análise do nível de sujidade e sua interferência no
processo de esterilização de limas endodônticas
através da microscopia eletrônica de varredura e
teste microbiológico
Matheus Albino soUza, DDS1
Márcio Luiz Fonseca meNiN, MSc, PhD1
Francisco moNTaGNeR, DDS, MSc, PhD2
Doglas CeCCHiN, DDS, MSc, PhD3
Ana Paula FaRiNa, MSc, PhD3
1 Faculdade de Odontologia, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto
Alegre, RS, Brasil.
2 Faculdade de Odontologia, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS,
Brasil.
3 Faculdade de Odontologia de Piracicaba, Universidade Estadual de Campinas, Piracicaba,
SP, Brasil.
Endereço para correspondência: Matheus Albino Souza Av. Ipiranga 6681, Prédio 6, sala 507
CEP: 90.619-900 - Porto Alegre / RS E-mail: [email protected]
Souza MA, Menin MLF, Montagner F, Cecchin D, Farina AP. SEM and microbiological analysis of dirt of endodontic files after clinical use and its influence on sterilization process. Dental Press Endod. 2011 apr-june;1(1):82-6.
ResUmo
Objetivo: verificar o nível de limpeza de limas endodôn-ticas após seu uso no preparo de canais radiculares e sua influência no processo de esterilização. Métodos: 50 limas endodônticas foram divididas em duas amostras: a primei-ra amostprimei-ra de 25 limas paprimei-ra análise em microscopia ele-trônica de varredura (MEV) para verificação da limpeza; e outra de 25, para análise microbiológica nos meios Tiogli-colato e BHI, após a esterilização. Resultados: as limas
endodônticas apresentaram diferentes graus de sujidade em sua parte ativa na avaliação através da microscopia ele-trônica de varredura; e, através dos testes microbiológicos, foi possível verificar que não houve crescimento bacteriano após a esterilização. Conclusão: apesar da presença signi-ficativa de sujidade nas limas endodônticas em sua parte ati-va, essa sujidade não interferiu no processo de esterilização. Palavras-chave: Sujidade. Limas endodônticas. Teste bacteriológico. Microscopia eletrônica de varredura.
introdução
O sucesso da terapia endodôntica está embasado não somente no correto diagnóstico, mas também no adequado planejamento e execução técnica e, princi-palmente, nos cuidados com a manutenção da cadeia asséptica durante o atendimento do paciente.
Os instrumentos endodônticos são utilizados para remover os remanescentes de tecido pulpar durante os procedimentos de limpeza e modelagem do sistema de canais radiculares. Esses instrumentos podem ser reci-clados para reutilização após o seu primeiro uso. Em um amplo estudo, foi registrado que 88% dos dentistas clínicos gerais no Reino Unido reprocessam as limas endodônticas após o seu uso1.
Como conduta obrigatória de biossegurança, os ins-trumentos endodônticos, para serem reutilizados, terão que passar por um processo de limpeza antes da este-rilização2, uma vez que a presença de matéria orgânica
e/ou resíduos nos instrumentos pode interferir no pro-cesso de esterilização, pois cria barreiras de proteção para os microrganismos, podendo impedir a penetra-ção do agente esterilizante3.
Os procedimentos de pré-lavagem e autoclave po-dem ser utilizados para esterilizar os instrumentos en-dodônticos4,5. No entanto, a complexa arquitetura das
limas endodônticas pode dificultar tais procedimen-tos5. Estruturas dentárias e debris orgânico têm sido
observados na superfície de instrumentos rotatórios, especialmente na região de trincas6. Segundo estudo
prévio, 66% das limas endodônticas recuperadas por dentistas clínicos gerais se mantiveram visivelmente contaminadas7. Dessa forma, existe a possibilidade de
contaminação cruzada associada com a incapacida-de incapacida-de limpar e esterilizar aincapacida-dequadamente as mesmas, sendo sugerido que esses instrumentos devam ser dis-positivos de uso único.
