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Mana vol.7 número1

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Academic year: 2018

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(1)

Este a rtig o se a sse m e lh a a u m d a q u e le s rios q u e os g e óg ra fos, p a re ce -m e , d e n o-m in a -m “ d e n d ríticos” . Sã o rios q u e corre -m p a ra o in te rior d a s m a ssa s d e te rra , on d e se p e rd e m n os p â n ta n os. Esp e ro, n o e n ta n to, q u e e xista m p on tos d e in te re sse a o lon g o d e se u cu rso, e q u e a o m e n os su a n a sce n te , se n ã o su a d e stin a çã o, e ste ja b e m d e fin id a . Tom a n d o o a rtig o d e Ph ilip p e De scola (1992), “ Socie tie s of N a tu re a n d th e N a tu re of Socie ty” , p re te n d o e xa m in a r a s id é ia s n e le con tid a s com re la çã o a os g ru -p os n a tivos d a s G u ia n a s. M a is -p re cisa m e n te , e ra isso o q u e e u -p re te n d ia fa ze r, m a s q u a n d o com e ce i a e xa m in a r o te m a a q u e stã o se m ostrou m a is com p le xa d o q u e m e h a via fe ito p re ve r a a rg u m e n ta çã o d e De scola .

In icia re i p or re su m ir a a rg u m e n ta çã o d e De scola ; p rosse g u ire i e xa -m in a n d o a lg u n s co-m e n tá rios fe itos sob re o te -m a p or Ka j Årh e -m (1996), e m se u a rtig o “ Th e C osm ic Food We b ” . Em se g u id a , vou con sid e ra r os e sq u e m a s g e ra is d a org a n iza çã o socia l g u ia n e sa e , com b a se n a s id é ia s d e De scola , form u la r h ip óte se s sob re o m od o com o os p ovos d a re g iã o d e ve ria m con ce b e r su a s re la çõe s com a n a tu re za e com o e xte rior; u tiliza n d o p rin cip a lm e n te o m a te ria l sob re os Tirió, e xa m in a re i e n tã o a situ a -çã o con cre ta . Em con clu sã o — e é a í q u e m e ve jo e m u m p â n ta n o — p e rg u n tom e se é p ossíve l tip ifica r socie d a d e s tã o n itid a m e n te q u a n to p re -te n d e De scola .

Delineando o problema

O a rtig o d e De scola a p re se n ta -se com o u m a con trib u içã o a u m p rob le m a m u ito a n tig o q u e h á m u ito te m d e sa fia d o a a n trop olog ia e n q u a n to ciê n -cia com p a ra tiva : a q u e stã o d o q u e d e ve se r com p a ra d o. As d ificu ld a d e s a q u i sã o im e n sa s, m a s u m a d a s form a s re con h e cid a s d e e n fre n tá -la s é , e m ve z d e p e rm a n e ce r n o p la n o d a s p rá tica s in d ivid u a is ou form a s in

sti-A PREDsti-AÇÃO, sti-A RECIPROCIDsti-ADE

E O CASO DAS GUIAN AS

(2)

tu cion a is, e xtra ir, m e d ia n te a a n á lise d e sse s p la n os, os p rin cíp ios q u e os ord e n a m . O q u e p od e se r e n tã o com p a ra d o é o m od o com o e ste s ú ltim os d ã o orig e m a d ife re n te s p rá tica s socia is. Dive rsos a u tore s tê m p rop osto, n e ssa tra d içã o, d ife re n te s p rin cíp ios: Lé vi-Stra u ss, a “ re cip rocid a d e ” ; Du m on t, a “ h ie ra rq u ia ” ; Du m é zil, a s “ fu n çõe s trip a rtite ” . De scola foca li-zou a lg o q u e te m sid o h á sé cu los d o in te re sse d e filósofos, h istoria d ore s e cie n tista s n a tu ra is: a ob je tifica çã o d a n a tu re za . Ele a firm a q u e “ os p rin cí-p ios d e con stru çã o d a re a lid a d e socia l d e ve m se r b u sca d os, cí-p rim a ria m e n-te , n a s re la çõe s e n tre os se re s h u m a n os e se u m e io a m b ie n n-te n a tu ra l” (De scola 1992:109). Su ste n ta , e n tã o, h a ve r u m a h om olog ia e n tre a form a com q u e a s p e ssoa s tra ta m a n a tu re za e a form a com o se tra ta m e n tre si. Esta h ip óte se , p rosse g u e , se forta le ce ria se socie d a d e s se m e lh a n te s e m e cossiste m a s sim ila re s ob je tifica sse m a n a tu re za d e form a s d ife re n te s.

C on sid e ra n d o q u e De scola é u m a m a zon ista , n ã o é su rp re e n d e n te q u e se volte p a ra a Am a zôn ia a fim d e e xa m in a r su a h ip óte se . O a u tor su g e re q u e a re g iã o ofe re ce ju sta m e n te e ssa op ortu n id a d e , p or a b rig a r p e ssoa s q u e vive m e m u m a m b ie n te se m e lh a n te e o e xp lora m d e form a sim ila r, m a s q u e ob je tifica m a socie d a d e e a n a tu re za d e m a n e ira s d istin-ta s. An te s d e p rosse g u ir, n o e n istin-ta n to, De scola con sid e ra n e ce ssá rio lim p a r o te rre n o, a d ota n d o a d istin çã o e n tre o q u e e le d e n om in a o siste m a totê -m ico e o a n í-m ico. N o p ri-m e iro, se g u n d o Lé vi-Stra u ss, a s d ife re n ça s ob se rvá ve is e n tre a s e sp é cie s n a tu ra is sã o u tiliza d a s com o m od e lo p a ra d istin -çõe s in te rn a s à socie d a d e ; e m ou tra s p a la vra s, tra ta -se d e u m siste m a m e ta fórico. O a n im ism o, p or ou tro la d o:

“ [...] d ota os se re s n a tu ra is n ã o a p e n a s d e d isp osiçõe s h u m a n a s — a trib u in

-d o-lh e s o sta tu s -d e p e ssoa s com e m oçõe s h u m a n a s e , fre q ü e n te m e n te , com

a h a b ilid a d e d e fa la r — com o ta m b é m d e a trib u tos socia is — u m a h ie ra rq u ia

d e p osiçõe s, com p orta m e n tos b a se a d os n o p a re n te sco, re sp e ito a ce rta s n

or-m a s d e con d u ta .”

O a u tor con tin u a :

“ O s siste m a s a n ím icos sã o u m a in v e rsão sim é trica d a s cla ssifica çõe s totê m ica s: n ã o e xp lora m a s re la çõe s d ife re n cia is e n tre e sp é cie s n a tu ra is p a ra con

fe rir u m a ord e m con ce itu a l à socie d a d e , m a s u tiliza m a s ca te g oria s e le m e n

-ta re s q u e e stru tu ra m a vid a socia l p a ra org a n iza r, e m te rm os con ce itu a is, a s

re la çõe s e n tre se re s h u m a n os e e sp é cie s n a tu ra is” (De scola 1992:114, ê n fa

(3)

Te n d o in trod u zid o a n oçã o d e siste m a a n ím ico, De scola ob se rva q u e a s Am é rica s con tê m in ú m e ros d e sse s siste m a s, a ssim com o d ife re n te s com b in a çõe s d e a n im ism o e tote m ism o. Em a p a rte , e u d iria q u e , e m b o-ra m e a g o-ra d e o p re se n te p rop ósito d e tom a r os siste m a s a n ím icos com o u m a con sta n te d a d a , va le ria ce rta m e n te a p e n a e xp lora r a s d ife re n ça s e n tre e le s, b e m com o a s con se q ü ê n cia s d e ssa s d ife re n ça s. Da m e sm a form a , a fim d e e sta b e le ce r u m ce n á rio p a ra se u e stu d o, De scola , e m b o-ra re con h e ça a e xistê n cia d e im p orta n te s va ria çõe s loca is, tom a com o u m a con sta n te o e cossiste m a g e ra lm e n te sim ila r d a flore sta trop ica l, a ssim com o os m e ios d e su a e xp lora çã o p e la p op u la çã o n a tiva . Alé m d is-so, n ota a u n iform id a d e d a m orfolog ia socia l e m tod a a re g iã o, ca ra cte riza d a p or p e q u e n os g ru p os loca is a u tôn om os e id e a lm e n te a u tosu ficie n -te s, e m q u e o se xo e a id a d e a p a re ce m com o os p rin cip a is crité rios d a d ivisã o d o tra b a lh o, p e la d e sce n d ê n cia cog n á tica e p or u m ord e n a m e n -to con cê n trico d o e sp a ço e m te rm os d o q u a l o e xte rior é vis-to com h ostlid a d e . Ao m e sm o te m p o, os siste m a s a n ím icos a m a zôn icos sã o con ce b id os com o siste m a s fe ch a id os, e m cu jo in te rior circu la ria m toid os os e le -m e n tos n e ce ssá rios p a ra a -m a n u te n çã o e con tin u id a d e d o cos-m os. Q u a l-q u e r ru p tu ra n e ssa circu la çã o a m e a ça o siste m a , m a s os m e ios u tiliza d os p a ra re sta b e le ce r o e q u ilíb rio d ife re m “ d e a cord o com a s con ce p çõe s d os p rin cíp ios d e id e n tid a d e e d ife re n ça q u e re g e m a s re la çõe s d os se re s h u m a n os e n tre si e com os a n im a is” (De scola 1992:116). Pa ra d e m on strá lo, De scola e scolh e d ois e xe m p los e tn og rá ficos — o d os Tu k a n o De sa -n a d o -n oroe ste a m a zô-n ico e o d os p ovos jíva ro d o Alto Am a zo-n a s — e e xa m in a os m e ios a tra vé s d os q u a is é re sta b e le cid o o e q u ilíb rio rom p id o p e la m orte . N o p rim e iro ca so, o p rin cíp io é o d a re cip rocid a d e ; n o se g u n -d o, o -d a p re -d a çã o.

