Saúde e ambiente no processo
de desenvolvimento
H ealth an d th e en viron m en t
in th e developm en t process
1 USP
Prof. Dr. Milton Santos 1 (in m em oriam)
Conferência magna proferida no I Seminário Nacional Saúde e Ambiente no Processo de D esenvolvimento, em 12 de julho de 2000
N o an o de 2002 perdem os n osso gran de com -panheiro M ilton Santos, intelectual brilhante, cu ja obra sem in al u lt rapassou as fron t eiras brasileiras e com certeza, influ enciará ainda m u itas gerações, n a form a de pen sar a geo-grafia e a socied ade. A presen ça de M ilton Santos na área da saúde se deveu m uito a um m ovim ento, qu e se intensificou na década de 1990, de articular os eventos e agravos aos es-paços sociocu lt u rais e econ ôm icos n os qu ais acontecem . E tam bém , se deve à clareza de seu pensam ento sobre o lugar da ciência e da téc-nica na sociedade. Sua arguta capacidade crí-t ica escrí-t á presen crí-t e n o crí-t ex crí-t o qu e vem abaix o, proferido em u m dos even t os do Cen t en ário da Fundação Oswaldo Cruz.
A ú n ica ju st ificat iva p ar a m in h a ou sad ia d e est ar aqu i é o fat o d e qu e o qu e u n e as d isci-p lin as todas é o m un do. E o m un do se haven -do tor n a-do acessível a to-dos n ós, n este fim de século, fez que a filosofia se colocasse à dispo-sição d os n ão filósofos, abr in d o esp aço p ar a qu e a filosofia p r od u zid a em cad a cam p o d o saber seja operacion al.
Acr ed it o qu e o con vit e qu e m e foi feit o vem do fato de qu e n ão sou ou tra coisa sen ão
u m geógrafo. Um geógrafo qu e se dedicou ao lon go d a vid a, com a sor t e d e viver at é o fim d o sécu lo, às coisas d o m u n d o, agor a qu e o m undo decidiu colocar-se ao alcance da nossa m ão. Isso m e perm ite algun s atrevim en tos.
disci-p lin a, t em algu m as r esdisci-p on sabilid ad es n isso, p o r qu e t r abalh am o s d u r an t e u m sécu lo a p ar t ir d a ver t en t e eu r op éia, com visões qu e, n a realidade, m ais preju dicam qu e ilu m in am o debate da história do presen te. Um a dessas visões é a visão d o territóriofreqü en tem en te con fu n dida com a visão do am biente. Na rea-lidade, territóriot am bém n ão é u m a cat ego-ria an alítica. A categoego-ria an alítica é o territó
-rio usado pelos hom ens, tal qual ele é, isto é, o espaço vivido pelos h om en s, sen do tam bém , o teatr o d a ação d e tod as as em p r esas, d e to-d as as in st it u ições. Desse esp aço h u m an izd o, as ciizd aizd es são h oje a gr an izd e r ep r esen t a-ção e a gran de esperan ça.
Eu qu er ia fazer essa p r im eir a con sid er a-ção, p ois ela se im p õe p ar a qu e n ão ten h a eu qu e r ecor r er , cad a vez, a u m a n ota d e p é- d e-págin a.
A m en sagem m ais im p or tan te qu e gosta-r ia d e p assagosta-r é qu e a bu sca d a u t op ia é algo an cest r al e com p an h eir o d o h om em . O qu e d ist in gu e o ser h u m an o d os ou t r os an im ais não é o dedão, é exatam ente o fato de que ele é portador de u topia. Eu sei qu e h oje se costu -m a r id icu lar izar qu e-m fala e-m u t op ia, -m as n ão m e preocu po em in sistir qu e sem ela n ão vale a pena viver, e sem ela tam bém é im possível p en sar , p or qu e o p en sam en t o n ão é p r o -duzido a partir do que houve, n em do que há. O pen sam en to portador de fru tos é produ zi-d o a p ar t ir zi-d o qu e p ozi-d e ser . É isso qu e n os r eú n e aqu i, n est a sala, e é isso qu e r eú n e os hom ens de boa vontade em toda a parte.
