UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GESTÃO DA INFORMAÇÃO E DO CONHECIMENTO
RODRIGO ROMÃO DO NASCIMENTO
UM FRAMEWORK DE DESIGN THINKING PARA A TRANSFERÊNCIA DE CONHECIMENTO NO ÂMBITO DA GESTÃO DA INOVAÇÃO
NATAL/RN 2018
RODRIGO ROMÃO DO NASCIMENTO
UM FRAMEWORK DE DESIGN THINKING PARA A TRANSFERÊNCIA DE CONHECIMENTO NO ÂMBITO DA GESTÃO DA INOVAÇÃO
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação e do Conhecimento, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, para fins de título de Mestre em Gestão da Informação e do Conhecimento. Área de concentração: Informação e Conhecimento na Sociedade Contemporânea. Linha de Pesquisa: Gestão da Informação e do Conhecimento.
Orientadora: Profª. Drª. Andréa Vasconcelos Carvalho.
NATAL/RN 2018
Catalogação da Publicação na Fonte.
Fernando Antonny Guerra Alves – Bibliotecário CRB/15-303
N244d CDU 65.016(043)
Nascimento, Rodrigo Romão.
Um framework de design thinking para a transferência de conhecimento no âmbito da gestão da inovação. / Rodrigo Romão do Nascimento. – Natal/RN: UFRN, 2018.
199 p.; il.
Orientadora: Profª Drª Andréa Vasconcelos Carvalho.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Centro de Ciências Sociais Aplicadas. Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação e do Conhecimento.
1. Design Thinking – Dissertação. 2. Gestão da Inovação – Mestrado. 3. Gestão da Informação e do Conhecimento. 4. Transferência do conhecimento. 5. Interação Universidade-Empresa. I. Carvalho, Andréa Vasconcelos. II. Universidade Federal do Rio Grande do Norte. III. Título.
UM FRAMEWORK DE DESIGN THINKING PARA A TRANSFERÊNCIA DE CONHECIMENTO NO ÂMBITO DA GESTÃO DA INOVAÇÃO
Dissertação apresentada como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Gestão da Informação e do Conhecimento da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
Aprovado em: 20 de agosto de 2018.
BANCA EXAMINADORA
___________________________________________ Profª. Drª. Andréa Vasconcelos Carvalho Universidade Federal do Rio Grande do Norte
(Orientadora)
___________________________________________ Profº. Dr. Wattson Jose Saenz Perales
Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Examinador interno)
___________________________________________ Profº. Dr. William Barbosa Vianna
Universidade Federal de Santa Catarina (Examinador externo)
Aos meus pais, Geraldo e Perpétua, por serem meus grandes incentivadores. À minha esposa, Rayssa, pelo companheirismo e apoio incondicionais. E a todos os que assumiram a partilha do conhecimento como a sua missão para vida.
Esse é um momento ímpar em minha trajetória e o resultado de todo o esforço – tangibilizado nesta dissertação – só foi alcançado porque várias pessoas o construíram comigo. Gostaria de agradecer...
À Vida, traduzida nos seus mais puros sentimentos – Deus, o universo, o bem, a amizade etc. – pela oportunidade que me foi dada de chegar até aqui.
À minha família que, mesmo geograficamente distante, foi fundamental para que esse momento acontecesse. O apoio, a paciência e o respeito que recebi deles em relação às minhas decisões, serviram de grande incentivo para me erguer nos momentos difíceis. Obrigado por terem sido a minha maior escola!
À minha esposa Rayssa pelo companheirismo incondicional durante o (nosso) projeto e por tê-lo sonhado junto comigo. Obrigado por estar ao meu lado!
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Gestão da Informação e do Conhecimento da UFRN, por todo o conhecimento transmitido. Obrigado por terem me tornado um aprendedor melhor!
À minha turma, ou melhor, aos GRANDES AMIGOS que essa turma me concedeu. Citar nomes é dispensável, pois todos – sem exceção – foram fonte de motivação durante todo o mestrado. Todos os choros e todas as risadas que compartilhamos foram o melhor combustível para alimentar o meu motor psicológico. Obrigado por me tornarem mais humano!
À minha orientadora, a Profª Drª Andréa Vasconcelos Carvalho, um ser humano iluminado que a vida me apresentou. Com sua grande inteligência, simpatia e alegria, ela foi fundamental para que esse projeto se realizasse. Obrigado por “comprar a briga” comigo!
À família BioME – seus pesquisadores e alunos – e, especialmente, aos professores Sandro de Souza, João Paulo M. S. Lima e Rodrigo Dalmolin, por terem aberto as portas do setor e terem acreditado no potencial do projeto que lá foi desenvolvido. Obrigado pela oportunidade!
Enfim, agradeço a todos aqueles que, de forma direta ou indireta, contribuíram para a construção deste projeto.
“A tarefa não é ver aquilo que ninguém viu ainda, mas pensar o que ninguém ainda pensou sobre aquilo que todo mundo vê.” (SCHOPENHAUER, 2010).
Apresenta um framework baseado no Design Thinking para promover a transferência de conhecimento no âmbito da Gestão da Inovação, o qual foi concebido para aplicação no Centro Multiusuário de Bioinformática (BioME) da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A construção do framework tem como fundamentação teórica a Tríplice Hélice, a Gestão do Conhecimento, a Gestão da Inovação e o Design Thinking. O modelo da Tríplice Hélice situa a universidade como principal agente da transferência do conhecimento para a inovação, logo, a reflexão sobre a Gestão do Conhecimento e a Gestão da Inovação se mostra necessária para analisar os pontos de convergência entre os seus respectivos objetos de estudo: conhecimento e inovação. O Design Thinking, por sua vez, oferece uma abordagem que objetiva a solução de problemas de forma coletiva e colaborativa, buscando a inovação por meio da transferência de conhecimentos. Nesse sentido, o objetivo geral desta pesquisa foi: propor e validar um framework de inovação baseado no Design Thinking para fomentar a transferência do conhecimento no BioME/UFRN. Os objetivos específicos foram: i) caracterizar, por meio de uma revisão de literatura, a interação Universidade-Empresa como contexto da transferência do conhecimento; ii) estruturar um processo de Design Thinking fundamentado na literatura e aplicável ao BioME; iii) legitimar, junto aos especialistas locais, a adequação do framework ao processo de criação de um produto/serviço de sucesso do BioME e; iv) validar institucionalmente o framework perante a coordenação do BioME. Trata-se de uma pesquisa aplicada, de abordagem qualitativa e, quanto aos objetivos, tem finalidade exploratória. Os procedimentos metodológicos foram estruturados pelo método Design Research Methodology (DRM), apresentando as estratégias para cada objetivo da pesquisa. O aprofundamento feito durante a revisão de literatura permitiu ao pesquisador desenvolver um processo de Design Thinking e formata-lo dentro de um framework combinado com outros elementos associados a métodos de inovação. A legitimação do framework ao processo de criação de produtos/serviços do BioME, bem como a validação institucional junto aos especialistas locais, foram realizadas por meio de entrevistas individuais e de um grupo focal, respectivamente. Na discussão dos resultados se demonstra que o framework, originalmente produzido, passou por modificações provenientes tanto da análise das entrevistas, como também do grupo focal. O objetivo geral foi atingido e o construto final do framework – adotado institucionalmente pelo BioME - foi composto por cinco etapas: problematização; definição; ideação; prototipação e/ou teste; e realização. Nas considerações finais foi apontado que o framework poderá ser usado tanto para orientar quanto para gerenciar o processo de inovação dessa organização.