(4)

n ota d e rod a p é im p orta n te , n a q u a l sa lie n ta q u e “ a re cip rocid a d e n ã o im p e d e a violê n cia in te rn a ” . O a u tor re fe re -se , e m p a rticu la r, a o ra p to d e m u lh e re s, q u e vê com o u m a form a d e re cip rocid a d e n e g a tiva op e ra n d o n o in te rior d o m e ta ssiste m a cósm ico. Isso con tra sta com o h om icíd io d e u m m e m b ro d e trib o n ã o a p a re n ta d a , q u e re d u z e fe tiva m e n te o su p ri-m e n to d e e n e rg ia cósri-m ica d e sta ú ltiri-m a — ou se ja , a p re d a çã o, n e sse ca so, n ã o é g e ra tiva . O q u e n ã o fica cla ro é o q u e ocorre q u a n d o o h om icíd io se d á n o in te rior d a trib o, com o d e ve ce rta m e n te a con te ce r, ou q u a n d o se ca p tu ra m m u lh e re s d e u m a trib o in te ira m e n te n ã o a p a re n ta d a .

En tre os p ovos jíva ro, a circu la çã o d e e le m e n tos n ã o in clu i se re s n a tu ra is n ã o h u m a n os, e a m orte d e u m se r h u m a n o d e ve se r com p e n sa d a n a e sfe ra h u m a n a — n e sse ca so e tn og rá fico, m e d ia n te a ca ça d e ca b e -ça s. O J íva ro, a o se a p ossa r d e u m a ca b e -ça , ca p tu ra u m a “ id e n tid a d e q u e p e rm itirá q u e su a p a re n te la se p e rp e tu e se m in corre r n a s ob rig a çõe s d e re cip rocid a d e in e re n te s à a lia n ça m a trim on ia l” (De scola 1992:118). A vítim a d e ve p e rte n ce r a u m g ru p o q u e n ã o se ja sociolog ica m e n te n e m m u ito p róxim o, n e m m u ito d ista n te , d e form a q u e a id e n tid a d e ca p tu ra -d a se ja sim ila r, m a s, ta m b é m , -d ife re n te ; con cre ta m e n te , isso sig n ifica u m J íva ro d e ou tra trib o. Em b ora e sse siste m a se ja d ire cion a d o p a ra a e xclu -sã o d a re cip rocid a d e , n a p rá tica a le i d a vin g a n ça d ita q u e , m a is ce d o ou m a is ta rd e , o p a g a m e n to n e g a d o a ca b e p or se r a rra n ca d o. A g u e rra in tra -trib a l n ã o e n volve a ca p tu ra d e ca b e ça s, e sim , o a ssa ssin a to e o ra p to d e m u lh e re s e cria n ça s — u m a to q u e g a ra n te u m a e sp osa se m im p or a s ob rig a çõe s d a a fin id a d e . Esq u e m a se m e lh a n te a p a re ce n a ca ça , on d e a re la -çã o e n tre ca ça d or e p re sa é re tra ta d a com o u m a re la -çã o d e a fin id a d e coo-p e ra tiva , n a q u a l n ã o se d e ve n e m se coo-p a g a com coo-p e n sa çã o a lg u m a . De sco-la re su m e a situ a çã o: “ O ra p to d e id e n tid a d e s re a is ou virtu a is e n tre in i-m ig os p róxii-m os ou d ista n te s, e a in corp ora çã o d e a n ii-m a is sob a ca p a d a a fin id a d e fictícia , e xp re ssa m , e m d om ín ios d ife re n te s, u m a id ê n tica n e g a -çã o d e re cip rocid a d e n a s troca s com os ou tros” (1992:120).

(5)

Ap re se n te i o a rg u m e n to d e De scola q u a se com su a s p róp ria s p a la -vra s. Re torn a re i, m a is a d ia n te , a o q u e ve jo com o p rob le m á tico n a form a com o o a u tor a p re se n tou o ca so jíva ro. Aq u i g osta ria a p e n a s d e su b lin h a r q u e , n o q u e toca a o n oroe ste a m a zôn ico, e le se b a se ia n o A m az on ian Cosm os, d e Re ich e lDolCosm a toff (1971), cu ja a p re se n ta çã o d a cosCosm olog ia d e sa

-n a fa z--n os p e -n sa r e sta r ou vi-n d o u m físico ocid e -n ta l. O re la to d e Årh e m sob re a cosm olog ia m a k u n a n ã o é m u ito d ife re n te , a n ã o se r p e lo fa to d e se r a p re se n ta d o e m te rm os m u ito m a is p róxim os d a s id é ia s n a tiva s d o q u e d a n ossa física . O s Tu k a n o fa la m d e p re d a çã o, n ã o d e tra n sfe rê n cia d e e n e rg ia . Årh e m d á ta m b é m u m ru m o a lg o d ife re n te a o a rg u m e n to d e De scola . Su ste n ta q u e a p re d a çã o é lu g a r-com u m n o m u n d o m a k u n a e q u e , d e fa to, tod o se u u n ive rso é ord e n a d o p or u m a sé rie d e re la çõe s n a form a “ p re d a d or/ p re sa ” . C ito:

“ A ca te g oria su p re m a d os p re d a d ore s, q u e com p re e n d e ja g u a re s, a n a con d a s

e os p rin cip a is ra p a ce s, in clu i ta m b é m os d e u se s e os p re d a tórios e sp íritos-h e ,

tra n sform a n d o d e ssa m a n e ira o siste m a e m u m a ve rd a d e ira e colog ia cósm ica .

Assim com o o ca ça d or h u m a n o m a ta e con som e su a p re sa , os d e u se s m a ta m

e con som e m h u m a n os. M a s — e e ssa é a ch a ve d e tod o o siste m a — a tra vé s

d a m orte e con su m o d e se re s h u m a n os os d e u se s p e rm ite m q u e os h om e n s se

re p rod u za m . An a log a m e n te , m e d ia n te a p re d a çã o d a ca ça e d o p e ixe , o ca ça

d or h u m a n o p ossib ilita q u e os a n im a is cre sça m e se m u ltip liq u e m . A p re d a

-çã o, p ois, é u m ‘m od e lo’ m a scu lin o d e p rocria -çã o” . (Årh e m 1996:189)

De ssa form a , a p on ta o a u tor, m a ta r p or com id a é u m a to d e re cip ro-cid a d e — a vid a d o in d ivíd u o é troca d a p e la re n ova çã o d a ca te g oria , h u m a n a ou a n im a l. E (cito n ova m e n te ) “ a p re d a çã o, re con stru íd a com o troca , e xp lica a m orte e d á con ta d a re g e n e ra çã o d a vid a ” . N a con clu sã o d e se u a rtig o, Årh e m ob se rva q u e

“ [...] os te m a s d a p re d a çã o e re cip rocid a d e , vin g a n ça e re n ova çã o, p e rm e ia m

a s cosm olog ia s a m a zôn ica s […]. Em b ora va ria n d o e m form a e e xp re ssã o, a s

r e p r e se n t a ç õ e s lo c a is d o r e la c io n a m e n t o h u m a n o - n a t u r e z a n a A m a z ô n ia

p a re ce m se r tra n sform a çõe s d e u m p a d rã o fu n d a m e n ta lm e n te sim ila r, ca ra

c-te rístico d a re g iã o com o u m tod o” (1996:201)1.

(6)

d ife re n ça sig n ifica tiva e n tre os d ois ca sos. O s d ois g ru p os tê m e xp e cta tiva s d ife re n cia d a s n o q u e d iz re sp e ito à re sid ê n cia p ósm a rita l: u xoriloca -lid a d e n o ca so jíva ro e viriloca -lid a d e n o ca so tu k a n o. N a re a -lid a d e , a s coisa s n ã o se d ã o e xa ta m e n te a ssim , e re torn a re i e m b re ve a e ste p on to, m a s a com p osiçã o e fe tiva d os a sse n ta m e n tos é con fu sa d e m a is p a ra se r a n a lisa d a a q u i, e p or isso vou a te rm e a o p la n o d os id e a is e d a s e xp e cta -tiva s. O s q u e con h e ce m m e u tra b a lh o sa b e m q u e p e n so q u e a re sid ê n cia p ós-m a rita l é u m a va riá ve l im p orta n te n a q u ilo q u e Ed u a rd o Vive iros d e C a stro (1996a ) d e sig n ou com o a “ e con om ia p olítica d o con trole ” n a s te r-ra s b a ixa s su l-a m e rica n a s. Em re su m o, p ostu lo q u e a s p e ssoa s sã o m u ito va loriza d a s — p rin cip a lm e n te a s m u lh e re s solte ira s e m id a d e d e p rocria r — p orq u e re p re se n ta m u m re cu rso e sca sso. A u xoriloca lid a d e é u m a p olí-tica m u ito m a is ca u te losa , volta d a p a ra d e n tro, d o q u e a viriloca lid a d e , q u e re p re se n ta u m p ote n cia l d e d e se n volvim e n to d e a lia n ça s m u ito m a ior2. De sta co, a q u i, e ssa q u e stã o, p orq u e m e p a re ce re le va n te p a ra tra ta rm os d a situ a çã o d a G u ia n a , o q u e m e p rop on h o a fa ze r a g ora .