Portanto, o objetivo do presente estudo foi determi-nar a presença de debris remanescentes na superfície das limas endodônticas após a realização de um cesso de limpeza e analisar a sua influência sobre o pro-cesso de esterilização.
metodologia
Foram selecionadas para a realização do presente estudo 50 limas endodônticas tipo K #25, indepen-dentemente de sua marca comercial. As amostras fo-ram divididas em dois grupos (n=25) de acordo com
o método de análise, utilização prévia e realização de protocolo de desinfecção, conforme a Tabela 1.
Os instrumentos endodônticos foram obtidos dire-tamente de alunos da Faculdade de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS, Porto Alegre, RS, Brasil). O protocolo de lim-peza utilizado consistiu em escovação com gluconato de clorexidina 2% (Globomed, Sacomã, SP, Brasil), la-vagem em água corrente e secagem. Previamente às análises, as amostras foram acondicionadas em tubos plásticos tipo Eppendorf (Eppendorf AG, São Paulo, SP, Brasil) e esterilizadas em autoclave (Dabi Atlante, Ribei-rão Preto, SP, Brasil).
Análise em Microscopia Eletrônica de Varredura As limas endodônticas do Grupo 1 foram removidas dos tubos plásticos de Eppendorf com uma pinça clíni-ca e manipuladas apenas pelo clíni-cabo, evitando qualquer contato na parte ativa do instrumento. Os instrumentos tiveram seus cabos removidos através de um alicate de corte e suas hastes metálicas, compostas pela lâmina de corte e porção intermediária, foram fixadas em stubs para posterior observação.
Após esse processo, as amostras foram levadas ao microscópio eletrônico de varredura. A porção inicial da lâmina ativa de cada instrumento foi avaliada sob magnificação de 150 vezes e com 15kV, sendo obtidas as imagens para cada instrumento.
As imagens foram avaliadas por 4 examinadores previamente calibrados através de teste Kappa para concordância interexaminadores. Foi atribuído um escore numérico para cada imagem, representando o respectivo grau de sujidade para cada instrumento: 1 = ausência de resíduos na superfície da lima; 2 = super-fície da lima praticamente limpa, ou seja, apresentando pequena quantidade de resíduos; 3 = superfície da lima apresentando média quantidade de resíduos; 4= superfí-cie da lima com grande quantidade de resíduos.
Os dados obtidos foram submetidos ao teste de Kruskal-Wallis, utilizado a moda da avaliação qualitati-va, em um nível de significância de 5%.
Tabela 1. Distribuição das amostras nos grupos.
Grupo método N Utilização
prévia
limpeza esterilização
G1 MEV 25 Sim Sim Sim
a
C
B
D Análise microbiológica da
contaminação das limas
Todos os procedimentos foram realizados sob con-dições rigorosas de assepsia, no interior de uma cabine de fluxo laminar. Cada lima endodôntica foi removida do tubo plástico de Eppendorf com uma pinça clínica esteri-lizada e, então, introduzida num tubo de vidro contendo meio de cultura líquido BHI (Brain Heart Infusion, Hi-media, Curitiba, PR, Brasil). Em seguida, a mesma foi re-movida e inserida em um tubo de ensaio contendo meio líquido Tioglicolato (Himedia, Curitiba, PR, Brasil). Como controle negativo, foram utilizados dois tubos de meio de cultura líquido BHI e Tioglicolato, que não recebe-ram nenhuma amostra. O controle positivo foi realizado através da inoculação de cepas de periodontopatógenos provenientes de amostras clínicas e isolados de Entero-coccus spp. Os tubos foram encubados em estufa micro-biológica, na presença de oxigênio, em temperatura de 37°C por 72 horas. A presença de microrganismos foi confirmada pela observação de turvação do meio de cul-tura líquido após 24, 28 ou 72 horas, sendo que as amos-tras negativas seriam aquelas que não provocassem alte-ração no meio de cultura, enquanto as amostras positivas seriam aquelas que provocassem turvação do mesmo.
Para comprovar a esterilidade das limas, após a observação da presença ou ausência de turbidez nos meios líquidos, foi feita a inoculação em meio de cultura sólido. Uma alíquota de 10µl de BHI foi inoculada sobre a superfície do meio de cultura (ágar simples), deixada secar e incubada em aerobiose a 37ºC. O mesmo pro-cedimento foi executado com o Tioglicolato de Sódio, porém as placas foram incubadas em microaerofilia pelo método da chama da vela.
