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MEDITAÇÃO TAOÍSTA

MEDITAÇÃO TAOÍSTA

MÉTODOS PARA O CULTIVO DA SAÚDE DA MENTE E DO CORPO

MÉTODOS PARA O CULTIVO DA SAÚDE DA MENTE E DO CORPO

TRADUÇÃO: GIANCARLO SALVAGNI

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MEDITAÇÃO TAOÍSTA

MEDITAÇÃO TAOÍSTA

MÉTODOS PARA O CULTIVO DA SAÚDE DA MENTE E DO

MÉTODOS PARA O CULTIVO DA SAÚDE DA MENTE E DO CORPOCORPO

Tradução: Giancarlo Salvagni Tradução: Giancarlo Salvagni “Taoist Meditati

“Taoist Meditation-on- Methods for Cultivating a Healthy Mind and Body”Methods for Cultivating a Healthy Mind and Body” translated a

translated and compilend compiled d by Thoby Thomas Clearymas Cleary – – Shambala Ed., 2000 Shambala Ed., 2000

Introdução de Thoma

Introdução de Thomas Cleary ...s Cleary ...2...2

Antologia do Cultivo da Realização ... Antologia do Cultivo da Realização ...5...5

Tratado do Sentar e Esquecer ...49

Tratado do Sentar e Esquecer ...49

Provérbios do Mestre Taoísta Danyang ...63

Provérbios do Mestre Taoísta Danyang ...63

Escritos Secretos sobre os Mecanismos da Natureza ...68

Escritos Secretos sobre os Mecanismos da Natureza ...68

Segredos Alquímicos do Tai Chi de Zhang Sanfeng ... Segredos Alquímicos do Tai Chi de Zhang Sanfeng ...71....71

Registros Secretos do Entendimento do Tao ... Registros Secretos do Entendimento do Tao ...74...74

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Introdução de Thomas Cleary

Introdução de Thomas Cleary

Taoísmo, uma das mais antigas tradições do Oriente, tem crescentemente Taoísmo, uma das mais antigas tradições do Oriente, tem crescentemente chamado a atenção do Ocidente moderno. O interesse pelo Taoísmo não está mais chamado a atenção do Ocidente moderno. O interesse pelo Taoísmo não está mais confinado em elementos periféricos como alguns gostariam, mas tem se tornado parte da confinado em elementos periféricos como alguns gostariam, mas tem se tornado parte da mentalidade normal de indivíduos conscientes

mentalidade normal de indivíduos conscientes e pensadores cosmopolitanos, em diversase pensadores cosmopolitanos, em diversas áreas da vida

áreas da vida contemporânecontemporânea.a.

Parte da popularidade do Taoísmo no Ocidente pode ser atribuída ao fato do Parte da popularidade do Taoísmo no Ocidente pode ser atribuída ao fato do Taoísmo

Taoísmo ser não ser não só científico, só científico, mas aindmas ainda humana humanístico e eístico e espiritual. spiritual. Taoísmo tem Taoísmo tem aa capacidade de sutil penetração porque ele pode ser compreendido e praticado dentro das capacidade de sutil penetração porque ele pode ser compreendido e praticado dentro das estruturas religiosas do mundo todo, ou mesmo sem qualquer estrutura religiosa que seja. estruturas religiosas do mundo todo, ou mesmo sem qualquer estrutura religiosa que seja. Esta abnegada adaptabilidade pode bem ser o motivo da habilidade em penetrar nas Esta abnegada adaptabilidade pode bem ser o motivo da habilidade em penetrar nas culturas ocidentais, independentemente das limitações de doutrinas teológicas ou culturas ocidentais, independentemente das limitações de doutrinas teológicas ou identidades religiosas.

identidades religiosas.

Algumas das artes especializadas que se originam na tradição Taoísta, tais como Algumas das artes especializadas que se originam na tradição Taoísta, tais como artes marciais, acupuntura, medicina fitoterápica ou massagem terapêutica, tornam-se artes marciais, acupuntura, medicina fitoterápica ou massagem terapêutica, tornam-se cada vez mais familiares no Ocidente. A filosofia social Taoísta e o pensamento cada vez mais familiares no Ocidente. A filosofia social Taoísta e o pensamento estratégico também têm provado ser de grande interesse para os ocidentais em diversos estratégico também têm provado ser de grande interesse para os ocidentais em diversos cursos da

cursos da vida. vida. Ambos estão Ambos estão inseridos nas inseridos nas dimensões ddimensões do Taoísmo e o Taoísmo e têm atraído atêm atraído a atenção de profissionais de diversas áreas: política e militar, agrícola, industrial e atenção de profissionais de diversas áreas: política e militar, agrícola, industrial e comercial, educaciona

comercial, educacional, medicinal e l, medicinal e científica.científica.

Meditação é um elemento do Taoísmo de interesse para um largo espectro de Meditação é um elemento do Taoísmo de interesse para um largo espectro de pessoas, já que o bem-estar e eficiência de todo o organismo dependem do estado pessoas, já que o bem-estar e eficiência de todo o organismo dependem do estado mental. A meditação Taoísta melhora a saúde tanto mental quanto física, já que estas mental. A meditação Taoísta melhora a saúde tanto mental quanto física, já que estas duas faces do bem-estar estão mutuamente e intimamente relacionadas. O entendimento duas faces do bem-estar estão mutuamente e intimamente relacionadas. O entendimento científico moderno do “continuum” corpo/mente confirma as crenç

científico moderno do “continuum” corpo/mente confirma as crenças Taoístas tradicionaisas Taoístas tradicionais a respeito das influências dos

a respeito das influências dos estados mentais nas condições físicas, e vice-versa.estados mentais nas condições físicas, e vice-versa.

O presente volume apresenta uma seleção de textos sobre meditação Taoísta, O presente volume apresenta uma seleção de textos sobre meditação Taoísta, abordando tópicos variados sobre um abrangente desenvolvimento humano, abordando tópicos variados sobre um abrangente desenvolvimento humano, tradicionalmente desenvolvidos pelos Taoístas. Uma vez que foram escritos na China, tradicionalmente desenvolvidos pelos Taoístas. Uma vez que foram escritos na China, eles estão incorporados nos aspectos costumeiros da cultura chinesa, particularmente no eles estão incorporados nos aspectos costumeiros da cultura chinesa, particularmente no unitarismo do último milênio,

unitarismo do último milênio, no qual os ensinamentos Taoístas, Confucionistas e Budistasno qual os ensinamentos Taoístas, Confucionistas e Budistas são comumente empregados em conjunto, para

são comumente empregados em conjunto, para um equilíbrio não-dogmático na um equilíbrio não-dogmático na educaçãoeducação superior.

superior.

Uma parte considerável do material desta tradição, seja da fase clássica ou Uma parte considerável do material desta tradição, seja da fase clássica ou unitária, é correntemente encontrada em traduções na língua inglesa. Não há um sistema unitária, é correntemente encontrada em traduções na língua inglesa. Não há um sistema

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fixo de pensamento na prática do Taoísmo, e diversos métodos foram articulados no correr dos séculos. Temperamentos diferentes em épocas diferentes têm diferentes necessidades, portanto, de acordo com os ensinamentos Taoístas, as respostas do Tao para estas condições cambiantes devem diferir entre si, para que possam ser efetivas. Esta é a principal razão para a publicação de uma variedade de textos desta tradição, para que possam refletir as experiências de pessoas diferenciadas e, conseqüentemente, adquirir um maior equilíbrio, podendo endereçar-se a um maior espectro de temperamentos humanos, mais vasto do que apenas sectários dogmáticos.

Ao lado de autênticos ensinamentos Taoístas, pode-se encontrar várias formas de práticas Taoístas comprovadamente falsas ou deterioradas. Avisos neste sentido têm corrido através de muitos séculos. Há ainda mais uma razão para a publicação deste material tradicional: assim o público pode ter algum fundamento e capacidade de avaliação, no caso de práticas que pretendem representar o Taoísmo.

A primeira seleção apresentada aqui é um trabalho chamado Antologia do Cultivo da Realização, de autor desconhecido, identificado apenas como “Cultivador da

Realização”. Descoberto em forma de manuscrito e publicado em1739, parece ser um produto da dinastia Ming (1368 -1644). Citando ensinamentos Taoístas, Confucionistas e Budistas, o autor enfatiza um desenvolvimento balanceado dos elementos naturais, sociais e espirituais da vida humana, através de meditações sobre uma larga variedade de tópicos.

