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Mana vol.7 número1

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Academic year: 2018

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(1)

Para o Portu g u ê s o coração é a m e d id a d e tod as as coisas. Jorg e Dias (1961a)

Esta a firm a çã o tã o con tu n d e n te sob re o “ ca rá te r lu sita n o” , vin d o d a q u e -le q u e ficou con h e cid o com o o m a ior a n trop ólog o p ortu g u ê s, -le va n ta a lg u m a s q u e stõe s e m torn o d a p róp ria d iscip lin a e m Portu g a l. De ce rta m a n e ira , e m m a is d e u m p e ríod o, a n trop ólog os e e tn óg ra fos p ortu g u e -se s fora m ch a m a d os a -se m a n ife sta r sob re o “ p ovo p ortu g u ê s” ou a s ca ra cte rística s d a “ n a çã o” , e m u m p roce sso q u e fa cilm e n te p od e ría m os a ssocia r à con stru çã o d e m itolog ias n acion ais, p a ra o q u a l con corre ra m ou tros u n ive rsos d iscip lin a re s e cu ltu ra is, ta is com o a h istória , a sociolo-g ia , a lite ra tu ra , a a rq u ite tu ra ou a m ú sica . N o q u e d iz re sp e ito à a n tro-p olog ia , o in te re sse e m d iscu tir o ca so tro-p ortu g u ê s d e corre d e d ois tro-p on tos fu n d a m e n ta is a b solu ta m e n te e n tre la ça d os: g ra n d e p a rte d o sé cu lo XX foi vivid o e m Portu g a l sob u m re g im e a u toritá rio e o im p é rio colon ia l p ortu g u ê s con d icion a rá , e m g ra n d e m e d id a , o (lim ita d o) d e b a te sob re a “ q u e stã o n a cion a l” , q u e r e m fu n çã o d o m a rco in stitu cion a l e xiste n te (cria d o p a ra a te n d e r à s d e m a n d a s d o u ltra m a r) q u e r com o con se q ü ê n cia d os te rm os a p a rtir d os q u a is se p od ia d e b a te r a n a çã o e o im p é rio. E é sob re u m a a n trop olog ia q u e ora d iscu te o “ im p é rio” , ora a “ n a çã o” q u e se d e b ru ça e ste a rtig o. A p a rtir d a p rod u çã o d e d ois a n trop ólog os p ortu -g u e se s in se rid os e m con te xtos h istóricos e in stitu cion a is e sp e cíficos — M e n d e s C orrê a e J org e Dia s —, p rocu ra re i a va n ça r n a m in h a h ip óte se ce n tra l: n o p e ríod o g e n é tico d a d iscip lin a e m Portu g a l, e a té o 25 d e a b ril d e 1974, n ã o é p ossíve l se p a ra r rig id a m e n te u m a a n trop olog ia q u e tin h a com o ob je to a n a çã o, d a q u e la q u e tin h a com o ob je to p re fe re n cia l o im p é rio.

Esta p re ocu p a çã o te ve su a orig e m n a ob se rva çã o d e te n d ê n cia s re ce n te s d a a n trop olog ia e m Portu g a l q u e re visita m su a tra d içã o te n d o

“O BOM POVO PORTUGUÊS”:

USOS E COSTUMES D´AQUÉM

E D´ALÉM-MAR*

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e m con ta a p e n a s a q u e la p rod u çã o volta d a p a ra o te rritório p e n in su la r e a s ilh a s a d ja ce n te s (M a d e ira e Açore s). Um im p é rio p ob re e m a rg in a l n ã o te ria p rod u zid o, com a lg u m a s e xce çõe s, u m a a n trop olog ia ou u m sa b e r sob re a d ive rsid a d e cu ltu ra l d e q u a lid a d e q u e va le sse a p e n a se r re cu p e ra d o n os d ia s q u e corre m , a o con trá rio d os d e b a te s e m torn o d o Portu g a l e u rop e u . Se ta l te n d ê n cia se te m m ostra d o p rod u tiva a o p rom ove r a a n á lise rom in u ciosa d e u rom a já lon g a tra d içã o e tn og rá fica p ortu -g u e sa — d e sta ca n d o os tra b a lh os d e J oã o Le a l (2000) —, p a re ce -m e q u e e la n ã o d á con ta d e u m e le m e n to ce n tra l: a s p róp ria s p e cu lia rid a d e s d e Portu g a l e n q u a n to n a çã o e u rop é ia q u e , p a ra se m a n te r e n q u a n to ta l, te ve q u e d e fe n d e r u m a e stru tu ra im p e ria l q u e p a ssa a con fu n d ir-se , p ro-g re ssiva m e n te , com a p róp ria n a çã o.

Antropologia da nação, antropologia do império

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N ã o é , con tu d o, e ssa e sca tolog ia e su a e xp re ssã o e m d istin tos ca m p os d e con h e cim e n to q u e ocu p a rá a a te n çã o d e ste e n sa io, a lg o já d iscu -tid o a lh u re s (Th om a z n o p re lo), m a s u m a sorte d e sa b e r e sp e cífico n o in te rior d o q u a l a s id é ia s d e n a çã o e im p é rio se cru za ra m con tin u a m e n -te : a a n trop olog ia . De fe n d o a id é ia d e q u e n ã o é p ossíve l com p re e n d e r a a n trop olog ia cie n tífica ou a s tra d içõe s e tn og rá fica s n a cion a is se m u m a a n á lise d os “ sa b e re s colon ia is” — a q u e le s con stitu íd os te n d o com o re fe -rê n cia os te rritórios colon ia is, com fin s a p lica d os ou n ã o. N oçõe s com o “ cu ltu ra ” ou “ d ive rsid a d e cu ltu ra l” fora m con ce b id a s e in te rp re ta d a s e m fu n çã o d os con te xtos n a cion a is e sp e cíficos e m con ju n to com a d in â -m ica i-m p e ria lista1.

A a n trop olog ia e m Portu g a l con fig u ra u m in te re ssa n te ca m p o d e re fle xã o2. C on sid e ra d a u m a tra d içã o d iscip lin a r m a rg in a l q u a n d o te m os

e m con ta os g ra n d e s ce n tros e u rop e u s, ce rta m e n te n ã o p od e se r com p a ra d a à s su a s con g ê n e re s n a Fra n ça e n a G rã Bre ta n h a . É in e g á ve l, con -tu d o, q u e o Esta d o N ovo3e m Portu g a l d ire cion ou e sforços con sid e rá ve is

n a con stitu içã o d e “ sa b e re s colon ia is” e d e u m a sé rie d e e stu d os sob re a “ cu ltu ra p ortu g u e sa ” n o in te rior d os q u a is a a n trop olog ia p a ssa ria a d e se m p e n h a r u m p a p e l ce n tra l e on d e , n a g ra n d e m a ioria d a s ve ze s, n ã o h a via u m a cla ra se p a ra çã o e n tre o “ n a cion a l” , o “ colon ia l” e o “ im p e ria l” .

Tom e m os com o re fe rê n cia e n con tros e con g re ssos d os q u a is tom a -va m p a rte , a lé m d e in d ivíd u os q u e se d e n om in a -va m “ a n trop ólog os” (n a s su a s m a is va ria d a s ve rsõe s) ou “ e tn óg ra fos”4, h istoria d ore s, g e óg ra fos,

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C olon ia l d o Porto, e m 1934, e o C on g re sso C olon ia l, org a n iza d o n o q u a -d ro -d a s fe stivi-d a -d e s -d e 19405. A org a n iza çã o d e sse s g ra n d e s e ve n tos só

foi p ossíve l g ra ça s a o e sforço d o Esta d o, d e se tore s d a socie d a d e , d e p e r-son a g e n s ce n tra is d a ce n a p olítica e cu ltu ra l p ortu g u e sa6e , e vid e n te

-m e n te , a u -m d e te r-m in a d o q u a d ro in stitu cion a l volta d o p a ra a p rod u çã o d e “ sa b e re s colon ia is” e m a rca d o p or u m a p re se n ça sig n ifica tiva d a a n trop olog ia ou , p e lo m e n os, d e in d ivíd u os q u e se d e fin ia m com o a n tro-p ólog os.

Sa b e -se q u e e m Portu g a l h á u m a lon g a tra d içã o d e e stu d os volta d a p a ra o “ folclore ” ou p a ra a “ cu ltu ra p op u la r” q u e te rá p rofu n d o im p a cto n a a n trop olog ia p rod u zid a n o p a ís a o lon g o d o sé cu lo XX (Pin a C a b ra l 1991; Le a l 2000) e q u e , a rrisco d ize r, a lim e n ta rá b oa p a rte d a s d iscu s-sõe s sob re a “ n a tu re za d o p ovo p ortu g u ê s” e sob re a “ id e n tid a d e n a cio-n a l” e ch e g a rá a a lim e cio-n ta r u m a d e te rm icio-n a d a id e olog ia d e Esta d o. Da d a a cre sce n te sob re p osiçã o d a s n oçõe s d e “ n a çã o” e “ im p é rio” , q u a l se ria a con ce p çã o d e “ p ovo p ortu g u ê s” h e g e m ôn ica a o lon g o d o Esta d o N ovo? Em q u e m e d id a u m a e stru tu ra p olítica — o im p é rio — p od e com p orta r g ru p os cu ltu ra is tã o d ife re n cia d os a p a rtir d a con ce p çã o h om og e n e iza -d ora -d e “ n a çã o”7? De q u e form a os e stu d os sob re os “ u sos e costu m e s”

d a s p op u la çõe s in d íg e n a s a ca b a va m p or in form a r u m a p rá tica p olítica e u m a visã o d e “ cu ltu ra p ortu g u e sa ” ? Q u a l a re la çã o e n tre a a n trop olog ia e o in d ig e n a to — q u a d ro le g a l con stru íd o p a ra d a r con ta d a s p op u la çõe s in d íg e n a s — e se u p ossíve l p a ra le lo com o corp ora tivism o8? De q u e

for-m a , e n fifor-m , os “ sa b e re s colon ia is” se a p rop ria va for-m d e con ce p çõe s in icia lm e n te p e n sa d a s p a ra d a r con ta d a “ a u te n ticid a d e ” d os p ovos d a p e n ín -su la e a rq u ip é la g os a d ja ce n te s?

