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As diversas eclesiologias do Novo Testamento

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Academic year: 2021

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(1)

Prof. Paulo César Barros, SJ

As diversas eclesiologias

do Novo Testamento

A Igreja emLucas

Estabelece-se a relação entre Igreja e história. Lc está atento ao lugar que ocupa a Igreja na história da salvação.

Estabelece-se a era das tarefas da Igreja entre a Ascensão (Lc 24,51; At 1,2.11.22) e a Parusia (At 1,11; cf. Lc 21,27s).

Na história, realiza-se a missão da Igreja: At 1,8.

Tempo do estabelecimento do Reino de Israel: At 1,6 (pergunta) e At 1,7 (resposta). A resposta de Jesus é “vaga”: o tempo da história é o tempo da fé, da confiança no Senhor; mas também o tempo da provação (tentações): cf. Lc 22,31-38 (discurso de Jesus na última ceia). A peregrinação da Igreja se faz na confiança; não podemos ceder à tentação de buscar respostas plenamente satisfatórias. O tempo é deixado como algo indeterminado aos discípulos: o que ocorrerá no tempo pertence aos desígnios do Pai. Aliás, este é um tema recorrente no evangelho de Lc: 17,20; 19,11; 21,7; 24,21. Qualquer cálculo é proibido: Lc 17,20s; 21,24.

Jesus corrige a estreiteza de visão dos discípulos (estarem restritos a Israel): At 1,8: …sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins (extremidades) da terra.

Segundo Hans Conzelmann (1915-1989), para Lucas, a era da Igreja é o terceiro grande período da história sagrada: (1º) Israel (lei e profetas); (2º) Jesus de Nazaré; (3º) Igreja.

Conclusões:

(1) A Igreja está em continuidade com o plano divino de salvação, recebido por Israel. A Igreja está sobre os ombros de Israel. O evangelho da infância em Lc menciona as promessas que então se cumprem. Não há hiato entre o tempo de Jesus e o tempo da Igreja. [Vide paralelo João Batista / Jesus]

(2) Israel tem posição privilegiada na história sagrada. At 3,26; 13,46 (em primeiro lugar = prw/ton). Na teologia de Lucas, Jerusalém é o centro da salvação; para lá, caminha Jesus (Lc 9,51-19,28). É em Jerusalém que se dá a morte de Jesus, e é lá que acontecem as aparições do Ressuscitado (Lc 24,33-43). Com a rejeição de Israel, a mensagem passa a toda a humanidade. A universalidade da Igreja tem sua base no decreto divino.

(3) A idade da Igreja é a idade da plenitude: Pentecostes (At 2,16-21; Lc 24,49; At 1,8). Pontos importantes:

(1) A celebração da eucaristia

Presente de despedida de Jesus (antes de sua paixão) Através da eucaristia, Jesus se mantém ligado à sua Igreja.

Fração do pão: Núcleo da vida religiosa da Igreja primitiva: (a) fonte de alegria

escatológica (At 2,46); (b) implica a fidelidade ao Senhor (Lc 22,21s); (c) implica prontidão na tentação (Lc 22,28); (d) implica caridade fraterna (Lc 22,24-27; At 2,42).

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(2) Apesar da consolação do Espírito, a era da Igreja é caracterizada por tentações, sofrimentos e perseguições. A comunidade de Cristo é “ecclesiamilitanset pressa”. Lc 22,31: sacudir no crivo como se faz com o trigo; At 14,22 (Lc 24,26): tribulações e entrada no Reino de Deus. A Igreja vive o tempo da tribulação e do martírio (At 7,54-60). Daí, a importância da oração perseverante: Lc 21,36; 22,40.46.

(3) Constituição apostólica da Igreja

Lc 22,28-30 (discurso na última ceia destinado aos Doze) Lc 22,31-32 (discurso na última ceia destinado a Simão Pedro)

Expressão “irmãos” diz respeito a toda a comunidade. Apesar de não revelar a posição oficial de Pedro na comunidade, revela, contudo, sua intrínseca importância para a Igreja primitiva.