Palavras-chave: Design Thinking. Gestão da Inovação. Gestão da Informação e do
It presents a framework based on Design Thinking to promote the knowledge transfer in an Innovation Management scope, which was developed for Bioinformatics Multidisciplinary Environment (BioME) of the Federal University of Rio Grande do Norte (UFRN). The construction of the framework has as theoretical basis the Triple Helix, Knowledge Management, Innovation Management and Design Thinking. The Triple Helix model places the university as the main agent of the knowledge transfer for innovation, thus the reflection about both Knowledge and Innovation Management is necessary to analyse the convergent points between its respectives objects of study: knowledge and innovation. The Design Thinking, in turn, offers an approach that aims to solve problems in a collective and collaborative manner, searching for innovation through knowledge transfer. In this sense, the general objective of this research was: to propose and validate an innovation framework based on Design Thinking to promote the knowledge transfer in BioME/UFRN. The specific objectives were to: i) characterize, through a literature review, the University-Industry interaction as a context of knowledge transfer; ii) to structure a Design Thinking process based on the literature and applicable to BioME; iii) to legitimize, with local experts, the framework adequacy to the process of creating a successful product/service of BioME and; iv) to validate the framework institutionally with the BioME’s coordination. This is an applied research, with a qualitative approach and an exploratory purpose. Methodological procedures were structured by the Design Research Methodology (DRM), presenting the strategies for each research objective. The intense literature review allowed the researcher to develop a Design Thinking process and format it within a framework combined with other elements associated to innovation methods. The framework legitimation to BioME products/services creating process, as well as the validation with the local experts, were carried out through individual interviews and a focus group, respectively. During the results discussion, the framework originally produced, showed modifications from both observations performed during the interviews and the focus group. The general objective was reached at the end of the research and the final construct of the framework - adopted institutionally by BioME - was composed of five stages: problematize; define; ideate; prototype and/or test; and realize. In the conclusion chapter it was shown that the framework can be used both to guide and manage the innovation process of this organization.
Keywords: Design Thinking. Innovation Management. Information and Knowledge
Quadro 1 – Mecanismos de interação Universidade-Empresa ... 26
Quadro 2 – Características da Universidade de Pesquisa e da Universidade Empreendedora . 30 Quadro 3 – Tipos e Definições de Empreendedores ... 39
Quadro 4 – Dados, informação e conhecimento... 44
Quadro 5 – Modelos de Redes de Conhecimento... 51
Quadro 6 – Abordagens formal e informal e conceitos de redes de conhecimento ... 52
Quadro 7 – Características da transferência de conhecimento ... 56
Quadro 8 – Fatores relevantes para a transferência do conhecimento ... 58
Quadro 9 – Diferença entre as abordagens MVP e MVS ... 73
Quadro 10 – Características da exploração e da explotação ... 78
Quadro 11 – Processos de criação do conhecimento ... 100
Quadro 12 – Tipos de pesquisa considerados na DRM ... 108
Quadro 13 – Técnicas de coleta de dados por objetivo da pesquisa... 115
Quadro 14 – Técnicas de coleta de dados por objetivo da pesquisa... 120
Quadro 15 – Processo de Design Thinking ... 125
Quadro 16 – Produtos ou Serviços e Pesquisadores responsáveis ... 140
Figura 1 – Triângulo de Sábato ... 32
Figura 2 – Comparação do Modelo da Tríplice Hélice e a Dupla Hélice do DNA ... 34
Figura 3 – Modelo Estadista ... 35
Figura 4 – Modelo Laissez-faire ... 36
Figura 5 – Modelo social da Tríplice Hélice ... 36
Figura 6 – Ba como contexto compartilhado em movimento ... 43
Figura 7 – Modelo SECI de Gestão do Conhecimento ... 46
Figura 8 – Processo de Gestão da Inovação ... 63
Figura 9 – Modelo simplificado do processo de inovação ... 64
Figura 10 – Dez tipos de inovação ... 66
Figura 11 – Ciclo de feedback Construir-Medir-Aprender ... 69
Figura 12 – O Modelo do MVS ... 73
Figura 13 – Funil do conhecimento ... 76
Figura 14 – Etapas do Design Thinking da IDEO ... 79
Figura 15 – Pessoa T ... 80
Figura 16 – Critérios de restrições ... 81
Figura 17 – Estado de espírito do projeto ... 83
Figura 18 – Pensamento divergente e convergente ... 84
Figura 19 – Design Thinking ... 86
Figura 20 – Modelo Favo de Mel ... 87
Figura 21 – Diamante Duplo ... 90
Figura 22 – Etapas do Design Thinking da D. School ... 91
Figura 23 – Etapas do Design Thinking da Frog Design ... 92
Figura 24 – Etapas do Design Thinking da IDEO ... 92
Figura 25 – Etapas do Design Thinking da LIVE|WORK ... 93
Figura 26 – Etapas do Design Thinking da MJV Tecnologia e Inovação ... 93
Figura 27 – Etapas do Design Thinking da Escola Design Thinking ... 94
Figura 28 – Design Thinking para Educadores ... 95
Figura 29 – Design Thinking para Educadores (modelo ampliado) ... 98
Figura 30 – Pesquisa em design: intenção, objetivos e facetas do design ... 106
Figura 31 – Estágio da DRM ... 107
Figura 34 – Pensamento divergente e convergente ... 124
Figura 35 – Processo de Design Thinking para o BioME ... 126
Figura 36 – Mindset aplicado ao processo de Design Thinking ... 128
Figura 37 – Contribuições do framework ... 129
Figura 38 – Logomarca do BioME ... 130
Figura 39 – Logomarca do Framework ... 131
Figura 40 – Comparação entre logomarcas ... 132
Figura 41 – Framework proposto ... 133
Figura 42 – Framework readequado a partir das entrevistas ... 159
Figura 43 – Página de internet ABOUT BIOME ... 162
Figura 44 – Framework final validado pelos especialistas ... 164
Gráfico 1 – Faixa etária dos entrevistados ... 135
Gráfico 2 – Nível de escolaridade dos entrevistados ... 136
Gráfico 3 – Área de formação dos entrevistados ... 137
Gráfico 4 – Cargo/Ocupação dos entrevistados na UFRN ... 137
Gráfico 5 – Tempo de vínculo dos entrevistados na UFRN ... 138
Gráfico 6 – Cargo/Ocupação dos entrevistados no BioME ... 138
10-TI Dez Tipos de Inovação
BioME Bioinformatics Multidisciplinary Environment BTI Bacharelado em Tecnologia da Informação
BVP BioME Viable Paper
BVP BioME Viable Problem
BVP BioME Viable Process
BVP BioME Viable Product
BVS BioME Viable Service
CAPES Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior CEO Chief Executive Officer
CP Clarificação da Pesquisa
DH Dupla Hélice
DNA Ácido Desoxirribonucleico DRM Design Research Methodology
DT Design Thinking
DTE Design Thinking para Educadores ED-I Estudo Descritivo I
ED-II Estudo Descritivo II EDT Escola Design Thinking
EP Estudo Prescritivo
GATC Gaze, Ask, Thinking, Cooperate
GC Gestão do Conhecimento
GI Gestão da Inovação
GIC Gestão da Informação e do Conhecimento I2Bio Instituto de Bioinformática e Biotecnologia IMD Instituto Metrópole Digital
LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
LS Lean Startup
MVP Minimum Viable Product
MVS Minimum Valuable Service
OCDE Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico PPg-BIOINFO Programa de Pós-Graduação em Bioinformática
RS Redes Sociais
SECI Socialização, Externalização, Combinação e Internalização SIGAA Sistema Integrado de Gestão das Atividades Acadêmicas SIPAC Sistema Integrado de Patrimônio, Administração e Contratos TC Transferência do Conhecimento
