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Rev. adm. empres. vol.45 número2

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ESTADO, RACIONALIDADE E PLANEJAM ENTO

Rosa M aria Vieira FGV-EAESP e PUC-SP

Celso Furtado foi uma dessas perso-nalidades que, entre os anos 1950 e o golpe militar de 1964, sempre estive-ram no “olho do furacão” dos acon-tecimentos no Brasil. Profundamente envolvido nos embates pelas reformas desenvolvimentistas, interveio nas discussões teóricas sobre os rumos da economia nacional, deu os fundamen-tos do Plano de Metas, elaborou um projeto regional de desenvolvimento para o Nordeste e um plano de cará-ter nacional (Trienal), malogrado na tentativa de dissipar a crise econômi-ca de 1962-63. Todas essas interven-ções estiveram sustentadas por con-cepções referentes à singularidade do capitalismo periférico e dos papéis do Estado, da planificação e dos intelec-tuais no processo de superação do sub-desenvolvimento. Com essas questões em foco, esta pensata1 tem o objetivo de discutir aspectos do substrato inte-lectual e ideológico que sustentou as formulações de Celso Furtado.

Considerado o mais importante ideólogo e teórico do projeto de cons-trução do capitalismo autônomo no Brasil entre 1950 e 1960, Furtado possui dimensões intelectuais e polí-ticas que transcendem essa época. Mesmo derrotado em 1964, sua lei-tura da realidade brasileira e seu pro-jeto ultrapassaram esse período, tor-nando-se influência duradoura que ganhou forma numa escola de pensa-mento econômico – a estruturalista – e alimentou análises e projetos de um amplo lequ e político e in telectu al

oposicionista, comprometido com a transformação das bases econômico-sociais do país.

Uma afirmação de tal natureza co-bra resposta à indagação dos motivos da larga influência e eficácia da pene-tração de seu ideário, que, como se afirmou, vão além da fase “nacional-desenvolvimentista”. Não há, certa-mente, explicações simples, ou que possam ser sustentadas apenas pela reconhecida genialidade intelectual do autor. Uma das possibilidades é sua contribuição decisiva para atualizar a questão nacional, que há muito em-polgava a intelectualidade brasileira. Uma análise acurada da obra de Fur-tado – o mais cosmopolita de nossos intelectuais afinados com o pensa-mento internacional do segundo pós-guerra –, que transcenda questões es-tritamente econômicas, põe em rele-vo seus vínculos com certa tradição do pensamento brasileiro, que fez da “construção nacional” o desafio da

intelligentsia que, no pós-1930, pen-sou o Brasil moderno a partir de no-vos parâmetros teóricos, sejam eles o culturalismo, o weberianismo ou o marxismo. É isso que justifica a conhecida referência a Furtado como um dos “demiurgos intelectuais” do Brasil con temporân eo, ao lado de Gilberto Freire, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr.

Como o mais fecundo teórico da primeira geração de economistas que, ao lado de Raúl Prebisch, deu forma ao pensamento desenvolvimentista

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Dando continuidade a uma práti-ca recorrente dos ideólogos da nacio-nalidade, Furtado levou a cabo uma das possibilidades ideológicas do ofí-cio de historiador ao buscar numa temporalidade remota as determina-ções profundas do projeto nacional, de modo a conferir-lhe legalidade, procurando demonstrar sua realiza-ção como parte integrante dos anseios mais profundos do povo-nação. Seu livro mais influente, Formação

eco-nômica do Brasil, inscreve-o na tra-dição dos intelectuais brasileiros en-gajados que buscaram no passado, diligentemente perscrutado, a legiti-midade histórica para suas propos-tas de construção da nacionalidade. No entanto, diferentemente de seus antecessores, Furtado se valeu das concepções e linguagem próprias de uma disciplina que naquele momen-to disputava espaço com interpreta-ções de corte jurídico, sociológico ou antropológico da realidade nacional: a economia, um campo específico do conhecimento científico que acom-panhava a emergência da forma ca-pitalista e industrial de produzir mer-cadorias no país. Esse livro é um vas-to painel da evolução econômica da colônia à industrialização substitu-tiva de importações, e foi elaborado com o propósito de demonstrar a pe-culiaridade histórica do país subde-sen volvido, com trajetória diversa das n ações cen trais. Su bjacen te à busca das raízes do atraso, a obra pretendeu demonstrar que subdesen-volvimen to n ão era simplesmen te um estágio natural do desenvolvi-mento econômico e que sua supera-ção não poderia dispensar nem um esforço teórico original, nem uma programação racionalmente condu-zida pelo Estado.