Ora, essa utopia secular, m ilenar, expressa de diferen tes m an eiras, pelas diferen tes civili-zações, cod ificad as p elos filósofos, t en d e a acabar com o sécu lo 20, qu e agora se esqu iva d ela gr aças ao fato d e qu e o p r om etid o casa-m en to en tre a técn ica – isto é, casa-m odos de fazer – e a ciên cia – produção n a m en te dos m odos de fazer a partir dos m odos de ser – com eça a se torn ar algo im possível.
O r a, os h om en s e m u lh er es, p er d ão, as m u lh er es e os h om en s qu e se ocu p am d a questão da saúde são, possivelm ente, entre to-d os n ós, aqu eles qu e m ais clar am en t e se to-d evotam à utopia, um a vez que cuidam do bem -est ar e d a d ign id ad e d a vid a h u m an a. Esses so n h o s e essas visõ es qu e eles e elas p o r t am for am cap azes d e t r an sfor m ar a esp er an ça dos cien tistas n o com eço do século n um a coi-sa viável, n um presen te con struído a partir do pensam ento científico.
A ár ea da saú de é r espon sável por u m
be-lo m om en to d a h istór ia d a h u m an id ad e, be-líssim o m om en t o d a h ist ór ia d a ciên cia qu e buscou alicerçar as con dições pelas quais a vi-d a se t o r n ar ia n ão ap en as m ais lo n ga, m as t am bém m ais d ign a d e viver . Essa b u sca d e p o ssib ilid a d es d a m ed icin a se baseou n u m a ciên cia em qu e h ou ve u m en con t r o en t r e preocupações m orais e preocupações cien tífi-cas.
A discu ssão presen te n a ética do trabalh o d o cien t ist a n ão se im p or ia, com o h oje, d a for m a qu e com eça a se im p or , exat am en t e porque o cien tista era cauteloso dian te do que p r od u zia, d ifu n d ia, p r op u n h a: a m or al er a a gran de fiscal das realizações in telectuais. Isso t am bém t in h a r elação com o fat o d e qu e o m ercado que existia – já que o capitalism o, es-te br eve m om en to d a h istór ia d a h u m an id a-de, dura 500 anos, por conseguinte, é m ais ve-lh o d o qu e a in stitu cion alização d a ciên cia – er a cir cu n scr it o p elas fr o n t eir as e r egu lad o p or u m est ad o n acion al. O m er cad o er a u m m on st r o d om ad o, er a u m gr an d e selvagem todavia dom esticado. E as ideologias tin h am livr e cu r so, u m a vez qu e as gr an d es r evolu -ções foram presididas por gran des produ-ções d e id éias. As id éias filosóficas p r eced iam a produções das idéias políticas, que precediam a produção da política.
Por isso hoje tam bém , talvez, devam os le-var em con ta que um a idéia que brota aqui ou ali, e p ar ece fr ágil n u m p r im eir o m om en t o, pode ter força. Esse é o ú n ico alen to qu e têm os qu e t r abalh am in t elect u alm en t e: a con s-ciên cia de qu e podem ficar sozin h os, porqu e sozinhos não estão, têm a com panhia do futu -ro que ajudam a gestar através exatam en te da produção de idéias gen erosas. As idéias liber -tárias e igu ali-tárias e a am bição u n iversalista levar am , d ep ois d a gu er r a, sobr et u d o, a qu e se t or n assem gêm eas, as m íst icas d o desen -volvimentoe da civilização. É im portan te as-sin alar isso, porqu e, esse m om en to qu e tive a op or t u n id ad e d e assist ir e viver , bat alh an d o com tan tos ou tros n a bu sca dessa civilização nova, desse desenvolvim ento que ganha então u m a exp r essão con t r ad it ór ia em r elação ao crescim en to econ ôm ico, essa distin ção n eces-sária en tre os dois con ceitos, é que vai m arcar a história do m un do n a m etade do século 20.
d o p on t o d e vist a t écn ico, m as é im p or t an t e qu e o seja tam bém do pon to de vista filosófi-co, su bordin an do as práticas e os recu rsos. É p r eciso lem br ar qu e a p alavr a r ecu r so n ão t em valor p or si p r óp r ia, ela é u m t er m o d o vocabu lár io d a p olít ica. Cad a vez qu e t r at a-m os a qu estão d os recurso scom au ton om ia, est am os aban d on an d o a u t op ia, p or con se-guin te estam os ren un cian do a ser hum an os.