Esta s q u e stõe s se fa ze m ce n tra is n a m e d id a e m q u e ob se rva m os q u e u m d os g ra n d e s tra u m a s d a h istória con te m p orâ n e a e m Portu g a l d iz re sp e ito, ju sta m e n te , à sob re p osiçã o d o “ im p é rio” à “ n a çã o” , ilu sã o só d e sfe ita p e la violê n cia d a g u e rra . C om o n os e n sin a H a n n a h Are n d t (1990), o im p é rio tra n scon tin e n ta l e re con h e cid a m e n te m u lticu ltu ra l é in com p a tíve l com in stitu içõe s n a cion a is: a “ n a cion a liza çã o” d o im p é rio a ca b a , forçosa m e n te , p or con stitu ir u m a crise n o e sp a ço p róp rio d a n a çã o. N o ca so p ortu g u ê s o p roce sso foi m a is g ra ve , p ois se d e u n o con -te xto d e u m re g im e a u toritá rio q u e ca la va u m p ossíve l d e b a -te p ú b lico e m torn o d o im p é rio ou d a n a çã o.

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u m p a n ora m a com p le xo d a p rod u çã o d e id é ia s e m Portu g a l. De te rm e -e i, -e m s-e g u id a , -e m p a rt-e d a p rod u çã o d -e M -e n d -e s C orrê a q u -e , a p -e sa r d -e e sq u e cid o p e la con te m p ora n e id a d e , foi con sid e ra d o u m d os g ra n d e s a n trop ólog os p ortu g u e se s e n tre a s d é ca d a s d e 30 e 40. À g u isa d e con -clu sã o, e te n d o com o fio con d u tor p a rte d a ob ra d e J org e Dia s, te ce re i a lg u m a s con sid e ra çõe s e m torn o d a id é ia d e “ b om p ovo p ortu g u ê s” , d e cisiva n o se n tid o d e re a firm a r o ca rá te r p a te rn a lista e a u toritá rio d o re g im e e d e d e fin ir p olítica s n a s colôn ia s e n a m e tróp ole . An te s, con tu -d o, fa re i u m a b re ve in cu rsã o n o u n ive rso p olítico p ortu g u ê s, p ois e stou con victo d e q u e a p a rticu la rid a d e a trib u íd a a os p roce ssos e m Portu g a l se d e ve , sob re tu d o, a o re g im e a u toritá rio a li in sta la d o d u ra n te b oa p a rte d o sé cu lo XX.

Saberes controlados: as estruturas da repressão e o Ato Colonial

A d é ca d a d e 30, a con ce n tra çã o d o p od e r n a s m ã os d e O live ira Sa la za r e a in stitu cion a liza çã o d o Esta d o N ovo com a C on stitu içã o d e 1933 a ssis-tiria m a o forta le cim e n to d e u m re g im e a u toritá rio q u e , e m vá rios a sp e c-tos, se a p roxim a va d os d e m a is fa scism os e u rop e u s9. Le va r a ca b o u m

d e b a te p ú b lico ou p e sq u isa s cie n tífica s sob re a s p op u la çõe s e os e sp a ços colon ia is ou sob re a s con d içõe s d e vid a e m Portu g a l e n con tra va e n tra ve s e lim ite s n a p róp ria e stru tu ra d o re g im e , n a ce n su ra d e im p re n sa , n o con -trole d a s in stitu içõe s e n a cria çã o e forta le cim e n to d a p olícia p olítica . Ta l siste m a re p re ssor e ste n d e u -se à s colôn ia s, m a n te ve -se a té a Re volu çã o d os C ra vos d e 1974 e tin h a com o a lvo q u e stõe s p olítica s e m ilita re s, m a s n ã o só: p e n e trou o u n ive rso m ora l e re lig ioso, a p rod u çã o cu ltu ra l, a con -d u ta in -d ivi-d u a l e o com p orta m e n to q u oti-d ia n o (M a rq u e s 1986:426).

Da d a a sob re p osiçã o d a s id é ia s d e p á tria e n a çã o a o e sp a ço u ltra m a rin o, a firm a d a n o Ato C olon ia l (1930) e n a C a rta O rg â n ica d o Im p é rio C olon ia l Portu g u ê s (1933), p od e se im a g in a r o ce rce a m e n to d o d e b a -te re la tivo à s colôn ia s. Prop osta s com o a d a ve n d a d a s colôn ia s ou m e sm o o se u sism p le s a b a n d on o, cosm a con tra p a rtid a d e u sm a volta a o Portu -g a l p e n in su la r — p ron u n cia d a s p or in te le ctu a is d e re n om e n o sé cu lo XIX, ta is com o O live ira M a rtin s e Eça d e Q u e iroz —, se ria m im p e n sá -ve is n o Esta d o N ovo10. De ssa form a , a o con trá rio d o q u e ocorre n a s

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op or-se à n a çã o; a ce n su ra im p e d irá e lim ita rá o a ce sso à e sfe ra p ú b lica d os p ossíve is a n ticolon ia lista s q u e com e ça m a su rg ir, sob re tu d o, a p a rtir d o p ós-g u e rra . A e xte n sã o d a p olícia p olítica (PIDE) a os te rritórios colo-n ia is sob re p ôs à violê colo-n cia q u otid ia colo-n a d o colocolo-n ia lism o ou tra s form a s d e violê n cia e re p re ssã o in stitu cion a is q u e tin h a m com o p rop ósito im p e d ir q u a lq u e r tip o d e m a n ife sta çã o n a cion a lista ou e m a n cip a tória p or p a rte d a s p op u la çõe s n a tiva s. A e stru tu ra d o re g im e e a im p ortâ n cia d a Ig re ja C a tólica n a con stitu içã o d a id e olog ia d e Esta d o e m e sm o a p re se n ça d e se u s q u a d ros e m d ife re n te s in stitu içõe s tive ra m u m p rofu n d o e fe ito n os ru m os d a a n trop olog ia (e d os a n trop ólog os) e m Portu g a l12.

Um a a n á lise d e q u a lq u e r ca m p o d e sa b e r e m Portu g a l sob re a s colô-n ia s e xig e , a ssim , u m a d iscu ssã o e m torcolô-n o d o m a rco le g a l q u e o cocolô-n tro-la , n o ca so, o Ato C olon ia l d e 1930, re d ig id o n o cu rto p e ríod o e m q u e Sa la za r a cu m u lou o M in isté rio d a s C olôn ia s com ou tra s fu n çõe s n o C on se lh o d e M in istros. A le g isla çã o se rá a q u i con sid e ra d a u m a “ re p re se n ta çã o p or e xce lê n cia ” , a p a rtir d a q u a l u m a socie d a d e ou u m g ru p o con -cre to p roje ta u m a im a g e m d e si q u e , g u a rd a n d o u m a re la çã o d in â m ica com a re a lid a d e q u e p re te n d e tra d u zir, d iscip lin a r ou m e sm o ob scu re -ce r, n ã o d e ixa d e con stitu ir u m e sp e lh o d e com o g osta ria d e se ve r e re p re se n ta r. N os te rm os d e M a n u e la C a rn e iro d a C u n h a (1992:2), se a le i n ã o p od e se r con fu n d id a com u m a d e scriçã o d a re a lid a d e , a re a lid a -d e n ã o p o-d e ig n ora r a su a e xistê n cia , q u e a tra n sform a . Ela é , e m si m e sm a , u sm a re a lid a d e , n a sm e d id a e sm q u e d iz re sp e ito à sm a n e ira cosm o g ru -p os d a cla sse d om in a n te re -p re se n ta m a ord e m socia l. Assim , -p re te n d o in se rir o Ato C olon ia l d e 1930 e ca rta s le g a is a e le corre la ta s n a d in â m i-ca d a “ cu ltu ra d o im p é rio” : p rod u to d e u m a d e te rm in a d a id e olog ia e d e u m a tra d içã o d o p od e r colon ia l p ortu g u ê s, p rocu ra va tra d u zir o q u e o im p é rio d e ve ria se r e d e q u e form a d e ve ria a tu a r n a s su a s te rra s, in te r-fe rir n a vid a d os n a tivos ou con d icion a r a m e n talid ad e e a s açõe s d o colo-n o p ortu g u ê s.

O h istoria d or Fe rn a n d o Rosa s ch a m a a a te n çã o p a ra a ce n tra lid a d e d o Ato C olon ia l d e 1930, te n d o e m vista o p róp rio lu g a r q u e o im p é rio p a ssou a ocu p a r n o con te xto d o Esta d o N ovo p ortu g u ê s, e a firm a q u e o

“ Ato C olon ia l d e fin e o q u a d ro ju ríd ico-in stitu cion a l g e ra l d e u m a n ova p

olí-tica p a ra os te rritórios sob d om in a çã o p ortu g u e sa . De n tro d a op çã o colon ia l

g lob a l d o Esta d o p ortu g u ê s, a b re se u m a fa se im p e ria l, n a cion a lista e ce n

-tra liza d ora , fru to d e u m a n ova con ju n tu ra e xte rn a e in te rn a e -tra d u zid a

n u m a d ife re n te orie n ta çã o g e ra l p a ra o a p rove ita m e n to d a s colôn ia s”

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Prom ove -se u m con ju n to d e d isp ositivos le g a is q u e , se p or u m la d o a firm a a op çã o p olítica ce n tra liza d ora , p or ou tro le va à s ú ltim a s con se q ü ê n cia s a n oçã o d a “ d ife re n ça d e e sta d o civiliza tório” e n tre a s “ p op u -la çõe s in d íg e n a s” d a s colôn ia s con tin e n ta is a frica n a s — e , a p a rtir d e 1946, d e Sã o Tom é e Prín cip e e d o Tim or — e os cid a d ã os m e trop olita -n os e os h a b ita -n te s d e C a b o Ve rd e , Esta d o d a Í-n d ia e M a ca u13. Tu d o isto

a o m e sm o te m p o q u e se p re g a va a “ n a cion a liza çã o” d os te rritórios colo-n ia is, q u e d e ve ria d a r-se colo-n os â m b itos e cocolo-n ôm ico e p olítico e ta m b é m “ cu ltu ra l” : os “ in d íg e n a s” e os h a b ita n te s d e tod a s a s colôn ia s p ortu -g u e sa s fa ria m p a rte d o corp o d a “ n a çã o p ortu -g u e sa ” , e sp a lh a d a p e los q u a tro ca n tos d o m u n d o. C ria va -se , a ssim , u m a e stru tu ra le g a l p a ra o im p é rio n a q u a l se p a ssa va a a ssociá -lo à id é ia d e “ n a çã o” ou a té m e s-m o a tra d u zi-lo p or e sta14.