O tema das elites e o “amor ao Es-tado”, de larga tradição no pensa-mento brasileiro, foram outros tan-tos aspectan-tos da questão nacional

re-dimensionados na obra de Furtado, nos termos da ação racional de uma

intelligentsia, que deveria se valer do planejamento e fazer do Estado fer-ramenta de ultrapassagem do subde-senvolvimento. É sabido que no Bra-sil a “construção da nação”, desde suas origens, foi formulada numa di-mensão antiliberal que, ao longo da história republicana, assumiu claras feições antidemocráticas. Marcam a formação brasileira as transições his-tóricas cruciais realizadas a partir de pactos entre as elites, com arranjos pelo alto, sem rupturas políticas efe-tivas e sempre excludentes com re-lação às massas. Define a edificação nacional a intervenção contínua do Estado, palco da intermediação de antigos e novos interesses de grupos dominantes, que se hipertrofiou inin-terruptamente, dando vida a um or-ganismo agigantado e de caráter hí-brido, representando, ao mesmo tem-po, as forças de mudança e conser-vação. Um espaço de con ciliações contínuas, sem que os interesses po-pulares tivessem verdadeira repre-sentação. Em suma, um Estado que não conseguiu se modernizar plena-mente e nem se tornar republicano de fato, mantendo-se a serviço do manuseio privado das elites.

Nesses termos, gan h a sen tido a idéia de que uma análise do lugar do Estado (keynesianamente pensado) e da atuação das elites (no sentido mannheimiano de intelligentsia) na obra de Fu rtado precisa levar em conta os ecos da longa duração des-sas temáticas na tradição intelectual brasileira e o próprio perfil político do país. A sugestão é de que tal iti-nerário possibilitará o entendimen-to dos conentendimen-tornos peculiares de suas formulações planificadoras e de suas concepções sobre o papel do Estado, que apenas as referências às raízes cep alin o-k eyn esian as n ão con se-guem explicar.

ESTADO E PLANEJAM ENTO

NA PERIFERIA

Sabe-se que o Estado brasileiro sem-pre assumiu funções essenciais no processo de acumulação no país. Po-rém, no pós-1930 essas relações se aprofundaram, tornando-se estratégi-cas na reprodução capitalista, parti-cularmente nos setores que escapa-vam aos interesses e às possibilidades da burguesia brasileira ou do capital estrangeiro. O Estado, centralizado e nacionalmente articulado, assumiu tarefas básicas na economia: susten-tou políticas econômicas de caráter in du strial; torn ou -se produ tor de mercadorias e prestador de serviços, responsabilizando-se por infra-estrutu-ra energética, tinfra-estrutu-ransportes, indústrias de base; garan tiu crédito in du strial e avalizou empréstimos; fez da política cambial um instrumento de proteção de setores da indústria e de atração de investimentos. Adicionalmente, coube ao Estado a responsabilidade de institucionalizar o mercado de for-ça de trabalho, de que é exemplo a legislação sindical e trabalhista.

Até meados do século passado, as inúmeras medidas econômicas, as re-formas administrativas e a reestrutu-ração do aparelho de Estado para o desempenho das novas funções não foram resultado de estudos de cará-ter global e sistemático. Por isso, não se pode falar em planejamento eco-nômico. Nas palavras de Celso Lafer, até 1956 as tentativas de planejar a economia brasileira,

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Pla-no Salte (1948); mais medidas pu-ramente setoriais, como é o caso do petróleo ou do café, do que expe-riências que pudessem ser enqua-dradas na noção de planejamento propriamente dito. (LAFER, C. O planejamento no Brasil - Observa-ções sobre o Plano de Metas (1956-1961). In: LAFER, B. M. Planeja-mento no Brasil. São Paulo: Perspec-tiva, 1987, p. 29-30).