O r a, a qu est ão d a saú d e, com o a d a ali-m en t ação e a d o beali-m - est ar , foi n o p r iali-m eir o m om en to tratada segu n do critérios determ i-n istas. Essa é um a das razões pelas quais a pa-lavr a am bientem e choca, m e aborrece. Com freqü ên cia ela con du z a u m a deriva determ i-nista e por isso creio ser preciso retom ar o de-bate n a su a raiz. Foi essa qu estão do determ i-nism o que levou, por exem plo, à conceituação d as ch am ad as d o en ças tr op icais. Tive h á al-gu n s an os u m p r ivilégio, d igam os assim , d e haver ensinado na Universidade de Bordeaux, cu jo In stitu to d e Geografia se ch am ava ou se cham a In stituto de Geogr afia Tropical, com o se houvesse um a ciên cia social tropical e um a ciên cia social t em p er ad a. São for m as d e r a-ciocín io próprias ao racism o, m ais ou m en os velad o, d os eu r op eu s e qu e est ão p r esen t es tam bém n a vida acadêm ica e n a produção in -telectual. É com o se houvesse um a vontade de dizer: “as cu lpas das su as dores são su as. Nós p r et en d em os aliviá- las m as vocês são com o são”.
Essa idéia da geografia tropical foi que m e conduziu a escrever um livro, do qual cada ca-p ít u lo se t or n ou d eca-p ois u m n ovo livr o, d es-m istifican do o racises-m o ies-m plícito. Ele se ch a-m a O trabalho do geógrafo n o Terceiro M un -do. E hoje, devo dizer isso agora, esse livro é a cr ít ica qu e eu fazia à geogr afia en sin ad a n a-qu ela facu ld ad e. Essa id éia d e doenças tropi-caisqu e t am bém levou a u m cer t o p ar alelis-m o en tr e a n oção de tr ópico e n oção de u alelis-m a h igien e d ificu lt ad a p ela t r op icalid ad e. Da m esm a form a, a questão alim en tar, que já en -t ão p r eocu p ava as p essoas d e boa von -t ad e, t am bém er a ap on t ad a com o u m p r oblem a e u m a qu est ão d a r egion alização. Ou seja, h a-veria regiões fadadas a ter fom e e outras fada-d as a t er abu n fada-d ân cia. Cr it iqu ei a fada-d icot om ia racista e precon ceituosa que con siderava n or -m al e eviden te qu e os eu ropeu s se organ izas-sem in t eligen t em en t e, e n ós, n at u r alm en t e, em p ar t e em cu lp a d e n ossa t r op icalid ad e e em parte devido a n ossa precariedade in telec-tual, n ão poderíam os ultrapassar n ossos lim
i-tes.
É aí qu e su rge Josu é de Castro, jam ais su -ficien t em en t e lem br ad o p or n ós. Ele t eve a m á sor t e d e m or r er qu an d o o Br asil er a u m país em plen o cam in ho para um regim e autor it áautor io e m oautor autor eautor n a Fautor an ça, qu e, n esse m o -m en to aban don ava sua vocação un iversalista. En t ão ele se foi sem o br ilh o qu e se cost u m a dar aos gran des hom en s qu an do eles desapa-recem . E até hoje n ós n ão con seguim os resga-tá-lo con dign am en te. Q u er o dizer qu e Josu é de Castro sugeria um a m udan ça fun dam en tal n a visão d o m u n do e das coisas, in clu sive n a questão saúde, deslocando o problem a do cha-m ado am bientee r eco lo can d o a q u est ão n o dom ín io da sociedade e da sociedade in tern acion al. Razão pela qu al ele acu sava o Ociden te do qu e hoje acu sam os n ós, isto é, essa von tade deliberada de gen ocídio através da von -t ad e d e p od er . N ão é d e es-t r an h ar qu e Josu é de Castro n ão ten ha tido o prêm io Nobel, ge-ralm en te outorgado a quem faz o possível pra dar im pressão que está cuidan do da hum a-nidade.
