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Mana vol.7 número1

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Academic year: 2018

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SAHLINS, M arshall. 1988. “Cosmologies of Capit alism: The Trans-Pacif ic Sect or of t he ‘W orld Syst em’”. Proceedings of t he Brit ish Academy, LXXIV:1-51.

O p re se n te e stu d o ofe re ce u m a le itu ra crítica d e “ C osm olog ia s d o C a p i-ta lism o” , d e M a rsh a ll Sa h lin s. O re torn o a e ste a rtig o d e 1988 se ju stifica p e la p osiçã o ce n tra l q u e ocu p a n a ob ra d e Sa h lin s, p ois in corp ora a re fle -xã o sob re a h istória a p re se n ta d a a n os a n te s (Sa h lin s 1981; 1985), re tom a a crítica à ra zã o p rá tica (Sa h lin s 1976) e , a o m e sm o te m p o, a n u n cia re fle -xõe s m a is re ce n te s sob re o p e n sa m e n to ocid e n ta l (Sa h lin s 1993a ; 1993b ; 1996; 1997; 1998). Alé m d isso, a o ce n tra r-se n a s troca s, sofistica a p e rs-p e ctiva d e S ton e A g e Econ om ics (Sa h lin s 1972). M e u ob je tivo a q u i é a va -lia r a s con trib u içõe s d o a u tor, p or m e io d e u m a crítica q u e a ssu m e u m a p e rsp e ctiva in te rn a à su a ob ra .

O rig in a lm e n te u m a “ Ra d cliffe -Brow n Le ctu re ” (Sa h lin s 1988b ), o a rtig o e m q u e stã o d e m on stra , con tra Ra d cliffe -Brow n , q u ã o fe cu n d o p od e se r o e stu d o d a h istória d e socie d a d e s in d íg e n a s. Pa ra ta n to, Sa h lin s a n a -lisa trê s socie d a d e s — H a va í, Kw a k iu tl e C h in a —, loca liza d a s n o “ se tor tra n sp a cífico d o siste m a m u n d ia l” e in te rlig a d a s, d e sd e o fin a l d o sé cu lo XVIII, p or u m siste m a d e troca s, e n volve n d o p op u la çõe s n a tiva s e m e r-ca d ore s ocid e n ta is. N e sse con te xto d e con ta to, a s socie d a d e s h a va ia n a , ch in e sa e k w a k iu tl sã o a p re se n ta d a s com o a u tora s d e su a p róp ria h istó-ria e n ã o com o vítim a s d o ca p ita lism o. O a rg u m e n to é q u e su a s p osiçõe s n o siste m a m u n d ia l, já e n tã o g lob a liza d o, n ã o e ra m p a ssiva s, m e sm o q u a n d o e n fre n ta va m g ra ve s crise s d e m og rá fica s.

Pa ra con stru ir o a rg u m e n to, Sa h lin s e vita re d u zir a h istória d a q u e le s p ovos a u m a fu n çã o d a s “ con d içõe s m a te ria is” . Exp a n d e , a ssim , u m a in te rp re ta çã o d e M a rx e d a n oçã o d e p rá xis, b a se a n d o-se n o Pe n sam e n to S e lv ag e m d e Lé vi-Stra u ss, in te rp re ta çã o e sta q u e já fora a p re se n ta d a a n te s (Sa h lin s 1976:56): im p orta e n te n d e r a p rod u çã o d a vid a socia l com o

EN SAIO BIBLIO G RÁFIC O

SOBRE MARSHALL SAHLIN S E AS

“COSMOLOGIAS DO CAPITALISMO”

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a p rop ria çã o d a n a tu re za , m a s a p a rtir “ d e u m a d e te rm in a d a form a d e socie d a d e ” e n ã o d e u m con ce ito com o o d e m od o d e p rod u çã o “ q u e , e m si m e sm o, n ã o e sp e cifica q u a lq u e r ord e m cu ltu ra l” (Sa h lin s 1988a :51).

J á n o in ício d o te xto, o a u tor a firm a q u e , n e g a n d o in te g rid a d e a ou tra s cu ltu ra s, a s ciê n cia s socia is se ria m u m a form a a ca d ê m ica d a d om i-n a çã o d a socie d a d e ca p ita lista (i-n ã o d e ixa d e se r irôi-n ico q u e , p oste rior-m e n te , O b e ye se k e re (1992) te n ta rá irior-m p u ta r e ssa rior-m e srior-m a crítica a Sa h lin s). M a s Sa h lin s já n os a visa va q u e re a liza r u m a crítica a o im p e ria lism o d e u m a p e rsp e ctiva in te rior a o ca p ita lism o n ã o m in im iza o p rob le m a , m u ito p e lo con trá rio. Da í a im p ortâ n cia d a a n trop olog ia : m e sm o se e u rocê n trica , e la re ve la m od os d e in corp ora çã o d a re a lid a d e trica p ita lista p or d ife -re n te s siste m a s cosm ológ icos.

Sa h lin s critica va , e n tã o, a p e rsp e ctiva g lob a liza n te d os m a rxista s m od e rn os, u m a crítica q u e , p oste riorm e n te , e le d irig iria a re p re se n ta n te s d e te n d ê n cia s p ós-m od e rn a s (cf. Sa h lin s 1993b :7, 15-16; Sa h lin s 1997). Assim com o os te óricos d o siste m a m u n d ia l, os p ós-m od e rn os n e g a ria m a a u ton om ia cu ltu ra l d e p ovos n a tivos, tom a n d o re a lid a d e s n a tiva s com o fru to “ m a is d a s força s im p e ria lista s d o q u e d a s fon te s in d íg e n a s” (Sa h lin s 1993b :4). A id é ia d o “ d e se n volvi-g e n te ” (“ d e v e lop -m an ” )1n ã o d e ixa d e

p rop or u m a “ e con om ia g lob a l” , m a s m u ito d ife re n te d a “ g lob a liza çã o” , e xa ta m e n te p or in clu ir a p e rsp e ctiva d a s socie d a d e s n ã o ca p ita lista s. M a is d o q u e p re te n d e r con stru ir u m a te oria d a cu ltu ra , Sa h lin s b u sca m ostra r com o q u a lq u e r re fle xã o sob re cu ltu ra d e ve se r in form a d a p e la e tn og ra fia .