A sit uação nas Guianas

A p rim e ira coisa a sa lie n ta r é o fa to d e q u e , e m te rm os e cológ icos a m p los, o e cossiste m a d a s G u ia n a s e a q u e le d a s á re a s ocu p a d a s p e los Tu k a n o e p e los J íva ro sã o b a sica m e n te se m e lh a n te s. Ta m b é m n ã o d ife re m os siste -m a s d e su b sistê n cia e a s e con o-m ia s, e tod os os p ovos d a re g iã o co-m p a rtilh a m u m a visã o d e m u n d o a n ím ica . Existe m ta m b é m m u ita s sim ila rid a -d e s n o p la n o -d a m orfolog ia socia l, in clu in -d o o ta m a n h o e -d istrib u içã o -d a s com u n id a d e s e os a rra n jos p olíticos. O in te re ssa n te , n o e n ta n to, é q u e a se m e lh a n ça se ja m a ior q u a n d o se ob se rva a org a n iza çã o e os siste m a s con cre tos d o q u e q u a n d o se con sid e ra a s e stru tu ra s id e a is. Pre te n d o p ro-ce d e r d e scre ve n d o a s con fig u ra çõe s id e a is d a e stru tu ra socia l g u ia n e sa e ob se rva n d o, e m se g u id a , o g ra u d e con ve rg ê n cia e n tre os a rra n jos con -cre tos n a s trê s re g iõe s q u e n os in te re ssa m , a n te s d e su b lin h a r o con tra ste e xiste n te n o p la n o id e a l.

(7)

ci-ta çã o d o n om e d e ca d a e sp írito e trib o e stra n g e iros, a com p a n h a d a d a ord e m p a ra q u e p e rm a n e ça m a fa sta d os. Da vid G u ss e scre ve u : “ O círcu lo d a ca sa é d e ssa m a n e ira se la d o ta n to física q u a n to sim b olica m e n te , re for-ça n d o a a u ton om ia e a a u to-su ficiê n cia q u e con stitu e m o id e a l d e tod a com u n id a d e ye ’k u a n a ” (1989:26).

Um a sp e cto d isso, a q u i com o a lh u re s n a Am a zôn ia , é o ord e n a m e n to con cê n trico d o e sp a ço, se g u n d o o q u a l o in te rior é a ssocia d o à se g u -ra n ça e à fa m ilia rid a d e , e o e xte rior a o p e rig o e a o d e scon h e cid o, e m b o-ra e ssa s q u a lid a d e s se ja m m a is con te xtu a is e re la tiva s d o q u e a b solu ta s. O s h a b ita n te s d e u m a sse n ta m e n to sã o con ce b id os com o u m g ru p o d e con sa n g ü ín e os, e u m a con se q ü ê n cia d isto é a co-re sid ê n cia se r tã o im p or-ta n te q u a n to o p a re n te sco n a ord e n a çã o d os re la cion a m e n tos.

Essa con ce p çã o d e in d e p e n d ê n cia solitá ria , e n volve n d o a n e g a çã o d a re cip rocid a d e , é u m son h o se g u ra m e n te u tóp ico, já q u e , n a p rá tica , a a u tosu ficiê n cia é ilu sória , n a m e d id a e m q u e os a sse n ta m e n tos d e p e n d e m u n s d os ou tros p a ra a ob te n çã o d e b e n s m a te ria is e d e con h e cim e n -tos e p rá tica s ritu a is, se n d o a in d a d e m og ra fica m e n te m u ito d im in u -tos p a ra a lim e n ta r q u a lq u e r e xp e cta tiva re a lista d e e n d og a m ia . Esta tistica m e n te , o m a log ro d o id e a l d e e n d og a m ia a ld e ã re su lta e m u m a te n d ê n -cia u xoriloca l q u e é , e n tre ou tra s coisa s, con se q ü ê n -cia d e a rra n jos m a tri-m on ia is q u e coloca tri-m os jove n s fu tu ros tri-m a rid os e tri-m d e sva n ta g e tri-m n a s n e g ocia çõe s com se u s fu tu ros sog ros. Em ou tra s p a la vra s, o a sse n ta m e n -to n ã o se com p õe , n a p rá tica , d e u m a p a re n te la e n d og â m ica , m a s d e u m con ju n to va riá ve l d e re la çõe s n o q u a l a u xoriloca lid a d e é e sta tistica m e n -te p re d om in a n -te . A u n id a d e e n d og â m ica con stitu i o q u e d e n om in e i “ a g lom e ra d o” (Riviè re 1969:37). Este é com p osto p or d ive rsa s a ld e ia s lig a d a s p or u m a d e n sa re d e d e re la çõe s d e p a re n te sco e a fin id a d e , e los q u e sã o re la tiva m e n te ra ros p a ra a lé m d a s fron te ira s d o a g lom e ra d o. De m od o g e ra l, n ã o e xiste m te rm os n a tivos p a ra d e sig n a r e sse s a g ru p a m e n tos socia is, e m b ora d e sse p on to d e vista os Pia roa con stitu a m u m a e xce çã o n a re g iã o. Acre sce n te se ta m b é m q u e a s re la çõe s e n tre a sse n ta m e n -tos n o in te rior d e u m m e sm o a g lom e ra d o n ã o sã o se m p re u m m a r d e rosa s. C a ra cte riza m -se p or g ra u s va riá ve is e m u ta n te s d e a m iza d e e a n i-m osid a d e , d e p e n d e n d o d os a con te cii-m e n tos. Alé i-m d isso, os a g loi-m e ra d os n ã o sã o h e rm e tica m e n te fe ch a d os, e a s su a s fron te ira s m ove m -se n a m e d id a e m q u e a s p op u la çõe s m ig ra m e os a sse n ta m e n tos se d e sloca m .

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viriloca l. A re la çã o q u a se h ie rá rq u ica e n tre os vá rios g ru p os d e d e sce n d ê n -cia e u m siste m a re g ion a l d e troca s a com p a n h a d o d e u m com p le xo ciclo ritu a l sã o tra ços q u e n ã o e n con tra m con tra p a rtid a n a s G u ia n a s. Por ou tro la d o, se ra sp a rm os a su p e rfície d e ssa d e scriçã o id e a l, e n con tra re m os sob e la u m q u a d ro lig e ira m e n te d ife re n te . A m a loca tu k a n o, e n q u a n to u n i-d a i-d e socia l, ocu lta o fa to i-d e q u e o a sse n ta m e n to fre q ü e n te m e n te n ã o se com p õe a p e n a s d e u m g ru p o d e d e sce n d ê n cia p a trilin e a r, m a s d e u m a q u a n tid a d e d e con sa n g ü ín e os e a fin s, in clu in d o g e n ros p re sta n d o te m-p ora ria m e n te o se rviço-d a -n oiva . O s Tu k a n o vive m e m a sse n ta m e n tos q u e sã o p a rte d e u m con ju n to d e a sse n ta m e n tos lig a d os p or u m a d e n sa re d e d e troca s m a trim on ia is e ou tra s. De ssa form a , e m b ora os a sse n ta m e n tos in d ivid u a is se ja m e xog â m icos, o u n ive rso d e m og rá fico n o in te rior d o q u a l ocorre a m a ioria d a s troca s m a trim on ia is p a re ce se r se m e -lh a n te , e m ta m a n h o, a o d a s G u ia n a s.

Aq u i, va le a p e n a le m b ra r a d e m on stra çã o d e Årh e m (1981) d e q u e os a rra n jos m a trim on ia is m a k u n a se in se re m n o m od e lo d a s e sfe ra s d e re cip rocid a d e d e Sa h lin s: n o in te rior d o u n ive rso on d e se d á a m a ioria d os ca sa m e n tos, a re cip rocid a d e m a trim on ia l é d e n a tu re za g e n e ra liza -d a , e n q u a n to a s u n iõe s com p e ssoa s e xte riore s a e sse u n ive rso sã o ca ra c-te riza d a s p e la re cip rocid a d e b a la n ce a d a , e a q u e la s com p a rce iros a in d a m a is d ista n te s p e la re cip rocid a d e n e g a tiva (ou ca sa m e n to p or ca p tu ra ). Esta ú ltim a form a só é viá ve l n o ca so d e p ovos cu ja d istâ n cia torn e d ifí-ce is q u a isq u e r te n ta tiva s d e re sg a te ou fu g a d a n oiva . Um a d a s a le g a d a s va n ta g e n s d e sse tip o d e ca sa m e n to e stá e m q u e o h om e m n ã o te m d e re trib u ir a e sp osa a d q u irid a com u m a m u lh e r d e se u p róp rio g ru p o, e fica livre d a s ob rig a çõe s d e corre n te s d a a fin id a d e . Isto soa b a sta n te jíva ro, e e m b ora o ra p to d e m u lh e re s n ã o se ja d e scon h e cid o n a s G u ia n a s (os Ya n o-m a o-m i n ã o e stã o se n d o con sid e ra d os), h á a q u i u o-m a ou tra foro-m a d e e vita r os d issa b ore s d o se rviço-d a -n oiva . A e stra té g ia p a ra e vita r a s ob rig a çõe s d a a fin id a d e é , n ã o rou b a r u m a m u lh e r d ista n te , m a s ca sa r-se com u m a o m a is p roxim a m e n te a p a re n ta d a p ossíve l.