A idéia da natureza naturaliria n os perse-gu ir perm an en tem en te. A história com prova qu e a n at ureza n at u ralt em u m p ap el, evi-d en t em en te. Nin gu ém vai evi-d escon h ecer , n o en tan to, qu e ele n ão é cen tral n a história; so-br etu d o h oje, cad a vez m en os. Ao m esm o tem po, a un iversidade era m arcada pelo livre-pen sar – coisa que cada vez é m en os – e a coo-peração in tern acion al, em m atéria de pen sa-m en to, er a possível. Nós sabesa-m os qu e h oje é qu ase im possível cooperar com os n ossos co-legas do Norte, por m otivos que n ão vou an a-lisar ago r a, p o r qu e as n o ssas u n iver sid ad es n os p ed em qu e sejam os cad a vez m ais am i-gu in h o s d o s co legas d e lá p ar a au m en t ar o s n ossos títulos. En tão som os con vidados a um exp ed ien t e d e safad eza cot id ian o p ar a obt er as p r om oções. N ão sei o qu e acon tece n o Equ ad or , Cu ba, m as n o Br asil é m u it o fr e-qü en t e qu e o qu e você faz seja d ifer en ciad o pelas categorias “n acion al” e “in tern acion al”. Ou seja, o qu e se faz aqu i n u n ca é in tern acio-n al? Equ ivocadam eacio-n te os valores são atribu í-dos a quem poderia ser tran sferido para o Mi-n istério do Turism o em vez de perm aMi-necer Mi-no Min istér io d a Ed u cação ou d a Ciên cia e Tec-nologia.
rizar a população, teorizar a urban ização, r izar a n utrição, teorizar a saúde pública, teor izateor o d esen volvim en to. Essas teoteor ias, tem p os atr ás, er am im br icad as u m as com as ou -t r as p or qu e o elo cen -t r al er a exa-t am en -t e o m u n d o, qu e é a u n id ad e d e p en sam en t o d e problem as. Mas h oje tu do o qu e era baseado n u m a solidariedade in tern acion al e n u m a lu -ta civilizatória deixou de existir.
Daí a con tribuição fun dam en tal à questão da saú de, dada por desen volvim en tistas, ter -ceir o- m u n d ist as, an t iim p er ialist as, n o fim d os an os 60 e n o com eço d os an os 70. Per -doem -m e os que são m uito jovens, pois até eu “com eti” um livro, que não está traduzido pa-r a o p opa-r t u gu ês, qu e d iscu t e a qu est ão d a ali-m entação e da população, evidenteali-m ente pas-san do pela qu estão da saú de, a partir de u m a visão de u m geógrafo. É dessa época tam bém qu e se n otam progressos m édicos con du cen -tes a u m a m elhor saú de in dividu al e coletiva, h aven d o avan ços, ain d a qu e n ão h om ogê-neos, na questão da prevenção, da inform ação e d e u m a t om ad a d e con sciên cia. En t ão, a aju d a in ter n acion al tin h a um papel positivo. A p ar t ir d os an os 70, em gr an d e p ar t e, essa aju d a se d eixa com an d ar p or in t er esses d as gran des potên cias. Basta ver o tratam en to da-d o à qu estão da-d a fom e, n a Áfr ica su bsaar ian a com an d ad a p ela p olít ica d os n ovos gr an d es im p ér ios. Tam bém é o m esm o caso do trata-m en to de diversas questões n o su bcon tin en te asiático, consideradas com o ajuda internacio-n al, m as t r at ad as d e for m a egoíst ica, d e t al m an eira qu e as pessoas bem pen san tes passa-r am , d esd e en t ão, a d escon fiapassa-r d a p alavpassa-r a “aju da”. Mas tam bém viven ciam os a tim id ez das idéias proven ien tes das in stituições in ter -n acio-n ais, a pru dê-n cia com a qu al os seu s re-p r esen t an t es t o m am a re-p alavr a n as o casiõ es qu e lhe são oferecidas, o escamo teamentod a cen t r alid ad e d o p r oblem a social e p olít ico m un dial, a prevalên cia dos en foques tecn icistas qu e tam bém dom in am situ ações de gran -de relevo para a vida do ser hum ano, com o é o caso t am bém n a p r óp r ia m ed icin a em t od os os seus aspectos. Essa últim a m ostra o distan -ciam ento entre um a produção intelectual que se am plia e para a qu al os recu rsos são abu n -dantes, desde que, os esforços se dirijam nesta “direção vesga”, e a r ealid ad e qu e avolu m a p r oblem as qu e n ecessitam d e en foqu es m ais abran gen tes.