TH Tríplice Hélice
UE Universidade Empreendedora
U-E Universidade-Empresa
1 INTRODUÇÃO ... 16 1.1 Contextualização do tema --- 17 1.2 Problema de pesquisa --- 20 1.3 Objetivos --- 21 1.3.1 Objetivo Geral --- 21 1.3.2 Objetivos Específicos --- 21 1.4 Justificativa --- 21 1.5 Estrutura do estudo --- 23 2 INTERARAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA ... 24 2.1 Universidade Empreendedora --- 27 2.2 Tríplice Hélice --- 31 2.3 Empreendedorismo Regional --- 38 3 GESTÃO DO CONHECIMENTO ... 43 3.1 Redes de conhecimento --- 48 3.2 Transferência de conhecimento--- 53
3.2.1 Fatores relevantes para a Transferência do Conhecimento --- 57
4 GESTÃO DA INOVAÇÃO ... 60
4.2 Método de aceleração da inovação: “lean startup” --- 67
4.2.1 Minimum Viable Product (MVP) --- 70
4.2.2 Minimum Valuable Service (MVS) --- 72
5 DESIGN THINKING ... 75
5.1 Os quatro estados mentais do design thinking --- 82
5.2 Valores do Design Thinking --- 85
5.2.1 Empatia --- 86
5.2.2 Colaboração --- 88
5.2.3 Experimentação --- 89
5.3 Exemplos do processo de Design Thinking --- 90
5.3.1 Design Thinking para Educadores --- 94
5.4 Design Thinking, Transferência do Conhecimento e Inovação --- 99
6 PERCURSO METODOLÓGICO ... 103
6.1 Caracterização da pesquisa --- 103
6.2.2 Estudo Descritivo I--- 110
6.2.3 Estudo Prescritivo --- 110
6.3 Campo de realização do estudo --- 112
6.4 Técnicas de coleta de dados --- 114
6.5 Técnicas de análises de dados --- 119
7 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ... 122
7.1 Proposta do Framework --- 122
7.1.1 O que é um framework? --- 123
7.1.2 O processo de Design Thinking --- 124
7.1.3 Mindset aplicado ao Design Thinking --- 127
7.1.4 Contribuições teóricas, tecnológicas e híbridas --- 128
7.1.5 Identidade visual do framework --- 130
7.1.6 Apresentação do framework proposto --- 132
7.2 Legitimação do framework --- 133
7.2.1 Caracterização dos entrevistados --- 134
7.2.2 Adequação do framework na perspectiva dos pesquisadores --- 140
7.2.3 Readequação do framework com base nas entrevistas --- 158
7.3 Validação institucional do framework --- 160
7.4 Framework validado --- 163
8 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 168
REFERÊNCIAS ... 172
APÊNDICE A – TESES E DISSERTAÇÕES SOBRE DESIGN THINKING --- 185
APÊNDICE B – E-MAIL DE SOLICITAÇÃO DE INFORMAÇÕES --- 187
APÊNDICE C – PORTFÓLIO DE PRODUTOS/SERVIÇOS DO BioME --- 188
APÊNDICE D – CARTA DE APRESENTAÇÃO --- 189
APÊNDICE E – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (ENTREVISTA) --- 190
APÊNDICE F – TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (GRUPO FOCAL) --- 192
APÊNDICE G – TERMO DE AUTORIZAÇÃO PARA GRAVAÇÃO DE VOZ --- 194
APÊNDICE H – ENTREVISTA --- 195
APÊNDICE I – ROTEIRO DO GRUPO FOCAL --- 198
1 INTRODUÇÃO
A relevância do conhecimento no desenvolvimento da humanidade está presente em textos literários de longa data. O filósofo Platão na Atenas Clássica – século IV a.C. – em suas obras “Fédon” e “O Banquete” já trazia o conhecimento como mecanismo libertador do homem, tirando-o das correntes mencionadas no Mito da Caverna1 (AMARAL; SANTOS, 2012).
Essa alegoria platônica instiga o pensamento acerca da evolução da sociedade e nos remete a eventos de grande vulto na história do homem, como a Revolução Industrial, que corroboraram com esse papel hegemônico do conhecimento, saindo do campo da filosofia, adentrando o contexto das organizações e provocando poderosos impactos políticos ou econômicos.
Nesse sentido, a própria história – enquanto disciplina – reconhece a existência de um movimento fluido e perene das relações sociais. Quando o paradigma que rege essa dinâmica passa por uma disruspção, dá-se o nome de “era”, cujos exemplos mais cotidianos são: Era Industrial, Era da Informação e Era do Conhecimento. Em suma, esse conjunto de eras reflete o percurso das estruturas de poder dominante em cada período: a detenção dos meios de produção, o acesso a informação e o protagonismo do capital intelectual, respectivamente.
Gama et al. (2016, p. 3) trazem a seguinte contextualização para a Era Industrial: “A era industrial [...] é caracterizada pela intensificação da industrialização em extensão mundial e por um ambiente empresarial estável, previsível e conservador, no qual as pessoas, assim como máquinas, equipamentos e capital são consideradas recursos organizacionais.”
Os mesmos autores denotam a informação como “um recurso importantíssimo para a sobrevivência das organizações, pois possibilita a percepção das mudanças e das novas necessidades do mercado de forma mais ágil e orienta na tomada de decisões” (GAMA et al., 2016, p. 7).
Já a Era do Conhecimento para Chiavenato (2008) acontece de forma praticamente concomitante à soberania informacional, pois a diferenciação não está na detenção da informação propriamente dita, mas na capacidade de utilizá-la de forma eficaz.
Estamos vivendo em plena Era da Informação, na qual o recurso organizacional mais importante – o capital financeiro – está cedendo o pódio para outro recurso imprescindível – o capital intelectual. É o conhecimento e sua adequada aplicação que permite captar a informação disponível para todos e transformá-la rapidamente em
1 É uma metáfora criada Platão na obra “A República”, que consiste na tentativa de explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos e o que seria necessário para atingir o verdadeiro “mundo real” – o conhecimento.
oportunidade de novos produtos ou serviços, antes que os concorrentes consigam fazê-lo. (CHIAVENATO, 2008, p. 41)
Esse cenário de coexistência de eras é corroborado pelo conceito de “Modernidade Líquida” difundido por Bauman (2001). Em resumo, ele argumenta que as mudanças em nossa sociedade não acontecem pela substituição abrupta de um processo sólido por outro também sólido, mas pelo derretimento (movimento líquido) do fenômeno em alteração, que se torna maleável a ganhar novas formas. Em outras palavras, a “Modernidade Líquida” significa a convivência do velho com o novo, já que a matéria líquida, embora vá se reformatando com o passar do tempo, conserva as características da sua antecessora. Um exemplo bem claro disso é o grande recurso da Era Industrial – o capital financeiro – atualmente insuficiente para atestar o sucesso de uma organização, entretanto, ele ainda existe (e precisa existir), apesar do advento das demais eras.
Nesse ínterim, novas formas de analisar nosso sistema de convivência social e econômica vêm surgindo, dentre os quais podemos citar a “Era da Experiência”. Essa nova classificação foca no oferecimento de recursos memoráveis, encenados, pessoais e promotores de sensações (PINE II; GILMORE, 1998). Prahalad e Ramaswamy (2003) colaboram com essa visão da economia da experiência, afirmando que atualmente a base do valor da marca está na cocriação, no engajamento e envolvimento do cidadão na concepção daquilo que ele receberá, ou seja, a experiência é o objetivo e os produtos/serviços são meios para atingi-la. Conforme os autores Pinheiro e Alt:
Essa é a Era da Experiência em que cada vez mais o cliente procura oportunidades de experimentar novas emoções, de sentir-se especial e único. Portanto, as empresas devem começar a estimular os seus clientes a tomarem decisões para alguns dos seus produtos ou categorias pela vontade, pelo desejo e não apenas pela necessidade. (PINHEIRO; ALT, 2011, p. 36).
É nesse cenário de empoderamento social, caracterizado por levar em consideração os sentimentos, anseios e conhecimentos da coletividade, que essa pesquisa se concentra. Na sequência, será delimitado o contexto pesquisado.