(4) Serviço humilde: Lc 22,24-27. Tbém At 6,2 (serviço às mesas). Lucas está atento àqueles que exercem funções de direção na Igreja.

Contribuição de Lc: Ter garantido à Igreja sua era e seu espaço, sua missão e estrada

(“caminho”) na direção do futuro.

A Igreja em Mateus

1. Os leitores de Mateus são judeu-cristãos, e se identificam com aqueles que aceitaram a mensagem da salvação: vide Mt 21,43 (parábola dos arrendatários homicidas). Constitui-se assim um novo povo.

2. Para Mateus, o povo judeu como um todo é responsável pela rejeição e crucifixão de Jesus. Assim sendo, privilégios e bênçãos concedidos ao antigo Israel, de modo especial a sua eleição (Ex 19,5s; Dt 7,6; 14,2; 26,18), serão transferidos a um novo povo. Portanto, “povo” não é mais uma realidade étnica, nacional, mas uma unidade espiritual, uma associação de homens que produzam frutos.

3. Este novo povo de Deus se forma a partir da reunião dos crentes que vieram de Israel e dos convertidos do paganismo (ou gentilismo). Terá então uma amplitude universal: 12,21; 24,14; 25,32; 26,28 (sangue derramado por muitos:to. peri. pollw/n); 28,19.

4. Ao antigo povo de Deus (Israel), marcado pelo legalismo hipócrita (5,20-28; 8,10-12; 15,7ss; 21,28-32; 22,1-10; cap. 23), sucede o novo povo de Deus (Igreja). Sobre este pano de fundo polêmico, constrói-se uma imagem positiva de Igreja.

5. Não por acaso a questão da lei ocupa espaço considerável em Mt: cf. 5,17-20. A lei de Cristo é resumida no mandamento do amor: 22,34-40.

6. A estrutura interna da comunidade se estabelece em 18,1-20. A autoridade é conferida a certas pessoas.

A Igreja em Paulo

1. Na epístola aos gálatas, Paulo defende seu ofício apostólico enquanto anunciador do Evangelho entre os gentios. O Evangelho dispensa a

circuncisão e a observância legal, e sua pregação se realiza em todo o mundo, sem restrições.

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2. Gl 4,21-31. Agar e Sara, que respectivamente representam as duas alianças: a primeira, na escravidão da lei (Jerusalém de agora); a segunda, na liberdade (Jerusalém do alto). Gl 3,28. O verdadeiro povo de Deus não é constituído nem de judeus, nem de gregos, … Para Paulo, um novo povo de Deus tomou o lugar do velho Israel.

3. Efésios. A conexão entre judeus e gentios na Igreja é aqui mais

profundamente indicada. Ef 2,11-22: Cristo, nossa paz, reconcilia a judeus e a gentios com Deus em um só corpo. Paulo assegura a liberdade dos gentios no seio da Igreja.

4. Paulo promove a harmonia entre a Igreja-mãe de Jerusalém e as novas fundações (cf. Rm 15,25-29; 1Cor 16,1; 2Cor 9,12). Contribui deste modo para a formação da consciência universal da Igreja. E a “Jerusalém do alto” é a mãe de muitos filhos (Gl 4,26s).

5. Nos escritos paulinos aparece nitidamente a consciência da unidade eclesial: uma fé (1Cor 8,5s), um batismo (Gl 3,26ss; 1Cor 12,13; Cl 3,9-11; Ef 4,3-6), a partilha de um único pão (1Cor 10,16s).

6. Em Paulo, a Igreja “se define” como Corpo de Cristo (1Cor 12,12ss; Rm 12,4s; Ef 1,22s; Cl 1,18) e como templo de Deus (1Cor 3,16; 2Cor 6,16), no qual reside o Espírito.

7. Paulo não conhece um cristianismo “individual”; com efeito, a realização cristã do indivíduo dá-se na comunidade.

A Igreja na Carta aos hebreus

1. Este texto refere-se ao Povo de Deus da nova Aliança, por meio da tipologia do Antigo Testamento e através de um especial tipo de exegese escriturística, a fim de estimulá-lo no seu caminhar para o mundo celeste futuro.