A segunda seleção é um manual de meditação muito famoso: Tratado do Sentar e Esquecer , de Sima Chengzhen, da dinastia Tang (618-907). A cultura cosmopolita da

dinastia Tang fez com que este período fosse chamado de idade dourada da civilização chinesa. As grandes escolas do Budismo Oriental floresceram durante a dinastia Tang, exercendo uma poderosa influência na evolução subseqüente do Confucionismo e do Taoísmo. O Tratado do Sentar e Esquecer é nitidamente Taoísta, ainda que, de um modo

geral, seu fraseado seja aceitável para Confucionistas e Budistas.

A terceira seção consiste dos ditos de Ma Danyang, um famoso mago Taoísta da dinastia Sung (960-1279). Danyang, cujo nome Taoísta significa “Luz do Sol de Cinábrio”, foi um dos maiores discípulos de Wang Chongyang, o fundador do “Ramo Norte do Taoísmo da Completa Realidade”, um poderoso movimento neo-Taoísta empenhado em reviver aspectos sociais e contemplativos do Taoísmo.

A austeridade espiritual do “Ramo Norte do Taoísmo da Completa Realidade” é reminiscente do Budismo Chan (Zen), estudado por diversos neo-Taoístas, e é uma resposta orgânica para os problemas e dificuldades de uma sociedade sob ocupação estrangeira.

A quarta seleção é extraída de uma antologia chamada Escritos Secretos sobre os Mecanismos da Natureza. É uma coleção de trechos de 163 fontes da tradição Taoísta,

incluindo clássicos antigos, escritos sobre meditação e alquimia espiritual, admoestações e instruções de grandes luminares da espiritualidade Taoísta através das eras.

A quinta parte é um discurso de refinamento mental, representado pela ciência da alquimia espiritual. É atribuído a Zhang Sanfeng, figura semi-mitológica da dinastia Ming, supostamente tomado como grande alquimista, tradicionalmente associado com a arte

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marcial conhecida como Taijiquan (Tai Chi Chuan). Apresentamos aqui, dentre diversas obras do gênero atribuídas ao sábio, os Segredos Alquímicos do Tai Chi de Zhang Sanfeng. Assim como artistas marciais, tais como lutadores de Shaolin e arqueiros Zen,

sempre praticaram meditação, também o fundamento interior do Tai Chi é tradicionalmente associado com a prática interna de meditação. Esta alquimia é baseada no conhecimento da conexão entre mente e corpo, e seu exercício ascende da prática física do Tai Chi Chuan até culminar num elevado nível de completa Realização.

A sexta seleção é tomada dos Registros Secretos do Entendimento do Tao, uma

rara e notável coleção de comentários de um Taoísta anônimo, conhecido apenas por seu nome devocional. Parece tratar-se de uma obra da recente dinastia Qing (1644-1911), claramente seguindo linhas tradicionais, ainda que permeado por um certo acento dos tempos modernos.

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Antologia do Cultivo da Realização

O CAMINHO1

Se as pessoas desejam a mais refinada coisa do mundo, nada se compara ao aprendizado. E se elas querem ser as melhores dentre os aprendizes, então nada se compara com o aprendizado do Caminho. Como costumava dizer Mestre Zhu, “conhecer é buscar o Caminho. Para que serve aprender outra coisa?” Até mesmo a promoção profissional é algo estranho: uma pena que isso tenha sido capaz de corromper tanta gente. O Tao Te Ching diz: “para estabelecer -se como imperador e designar oficiais de

alta patente, pode-se ter uma jóia magnífica e dirigir todo um grupo de cavalos, mas nada disso é tão bom quanto avançar calmamente pelo Caminho”.

Talento é explorado por outros e raramente atinge sua finalidade; virtude é cultivada pelo indivíduo em si, mas ela tem uma definição. O Caminho é indefinido, mas, quando aplicado, é inexaurível. Por esta razão, pessoas superiores somente dedicam-se ao aprendizado do Caminho. Elas olham para o mérito e a fama, a fortuna e o status como se fossem nuvens passageiras, deixando-os ir e vir, sem que sejam movidos por eles, apesar de estarem entre eles.

Mas se as pessoas somente estudam o Caminho, seria devido ao fato de receberem algum benefício? Sim, é isso mesmo. E qual seria este benefício? Aqueles que estudam o Caminho estudam a si mesmos. A mente pode ser ampliada, o corpo beneficiado; doenças podem ser curadas, a morte pode ser evitada. Nada pode ser melhor do que isso.

Mas as pessoas que se dedicam ao Caminho realmente recebem esses benefícios e prazeres? Sim, de fato! Caso contrário, por que tanta gente se torna irritada ao ver pessoas que estudam o Caminho, chamando-as de excêntricas e cafonas? Diz o Tao Te Ching : “quando as pessoas superiores ouvem o Caminho, viajam por ele diligentemente.

Quando pessoas medíocres escutam falar do Caminho, elas parecem saber do que se trata, como se fosse uma coisa muito óbvia. Quando as pessoas inferiores ouvem sobre o Caminho, riem alto, às gargalhadas; mas, claro, aquilo do qual elas não riem, não poderia

ser o Caminho”.

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“Caminho”, com inicial maiúscula, quer dizer “Tao”. Ser ia preferível não traduzir, mas a opção é de Thomas

Cleary -“pode significar uma trilha, um caminho, um princípio, método ou doutrina, um sistema de organização; e

 pode significar também a matriz, a estrutura e a realidade do próprio universo. Cada arte ou ciência é considerada um tao, ou caminho; mas a origem de tudo, a fonte das artes e ciências, é chamada o Tao  –  o Caminho” (O  Essencial do Tao –  Thomas Cleary –  Ed. Nova Cultural).

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PRINCÍPIO

O Caminho é Um, e apenas Um. No nível celestial, ele é chamado “destino”. No nível humano, “natureza essencial”. No nível fenomenal, é chamado “princípio”.

Este princípio atravessa o mundo todo, aparecendo nas atividades diárias. Todo evento, toda coisa tem um princípio natural, do qual não se pode descartar. Portanto, há um princípio subjacente às coisas como elas são, que não pode ser alterado, apenas seguido.

As pessoas superiores observam as coisas em termos de princípio  –  certo ou errado, bom ou mau, elas vão procedendo de acordo. Isto é chamado de abnegação, desapego. Desapego resulta em objetividade: objetividade resulta em clareza. Clareza resulta em lidar com eventos acuradamente, compreendendo a natureza das coisas.

Ao ver as coisas através do ego, amor e ódio surgem descontroladamente, e não se pode evitar indulgência com os sentimentos. Quando você tem indulgência com os sentimentos, você está sendo subjetivo. Quando você é subjetivo, é ignorante. Quando é ignorante, você fica embaralhado e confuso; isto porque você é consciente apenas de si mesmo, mas não do princípio.

Quando há um princípio, há energia. Quando a energia é manifesta, o princípio é oculto. Quando há energia, há forma; e quando a forma é manifesta, a energia está oculta. O princípio é sempre balanceado, enquanto que a energia é parcial; a forma é ainda mais parcial. Equilíbrio é bom em todos os aspectos; sempre há algo que não é bom na parcialidade. Se você quiser converter o que não é bom na parcialidade para retornar ao bem do equilíbrio, você deve examinar a si mesmo cuidadosamente, no limiar da ação. Deve expandir e realizar o que emerge do equilíbrio do princípio; cortar e eliminar o que provém da parcialidade da forma. Depois de um longo tempo, o princípio naturalmente permanecerá, enquanto que o desejo naturalmente desaparecerá.

Os princípios do mundo devem ser investigados, ainda que eles não possam ser investigados plenamente. Há um ponto essencial, que é discernir a confusão na própria mente. Com discernimento, vem a clareza. Com a clareza, vem a verdade. Com a verdade, os princípios do mundo são apreendidos e o equilíbrio central é adquirido.

Saber que o bom é conseguir equilíbrio e, ainda assim, não alcançá-lo, saber que todos os fenômenos nada mais são do que a própria mente e, ainda assim, não compreender a mente  –  isto é confusão. Saber que a substância do nascimento e da morte é uma coisa séria, mas não transcendê-los, conhecer que a impermanência é fugaz, e não perceber que fundamentalmente não há fugacidade – isto é confusão.

O princípio situa-se desde a origem; basta evocá-lo com a mente e lá está ele por si mesmo. O desejo não se situa desde a origem; se você observa cuidadosamente, ele desaparece por si mesmo. Extinguir o desejo e manter o princípio não são duas coisas; na medida em que se detem o desejo, se mantem o princípio. Nada pode beneficiar mais uma pessoa do que o princípio, ainda que aqueles que podem se ater ao princípio sejam tão poucos. Nada pode ferir mais do que o desejo e, no entanto, são tantos os que se mostram tolerantes para com os desejos.