1.1 Contextualização do tema
Após abordar brevemente a relevância do conhecimento no desenvolvimento da humanidade, cabe agora analisar os atores sociais de maior expressão nessa temática e, nesse
quesito, a Universidade é a grande protagonista por suas missões de: i) produzir o saber (pesquisa) e; ii) disseminar o saber (ensino) (CASTRO, 2011).
Trazendo o tema para o cenário brasileiro, a Lei 9.394/1996 ou Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) tem a seguinte definição para universidade:
Art. 52. As universidades são instituições pluridisciplinares de formação dos quadros profissionais de nível superior, de pesquisa, de extensão e de domínio e cultivo do saber humano, que se caracterizam por:
I - produção intelectual institucionalizada mediante o estudo sistemático dos temas e problemas mais relevantes, tanto do ponto de vista científico e cultural, quanto regional e nacional; [...] (BRASIL, 1996).
Contudo, inseridas nesse mundo líquido como já fora abordado, as universidades brasileiras, sobretudo na esfera pública, vêm sendo requisitadas não apenas para cumprir o mero repasse de conteúdo acadêmico, mas participar ativamente do desenvolvimento econômico e social. É latente a necessidade das universidades disseminarem o conhecimento produzido e atuarem para além das suas fronteiras prediais (PEDROSI FILHO; COELHO, 2013).
Esse engajamento da universidade para além do ambiente acadêmico foi definido por Etzkowitz (1998) como “Empreendedorismo Científico” ou “Universidade Empreendedora”. Esse mesmo autor também foi criador do modelo da Tríplice Hélice (TH), conceito amplamente difundido para representar esse protagonismo da universidade, sobretudo na interação Universidade-Empresa (U-E).
Tal modelo insere a universidade como a idealizadora das relações com as empresas e com o governo, com a intenção de produzir novos conhecimentos, estimular a inovação tecnológica e fortalecer o desenvolvimento econômico. Dessa forma, a universidade amplia suas atividades para além da atuação tradicional, capitalizando os conhecimentos e os pesquisadores, produzindo um ambiente no qual ela abrange a transferência de tecnologia, a criação e o desenvolvimento de empresas e passa a ser vista como universidade empreendedora. (ETZKOWITZ, 2009).
A formação desse ambiente voltado para a produção do conhecimento é chamada de ba: um espaço compartilhado para relacionamento. “O conhecimento é incorporado em ba (nestes espaços compartilhados), onde é então adquirido através da própria experiência ou reflexões sobre as experiências dos outros” (NONAKA; KONNO, 1998, p. 40-41. tradução nossa2).
2 Knowledge is embedded in ba (in these shared spaces),where it is then acquired through one's own experience or reflections on the experiences of others.
De acordo com o Araújo (2014, p. 134), o conceito do ba “tornou-se uma das contribuições teóricas mais significativas, pois entende a importância dos contextos interacionais para a explicitação de conhecimentos e também para a criação de conhecimentos”. Com isso, uma forma de fazer o bom uso das informações e do conhecimento produzidos no ba, é promover o seu gerenciamento, ou seja, estabelecer a Gestão da Informação e do Conhecimento (GIC). “O conhecimento, uma vez registrado, transforma-se em informação e esta, uma vez internalizada, torna-se conhecimento.” (BARBOSA, 2008, p. 21). Falando especificamente da Gestão do Conhecimento (GC), que é menos tangível que a informação, a maneira de perpetuar o conhecimento é transferindo-o.
Indo ao encontro dessa reflexão, um outro mecanismo para a universidade ampliar sua atuação é a formação de Redes de Conhecimento (RC), definidas como espaços onde ocorrem a troca de informações e experiências entre profissionais de diversas áreas. “Redes de conhecimento são caracterizadas pelas relações desenvolvidas pelos atores que partilham informação e conhecimento” (TOMAÉL, 2005, p. 7). Por meio das RC, portanto, a universidade poderá engajar vários indivíduos em torno da busca e produção do conhecimento, de maneira a fomentar ações empreendedoras para sociedade.
Esses arranjos voltados à produção do conhecimento se mostram como oportunidades para a inovação acadêmica materializada. Em outras palavras, a transferência de conhecimento produzido na universidade precisa ganhar tangibilidade e movimentar o mercado econômico pela oferta de produtos, processos, serviços etc.
A transferência de conhecimento e tecnologia da universidade para aplicação pode se dar através de muitos canais, tais como a livre disseminação do conhecimento através do ensino e publicação, interação, cooperação e licenciamento para empresas existentes e, finalmente, através de spin-offs. (PEDROSI FILHO; COELHO, 2013, p. 726).
Os vários mecanismos citados acima corroboram com a chamada 3ª (terceira) missão da universidade: “a transferência de conhecimentos e a adequação e aproveitamento dos recursos humanos que estão sendo formados” (CASTRO, 2011, p. 570), entretanto, demonstram uma lacuna: eles representam estruturas prontas de como transferir o conhecimento, mas não respondem a como pensar em soluções para demandas sociais com possibilidade de se transformarem num negócio rentável.
O ato de pensar em soluções para algum tipo de problema, na literatura, remete ao conceito de inovação que, de acordo com Schumpeter (1934) – pioneiro na definição – pode ser: a introdução de um novo bem; introdução de um novo método de produção; abertura de um
novo mercado; uma nova forma de matérias-primas; e uma nova forma de empreender ou nova empresa.
Embora seja uma definição quase centenária, ela ainda permanece vigente e foi muito precisa ao vislumbrar que a inovação pode derivar da necessidade ou da oportunidade. Para alcançar esse entendimento, é preciso estar plenamente engajado e atento aos complexos problemas presentes ou em formação na sociedade.
Nesse sentido, levar o processo de inovação para o ambiente universitário - incluindo a proposição de um framework3 - se configura como a grande inquietação desta pesquisa que será demonstrada a seguir.
1.2 Problema de pesquisa
Inserida nesse ambiente de produção do conhecimento e de demanda por inovação, está a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) que, ratificando as diretrizes da LDB, tem como missão educar, produzir e disseminar o saber universal, contribuindo para o desenvolvimento humano, mantendo o compromisso com a justiça social, a democracia e a cidadania (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE, 2010). É importante destacar também um dos objetivos explícitos da UFRN: produzir e difundir o conhecimento científico universal que promova o desenvolvimento econômico e social (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE, 2010).
Nesse sentido, no âmbito da UFRN, destaca-se o Instituto Metrópole Digital (IMD), fundado em 2011. Esse instituto atua na formação de pessoal de nível técnico, superior e na pós-graduação, cujas ações integram a inclusão social e digital de jovens do ensino básico até a pós-graduação (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE, [2017a]). É exatamente neste último polo – a pós-graduação – que se encontra a organização para a qual se almeja propor uma intervenção: o Bioinformatics Multidisciplinary Environment (BioME) – que é o Centro Multiusuário de Bioinformática da UFRN.
O BioME é uma iniciativa em bioinformática na UFRN, criada em 2016, tendo por missão promover a bioinformática no cenário regional e nacional, atuando em quatro diferentes níveis: i) administração de curso de pós-graduação; ii) formação de grupos de pesquisa para produzir ciência de ponta; iii) manutenção de um centro multiusuário para prover serviços de bioinformática tanto na academia quanto na indústria; iv) estabelecimento de uma interação
produtiva com a indústria de biotecnologia (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE, [2017b]).
Por essas características, nota-se que o BioME está vocacionado e inserido num ambiente orquestrado para produzir inovação e demonstra, por seus objetivos, bastante aderência com o conceito de universidade empreendedora. Nesse ínterim, pensando em contribuir para o desafio contemporâneo de expandir a 3ª missão da universidade, surgiu a questão norteadora desse estudo: Como fomentar a transferência de conhecimento no
BioME/UFRN?
Sob essa perspectiva, a seguir serão demonstrados os objetivos da presente pesquisa.