Naqu ele tem po gabávam o-n os dos efeitos das políticas, m as tam bém dos efeitos do
de-sen volvim en to sobre os ín dices vitais, m orta-lidade geral, m ortaorta-lidade in fan til, fertiorta-lidade, esperan ça de vida e n utrição. Buscávam os es-sa com binação entre m inorias e condições ge-rais e efeitos do desen volvim en to sobre a vida in dividu al e das fam ílias. Esses an os 70 m ar -cam a em er gên cia t ím id a e d ep ois agr essiva de aspectos cham ados qu alitativos. Mas todo m u n d o sabe qu e o qu alit at ivo r ap id am en t e m ostrase com su a cara qu an titativa, portan d o var iáveis n ovas, d en t r e as qu ais a t ecn o -ciên cia qu e t em u m p ap el d esgr açad am en t e m u it o im p or t an t e n as qu est ões qu e in t er es-sam a área da saúde.
Esses progressos da ciên cia e da técn ica es-t im u lar am a p r od u ção p r agm áes-t ica, ou seja, vam os fazer assim para obter tal resu ltado. A tal pon to isso se gen eralizou qu e as form u la-ções ditas gerais com eçam do resu ltado e n ão d as cau sas, o qu e é sem p r e u m em p obr eci-m ento do ponto de vista da posição do pensa-m en to. Essa pragpensa-m ática coloca os resu ltados à prova, com o algo a desejar, m ostrados com o se fossem algo m or al. In clu sive essa qu estão d o m eio am bien te fr eqü en tem en te é m al co -locada, já qu e as dificu ldades da m aior par te da popu lação n ão vêm do fato de estar aqu i e ali, m as do fato de ser assim ou assado.
Um saber e u m a p r át ica bem d escolad os de preocupações hum an ísticas são a prin cipal m arca do dom ín io da técn ica sobre a ciên cia qu e estam os agora assistin do: é a técn ica qu e t am bém est á d it an d o as escolh as p ossíveis dos rem édios.
É cu rioso qu e a n ova ciên cia sem i-im pos-t a p ela via d a pos-t écn ica, p elos p or pos-t ad or es d e u m a filosofia pragm ática, vem sobretu do dos Estados Un idos qu e h oje têm o com an do ab -solu t o d o d ebat e d as qu est ões, p or exem p lo de saúde, tan to do pon to de vista social quan -to in dividu al. Isso se dá em par alelism o com a b u sca d e u m a n ova or d em d a econ om ia. Quan do os progressos técn icos cien tíficos ga-n h am au t oga-n om ia – e é ao qu e est am os assis-tin do hoje n a vida acadêm ica com profu n das repercussões n egativas n a produção da políti-ca –, eles ten deriam a acon selhar ou justifipolíti-car visões d e bu scas p ar ciais, cad a vez m ais p ar -ciais; cada vez m ais profun das e m ais parciais, cad a vez m ais p en et r an t es e cad a vez m ais p ar ciais; cad a vez m ais isolad as e cad a vez m ais au tôn om as. Dessa form a a produ ção de con hecim en to gan ha auton om ia sobre a von -tade de hum an ização da vida sobre o plan eta.