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Quando as pessoas têm desejos, são como árvores tendo insetos; consumidas por algo desconhecido, depois de um certo tempo, entram em colapso. E aqueles que acham que os desejos são divertidos, não percebem que eles ardem como o fogo; serão incendiados se não extingui-los. Seus espíritos sofrerão irritações, álcool e sexo drenarão suas forças vitais, produzindo úlceras e doenças diversas até que chorem de dor, dia e noite. Os Budistas que afirmam o quanto você sofre por seus pecados após a morte não são capazes de perceber o quanto você pode sofrer mesmo em vida.

CÉU E TERRA

O Supremo Caminho é sem forma; o universo é o Caminho com forma. O universo não fala por si próprio, mas sábios são o universo com o poder de falar. Eu não consigo ver sábios, mas posso ler seus escritos clássicos. Lendo os clássicos, pode-se apreender seus princípios; por que haveria de ser diferente de ver os sábios?

Deus cria nossos corpos e provê nossa natureza. Interior e exterior, ambos vêm de Deus. Como ousaríamos danificá-los? Estamos dentro de Deus, e Deus está dentro de nossos corações. Se notarmos o universo e seguirmos o modelo de sua pureza, isto não será diferente do Supremo Caminho. Mas se temos mesmo a mais leve intenção egoísta, experimentamos penalidades incomuns.

O corpo físico é uma natureza que é dádiva de Deus: se você agir de acordo com essa dádiva, você estará espontaneamente livre de ser consumido pelo fogo dos desejos humanos. Tarefas diárias são normas; agir em obediência às leis divinas é evitar excessos equivocados.

A trajetória da humanidade é sempre coordenada por movimentos do céu e da terra, alternando movimento e imobilidade. A energia humana está sempre em comunhão com o céu e a terra, alternando inspiração e expiração.

O sol descendo em direção à terra é um símbolo do fogo do coração descendo, enquanto que a lua atingindo o centro do céu é um símbolo da água dos rins em ascensão. Mirando acima, vemos a Estrela do Norte permanecendo em seu lugar, com as outras estrelas descrevendo revoluções em torno dela; ela então é chamada de eixo dos céus. Se até mesmo os céus têm um eixo – que é considerado como a raiz da criação – o ser humano também tem seu eixo, que é a fonte da vida e de sua natureza.

Ainda que sejam iguais aos humanos, há pessoas especiais que igualam suas qualidades às do céu e da terra. Tente examinar sua mente e sua própria natureza: como podem elas se igualar ao céu e a terra? Se há essa possibilidade, seja diligente; caso contrário, promova uma reforma imediatamente. Faça isso, e atingir uma grandeza humana não será motivo de preocupação.

O céu produz e a terra desenvolve. São nossos pai e mãe universais. O céu é ativo, a terra é imóvel; são nossos guia e professor universais. Os sábios antigos eram os filhos do céu e da terra; os sábios do futuro são os amados descendentes do céu e da terra. Aqueles que realmente amam seus pais crescem na virtude; certamente receberão

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a vida. Aqueles que realmente respeitam seus professores aprendem desde o solo até chegar ao cume.

VIDA HUMANA

A vida humana é o objetivo supremo. Quando esse objetivo final entra em ação, ele produz uma energia positiva, como o fogo. Fogo é espírito. Quando o objetivo final entra em estado de quietude, produz energia negativa, como a água. Água é vitalidade.O fogo do espírito e a água da vitalidade combinam-se sutilmente, fixando-se entre os rins, para produzir a raiz da energia original.

Antes de nascermos, a claridade ou a turvação de nosso recebimento de energia nos é determinada por Deus  –  os humanos nada têm a ver com isso. Mas depois de nascermos, perversidade ou retidão de caráter provém de nossa própria vontade, e Deus nada tem a ver com isso.

Céu e terra dão nascimento aos seres humanos, e aqueles de maior inteligência são, sem dúvida, muito poucos; aqueles de uma loucura fundamental são também poucos. São os medíocres os mais numerosos. Pessoas medianas podem fortalecer a si mesmas, até que não haja mais diferenças entre elas e as pessoas superiores. Mas se os medíocres negligenciam a si mesmos, como podem eles se diferenciar dos piores tolos?

O povo de hoje sabe apenas que é uma decorrência de seus pais; não percebem que são, tanto eles mesmos quanto seus pais, decorrências do Caminho. Segue-se que os superiores invariavelmente buscam se ater ao Caminho; assim não terão do que se envergonhar diante do céu e da terra, nem passar por desgraças diante do céu e da terra.

Disse Mestre Geng: “o Caminho dos reis sábios Wen e Wu ainda não entrou em colapso; ele está nas pessoas. Mas não somente está nas pessoas do passado, mas também nas da era presente. Mas não somente nas de nosso tempo, mas também nas do futuro”. Quando uma pessoa nasce, ela recebe um corpo; em cada corpo está um ser humano real. A sutileza espiritual do ser humano real comunga com o céu e a terra. A claridade e a serenidade do ser humano real estão livres de máculas. O ser humano real nunca cresceu mais ou menos; ele nunca nasceu ou morreu. Se você puder, de fato, cultivar o ser humano real, isso será melhor do que o pobre que recebe dez mil moedas de ouro.

Mêncio disse: “a diferença entre homens e animais é insignificante; as pessoas comuns a rejeitam, mas as superiores a mantêm. E os que a mantêm tornam-se sábios, mas as que a rejeitam tornam-se bestas”. Quando a rejeitam, tornam-se bestas imediatamente, e não em outra vida após a morte.

A natureza tem cinco forças  –  metal, madeira, água, fogo e terra. São forças porque nunca se extinguem; se o fizessem, por um momento que fosse, não poderiam ser chamadas de forças. A humanidade tem cinco constantes. São chamadas constantes porque são, de fato, invariáveis; se variassem mesmo por um momento, não seriam constantes.

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Essas cinco forças e cinco constantes são inerentes ao corpo humano, aonde constituem cinco órgãos – coração, fígado, pâncreas, pulmões e rins. Os cinco órgãos são a principal raiz que fornece a vida às pessoas; se a raiz principal encontra-se danificada, ela não pode sustentar a vida. E é por isso que médicos iluminados, quando tratam doenças, invariavelmente harmonizam os cinco órgãos primeiramente.

Quando as cinco forças operam no curso da atividade cotidiana, elas se tornam em cinco normas. As cinco normas regem o relacionamento entre governo e povo, entre pais e filhos, marido e esposa, entre idosos e jovens, e entre amigos. As cinco normas são a via para o sucesso na vida; se negligenciarem essa via, não merecerão ser chamados de humanos. Por isso os sábios antigos, ao educar as pessoas, primeiro elucidavam os princípios das cinco normas; mas ainda assim há pessoas da presente geração que acham que podem encontrar o Caminho através da mortificação de seus corpos físicos e do afastamento das normas humanas. Certamente estão inconscientes de seu erro; e quanto às outras pessoas que as adoram e reverenciam, também essas não sabem o quanto estão equivocadas.

IDADE AVANÇADA

O povo diz que, depois de sessenta anos, começa-se a contar a idade de ano em ano. Depois dos setenta, de mês em mês; depois dos oitenta, dia a dia. Ora, agora tenho mais de oitenta anos  – e daí? Cada dia que vivo é um dia emprestado pelo Céu para realização do Caminho – como eu ousaria desperdiçá-lo? Mesmo que eu consiga realizar o Caminho imediatamente, já é tarde – como pode ser admissível qualquer adiamento?

Há muito tempo atrás, três anciões falavam sobre impermanência. Foi quando um deles resolveu falar: “todos participam da festa este ano, mas quem sabe qual de nós não faltará no ano que vem”. Um outro responde: “você fala do que está ainda por demais distante. Tiramos nossos sapatos pela noite, mas quem pode saber qual de nós os calçará pela manhã?“ E então disse o terceiro: “mas isso é ainda remoto! Respiramos, mas ao expirar, não sabemos se poderemos inspirar novamente”.

Os sábios não perdem tempo, os bravos não pensam duas vezes. Se você toma conhecimento do Caminho hoje, deve trabalhar nisso nesse mesmo dia; quando você toma conhecimento, essa é a hora de iniciar. Se você diz que não tem tempo para isso hoje e adia para amanhã, receio que quando você quiser fazê-lo, não será mais possível.

Os seres humanos têm três tesouros  –  vitalidade, energia e espírito. Na idade avançada, tenha cautela com a exaustão da vitalidade; quando a vitalidade se exaure, você morre. Na idade avançada, se acautele contra a vazão de energia; se a energia é drenada, você morre. Na idade avançada, tenha cautela com a dissociação do espírito; se o espírito se vai, você morre.