Em b ora n ã o u se o te rm o, Sa h lin s n ã o tom a a “ g lob a liza çã o” com o a lg o n ovo. De sd e p e lo m e n os o sé cu lo XV, os con ta tos e n tre o “ ocid e n te e o re sto” (th e W e st an d th e Re st ) m old a ra m ta n to a h istória d os p ovos colon iza d os, com o a d o ca p ita lism o. Este ú ltim o fa to n ã o te m sid o d e vi-d a m e n te e n fa tiza vi-d o p e la s ciê n cia s socia is b ra sile ira s, q u e costu m a m se p a ra r e op or, p or e xe m p lo, a “ h istória d os ín d ios” e a “ h istória d o Bra -sil” . Sa h lin s in d ica q u e , se a h istória d a s n a çõe s m od e rn a s re su lta d e u m a lóg ica m od e rn a (se ja e sta d e fin id a com o ca p ita lista , cristã , ocid e n ta l, in d i-vid u a lista , colon iza d ora e tc.), e sta lóg ica n ã o é a u tôn om a , m a s e m b oa m e d id a se con stru iu e m con ta to com os “ in d íg e n a s” .

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róp ria h istória com o a q u e la d o ca róp ita lism o. J á a a n á lise d a C h in a a róp re se n -ta d a e m 1988, a p ós u m a re sid ê n cia d e oito m e se s e m Pe q u im , p a re ce -m e a in d a m a is com p le ta , ca p ta n d o “ os d ois la d os d a h istória ” — o d o n a tivo e o d os in va sore s e u rop e u s —, b e m com o a m ú tu a con stitu içã o d e su a s id e n tid a d e s.

N ossa le itu ra d a a n á lise d e Sa h lin s se sofistica se tive rm os e m m e n -te q u e d u ra n -te ta n to a colon iza çã o d a Polin é sia com o a d a C h in a , a s tro-ca s m a te ria is im p litro-ca va m , e m b oa m e d id a , u m a trotro-ca d e p e rsp e ctiva s2:

com o ve re m os, a p róp ria p rá xis h a va ia n a , e m m a ior ou m e n or g ra u , a d o-ta va p e rsp e ctiva s e u rop é ia s (e vice -ve rsa ). N o e n ta n to, n o ca so h a va ia n o, Sa h lin s a ca b a p or ob scu re ce r e ste fa to, d e ta l form a q u e só os n a tivos a p a re ce m com o os re sp on sá ve is p e lo q u e lá ocorre u d e sd e o sé cu lo XVIII. De ixe m -m e e la b ora r e ste p on to.

O Havaí e a violência colonial

Pa ra Sa h lin s a fa scin a çã o h a va ia n a p or b e n s e p e ssoa s ocid e n ta is e sta va in scrita n os p a d rõe s cu ltu ra is loca is. Um a lóg ica n a tiva re g e ria a com p e -tiçã o e n tre ch e fe s p a ra e sta b e le ce r re la çõe s com e rcia is com e stra n g e iros. C om o n o ca so ch in ê s, o q u e e u rop e u s e n orte a m e rica n os via m com o re la çõe s com e rcia is e ra con ce b id o p e los h a va ia n os com o a lia n ça s, sim u lta n e a m e n te p olítica s, e con ôm ica s e re lig iosa s. Sa h lin s d e scre ve b e m a com -p e tiçã o in tra -h a va ia n a , m a s se a b sté m d a a n á lise d a com -p e tiçã o e n tre in g le se s e a m e rica n os p a ra e sta b e le ce r re la çõe s com h a va ia n os. Privile g ia , a ssim , u m a com p e tiçã o q u e se e sta b e le ce a p a rtir d a d á d iva , ob scu -re ce n d o a q u e la q u e se org a n iza p e la lóg ica m e rca n til, e n t-re colon iza d o-re s. Se , p or u m la d o, Sa h lin s m ostra q u e os h a va ia n os sã o “ a g e n te s d e su a p róp ria h istória ” , p or ou tro, e le p a re ce om itir o fa to d e q u e e le s n ã o sã o os ú n icos. O u p or ou tra , Sa h lin s om ite o fa to d a d om in a çã o ocid e n ta l. O d e sa fio, a m e u ve r já p e rce b id o p or Lé vi-Stra u ss (1952), é ju sta m e n te con sid e ra r a sob re p osiçã o d e sta à org a n iza çã o n a tiva d a p rá xis.

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-tos sa crifícios d e a d ve rsá rios re a is” (Sa h lin s 1988a :82). Sa h lin s n ã o a ve n ta a h ip óte se d e os ch e fe s n a tivos e sta re m ta m b é m in corp ora n d o a violê n cia ocid e n ta l, in clu sive n ã o se a te n d o a o fa to, p or e le m e n cion a d o, d o g ra n d e in te re sse d os ch e fe s p or a rm a s p rod u zid a s in d u stria lm e n te .

Ao con trá rio d e O b e ye se k e re (1992), p orta n to, n ã o n e g o a d e m on s-tra çã o d e Sa h lin s d e q u e a m orte d o d e scob rid or in g lê s C ook te n h a sid o u m “ d e icíd io” n e m , d e m od o m a is g e ra l, su a a n á lise sob re o lu g a r d a vio-lê n cia n a cosm olog ia h a va ia n a . Sa h lin s m ostra q u e os e u rop e u s fora m a ssocia d os a os p od e re s ce le stia is, d e a cord o com a s re g ra s d a tra d içã o h a va ia n a , e q u e , d o p on to d e vista n a tivo, se a lia r a os e u rop e u s sig n ifica -va p re stíg io p a ra os loca is, e sp e cia lm e n te se u s ch e fe s. A ri-va lid a d e e n tre ch e fe s h a va ia n os p e la ca p a cid a d e d e re p re se n ta r p od e re s e xte rn os se ria a n te rior a o con ta to colon ia l e fon te d e p od e r, ta n to p olítico com o re lig io-so. A form a m a is p e rfe ita d e sse p od e r se ria e xp re ssa p e los b e n s tra zid os p e los m e rca d ore s, in g le se s a p rin cíp io. Por isso, “ o H a va í su cu m b iu ra p i-d a m e n te à s p re ssõe s i-d o ca p ita lism o [...] te rm in a n i-d o se m sa b e r q u e cu ltura e ltura ” (Sa h lin s 1988a :52). A a n á lise p a re ce m e p e rfe ita , m a s in com p le -ta ; tu d o se p a ssa com o se o H a va í se im p u se sse o se g u in te d ile m a : m a -ta r J a m e s C ook ad in fin itu m ou “ su cu m b ir” .