Essa fórm u la le g a l e sp a n ta va (à p rim e ira vista ) a s a m e a ça s e stra n -g e ira s d os te rritórios u ltra m a rin os15, su g e rin d o, a in d a , a e xte n sã o d a s

in stitu içõe s m e trop olita n a s a os d om ín ios colon ia is. N o e n ta n to, n o p a rá -g ra fo 8od o d e cre to no16.473 — Estatu to Político, Civ il e Crim in al d os

In d íg e n as — a firm a se a in con sistê n cia d e ta l p rop ósito p or “ fa lta d e sig n ifica d o p rá tico” , d a d o o “ e sta d o d e su a s fa cu ld a d e s” e d a “ su a m e n ta -lid a d e d e p rim itivos” , re fe rin d o-se a os “ in d íg e n a s” . In stitu i-se , a ssim , o in d ig e n a to, tra n sfe rin d o-se p a ra o corp o le g a l a s d ife re n ça s d e e sta tu to e n tre os h a b ita n te s d a s d istin ta s colôn ia s d e fin id a s a p a rtir d os se u s “ u sos e costu m e s” , o q u e re p re se n ta ria u m a ru p tu ra com o “ a ssim ila cio-n ism o” , tra d içã o ca ra a d e te rm icio-n a d os círcu los m e trop olita cio-n os16.

O “ re e n con tro” com a “ tra d içã o a ssim ila cion ista ” foi p ossíve l e m fu n -çã o d o “ g ra d u a lism o” q u e viria a m a rca r a in corp ora -çã o d os “ in d íg e n a s” n o corp o p olítico e e sp iritu a l d a n a çã o, p re g a d a p e lo n ovo cód ig o le g a l. Essa in corp ora çã o “ g ra d u a l” a ca b ou p or im p rim ir u m ca rá te r m e ssiâ n ico e te m p ora l a o p roje to colon ia l p ortu g u ê s. C on firm a se le g a lm e n te o e sta -tu to d e “ a ssim ila d o” , in d ivíd u o q u e log ra u m “ a lva rá d e cid a d a n ia ” a p a r-tir d a a ssu n çã o d os h á b itos, d a cu ltu ra e d a lín g u a p ortu g u e se s. O ob je tivo fin a l d o in d ig e n a to se ria in corp ora r os a frica n os e tim ore n se s à civiliza -çã o e u rop é ia e , in te g ra lm e n te , à n a çã o p ortu g u e sa . C a b ia a o p od e r p ortug u ê s cod ifica r os “ u sos e costu m e s” d os d istin tos ortug ru p os é tn icos d o im p é -rio, se m in te rfe rir d e form a con tu n d e n te n a org a n iza çã o socia l e xiste n te e n o d ire ito con su e tu d in á rio17.Pod e r-se -ia , a ssim , m e lh or a d m in istrá -los, re

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Um a p rim e ira le itu ra d o De p oim e n to d e M a rce lo C a e ta n o18e m e

s-m o d e a lg u n s d os ite n s d o Estatu to In d íg e n a ou d o Ato C olon ia l su g e re o Esta d o N ovo com o u m a in stitu cion a lid a d e re sp e itosa d a s tra d içõe s n a tiva s e m e sm o p rote tora d a e sp e cificid a d e cu ltu ra l d os d istin tos g ru -p os e socie d a d e s q u e se e n con tra va m sob o se u d om ín io. N o e n ta n to, a le itu ra d e ou tros ite n s, se ja d o Ato C olon ia l, se ja , sob re tu d o, d o Cód ig o d o Trab alh o d os In d íg e n as d as Colôn ias Portu g u e sas d e Á frica, d e d e ze m -b ro d e 1929, con fe re ou tra d im e n sã o a u m a le g isla çã o a p a re n te m e n te p rote tora e ze losa d os in d íg e n a s: o con trole e fica z d os re cu rsos h u m a n os d os te rritórios colon ia is, sob re tu d o d a s colôn ia s con tin e n ta is a frica n a s.

A con stru çã o d e u m m od e rn o im p é rio colon ia l e xig ia u m e fe tivo a p rove ita m e n to d os re cu rsos físicos d a s colôn ia s, o q u e im p lica va a su a tra n sform a çã o e m e xp orta d ora d e m a té ria s-p rim a s e p rod u tos trop ica is e im p orta d ora d e p rod u tos m a n u fa tu ra d os d a m e tróp ole . Tra ta va -se , e vi-d e n te m e n te , vi-d e u m p roce sso m a is g e ra l vi-d o im p e ria lism o con te m p orâ n e o. N o e n ta n to, d e p a ra m on os, n o ca so d e Portu g a l, com u m a in d ú stria p ou -co -com p e titiva ; a n a cion a liza çã o d os te rritórios -colon ia is, ta l -com o e xp re ssa n o Ato C olon ia l, tra zia com o con tra p a rtid a a ob rig a torie d a d e d o con -su m o d e p rod u tos d a s colôn ia s a frica n a s p ortu g u e sa s m u ita s ve ze s a u m p re ço su p e rior à q u e le d o m e rca d o. O corolá rio d e ste p roce sso e ra o e n g a -ja m e n to d o tra b a lh a d or a frica n o, tra n sform a d o e m m ã o-d e -ob ra b a ra ta ou m e sm o n ã o re m u n e ra d a . O Cód ig o d o Trab alh o In d íg e n a m a n ife sta u m d u p lo m ovim e n to: d e u m la d o, a p rote çã o d o a frica n o d os m ú ltip los m e ca n ism os d e tra b a lh o força d o (e scra vo) q u e in va d e m o sé cu lo XX — e , com isto, u m tru n fo d ia n te d a s con sta n te s d e n ú n cia s q u e a tin g e m Por-tu g a l p or p a rte d a s d e m a is p otê n cia s q u e a m b icion a va m os se u s te rritó-rios; d e ou tro, a g a ra n tia n e ce ssá ria d o tra b a lh o (com p u lsório) a frica n o.

O Cód ig o d o Trab alh o d o Esta d o N ovo p rocu ra rá , e fe tiva m e n te , p ro-te g e r os in d íg e n a s d o tra b a lh o com p u lsório, com o p od e m os ob se rva r n a s su a s “ Disp osiçõe s G e ra is” ou n o a rtig o 18od o Ato C olon ia l. N o e n ta n to,

ou tros ite n s coloca m e m q u e stã o a d isp osiçã o d o Esta d o d e re a lm e n te p rote g e r os n a tivos d a s a rb itra rie d a d e s q u e vin h a m ca ra cte riza n d o o se u re cru ta m e n to: a rtig os re fe re n te s a o “ tra b a lh o ob rig a tório” d o Ato C olo-n ia l ou d o Cód ig o p e rm itirã o d istin ta s le itu ra s q u e fa rã o com q u e , d e fato, o tra b a lh o com p u lsório p e rsista n a s colôn ia s a té p e lo m e n os a d é ca -d a -d e 60.

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s-crita e m u m a clá u su la p e la q u a l o in d íg e n a p od e ria ve r-se força d o a o tra b a lh o n ã o d e se ja d o. Vá rios a rtig os d o Cód ig o d e Trab alh o a ca b a va m p or la n ça r os n a tivos — cria n ça s, a d u ltos e id osos — n a s m ã os d a s a u to-rid a d e s p ú b lica s loca is — n a m a ior p a rte d a s ve ze s con ive n te s com os p roje tos p a rticu la re s d os colon os m e trop olita n os ou d a s e m p re sa s d e e xp lora çã o colon ia l.

En fim , o Ato C olon ia l e a s C a rta s a e le corre la ta s — q u e p e rm a n e -ce rã o e m vig or a té o in ício d a d é ca d a d e 60 — a ca b a va m p or fixa r u m a n oçã o d e “ u sos e costu m e s” b a sta n te se m e lh a n te à q u e la u tiliza d a p e los a n trop ólog os p ortu g u e se s d e e n tã o: a d ive rsid a d e cu ltu ra l, con ju g a d a com a id é ia d e “ e stá g ios d e d e se n volvim e n to” , con sa g ra va le g a lm e n te a d e sig u a ld a d e e stru tu ra l d o im p é rio e a trib u ía a o Esta d o o p a p e l tu te -la r e d e a d m in istra çã o d a p rog re ssiva a ssim i-la çã o d a p op u -la çã o n a tiva a o corp o p olítico e e sp iritu al d a n a çã o. E m a is: tra n sfe ria p a ra a e ssê n cia d a n a çã o o fa to d e p ossu ir e a g ir n os te rritórios colon ia is, a d m in istra r e colon iza r. Evid e n te m e n te , ta l e sforço d e ve ria se r a com p a n h a d o p or u m a re fle xã o e m torn o d a p róp ria re a lid a d e d e sse s te rritórios rig id a m e n te vig ia d a p e la s e stru tu ra s d o Esta d o N ovo.

Saberes coloniais: inst it uições, alt a cult ura e burocracia

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i-çõe s. N o e n ta n to, e sta s e xistira m , m a lg ra d o a a va lia çã o n e g a tiva q u e a lg u n s e stu d iosos a p re se n ta m d e su a p rod u çã o (cf., e n tre ou tros, Pé llis-sie r 1979; M a rg a rid o 1975; G a llo 1988).

O h istoria d or Re n é Pé llissie r (1979) fa z re fe rê n cia à s se g u in te s in s-titu içõe s e xiste n te s n a m e tróp ole : o In ss-titu to Su p e rior d e C iê n cia s Socia is e Política Ultra m a rin a — re form u la çã o d a Escola Su p e rior C olon ia l —, o M u se u d e Etn olog ia d o Ultra m a r d e Lisb oa — q u e , e m con ju n to com o p e q u e n o m u se u d e e tn olog ia d o Porto, u m m u se u e m C oim b ra e su a s se çõe s e m Lisb oa , p ossu iria ve rd a d e iros “ te sou ros” e tn ológ icos, e n tre -ta n to m a l ca -ta log a d os e d e d ifícil a ce sso a o p ú b lico —, a M issã o d e Pe sq u isa s Ag rôn om a s (Ta p a d a d a Aju d a ) e o La b ora tório N a cion a l d e En g e -n h a ria C ivil. Esta s d u a s ú ltim a s i-n stitu içõe s se ria m d e ca rá te r té c-n ico e volta d a s e sp e cifica m e n te p a ra u m a m e lh or e xp lora çã o d os re cu rsos n a tu ra is d a s colôn ia s a frica n a s. Em An g ola , Pé llissie r lista o In stitu to An g ola n o d e Pe sq u isa C ie n tífica e o M u se u d e An g ola — a m b os e m Lu a n d a — e os M u se u s d o C on g o, n a a n tig a C a rm on a , d e Uíla , n a a n ti-g a Sá d a Ba n d e ira , e d o Du n d o19.