Se a g ora con sid e ra rm os os J íva ro, ve rifica m os q u e , n e sse s te rm os, e le s n ã o sã o tã o d ife re n te s d os ou tros d ois g ru p os. De scola ob se rvou a e xistê n cia d e g ru p os socia is su p ra loca is p a ra os q u a is os Sh u a r n ã o d is-p õe m d e d e sig n a çã o e q u e e le d e n om in ou “ n e x u s e n d og â m ico” (1994:9). Esse s n e x u s sã o ob via m e n te m u ito sim ila re s a os a g ru p a m e n tos e n con tra

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p a re ce d ife re n cia r o ca so jíva ro d os Tu k a n o e d os p ovos d a G u ia n a é o e xtre m o a tom ism o, o a sse n ta m e n to se n d o a q u i ra ra m e n te con stitu íd o p or m a is d e u m a u n id a d e d om é stica — e xce to n os p e ríod os d e h ostilid a d e , q u a n d o vá ria s d e ssa s u n id a d e s se a ssocia m e m u m a ú n ica m ora d ia forti-fica d a , q u e p od e con te r se sse n ta ou se te n ta p e ssoa s, p or p e ríod os d e a té m e sm o q u a tro a n os.

M in h a p re ocu p a çã o a té a q u i foi m ostra r q u e a re g iã o g u ia n e n se cor-re sp on d e à s e xp e cta tiva s d e De scola p a ra socie d a d e s q u e vive m e m m e io a m b ie n te s sim ila re s e os e xp lora m d e form a se m e lh a n te ; e q u e a m orfo-log ia socia l d a s trê s á re a s é ta m b é m sim ila r. H á con tu d o con tra ste s n o p la n o d a s e xp e cta tiva s socia is. Te m os u m a socie d a d e id e a lm e n te u xorloca l, ou tra id e a lm e n te virixorloca l, e u m a socie d a d e id e a lm e n te e n d og â m ica d o p on to d e vista loica l. N o p rim e iro ica so, De scola ica ra cte riza a re la -çã o com a n a tu re za com o b a se a d a n a p re d a -çã o; n o se g u n d o, n a re cip rocid a d e . M a s o q u e se d e ve e sp e ra r d e u m a socie d a d e e n d og â m ica ? Pre -su m ive lm e n te , o isola m e n to d a n a tu re za . Pod e r-se -ia form u la r a h ip óte se d e q u e , n o q u e toca à re p rod u çã o, a n a tu re za é u m a ca te g oria re d u n d a n -te . Exa m in e m os a s e vid ê n cia s.

M orte e reprodução

(10)

“ A m orte a q u i, e n tre ta n to, n ã o é u m sim p le s e sta d o d e n ã o-se r, q u e torn a

a b su rd os tod os os e sforços d e vid a , m a s a e n e rg ia b ru ta a tra vé s d a q u a l o

p róp rio se r é cria d o. N o m u n d o d e Wa n a d i [o h e rói d a cu ltu ra ye ’k u a n a ],

a ssim c o m o p a r a a q u e le s q u e v iv e m à su a im a g e m [o s y e ’k u a n a ], n ã o h á

e sta d o d e n ã o-se r. H á a p e n a s o p re se n te e te rn o, o m u n d o d o d u p lo in visíve l

q u e se g u e vive n d o p a ra se m p re , m e sm o a p ós o d e sa p a re cim e n to d a form a

m a te ria l. O q u e p a re ce com o re a l é a p e n a s u m a ilu sã o. […] A m orte , p orta n

-to, m a is d o q u e u m té rm in o, é u m in g re sso n a re a lid a d e ” (1989:119).

N ã o h á , n o ca so ye ’k u a n a , su g e stã o d e q u e ocorra u m re torn o, m a s sim tra n sfe rê n cia p a ra u m p la n o m a is “ re a l” d e e xistê n cia . Pe rm a n e ce ob scu ro d e on d e ve m a n ova vid a , e m b ora n ã o p ossa m os d e ixa r d e n os im p re ssion a r com o fa to d e q u e o h e rói cu ltu ra l Wa n a d i d e u a lu z a si m e sm o — a form a m á xim a d e a u to-su ficiê n cia .

M a is d ois e xe m p los: o m ission á rio a le m ã o (q u e se torn ou a n trop ólo-g o b ra sile iro) Protá sio Frik e l (1971) re la tou q u e , p a ra os Ka ch u ya n a , a m or-te é o n a scim e n to e m ou tra vid a , e o n a scim e n to a re e n ca rn a çã o n a or-te rra , se m q u e h a ja , a p a re n te m e n te , a in te rve n çã o d e q u a lq u e r ou tra a g ê n cia . En tre os Tirió, e xiste a id é ia d e q u e , n o m om e n to d a m orte , a a lm a p a rte p a ra u m a via g e m a rrisca d a e m d ire çã o a o re se rva tório d e a lm a s, n o h ori-zon te orie n ta l, d e on d e é re tira d a a m a té ria e sp iritu a l p a ra o re cé m -n a s-cid o. Ve rifica -se , n e sse s e xe m p los, q u e os siste m a s e m q u e stã o sã o a u to-su ficie n te s e n ã o d e p e n d e m d a in te ra çã o, re cíp roca ou p re d a tória , com te rce iros. Essa s id é ia s sã o in te ira m e n te con siste n te s com a visã o id e a l d o a sse n ta m e n to e n q u a n to u n id a d e p rod u tiva e re p rod u tiva a u to-su ficie n te . Aq u i, p a re ce -m e in te re ssa n te a cre sce n ta r u m a n ova d im e n sã o. Ve n h o d iscu tin d o o q u e a con te ce n a m orte p orq u e e sse é o e n foq u e d e De scola , m a s va le a p e n a ta m b é m con sid e ra r o q u e ca u sa a m orte . Esta re su lta , n a m a ior p a rte d a s G u ia n a s, d e a ta q u e m ístico, fe itiça ria , rou b o d e a lm a e sim ila re s, p rove n ie n te s se m p re d o e xte rior, se ja se u ca u sa d or u m h u m a n o ou u m e sp írito, e m b ora n o ú ltim o ca so se su sp e ite g e ra lm e n-te d a p re se n ça d e u m a a g ê n cia h u m a n a e n cob e rta . Da m e sm a form a , a fe itiça ria d e vin g a n ça é se m p re d irig id a p a ra fora . Em ou tra s p a la vra s, n o q u e d iz re sp e ito à ca u sa d a m orte , a re la çã o e n tre in te rior e e xte rior é e xp re ssa e m te rm os d e p re d a çã o, p od e n d ose e n tã o su ste n ta r com se g u -ra n ça q u e , d e ssa form a , se a ju d a a d e lim ita r a com u n id a d e , u m a ve z q u e a fe itiça ria , p or d e fin içã o, n ã o p od e ocorre r d e n tro d e sta ú ltim a .

(11)

m orte re su lta d e in te n çã o h u m a n a m a lig n a , se ja física ou m ística . De s-cola (1994:125) re fe re -se a os d a rd os m á g icos a tira d os p e los xa m ã s ou à s d oe n ça s ocid e n ta is, a o q u e se d e ve , p rova ve lm e n te , a cre sce n ta r a s m or-te s viole n ta s. Tod a s e ssa s ca u sa s se a ju sta m b e m à visã o d e q u e os p ro-ce ssos re p rod u tivos sã o con fin a d os à e sfe ra h u m a n a . Tod a via , De scola m e n cion a ta m b é m o fa to d e q u e , e n tre cria n ça s e ve lh os, a m orte p od e re su lta r d a p e rd a d e sa n g u e , e q u e e n q u a n to p a ra os ú ltim os isso fa ria p a rte d a d e te riora çã o g e ra l d a ve lh ice , p a ra os p rim e iros re su lta d a s p rá -tica s va m p írica s d a m a n d ioca . Ap e n a s p a ra m ostra r q u ã o p rob le m á -tica é a in te rp re ta çã o d e ssa id é ia , con sid e re -se q u e a m a n d ioca con siste , se m d ú vid a , e m u m a p la n ta , m a s, u m a p la n ta a o m e sm o te m p o a lta m e n te socia liza d a , cu ja s ra íze s sã o tra ta d a s p e lo cu ltiva d or com o cria n ça s (De s-cola 1994:204-205). N o siste m a a n ím ico, a con sa n g ü in id a d e d a m a n d io-ca com o cu ltiva d or fa z d e la a p a rte m a is h u m a n a d a n a tu re za , m a s e la ta m b é m p a re ce se r a p a rte q u e in te rvé m n o p roce sso d e vid a e m orte d os J íva ro. Su p on h o q u e se ria p re ciso a rg u m e n ta r a q u i q u e , se os p ro-ce ssos d e p re d a çã o ocorre m in te ira m e n te d e n tro d a e sfe ra h u m a n a , isso se ria d e se e sp e ra r.