2. Tem forte impostação cristológica. As pessoas unidas a Cristo são o povo de Deus escatológico (4,9: perspectiva de um repouso do sábado), com o qual Deus, através deste Mediador, conclui a definitiva aliança de salvação (cf. 8,8-12; 13,12).

3. Na Carta aos Hebreus, os temas eclesiológicos se desenvolvem segundo idéias e metáforas diversas: povo de Deus, peregrinação, casa de Deus, cidade futura, Jerusalém celeste.

A Igreja nas Cartas pastorais

1. Aparecem aqui questões de organização. Há regulação e estabilização das condições eclesiásticas. São dadas instruções pastorais. Não há grandes exposições teológicas.

2. 1Tm 3,5 (governo da Igreja de Deus); 1Tm 3,15 (modo de proceder na casa de Deus); 1Tm 5,16 (não se onere a Igreja, a fim de que ela possa ajudar …). 3. A casa, em 1Cor, 2Cor e Ef, é “edifício em construção”. Já em 1Tm 3,15 é

um edifício sólido, “coluna e sustentáculo da verdade”.

4. 2Tm 2,19ss: na casa de Deus, há uma ordem bem estabelecida.

5. Os ministros têm o ofício de (a) proteger a casa contra perigos e de (b) promover a vida cristã.

6. Aparece aqui o tema do “depósito”: surgem então os princípios da tradição e da sucessão (1Tm 4,16; 6,20; 2Tm 1,12.14).

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7. Enquanto as primeiras cartas paulinas atestam a natureza pneumática e celeste da Igreja, as cartas pastorais acentuam a dimensão institucional da mesma. Se por um lado não se pode entender, nas cartas pastorais, a Igreja como mera instituição estabelecida na terra, por outro lado é verdade que a tensão escatológica se esvazia, as virtudes cívicas são enfatizadas, há conflitos com as heresias e uma mais rigorosa ordem e disciplina começam a aparecer. 8. Pode-se falar aqui de um “catolicismo primitivo” (“Frühkatholizismus”, na

expressão de Hans Conzelmann)?

9. Ao interno do Novo Testamento, percebe-se um processo de institucionalização.

A Igreja em 1Pd

1. 1Pd 2,4s. Os cristãos constituem uma casa espiritual; são suas pedras vivas (cf. Ef 2,20-22). Note-se aqui a imagem dinâmica da construção. Jesus Cristo é a “pedra viva” (cf. Is 28,16), “eleita e preciosa diante de Deus”. Atente-se à idéia do “sacerdócio santo” (v. 5b).

2. Na eclesiologia de 1Pd, fundem-se diversas imagens da Escritura. Por exemplo: 1Pd 4,17 (casa de Deus); 1Pd 5,2 (rebanho de Deus).

3. A Igreja é peregrina, é estrangeira: 1Pd 1,17 (paroiki,aj). Em Ef, a condição de “estrangeira” se fazia como contraste com Israel (estrangeiro = não israelita). Em 1Pd, tal condição não se dá a partir deste contraste. No âmbito desta peregrinação, a vida dos cristãos neste mundo e o próprio caráter da Igreja têm nítida dimensão escatológica.

4. Em 1Pd 2,17 e 5,9, a Igreja é chamada de “fraternidade” (avdelfo,thj).

A Igreja nos escritos joaninos

Evangelho de João

 evangelho bem mais cristológico do que os sinóticos.

 Jesus é o Senhor ressuscitado.

1. Igreja → multidão dos fiéis que creram no Filho de Deus. (cf. Jo 6,22ss: discurso na sinagoga de Cafarnaum: aqueles que se afastam de Jesus ≠ confissão de Pedro).

