica material. O processo seria um duelo entre as partes que somente teria de obedecer a algumas regras, assumindo o juiz a função de árbitro. Desde 1995 que a lei processual portuguesa vinha seguindo a tendência para introduzir restrições ao princípio do dispositivo, reconhecendo uma função mais interventiva ao juiz, nomeadamente com vista ao apuramento da verdade material e à justa do litígio. Esta tendência culminou no atual Código do Processo Civil em que se verificou uma forte compreensão do princípio do dispositivo sobretudo no que toca ao plano da alegação dos factos (artigo 5.º, n.º2 CPC). Correlativamente, verificou-se um reforço do princípio do inquisitório no plano da instrução (artigo 411.º CPC). Sobre o juiz, impende o poder-dever de, uma vez determinado o objeto do litígio (artigo 596.º, n.º1 CPC), ir em busca da verdade material, apreendendo não só todos os factos instrumentais que brotem da instrução – artigo 5.º, n.º2, alínea a) CPC –, os factos notórios – artigo 412.º, n.º1 CPC – e os factos de que tenha conhecimento por virtude do exercício das suas funções – artigo 412.º, n.º1 CPC –, mas também «os factos que sejam
complemento ou concretização dos que as partes hajam alegado e resultem da instrução da causa, desde que sobre eles tenham tido a possibilidade de se