Pod e -se cita r ou tra s in stitu içõe s vin cu la d a s à p rod u çã o d e u m sa b e r colon ia l: a p ion e ira Socie d a d e d e G e og ra fia d e Lisb oa — re sp on sá ve l p or u m a re sp e itá ve l tra d içã o d e e stu d os q u e tin h a m com o ob je to, sob re -tu d o, a s colôn ia s a frica n a s —, a J u n ta d e In ve stig a çõe s C ie n tífica s d o Ultra m a r, fu n d a d a e m 1883, o In stitu to d e M e d icin a Trop ica l e a s p ró-p ria s fa cu ld a d e s d e m e d icin a e ciê n cia s d e Lisb oa e d o Porto, e m ró-p a rti-cu la r e sta ú ltim a20. N o u ltra m a r, sob re ssa e m a Escola M é d ica d e N ova

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colon ia l ca p ita lista , sob re tu d o se com p a ra m os com os ca sos d e An g ola e M oça m b iq u e . É n a G u in é q u e a a n trop olog ia e a e tn og ra fia , p a ra n ã o fa la r d os e stu d os clá ssicos sob re o d ire ito con su e tu d in á rio d e fu la s, fe lu -p e s e m a n d in g a s, a lca n ça rã o u m a m a ior q u a lid a d e .

Pod e -se con sid e ra r a fu n d a çã o d a Socie d a d e d e G e og ra fia d e Lis-b oa , e m d e ze m Lis-b ro d e 1875, q u e te ve à su a fre n te o p u Lis-b licista , p olítico e e scritor Lu cia n o C ord e iro, com o u m m a rco n a p rod u çã o d e u m “ sa b e r colon ia l” e m Portu g a l. G rosso m od o, a su a cria çã o re p re se n tou u m a cor-re n te d o p e n sa m e n to colon ia lista p ortu g u ê s m od e rn o q u e p rocu rou fa ze r com q u e Portu g a l re tom a sse o lu g a r q u e lh e com p e tiria n o p a n ora m a in te rn a cion a l, n ã o a p e n a s p a rticip a n d o d e d e b a te s sob re o con h e cim e n -to d os te rritórios trop ica is, m a s ta m b é m forn e ce n d o su b síd ios a o Esta d o p a ra q u e p u d e sse p a rticip a r d a “ corrid a à África ” . Pa ra p od e r g a ra n tir u m a d e m a rca çã o d e fron te ira s fa vorá ve l a os in te re sse s p ortu g u e se s, u m d iscu rso q u e la n ça sse m ã o a p e n a s d e “ d ire itos h istóricos” n ã o e ra su fi-cie n te : fa zia -se n e ce ssá rio com p rova r u m re a l con h e cim e n to e d om ín io d o u ltra m a r. N e sse se n tid o, os m e m b ros d a Socie d a d e d e G e og ra fia p re s-sion a ra m o Esta d o p a ra a n g a ria r fu n d os e a ssim fin a n cia r via g e n s à Áfri-ca , p u b liÁfri-ca çõe s e tc.21.

De sd e os se u s p rim órd ios a Socie d a d e d e G e og ra fia p re viu a cria -çã o d e u m a Escola Su p e rior C olon ia l, p roje to q u e se con cre tizou n o in í-cio d o sé cu lo XX22. Su a ca p a cid a d e d e form a r a d e q u a d a m e n te q u a d ros

b u rocrá ticos e in te le ctu a is e m a lta cu ltu ra colon ia l te m sid o a va lia d a n e g a tiva m e n te . N o e n ta n to, é in e g á ve l a e xistê n cia d e u m p roje to colo-n ia l ta colo-n to colo-n o p la colo-n o d a Escola q u a colo-n to colo-n os re su lta d os d os tra b a lh os d os a lu n os e p rofe ssore s — p roje to e ste m a rca d o p e la corre n te colon ia lista p rom otora d a Socie d a d e d e G e og ra fia d e Lisb oa , p e lo tra u m a q u e su ce -d e u o u ltim a to b ritâ n ico (q u a n -d o, e m 1891, o Re in o Un i-d o e xig iu q u e Portu g a l a b risse m ã o d os se u s su p ostos in te re sse s n os te rritórios q u e lig a va m An g ola a M oça m b iq u e ) e forte m e n te in flu e n cia d o p e la “ g e ra -çã o d e 1895” — g ru p o d e colon ia lista s re sp on sá ve l p or u m a re fle xã o e m torn o d a m e lh or form a d e ocu p a r e e xp lora r a s colôn ia s a frica n a s23.

C on ce b id a com o u m ce n tro com a d u p la fu n çã o d e form a r os q u a -d ros -d o im p é rio e -d e p ro-d u zir u m a lto sa b e r colon ia l, a Escola p a ssou p or u m con ju n to d e re form a s, a s m a is p rofu n d a s le va d a s a ca b o e n tre o in ício d a d é ca d a d e 50 e 1961 — con se q ü ê n cia d ire ta d a m u d a n ça d e e sta tu to le g a l d os e sp a ços u ltra m a rin os e d o p róp rio e sta tu to d a s p op u -la çõe s n a tiva s24. Se u s ob je tivos, con sig n a d os n a a ta d e fu n d a çã o, e ra m :

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su p e rior), e g a ra n tir a os d ip lom a d os a p re fe rê n cia n o p rovim e n to d os ca rg os a d m in istra tivos colon ia is25.

É im p orta n te sa lie n ta r q u e a d e m a n d a p e la fu n d a çã o d e u m a Esco-la Su p e rior C olon ia l se fa zia n o in te rior d e u m m ovim e n to in te le ctu a l — p re se n te n a s d e m a is p otê n cia s colon iza d ora s — q u e p re con iza va u m a “ ocu p a çã o cie n tífica ” d os te rritórios u ltra m a rin os. Ta l id é ia d e “ ocu p a çã o” p re ssu p u n h a n ã o a p e n a s a n oçã o d e q u e se ria n e ce ssá rio “ con h e -ce r” p a ra m e lh or “ d om in a r” , m a s, sob re tu d o, a d e q u e o p ro-ce sso colo-n iza d or d e ve ria se r orie colo-n ta d o p or p re ssu p ostos ve rd a d e ira m e colo-n te cie colo-n tí-ficos, sob a é g id e d e u m a “ ciê n cia colon ia l” . “ Sa b e r” , “ d om in a çã o” e “ e xp lora çã o” colon ia l e sta ria m , n os te rm os d os p róp rios in te le ctu a is colon ia lista s26, a b solu ta m e n te im b rica d os: o con trole d os n a tivos (d a su a

força d e tra b a lh o) e d os te rritórios colon ia is (a e xp lora çã o a d e q u a d a d os se u s re cu rsos físicos) se ria e fica z q u a n d o orie n ta d o p or p re ssu p ostos cie n tíficos; o se u fim se ria a in corp ora çã o p le n a d os in d íg e n a s a o corp o p olítico e e sp iritu a l d a n a çã o.

Em b ora os p rob le m a s d e ve rb a s fosse m crôn icos, n a s p rim e ira s d é ca d a s d o Esta d o N ovo a Escola Su p e rior C olon ia l e n con trou con d i-çõe s p a ra d e se n volve r-se : o Ato C olon ia l e a C on stitu içã o cria ria m ta l org a n icid a d e e n tre a s colôn ia s e a m e tróp ole q u e a form a çã o d e q u a d ros p a ra o im p é rio se con ve rte ria e m u m a n e ce ssid a d e d e Esta d o. E m a is, a “ q u e stã o colon ia l” a lca n ça ria g ra n d e e fe rve scê n cia n ã o a p e n a s e m Por-tu g a l, m a s ta m b é m e m ou tra s m e tróp ole s colon ia is. Em tod a s a s e xp osi-çõe s u n ive rsa is re a liza d a s n o e n tre g u e rra s, os p a vilh õe s colon ia is e e tn o-g rá ficos o-g a n h a ra m in u sita d o d e sta q u e , e e m 1931 re a lizou -se e m Pa ris a m a is e sp e ta cu la r e xp osiçã o colon ia l d e tod os os te m p os, à q u a l m u itos a lu n os d a Escola Su p e rior C olon ia l com p a re ce ra m . A n ova g e ra çã o d e colon ia lista s p ortu g u e se s p od e ria te r, a ssim , u m q u a d ro m a is p re ciso d e p roce ssos q u e d izia m re sp e ito à in corp ora çã o (ou n ã o) d os in d íg e n a s ou d os p rog re ssos log ra d os p e la s d e m a is p otê n cia s colon iza d ora s.

Pod e m os ob se rva r a p a rtir d os A n u ários q u e , a o lon g o d a s d é ca d a s d e 30 e 40, a p re se n ça d e p rofe ssore s d a Escola foi con sta n te n ã o a p e -n a s e m co-n g re ssos colo-n ia is -n a cio-n a is, com o ta m b é m e m i-n ú m e ros e n con tros in te rn a cion a is. O M in isté rio d a s C olôn ia s e a Escola p rom ove -ria m , a in d a , g ra n d e s e ve n tos, com o S e m an as d e A rte N e g ra27ou m e sm o

re u n iõe s in te rn a cion a is, com o a II C on fe rê n cia In te rn a cion a l d e Africa -n ista s O cid e -n ta is, org a -n iza d a p or M e -n d e s C orrê a , e m Bissa u , e m 194828,

q u e con ta ria com o a p oio d e p e rson a lid a d e s com o Da rryl Ford e , Th e o-d ore M on oo-d e Pa u l Rive t29, ou a re u n iã o d o In stitu to In te rn a cion a l

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c-tu a is p orc-tu g u e se s n o d e b a te in te rn a cion a l e g a ra n tir a e xp re ssã o d a s su a s in ve stig a çõe s e d os p róp rios ru m os d a colon iza çã o lu sita n a31.