A p osiçã o d e Sa h lin s é a ssim e xce ssiva m e n te op osta à d os m a rxista s q u e critica , a p on to d e te rm in a r in clu sive , d e m od o im p lícito, n o ca so h a va ia n o, e xim in d o os Esta d os Un id os — q u e foi q u e m , a p ós a p rim e ira p re se n ça in g le sa , re a lm e n te colon izou o H a va í — d e tod a re sp on sa b ilid a ilid e p or e ste “ su cu m b ir” . An a lisa n ilid o o “ com é rcio p a cífico” , p or e xe m -p lo, Sa h lin s n ã o e scla re ce q u e n e m tod os os h a va ia n os corte ja va m ig u a l-m e n te a s p otê n cia s e stra n g e ira s e q u e , sil-m u lta n e a l-m e n te , p otê n cia s e stra n g e ira s corte ja ra m a s h a va ia n a s, im p on d o-se com m a is ou m e n os força e m ca d a ca so. N e sse se n tid o, va le ria a p e n a d ife re n cia rm os, d o p on to d e vista h a va ia n o, in g le se s e a me rica n os, re i G e org e e G e org e Wa sh in g ton, fig u ra s, com o Sa h lin s in d ica , lite ra lm e n te in corp ora d a s p e los n a tivos, q u e a d ota va m se u s n om e s.

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se m tra ta r os ú ltim os a n os d o sé cu lo XVIII, e xa ta m e n te o p e ríod o e m q u e a ca n a -d e -a çú ca r foi in trod u zid a . Sa h lin s e vita a ssim re fle tir sob re m ovi-m e n tos d e re sistê n cia e op osiçã o a os n orte -a ovi-m e rica n os q u e e n tã o ocor-re ra m . As a n á lise s d a p e n ú ltim a d é ca d a d o sé cu lo XVIII h a va ia n o (Sa h lin s 1 9 8 1 ; 1 9 8 5 ; 1 9 8 8 a ) m o s t r a m q u e o s c h e fe s p a s s a r a m a fo r ç a r o p o v o “ com u m ” a tra b a lh a r e m u m a in te n sid a d e n u n ca vista , p a ra p od e re m con su m ir p rod u tos ocid e n ta is. En tre ta n to, a lé m d e se re strin g ire m a u m p e ríod o h istórico e xtre m a m e n te cu rto, a s a n á lise s d e ssa e xp lora çã o e xclu e m q u a lq u e r p a rticip a çã o colon iza d ora .

A h ip óte se im p lícita é a d e q u e a e stru tu ra d e sob re tra b a lh o se fu n d a ria u n ica m e n te e m b a se s tra d icion a is, m a s Sa h lin s n ã o e xp licita a re la -çã o, sin crôn ica e d ia crôn ica , e n tre sob re tra b a lh o e o q u e d e n om in a “ ca tá strofe cu ltu ra l” . Pa ra ta n to, d e ve ría m os e n te n d e r com o os a m e rica -n os im p u se ra m , m a is d e u m a ve z, u m a C o-n stitu içã o a o H a va í, -n e la lim i-ta n d o os p od e re s d os ch e fe s trib a is — o q u e , d ig a -se d e p a ssa g e m , n ã o se ria irre le va n te p a ra p e n sa rm os a fe itu ra d e le is n o Bra sil (cf. G a sp a ri 2000). N ã o foi a ssim q u e os ocid e n ta is, sim p le s e in a d ve rtid a m e n te , a m p lia ra m os p od e re s d os ch e fe s loca is — e vice -ve rsa . Sa h lin s d e m on s-tra a com p le m e n ta rid a d e (n o se n tid o d u m on tia n o, d a e xistê n cia d e u m a re la çã o e m q u e ocorra m sim u lta n e a m e n te op osiçã o e e n g lob a m e n to) e n tre e sse s p od e re s, m a s isto n ã o e xclu i te r h a vid o ta m b é m con tra rie d a -d e (n o se n ti-d o -d ia lé tico, m a rxista ).

O u tro e xe m p lo d o p roce d im e n to q u e critico é o re tra to d a u n ifica çã o d o re in o h a va ia n o p or Ka m e h a m e h a , n a se g u n d a m e ta d e d o sé cu lo XVIII, e sb oça d o e m Ilh as d e H istória (1985). Se m n e g a r os in e q u ívocos m é ritos d e ssa a n á lise , im p orta sa lie n ta r q u e e la om ite o fa to d e q u e a m on a rq u ia fu n d a d a p or Ka m e h a m e h a te ve vid a cu rta , te n d o sid o n e ce ssá ria a p re -se n ça d e u m n a vio d e g u e rra d a M a rin h a a m e rica n a p a ra q u e e la fos-se a b olid a . Esta m e sm a M a rin h a g a ra n tiu , e m 1893, u m a cord o com e rcia l va n ta joso e o u so d a fa m osa Pe a rl H a rb or. Pod e ría m os ve r con tin u id a d e e n tre com p orta m e n tos n orte -a m e rica n os n o fin a l d o sé cu lo XVIII e e sse s fa tos h istóricos p oste riore s, m a s o silê n cio d e Sa h lin s sob re a p re se n ça n orte -a m e rica n a p a re ce sig n ifica tivo. Afin a l, os a m e rica n os b u sca ra m , n o H a va í, o m e sm o q u e os in g le se s, re p re se n ta d os p or Lord M a ca rtn e y, te ria m , se g u n d o Sa h lin s, b u sca d o n a C h in a , n o m e sm o p e ríod o: tra ta d os com e rcia is. C om a d ife re n ça , d e ixa d a im p lícita p e lo a u tor, d e q u e os n or-te -a m e rica n os n ã o p rom ove ra m n o H a va í u m a G u e rra d o Ó p io.