Resultados
Os resultados mostraram que no Grupo 1 as limas endodônticas apresentaram diferentes graus de sujida-de após a realização do protocolo sujida-de limpeza das mes-mas (Fig. 1), apresentando, na maioria das vezes, uma superfície com grande quantidade de resíduos (Gráf. 1).
Além disso, os resultados mostraram que não houve presença de crescimento bacteriano na superfície das li-mas endodônticas nos períodos de 24, 48 e 72 horas após a incubação, tanto em meio BHI como no meio Tioglico-lato, exceto o controle positivo, onde houve a presença de crescimento bacteriano em todos os períodos de observa-ção e em ambos os meios de cultura (Gráf. 2, 3).
Figura 1. Escores para a determinação da quantidade de sujidades na
superfície de limas endodônticas: a) Escore 1 - ausência de resíduos
na superfície da lima; B) Escore 2 - superfície da lima praticamente
lim-pa, ou seja, apresentando pequena quantidade de resíduos; C) Escore
3 - superfície da lima apresentando média quantidade de resíduos; e
D) Escore 4 - superfície da lima com grande quantidade de resíduos.
Gráfico 1. Avaliação do grau de contaminação das limas endodônticas.
8 7 6 5 4 3 2 1 25 25 20 20 15 15 10 10 5 5 0 0 0 Grau 1 24 horas 24 horas BHI (-) TGC (-) BHI (+) TGC (+) 48 horas 48 horas 72 horas 72 horas Grau 2 Grau 3 Grau 4
Gráfico 2. Presença/ausência de crescimento bacteriano na superfície
de limas endodônticas em meio de cultura BHI.
Gráfico 3. Presença/ausência de crescimento bacteriano na superfície
DisCUssÃo
Os instrumentos endodônticos são utilizados para remover os remanescentes de tecido pulpar durante os procedimentos de limpeza e modelagem do sistema de canais radiculares. Para serem reutilizados, os mesmos terão que passar por um processo de limpeza antes da esterilização, para que haja a remoção de matéria orgâ-nica e resíduos teciduais nos instrumentos.
São vários os estudos que abordam as técnicas de limpeza de limas endodônticas, entre elas a escovação, detergentes enzimáticos e o auxílio ultrassônico. Entre-tanto, não existe, até o momento, nenhum método ca-paz de deixar o instrumento livre de qualquer resíduo, muito embora os melhores resultados tenham sido obti-dos através da associação obti-dos recursos de escovação e ultrassom2,8,9,10.
A limpeza ultrassônica apresenta algumas vantagens sobre a manual, tais como: maior eficiência de limpeza; redução na aerossolização de partículas infecciosas li-beradas durante a escovação; incidência reduzida com instrumentos; maior limpeza, inclusive remoção de oxi-dações; aproveitamento melhor de tempo e redução do trabalho manual3,11,12,13.
As limas coletadas para o presente estudo foram submetidas à limpeza por intermédio de escovação re-alizada pelos alunos da Faculdade de Odontologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. A partir das análises obtidas por MEV, observou-se que 20% das limas incluíam-se no escore 1; 28% no escore 2; 20% no escore 3; e 32% no escore 4. Isso pode estar relacionado ao fato de que não foi utilizado o recurso
ultrassônico para realização da limpeza das limas endo-dônticas, apresentando as mesmas um significativo grau de sujidade em suas superfícies.
Um estudo prévio afirma que foi detectado que a pre-sença de matéria orgânica e/ou resíduos nos instrumen-tos pode interferir no processo de esterilização, pois cria barreiras de proteção para os microrganismos, podendo impedir a penetração do agente esterilizante3.
Entretan-to, tais achados não vão ao encontro dos resultados en-contrados em nosso estudo, onde foi demonstrado que, apesar da presença de sujidade e matéria orgânica na superfície das limas endodônticas, não houve cresci-mento bacteriano após o processo de esterilização das mesmas. Isso pode ser explicado pelo eficiente processo de esterilização, que é capaz de reduzir e eliminar toda e qualquer forma de conteúdo microbiano presente nas superfícies dos instrumentos endodônticos em questão.