Como evitar a exaustão da vitalidade? É necessário manter-se afastado do sexo? Como podemos evitar a perda de energia? É necessário falar menos? Como evitar a dissociação do espírito? É necessário extinguir os desejos? O espírito não pode ser estabilizado à força; quando a mente e a respiração descansam mutuamente, um no

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outro, então o espírito se estabiliza naturalmente. A energia não é drenada casualmente; esqueça as palavras, mantenha-se centrado e a energia se mantem. Vitalidade não é algo que se perde por escoamento; recircule a vitalidade para realimentar o cérebro, e a energia não vaza.

Alguns questionam como podemos realimentar nossa energia física quando ela já se mostra deteriorada. É sendo parcimonioso com seu discurso que você realimenta seus pulmões. É moderando a alimentação e as bebidas que se realimenta o estômago. E é detendo a preocupação que se recarrega o coração. Livrando-se do rancor, se revitaliza o fígado. Parando a luxúria promíscua, você revitaliza não só os rins, mas também os órgãos genitais.

Mas se você ainda perguntar mais, eu diria a você para não se preocupar com realimentação. Basta revitalizar-se com cautela para perdê-la novamente. Saiba, portanto, que, depois de cem dias, você não vê mais excessos; mas um único dia de desperdício e você pode sentir a insuficiência.

Olhe para as plantas, para as árvores; suas folhagens florescem, caem no outono retornando às raízes, seguindo um padrão natural. Ao retornar às raízes, não morrem, mas se regeneram com a chegada da primavera. A partir deste princípio, podemos notar que a regeneração contínua é o Caminho da natureza, e que retornar às raízes é um padrão inerente aos seres. Aqueles que conhecem o padrão inerente, sem violar o Caminho, são as pessoas reais. Essa é a razão das pessoas reais respirarem pelo calcanhar, pois os calcanhares são como raízes. Durante os três meses de inverno, que é a estação de retornar à raiz, você deveria silenciosamente adotar esta prática.

DOENÇA

Como surgem as doenças? Todos criam aflições psicológicas baseadas em pensamentos divagantes. Uma vez que as aflições psicológicas vêm à tona, elas injuriam o coração. Uma vez que o coração é injuriado, ele não pode nutrir o estômago, o que faz com que o indivíduo deixe de apreciar a comida. Quando o estômago torna-se debilitado, a energia dos pulmões torna-se deficiente, causando uma tosse indesejável. Se há tosse, a energia da água seca, o que faz com que a energia da madeira seja incompleta  – o cabelo torna-se queimado, os músculos ficam debilitados; e quando a fraqueza espalha-se pelos cinco órgãos, a pessoa morre.

Quando os pensamentos divagantes germinam e se mesclam, é então que surgem as doenças. As pessoas não notam isso; antes de se considerarem enfermas, elas invariavelmente esperam até que a dor afete seus corpos, sem saber que não se trata de uma coisa que surge da noite para o dia, mas sim de um processo que se desenvolve gradualmente.

Fora do corpo, há seis extremos – vento, frio, calor, umidade, secura e fogo. Dentro do corpo, há sete emoções: prazer, raiva, tristeza, alegria, preocupação, medo e surpresa. Aqueles que se tornam doentes pelas sete emoções tornam-se internamente prejudicados

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e desenvolvem sintomas de deficiência. Os que adoecem por causa dos seis extremos, desestabilizam-se externamente, dando vez a doenças de excessos.

Deficiência pede reabastecimento; excesso pede drenagem. Enfermidades resultantes de injúria contra a energia física temporal podem ser curadas por ervas, minerais, acupuntura ou moxabustão; mas as que resultam de danos internos à energia primitiva imaterial não podem ser curadas sem contemplação interna e uma realimentação silenciosa.

Os dez grandes médicos curam as doenças físicas; os sábios dos Três Ensinamentos curam os distúrbios mentais. Quando os amigos encontram-se doentes, todos sabem examiná-los; mas quando as pessoas mesmas caem enfermas, não sabem como olhar para si mesmas.

Se você sabe como observar a si mesmo, mirando internamente, você não vê nem mente, nem corpo. Já que não há corpo nem mente, quem é este que sofre a enfermidade? Quem é este que não é a doença? Se você puder ver a resposta claramente, será espontaneamente regenerado.

Quando se medita sobre as doenças, o materialismo diminui gradativamente. Quando se está em guarda contra a morte, a mente, tomada pela plenitude do Caminho, floresce naturalmente.

Certa vez, havia um homem com um distúrbio cardíaco. Ao encontrar com um sábio famoso, ouviu dele o seguinte: “sua enfermidade se origina em aflições. Aflições nascem de pensamentos errantes. Mas veja, há três espécies de pensamentos errantes. Se você pensa nos bons tempos e como tudo tem piorado através das décadas, os favores e as hostilidades sofridas, diversas emoções e sentimentos vagos, esse é o pensamento errante do passado. Quando as coisas surgem, você deveria ter uma pronta reação de acordo. Se você hesita demais ao invés de ter opiniões formadas, então esse é o pensamento errante do presente. Se você sonha com toda a fortuna e status que pode vir a ter algum dia, ou espera ansiosamente que seus filhos vençam os degraus da vida para atingirem o sucesso – sendo que muitas vezes essas coisas nem são razoáveis ou fáceis de se obter – esse é o pensamento errante do futuro”. Disse ainda: “esses três tipos de divagações errantes ocorrem subitamente e desaparecem subitamente  – é o que os Budistas Chan chamam de mente ilusória. Se você puder distinguir esse erro, ele se desvanecerá – o que os Budistas Chan chamarão de despertar da mente. Por isso se diz que não devemos nos preocupar com a ocorrência de pensamentos, mas somente nos acautelar para não sermos lentos demais para notá-los acontecendo. A ocorrência dos pensamentos é a doença; não dar continuidade a eles é o remédio”.

Mas o velho sábio ainda tinha mais a dizer ao homem do distúrbio cardíaco: “sua doença também é fruto da falha do fogo e da água se mesclarem. Geralmente falando, a obsessão por beldades, do ponto de vista do deboche, é lascívia estimulada externamente, de modo extremo; um sonho úmido causado pelo pensamento em beldades é luxúria produzida internamente. Apegar-se a essas duas coisas dissipa a vitalidade do cérebro. Se você puder detê-las, a energia da água associada a elas será naturalmente produzida em abundância, de modo que poderá ascender e mesclar-se com o coração”.

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“Quando você pondera e estuda escritos até o ponto de esquecer -se de dormir e comer, isto é uma obstrução abstrata. Quando você persegue seu negócio ou profissão sem se refrear do excesso de trabalho, isto é uma obstrução concreta. Ainda que não sejam lascívia humana, mesmo assim trazem dano à alma. Se você puder acalmá-las, o fogo do coração não se alastrará para cima, podendo descer para mesclar-se com a energia genital”.

“Portanto, os dados dos sentidos não são objetivados, e os órgãos dos sentidos não possuem padrões. Indo contra o fluxo e retornando à unidade, as funções dos seis sentidos são desativadas”.

O homem da doença cardíaca seguiu o conselho do monge famoso. Mantendo-se isolado num quarto, ele esvaziou sua mente de quaisquer objetos. Depois de praticar sentado por mais de um mês, seu distúrbio cardíaco pareceu desaparecer.

Por isso, quando tiver uma doença, conheça a si mesmo. Uma vez que você tome consciência disso, poderá curar-se tão cedo quanto possível. Mas se você se aborrecer com o método de cura e evitar encarar a doença, será tarde demais para lamentar, quando a impermanência chegar até você.

MORTE

Quando as pessoas estão no auge da vida, nada falta que elas não queiram perseguir em busca de seus desejos. Mas então sua saúde é danificada e toda a sorte de enfermidades começa a lhes ocorrer. Quando a morte se aproxima, nem mesmo uma casa cheia de filhos e filhas pode ajudá-las; não importa quanto dinheiro tenham, já que ele não compra saúde. Não adianta se lamentar quando já se está às portas da morte, tarde demais!

Quem não haveria de temer a morte? É bem melhor cuidar disso antes de

estarmos morrendo. Se esperarmos até estarmos à beira da morte para nos acautelarmos contra ela, então será bem difícil escaparmos. E quem não teme a enfermidade? É melhor cuidar disso antes de adoecer. Se esperarmos até adoecermos para depois pensar em

cuidar da doença, então ela será bem difícil de ser curada.

Observe as coisas no mundo: há algo mais importante do que a vida e a natureza? Pense em todos os eventos do mundo: há algo mais importante do que o nascimento e a morte?

Todos gostam da vida, mas não da via para a longa vida. Todos detestam a morte, mas não as coisas que levam a ela.

As pessoas estão no mundo, os eventos seguem continuamente, e elas eventualmente morrem; como evitar estar à beira da morte? O melhor é mudar sua atitude tão logo quanto possível, desembaraçando-se de todos os tipos de apelos aos sentidos, para poder se tornar uma pessoa de longevidade através do mundo. O que poderia ser melhor?