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e le s n ã o e ra m a p e n a s d e u se s. Fa lta , p ois, u m a sp e cto q u e p e d e com p le m e n ta çã o: fa ze r u m a “ h istória d os con ta tos in te rcu ltu ra is” im p lica a te n -ta rm os p a ra u m a m u ltip licid a d e ou , a o m e n os, p a ra u m a d u a lid a d e d e p e rsp e ctiva s. Sa h lin s critica os q u e p rivile g ia m a p e rsp e ctiva ocid e n ta l, m a s p rivile g ia a “ n a tiva ” .

N e sse se n tid o, le m b ro q u e o ca p itã o C ook é , h á m a is d e u m sé cu lo, con h e cid o loca lm e n te com o “ Crook ” (ca n a lh a ), o q u e p od e ria vir a ca ra cte riza r ou tra con tin u id a d e e stru tu ra l, sim é trica e in ve rsa à q u e la s d e sve n -d a -d a s p or Sa h lin s. H á u m a h istória -d e sse a p e li-d o e p or trá s -d e la u m a con-tin u id a d e e stru tu ra l e vita d a p e lo a u tor. C ook p od e te r sid o tom a d o com o d e u s e com o u m “ ca n a lh a ” , d e m od o sim u ltâ n e o ou su ce ssivo. N ã o h á n e ce ssa ria m e n te con tra d içã o e n tre e ste s fa tos. Am b os e xe m p lifica m u m a d a s te se s fu n d a m e n ta is d e Sa h lin s, a d e q u e a “ ob je tivid a d e é con stru íd a p or u m a va lora çã o sim b ólica e se le tiva , h istorica m e n te re la tiva , d e a p e -n a s a lg u -n s d os re fe re -n te s co-n cre tos” (1993b :25). Su a d e m o-n stra çã o d e q u e h ou ve , d o p on to d e vista h a va ia n o, u m a va lora çã o p ositiva d o ou tro (e u rop e u ou n orte -a m e rica n o) n ã o e xclu i a p ossib ilid a d e d e te r h a vid o ta m b é m va lora çõe s n e g a tiva s.

O ra , d u ra n te tod o o sé cu lo XIX h a va ia n o, h ou ve re is a d e sista s. C e rta -m e n te , d e te m in a d a s e stru tu ra s d e p od e r, b e -m d e scrita s p or Sa h lin s, p e r-m itira r-m a “ e n tre g a ” d o H a va í a os se u s in va sore s d e a lé r-m -r-m a r. M a s h ouve ta m b é m , n o H a va í, m on a rca s a n tia m e rica n os. N ã o m e p a re ce e rrôn e o, in clu sive , su g e rir a p re se n ça , a li, d e ciclos se m e lh a n te s a os q u e ca ra cte ri-za m a lon g u e d u ré e ch in e sa , u m “ a b rir e fe ch a r” d a e stru tu ra (cf. Sa h lin s 1988b :24-27; Sp e n ce 1996).

Em u m te xto p oste rior, Sa h lin s (1993b :14) re con h e ce q u e a d e m a n d a h a va ia n a p or b e n s e u rop e u s foi “ m a is se le tiva d o q u e e clé tica ” , con -tra sta n d o-a m e n os com a d os ch in e se s d o q u e n o a rtig o d e 1988. Esta re visã o é im p orta n te p or m in im iza r a te se — im p lícita n os se u s e stu d os h a va ia n os p ré -1988, e xp lícita e m “ C osm olog ia s d o C a p ita lism o” — d e u m “ su icíd io cu ltu ra l” h a va ia n o. É n otá ve l q u e e ssa re visã o ocorra a p ós a s crítica s d e O b e ye se k e re , q u e , a p e sa r d e se u s m u itos p rob le m a s (cf. Sa h lin s 1995), ta lve z te n h a o m é rito d e su g e rir a Sa h lin s u m a op ortu n a corre çã o d e cu rso.

En tre ta n to, a te se re sp on sa b iliza n d o ce rto “ e cle tism o” h a va ia n o p e la su a d e ca d ê n cia re ssu rg e n a m e sm a p á g in a d e “ G ood b ye to Triste s Tro-p e s” , com se n so d e h u m or (e , d e m e u Tro-p on to d e vista , m a u g osto):

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i-ta lism o se e fe tu a , com re la tiva m e n te p ou co e sforço, violê n cia ou a m e a ça .

Doe n ça e d e stru içã o m u ito fre q ü e n te m e n te se se g u ira m , m a s e ste s n ã o fora m os m e ios d e a ce sso [d os e u rop e u s] a os d e se jos d o p ovo loca l ou à e xp lora çã o d e se u s e sforços com e rcia is” (Sa h lin s 1993b :14).

Esta “ fá cil p e n e tra çã o” n os e xim iria e n tã o d e in ve stig a r a violê n cia n orte -a m e rica n a3?