1.3 Objetivos
Diante do que fora até aqui exposto, os objetivos gerais e específicos são:
1.3.1 Objetivo Geral
Propor e validar um framework de inovação baseado no Design Thinking para fomentar a transferência do conhecimento no BioME/UFRN.
1.3.2 Objetivos Específicos
I. Caracterizar, por meio de uma revisão de literatura, a interação Universidade-Empresa como contexto da transferência do conhecimento.
II. Estruturar um processo de Design Thinking fundamentado na literatura e aplicável ao BioME.
III. Legitimar, junto aos especialistas locais, a adequação do framework ao processo de criação de um produto/serviço de sucesso do BioME.
IV. Validar institucionalmente o framework perante a coordenação do BioME.
1.4 Justificativa
A justificativa acadêmica para a presente pesquisa se baseia na percepção de que a Ciência da Informação (CI) é uma área do conhecimento interdisciplinar e pela constatação de que há oportunidade para inovar nesse campo pela produção de pesquisas sobre temas pouco
explorados na área. “A interdisciplinaridade traduz-se por uma colaboração entre diversas disciplinas, que leva a interações, isto é, uma certa reciprocidade nas trocas, de modo que haja, em suma, enriquecimento mútuo” (LE COADIC, 2004, p. 20).
Essa pesquisa está focada no processo de GC – mais especificamente na TC – dentro da perspectiva da CI. “A Gestão do Conhecimento promove a inovação a partir do estímulo ao potencial presente na organização e da circulação do conhecimento” (CANONGIA, et al., 2004). Para Tidd e Bessant (2015) a inovação é a resposta a uma necessidade de mudança que estimula a criação de conhecimento. Essa reflexão permite inferir que a representação concreta de uma inovação deriva de um conhecimento que foi transferido. Dessa forma, abordar a TC como um mecanismo relevante para os processos associados à inovação passa a ser o compromisso científico perseguido por esta pesquisa e que a torna atrativa para área.
Ainda no tocante à importância acadêmica, esse estudo tem como propósito teórico intercambiar conteúdos nativos do ramo da Ciência da Informação (GC e TC) com abordagens ainda pouco utilizadas em pesquisas nessa área do conhecimento – tais como o Design Thinking, a Gestão da Inovação e a interação Universidade-Empresa. Dessa forma, pelo atributo da reciprocidade, a pesquisa oferecerá uma contribuição de natureza singular e bidirecional ao traçar relações entre um campo e outro.
A relevância institucional advém do fato da UFRN ser um ambiente plural, formado por vários setores e unidades acadêmicas que têm a missão de impactar o ensino, a pesquisa e a extensão nos planos local e regional. O Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) da UFRN enfatiza o apreço pela promoção de ações estruturantes para avançar na busca da qualidade e na internacionalização, com desenvolvimento da ciência, inovação tecnológica, inclusão social e o fortalecimento da interação com a sociedade e governos. (UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE, 2010).
Nesse sentido, o framework proposto estimulará a empatia e colaboração entre os pesquisadores do BioME, produzindo novas questões de pesquisa que poderão culminar no crescimento da produção científica e no incentivo ao empreendedorismo acadêmico – atividades relacionadas ao compromisso institucional de produzir inovação, definido no PDI da UFRN.
O fato do BioME atuar tanto no ambiente acadêmico, quanto no setor produtivo, o assemelha estruturalmente a outros segmentos dentro da universidade – como empresas juniores, incubadoras de empresas etc. – portanto, o framework poderá ser adaptado e passível de aplicação nesses demais contextos institucionais, potencializando o impacto da UFRN no desenvolvimento local e regional.
Como justificativa social dessa pesquisa, apresenta-se a Universidade e a Empresa como agentes de alta reverberação coletiva. Dessa maneira, a disseminação de uma mentalidade empreendedora dentro da atividade acadêmica tende a modular positivamente a economia local e, consequentemente, oferecer impactos diretos e indiretos no bem-estar social. Enquanto “a universidade está adotando um formato empreendedor comum que incorpora e transcende suas missões tradicionais de educação e pesquisa” (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017, p. 23) as “empresas são meios eficientes pelos quais o conhecimento é criado e transferido” (OLIVEIRA JUNIOR, 2010, p. 131).
Sob o espectro pessoal, além do desejo de poder contribuir para a formatação de um ambiente inovador, evidencia-se que a formação acadêmica multidisciplinar do pesquisador – Ciências Administrativas e Ciência da Informação – bem como o fato de exercer suas atividades profissionais na organização foco do estudo, proporcionam exequibilidade à proposta. Também prepondera a visão pessoal da importância de proporcionar maior tangibilidade à produção acadêmica sob o olhar da sociedade, constituindo, portanto, o inquietante desafio de gerar um estudo que contribua para a diminuição desse distanciamento entre a academia e a opinião pública, permitindo ao pesquisador galgar alguns passos rumo à carreira docente que é uma meta particular.
1.5 Estrutura do estudo
A pesquisa está estrutura da seguinte maneira: nos capítulos 2, 3, 4 e 5 será apresentada a fundamentação teórica, descrevendo-se os conceitos e características da Interação Universidade-Empresa, da Gestão do Conhecimento, da Gestão da Inovação e do Design Thinking. O capítulo seguinte abordará o percurso metodológico adotado no planejamento e execução do estudo. No capítulo 7 são apresentadas a análise e a discussão dos resultados. E, por fim, no capítulo 8 são apresentadas as considerações finais do estudo, suas limitações e sugestões de estudos futuros.
2 INTERARAÇÃO UNIVERSIDADE-EMPRESA
Conforme foi contextualizado na introdução desta pesquisa, o conhecimento é o ativo contemporâneo de maior protagonismo. “Na sociedade do conhecimento, o saber não é fragmentado, os conteúdos são utilizados de forma inter-relacionada, não existindo fronteiras delimitadas para o conhecimento” (NASCIMENTO et al., 2016, p. 151).
Consequentemente, o crescimento da contribuição do conhecimento científico nos processos de evolução social e tecnológica põe em evidência o papel desempenhado pelas universidades, pois são elas a fonte primordial de geração desse conhecimento (RAPINI, 2007).
Por outro lado, a reverberação econômica desse conhecimento produzido na academia só acontece mediante a apropriação por parte do setor produtivo. De acordo com Tarapanoff (2006, p. 7), “entre a universidade e o mundo das empresas deve existir uma crescente interação e diálogo, de forma a possibilitar que as pesquisas e os saberes produzidos na academia possam, cada vez mais, concretizar-se em projetos e tecnologias que sejam relevantes para a sociedade”.
“A universidade é o princípio gerador das sociedades fundadas no conhecimento, assim como o governo e a indústria são instituições primárias na sociedade industrial” (ETZKOWITZ, 2008, p. 1, tradução nossa4).
De acordo com Berni et al. (2015) cada vez mais ganham destaque as parcerias entre instituições de ensino direcionadas à pesquisa científica e tecnológica e empresas privadas com possibilidade de investimento de recursos para o desenvolvimento de soluções inovadoras para a comunidade.
Na interação com as universidades, as empresas se interessam em atividades de exploração vinculadas, tais como a descoberta de novas oportunidades para a geração de riqueza, processos de inovação, invenção e pesquisa básica para construir novas capacidades, além de permear novas linhas de negócios ou aumentar sua capacidade absortiva (BARRINGER; HARRISON, 2000).
Em tais interações as empresas visam a absorção de tanto conhecimento quanto seja possível, advindo das universidades e buscam como efeito adicional da interação o desenvolvimento de novas competências empresariais que geram mais valor à empresa. Visando aumentar as chances de absorver tais conhecimentos, as empresas devem buscar repetidas interações com universidades e estabelecer uma vasta linha de comunicação entre os especialistas envolvidos (SHERWOOD; COVIN, 2008 apud BATISTA, 2013, p. 24).