O planejamento econômico, propria-mente dito, existiu apenas a partir de Juscelino Kubitschek, com o Plano de Metas e com os projetos de desenvol-vimento regional, nacionalmente ar-ticulados, como a Operação Nordes-te, que deu origem ao Codeno e, pos-teriormente, à Sudene. Foi nesse pe-ríodo que a trajetória de Furtado se confundiu com iniciativas de racio-nalização do trato da res publica no Brasil e com projetos de desenvolvi-mento levados a efeito até o golpe militar de 1964.

Afastando-se da Cepal, onde durante uma década ocupou o cargo de diretor da Divisão de Desenvolvimento, respon-sável pelo primeiro manual de técnica de planejamento das Nações Unidas, Furtado conciliou produção teórica com intensa atuação administrativo-estatal. Pouco antes, ainda como funcionário das Nações Unidas, chefiou o Grupo BNDE-Cepal, responsável pelo trabalho Estudo

de um programa de desenvolvimento para o Brasil, base do Plano de Metas. Poste-riormente, como um dos diretores do BNDE, foi nomeado para o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste, responsabilizando-se por um estudo intitulado Uma política de

desen-volvimento econômico para o Nordeste, que orientou a atuação da Sudene. A seguir, como primeiro titular do Minis-tério do Planejamento, criado no gover-no João Goulart, deu forma ao Plagover-no Trienal de Desenvolvimento Econômi-co e Social (1963-1965).

Nos livros, documentos e entrevis-tas de Furtado dessa época, são encon-trados temas que sustentam sua pro-dução teórica e justificam sua ação como administrador público. Cabe destacar sua convicção reformadora, enquadrada por uma formação teóri-ca cosmopolita; sua visão do intelec-tual como um pensador acima das clas-ses e instrumento esclarecido do pro-gresso, dotado de racionalidade cien-tífica e engajado na luta contra o atra-so; sua crença na isenção científica, em que razão e ciência fazem parceria com a idéia de neutralidade, de sabor posi-tivista. Pode ser percebido seu empe-nho em demarcar as diferenças entre as concepções estruturalistas e o cam-po teórico-econômico neoclássico, em sublinhar a orientação multidisciplinar na formação do economista, em defen-der a intervenção planificadora e de-mocrática do Estado para controle das forças cegas do mercado, de modo a colocá-las a serviço do desenvolvimen-to. Em outras palavras, sua disposição de abrir espaço às reformas que levas-sem o Brasil à superação do subdesen-volvimento, por meio do manejo do pensamento econômico estruturalista e da planificação estatal.

Planejamento, democracia e racio-nalização eram questões que acompa-nhavam Furtado desde os tempos da formação inicial na Faculdade de Di-reito da Universidade do Brasil, onde, em lugar do conhecimento jurídico, inclinou-se para os estudos de Admi-nistração Pública. Datam desse perío-do (1944-1947) perío-dois artigos publica-dos na Revista do Serviço Público – “No-tas sobre a administração de pessoal do governo federal americano” e “Te-oria da estrutura em organização” –, centrados nas problemáticas da racio-nalidade e da organização aplicadas à Administração Pública. Há, ainda, um terceiro – “Trajetória da democracia na América” –, publicado na Revista do

Instituto Brasil–Estados Unidos, em que

estavam em pauta as possibilidades da administração eficiente e demo-crática do espaço público no con-texto de uma sociedade industrial de massas, como era o caso da norte-americana. Montesquieu, Rousseau e Tocqueville deram o suporte intelec-tual para que ele discutisse as bases da democracia americana; a sociologia de Weber serviu como fundamento para a investigação da emergência, do fun-cionamento e das implicações da bu-rocracia moderna; Mannheim auxiliou nas especulações quanto às possibili-dades de se garantir a democracia por meio de mecanismos de controle soci-al. Dessa forma, foram inauguradas “parcerias intelectuais”, que acompa-n h aram Fu rtado em su a trajetória como teórico e homem público, for-necendo o substrato intelectual às pro-posições de reforma e planejamento.