Sa h lin s con trib u i d e cisiva m e n te p a ra a s ciê n cia s socia is a o m ostra r q u e os e fe itos d a s força s m a te ria is g lob a is d e p e n d e m d os d ive rsos m od os com o sã o m e d ia d os e m “ e sq u e m a s cu ltu ra is loca is” e q u e “ a p re se n te ord e m g lob a l foi d e cisiva m e n te m old a d a p e los p ovos p e rifé ricos” (Sa h -lin s 1988a :53). M a s d isso n ã o d e corre n e ce ssa ria m e n te u m “ e n riq u e ci-m e n to” [cu ltu ra l] d os n a tivos (Sa h lin s 1988a :55), coci-m o su g e re a ê n fa se n a n oçã o d e “ d e v e lop -m an ” (Sa h lin s 1988a ; 1993b , e n tre ou tros). Ap e n a s e m rá p id a s p a ssa g e n s Sa h lin s re con h e ce q u e h ou ve ta m b é m p e rd a , ou q u e o “ e n riq u e cim e n to” in icia l d o siste m a h a va ia n o le vou a u m p oste rior a u m e n to d a e xp lora çã o d os “ com u n s” p e los ch e fe s. O ra , se a lg u m g ru p o in d íg e n a p a ssou a tra b a lh a r m e n os, com a su b stitu içã o d o m a ch a d o d e p e d ra p e lo d e m e ta l, p or e xe m p lo, com o le m b ra o p róp rio Sa h lin s (1972), isto n ã o e xclu i q u e , d e u m a p e rsp e ctiva m a croh istórica , os p ovos in d íg e -n a s p a ssa ra m a tra b a lh a r ca d a ve z m a is, com o su g e re Lé vi-Stra u ss (1952): a s d u a s g ra n d e s re volu çõe s d a h u m a n id a d e , a n e olítica e a in d u stria l, im p lica ra m u m a u m e n to a b solu to d a e xp lora çã o e n tre os h om e n s, e ta l-ve z se ja e sta a su a ca p a cid a d e p a ra “ fa ze r se n tid o” , a m e n sa g e m u n il-ve r-sa liza n te d e q u e fa la va Lé vi-Stra u ss (1952), se m , con tu d o, id e n tifica r q u a l se ria e la (a fin a l, ta m b é m h á os b lu e je an s, os h a m b ú rg u e re s, a s e le içõe s, o con sta n te m e n te e n d e u sa d o m e rca d o e u m a in fin id a d e d e ou tra s m e n -sa g e n s u n ive r-sa lista s).

O paradoxo do ópio

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-ta is. Esb oça -se , a ssim , o q u a d ro d a G u e rra d o Ó p io a p a rtir d a con ju n çã o d e d ife re n te s lóg ica s cu ltu ra is.

An a lisa n d o a e xp e d içã o d o e m b a ixa d or b ritâ n ico Lord M a ca rtn e y à C h in a , e m 1793, Sa h lin s (1988a :57) fa la e m “ a le rg ia ch in e sa ” à s m e rca -d oria s e u rop é ia s. Essa e stru tu ra çã o -d a -d e m a n -d a se e xp lica p or va riá ve is cu ltu ra is, n ã o (a p e n a s) e con ôm ica s. A d e m a n d a ch in e sa e ra m u ito e sp e -cífica : u m e xe m p la r d e ca d a coisa ja m a is p rod u zid a p e la h u m a n id a d e e u m e xe m p la r d e ca d a a n im a l e ve g e ta l d o p la n e ta . N ã o e ra , a ssim , u m a re cu sa a b solu ta , m a s h a via m e d id a e se le tivid a d e n o d e se jo ch in ê s.

A e xp e d içã o visa va n ovos m e rca d os p a ra p rod u tos m a n u fa tu ra d os b ritâ n icos. O s ob je tos le va d os tin h a m o se n tid o d e e xib ir a e n g e n h osid a -d e in g le sa , m a s fora m con si-d e ra -d os trib u tos p e los ch in e se s, p re sta çõe s fe ita s h a b itu a lm e n te p e los p ovos q u e visita va m o im p e ra d or e m m issõe s d e p a z. Trib u tos ou p re se n te s, tra ta -se , a fin a l, d e d ois se n tid os d a d á d iva , m a is p róxim os e n tre si d o q u e a p a re n te m e n te se p e n sa (cf. La n n a 1995). Pa ra os ch in e se s, a s a m ostra s d os b e n s in d u stria liza d os sig n ifica ria m o re con h e cim e n to, p e los b ritâ n icos, d e su a in fe riorid a d e ; os in g le se s fora m , e n tã o, tid os com o m a is u m p ovo va ssa lo, e n tre ou tros trib u tá rios d o im p e -ra d or.

Este foi u m e xe m p la r “ m a le n te n d id o cu ltu ra l” : d e u m la d o, “ p od e -re s clá ssicos d a h ie ra rq u ia ” d e fin in d o-se p or p -re sta çõe s m a u ssia n a s (tri-b u tos, p re se n te s, con ce ssõe s, p rivilé g ios), d e ou tro, re la çõe s e xte riore s b a se a d a s n o “ livre -com é rcio” e e m u m a cla ra ra zã o p rá tica : ob te r ch á a o m e n or cu sto. Dé ca d a s a n te s, o ch á torn a ra se , n a G rã Bre ta n h a , “ n e -ce ssid a d e vita l in d isp e n sá ve l” . Troca va m -n o com a C h in a p or p ra ta , q u e lá se a cu m u la va e m q u a n tid a d e : n a q u e le m om e n to, a n te rior à G u e rra d o Ó p io, n ã o só o ca p ita lism o se su b m e tia a o siste m a ch in ê s, m a s “ o sis-te m a ca p ita lista m u n d ia l e ra org a n iza d o e m sis-te rm os a siá ticos” (Sa h lin s 1988a :64). C om a G u e rra d o Ó p io, os in g le se s b u sca m in ve rte r os te rm os d e su a b a la n ça com e rcia l com a C h in a : ob te r ch á se m ofe re ce r p ra ta .

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-çã o, a p e n a s su b m issã o” (Sa h lin s 1988a :64-65). A ca d a n ova d in a stia m u d a va m a s e sca la s m u sica is e o siste m a d e m e d id a — b a se a d os, re s-p e ctiva m e n te , n a voz e n o cors-p o d o n ovo im s-p e ra d or. Su a s d á d iva s e ra m “ d on s d e te m p o” (Sa h lin s 1988a :66), d e e sp a ço, d e vid a e n fim , n ã o p od e n d o se r ig u a la d a s a os trib u tos q u e re ce b ia e m troca . O s e stra n g e iros se ria m e n g lob a d os p e los títu los d e n ob re za e d ire itos d e com é rcio q u e o im p e ra d or p od e ria vir a d a r.