M endes Corrêa e os “usos e cost umes” d’aquém e d’além-mar

A re form a d e 1946, im p u lsion a d a p e lo e n tã o m in istro d a s C olôn ia s, M a r-ce lo C a e ta n o, foi re a liza d a q u a n d o d a s r-ce le b ra çõe s d os q u a re n ta a n os d a Escola e e m u m con te xto in te rn a cion a l ca m b ia n te , n o q u a l o fu tu ro d a s colôn ia s se m ostra va n ova m e n te in ce rto. É n e sse m om e n to q u e , sob in d ica çã o d o m in istro, a su a d ire toria é a ssu m id a p or u m in te le ctu a l d e re n om e , o a n trop ólog o p ortu e n se An tôn io Au g u sto Este ve s M e n d e s C or-rê a , q u e h á m u ito se d e d ica va a o e stu d o d os “ in d íg e n a s” d os e sp a ços colon ia is p ortu g u e se s32.

C on sid e ra d o o “ p rim e iro a n trop ólog o p ortu g u ê s”33, d ou tor e m m e

-d icin a p e la Un ive rsi-d a -d e -d o Porto, M e n -d e s C orrê a -d e sta cou -se p or d e se n volve r e stu d os q u e , p a rtin d o d a a n trop olog ia física e d a a n trop olo-g ia crim in a l, p a ssa m ca d a ve z m a is p or u m e n foq u e ora “ e tn op sicolóolo-g ico” , ora h istórico e cu ltu ra l, se m , con tu d o, a b a n d on a r ja m a is d e te rm in a -d os p ostu la -d os -d a b iolog ia34. Sob re ssa iu -se a in d a com o p rom otor d o I

C on g re sso d e An trop olog ia C olon ia l N a cion a l, q u e te ve lu g a r n o Porto e m 1934, p or oca siã o d a I Exp osiçã o C olon ia l Portu g u e sa . N a Exp osiçã o C olon ia l d e 1934, p rofe ssore s e a lu n os, sob a coord e n a çã o d e M e n d e s C orrê a , re a liza ra m e stu d os a n trop om é tricos e in q u é ritos ju n to a os in d í-g e n a s vin d os d a s colôn ia s a frica n a s, d a Ín d ia , d e M a ca u e d o Tim or35.

O s e stu d os re a liza d os n o Porto se m ostra ria m fu n d a m e n ta is p a ra u m a a p re e n sã o tota liza d ora d os p ovos q u e com p u n h a m o im p é rio colon ia l p ortu g u ê s, e fora m siste m a tica m e n te re cu p e ra d os n a su a ob ra d e m a tu -rid a d e Raças d o Im p é rio, p u b lica d a e m 1945.

(14)

“ V in t e m ilh õ e s d e p o r t u g u e se s c o m p õ e m e ssa m u lt id ã o e m q u e t a m a n h a

d ive rsid a d e n ã o im p e d e u m a u n id a d e e sse n cia l d e a sp ira çõe s e in te re sse s,

u m a solid a rie d a d e fra te rn a , a e xistê n cia d u m a a m p la e p e rfe ita com u n id a d e

n a cion a l, b a se a d a sim u lta n e a m e n te n a h istória , n a p olítica , n u m se n tim e n to

p rofu n d o d e sim p a tia e com p re e n sã o u n ive rsa lista ” (1945:604).

Log o n o in ício d e Raças d o Im p é rio, M e n d e s C orrê a sa lie n ta a n e -ce ssid a d e d e n ã o d e sp re za rm os o con -ce ito d e “ ra ça ” e m fa vor d o d e “ cu ltu ra ” : a m b os e sta ria m p rofu n d a m e n te re la cion a d os. De ssa form a , o a n trop ólog o p ortu g u ê s n ã o a p e n a s re cu p e ra su a tra je tória com o se con tra -p õe à s corre n te s d a m od e rn a a n tro-p olog ia d e e n tã o q u e q u e stion a va m a im p ortâ n cia e xce ssiva q u e e scola s a n trop ológ ica s oitoce n tista s con fe -ria m à n oçã o d e “ ra ça ” , a firm a n d o a ssim o ob je to p rivile g ia d o d a a n tro-p olog ia , a “ cu ltu ra ” . M e n d e s C orrê a d e ixa va cla ra su a otro-p çã o tro-p or u m e stu d o q u e con sid e ra sse os a sp e ctos b iológ icos e h e re d itá rios d e ca d a g ru p o h u m a n o, b e m com o se u s com p orta m e n tos p sicossocia is, su a a p ti-d ã o m a ior ou m e n or a o tra b a lh o e su a p roti-d u çã o cu ltu ra l. Su a op çã o te ó-rica e m e tod ológ ica g a n h a m a ior se n tid o q u a n d o a te n ta m os p a ra a su a p rop osta d e tra b a lh o: d a r con ta d a tota lid a d e d a s “ ra ça s” q u e con vive m n o in te rior d e u m a e stru tu ra p olítica , o im p é rio, q u e , n a ve rd a d e , tra d u z u m a n a çã o e xtre m a m e n te h e te rog ê n e a n a m u ltip licid a d e d os p ovos q u e a h a b ita m , m a s n e m p or isto ca re n te d e u m a u n id a d e d e e sp írito.

Da “ ca b e ça ” d o im p é rio e ilh a s a d ja ce n te s (a q u e m d e d ica m a is d a m e ta d e d e su a ob ra ), M e n d e s C orrê a d irig e -se à s colôn ia s u ltra m a rin a s: C a b o Ve rd e , Sã o Tom é e Prín cip e , Sã o J oã o Ba tista d e Aju d á , An g ola , M oça m b iq u e , Ín d ia , M a ca u e Tim or. O s a rq u ip é la g os a tlâ n ticos e o forte d e Sã o J oã o Ba tista d e Aju d á sã o fru tos e xclu sivos d a ob ra d e Portu g a l; já os d e m a is te rritórios, te ria m a su a p róp ria p ré h istória , m a s é a p re -se n ça p ortu g u e sa q u e os situ a e m u m a m e sm a corre n te e volu tiva . Pa ra ch e g a r a e sta s con clu sõe s, o a u tor com b in a d a d os a rq u e ológ icos e fon -te s h istórica s p ortu g u e sa s com in form a çõe s e tn og rá fica s ob tid a s n o ca m-p o ou ju n to a os in d íg e n a s n a Exm-p osiçã o C olon ia l d o Porto d e 1934. Da e xtre m a d ive rsid a d e é tn ica e cu ltu ra l d os n a tivos d e sse s te rritórios, p a s-sa a in form a çõe s g e n é rica s sob re a s a tu a is te n d ê n cia s sociod e m og rá fi-ca s, “ u sos e costu m e s” , fe itiça ria , cre n ça s e re lig iã o e , a in d a , a p tid ã o m a ior ou m e n or p a ra o tra b a lh o b ra ça l ou in te le ctu a l36. C h e g a , p or fim ,

à s m od e rn a s con d içõe s d e colon iza çã o, à situ a çã o d os colon os b ra n cos e a os p rob le m a s re la tivos à m e stiça g e m .

(15)

Ve rd e —, e te n d o ofe re cid o à n a çã o vig orosos fru tos, a m e stiça g e m n ã o é , con tu d o, a con se lh á ve l d e form a in te n sa e e m tod a a e xte n sã o d o im p é -rio, sob p e n a d e o p ovo p ortu g u ê s d ilu ir su a s p a rticu la rid a d e s e n tre te r-ra s e g e n te s e str-ra n h a s e d ista n te s d a m a triz37. Q u a n d o tra ta d e “ A p

olítica d e p op u la çã o d o Im p é rio” , o a n trop ólog o con clu i q u e , se n a a u sê n -cia d a m u lh e r b ra n ca a m e stiça g e m é q u a se “ in e vitá ve l e fa ta l” , e la n ã o d e ve se r u m a re g ra n a tota lid a d e d o im p é rio, sob p e n a d e “ q u e b ra d a con tin u id a d e h istórica ” d o p ovo p ortu g u ê s. O m e stiço se ria u m a q u e stã o a m a is d e “ p olítica in d íg e n a ” , d e ve n d o se r d a d o a e le u m tra ta m e n -to ju s-to e h u m a n o e , q u a n d o e ste m a n ife sta sse “ p e rfe ita id e n tifica çã o” com o “ se n tir, a s te n d ê n cia s e a sp ira çõe s d o p ovo p ortu g u ê s” , p od e ria se r, in clu sive , in corp ora d o n o ca m p o d a p olítica e a d m in istra çã o g e ra l d o p a ís (M e n d e s C orrê a 1945:620). O a n trop ólog o a te n u a , a ssim , o ju ízo m a n ife sta d o p or oca siã o d o C on g re sso d e 1934, q u a n d o a firm ou im e n sa p re ocu p a çã o d ia n te d a m e stiça g e m :

“ O s p rob le m a s b iológ icos e socia is d o m e stiça m e n to, e m tod a a su a in te n

si-d a si-d e a n g u st io sa e si-d r a m á t ic a , n ã o p r e o c u p a r a m , p o r e x e m p lo , a in si-d a su

fi-cie n te m e n te os n ossos in ve stig a d ore s. Vã o se r, n ã o p od ia m d e ixa r d e se r,

d e b a tid os n e ste C on g re sso, e sq u e cid os p or a ssim d ize r d e sd e e sse s te m p os

d ou ra d os e m q u e o g ra n d e Afon so d e Alb u q u e rq u e fa vore cia o cru za m e n to

d e p ortu g u e se s com m u lh e re s in d íg e n a s, e sforça n d o-se p or le g a liza r ju ríd

i-ca e re lig iosa m e n te a s u n iõe s con tra íd a s com ta m a n h o d e se m b a ra ço q u e a té ,

se g u n d o re za m a s crôn ica s, u m b a n q u e te e m q u e se fe ste ja va m sim u lta n e a

-m e n t e v á r io s -m a t r i-m ô n io s, a c a b o u p e la c o n fu sã o d o s c a sa is u n s c o -m o s

ou tros, n u m a tre m e n d a org ia p a g ã ”38.

(16)

or-tu g u e sa e d os “ u sos e cosor-tu m e s” d os p ovos in d íg e n a s: é n a g a ra n tia p olí-tica d a p re se rva çã o d a d ife re n ça e n o se u e stu d o a p a rtir d os m e ios a n trop ológ icos q u e te ría m os a re p rod u çã o h ie rá rq u ica d a d e sig u a ld a d e , e com isto a p e rp e tu a çã o d o im p é rio.