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importan-te economista francês da geração pós-guerra, em trânsito, na época, para o estruturalismo. Foi graças às suas con-cepções – em especial a teoria do “pólo de crescimento”, segundo a qual o de-senvolvimento econômico resultava de uma vontade política – que Furtado pôde sedimentar a idéia do Estado como fautor do dinamismo econômico e modificador das estruturas sociais.

A experiência decisiva para sua for-mação intelectual, no entanto, foi o ingresso na Cepal, em 1948, como m em bro d a equ ip e ch efiad a p or Prebisch. Segundo Furtado, a Cepal foi sua escola de trabalho como eco-nomista, lugar em que pôde estudar a América Latina, dirigir missões eco-nômicas no México, no Chile, na Ar-gentina e, sobretudo, fazer análises comparativas. A Cepal lhe permitiu enxergar o Brasil com outras lentes, reler a questão nacional na perspecti-va de um destino histórico comum ao continente sul e perscrutar a teoria de Keynes com novo olhar. A partir des-sa experiência, a questão-chave pas-sou a ser o desvendamento das razões do atraso brasileiro. De acordo com suas palavras,

Onde estava sua inferioridade? Su-perada a teoria da inferioridade ra-cial, a resposta só poderia estar na História, e lá fui buscá-la. Tudo isso me obrigou a repensar, a abrir um caminho. E comecei a ver o fim do túnel quando li Keynes. [...] Não posso dizer que descobri Keynes na Cepal, porque já o havia estudado an tes. Mas, até en tão, eu via o Keynes da “teoria do ciclo econô-mico”, que era a sua grande contri-buição e levava à política de estabi-lização. Na Cepal, comecei a per-ceber a importância da visão ma-croeconômica da História. Tratava-se, agora, de olhar a História, ven-do o macroeconômico, para enten-der a lógica do atraso e descobrir

os fatores que impediam o cresci-mento de um país como o Brasil. (VIEIRA, R. M. Entrevista com Cel-so Furtado. Revista de História Oral, n. 7, p. 31, Jun. 2004).

Tendo em vista todo esse conjunto de referências, é importante notar que sem a compreensão do conceito cep alin o d e su bd esen volvim en t o com o categoria m ed iad ora essen -cial, conformadora da leitura teóri-ca e das concepções reformistas de Furtado, pode-se incorrer no erro de deixar escapar o que lhe é peculiar no tratamento do papel do Estado (keynesianamente pensado) e da ação racionalizadora dos seus quadros téc-nicos e intelectuais. Por isso, algumas questões demandam esclarecimento: em que consistia o planejamento nas nações subdesenvolvidas, segundo Furtado? De que modo se apropriava do arsenal keynesiano? Como proje-tava a atuação do Estado e de seus técnicos no Brasil?

Desde logo é preciso salientar sua preocupação em mostrar a inconve-niência de se transplantarem as expe-riên cias já existentes de planificação para a periferia do capitalismo. A so-viética, fundada na idéia de “balanços setoriais”, herança das economias de guerra, estava descartada porque “não conseguira progredir nem na direção da globalização (balanço nacional), nem na da previsão do comportamen-to da demanda de bens finais (balan-ços financeiros)”, por obscuras razões cobertas de “retórica ideológica”. Nes-sa economia o Nes-salário era determina-do “administrativamente”, deixandetermina-do- deixando-se de lado a “motivação do trabalha-dor” e a “eficiência na coordenação de decisões”. Os países capitalistas de in-dustrialização avançada, que lançaram mão da intervenção do Estado para fazer frente às instabilidades cíclicas do capitalismo, poderiam oferecer apenas referências, pois no caso dessas nações,

“o pleno emprego” era, por si só, “su-ficiente para assegurar um elevado ní-vel de investimentos, vale dizer, de cria-ção de novos empregos” (FURTADO, C. A fantasia organizada. Rio de Janei-ro: Paz e Terra, 1985, p. 128-129).