As troca s e xp re ssa va m e con stru ía m a ssim a con ce p çã o ch in e sa d e se u p róp rio p od e r p a ra civiliza r p ovos b á rb a ros: os trib u tos q u e re ce b ia m , se m p re n a form a d e p ra ta , e ra m re trib u íd os p or d á d iva s civiliza d ora s, com o o ch á . É n e sse se n tid o q u e a lóg ica ch in e sa e ra in clu siva , h ie rá rq u i-ca . Fa ze n d o b e n e fícios a os b á rb a ros — n o i-ca so, in g le se s —, os ch in e se s os tra zia m à civiliza çã o, se m q u e e ste s p re cisa sse m a b a n d on a r se u s h á b itos. J á p a ra os in g le se s, su a su p e riorid a d e se ria in trín se ca a os se u s b e n s. Lâ m i-n a s q u e corta m fe rro, ca rru a g e i-n s, b a lõe s d e a r q u e i-n te d e i-n ota ria m q u e “ o p a ís q u e os p rod u ziu se ria h a b ita d o p or u m p ovo a tivo, livre e rico p a ra g oza r os fru tos d e se u tra b a lh o, te n d o u m g ove rn o forte e b oa s le is, e n con -tra n d o-se n u m a lto e stá g io d e civiliza çã o” (Sa h lin s 1988a :70-71).

C om o fe z n o ca so h a va ia n o, p orta n to, Sa h lin s m ostra q u e a e xp a n -sã o d o ca p ita lism o n ã o im p lica a p e n a s a in sta la çã o d e re la çõe s d e m e r-ca d o, p ois a lóg ir-ca r-ca p ita lista é su b m e tid a a “ b e n s, m e ios d e con trole d o tra b a lh o e con ce itos d e statu s loca is” (Sa h lin s 1988a :59). Este s a p a re ce -ria m , d o p on to d e vista ca p ita lista , com o “ lu cra tivos” ou n ã o. O ch á d a C h in a se ria , p a ra os in g le se s, u m “ b e m ” lu cra tivo, m a s o p od e r d o im p e -ra d or n ã o se ria u m “ con ce ito d e statu s” lu cra tivo. Im a g in o q u e o p od e r d os m a ra já s in d ia n os, n ã o a n a lisa d o p or Sa h lin s, se ria ou tro “ con ce ito d e statu s lu cra tivo” . Assim , o ca p ita lism o ora re n ova e stru tu ra s loca is (a tra -vé s d e a lia n ça s, ca so d os in g le se s n a Ín d ia ), ora b u sca d e stru í-la s (a in d a q u e se m su ce sso, ca so d os in g le se s n a C h in a ), ora re n ova -a s e p oste rior-m e n te a s d e strói (n o H a va í).

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fi-n iu com o u m a ca p a cid a d e p a ra o “ e fi-n g lob a m e fi-n to”4. Em tod o ca so, a h ie

-ra rq u ia ch in e sa sou b e re n ova r-se n o con ta to com os in g le se s, se m q u e se u re con h e cim e n to d o “ ou tro” sig n ifica sse su a p oste rior d e stru içã o. Pa ra e xp lica r e ste fa to, te ría m os q u e re coloca r te se s d iscu tid a s e m Raça e H is-tória, com o a d o n ú m e ro — n o ca so d os ch in e se s, n a ca sa d os b ilh õe s — e a d o isola m e n to, a in d a q u e re la tivo e te m p orá rio (ou cíclico).

Chá e out ros bens bons para pensar

Se critico Sa h lin s, é p orq u e viso e xp lora r su a s p róp ria s con sid e ra çõe s sob re o ca p ita lism o e n q u a n to ord e m cu ltu ra l, p re se n te s e m su a ob ra d e s-d e p e lo m e n os Cu ltu ra e Raz ão Prática. O fu lcro d a crítica é q u e Sa h lin s d e ixa d e la d o a q u e stã o d a violê n cia ocid e n ta l e , d e u m m od o m a is g e ra l, o te m a d a p rod u çã o d e e n e rg ia e se u con trole . O ra , é Le slie Wh ite , orie n-ta d or d e Sa h lin s, q u e in sp ira Lé vi-Stra u ss (1952) a ve r n e ssa p rod u çã o d e e n e rg ia (se ja p a ra p rolon g a r a vid a , se ja p a ra g e ra r a m orte ) ca ra cte rísti-ca d istin tiva d a civiliza çã o ocid e n ta l.

Sa h lin s n ota q u e “ a b u rg u e sia d e le itou -se e m a cre d ita r q u e o u n i-ve rso cu ltu ra l é re d u tíi-ve l a u m d iscu rso d e p re ço” e , a o m e sm o te m p o, te ria con se g u id o im p or “ u m m e io p e cu n iá rio com u m ” p a ra n e g ocia r lu -cra tiva m e n te “ n u m m e rca d o g lob a l d e fra g ilid a d e s [frailtie s — ‘va i-d a i-d e s’ ou ‘fu tilid a d e s’ —, n o orig in a l] h u m a n a s” (Sa h lin s 1988a :58). C on -clu i q u e “ é cla ro q u e a ca p a cid a d e d e re d u zir p rop rie d a d e s socia is a va lo-re s d e m e rca d o é e xa ta m e n te o q u e p e rm ite a o ca p ita lism o d om in a r [u m ]a ord e m cu ltu ra l [e sp e cífica ]” . Lé vi-Stra u ss (1952) le m b ra va se r a violê n cia a con d içã o d a im p osiçã o d e sse s “ va lore s d e m e rca d o” . A crítica a Sa h lin s q u e ofe re ci a q u i se fu n d a n o fa to d e q u e é ju sta m e n te e sta con d içã o q u e n ã o é p or e le e vid e n cia d a .

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ca p ita lism o, sim u lta n e a m e n te , e xclu i e p re ssu p õe a d á d iva , m a s se m p re com o a lg o q u e lh e é e xte rior, d e la a lim e n ta n d ose e m a lg u m a s in stâ n -cia s, e m ou tra s a d e stru in d o.