Su a p ostu ra n ã o é , a ssim , m u ita d istin ta d a q u e la a p re se n ta d a n o C on g re sso C olon ia l d e 1940, q u a n d o d iscorre , e n tre ou tros te m a s, a ce rca d e u m a “ a n trop olog ia d a m e stiça g e m ” . A d iscip lin a e ra vista , n a q u e le m om e n to, com o p e rte n ce n te a o ca m p o d a s ciê n cia s n a tu ra is, e os e stu -d os n a á re a a te n ta va m p a ra a s ca ra cte rística s “ b iológ ica s” e “ p síq u ica s” d os in d ivíd u os ou g ru p os; o ob je tivo e ra a n a lisa r u m a d e te rm in a d a “ re a -lid a d e ” (o m e stiço) p a ra d e fin ir su a p ossib i-lid a d e d e a p rove ita m e n to (ou n ã o) p a ra o p roje to colon ia l p ortu g u ê s d o Esta d o N ovo. As q u e stõe s q u e se coloca va m e ra m : com o se com b in a m a s h e ra n ça s d e p a is d e ra ça s d is-tin ta s n a p role m e stiça ? Se ria e sta m a is ou m e n os fé rtil q u e os se u s p ro-g e n itore s (q u e stã o d e sca rta d a ra p id a m e n te p or M e n d e s C orrê a )? C om o se d á a h e re d ita rie d a d e d e ca ra cte re s in fe riore s e su p e riore s? Se e ra e vi-d e n te p a ra M e n vi-d e s C orrê a q u e a colon iza çã o e a form a çã o vi-d o Bra sil só tin h a m sid o p ossíve is g ra ça s à m e stiça g e m , ta m b é m o e ra a h e g e m on ia p olítica , m e n ta l e e con ôm ica d o e le m e n to b ra n co, a p e sa r d a a lta p rop or-çã o d e m e stiços, n e g ros e ín d ios n a p op u la or-çã o b ra sile ira39.

Em tod o o ca so, se o Bra sil e ra “ b om p a ra p e n sa r” , a in d a n ã o se con stitu ía com o u m “ e xe m p lo” a se r se g u id o n a s n ova s cole tivid a d e s lu sita n a s e m form a çã o, sob re tu d o n a s colôn ia s a frica n a s40. Tra ta va -se ,

(17)

“ N ós q u e re m os e le va r os in d íg e n a s a o m a is a lto g ra u d e civiliza çã o, cria m os

p a ra e le s e scola s, a lg u m a s d a s q u a is d istrib u e m u m e n sin o m u ito a va n ça d o,

m a s q u e re m os q u e o in d íg e n a g u a rd e o se u e sp írito in d íg e n a , e q u e n ã o se ja

u m a cóp ia m á d o e sp írito e u rop e u ... N a d a d e m istu ra s e n tre in d íg e n a s e

e u rop e u s”41.

Se m p roib ir o ca sa m e n to e n tre ita lia n os e n a tivos, o fa scism o tom ou p rovid ê n cia s p a ra im p e d ir ta is “ u n iõe s ile g ítim a s” . A le m b ra n ça d a m e s-tiça g e m b ra sile ira p rovocou , a in d a , viva s m a n ife sta çõe s d e re p ú d io p or p a rte d os re p re se n ta n te s b e lg a s, q u e sa lie n ta ra m a s d isp osiçõe s d o g ove rn o d o C on g o d ia n te d os m u la tos: ob rig a çã o d e q u e u m p a i b e lg a a ssu m isse o filh o ile g ítim o com u m “ n a tu ra l” ; p e n a s se ve ra s p a ra os e u rop e u s q u e d e sre sp e ita sse m u m a m u la ta ou com e la tive sse m m a n ti-d o re la çõe s e xtra con ju g a is; a ti-d oçã o ti-d e u m a p olítica ti-d e a ssim ila çã o ti-d os m u la tos, im p e d in d o q u e se form a sse m a ssocia çõe s d e sta ou p a ra e sta cole tivid a d e , a o m e sm o te m p o q u e se lim ita va a a tu a çã o d os m u la tos e m org a n ism os b e lg a s42. Ao q u e tu d o in d ica , n o C on g o o m u la to se ria u m

“ se m lu g a r” : su p osta m e n te se p rom ovia su a a ssim ila çã o e , con com ita n te m e n te , lh e e ra ve ta d a a p ossib ilid a d e d e a ssocia çã o ou d e p a rticip a -çã o e m a ssocia çõe s b e lg a s.

M a s, o q u e p e n sa o a n trop ólog o p ortu g u ê s? Em n om e d a “ ciê n cia ” , e le a in d a n ã o p od e tom a r u m a p osiçã o p re cisa d ia n te d a m e stiça g e m : a s com b in a çõe s se ria m ta n ta s q u e os m e stiços p od e ria m se r “ m a u s” ou “ b on s” , se ja e m fu n çã o d a s ca ra cte rística s d os se u s p rog e n itore s, se ja e m fu n çã o d a a çã o d o te m p o ou d o m e io. Em n om e d a p á tria , M e n d e s C orrê a a ca b a p or d e sa con se lh a r a m e stiça g e m : o vig or d a ra ça p od e r-se -ia p e rd e r e r-se ria in e vitá ve l “ a d issolu çã o d o Portu g a l m u ltisr-se cu la r, o fim d e u m a ca d e ia vita l in in te rru p ta e g loriosa ”43— q u e stã o q u e , com o

já vim os, e le re tom a ria e m Raças d o Im p é rio.

C on cord o, a ssim , com M á rio M ou tin h o, e m tra b a lh o re ce n te m e n te p u b lica d o: a m e stiça g e m foi, a o lon g o d e b oa p a rte d o Esta d o N ovo, p olí-tica e an trop olog icam e n te d e sa con se lh á ve l. N e sse se n tid o, M e n d e s C or-rê a e stá e m a b solu ta con son â n cia com p olíticos colon ia lista s d o p orte d e M a rce lo C a e ta n o q u e , e m u m te xto d e n om e “ M oça m b iq u e ” , p u b lica d o n o n ú m e ro 2 d a Re v ista d o Ultram ar a firm a :

“ N u m p on to d e ve re m os se r rig orosos q u a n to à se p a ra çã o ra cia l: n o re sp e

i-ta n te a os cru za m e n tos fa m ilia re s ou oca sion a is e n tre p re tos e b ra n cos, fon te

d e p e rtu rb a çõe s g ra ve s n a vid a socia l d e e u rop e u s e in d íg e n a s, e orig e m d o

(18)

i-co, tã o con trove rtid o e sob re o q u a l m e n ã o ca b e tom a r p osiçã o, a o m e n os

sob o a sp e cto sociológ ico. M a s se con vé m e vita r ou re p rim ir e sse s cru za m e n

-tos ra cia is, o q u e n ã o ju stifica é q u a lq u e r h ostilid a d e con tra os m e stiços, só

p or o se re m , p ois n ã o lh e s ca b e a cu lp a d e te re m n a scid o, e se e rro p a te rn o

h ou ve n ã o é ju sto q u e o p a g u e m com o vítim a s in oce n te s. H á q u e re sp on sa

-b iliza r os p a is q u e a -b a n d on e m os filh os m e stiços a u m d e stin o in ce rto; e n ã o

p od e a socie d a d e d e sin te re ssa r-se d a sorte d e sse s e le m e n tos q u e p od e rã o

se r, q u a n d o e d u ca d os, e le m e n tos ú te is n a ob ra colon iza d ora , a ssim com o,

a b a n d on a d os e m ise rá ve is, se p od e ria m torn a r e m p e rig osos a g e n te s p e rtu

r-b a d ore s” (ap u d M ou tin h o 2000:75).

Pod e se a firm a r q u e o a n trop ólog o M e n d e s C orrê a foi u m d os a ra u -tos d o “ sa b e r colon ia l” p ortu g u ê s e n tre os a n os 30 e 40, e q u e a su a p ro-d u çã o in te le ctu a l e ra a b solu ta m e n te coe re n te com os p rin cíp ios ro-d o Ato C olon ia l e com a p róp ria p olítica colon ia l p ortu g u e sa , coe rê n cia q u e a ca -b ou p or e xp licita r a s p róp ria s con tra d içõe s e p a ra d oxos d o siste m a : o im p e ra tivo d a a ssim ila çã o com o ríg id o siste m a d o in d ig e n a to (q u e fa zia com q u e os “ a ssim ila d os” a ca b a sse m p or re p re se n ta r u m a p a rce la m ín i-m a d a p op u la çã o d a s colôn ia s a frica n a s); a a firi-m a çã o d a d ive rsid a d e cu l-tu ra l d o im p é rio com o re su lta d o d a força l-tu te la r d o Esta d o, a o m e sm o te m p o q u e se g a ra n tia a su p re m a cia d o e le m e n to b ra n co; u m a p ostu ra a m b íg u a n o q u e d iz re sp e ito a os m e stiços (d e m og ra fica m e n te in sig n ifica n te s n a s socie d a d e s colon ia is), vistos sim u lta n e a m e n te com o re p re -se n ta n te s d o “ h u m a n ism o cristã o” q u e tra d icion a lm e n te a com p a n h a ria o colon iza d or lu sita n o, e com o im a g e m d o p e rig o d a su a p róp ria d e g e -n e ra çã o e m te rra s trop ica is. Pre te -n d ia -se , p or fim , u m a a ssim ila çã o rig o-rosa m e n te con trola d a q u e g a ra n tisse a h ie ra rq u ia d o p róp rio im p é rio e a con tin u id a d e d a n a çã o n a s colôn ia s: g ra n d e con tra d içã o se n ã o tive rm os e m con ta q u e a via b ilid a d e d a m e tróp ole e ra vista , a o lon g o d o Esta d o N ovo, com o a re p rod u çã o d a h ie ra rq u ia e d a força tu te la r d o Esta d o sob re o p ovo. Im p é rio e n ação se im b rica m n a ob ra d o a n trop ólog o. Su a visã o d os p ovos d o im p é rio e sta va rig orosa m e n te d e a cord o com a p olítica p rom ovid a p e lo Esta d o N ovo: corp ora tivism o n a m e tróp ole , in d ig e n a to n a s colôn ia s. O corp ora tivism o p a te rn a lista e n ca ixa va se p e rfe ita m e n -te com a visã o q u e se con stru ía d o “ p ovo p ortu g u ê s” e q u e e n con tra ria su a m a te ria liza çã o p le n a n o Se cre ta ria d o d e Prop a g a n d a N a cion a l (SPN ), coord e n a d o p or An tôn io Fe rro44. O se u e stu d o Raças d o Im p é rio