Alguns podem perguntar: depois de envolvidos pelos objetos dos sentidos por um muito longo período, não será difícil livrar-se deles, mesmo que queiramos fazê-lo de uma

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tacada só? Mas a resposta é que você, de fato, não quer abrir mão dos desejos, e este é o verdadeiro motivo para dizer que é tão difícil. Suponha que você está morto – há alguma coisa da qual você não queira se desligar? Mesmo que você não esteja morto agora, suponha que está, e então você poderá desistir de todo o embaraço  –  não seria maravilhoso?

Também é questionado do que deveríamos nos desembaraçar. Deve-se deixar passar os quatro elementos mais grosseiros e os cinco grupos, sementes de consciência turvada pela emoção. Os reais praticantes do Caminho devem se comportar como se já estivessem mortos, para depois retornar à vida. Para aqueles que estão totalmente mortos, não há coisa no mundo que possa envolvê-los, e não há nenhum princípio místico. Quando se atinge uma total abnegação como essa, somente então isso estará fundamentado.

Confúcio disse: “se ouvir o Caminho pela manhã, você pode morrer feliz pela noite”. Este ditado ensina às pessoas o ponto crítico. Ele parece significar que, quando escutam o chamado do Caminho, as pessoas superiores compreendem a vida e a morte no mesmo instante.

SOFRIMENTO

Simplesmente porque não podem se livrar de uma coisa, a saber – o desejo, as pessoas desejam fama e lucro, tornando-se presas da fama e do lucro; desejam carne e vinho, tornando-se aprisionadas pela carne e pelo vinho; desejam status e prestígio, tornando-se presas do status e do prestígio, desejam filhos e netos, tornando-se presas aos filhos e aos netos. Elas se aprisionam em toda a sorte de caminhos equivocados, indo e vindo no mundo humano, sujeitando-se a sofrimentos ilimitados.

O feto se forma da combinação do esperma do pai com o óvulo da mãe. A bolsa amniótica é como uma prisão restringindo o corpo. Quando a mãe ingere algo muito quente, é como água fervente despejada no corpo fetal; quando ela come algo frio, é como gelo pressionado contra o corpo. Quando a energia é plena e o corpo fetal está completo, ele quer sair com urgência, mas antes deve romper a bolsa. Pode levar alguns dias até que o líquido possa romper a bolsa; as pessoas só falam do sofrimento da mãe no trabalho de parto, mas elas ignoram que o bebê sofre ainda mais. Somente após o parto, quando chora, os sofrimentos do ventre estão superados.

Em seguida, há sofrimentos afligindo todo o corpo subseqüentemente. Há fome e sede interiormente; exteriormente, há frio e calor. Febres e distúrbios ocorrem um após o outro. Estes são os sofrimentos da infância.

Quando a maturidade é atingida, tem-se que encarar o trabalho. Aqueles que se tornam regentes, preocupam-se com a terra; aqueles que se tornam cidadãos e camponeses preocupam-se com suas próprias pessoas e famílias. Trabalham dia e noite sem descanso, mesmo quando sentados ou em repouso. O fogo está ativo em todos os órgãos internos, calcinando a harmonia natural. A enfermidade persegue o corpo, sem encontrar resistência.

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Primeiramente, o sofrimento da doença é experimentado. Depois embarcam no sofrimento da morte e depois no da retribuição. Isso segue por eras e eras. Os Budistas falam do sofrimento da separação dos entes queridos, da associação com hostilidades e da insatisfação. Os sofrimentos e misérias do povo são todos produzidos e experimentados pelas próprias pessoas. Há aqueles que se envolvem enganosamente, sem saber o que é sofrimento, mas também há os que têm uma clara consciência do que é sofrer, mas não conseguem evitar.

Há um ditado que diz: “não queira casar -se cedo, pois depois de casar-se, a união é mais difícil; não diga que atingir o sucesso é uma grande conquista, pois após sua obtenção, o trabalho é bem maior. Não pense que semear apenas é suficiente, pois cuidar e colher é fatigante; não diga que é melhor ser um monge; depois de tornar-se monge ou sacerdote, isso é mentalmente bem mais difícil.

Alguns podem argumentar que os sofrimentos das pessoas mundanas são físicos, enquanto que os dos estudiosos são mentais. Elas amarram a si mesmas sem corda, e se ocupam, mas com nada. Elas não podem deter-se, mesmo quando almejam isso. O que deveria ser feito em tal caso? A resposta para isso é que os eruditos sofrem desse modo apenas quando não encontraram uma tradição autêntica. Quando se encontra uma tradição verdadeira, cabe a si mesmo decidir o que deter e o que deixar prosseguir - que sofrimento pode haver nisso? Entretanto, seguir o Caminho é um método de alento; aquele que fala de sofrimento diante do Caminho é um desajustado.

ESSÊNCIA E VIDA

Atravessar o portal para aprender o Caminho pede que você primeiramente entenda a essência e a vida. A essência tem sua fonte e raiz, que é o solo da mente. A vida tem seu tronco, que é a respiração verdadeira. O tronco da vida deve ser sólido, a fonte da essência deve ser cristalina. Como pode a fonte da essência ser purificada? Quando o interior e o exterior são ambos esquecidos, então ela torna-se purificada. Como pode o tronco da vida ser solidificado? Quando o espírito e a energia estão juntos, então ele está sólido.

Essência é espírito, vida é vitalidade e energia. O Diagrama do Absoluto diz que “a realidade do infinito e a vitalidade das energias yin e yang sutilmente se unem. O ser humano se origina aqui”. Essência é a realidade do infinito; vida é a vitalidade do yin e do yang. O Mestre da Imutabilidade disse: “a essência está na mente. Na mesma proporção em que a mente é clareada, a essência pode ser observada. Quando a essência se manifesta, a natureza atinge a plenitude. Este é o modo pelo qual a plenitude da natureza pode ser atingida, detendo o fluxo do pensamento. Nada mais tem significado além de serenamente apreender isto”.

Todo o trabalho resume-se em deter o pensamento. O melhor e mais rápido método para conseguir isto é manter mente e respiração juntos. Como assim? Energia é a mãe do espírito, espírito é a criança da energia; mente e respiração mantidas juntas são como o encontro da mãe com seu bebê. Quando espírito e energia se fundem, depois de

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um longo período de intimidade próxima, essa unidade produz grande estabilidade. Isso se chama retornar à raiz e restaurar a vida. Quando a raiz é profunda, o tronco é firme; este é o caminho da longa vida e da visão eterna.

O Mestre Ancestral Qiu disse: se a respiração não encontra nenhum fundamento, a vida não é de todo sua”. E eu digo: “se a mente não está de todo esquecida, a respiração não pode ser fundamentada”. Os seres humanos têm uma natureza universal e também uma disposição. A natureza universal é totalmente do absoluto; tão logo ela se converte em yin, yang e os cinco elementos, ela se torna disposição. Portanto, a substância do absoluto cai na disposição – não é o caso haver uma natureza separada.

Mestre Zhang disse: “quando você habilmente retorna a isso, lá está a natureza universal”. Questionado se há um habilidoso modo de retorno, ele responde: “sim, Confucionistas falam sobre limpar a mente e se tornar acessível; Budistas falam de observação independente; Taoístas falam do retorno à simplicidade. Esse é o início de um retorno habilidoso”.

“Confucionistas dizem que há estabilidade depois de saber quando parar, e então pode haver serenidade após a estabilização. Budistas falam de ver através do vazio da mente e do corpo. Taoístas falam de um retorno à inocência. Esse é o meio de um retorno habilidoso”.

“Confucionistas falam de não ter nem vontade, compulsividade, obsessão ou egoísmo. Budistas falam de não ter nem olhos, nem ouvidos, nariz língua, corpo ou mente. Taoístas falam de retorno ao infinito. Esse é a realização do retorno habilidoso”.

A natureza humana é originariamente boa, e não há nada que não seja bom em sua disposição. Ter consciência dessa disposição, ao invés de deixar-se levar por ela, é o método da transformação da disposição.

MENTE

O ser humano tem uma mente. Externamente é sentimento, internamente é natureza. Avançar é consciência, retornar é sabedoria. Mas se você quer reverter o avanço externo para retornar internamente, seria necessário praticar introspecção? Introspecção implica em introversão e empenho na percepção.

O espírito do ser humano está na mente, e o gatilho da mente são os olhos. Segue-se que, quando a função dos olhos está interiorizada, a mente se conserva interiorizada, em harmonia com eles. E não somente permanece no interior, mas também se estabiliza.