O s ca sos d a s G u ia n a s e d os J íva ro con tra sta m com o d os Tu k a n o, q u e , con form e ob se rva d o, a trib u e m a m orte à e sfe ra n ã o h u m a n a . De ssa form a , p a ra os M a k u n a , ca d a h u m a n o é d e fin itiva m e n te m orto e con su -m id o p e los d e u se s co-m o p a rte d o ciclo d e tra n sfe rê n cia e n tre d ife re n te s e sfe ra s cósm ica s.

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la m e ricla n la s. C e rtos tip os d e crila tivid la d e d e p e n d e m d la m istu rla d e d e sse m e lh a n te s, d os q u a is in te rior e e xte rior con stitu e m a form a e ste re otip a -d a , e isto se torn a m a is cla ro n os m om e n tos e sse n cia is -d e re p ro-d u çã o socia l — a cria çã o d e se re s h u m a n os n a in icia çã o e d e u n id a d e s socia is n a ca sa . Pe n so, n o e n ta n to, q u e h á a in d a u m a d e n d o a se r a cre sce n ta d o a isso: p a ra a tin g ir a u n id a d e cósm ica , o q u e a cria tivid a d e e xig e é a tra n sce n d ê n cia d os se m e lh a n te s e d e sse m e lh a n te s m u n d a n os. N ã o se tra ta sim p le sm e n te d e a tra n sce n d ê n cia se r a lca n ça d a a tra vé s d o ritu a l, m a s sim d e o p róp rio te m p o ritu a l se r tra n sce n d ê n cia . É a tra n sce n d ê n cia te m p orá ria , d u ra n te a q u a l a s d ivisõe s d o m u n d o com u m sã o su p rim id a s, q u e con stitu i a cria tivid a d e , e n ã o a p e n a s a s d ife re n ça s e m si. Isso é b e m d ocu m e n ta d o p a ra o ca so tu k a n o: d u ra n te o ritu a l d a ca sa -H e , p rin cip a l rito d e in icia çã o, te m p o e e sp a ço se fu n d e m com o n o m om e n to p rim or-d ia l (H u g h -J on e s 1977). O q u e or-d e se jo su b lin h a r a q u i é a lg o b a sta n te p a ra d oxa l: a d e p e n d ê n cia d ia n te d o m u n d o e xte rior p a ra a re p rod u çã o d o m u n d o d o su je ito é n e g a d a p e lo e xp e d ie n te d e su p re ssã o d e sse m u n -d o e xte rior e p e la cria çã o ritu a l -d e u m ú n ico cosm os tra n sce n -d e n te .

Em b ora a im p ortâ n cia d a p a rticip a çã o d e fora ste iros com o con vid a -d os se ja a m p la m e n te -d ocu m e n ta -d a n os ritu a is g u ia n e se s e tu k a n o, e ste n ã o é o ca so, cu riosa m e n te , d os p ovos jíva ro. De fa to, De scola (1996, ca p . 24) d e scre ve a p e n a s d ois e ve n tos: o an e m at, “ u m d os ra ros ritos cole tivos q u e e ssa socie d a d e in d ivid u a lista in ve n tou p a ra si m e sm a ” (De scola 1996:390), re a liza d o com a fin a lid a d e d e re u n ir u m g ru p o d e g u e rre iros com o p re lú d io p a ra os a ta q u e s; e o u jai, re a liza d o p e la s m u lh e re s q u a n

-d o os h om e n s se a u se n ta m p a ra a g u e rra . Em ou tra s p a la vra s, os ritos cole tivos sã o a ssocia d os, a q u i, à a çã o p re d a tória sob re o m u n d o e xte rior, e n ã o à d e p e n d ê n cia re cíp roca e n tre e ste e o in te rior.

Relações com a nat ureza na mit ologia Tirió

(13)

-te s, é q u e o h e rói cu ltu ra l n ã o ofe re ce n a d a e m troca d o q u e re ce b e . Em ou tra s p a la vra s, a re la çã o com a n a tu re za , ou , com o p re firo, com o O u tro, é d e m ã o ú n ica , m a s n ã o p a re ce se r p re d a tória . N ã o som e n te a e sp osa , q u e é p e sca d a d a á g u a e n ã o se m ostra in fe liz com isso, m a s tod os os b e n s sã o ofe re cid os e n ã o sim p le sm e n te tom a d os. Se ria d ifícil con sid e ra r e sta u m a re la çã o p re d a tória , e m b ora e la se ja ce rta m e n te u n id ire cion a l. Va m os e xa m in a r com o a m itolog ia tra ta a s re la çõe s d os Tirió com os a n im a is, tom a n d o trê s m itos e m q u e e ssa s re la çõe s sã o re tra ta d a s.

Tod os os trê s m itos se re fe re m a e n con tros d os Tirió com a n im a is d e ca ça : a n ta (M ito 14), m a ca co-a ra n h a (M ito 16) e q u e ixa d a (M ito 17). O s d ois p rim e iros sã o m u ito se m e lh a n te s, e p od e m se r tra ta d os m a is ou m e n os e m p a ra le lo. N os d ois ca sos, a s p e ssoa s h a via m ou vid o fa la r d e s-se s a n im a is, s-se m n u n ca tê -los e n con tra d o, e m b ora h ou ve ss-se m te n ta d o. Am b os os h e róis sã o xa m ã s q u e , te n d o id o sozin h os à flore sta , e n con -tra m -se a cid e n ta lm e n te com An ta , e m u m ca so, e com M a ca co-a ra n h a , n o ou tro, os q u a is se d irig e m a o xa m ã ch a m a n d o-o d e n e to, se n d o p or e ste tra ta d os d e “ a vô” , u m te rm o d e re sp e ito. N e ste p on to h á u m a d ife -re n ça : o xa m ã q u e e n con tra M a ca co-a ra n h a e stá se p -re p a ra n d o p a ra a ti-ra r n o a n im a l q u a n d o e ste o p e rce b e e o a d ve rte d e q u e n a d a d e b om lh e a con te ce rá se o m a ta r. O s xa m ã s sã o con vid a d os p e los a n im a is a su a s re p e ctiva s a ld e ia s, on d e sã o re ce b id os e , com o já é ta rd e , ch a m a d os a p a s-sa r a n oite . Aq u i a p a re ce u m a p e q u e n a d ive rg ê n cia e n tre os d ois m itos: o xa m ã q u e e stá n a ca sa d e An ta d e ve d ivid ir su a re d e com a filh a d e ste , a q u e m te n ta se d u zir, m a s é im p e d id o p e la vig ilâ n cia d o p a i. O xa m ã n ã o con se g u e com p re e n d e r p or q u e fora con vid a d o a com p a rtilh a r a re d e com a filh a d o a n fitriã o se e sta n ã o p od e se r toca d a . N o d ia se g u in te , o Tirió d e se ja p a rtir, m a s é re tid o p or An ta , q u e q u e r lh e fa la r d e se u s p la n os p a ra b a n h a r-se (u m a re fe rê n cia , p re su m o, a o h á b ito d a s a n ta s d e q u a n d o a ssu sta d a s b u sca r re fú g io n a á g u a — e , p orta n to, à tra n sm issã o d e u m se g re d o)4. Fin a lm e n te , o h om e m con se g u e p a rtir, te n d o sid o a d ve rtid o p a ra q u e n ã o con ta sse a n in g u é m on d e e le — An ta — m ora va ; se o fize s-se , a lg u m m a l lh e sob re viria .

(14)

ta m b é m p a ra n ã o m e n cion a r M a ca co-a ra n h a p a ra se u s con h e cid os; d o con trá rio, a visa m -n o, u m a d e sg ra ça iria lh e a con te ce r.

O e p isód io se g u in te é se m e lh a n te n os d ois m itos. Q u a n d o os xa m ã s ch e g a m e m ca sa , se u s cu n h a d os in siste m e m sa b e r p or q u e p a ssa ra m a n oite fora e on d e , m a s e le s n a d a d ize m . Em a m b os os ca sos, o se g re d o é re ve la d o p or lín g u a s solta s e m con se q ü ê n cia d o con su m o d e b e b id a forte . N a h istória d o h om e m q u e e n con trou An ta , a b e b id a lh e é d a d a d ire -ta m e n te e , sob o se u e fe ito, e le con -ta o ocorrid o p a ra a m u lh e r q u e , p or su a ve z, p a ssa a in form a çã o p a ra se u s irm ã os. N a ou tra h istória , a b e b id a é d a d a p a ra a e sp osa d o h om e m q u e e n con trou M a ca co-a ra n h a , a q u a l re ve la o se g re d o d o m a rid o p a ra os irm ã os, e m b ora , n o m ito, n ã o fiq u e cla ro e m q u e p on to e sob q u e con d içõe s e la tom a ra con h e cim e n to d o a con te cid o. O m ito d e M a ca co-a ra n h a con clu i-se , e n tã o, b ru sca m e n te . O s h om e n s sa e m à p rocu ra d o a n im a l, le va n d o con sig o o xa m ã . Este se ofe re ce p a ra ir e n con trá -lo sozin h o, m a s é se g u id o p e los cu n h a d os, q u e m a ta m a m u lh e r e a filh a d e M a ca coa ra n h a . O xa m ã fog e , m a s é p e rse -g u id o e m orto p or e ste ú ltim o.