4 The university is the generative principle of knowledge-based societies just as government and industry were the primary institutions in industrial society.
O novo papel da informação e do conhecimento nas economias e no processo produtivo tem levado a um reposicionamento do papel desempenhado pelas universidades, as quais não apenas são responsáveis pelo treinamento, como passaram a fornecer conhecimento crucial para a evolução de alguns setores industriais (RAPINI, 2007).
Para Bruneel, D’este e Salter (2010) a colaboração entre a indústria e as universidades enfrenta desafios importantes, incluindo o fato de que essas organizações são impulsionadas por diferentes sistemas de incentivo. As universidades são primordialmente criadas para criar novos conhecimentos e educar, enquanto as empresas privadas estão focadas na captação de conhecimentos valiosos que podem ser alavancados para obter vantagens competitivas.
“Um dos argumentos que têm sido construídos no meio acadêmico é o de que uma forma utilizada para o desenvolvimento de inovações tecnológicas, nos países que se têm destacado em inovar, é a cooperação entre a universidade e a empresa.” (NOVELI; SEGATTO, 2012, p. 82).
Chais et al. (2013) iniciam a análise da interação explorando a divisão de competências entre eles:
Cabe à universidade a tarefa de criar fontes de novos conhecimentos e tecnologias, estabelecer relações entre as empresas e os governos, criar novas áreas de atuação e conduzir os processos de mudança [...]. Às empresas cabe desenvolver produtos e serviços inovadores, promover a interação com os centros de transferência de tecnologia da comunidade científica e guiar os processos de mudança (CHAIS et al., 2013, p. 173).
As empresas possuem conhecimento das demandas de mercado, disponibilidade de recursos para investimento em inovação e capacidade para implementar novas ideias com finalidades práticas. A universidade, por sua vez, detém conhecimento científico, pesquisadores e estrutura que podem contribuir de forma significativa para a evolução das técnicas aplicadas no setor produtivo (BERNI et al., 2015).
Para que a inovação tecnológica aconteça está sendo necessário um conhecimento científico mais denso e com isso a interação entre Universidade-Empresa é uma das alternativas mais confiáveis. Com a interação se torna possível a união do conhecimento gerado na universidade com a prática e experiência mercadológica das organizações (CHAIS et al., 2013, p. 178).
Feitas as ponderações sobre a importância da interação Universidade-Empresa (U-E), torna-se interessante relatar os mecanismos mais comuns desse tipo de cooperação. Perales (2014) apresenta uma coletânea das atividades ou mecanismos da interação U-E. “No total foram identificados 32 artigos que mencionam mecanismos de interação [...] e encontrados 47
mecanismo diferentes” (PERALES, 2014, p. 41). O Quadro 1, a seguir, apresenta o referido levantamento.
Quadro 1 – Mecanismos de interação Universidade-Empresa
Mecanismo Nº citações
Consultorias 20
Patentes e licenciamento 16
Incubadoras 13
Cursos de extensão ou especialização (para capacitar funcionários de empresas) 13
Pesquisa contratada 11
Spin-offs 11
Pesquisa conjunta ou colaborativa (cooperação em pesquisa) 11
Interações informais 10
Uso de publicações 10
Conferências ou outros eventos (público da empresa e da universidade) 10 Contratação de egressos ou alunos (dos projetos de colaboração U-E) 9
Parques Tecnológicos e outros espaços dedicados 7
Assistência técnica e serviços especializados 7
Pesquisa patrocinada (subvenções públicas ou fundos privados) 6
Projetos de P&D 6
Intercâmbio temporário de pessoal 5
Parcerias interorganizacionais 5
Troca de ativos e serviços 5
Uso de instalações da universidade 4
Desenvolvimento de produtos, processos e software 4
Estudantes em estágio nas empresas 4
Compartilhar resultados de pesquisa 3
Financiamento de bolsas de pesquisa pela indústria 3
Compra de protótipos ou produtos 2
Orientação conjunta 2
Redes de profissionais 2
Comitês envolvendo profissionais das empresas locais 2
Empresas que pertencem à Universidade 2
Atividades de negócio 1
Concurso de planos de negócios 1
Copyright 1
Empreendimentos conjuntos ou cooperativos 1
Grupos de trabalho com usuários 1
Licenças sabáticas 1
Mobilidade de pesquisadores entre universidade e empresa 1
Oportunismo/sorte 1
Palestras ministradas pelo pessoal da empresa na universidade 1
Professores substitutos ou temporários 1
Programas de mentoria e clínicas para startups 1
Programa de relacionamento com empresas 1
Programas de trainees e transferências temporárias nas empresas 1
Publicação conjunta 1
Residência na empresa 1
Treinamento de alunos de pós-graduação nas empresas 1
Cursos de pós-graduação (strictu sensu) 1
Estudantes realizando atividades de pesquisa nas empresas 1
Trabalho de Conclusão de Curso apoiado pela empresa 1
“O potencial das parcerias entre universidades e empresas, nesse contexto, justifica a importância que pesquisadores e empresários têm dado a essa forma de cooperação” (TESTA; LUCIANO, 2012, p. 75).
Esses mecanismos de cooperação ou colaboração colocam em evidência uma nova oportunidade para a atuação da universidade: o empreendedorismo. Afinal de contas, “há uma forte corrente mundial popularizando e transformando as instituições em universidades empreendedoras” (CHAIS et al., 2013).
Esse reposicionamento da universidade – a vertente empreendedora – é tratada no item a seguir.
2.1 Universidade Empreendedora
A nova ordem econômica apresentou uma demanda por novos conhecimentos e tecnologias, tendo como resultado a expansão das formas de atuar da universidade, que agora, além do ensino e pesquisa, tornou-se vetor de desenvolvimento tecnológico, social e econômico. Esse novo contexto desafiou as universidades a não somente produzir conhecimento, mas, sobretudo, a transferi-lo. (SANTOS, 2014).
Essa discussão sobre a necessidade de participação mais ativa da universidade – e seus membros – na atividade econômica vem de longa data. O pesquisador Henry Etzkowitz, em 1983, já trazia essa reflexão:
Oportunidades para a utilização comercial da pesquisa científica têm sido frequentemente apresentadas aos cientistas, mas o modo tradicional da ciência não permitiu que eles quebrem essa fronteira entre a ciência e a iniciativa privada - que opera em busca de lucros. A novidade nesse cenário é que muitos cientistas e pesquisadores acadêmicos já não encaram essas restrições como necessárias ou corretas. Dessa forma, na ampla lacuna entre a descoberta científica e a sua aplicação, as empresas já poderiam ter seus próprios cientistas industriais trabalhando em pesquisa e desenvolvimento, o que seria uma atividade imprópria a cientistas acadêmicos. No período mais recente, no entanto, esses cientistas acadêmicos estão cada vez mais dispostos a dirigir ou participar de programas de pesquisa e desenvolvimento, visando a sua aplicação comercial. (ETZKOWITZ, 1983, p. 198, tradução nossa5).
5 Opportunities for commercial utilization of scientific research have been often available to scientists, but the traditional ethos of science did not permit them to erode the boundary between science and private, profit seeking business. What is new in the present situation is that many academic scientists no longer regard such constraints as necessary or right. Heretofore, in the wide gap between scientific discovery and application, business firms were expected to have their own industrial scientists conduct research and development which was an activity presumed to be inappropriate for academic scientists. In the more recent period, however, academic scientists have often been eager and willing to direct, or participate in, programmes of research and development, aiming at commercial application.
À época, portanto, já se evidenciava a necessidade da universidade contribuir para o desenvolvimento da sociedade, além da produção de conhecimento e da formação de pessoas, mediante a ampliação de sua colaboração com o mercado, passando a se caracterizar como Universidade Empreendedora (UE).