2. Comunidade daqueles que nascem “do alto”, nascem “da água e do Espírito” → Jo3,3.5

3. Comunidade dos que obedecem à palavra do Pastor → Jo 10,1-17; cf. Jo 21,15ss.

4. A Igreja em João é marcada pela unidade: Jo 15,1ss (a vide e os ramos) [imagem paralela à do Corpo de Cristo em Paulo (1Cor); emprestada no AT: Israel, vinha de Javeh (Is 5,1-7; 27,2-6), vinha escolhida e plantada pelo Senhor (Jr 2,21; Sl 80 (79) 8-16)]; Jo 17,26 (a oração de Jesus).

5. Contraposição luz-trevas. A Ig. é constituída pelos “filhos da luz”: “Enquanto tendes luz, crede na luz, para que sejais filhos da luz.” (Jo 12,36).

6. É o Espírito que dá testemunho de Jesus através dos discípulos. “Mas, quando vier o Consolador, que eu da parte do Pai vos hei de enviar, aquele Espírito da verdade, que procede do Pai, testificará de mim” (Jo 15,26).

7. O Espírito só é operativo e eficaz na comunidade. → “Mas aquele

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todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito” (Jo 14,26); “o Espírito diz às Igrejas…” (Ap2,7.11.17.19; 3,6.13.22); “Nisto conhecemos que estamos nele, e ele em nós, pois que nos deu do seu Espírito” (1Jo 4,13). 8. Igrejas que experimentavam uma florescente vida litúrgico-sacramental: culto

a Deus entendido como “adoração do Pai em Espírito e verdade” (Jo 4,23). A páscoa nestas comunidades substitui e leva à plenitude a páscoa judaica (cf. Jo 2,13; 6,4; 11,55), dado que elas possuem o verdadeiro cordeiro pascal, Cristo (cf. Jo 19,36s; 1,29).

9. Missão → Jo 4,42: “E diziam à mulher: Já não é pelo que disseste que nós cremos, porque nós mesmos o temos ouvido e sabemos que este é

verdadeiramente o Cristo, o Salvador do mundo” (conversão dos habitantes de Sicar); Jo 12,20s (gregos que queriam ver Jesus); ou ainda: “Eu não rogo somente por estes, mas também por aqueles que, pela sua palavra, hão de crer em mim” (Jo 17,20).

10. Luta contra um mundo hostil (Jo 16,33), porém já vitoriosa graças à presença do Espírito consolador (Jo 15,26s). Vitória dos cristãos sobre o mundo (1Jo 5,4-8).

Apocalipse

1. Livro que pretende fortalecer a fé da Igreja de então.

2. Cristo fez dos crentes “reis e sacerdotes” (Ap 1,6; cf. 5,10; 20,6; 22,5). 3. A Igreja é o verdadeiro Israel escatológico: 144.000 “marcados” [com um

selo] (Ap 7). As 12 tribos são mencionadas.

4. Igreja de mártires, que peregrina em direção do encontro definitivo com o Cordeiro.

5. Igreja: esposa do Cordeiro. A Igreja caminha para a celebração das núpcias eternas (cf. Ap 19,7s).

6. Representação da Igreja semelhante à da Carta aos Hebreus, todavia enfatizando o caráter martirial da comunidade peregrina.

Conclusão:

Não se pode falar, evidentemente, de uma “eclesiologia sistemática no NT”.

A diversidade de eclesiologias do NT atesta a riqueza da experiência eclesial na origem da Igreja. Não se pode negar, todavia, o seu uso “ideológico” de acordo com interesses apologéticos. Por exemplo, na disputa entre protestantes e católicos acentuaram-se determinados aspectos, para mostrar qual era a verdadeira Igreja.

A tendência de hoje é valorizar os mais variados elementos da Igreja, integrá-los. Não se trata de formar uma “super-Igreja”, mas de buscar a fraternidade entre as diversas tradições cristãs. Aqui, o NT sempre será o cânon (o critério, a medida) para que se busquem as mudanças necessárias e se corrijam distorções em todas as tradições cristãs. Assim com na experiência cristã devemos sempre nos voltar para Cristo, na experiência eclesial devemos sempre nos voltar para as eclesiologias do NT: fonte de inspiração para a busca do equilíbrio entre carisma e instituição.

Referências

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