Resultados semelhantes ao nosso estudo foram en-contrados por estudo prévio que comparou as condições microbiológicas das limas utilizadas pelos alunos de gra-duação de 6 faculdades de Odontologia do Rio Grande do Sul. Os resultados demonstraram que, do total das 60 amostras examinadas, 53 encontravam-se estéreis, en-quanto 7 apresentaram-se contaminadas, sendo que em apenas duas Faculdades as limas endodônticas recolhi-das apresentaram 100% de culturas negativas14.
Diante das limitações deste estudo, pode-se con-cluir que, apesar de haver uma presença significati-va de sujidade na superfície das limas endodônticas após limpeza, este fator não influencia no processo de esterilização das mesmas.
aBsTRaCT
Aim: The aim of this study was to assess the level of cleaning of endodontic files after their use in root canals preparation and its influence on the sterilization process. Methods: Fifty files were divided into two groups — one group of 25 files for analysis in scanning electron microscopy (SEM) for verification of cleaning; and another group of 25 files for microbiological analysis in thio-glycolate and BHI after sterilization. Results: The results showed
that endodontic files had different degrees of dirt on his active part through evaluation by scanning electron microscopy. The bacterial growth wasn’t detected through microbiological test af-ter saf-terilization. Conclusion: It was concluded that despite the significant presence of dirt on endodontic files in their active part, this dirt doesn’t interfere in the sterilization process.
Keywords: Dirt. Endodontic files. Microbiological test. Scanning electron microscopy.
1. Bagg J, Sweeney CP, Roy KM, Sharp T, Smith AJ. Cross infection control measures and the treatment of patients at risk of Creutzfeldt Jakob Disease in UK general dental practice. Br Dent J. 2001;191(2):87-90.
2. Queiroz MLP. Avaliação comparativa da eficácia de diferentes técnicas empregadas na limpeza das limas endodônticas [dissertation]. Canoas: Universidade Luterana do Brasil; 2001. 3. Miller CH. Sterilization: disciplined microbial control. Dent Clin North
Am. 1991;35(2):339-55.
4. Filippini EF. Avaliação microbiológica e das condições de limpeza de limas endodônticas novas, tipo K, de diferentes marcas comerciais [dissertation]. Canoas: Universidade Luterana do Brasil; 2003.
5. Morrison A, Conrod S. Dental burs and endodontic files: are routine sterilization procedures effective? J Can Dent Assoc. 2009;7(1):39. 6. Alapati SB, Brantley WA, Svec TA, Powers JM, Nusstein JM,
Daehn GS. Scanning electron microscope observations of new and used nickel-titanium rotary files. J Endod. 2003;29(10):667-9. 7. Smith A, Dickson M, Aitken J, Bagg J. Contaminated dental
instruments. J Hosp Infect. 2002;5(3):233-5.
8. Sousa SMG. Análise comparativa de quatro métodos de limpeza de limas endodônticas durante o trans-operatório: estudo pela microscopia eletrônica de varredura [dissertation]. Bauru: Universidade de São Paulo; 1994.
9. Carmo AMR. Estudo comparativo de diferentes métodos de limpeza de limas endodônticas sobre microscopia eletrônica de varredura [dissertation]. Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1996.
10. Figueiredo JAP. Eficácia das técnicas de limpeza de instrumentos endodônticos retentivos. Rev Paraense Odontol 1997;2:1-12. 11. Spolyar JL, Johnson CG, Head R, Porath L. Ultrasonic cold
disinfection. J Clin Orthod. 1986;20(12):852-3.
12. Zelante F, Alvares S. Esterilização e desinfecção do instrumental e materiais utilizados na clínica endodôntica. In: Alvares S. Endodontia Clínica. 2ª ed. São Paulo: Santos; 1991.
13. Schant ME. Biosecurity in endodontics. Rev Asoc Odontol Argen. 1991;7(4):243-6.
14. Mazzocato G. Avaliação microbiológica das limas endodônticas dos alunos de graduação de 6 faculdades de Odontologia do RS. Pesq Odontol Bras. 2002;16:94.