A Universidade tem estreitado seus laços com o mercado e o conhecimento produzido deixa de ser encarado apenas como um bem público e passa a ser comercializado. Nesse contexto de mudança institucional e alteração das demandas sociais, surge o conceito de universidade empreendedora. (MARTINS, 2014, p. 30).
Etzkowitz (2013) apresenta três estágios e fases para representar o desenvolvimento da universidade para uma vertente empreendedora. Na fase inicial, a instituição acadêmica tem uma visão estratégica direcionada e estabelece suas próprias prioridades, angariando recursos por meio de doações, taxas de matrícula e outros subsídios. Na segunda fase, a instituição acadêmica desempenha um papel ativo na comercialização da propriedade intelectual resultante das atividades de seus professores, funcionários, estudantes e, normalmente, estabelece suas próprias capacidades de transferência de tecnologia por meio de contratos com empresas. Na terceira fase, por sua vez, a instituição acadêmica é chamada a desempenha um papel proativo na melhoria da eficácia do seu ambiente de inovação regional, muitas vezes em colaboração com a indústria e os atores governamentais.
Universidades e organizações governamentais igualmente podem ser empreendedoras e o empreendedorismo pode ser resultado da colaboração de indivíduos e organizações em várias esferas institucionais. (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017).
As universidades são empreendedoras quando não tem medo de maximizar o potencial de comercialização de suas ideias e criar valor na sociedade e não veem isso como uma ameaça significativa para os valores acadêmicos (GIBB; HANNON, 2006). Além disto, é importante que exista uma ponte entre o ambiente acadêmico e o ambiente comercial, a ser feito pela universidade e institutos de pesquisa. (RASMUSSEN; MOSEY; WRIGHT, 2011 apud SANTOS, 2014).
A UE é um fenômeno emergente resultante da mudança de uma lógica de desenvolvimento acadêmico que passou a ser criadora de conhecimento. Ela promove a transferência de tecnologia, a formação de empresas e o desenvolvimento regional, de modo associado às atividades de ensino e pesquisa, ou seja, cumpre sua missão acadêmica e social de modo integrado. (ETZKOWITZ, 2013).
Em relação à estrutura de atuação, Gibb e Hannon (2006) defendem que a UE deve ser gerenciada para ser capaz de responder – de forma flexível, estratégica e coerente – às oportunidades no ambiente em que está inserida.
Etzkowitz e Zhou (2017) corroboram com essa perspectiva ao dizerem que a academia é assim inspirada a desempenhar um papel criativo no desenvolvimento econômico e social, a partir de uma perspectiva independente no trato das prioridades do governo, da indústria e do cidadão.
“Nessa teoria, a Universidade em si é vista como um ambiente de inovação em potencial. Para desenvolver este potencial destaca-se a importância da institucionalização da nova visão de Universidade, bem como da criação de mecanismos que a viabilizem.” (MARTINS, 2014, p. 32).
Para Etzkowitz e Zhou (2017) esse empoderamento é um argumento fundamental para envolver as instituições criadoras de conhecimento mais de perto no processo de inovação. E continuam:
A Universidade Empreendedora [...] vai se tornando um formato acadêmico cada vez mais significativo. À medida que a sociedade industrial é suplantada por uma era baseada no conhecimento, o conhecimento avançado é cada vez mais expeditamente traduzido em usos práticos, devido à sua natureza polivalente, simultaneamente teórica e prática. Processos de transferência de tecnologia a partir de descobertas teóricas que outrora levavam gerações para ocorrer agora transcorrem ao longo da vida profissional de seus inventores, dando-lhe a possibilidade de participarem tanto do processo de inovação como no de pesquisa. (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017, p. 23). De acordo com Etzkowitz (2009), as universidades empreendedoras apoiam-se em quatro pilares: 1º) Liderança Acadêmica capaz de formular e implementar uma visão estratégica; 2º) Controle Jurídico sobre os recursos acadêmicos; 3º) Capacidade Organizacional para transferir tecnologia através de patenteamento, licenciamento e incubação; 4º) Senso empreendedor entre administradores, corpo docente e estudantes, respeitando o valor da identidade social de cada um dos atores.
A Universidade Empreendedora é um motor-chave em uma economia baseada no conhecimento e um importante tracionador do desenvolvimento social. Em uma sociedade baseada no conhecimento, ela se tornou uma esfera institucional primária no mesmo nível que a indústria e o governo. É uma peça fundamental para desenvolver o espaço do conhecimento e, cada vez mais, os espaços de inovação e de consenso (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017).
Com intuito de fazer uma distinção entre a atuação tradicional da Universidade de Pesquisa e o foco inovador da Universidade Empreendedora, o Quadro 2 oferece um síntese comparativa entre os dois conceitos extraída do trabalho Guaranys (2006).
Quadro 2 – Características da Universidade de Pesquisa e da Universidade Empreendedora
ELEMENTO DE
ANÁLISE UNIVERSIDADE DE PESQUISA
UNIVERSIDADE EMPREENDEDORA Objetivo Ensino, pesquisa e extensão Idem + Desenvolvimento econômico
Formação de pessoas Para a academia e para as empresas
no mercado
Idem + Para gerar as empresas egressas
Tipo de formação Especializada Idem + Áreas relacionadas à gestão empresarial
Tipo de pesquisa
Fundamental, aplicada e tecnológica, além de protótipos, processos ou serviços para atender à demanda de empresas
Idem + Para geração de empresas e transferência de tecnologia para empresas existentes
Resultados esperados Egressos qualificados para mercados
empresarial e acadêmico
Idem + Para gerar empresas + Geração de empresas egressas dos grupos
Núcleo de propriedade
intelectual
Unidade complementar opcional
Unidade complementar obrigatória, articulada com os grupos de pesquisa e laboratórios, com a incubadora de empresas e com o parque tecnológico
Formação empreendedora
Através de algumas disciplinas eletivas
Articulada e abrangente, oferecida como uma segunda área de competência
Tipos de graduação Alunos Idem + Graduação de empresas
Incubadora de
empresas Unidade complementar opcional Unidade complementar obrigatória
Pré-incubação Atividade opcional relacionada à
incubadora de empresas
Atividade regular dos laboratórios de pesquisa e da incubadora de empresas
Parque tecnológico Unidade complementar opcional
Unidade complementar obrigatória, articulada com a incubadora de empresas e com os grupos de pesquisa e laboratórios
Para Martins (2014) essas transformações acarretam várias mudanças na estrutura e na organização interna da Universidade, e provocam grande transformação na visão da forma de fazer ciência.
O processo de implantação ou desenvolvimento de ações de empreendedorismo inovador, no âmbito da universidade, agrega intensa participação dos agentes que interagem no processo: professores, alunos e técnicos, contribuindo para o desenvolvimento dessa mentalidade empreendedora em todos os níveis do ensino, da pesquisa e da extensão. Assim sendo, um programa para o desenvolvimento de uma universidade empreendedora deve estar centrado na capacidade de envolver as pessoas e sistematizar iniciativas isoladas, melhorando a sua eficiência e os seus resultados. Para tanto, torna-se necessário planejar a implementação, bem como apoiar esse programa em bases e conceitos balizadores. (CASADO; SILUK; ZAMPIERI, 2012, p. 642).
Etzkowitz e Zhou (2017, p. 31) enfatizam que “a presença de uma universidade empreendedora, cujos professores e alunos buscam ativamente os resultados úteis de suas pesquisas é um fator-chave da inovação regional”.
Os mesmos autores, ao analisar a característica da UE, a definem como o núcleo do conceito intitulado Tríplice Hélice (TH):
Uma universidade empreendedora, comprometida com o desenvolvimento de sua região, na qual um número significativo de professores encoraja seus graduados a aproveitar e levar adiante a tecnologia desenvolvida em seus laboratórios bem financiados, e podem, eles próprios, assumir papeis duais em formas de alta tecnologia, é o núcleo de uma dinâmica à la Hélice Tríplice. (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017, p. 29).