Isto p osto, a o con clu ir e ste e n sa io, d e ixa re i d e la d o a s crítica s a q u i a p re se n ta d a s p a ra m e con ce n tra r n a s p ossib ilid a d e s a b e rta s p or Sa h lin s p a ra e xp a n d ir su a s p róp ria s a n á lise s, d os “ siste m a s d e m u n d o” ca ra cte riza d os p e la d á d iva e p e la a lia n ça , p a ra a q u e le s q u e , a o con trá rio, re d u -ze m “ va lore s socia is a o p re ço” . N a se çã o fin a l d e “ C osm olog ia s d o C a p i-ta lism o” , in titu la d a “ C h á e ou tros b e n s b on s p a ra p e n sa r”5, e le re tom a

con sid e ra çõe s sob re o ca p ita lism o e n q u a n to ord e m cu ltu ra l, a o su g e rir à su a p la té ia in g le sa q u e o ch á te ria p a ra e la a lg o d e d ivin o, ta l se u fa scí-n io e o rig or d a p rá tica b ritâ scí-n ica d e se u s ritu a is. Por ou tro la d o, o ch á scí-n o Re in o Un id o te ria , h á sé cu los, ta m b é m u m a “ fu n çã o p rá tica ” : torn a r a cla sse tra b a lh a d ora d ócil e sób ria . Sa h lin s b u sca ir a lé m d e sta fu n çã o p rá -tica e e n te n d e r o lu g a r d o ch á n o “ e sq u e m a n a tivo” d e org a n iza çã o d o m u n d o, re ve la n d o n oçõe s “ p róp ria s a o O cid e n te sob re a p e ssoa com o cria tu ra im p e rfe ita com n e ce ssid a d e s e d e se jos” (Sa h lin s 1988a :101-102), q u e orie n ta su a vid a e vita n d o a d or, p e la b u sca d o p ra ze r.

O a u tor tra ça u m p a ra le lo e n tre d isse m in a çã o d a visã o trá g ica d a n a tu re za h u m a n a com o u m cre d o filosófico e a d ifu sã o d e “ a lim e n tos-d rog a ” (ch á , ca fé , a çú ca r, ch ocola te , ta b a co) e n tre a s cla sse s p op u la re s e u rop é ia s, a m b a s se d a n d o n a p a ssa g e m d o sé cu lo XVIII a o XIX, n a m e s-m a é p oca e s-m q u e tra n scorria s-m os fa tos h a va ia n os, ch in e se s e k w a k iu tl q u e o a rtig o d e scre ve . C om o a re lig iã o, e ssa s d rog a s “ torn a ria m su p ortá ve l a e xistê n cia ” e m u m m om e n to e m q u e “ a s p e ssoa s e sta va m con d e n a -d a s à m isé ria con tín u a ” (Sa h lin s 1988a :102). Ele a rg u m e n ta q u e o h om e m ocid e n ta l e stá con d e n a d o a u m a vid a d e sofrim e n to n ã o só p or se r m orta l, m a s p or e sorta r sozin h o e m u m m u n d o n a tu ra l (o q u e n ova m e n te le m -b ra Lé vi-Stra u ss 1976; n oto q u e e ste te m a é re tom a d o e m Sa h lin s 1996).

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De u s. Eu su g e riria q u e , m a is im p orta n te q u e De u s ta lve z fosse m n oçõe s d e com p le m e n ta rid a d e e h ie ra rq u ia . É su a p rog re ssiva re p re ssã o q u e Sa h lin s m ostra ocorre r a p a rtir d e Sa n to Ag ostin h o, u m m ovim e n to q u e Du m on t d e n om in a “ g ê n e se d o in d ivid u a lism o m od e rn o” . Pa ra Sa n to Ag ostin h o, com o p a ra H ob b e s, “ a p e n a s o Esta d o, a le i e a m ora l m a n ti-ve ra m e sta socie d a d e d e h om e n s a u toce n tra d os a sa lvo d a d issolu çã o n u m a g u e rra d e tod os con tra tod os” (ap u d Sa h lin s 1988a :103). N o sé cu lo XVII, os va lore s a g ostin ia n os e sta va m e m via d e se re m su p e ra d os (tra n s-form a d os, m a s n ã o n e g a d os); com Lock e , “ o la d o te rre n o d o h om e m , com se u sé q ü ito d e m isé ria s” , torn a -se “ u m a virtu d e m ora l” , se n d o “ o sofri-m e n to h u sofri-m a n o u sofri-m d osofri-m b e n é fico e n q u a n to in ce n tivo p a ra a in d ú stria ” (Sa h lin s 1988a :103).

Poste riorm e n te , com Ad a m Sm ith , “ a p e rm a n e n te m isé ria d e ca d a u m — isto é , a e sca sse z e a n e ce ssid a d e — se torn a a p re m issa d a sa b e -d oria e con ôm ica e fon te -d e b e m -e sta r n a cion a l. O q u e p a ra Ag ostin h o e ra u m a e scra vid ã o, a se rvid ã o h u m a n a a os d e se jos d o corp o, n a visã o b u rg u e sa e ra a “ lib e rd a d e h u m a n a e sse n cia l” (Sa h lin s 1988a :104). Su rg e u m a n ova ra cion a lid a d e , critica d a p or Sa h lin s: “ a lg u é m q u e d e fin e a vid a com o a b u sca d e fe licid a d e só p od e se r u m in fe liz crôn ico” . O sig n ifica d o d os b e n s in d u stria liza d os d e riva ria d a n oçã o b u rg u e sa d e fe licid a d e ; a e con om ia ocid e n ta l d e fin e -se e m b oa m e d id a p or e sta p sicolog ia .