O m ito d e An ta te m u m fin a l m a is e la b ora d o. O xa m ã , p or ca u sa d a a m e a ça , d iz a se u s cu n h a d os q u e , ca so q u e ira m e n con tra r An ta , d e ve rã o p rocu rá -lo p or si m e sm os, m a s a q u e le s con tin u a m a p e rtu rb á -lo a té q u e e le se re n d e . M a is u m a ve z, a o a p roxim a re m -se d a a ld e ia d o a n im a l, o xa m ã p e d e p a ra p rosse g u ir sozin h o, m a s os cu n h a d os solta m se u s cã e s d e ca ça , q u e m a ta m a m u lh e r e a filh a d e An ta . An ta , e n tã o, ca ça e m a ta o xa m ã . Se g u e se m a is u m e p isód io, n o q u a l a m u lh e r d o ú ltim o p e rsu a -d e se u s irm ã os a vin g a r o m a ri-d o. Um -d os irm ã os, ou tro xa m ã , se rá a u xi-lia d o n a re a liza çã o d a ta re fa p or se u e sp írito fa m ixi-lia r, Esq u ilo, m a s An ta e sca p a , a p e sa r d a a rm a d ilh a m on ta d a com com id a p a ra e le . Se u d e stin o se rá fin a lm e n te se la d o e m u m in cid e n te cu rioso: d u ra n te u m a se ssã o xa m â n ica , An ta n ã o con se g u e re con h e ce r q u e os ob je tos n a tu ra is q u e lh e sã o m ostra d os con stitu e m a s p a rte s com p on e n te s d e u m a fle ch a . Em con-se q ü ê n cia , torn a -con-se vu ln e rá ve l. Este ú ltim o e p isód io d o m ito con firm a a a n im a lid a d e d e An ta , q u e n ã o é ca p a z d e re con h e ce r n os m a te ria is n a tu -ra is o p ote n cia l p a -ra u m ob je to cu ltu -ra l.

(15)

g ra n d e q u a n tid a d e a d icion a l d e in form a çõe s, m a s a d ve rte m se u s visi-ta n te s p a ra m a n te r tu d o e m se g re d o, ou se rã o m ortos. Sob a in flu ê n cia d a b e b id a , o se g re d o é re ve la d o, le va n d o à m orte d o xa m ã . O q u e é n otá -ve l e m a m b os os ca sos é a fa lta d e com u n ica çã o e n tre os d ois la d os. A h istória te m in ício se m q u e h a ja e n tre e le s q u a lq u e r con ta to; p or a ca so, e sta b e le ce -se u m a lin h a p ote n cia lm e n te p rofícu a d e com u n ica çã o, m a s e sta é fe ch a d a n ova m e n te d e vid o à e xig ê n cia , ta n to d e An ta q u a n to d e M a ca co-a ra n h a , d e q u e a su a p re se n ça se ja m a n tid a e m se g re d o. A fa lh a e m m a n te r o se g re d o a b re ca m in h o p a ra in cu rsõe s p re d a tória s q u e re su l-ta m e m m orte s d os d ois la d os. A n a tu re za d a re la çã o e n tre o in te rior e o e xte rior é b a se a d a e m tra içã o e e n g od o, e fa lh a e m e sta b e le ce r u m

m od u s v iv e n d i e n tre a s p a rte s. Isto fica b e m e xp lícito q u a n d o con sid e ra

-m os o te rce iro -m ito, b a sta n te d ife re n te d os ou tros — o d o e n con tro co-m o q u e ixa d a .

Este m ito p rin cip ia d e form a m u ito se m e lh a n te a os ou tros d ois. An ti-g a m e n te , n ã o h a via q u e ixa d a s n a s re d on d e za s, e os Tirió, e m b ora tive s-se m con h e cim e n to d e su a e xistê n cia , n ã o p od ia m e n con trá -los. De fa to, n a q u e la é p oca , n e n h u m d os a n im a is d e ca ça p re fe rid os e sta va d isp on íve l, e os q u e e xistia m e ra m p ou co a p e titosos (ta m a n d u á ) ou con sid e ra -d os ri-d ícu los e n q u a n to com i-d a (b e ija -flor). Um xa m ã foi p e rsu a -d i-d o a sa ir e m b u sca d e q u e ixa d a s, m a s a n te s d e p a rtir e xig iu q u e o ch e fe d a a ld e ia lh e g a ra n tisse q u e a q u e le , se e n con tra d o, se ria b e m tra ta d o. O xa m ã e xi-g e q u e o filh o d o ch e fe o a com p a n h e , e q u e lh e se ja forn e cid a com id a p a ra o q u e p re vê se r u m a lon g a via g e m . O xa m ã e o jove m p a rte m , e e n con tra m o ca m in h o b loq u e a d o p or u m a sé rie d e ob stá cu los; a tra ve s-sa m u m va sto rio, e e n tã o a trilh a d e s-sa p a re ce e m u m a a b e rtu ra n o solo. (Esta é a form a tra d icion a l com q u e os Tirió d e scre ve m a e n tra d a p a ra o n íve l cósm ico su b te rrâ n e o.) Alca n ça m , e n tã o, ou tro g ra n d e rio, a p ós o q u e e n fre n ta m vá rios ord á lios, im p ostos p or ta rta ru g a s g ig a n te s, cob ra s e ja g u a re s. Ve n ce m e sse s p e rig os e ch e g a m a u m b re jo d e p a lm e ira s, on d e se e n con tra a a ld e ia d os q u e ixa d a s. O xa m ã e o jove m ve ste m -se com o p a ra u m a d a n ça , e e n con tra m u m q u e ixa d a , q u e a p a re ce sob a form a d e u m h om e m . C u riosa m e n te , o xa m ã d irig e -se im e d ia ta m e n te a e le com o “ p a rce iro com e rcia l” , e lh e p e d e q u e os con d u za a o M e stre d os Q u e ixa d a s. O s Tirió sã o le va d os à a ld e ia , on d e h á m u ita g e n te re u n id a , b e b e n -d o, com e n -d o e rin -d o. Sã o, e n tã o, cu m p rim e n ta -d os p e la s p e ssoa s q u e , a p e sa r d e su a a p a rê n cia h u m a n a , e xib e m u m a ca ra cte rística p orcin a , g ol-p e a n d o os visita n te s com su a s ca b e ça s.

(16)

se g u n d o, p or su a ve z, d iz: “ n ã o m e ch a m e a ssim p orq u e você é m e u p a r-ce iro com e rcia l e , p orta n to, d e ve m e ch a m a r ‘a m ig o’” (ip aw an a). O xa m ã e xp lica e n tã o a o M e stre d os Q u e ixa d a s p or q u e vie ra m : q u e re m se u s se g u id ore s, isto é , os q u e ixa d a s. A con ve rsa çã o, com a m b a s a s p a rte s e xp on d o e n fa tica m e n te se u s m otivos, con tin u a p or m u ito te m p o — d ia e n oite ta lve z p or d e z d ia s. Isto fa z com q u e e le s p a re ça m e n volvid os e m u m d iá log o ce rim on ia l, a lin g u a g e m form a l d e n e g ocia çã o, e m b ora cu rio-sa m e n te som e n te m a is a d ia n te , n o m e sm o m ito, se a firm e e xp licita m e n te q u e o d iá log o ce rim on ia l foi u sa d o p e la p rim e ira ve z e e n sin a d o a os Tirió p e los q u e ixa d a s (Riviè re 1971). Ele s p e rm ite m q u e o M e stre d os Q u e ixa -d a s e xp e rim e n te a com i-d a q u e h a via m tra zi-d o, p rom e te n -d o-lh e q u e e sta e sta ria d isp on íve l p a ra se u s se g u id ore s q u a n d o fosse m visita r os Tirió. O M e stre é p ru d e n te , e a visa q u e os q u e ixa d a s fa ze m u m a g ra n d e b a g u n ça a o com e r (isto é , fa ze m g ra n d e s e stra g os n a s h orta s), m a s o xa m ã a firm a q u e , p re ve n id o, a ce ita rá o risco. Fica com b in a d o q u e os q u e ixa d a s irã o n o m om e n to d e vid o, m a s q u e a com id a d e ve rá se r d e ixa d a a o lon g o d o ca m in h o p a ra e le s. De p ois d isso, os d ois Tirió volta m p a ra ca sa , e m a n -d a m coloca r a com d a n a trilh a . N o fin a l -d a e sta çã o -d a s ch u va s, os q u e i-xa d a s a p a re ce m , e a d e scriçã o fe ita é m u ito se m e lh a n te à d a ch e g a d a d e u m a com itiva d e visita n te s h u m a n os, se n d o n e ssa oca siã o q u e os Tirió ou ve m o d iá log o ce rim on ia l p e la p rim e ira ve z. Fe ch a m a p a re n te m e n te u m a cord o, e m q u e os Tirió se com p rom e te m a tra ta r b e m os q u e ixa d a s, e a m a ta r a p e n a s u n s p ou cos d e ca d a ve z.