A TH será aborda com mais detalhes a seguir.
2.2 Tríplice Hélice
A relação entre universidades, empresas e governos – academicamente intitulada de Tríplice Hélice e outras denominações semelhantes – não é tão recente. “O conceito da Hélice Tríplice foi inicialmente pensado por Sábato, com o intuito de superar o subdesenvolvimento da América Latina no fim da década de 1960.” (SANTOS, 2016, p. 52).
Superar o subdesenvolvimento da América Latina resultaria da ação simultânea de diferentes políticas e estratégias. Em qualquer caso, e quaisquer que sejam os caminhos escolhidos, o acesso a uma sociedade moderna – que é um dos objetivos a serem alcançados
pelo desenvolvimento – implica necessariamente uma ação decisiva no campo da pesquisa científico-tecnológica. (SÁBATO; BOTANA, 1968)
Essa proposta ficou conhecida como “Triângulo de Sábato” (Figura 1) e a proposta é estabelecer uma conexão entre governo, infraestrutura científica e tecnológica, além do setor produtivo.
Figura 1 – Triângulo de Sábato
Fonte: Adaptado de Sábato e Botana (1968, p. 149).
O vértice da infraestrutura científica e tecnológica é explicado como o conjunto dos elementos: sistema educativo; laboratórios de pesquisa; organizações científicas; mecanismos jurídico-administrativos que regulam o funcionamento; e os recursos econômicos e financeiros aplicados. A estrutura produtiva é o conjunto de setores produtivos que provêm os bens e serviços demandados por uma sociedade. Já o vértice do governo compreende o arranjo institucional existente para formular políticas e mobilizar recursos dos demais polos. (SÁBATO; BOTANA, 1968).
Os argumentos utilizados por esses autores para defender sua tese, levaram em consideração a necessidade de emplacar uma investigação científico-tecnológica séria, sustentada e permanente. São eles:
a) Não importa o país, este deve estar preparado com uma robusta infraestrutura científico-tecnológica, com vistas a aperfeiçoar a absorção de tecnologias importadas;
b) O uso inteligente dos recursos naturais, matérias-primas, mão-de-obra e capital, bem como os problemas das economias de escala, exigem pesquisas específicas para cada país;
c) A latente necessidade de aumentar a exportação de bens com maior valor agregado para alavancar o progresso tecnológico dos países latino-americanos;
d) Ciência e a tecnologia são os promotores da mudança social. (SÁBATO; BOTANA, 1968).
Ao analisarem a abordagem do Triângulo de Sábato, Matos e Kovaleski (2009) consideram que muitos conceitos da abordagem ainda fazem parte da agenda da América Latina:
Um deles é a necessidade vital de dinamizar as relações entre os atores (inter-relações), e não apenas focalizar os esforços em cada vértice como entidade isolada das demais. O outro é o reconhecimento da dificuldade de estabelecer as inter-relações horizontais. Isso nos oferece uma pista sobre os motivos pelos quais, com as exceções usuais, somente no final do século XX, a Cooperação Universidade-Empresa começou a tomar fôlego em nosso país. (MATOS; KOVALESKI, 2009, p. 4). Passadas algumas décadas, essa relação entre governo, setor produtivo e a infraestrutura científico-tecnológica, originou o modelo Tríplice Hélice (TH) proposto por Etzkowitz e Leydesdorff, nos anos 90. (ETZKOWITZ; LEYDESDORFF, 2000).
O modelo de desenvolvimento econômico e social da Hélice Tríplice, proposto por Henry Etzkowitz e Loet Leydesdorff, surgiu [...] para representar as três hélices, ou esferas institucionais, governo, universidade e indústria, que, ao interagirem, influenciam-se mutuamente, transformam-se e criam formatos organizacionais em uma transição sem fim. (JAROSZEWSKI, 2018, p. 44)
O nome teve sua origem em uma analogia à Dupla Hélice (DH), usada na biologia molecular para descrever a estrutura da molécula de ácido desoxirribonucleico (DNA). Na molécula de DNA, a interação de diferentes pares de base química, expressa diferentes características genéticas. Pela relação governo-indústria-universidade, os diferentes arranjos de três elementos resultam em distintas formas de cooperação. Contudo, em contraste com a DH biológica, a TH é essencialmente instável, porque ela repousa em arranjos trilaterais entre os elementos dos quais emerge, justificando sua ação em termos do rearranjo de funções, que favoreçam possibilidades de desenvolvimento complementar (LEYDESDORFF; ETZKOWITZ, 2000).
Em um artigo no início de 1953, o prêmio Nobel Linus Pauling propôs uma Hélice Tríplice como modelo do ácido desoxirribonucleico (DNA). No entanto, o modelo de “dupla hélice” defendido por Francis Crick e James Watson [...] foi suficiente para explicar o DNA. A sociedade, porém, é mais complexa que a biologia. As interações e relacionamentos universidade-indústria-governo fornecem uma metodologia quase
ideal para o empreendedorismo e a inovação, movendo a pesquisa/conhecimento para o campo da prática/uso. (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017, p. 44).
A Figura 2 ilustra essa comparação entre a DH – oriunda do DNA – e o modelo da TH formatada por Etzkowitz e Leydesdorff.
Figura 2 – Comparação do Modelo da Tríplice Hélice e a Dupla Hélice do DNA
Fonte: Adaptado de D’avila (2016, p. 80).
Para Etzkowitz e Zhou (2017) as interações universidade-indústria-governo formam uma TH de inovação e empreendedorismo, sendo chave para o crescimento econômico e o desenvolvimento social baseados no conhecimento. Indo além da coevolução das instituições mediante interações mútuas, trata-se da transição das principais esferas de dupla para tríplice hélice.
Esses autores apresentam variantes do modelo de TH. O primeiro deles é a o modelo Estadista (Figura 3) caracterizado pelo total controle do governo sobre a universidade e a indústria. “Nesse modelo, espera-se que o governo assuma a liderança no desenvolvimento de projetos e forneça recursos para novas iniciativas. A indústria e a academia são vistas como esferas institucionais relativamente fracas, que exigem orientação forte ou mesmo controle” (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017, p. 35).
Figura 3 – Modelo Estadista
Fonte: Adaptado de Etzkowitz e Zhou (2017, p. 36).
O modelo seguinte é denominado Laissez-faire (Figura 4) em que a indústria, a academia e o governo, separados uns dos outros, interagem apenas moderadamente por meio de fronteiras fortes.
No modelo laissez-faire a universidade é uma provedora de pesquisa básica e pessoas treinadas. Seu papel em relação à indústria consiste em fornecer conhecimento, principalmente na forma de publicações e graduados que trazem consigo conhecimento tácito para seus novos empregos. Cabe à indústria encontrar conhecimentos úteis nas universidades, sem a expectativa de receber muita ajuda. Também se espera que a indústria opere por conta própria, com empresas ligadas entre si por relações de mercado de compra e venda. E espera-se que haja intensa competição entre empresas – com proibição de que haja colaboração. (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017, 37-38).
Figura 4 – Modelo Laissez-faire
Fonte: Adaptado de Etzkowitz e Zhou (2017, p. 38).
Por fim, os autores apresentam o que seria a modelo de TH mais contemporâneo – chamado de modelo social (Figura 5). O desenvolvimento da Hélice Tríplice pode mudar de curso ao longo do tempo, sendo liderado pelo governo num dado momento, pela universidade em outro e pela indústria em seguida – ou qualquer outra ordem. (ETZKOWITZ; ZHOU, 2017).
Figura 5 – Modelo social da Tríplice Hélice
Fonte: Adaptado de Etzkowitz e Zhou (2017, p. 41).
Segundo Etzkowitz e Zhou (2017) as organizações híbridas do modelo social da TH são os vetores da inovação.