Uma vez que a mente se estabiliza, o fogo do coração desce, enquanto que a água dos genitais sobe. A boca enche-se de saliva adocicada, os pés caminham por um brilho ígneo. Há sutilezas que não podem ser expressas em palavras.

Se os seres humanos têm uma única mente verdadeira, por que eles se perdem em confusão? Eles parecem ter conhecimento, mas não de si mesmos. Portanto, é dito que se você sabe quando se perde, então não se perderá. Quando você precisa seguir, siga.

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A sinceridade elimina a falsidade, o respeito elimina o conceito. Quando os pensamentos errantes ocorrem numa profusa confusão, não tente detê-los, só olhe de volta para a própria mente – o que são esses pensamentos? Quando você reconhece o que pensa, adquire tranqüilidade no mesmo instante.

Estudar o caminho não tem uma técnica especial: observação constante do interior é estudar o Caminho, e quando o falso pensar não está mais lá, isso é o Caminho. Mestre Zhu dizia: “na mesma medida em que toma posse de sua mente, você encontra seu poder interior. Se você a mantem sob cuidadoso controle e não se perde nas coisas, como não ser bem sucedido em corrigi-la? Isso pode ser experimentalmente provado em cerca de meio mês”.

E ele ainda dizia: “buscar uma mente liberta não quer dizer buscar uma outra mente para focalizar sua atenção. É melhor, no momento em que percebe a mente liberta, pensar: ‘esta é minha mente; deveria estar à minha disposição para empregá-la  –  não deveria permitir que ela seguisse outros’. Mesmo se sua mente foi parada por um longo período, você pode despertar, e espantará toda falsidade apenas com um brado”.

Continua a observar a mente. Quando não houver mais movimento da mente, continue detendo-se na respiração. Quando a respiração estiver assentada, o espírito assentará conjuntamente. É isto que as pessoas reais entendem por “respirar com os calcanhares”.

A única coisa que diferencia humanos de animais é a mente. Buda dizia que os praticantes do mal retornam, renascendo em corpos de bestas selvagens. Mas eu digo que as pessoas que perdem suas mentes já se tornaram animais. Por quê? Ora, elas podem ter forma humana, mas não mais são seres humanos.

Se sua mente se mantem imóvel ao ver objetos, esse estado é chamado de estar “não nascido”. O “não-nascido” não morre. E sua mente não é limitada por quaisquer objetos dos sentidos. Quando não há limite, há liberação.

SENTIMENTOS

Os sete sentimentos já foram mencionados. Quando você está prazeroso, a energia relaxa; quando raivoso, a energia ascende; quando triste, evapora; quando feliz, se dispersa; quando ansioso, ela se adensa; quando surpreso, a energia é desordenada. Perversidade e anormalidade produzem doenças – inchando e bloqueando o coração e o abdômen, instaurando dor no abdômen e laterais, obstruindo a garganta, provocando agitações, palpitações e respiração ofegante. Misturando-se ao sangue, produzem obstrução dos intestinos; com água, produzem indigestão, catarro, salivação. Às vezes causam escleroses e crescimentos como hematomas ou membranas.

Os efeitos são muitos para mencioná-los todos. Segue-se que aqueles que são hábeis em higiene recolhem suas emoções e retornam à essência  –  este é um bom método para se livrar de doenças.

Os sentimentos agem naturalmente no exterior. Os sábios cuidam deles antes que se tornem em ações, assim podem harmonizá-los com as coisas de modo não emocional,

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sem nenhuma possessividade, sem serem varridos pelos mesmos no seu envolvimento. São como espelhos cristalinos refletindo objetos: beleza é a beleza das coisas, portanto, não concebem amor por elas; feiúra é a feiúra das coisas, portanto, não precisam odiá-las.

Por isso é dito: “aberto e imparcial, quando as coisas emergem, responda de acordo”. Imparcialidade significa verdade natural, não adulterada pela subjetividade dos desejos humanos. Responder de acordo significa que, quando há coisas que devem seguir seu rumo, deve-se agir de maneira tal que não cause problemas no contexto.

Os Escritos para Estabilizar a Natureza dizem: “os sentimentos das pessoas têm

sua cegueira particular, e por essa razão elas não podem alcançar o Caminho. Considerada no todo, essa cegueira está no uso subjetivo do intelecto. Quando se é subjetivo, não se pode estar deliberadamente pronto a responder aos eventos; quando usamos o intelecto, podemos ser espontâneos, com uma clara consciência”.

E mais, “os sentimentos das pessoas facilmente são trazidos à tona, e dificilmente são controlados; mas deles todos, o ódio é o pior. Se você puder esquecer imediatamente sua raiva e observar o que é em princípio certo ou errado, você também perceberá que as seduções exteriores nem sequer são dignas de aversão, o que já é meio trajeto andado em busca do Caminho.

Mestre Zhu disse: “esqueça o ódio e você será imparcial; veja o que é verdadeiro e siga-o. Esses são dois meios de retornar a si mesmo, livrando-se da cegueira”. Pessoas que apreendem o Caminho estão vazias e silenciosas, por dentro e por fora. No meio da serenidade, olham para dentro: percebendo que na verdade não há coisa alguma, ainda que estejam fisicamente dentro do círculo, transcendem as coisas mentalmente.

PENSAR

A mente humana deveria ser mortificada, enquanto que seu potencial deveria ser vivificado. Mortificação tem o sentido de provocar a extinção dos pensamentos de desejo; vivificar tem o sentido de dar vida à sua razão. Pensar é o potencial vivo da mente. Libertar-se do erro é o princípio geral; os nove pensamentos são princípios específicos  – pensar como ver claramente, pensar em como ouvir aguçadamente, pensar em como causar uma impressão calorosa, em como ser respeitável em sua conduta, como ser verdadeiro no discurso, como ser sério no trabalho, como ponderar questões quando em dúvida, que problemas podem ocorrer quando surge a raiva e pensar sobre a justiça quando vêm os lucros.

Pensar sobre o Caminho é correto; pensar sobre as coisas é um erro. O Caminho é inerente a nós; quando você pensa no Caminho inerente a nós, pense em si próprio como o Caminho. Quando o pensamento atinge o reino das sutilezas, a mente é compreensiva, clara e límpida, flutuante jubilosa. Somente isto pode ser chamado de auto-realização; se a sua energia mental se exaure, mesmo considerando a profundidade do seu pensar, mesmo que você tenha alguma percepção, isto ainda não é auto-realização.

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Aqueles que atingem a auto-realização sem pensar são sábios; aqueles que obtêm realização pensando são esclarecidos. Não cogitar e não se esforçar é o que se chama verdade; isto se refere ao conhecimento inato que as crianças têm, sem estudo ou reflexão. Optar pelo bom simplesmente significa escolher o não cognitivo e o não estafante.

O coração humano tem sete aberturas, a maioria delas fechadas pelos canais sangüíneos. Se você quer abri-los, não poderá fazê-lo sem aprender e pensar. Pensar tem o significado de penetração, aprender tem a função de confirmar. Quando pensar e aprender são ambos empregados, que via não poderá ser obtida?

Quando você ainda não penetrou um princípio, é como encarar um muro. Pensar é como abrir buracos nesse muro. Por cada buraco aberto, você consegue o mesmo tanto de luz. Começando pequeno, você vai aumentando, até que eventualmente todo o muro se foi, e então o que há é abertura, acesso livre sem qualquer obstrução.

O Livro dos Modos diz: “pense de um modo digno”. Este “digno” significa que ele

não é forçado e, desse modo, não é laborioso. Quando não é forçado nem elaborado, isso pode ser chamado de bom pensar.

“O pensar de um homem cultivado não vai além de sua posição”. Isso é chamado pensar. Quando está fora de lugar, então é chamado de “pensamentos”. Pensar é uma porta de entrada para o Caminho, enquanto que pensamentos são raízes obstruindo o Caminho.

PENSAMENTOS

Simplesmente devido à inconsciência, pensamentos emergem subitamente: isso se chama ignorância. Por causa da ascensão da ignorância, parece que a mente se torna em pensamentos. Mas a mente, na realidade, não se move; quando você atinge este ponto na observação da mente, os pensamentos cessam por si mesmos.

Deter os pensamentos não é difícil – se você pode retornar assim que um primeiro pensamento aparece, então o subseqüente naturalmente não continua. Antes da ascensão do pensamento, estamos em fusão com o infinito. Mas se você agora quer entender a não ocorrência de um simples pensamento que seja, você deve examinar de onde os pensamentos surgem. O passado é baseado no presente, o futuro é baseado no passado; se você não tem a mente no presente, então o passado está naturalmente superado.

Visões da pessoa e de si mesma certamente são pensamentos, mas também o apego à religião é um pensamento, e deve ser igualmente eliminado. Se você conscientemente tenta deter os pensamentos errantes, eles em troca parecerão aumentar. Tente, ao invés disso, observar o que são esses pensamentos, e eles desaparecerão espontaneamente.