O fin a l d o m ito n ã o é in te ira m e n te fe liz. O s q u e ixa d a s m u ltip lica m -se , m a s n ã o sob a form a e m q u e fora m p rim e iro con h e cid os. Isto p orq u e , te n d o u m xa m ã viole n ta d o a filh a d o M e stre d os Q u e ixa d a s, e ste d e cid e , e m con se q ü ê n cia , tra n sform a r se u s se g u id ore s e m la g a rta s, e a ca rn e d e q u e ixa d a q u e os Tirió com e m a tu a lm e n te n ã o é n e m d e lon g e tã o b oa q u a n to fora n o p a ssa d o. Este é u m m otivo típ ico d a m itolog ia Tirió, q u e re m e te a u m a id a d e d e ou ro q u a n d o tu d o e ra m e lh or d o q u e a g ora e p od ia se r ob tid o com m u ito m e n os e sforço. Essa id a d e d e ou ro é in va ria -ve lm e n te p e rd id a e m virtu d e d e a lg u m a a çã o p e r-ve rsa ou d e sa stra d a com e tid a p or u m Tirió. Pod e -se ob se rva r ta m b é m q u e e sse m ito g u a rd a m u ita s sim ila rid a d e s com a s id é ia s tu k a n o — a d ife re n ça vita l é q u e a q u i se d á com id a e m troca d os q u e ixa d a s, e n ã o a lm a s h u m a n a s.

(17)

e n tre ig u a is q u e e n volve re cip rocid a d e e q u ilib ra d a e , fre q ü e n te m e n te , p rote la d a ; ou se ja , u m a re la çã o b a se a d a n a con fia n ça . O s te rm os d e ssa troca sã o a lim e n tos cu ltiva d os e re sp e ito, d e u m la d o, e u m su p rim e n to m od e ra d o d e ca ça , d e ou tro. Aq u i te m os e vid ê n cia s cla ra s d e u m a re ci-p rocid a d e n e g ocia d a e n tre a s socie d a d e s h u m a n a e a n im a l, e m oci-p osiçã o a o m a log ro e m e sta b e le ce r q u a lq u e r re la çã o d u ra d ou ra ob se rva d o n a s h istória s d e M a ca co-a ra n h a e d e An ta .

A q u e stã o q u e im e d ia ta m e n te se coloca é a d a d e te rm in a çã o d a d ife -re n ça e n t-re o q u e ixa d a , d e u m la d o, e a a n ta e / ou m a ca co-a ra n h a , d e ou tro. A re sp osta m a is ób via e im e d ia ta é q u e os q u e ixa d a s sã o re tra ta -d os com o le va n -d o u m a vi-d a m u ito sociá ve l; h á m u itos -d e le s n a a l-d e ia , com e n d o e b e b e n d o ju n tos, e tod os tê m a a p a rê n cia d e p e ssoa s. Em con -tra ste , ta n to An ta q u a n to M a ca co-a ra n h a vive m a p e n a s com m u lh e r e filh a (s), e n ã o h á n e n h u m in d ício d e q u e se ja m q u a lq u e r ou tra coisa se n ã o a n im a is. É ve rd a d e q u e , n a n a tu re za , os m a ca cosa ra n h a vive m ce rta -m e n te e -m g ra n d e s b a n d os, e a s a n ta s, e -m b ora -m e n os g re g á ria s, n ã o sã o solitá ria s; m a s os Tirió — com o é , e m g e ra l, o ca so n a Am a zôn ia — vê e m o q u e ixa d a com o u m a n im a l p a rticu la rm e n te sociá ve l. Em ou tra s p a la -vra s, e m u m con tin u u m d e socia liza çã o, os q u e ixa d a s sã o m a is socia liza

(18)

lici-ta d o, h á d ive rsa s ou tra s p islici-ta s q u e su ste n lici-ta m e ssa in te rp re lici-ta çã o, com o, p or e xe m p lo, o ca m in h o q u e le va a o su b solo.

Pe rg u n tom e q u a n to a d ife re n ça d e re su lta d os e n tre os e ve n tos — p re -d a çã o e vin g a n ça , -d e u m la -d o, e sca m b o e re cip roci-d a -d e , -d e ou tro — n ã o corre sp on d e ria à d ife re n ça e n tre tra ta r d ire ta m e n te com os a n im a is e tra ta r com o se u d on o. N ã o te n h o a re sp osta p a ra isto, m a s va le a p e n a e xa -m in a r a lg u n s ou tros a sp e ctos q u e d e -m on stra -m n ã o se re -m a s re la çõe s e n tre os Tirió e o m u n d o d os e sp íritos d e m od o a lg u m se m p re b e n ig n a s, con form e in d ica m os d ois m itos se g u in te s (M itos 49 e 50). Este s n ã o e n volve m h u m a n os e a n im a is, ou m e stre s d e a n im a is, m a s h u m a n os e e sp íritos. Aq u i, o ce n á rio é u m ta n to d ife re n te . O s d ois re la tos tra ta m d e xa m ã s d ire ta m e n te e n volvid os n a m orte d e u m p a re n te , q u e e n tã o visi-ta m a a ld e ia d os e sp íritos, on d e e ste s ú ltim os fa ze m e n tra r o m orto a m a r-ra d o com o se fosse ca ça . Em a m b os os ca sos o xa m ã se fa z a com p a n h a r d e u m n ã o-xa m ã q u e , d ife re n te m e n te d e le , n ã o se tra n sform a p a ra visi-ta r o m u n d o d os e sp íritos. N e sse m u n d o, o xa m ã u n e -se a os e sp íritos p a ra com e r o m orto, a q u e m vê , ta m b é m , com o ca ça .

Em b ora e u n ã o q u e ira d iva g a r, p od e m os re con h e ce r a q u i u m e xe m-p lo d o m-p e rsm-p e ctivism o d e Ed u a rd o Vive iros d e C a stro (1996b ), n a m e d id a e m q u e o n ã o-xa m ã , n ã o tra n sform a d o, vê o fa le cid o com o u m a p e ssoa m orta , e n q u a n to os e sp íritos, e o xa m ã p e rve rso, vê e m o ca d á ve r com o se n d o d e u m a n im a l d e ca ça . N os d ois ca sos, a vin g a n ça ca b e a o Tirió sob re vive n te e a se u s p a re n te s, re su lta n d o n a m orte d o xa m ã p e rve rso e d e m u itos e sp íritos. Ap e sa r d a s com p le xid a d e s a d icion a is re fe re n te s à p a rticip a çã o h u m a n a n os e ve n tos, fica m u ito cla ro q u e o te m a su b ja ce n te a e ssa s h istória s é o d a p re d a çã o d o m u n d o d os h u m a n os p e lo m u n d o d os e sp íritos: os e sp íritos vê e m os h u m a n os com o ca ça a se r m orta e le va d a p a ra su a s a ld e ia s com o a lim e n to. Pa ra vin g a r-se , os Tirió m a ta m os e sp íritos e os xa m ã s p e rve rsos. Em ou tra s p a la vra s, a s re la çõe s com a n a tu re za e o sob re n a tu ra l tom a m p a ra os Tirió u m a va rie d a d e d e form a s, p a ra -le la s à su a e xp e riê n cia socia l. C on form e ob se rva d o a n te riorm e n te , a s re la çõe s re a is e n tre os a sse n ta m e n tos te n d e m a oscila r e n tre a m iza d e e a n im osid a d e . Em a p a rte , e u p od e ria ta m b é m a cre sce n ta r q u e os Tirió vê e m os e sp íritos com con sid e rá ve l a m b iva lê n cia , n u n ca se se n tin d o se g u ros q u a n to a o re su lta d o d a in te ra çã o com e le s. C on tu d o, m e sm o se e sta re la çã o é con flitiva , n ã o h á su g e stã o d e q u e a p re d a çã o se ja u m a sp e cto d a re g e n e ra çã o. A p re d a çã o n ã o op e ra com o força m otriz ou re g e n e ra d ora d o cosm os.

(19)

De scola à in te ra çã o d os J íva ro com o m u n d o d os e sp íritos om ite m u ito d o q u e e le n os con ta e m ou tros tra b a lh os. Ele ob se rva q u e a re p rod u çã o h u m a n a e n volve e xclu siva m e n te troca s p re d a tória s n a e sfe ra d os h u m a -n os, e q u e a s re la çõe s com a -n im a is sã o sim ila re s. As M ã e s d a C a ça sã o, a tra vé s d o u so d e a fin id a d e fictícia e e n g a n osa , p e rsu a d id a s a ce d e r os a n im a is, se m , n o e n ta n to, n a d a re ce b e re m e m troca . Tod a via , n a re a lid a -d e , a re la çã o com a s M ã e s -d a C a ça é m a is com p le xa , com o o a u tor -d e ixa cla ro a lh u re s. As M ã e s d a C a ça im p õe m sa n çõe s a os ca ça d ore s q u e , p or m a ta re m e m e xce sso ou p or zom b a re m d e la s, d e sre sp e ita m su a re la çã o com os a n im a is. Alé m d isso, h á ta m b é m a re la çã o e n tre a s m u lh e re s e N u n-k u i, o e sp írito tu te la r d a s h orta s. Essa re la çã o d e ve ria se r d ire ta , h a rm o-n iosa e d e coo-n sta o-n te io-n te ra çã o (De scola 1994:192). N ã o d isp oo-n h o d e te m p o p a ra a va n ça r m a is, fico, n o e n ta n to, com a forte im p re ssã o d e q u e a s re la -çõe s d os Ach u a r com o m u n d o n a tu ra l/ sob re n a tu ra l con tê m m a is a sp e ctos d o q u e a q u e le s fa cilm e n te a com od á ve is sob a ru b rica d a “ p re d a çã o” .