Bem diferentes eram as condições do mundo periférico de países que, como o Brasil, conheceu um proces-so espontâneo e problemático de in-du strialização, caracterizado pela substituição de importações. Essa sin-gu lar tran sição, de u ma econ omia agro-exportadora para uma de cará-ter fabril, se mostrara incapaz de rom-per com o dualismo estrutural, carac-terístico do subdesenvolvimento. A convivência entre os setores econô-micos arcaicos e as novas áreas mais dinâmicas, as taxas insuficientes de acumulação de capital e os limites im-postos pelo mercado interno cobravam alto preço ao processo de desenvolvi-mento, seja em termos de concentra-ção de renda, disparidades regionais, dependência tecnológica e endivida-mento externo, seja em termos da ten-dência à perda do dinamismo econô-mico, que abria caminho a longos pe-ríodos de estagnação, além da manu-tenção das altas taxas de desemprego estrutural da força de trabalho.

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na. Rio de Janeiro: Civilização Brasi-leira, 1968. p. 3-4).

Tendo em vista a particularidade do capitalismo periférico, o keyne-sianismo tinha que ser necessaria-mente aclimatado aos trópicos, pois a ação compensatória do Estado não poderia ser apenas conjuntural, ou ter, tão-somente, um caráter anticí-clico. Se nos países centrais o pro-pósito era a recondução do sistema econômico ao seu ponto de equilí-brio, ao pleno emprego e à otimiza-ção de u m a pou pan ça ociosa, n o mundo subdesenvolvido se tratava de uma ação permanente do Estado, com propostas públicas voltadas à superação dos obstáculos estruturais que impediam a arrancada para o de-senvolvimento. Daí a razão de Fur-tado mesclar categorias keynesianas com a busca do sentido da história econômica do Brasil e da América La-tina, pensado em termos de econo-mia colonial (base do estatuto peri-férico), o que resultava em formula-ções que não expressavam um key-nesianismo puro, mas uma “deriva-ção de análise macroeconômica de in sp ir ação k eyn esian a”, m ed iad a pela noção de subdesenvolvimento.2

A

INTELLIGENTSIA

REFORM ADORA

Dest acad o s o p ap el d ecisivo d o Est ad o n a su p er ação d o su b d e-sen vo lvim en to e o recu rso a u m keynesianismo aclimatado às condi-ções da periferia, restam algu mas perguntas essenciais, diretamente li-gadas à realidade nacional. Dispunha a sociedade brasileira de condições instrumentais para superar as dificul-dades antepostas ao seu desenvolvi-mento? Suas classes dirigentes esta-vam à altura da empreitada? Quais seriam os agentes responsáveis pelas reformas?

A coletânea de textos Dialética do

desenvolvimento, publicada em janei-ro de 1964, foi a obra em que Furta-do mais claramente respondeu a es-sas qu estões, revelan do m u ito da orientação ideológica e das concep-ções políticas que presidiram suas pro-postas de intervenção desenvolvimen-tista. Logo na introdução, um dado revelador da lógica que sustentava seu projeto, a saber, o papel dos intelec-tuais no processo de desenvolvimen-to, que seria esclarecer as conseqüên-cias das ações dos homens de Estado, prevenindo atos que contrariassem interesses coletivos e, sobretudo, im-primindo racionalidade a um mundo em que o destino humano foi trans-formado em “problema político” e que, por sua natureza, estava impreg-nado de “elementos irracionais”. Ca-bia ao intelectual essa responsabilida-de por ser o “único elemento responsabilida-dentro de uma sociedade que não somente pode, mas deve, sobrepor-se aos con-dicionantes sociais mais imediatos do comportamento individual”. Na ver-tente conceitual da intelligentsia de Man n h eim, Fu rtado lembrava qu e essa capacidade de se sobrepor às de-terminações sociais era o que possi-bilitava a essa categoria se movimen-tar num plano mais elevado de racio-nalidade, enxergar mais longe do que permitiam “as lealdades de grupo e as vinculações de cultura” (FURTA-DO, C. Dialética do desenvolvimento. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1964. p. 9-10).