Para cultivar a realização, é essencial deter os pensamentos. E para deter os pensamentos, é fundamental observar a mente. Ao se observar a mente, nota-se que a mente não existe; e quando a mente é não-existente, os objetos esvaziam-se por si

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mesmos. Mas desde que mente e objetos estão presentes, não há detenção. Nesse caso, como pode ocorrer a observação?

Gui Feng disse: “conscientemente examine em detalhes; observe muito perceptivamente, com intenção. Se energias do hábito surgirem, cessarão num instante; não as siga e você evitará cair nas indulgências emocionais dos seres humanos ordinários. Também não as destrua e você evitará paralisar-se. O ensinamento todo-abrangente da escola da plenitude é, depois tudo, como isto: haja de acordo com a natureza original e a cognição consciente será ininterrupta”.

A Tripla Unidade afirma que “os olhos, os ouvidos e a boca são três tesouros.

Feche-os e não permita passagens. Deixe-os abandonar uma postura voluntariosa e retornar ao nada, ao vazio; libertar-se dos pensamentos é a normalidade”.

Aqueles que se atêm à não-mente dentro da própria mente conseguem discernir sem aniquilar as características da mente. Aqueles que estão livres dos pensamentos, depois deles terem ocorrido, descobrem que os pensamentos não têm uma essência própria – como são condicionalmente originados, conseqüentemente são vazios.

GOSTOS

Toda mente humana tem seus gostos. Gostos são as coisas nas quais a mente tende a focalizar.

Há coisas que nós não esperamos que sejam assim, mas ainda assim elas são. Depois de tudo, não sabemos porque elas são assim.

Na medida em que o nível do caráter humano pode ser julgado por um simples pensamento, e todo o sucesso ou fracasso de uma vida pode ser determinado por um momento, não podemos ser senão cuidadosos.

Se as pessoas gostam de humanidade e justiça, cortesia e música, poesia e obras clássicas, sabemos, sem dúvida, que são pessoas inteligentes. Mas se elas gostam de ociosidade, de jogar, beber e prostituição, sabemos, sem dúvida, que são perdulárias. Mas se elas gostam de disputas, armas e glórias, sabemos que são pessoas violentas.

Falando de modo geral, há cinco perdas que se seguem do gosto por passatempos e diversão. Elas são a poluição do corpo, fadiga do espírito, desperdício de saúde, perda de tempo, e equívocos no trabalho. Mesmo que você seja extremamente habilidoso, não poderá avançar muito; esta é a razão das pessoas cultas se absterem.

O CORPO

O corpo humano tem três câmaras na frente, chamadas de câmara do nirvana, câmara rubra e câmara do pátio amarelo. São nelas que o espírito mora. Nas costas há três passagens, chamadas de passagem do cóccix, passagem do meio da coluna e passagem da pílula de jade. Eles constituem a via pela qual o espírito e a energia circulam.

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Mêncio disse: “os imperadores sábios Yao e Shun o fizeram por natureza; os reis Tang e Wu o fizeram por descoberta”. Ele disse também: “Tang e Wu o fizeram em pessoa”. Isto é uma questão de redescobrir isto em si mesmo. Os reis Tang e Wu foram capazes de redescobrir os Imperadores Yao e Shun nos corpos de Tang e Wu; e se eles foram hábeis em descobrir isto em si mesmos, então há um sábio imperador Yao e um Shun em cada um de nós.

Quando examinamos o corpo interiormente, a energia está lá. Quando examinamos essa energia interiormente, o espírito está lá. Porque as pessoas cultivadas seguem o Caminho em seus corpos, quando o corpo é cultivado, o Caminho é estabelecido. Pessoas imaturas seguem os desejos com seus corpos, e daí seus desejos florescem, enquanto os corpos se vão.

O Shurangama Sutra diz: “entre profundamente pelo portal, entre sem se perder,

pois quando você conhece a raiz, os seis sentidos se aclaram e acalmam de uma só vez. A razão pela qual as pessoas são incapazes de se ater ao Caminho é porque elas são consumidas pelo corpo”.

Se você quer se livrar dessa calcinação, você deveria aceitar esse corpo como uma coisa impermanente, um objeto doloroso sem dono, um saco de pus e sangue, urina e fezes. O corpo todo, dentro e fora, nada tem de bom. Por que você quer alimentá-lo com comidas finas e vesti-lo com trajes sofisticados? Você demonstra acuidade e esperteza quando está na presença de outros. Pessoas que estão sujeitas à compulsão estão confusas na mente e iludidas no coração. Todo o mundo já se sentiu enganado uma vez.

Morte é seguida de nascimento, nascimento é seguido de morte. Por éons infinitos temos experimentado dores e vexames incontáveis, sem nunca ter esperança de sair fora. Mas agora que assentei meu coração no Caminho, vejo todo o percurso através de vocês, e também tudo que há para saber a respeito de todos vocês. Não mais serei confundido por vocês, nem compelido por vocês.

Gradualmente desenvolva o interior em esvaziamento da personalidade. Se aplicar isso de uma vez, abandonando corpo e personalidade, abandonando o corpo e os fenômenos, mortificando seu corpo físico e repudiando a inteligência, e abraçar essa meta e nunca ir além dela, não é isso aproximar-se do Caminho?

Quando os praticantes de magia cultivam a si mesmos, eles invariavelmente restauram seus corpos. Espírito é energia; quando a energia é estabilizada, o espírito está focado. Essência e vida desenvolvidos, o Caminho e o recipiente se encontram um ao outro; espírito e corpo sublimados, eles se fundem na realidade, realidade do Caminho. CANAIS DE ENERGIA

O corpo humano tem doze canais principais de energia2 e mais oito canais extras; mas

apenas dois, conhecidos como canais ativo e passivo, têm ligação com a vida e a morte. Nas pessoas comuns, o canal passivo vai do abdômen para cima, enquanto que o canal ativo está nas costas e desce. Frente e costas estão separados, de modo que o

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mecanismo de transformação não tem base. Daí a duração de suas vidas dependerem do montante de energia com a qual elas nasceram.

Adeptos da magia reconhecem o canal passivo como aquele no qual todos os canais yin se encontram, e o canal ativo é o que unifica todos os canais yang. Se ambos têm o curso livre, todos os cem canais permitirão o livre fluir da energia. Eles então repelem a convergência de energia negativa e promovem o fogo da energia positiva, praticando o método de movimentar a roda d’água.

O método é concentrar o espírito na abertura da energia. Isto se chama retornar à raiz. Com o espírito e a energia se unindo um ao outro, abrace a unidade sem dispersão. Quando a imobilidade culminar em movimento, isso é o espírito novamente conduzindo a energia da raiz para cima, para o nirvana. Nesse ponto, a roda d’água se movimenta pela primeira vez.

Se você quer saber o curso da roda d’água, saiba que são os canais passivo e ativo em nossos corpos. Quando a energia sobe pela primeira vez, ela se detem entre os rins e os genitais, então flui em direção às costas, mas fluindo como inundação, sem percorrer os canais; então nós rapidamente usamos o espírito para dirigir a energia de volta para o cóccix e acima, para o meio da coluna. É difícil conduzir pelo meio da coluna; pressione a língua acima contra o palato para fazer a energia ascender diretamente para o meio do cérebro. Aí espírito e a energia se fundem, resultando numa expansão e fluidez que podem ser reconhecidas até certo ponto. Isso se condensa em doce orvalho3; nesse

instante a língua deve ser relaxada, para que esse orvalho possa descer através da garganta e traquéia, percorrer através do coração, retornar ao local de armazenamento4 e

parar ali.

Quando você praticar essa irrigação por um longo tempo, ela é eventualmente aperfeiçoada, o que permite que a energia preencha os três campos, acima e abaixo, unificando-os. É isto que se entende por dizer que, se você sempre induz a energia a penetrar nas juntas, a vitalidade naturalmente será plena e um espírito aberto estará presente.

MUNDO E SOCIEDADE

O mundo é sem descanso, a sociedade está em fluxo. A sociedade pode ser ordenada ou caótica. Em tempos de ordem, é de valor ser talentoso e tirar proveito dela abertamente. Em tempos de caos, é de maior valia ser virtuoso e manter-se oculto.

Há gente velha e gente jovem. Quando jovem, é importante estudar e trabalhar duro. Quando idoso, importa ter cuidado e cultivar a calma.

Nosso envolvimento no mundo é como cruzar um rio; uma vez que pode haver redemoinhos capazes de nos afogar, devemos saber como evitá-los. Um bom cavalo pode ser bem veloz, mas sempre sofre com o pó no vento. Uma tartaruga mergulhando

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‘Sweet dew”.