Conclusão

Ad ve rti n o in ício d e q u e e ste a rtig o n ã o se e n ca m in h a va p a ra u m fin a l con clu sivo. Se e u fosse ob rig a d o a a p re se n ta r u m , a ch o q u e d iria se r p os-síve l m ostra r q u e a a firm a çã o d e De scola , d e q u e “ h á u m a h om olog ia e n tre o m od o com o a s p e ssoa s lid a m com a n a tu re za e o m od o com o tra -ta m u m a s à s ou tra s” , te m a lg u m a va lid a d e , m a s a p e n a s n o â m b ito d e d e -te rm in a d a s e vid ê n cia s e d e n tro d e ce rtos con -te xtos. O u tra s e vid ê n cia s n e g a m e ssa h om olog ia , ou ta lve z in d iq u e m u m a h om olog ia d ife re n te . Re d u zir a s re la çõe s d a socie d a d e , se ja n o se u in te rior, se ja com a n a tu re -za e o e xte rior, a u m ú n ico m od o, é p rova ve lm e n te p or d e m a is re d u cio-n ista . C e rta m e cio-n te , cio-n ã o p osso fa zê -lo cio-n o q u e toca a os Tirió; cio-n o e cio-n ta cio-n to, se e xa m in a rm os u m a va rie d a d e d e m od os, ca d a u m a d e q u a d o a se u con te xto, é p ossíve l, e n tã o, ve r cla ra m e n te q u e a lg u m a s re la çõe s e n tre h u m a -n os sã o h om ólog a s à q u e la s e -n tre se re s h u m a -n os e -n ã o h u m a -n os.

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m-Pe te r Riviè re é p rofe ssor-titu la r d e An trop olog ia Socia l d a Un ive rsid a d e d e O xford e Fe llow of th e Lin a cre C olle g e , In g la te rra . É a u tor, e n tre ou tra s p u b lica çõe s, d e M arriag e am on g th e Trio (1969) e In d iv id u al an d S ocie ty in G u ian a (1984).

p re ” p orq u e o d isse e m u m a re se n h a d e se u tra b a lh o e m 1966) q u e a s e sfe -ra s d e re cip rocid a d e d e Sa h lin s — g e n e -ra liza d a s, e q u ilib -ra d a s e n e g a ti-va s — sã o u m m od e lo q u e , se a p lica d o fle xíve l e con te xtu a lm e n te (com o q u e q u e ro d ize r se r n e ce ssá rio con sid e ra r q u e a s fron te ira s e n tre e sfe ra s e stã o e m con sta n te m ovim e n to, ou m e lh or, re n e g ocia çã o), é b e m a d e -q u a d o à situ a çã o a m a zôn ica . De ve m os le m b ra r -q u e o p róp rio Sa h lin s tin h a p le n a con sciê n cia d a in sta b ilid a d e d e ssa s e sfe ra s, te n d o ob se rva d o, a rg u ta m e n te , q u e a re cip rocid a d e e q u ilib ra d a e ra , p rova ve lm e n te , a for-m a for-m a is in stá ve l, te n d e n d o a tra n sforfor-m a r-se e for-m u for-m a d a s ou tra s. Esse s m od os d e in te ra çã o con stitu e m tra ços va riá ve is d e tod a s a s socie d a d e s a m a zôn ica s, se n d o p e rfe ita m e n te p ossíve l p re ve r q u e d e te rm in a d o g ru -p o se ja m a is forte m e n te ca ra cte riza d o -p or u m d os m od os q u e -p or ou tros, m a s é im p rová ve l q u e os e xclu a com p le ta m e n te5.

Re ce b id o e m 20 d e n ove m b ro d e 2000

Ap rova d o e m 15 d e ja n e iro d e 2001

Tra d u çã o: Dia n a An ton a z

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Notas

1 Pod e -se d ize r q u e a visã o ju d a ico-cristã d e vin g a n ça com o re cip rocid a d e

e q u ilib ra d a — a n oçã o d e olh o p or olh o — n ã o op e ra n e ce ssa ria m e n te n o con te x-to su l-a m e rica n o; e n e m , su sp e ix-to, n a p rá tica , e n tre os p ovos ju d a ico-cristã os. A vin g a n ça é in ca p a z d e com p e n sa r in te ira m e n te a p e rd a , p orq u e o q u e a p e ssoa p e rd e u é m a is va lioso q u e a q u ilo d e q u e p rivou o ou tro. N a s troca s m a trim on ia is, a m u lh e r q u e e u e n tre g o n u n ca é com p le ta m e n te p a g a p e la q u e re ce b o e m troca ; e o m e sm o n o h om icíd io. O m e m b ro d e m e u g ru p o, m orto p or você , n ã o é su b sti-tu íd o p e lo m e m b ro d o se u g ru p o, m orto p or m im , e vice -ve rsa . A vin g a n ça n u n ca a c e r t a a s c o n t a s; o c ic lo d e v io lê n c ia , físic a o u m íst ic a , n u n c a se fe c h a . E n e m p od e ria , é cla ro, se é e le a fin a l o m otocon tín u o q u e im p u lsion a o cosm os. A vin -g a n ça te m sid o fre q ü e n te m e n te a p on ta d a com o u m a força m otriz n a s socie d a d e s su l-a m e rica n a s, e p od e e n volve r re trib u içã o ta n to física q u a n to m ística , e m b ora u m a ta l d istin çã o p ossa n ã o se r fe ita p e la s p e ssoa s e n volvid a s.

2 N isso, a s d u a s p rá tica s p a rtilh a m ca ra cte rística s com a troca d ire ta e a

tro-ca g e n e ra liza d a , re sp e ctiva m e n te , m a s n ã o é m in h a in te n çã o e n tra r n e sse te rre n o.

3 Tod os os m itos a se g u ir, e a su a n u m e ra çã o, sã o re p rod u zid os d e Koe le

-w ijn e Riviè re (1987).

4 Até e n tã o, n a d a se sa b ia sob re a s a n ta s, e o fa to d e q u e e sta s q u a n d o a ssu

s-ta d a s b u sca m a b rig o n os rios con siste e m u m sa b e r im p ors-ta n te . Um a g ra n d e p ro-p orçã o d a s a n ta s ca ça d a s é m orta n os rios, ro-p orq u e é m a is fá cil ro-p e g á -la s a li.

5 Em a b ril d e 1999, m a n d e i u m a cóp ia d e u m e sb oço a n te rior d e ste a rtig o

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ri-Resumo

Este a rtig o se b a se ia n o a rg u m e n to d e Ph ilip p e De scola d e q u e h á u m a h om o-log ia e n tre a m a n e ira com o a s p e ssoa s tra ta m a n a tu re za e a m a n e ira com o se tra ta m e n tre si. Ele con tra sta os p ovos jí-va ro e tu k a n o – o p rim e iro org a n iza n d o a re la çã o e m te rm os d e p re d a çã o, o ú ltim o e m te rm os d e re cip rocid a d e . É in -trod u zid o u m te rce iro e le m e n to n a com p a ra çã o: a re g iã o d a s G u ia n a s, on -d e se e n con tra ria , se g u n -d o a h ip óte se a q u i form u la d a , u m ce rto g ra u d e a u tocon te n çã o d o g ru p o socia l e d e isola -m e n to d ia n te d a n a tu re za . Isto d e fa to é ve rd a d e , m a s é ta m b é m p ossíve l id e n tifica r, d e p e n d e n d o d os d a d os e d o con -te xto, re la çõe s p re d a tória s e re cíp roca s com a n a tu re za ou o e xte rior. É e n tã o su g e rid o q u e e ste se ja n ã o a p e n a s o ca -so d a s G u ia n a s, m a s d a Am a zôn ia d e u m m od o g e ra l.

Palavras-chave Am a zôn ia , G u ia n a s, Pre -d a çã o, Re cip roci-d a -d e , An im ism o

Abst ract

Th is p a p e r is b a se d on De scola ’s a rg u -m e n t th a t th e re is a n h o-m olog y b e tw e e n th e w a y in w h ich p e op le tre a t n a tu re a n d th e w a y in w h ich th e y tre a t e a ch oth e r. H e con tra sts th e J iva roa n p e op le s w ith th e Tu k a n oa n s; th e form e r org a n izin g th e re la tion sh ip in te rm s of p re -d a tion , th e la tte r re cip rocity. A th ir-d con tra st in th e form of th e G u ia n a re g ion is in trod u ce d a n d it is h yp oth e -size d th a t a d e g re e of se lf-con ta in m e n t, a n isola tion from n a tu re , w ill b e fou n d th e re . In fa ct it is, b u t it a lso p ossib le to id e n tify, d e p e n d in g on d a ta a n d con te xt, p re d a tory a n d re cip roca l re la tion -sh ip s w ith n a tu re or th e ou tsid e . It is su g g e ste d th a t th is is lik e ly to b e g e n e r-a lly th e cr-a se .

Referências

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