(19)

“O bom povo port uguês”

Re fle xõe s sob re o “ p ovo p ortu g u ê s” , su a “ p sicolog ia é tn ica ” e “ id e n ti-d a ti-d e n a cion a l” tê m u m a im p orta n te tra ti-d içã o e m Portu g a l. J oã o Le a l (1999b ; 2000) a p on ta os in te le ctu a is d o ú ltim o te rço d o sé cu lo XIX com o os re sp on sá ve is p e los p role g ôm e n os d e u m d e b a te e m torn o d a “ p sico-log ia é tn ica d o p ovo p ortu g u ê s” e re con strói u m a tra d içã o in te le ctu a l q u e , cru za n d o b oa p a rte d o sé cu lo XX, a ca b a ria p or d e se m b oca r n os e stu d os d e “ ca rá te r n a cion a l” , cu jo p rin cip a l e xp oe n te e m Portu g a l se ria o a n trop ólog o J org e Dia s (ve r, p . e x., Dia s 1953)45. Q u a is se ria m a s con

-se q ü ê n cia s, n o q u e ta n g e à s p op u la çõe s d os te rritórios colon ia is, d a re fle xã o siste m á tica sob re “ id e n tid a d e p ortu g u e sa ” ? E a in d a : q u a l a su a re le vâ n cia p a ra o fu n cion a m e n to d o Esta d o a u toritá rio?

A p a rtir d a s ob ra s d e M e n d e s C orrê a e J org e Dia s p od e m os a ta r a s re fle xõe s sob re a m e tróp ole e sob re a s colôn ia s. M e n d e s C orrê a e xp re s-sa u m im p é rio q u e se q u e r n ação e su a s p op u la çõe s, ra cia l e cu ltu ra l-m e n te tã o d ife re n te s, o sã o sol-m e n te e l-m a p a rê n cia : o il-m p e ra tivo d a a ssi-m ila çã o e a e stru tu ra h ie rá rq u ica d a n a çã o fa ria ssi-m d e tod os p ortu g u e se s. E se o im p é rio se re p rod u z n a m a n u te n çã o d a h ie ra rq u ia e d a d ife re n ça , ta m b é m a n a çã o se re p rod u ziria d a m e sm a form a . Ta l p roce sso só se ria p ossíve l a p a rtir d a n oçã o d e “ b om p ovo p ortu g u ê s” p re se n te n o id e á rio sa la za rista , n a s ca n çõe s d e Am á lia Rod rig u e s, n os g ra n d e s ritu a is p ú b li-cos (a Exp osiçã o d o M u n d o Portu g u ê s d e 1940) e , ce rta m e n te , n a ob ra d e a n trop ólog os p ortu g u e se s vin cu la d os à s in stitu içõe s sa la za rista s. C h e -g a m os, a q u i, e m u m a p a rte d a ob ra d e J or-g e Dia s volta d a p a ra a d e fin i-çã o d e u m a “ p e rson a lid a d e -b a se ” d o “ p ovo p ortu g u ê s” e m te rm os d a q u a l os in d íg e n a s d a s d ife re n te s colôn ia s se fa ria m se n tir e n q u a n to u m a n e ce ssid ad e in a lie n á ve l d o p róp rio “ se r p ortu g u ê s” .

J org e Dia s con fig u ra u m ca so ú n ico d a a n trop olog ia e m Portu g a l46:

(20)

tra b a lh os d e M e n d e s C orrê a e os d e J org e Dia s, q u e p a re ce m con ve rg ir n a con ce p çã o d a e xistê n cia d e u m “ b om p ovo p ortu g u ê s” a q u é m e a lé m -m a r — n oçã o tã o ca ra a o re g i-m e e q u e se d e sfa rá e -m -m il p e d a ços d ia n te d a violê n cia d a g u e rra .

C on sid e ra d o com o u m d os re n ova d ore s d a a n trop olog ia e m Portu -g a l (Pin a C a b ra l 1991:28), J or-g e Dia s d e fe n d e su a te se d e d ou tora d o sob re a a ld e ia com u n itá ria d e Vila rin h o d a Fu rn a n a Un ive rsid a d e d e M u n iq u e , n os d u ros a n os d a Se g u n d a G u e rra M u n d ia l, p a ra e m 1944 d e sloca r-se p a ra Sa n tia g o d e C om p oste la , on d e p e rm a n e ce a té 1947. Em b ora se u s com e n ta d ore s o d ista n cie m d e q u a lq u e r id e á rio tota litá rio, su a p a ssa g e m p e la Ale m a n h a n o p e ríod o n a zista e p e la Esp a n h a fra n -q u ista d e n ota u m a tra je tória , n o m ín im o, a m b íg u a .

É p e la s m ã os d e M e n d e s C orrê a — d e q u e m p rocu ra rá se d ista n -cia r p oste riorm e n te — q u e J org e Dia s re torn a a Portu g a l p a ra tra b a lh a r in icia lm e n te n o C e n tro d e Estu d os d e Etn og ra fia Pe n in su la r, a ssocia d o a o In stitu to d e An trop olog ia d a Fa cu ld a d e d e C iê n cia s d a Un ive rsid a d e d o Porto. J á n os a n os 50, com cla ra in flu ê n cia n orte -a m e rica n a , J org e Dia s e se u s d iscíp u los fa ze m u m a sé rie d e “ e stu d os d e com u n id a d e ” e , e m 1957, é con vid a d o p e lo M in isté rio d o Ultra m a r p a ra d irig ir a s M issõe s d e Estu d o d as M in orias Étn icas d o Ultram ar Portu g u ê s, q u a n d o re a -liza , com u m a e q u ip e , e stu d os sob re os ch op e s d o su l d e M oça m b iq u e , sob re os b ôe re s e b osq u ím a n os d o su l d e An g ola e , sob re tu d o, sob re a s p op u la çõe s m a con d e d o n orte d e M oça m b iq u e47.

Su a situ a çã o con fortá ve l e m con te xtos a u toritá rios n ã o d e ve se r n e g lig e n cia d a : d o p on to d e vista con ce itu a l, a visã o “ cu ltu ra lista ” q u e g a n h a corp o a o lon g o d e su a ob ra n ã o d e ixa d e a lim e n ta r a p róp ria id e olog ia sa la za rista ; e se u p oste rior com p rom isso com o colon ia lism o sa la za rista fica e vid e n te n os re la tórios q u e se p re d isp õe a e n via r a o M in isté -rio d o Ultra m a r, d e ta lh a n d o a s con d içõe s socia is e p olítica s d os p ovos visita d os48. Se é cla ro, com o ch a m a a a te n çã o J oã o d e Pin a C a b ra l, q u e

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N ã o te n h o a in te n çã o a q u i d e d iscu tir d e form a siste m á tica o lu g a r d a ob ra d e J org e Dia s n o d e b a te sob re a “ id e n tid a d e p ortu g u e sa ” . In te -re ssa -m e e n fa tiza r a con ce p çã o fixa d a p or e ste in te le ctu a l e m torn o d e d ois a sp e ctos fu n d a m e n ta is: o “ ca rá te r” d o p ovo p ortu g u ê s e su a im p or-tâ n cia n a d e fin içã o d e su a tra je tória e xp a n sion ista e im p e ria l. Dia log a n d o com o cu ltu ra lism o, Dia s n ã o ch e g a a con clu sõe s m u ito d ife re n te s d a q u e -la s d e M e n d e s C orrê a , a b solu ta m e n te d e a cord o, sa lie n to, com a id e olo-g ia oficia l p rom ovid a p e lo re olo-g im e : se p a ra M e n d e s C orrê a a raça d e fin i-ria u m a sé rie d e con sta n te s q u e se i-ria m re ve la d ora s d e u m e sp írito p ortu -g u ê s, p a ra J or-g e Dia s e ssa s con sta n te s e sta ria m e xp re ssa s n a cu ltu ra, q u e d e fin iria u m a id e n tid ad e p ortu g u e sa d istin ta d a d os ou tros p ovos la tin os.

É e vid e n te q u e p a ssa r d o con ce ito d e “ ra ça ” p a ra o con ce ito d e “ cu ltu ra ” re ve la u m p a sso cru cia l n a h istória d a a n trop olog ia e m Portu -g a l. N o e n ta n to, d o p on to d e vista p olítico, a s le itu ra s a q u e e ssa n oçã o d e “ cu ltu ra ” se p re stou fora m a b solu ta m e n te con se rva d ora s: a “ cu ltu ra p ortu g u e sa ” d e fin iria u m “ p a d rã o” q u e te n d e ria a se re p rod u zir a o lon g o d o te m p o (d a h istória ) e d o e sp a ço (a g e og ra fia d o im p é rio). A e stru -tu ra p olítica d o Esta d o N ovo e d o im p é rio colon ia l p or-tu g u ê s d e ve ria se a p roxim a r d e ssa re a lid a d e d o e sp írito e q u a lq u e r tip o d e d ista n cia m e n to d e ssa “ p e rson a lid a d e b a se ” d o “ b om p ovo p ortu g u ê s” , com o a violê n -cia e xp re ssa p e lo siste m a colon ia l, o tra b a lh o força d o p rom ovid o p e la a d m in istra çã o p ortu g u e sa e p e los colon os e tc. — ob se rva d o e d e scrito p or J org e Dia s n os re la tórios e la b ora d os sob re a s re g iõe s visita d a s —, d e ve ria p ron ta m e n te se r corrig id o: tra ta va -se d e a lg o e stra n h o a o s e r p ortu g u ê s, n a tu ra lm e n te a fá ve l n o tra to com os p ovos e xóticos.