m édicas; qu em sou eu para ter u m ju ízo defi-n it ivo ou m esm o p r óxim o d isso. A r esp eit o disso con fesso qu e ten ho m u ito m edo do qu e leio, sobr et u d o; sou u m h om em assu st ad o porqu e ch ego à idade qu e ten h o qu ase com a obrigação de ser tam bém doen te. Vejo-m e cad a cad ia cot ejacad o com m an ch et es con t r acad it ó -rias den tro das m esm as revistas, dan do con ta d o t r abalh o já n ão t an t o d as u n iver sid ad es m as d as em p r esas, ou en t ão, d as em p r esas d en t r o d as u n iver sid ad es. A gr an d e m od a agora é pedir às un iversidades que pergun tem às em p r esas qu e d igam o qu e elas d evem fa-zer. É con siderado chique e perm ite ao CNPq se r et ir ar d o p r ocesso d e fin an ciam en t o. Só qu e, n a p r od u ção d e d ad os qu e t êm r elação com a vida, o resu ltado p od e ser a cor r u p ção d a p esqu isa e a d escon fian ça ju st ificad a em relação aos hom en s de ciên cia.
Um a m eia verdade serve a objetivos pragm át icos, pragm as u pragm a pragm eia ver d ad e n ão é a ver dade. E todas as m eias verdades possíveis reu -n id as -n ão p r od u zem a ver d ad e. As ver d ad es p ar ciais p od em ser eficazes n o in t er esse d a-queles a quem in teressem , m as n ão con duzem à verdade, e cedo ou tarde conduzirão a desas-tres. Tal é o caso d o Br asil, cu jo p r im eir o gran de desastre vai se m an ifestar n o setor da saúde. Aliás já está se m ostran do, exatam en te porque esse m odelo foi aceito tran qüilam en te pelo Estado e tam bém por n ós da un iversida-de, por n ós os cien tistas qu e n ão levan tam os su ficien t em en t e a voz p ar a p r ot est ar . Isso tem qu e ser dito: essa “u n iversidade de resu l-t ad os” com esse au l-t ocon l-t r ole su icid a, m as tam bém assassin o dos cien tistas, dá priorida-de à elaboração dos textos, ao popriorida-der e ao m er-cado, um círculo fechado.
É evid en t e qu e as qu est ões t écn icas d o “com o fazer” são im portan tíssim as, m as qu e faço d elas se n ão obt iver an t es esse d ia m ais am plo de recolocá-las den tro de u m qu adro, n o qu al as coisas todas possam ser cotejadas, r evist as, p r od u zin d o u m a id éia gen er osa d a convivência entre os hom ens, um a idéia gen erosa do que o m un do pode ser? Isso é respon -sabilidade n ossa com o in telectuais.
A glo balização vai d eixan d o p ar a t r ás as gr an d es qu est ões civilizat ór ias, h u m an íst i-cas; bast a ver o d ebat e qu e se d á n o Br asil at u al, e n o qu al a p alavr a civilização é qu ase obscen a tam bém para os adultos. Ou seja, não está proibida apen as aos m en ores de 14 ou 16 an os, é u m a p alavr a qu e se t or n ou p r oibid a n este país. É grave que esse reducion ism o n ão
seja ap en as u m d ad o d o oficialism o, é t am -bém u m d ad o d as op osições. Eu ia d izen d o das esqu erdas, poderia in sistir n isso som en te acrescen tan do qu e ser esqu erda hoje é de n o-vo ser diferen te de ser direita, só que a direita dá cen tralidade a isso qu e passam os a adorar, a m oeda estável, o fim da in flação, os equ ilí-brios m acroecon ôm icos, repetin do sem pre o m esm o sem saber p ar a qu e e p or qu e. E a es-qu er da ser ia aes-qu ela par te da sociedade pr eo-cupada com essa coisa tão in sign ifican te, m as qu e con figu r a a ú n ica ju st ificat iva r eal p ar a que o m undo prossiga: o hom em .