Em Cu ltu ra e Raz ão Prática, d e 1976, Sa h lin s a ssocia a ra zã o p rá tica a o u tilita rism o e ca ra cte riza -a com o ve rd a d e iro p a ra d ig m a , re d u tor d a s ciê n cia s h u m a n a s à in stru m e n ta lid a d e d a s re la çõe s e n tre m e ios (su p osta m e n te ) e sca ssos e fin s (su p osta m e n te ) in fin itos. Em 1988, q u a n d o a ssu m e , p or e xe m p lo, h a ve r u m a “ fu n çã o p rá tica d o ch á ” n a In g la te rra , Sa h -lin s p re ocu p a -se m a is e m e n te n d e r a ra zã o p rá tica com o fa to e tn og rá fico d o q u e e m su p e rá -la e n q u a n to p a ra d ig m a cie n tífico. Pa ra e xp lica r o ch á , e su a fu n çã o p rá tica d e “ a d oça r u m a vid a a m a rg a ” , Sa h lin s va i a lé m d a crítica q u e ofe re ce u e m 1976, p rop on d o u m a ve rd a d e ira a rq u e olog ia d a ra zã o p rá tica , u m a a n trop olog ia (“ d o ch á ” , se g u n d o o a rtig o) q u e , a p e sa r d a s im p orta n te s con trib u içõe s p or e le fe ita s n a d é ca d a d e 90, a in d a a g u a rd a fu tu ros d e se n volvim e n tos.

Re ce b id o e m 26 d e d e ze m b ro d e 1999

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M a rcos La n n a é d ou tor p e lo De p a rta m e n to d e An trop olog ia d a Un ive rsid a -d e -d e C h ica g o, p rofe ssor-a -d ju n to -d o De p a rta m e n to -d e An trop olog ia -d a Un iv e r s id a d e F e d e r a l d o P a r a n á (U F P R) e c o o r d e n a d o r d o P r o g r a m a d e P ó s -G ra d u a çã o e m An trop olog ia Socia l/ UFPR. É a u tor d e A Dív id a Div in a: Troca e Patron ag e m n o N ord e ste Brasile iro (1995) e d e d ive rsos a rtig os e re se n h a s

e m re vista s e sp e cia liza d a s.

Notas

1 Sa h lin s sa lie n ta a a ssocia çã o in con scie n te q u e fa z ce rto p id g in m e la n é sio e n tre “ g e n te ” ou “ h om e n s” (m e n ) e “ d e se n volvim e n to” (d e v e lop m e n t), a u se n te d a n oçã o ocid e n ta l d e “ d e se n volvim e n to” .

2 Sob re a re la çã o e n tre troca d e d á d iva s e “ p e rsp e ctivism o” (a m e rín d io, co-m o d e p a rte s d o Pa cífico Su l), cf. Vive iros d e C a stro (1999).

3 Distin g u in d o Sa h lin s d e Lé vi-Stra u ss, le m b ro q u e a violê n cia colon iza d o-ra , a to-ra vé s d os sé cu los, e m d ife re n te s re g iõe s d o p la n e ta , fa z o p a n o d e fu n d o d e

Raça e H istória (cf. La n n a 1999).

4 Sa h lin s e vita d e lib e ra d a m e n te n oçõe s d u m on tia n a s, com o a d e “ e n g lob a -m e n to” , ou a in d a , e -m Ilh as d e H istória, u m a a n á lise d o “ re i e stra n g e iro” a p a rtir

d a n oçã o d e h ie ra rq u ia . Em a p e n a s u m m om e n to d e “ C osm olog ia s d o C a p ita lis-m o” , Sa h lin s (1988a :65) re fe re -se a os “ p od e re s clá ssicos d a h ie ra rq u ia ” , n e le s re s-sa lta n d o su a ca p a cid a d e “ in clu siva ” . A m e u ve r, a n oçã o d e in corp ora çã o cu ltu ra l d e Sa h lin s d ife re d a d e h ie ra rq u ia p or se r m e n os sociológ ica ; e n tre ta n to, a m b a s im p lica ria m n ã o e n riq u e cim e n to m ú tu o, m a s ce rta d e stru içã o cria tiva .

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Resumo

Este e n sa io d e m on stra a p osiçã o ce n tra l q u e o a rtig o “ C osm olog ia s d o C a p ita lism o” ocu p a n a ob ra d e M a rsh a ll Sa h -lin s. Sim u lta n e a m e n te , le va n ta crítica s a a lg u m a s p rop osiçõe s d e Sa h lin s, a s -su m in d o u m a p e rsp e ctiva in te rn a à -su a ob ra . Esta p e rsp e ctiva p rivile g ia o fa to d e q u e o “ se tor tra n sp a cífico d o siste m a m u n d ia l” é d e fa to com p osto p or u m siste m a d e troca s, m a s q u e e sta s troca s fa ze m m u ito m a is d o q u e a p e n a s in te rlig a r fu n cion a lm e n te d ife re n te s socie -d a -d e s. O p re se n te te xto ra -d ica liza e ste a rg u m e n to, te n ta n d o m ostra r q u e u m a a n trop olog ia d a s troca s p od e fu n d a -m e n ta r u -m e stu d o d a h istória d e q u a is-q u e r socie d a d e s in d íg e n a s e d e se u s con ta tos com re a lid a d e s ca p ita lista s. Palavras-chave M a rsh a ll Sa h lin s; C olo-n ia lism o; C a p ita lism o; Troca

Abst ract

Th is p a p e r re ve a ls th e ce n tra l p osition th a t th e a rticle “ C osm olog ie s of C a p i-ta lism ” occu p ie s in th e w ork of M a rsh a ll Sa h lin s. At th e sa m e tim e , it su g g e sts criticism s of som e of Sa h lin ’s p rop osi-tion s, b u t d oe s so b y a ssu m in g a p os-tu re in te rn a l to th e a u th or’s w ork . Th is p e rsp e ctive stre sse s th e fa ct th e “ tra n s-Pa cific se ctor of th e w orld syste m ” is, in d e e d , com p ose d of a syste m of e x-ch a n g e s, b u t th a t th e se e xx-ch a n g e s se rve to d o m u ch m ore th a n to in te r-con n e ct fu n ction a lly d iffe re n t socie tie s. Th e p re se n t p a p e r ra d ica lise s th is a rg u -m e n t a n d trie s to sh ow h ow a n a n th ro-p olog y of e xch a n g e ca n b e th e b a sis for th e stu d y of th e h istory of a n y In d ig e -n ou s socie ty a -n d of its co-n ta cts w ith ca p ita list re a litie s.

Referências

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