4 Fala-se aqui, muito provavelmente do Dantien (Tan-tien), centro de energia situado, segundo a tradição, três

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pode ser uma coisa miraculosa, mas não pode escapar do triste agouro de ter suas tripas arrancadas.

Quando um pássaro plana com o vento ou escolhe uma árvore para pousar, como é confortável! Mas quando é capturado numa gaiola em busca de alimento, perde sua liberdade. Agora veja bem: títulos e estipêndios são as gaiolas dos homens!

O bem e o mal praticados pelos antigos e o certo e o errado praticado pelas pessoas de hoje foram e são seus próprios sucessos e fracassos. Coisas que já passaram são como fantasmas no mundo; o que se consegue com conversas insípidas sobre elas, qual o ganho de recitá-las? Quando não discursamos ou recitamos, nossas mentes estão serenas, este é o Caminho.

O que é liberdade e desembaraço hoje, provém de frustrações dos anos anteriores; como pode você saber se as frustrações de hoje não se tornarão liberdade algum dia? FAMA E LUCRO

Aqueles que não foram bem sucedidos no aprendizado do Caminho falharam em deter os pensamentos errantes que, de certo modo, os obstrui. Aqueles que falharam em deter os pensamentos errantes foram incapazes de esquecer a fama e o lucro que, de certo modo, os controla. Portanto, se o que se deseja é deter os pensamentos errantes, é preciso primeiro mirar a fama e o lucro.

A fama é odiada pela Criação, lucro é objeto de disputa emocional. Portanto, fama e lucro são mais letais do que armas. Por quê? Com armas você pode matar, mas as pessoas sabem como evitá-las; mas do jeito que a fama e o lucro matam, as pessoas rumam para a morte sem aviso.

Nos velhos tempos, pessoas dedicadas ao Caminho sempre simulavam loucura, pois preferiam viver no anonimato. Hoje em dia, se as pessoas têm o mais insignificante crescimento, elas querem anunciar para o mundo inteiro – que coisa ignóbil!

Quando as pessoas cultas estudam o Caminho, esquecem qualquer competitividade e exibicionismo. Indistintamente, elas praticam o cultivo interno e, quando o caráter está estabelecido e o Caminho está claro, não se vangloriam. Eis porque se diz que “aquilo pelo qual as pessoas cultivadas não podem ser alcançadas é apenas aquilo que não se vê”.

Lucro é algo sem virtude, ainda que tenha a propriedade de atrair as pessoas. Ele cria pessoas quentes, mas sem fogo. Não tem autoridade, mas põe as pessoas para trabalhar voluntariosamente. Não tem afeições, mas as pessoas não podem esquecê-lo por um momento sequer. Costuma causar a ruína de alguns estudantes do Caminho, assim que eles o vêem: provoca administradores a se desviarem da lei, assim que o vêem. Desde os tempos remotos, corações humanos e leis das nações têm sido corrompidos pelo lucro.

Há um grande dano para o mundo dissimulado pelo lucro, mas as pessoas não percebem. Não que elas não saibam, mas foram cegadas pelo lucro. Pilhagem obtida pela quebra de leis é como alimento que causa enfermidade: quando o toma, você só pensa o

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quanto é pouco, mas quando exposto, você percebe o quanto foi demais. E por que a mesma coisa varia com o tempo? Porque lucro e dano seguem um ao outro. Se você pensar que há malefício no lucro quando o vê, pensamentos de conquista inevitavelmente cessarão.

Pessoas cultas acumulam virtudes. Virtudes podem melhorar a saúde e também tornar a pessoa bem sucedida. Portanto, posição e prestígio, boa reputação e longevidade vêm naturalmente para os virtuosos, sem serem desejados.

Pessoas mesquinhas acumulam fortuna. A fortuna pode sustentar o corpo, mas pode também lesá-lo. Os que a têm demais podem querer se livrar de apreensões e angústias, mas não o conseguirão.

ENCARGOS

Coisas que não deveriam ser feitas não deveriam sequer ser pensadas. Coisas que não se pode falar para outras pessoas também não deveriam ser anunciadas para o Céu. Se você se vigiar a respeito dessas coisas vez ou outra, estará próximo do Caminho.

Oportunidades para realizar alguma coisa no mundo são difíceis de surgir. Se alguma coisa pode e deveria ser feita, não se esquive  –  vagabundos não conseguem nada de bom. Por outro lado, alguma coisa que não pode ser feita não deveria ser forçada  – coisas feitas à força trazem fracasso. Há uma razão para cada caso.

Pessoas cultivadas discutem o certo e o errado; pessoas insignificantes discutem lucros e perdas. Quando as pessoas não têm nada para fazer, a mente deveria naturalmente se recolher no coração  –  não se deve passar o tempo com pensamentos aleatórios no escuro. Quando há algo a ser feito, a mente deve concentrar-se na verdade  – não se deve seguir pontos de vista subjetivos.

Quando suas tarefas são poucas, naturalmente suas dores são poucas. Quando suas palavras são poucas, naturalmente seus problemas são poucos. Quando você come pouco, você naturalmente adoece menos. Quando se tem poucos desejos no coração, se tem poucas preocupações.

As duas coisas no mundo que são mais difíceis de realizar são cruzar o oceano e ir para a batalha, mesmo que as pessoas não temam as dificuldades inerentes. Quando se fala de se ater ao Caminho, é tão fácil: temos que nos ater olhando para o interior, e isso não é como o perigo de cruzar o oceano; isso tem a segurança natural dos desígnios celestiais. Não é como ir para a guerra e, no entanto, raramente as pessoas praticam o Caminho. Por que será assim?

COISAS

A existência de uma miríade de coisas é nascida do não-ser. Os sentimentos das pessoas comuns normalmente turvam a existência; certamente é difícil olhar para o eterno não-ser, e é ainda mais difícil constantemente negar a existência. Se as pessoas querem

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permanecer no patamar do eterno não-ser, então é necessário focalizar a natureza essencial.

Quando você está focalizado na natureza essencial, nunca houve nada; o si-mesmo5  é esquecimento, e as coisas sublimam-se espontaneamente. Ainda que as

coisas preencham o meio ambiente, elas sempre retornam ao não-ser. Layman Pang disse: “não tenha sua própria mente na miríade de coisas – por que temer coisas que sempre estão à sua volta?”

Há pessoas encantadoras e coisas encantadoras6; ambas podem fazer as pessoas

se perderem. Mas será que elas realmente podem fazer alguém se perder? O fato é que as pessoas se perdem por si próprias. A Tábua de Cem Caracteres diz: “é a verdadeira

constância que deveria lidar com as coisas; ao lidar com elas, o essencial é não se perder”. Quando você vê coisas fascinantes e concebe um pensamento de gosto por elas, sua mente já foi drenada por elas – você se perdeu.

Quando você vê através de uma coisa, você não está confuso por ela; quando você vê através da miríade de coisas, você não está confuso por causa delas. O Sutra de Diamante diz: “todas as coisas compostas são como sonhos, ilusões, sombras; são como

o orvalho, como o relâmpago – pratique esta observação”.

Tudo no mundo tem seu próprio princípio, a respeito do qual idéias subjetivas são inúteis. Neste caso, qual coisa do mundo está realmente lá para se cogitar ou se preocupar? Este é o motivo de pessoas cultivadas se ocuparem das coisas na medida em que ocorrem, sem dar-lhes a menor importância. Lidam com as coisas como elas são, sem se apegar a elas.

Cheng Yinquan diz: “pessoas que se devotam a coisas exteriores querem que elas sejam boas; quando elas conseguem que sejam boas do ponto de vista externo, não percebem que seus próprios corpos e mentes já foram roubados”. Atualmente, pessoas têm diversos bens, casas, roupas, comida e utensílios; mas elas ainda estão embaraçadas por não ter tudo que as outras pessoas têm; mas quando ocorre de não terem tanto aprendizado quanto outras, ou não ter tanta consciência quanto outras, elas não tem vergonha – por que é assim? Sua falta de ponderação é extrema.

EGO

Os  Analectos  registram que Confúcio pôs um fim em quatro coisas  – a

voluntariedade, a insistência, obstinação e egoísmo. O fato de o egoísmo concluir a lista significa que voluntariedade, insistência e obstinação são todas mencionadas em função do egoísmo. Se não há egoísmo, também não haverá voluntariedade, insistência e obstinação.

O egoísmo é a raiz de todo o interesse próprio. Se não há egoísmo, a raiz é cortada e várias formas de interesse próprio não podem mais emergir.

5

“Self” –  um conceito bastante difícil de traduzir, refere-se ao ser verdadeiro. 6 Encantadoras, fascinantes no sentido de enfeitiçar

Referências

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