A globalização veio sem qu e se viesse ju n -to u m m u n d o só. Bu sca- se abr eviar o tem p o do trabalho, m as n ão é para socializar o lazer, é pra fazê-lo ain da m ais m ercan til. Acredita-se qu e a técn ica con du z ao deAcredita-sem prego. Qu e h or r or ! A t écn ica jam ais exist iu h ist or ica-m en t e seica-m a p olít ica. É u ica-m equ ívoco iica-m agi-n ar que se poderia coagi-n ceber a preseagi-n ça histó-rica da técn ica sem o paralelo da política. É a política qu e decide o qu e fazer da técn ica: em todos os tem pos foi assim . Inventam -se novas for m as con st r u t ivas, m as n ão p ar a h u m an i-zar a cidade. Ou seja, n ão é a cidade que é res-pon sável pelos problem as, com o tan tas vezes se diz. A urban ização n ão é um m al.
A urban ização perm itiu avan ços form idá-veis em todas as áreas, inclusive da saúde. Não fo i p o r cau sa d a u r ban ização qu e o s p aíses su bd esen volvid os tiver am m u itas d ificu ld a-des para en fren tar as questões de saúde, tan to do pon to de vista in dividual quan to do pon to de vista coletivo. É a m an eira com o organ iza-m os a socied ad e, sep ar an d o os qu e p od eiza-m e os qu e n ão podem viver em determ in ados lu -gar es. Mas, em ger al n ão qu er em os falar em m u d an ças sociais, qu er em os falar d as m u -d an ças -d o s o r gan ogr am as. Daí esse en foqu e tím id o e d e su b ser viên cia ao sist em a e qu e, ger alm en te, d á p r ior id ad e ao qu e n ão tem , à falta e ao que deve ser suprido.
o-m ia política, de distribuição do poder e da ri-qu eza. No caso das doen ças, n ão são os an ais d os con gr essos qu e d et er m in am com o elas vão ser tratadas e sim o poder econ ôm ico que p r ivilegia u m a p ar t e d a socied ad e em d et r i-m ento da outra.
A discu ssão qu e agora tim idam en te se dá n o Brasil qu an to à distribu ição dos rem édios é bem explicativa dessa situação. Isso tem que ver, em gran de parte, com o fato de qu e a téc-n ica p assou a ter com atéc-n d o sobr e a ciêtéc-n cia, e com o a t écn ica é cad a vez m ais com an d ad a p elo m er cad o, é t am bém o m er cad o qu e co -m an d a a ciên cia. O s est u d iosos d a ár ea d a saú de sabem disso m elhor do qu e eu , porqu e a m in h a disciplin a n ão m e obriga a produ zir p r od u tos, som en te id éias, en qu an to eles são obrigados a produzir produtos-resultados. A cidade está am eaçada de privatização, o que vai ser um gran de problem a n as questões de saúde pública. Na n ossa an álise está faltan -d o – n a -d os p r ofission ais -d e saú -d e e n a -d os geógr afos – u m a an álise p r osp ect iva d esse processo de privatização qu e vai agravar ain -da m ais qu estões de saú de pú blica: a privati-zação d a águ a, d os esgot os, e t u d o m ais qu e con cern e à vida u rban a. No m u n do em qu e a cidade, ten d o cr escid o d e t am an h o, t em n as em p r esas filiad as aos gr an d es ban cos a solu -ção p ar a as qu est ões u r ban as, n a m ed id a em qu e são cego s p ar a a vid a so cial e p ar a as qu est ões h u m an it ár ias, os p r oblem as vão se avolum ar contra os que não podem pagar.
Ser á qu e essa técn ica, assim com an d an te da ciên cia, essa técn ica assim com an dada pe-lo m er cad o, esse m er cad o com an d an t e d a ciên cia decretaram u m a vez por todas a m al-d ição al-d os h om en s al-d e ciên cia ou p oal-d em eles ain da ergu er a su a cabeça, e dizer: n ão!
Espero qu e essa fam osa lista com qu e os con gressos ter -m in a-m in clu a os gr an d es p r oble-m as d e socied ad e qu e em u m país com o Brasil têm gravidade irrecu -sável. Aí com parece o papel crítico e que tem de ser d e gr an d e valen t ia, d as ciên cias h u m an as, e en t r e elas, das ciên cias sociais da saúde.