(22)

J oã o Le a l (1999b :20) a firm a q u e , p a ra J org e Dia s, “ o ca rá te r n a cio-n a l p ortu g u ê s é se m p re visto com o u m a coisa e o se u cocio-n trá rio” : d oce e viole n to, solitá rio e solid á rio… tu d o con ve rg in d o p a ra u m a in te rp re ta çã o d o “ se r p ortu g u ê s” a p a rtir d e u m con ju n to d e se n tim e n tos q u e , e vid e n -te m e n -te , d e se m b oca ria n a id é ia d e sau d ad e49. E se “ a s q u a lid a d e s con

-tra d itória s sob re a s q u a is se a p oia ria o ca rá te r n a cion a l p ortu g u ê s se ria m q u a lid a d e s situ a d a s n o u n ive rso d a s e m oçõe s e d os se n tim e n tos” (Le a l 1999b :17), o p aís n e ce ssitav a, e v id e n te m e n te , d e u m Estad o forte , au to-ritário, p ara con trolar os se u s e x ce ssos e m otiv os ao m e sm o te m p o q u e lh e d á v oz . Um se r p rofu n d a m e n te e m otivo n e ce ssita ria — ta l com o in d í-g e n a s p rim itivos d a s d ife re n te s colôn ia s sob a d m in istra çã o p ortu í-g u e sa — d e u m a e stru tu ra p olítica forte : n a s colôn ia s, o in d ig e n a to; n a m e tró-p ole , o cortró-p ora tivism o, in stitu cion a lid a d e s cria d a s n o se n tid o d e con tro-la r os e xce ssos p róp rios d o “ e sp írito lu sita n o” . Pe rce b e -se a ssim q u e , e m b ora a “ p olítica d o e sp írito” p rop u g n a d a p or An tôn io Fe rro já a p re -se n ta s-se sin a is d e m orb id e z n os a n os 50, a p róp ria id é ia d e u m “ e sp írito p ortu g u ê s” , e xp re ssã o d e u m a ra ça ou d e u m a cu ltu ra , é re tom a d a e só é p a ssíve l d e d e fin içã o a p a rtir d a a p rop ria çã o d a im a g e m d o in d íg e n a , tra n sform a d o e m a g e n te p a ssivo d o p roce sso — a m oroso e a m á ve l — d e a ssim ila çã o (d e a n te m ã o, tra ta -se d e u m p ortu g u ê s).

M á rio M ou tin h o (1982), a o a n a lisa r a s re la çõe s e n tre a p rod u çã o e tn ológ ica e o colon ia lism o, a p on ta p a ra o p a p e l d a a n trop olog ia n a le g i-tim a çã o d o Esta d o N ovo ta n to n a m e tróp ole com o n a s colôn ia s. Esta se d a ria , ta lve z, m a is d e u m a p e rsp e ctiva id e ológ ica d o q u e p rop ria m e n te p e lo forn e cim e n to d e su b síd ios p a ra a a çã o d o Esta d o. Se u tra b a lh o é su rp re e n d e n te n o se n tid o d e a tre la r a fin s p olíticos o p e n sa m e n to d e in te le ctu a is re con h e cid os e b a sta n te sofistica d os q u e , com o J org e Dia s, d a va m u m a visã o “ m e ssiâ n ica ” d a m issã o cu ltu ra l p ortu g u e sa n o m u n -d o, o q u e a p a rticu la riza ria e m fa ce -d a s -d e m a is a çõe s colon iza -d ora s50.

Ab solu ta m e n te com p rom e tid os com a id e olog ia im p e ria l d a é p oca — q u e p ou co te m p o d e p ois se tra n sform a rá n o lu so-trop ica lism o51—,

(23)

s-sõe s d a Un iã o In d ia n a e a ocu p a çã o d e Da d ra e N a g a r-Ave li (a g osto d e 1954) e o m a ssa cre d o Pin jig u iti e m Bissa u (a g osto d e 1959), e n tre ou tros a con te cim e n tos, a n u n cia va m m u d a n ça s p rofu n d a s n o u ltra m a r p ortu -g u ê s, d e form a q u e os e stu d os a p a rtir d e e n tã o d e se n volvid os sob os a u sp ícios d a Escola p rocu ra rã o d a r con ta d a d in â m ica n a tiva , a o m e sm o te m p o q u e b u sca rã o p rova r a o m u n d o u m con h e cim e n to p re ciso d os p ovos e d a s m a n ife sta çõe s cu ltu ra is d os “ p ortu g u e se s” d os q u a tro ca n -tos d o m u n d o.

É sig n ifica tivo o fa to d e q u e foi o le va n te d os p ovos d a s colôn ia s q u e colocou e m xe q u e u m a visã o d e “ b om p ovo p ortu g u ê s” . Aq u é m e a lé m -m a r, a fixa çã o d os “ u sos e costu -m e s” d e d ife re n te s p ovos a ca b a ra p or crista liza r u m a re la çã o e n tre n a çã o e im p é rio d e n a tu re za e sca tológ i-ca n o in te rior d a q u a l orig e m e d e stin o se ria m in se p a rá ve is. C on tra os “ u sos e costu m e s” , re stou a g u e rra e m u m e sforço e m a n cip a tório q u e a ca b ou p or re ve la r a fa lá cia d a id é ia d e u m “ b om p ovo p ortu g u ê s” e d e id e n tid a d e s cu ltu ra is su b sta n tiva s q u e a h ie ra rq u ia d o im p é rio d e via p re se rva r. Dos d ois la d os d a s trin ch e ira s o q u e se ob se rva va e sta va lon -g e d o id e a l id ílico q u e m u itos a cre d ita va m e xistir e m Portu -g a l e n a s su a s “ p rovín cia s u ltra m a rin a s” . E se J org e Dia s a firm a va , p ou cos a n os a n te s d o in ício d a g u e rra , a “ b on d a d e in trín se ca ” d o p ortu g u ê s q u e orie n ta ria su a s a çõe s a p a rtir d a s e m oçõe s e d o cora çã o, se rá n a p oe sia irôn ica d o m oça m b ica n o Ru i G u e rra q u e te re m os a re ve la çã o d a violê n cia d in a m i-za d ora d o siste m a colon ia l p ortu g u ê s: “ m e sm o q u a n d o a s m in h a s m ã os e stã o a tritu ra r, tru cid a r, m a ta r, m e u cora çã o fe ch a os olh os e , sin ce ra -m e n te , ch ora .”

Re ce b id o e m 10 d e se te m b ro d e 2000

Ap rova d o e m 14 d e fe ve re iro d e 2001

(24)

Not as

*A r e a liz a ç ã o d e s t e a r t ig o s ó fo i p o s s ív e l g r a ç a s a o a p o io d o In s t it u t o d e C iê n cia s Socia is d a Un ive rsid a d e d e Lisb oa . Ag ra d e ço, p a rticu la rm e n te , a J oã o d e Pin a C a b ra l, C ristia n a Ba stos e M ig u e l Va le d e Alm e id a . De vo u m a g ra d e ci-m e n to e sp e cia l a Fe d e rico N e ib u rg p or su a s su g e stõe s e in ce n tivo à p u b lica çã o.

1

A con stru çã o d os Esta d os-n a çõe s con te m p orâ n e os n a Eu rop a O cid e n ta l p ossu i u m a re la çã o com p le xa com os m od e rn os im p é rios colon ia is. N ã o n os d e p a -r a m o s c o m fe n ô m e n o s in d e p e n d e n t e s, e “ n a c io n a lism o ” e “ im p e -r ia lism o ” se e n con tra ra m e m m u itos con te xtos p olíticos e cu ltu ra is (cf. C a lve t 1981; An d e rson 1989; Are n d t 1990; Th om a z n o p re lo).

2 Re con h e ce r p a rticu la rid a d e s d a d iscip lin a e m d istin tos con te xtos n a cio

-n a is -n ã o sig -n ifica a ssu m ir u m a corre -n te “ -n a cio-n a l” e sp e cífica . Assim , e m co-n son â son cia com J oã o d e Pison a C a b ra l, op te i p e la re fe rê son cia “ a son trop olog ia e m Portu g a l” e m lu g a r d e “ a n trop olog ia p ortu g u e sa ” (cf. Pin a C a b ra l 1991). Pa rte d o tra -b a lh o d e sse s a n trop ólog os tin h a com o u n ive rso d e o-b se rva çã o os te rritórios colo-n ia is; su a re fe rê colo-n cia e ra , cocolo-n tu d o, a m e tróp ole . Sob re a a colo-n trop olog ia e m Portu g a l e su a s re la çõe s com o colon ia lism o, ve r, e n tre ou tros, M a rg a rid o (1975); M ou tin h o (1982); G a llo (1988); Pin a C a b ra l (1991).

3 De sig n a çã o com q u e o re g im e a u toritá rio in stitu cion a liza d o p e la C on stitu

-içã o d e 1933 se a u to-in titu la va . O Esta d o N ovo a lca n ça rá se u te rm o com o 25 d e a b ril d e 1974.

4 As a sp a s a q u i n ã o p re te n d e m n e n h u m tip o d e iron ia : re sp on d e m a p e n a s

a o fa to d a n ã o e xistê n cia d e u m ca m p o a n trop ológ ico solid a m e n te situ a d o e m in st istu içõe s e m Porstu g a l. Aq u e le s q u e se d e fin ia m com o “ a n strop ólog os” ou “ e stn ó -g ra fos” o e ra m m u ita s ve ze s n a s “ h ora s va -g a s” , se n d o, p rin cip a lm e n te , m é d icos, b iólog os, m ission á rios, a d m in istra d ore s ou m e sm o m ilita re s. A d e b ilid a d e d a a n tro-p olog ia e m Portu g a l e ra , a in d a , sa lie n ta d a tro-p e los tro-p rótro-p rios in te le ctu a is d o tro-p e ríod o.

5 Em 1940 ce le b rou -se o d u p lo ce n te n á rio d a Fu n d a çã o e d a Re sta u ra çã o.

Pa ra le la m e n te a u m a sé rie d e con g re ssos foi org a n iza d a a Exp osiçã o d o M u n d o Portu g u ê s, p a u ta d a , d o p on to d e vista form a l, n a s g ra n d e s Exp osiçõe s Un ive rsa is, m a s m u ito p a rticu la r e m se u con te ú d o, p or te r a p re te n sã o d e tra d u zir o “ e sp írito” d a n a cion a lid a d e . N os e ve n tos d e 1940, a ce n tra lid a d e d o im p é rio foi re ve la -d ora -d o se u se n ti-d o “ n a cion a l” (cf. Th om a z n o p re lo).

6 Re fir o - m e a o p r ó p r io d it a d o r e a p e r so n a lid a d e s c o m o A n t ô n io Fe r r o , o

ca rd e a l C e re je ira , H e n riq u e G a lvã o e Arm in d o M on te iro, e n tre ou tros.

7 “ N a çã o” a q u i é p e n sa d a com o u m a “ com u n id a d e im a g in a d a ” , n a a ce p

Referências

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