Convencido da neutralidade e do poder transformador da razão cientí-fica, do papel dos intelectuais, que pairavam acima das irracionalidades da política e dos embates de classe, Fur-tado mergulhou no esclarecimento das contradições e dos impasses políticos gerados pelo modo singular como ocorreu a industrialização no Brasil, voltando sua atenção para aspectos que comumente não estavam presentes em do Estado deveria se concentrar na

promoção de mudanças estruturais e na definição dos espaços de atuação dos empresários privados, ainda que para tanto fosse necessário enfrentar a inoperância do aparelho de Estado e a falta de dinamismo da classe empresa-rial. No primeiro caso, o problema po-deria ser resolvido por meio de “refor-ma administrativa e um grande esfor-ço de aperfeiesfor-çoamento dos quadros do setor público”; quanto ao segundo, sem a possibilidade de equação ime-diata, havia que se correr “o risco da hipertrofia da ação empresarial estatal” (ibid., p. 129 e 132).

Múltiplas questões estão envolvi-das nesse conjunto. A começar pelo desafio de não se tomarem, por ana-logia, as experiências dos países cen-trais, uma vez que o atraso da perife-ria não correspondia simplesmente a um estágio natural de evolução do capitalismo e às suas debilidades tran-sitórias, antecedentes naturais da re-produção madura do capital. Segun-do FurtaSegun-do, o subdesenvolvimento era um fenômeno histórico moderno, “coetâneo do desenvolvimento, como um dos aspectos da propagação da Revolução Industrial”, decorrência do modo como se difundiu a “técnica moderna no processo de constituição de uma economia de escala mundial”. Pelo fato de serem contemporâneos das economias desenvolvidas, que li-deraram a constituição do sistema internacional, os países subdesenvol-vidos não podiam simplesmente re-petir esse processo. Daí a necessida-de necessida-de se consinecessida-derarem as peculiarida-des da periferia, pois apenas assim seria possível descobrir até que pon-to a experiência dos países desenvol-vidos podia servir como referencial para os subdesenvolvidos, cujo pro-gresso estava na dependência da ca-pacidade de criar su a própria h is-tória. (FURTADO, C.

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Lati-análises estritamente econômicas. Li-berto do olhar dos economistas que viam o Estado como um epifenômeno da economia, deixou aflorar a dimen-são ideológica que presidia suas con-cepções.

Segundo ele, as circunstâncias his-tóricas da transição capitalista no país eram responsáveis por sua ordem bur-guesa peculiar. Referia-se ao fato de a industrialização ter ocorrido no mo-mento de declínio do dinamismo das atividades agro-exportadoras, sem que houvesse uma clara consciência da natureza desse processo. A desa-gregação da economia cafeeira provo-cou repercussões imediatas no plano político, abrindo caminho à renova-ção das elites dirigentes, que, a partir desse momento, escaparam ao univer-so ideológico dos cafeicultores. Po-rém, o progressivo predomínio do setor industrial não resultou de con-flito aberto, de clara contradição en-tre as novas elites e os grupos políti-cos preexistentes, pois a franca deca-dên cia da econ omia colon ial, n os albores da industrialização, fez com que os setores agrários abandonassem um posicionamento ideológico con-sistente, e se dedicassem, a partir daí, ao que Furtado chamou de “um im-provisado oportunismo político”.

Sua intenção era mostrar que, no trânsito para a indústria, o Brasil não conheceu o “deslocamento de uma superestrutura arcaica, como conse-qüência de um processo de desenvol-vimento de novas forças produtivas, cujos interesses procurassem afirma-ção no plano político”. Em outras palavras, sem rupturas revolucioná-rias, a crise que abriu caminho à in-dustrialização não resultou de contra-dições entre novos setores em desen-volvimento e ideologias superadas, pois, no processo de substituição das importações, o declínio da base eco-nômica agrária não ocorreu em vir-tude da “concorrência de novo

siste-ma em forsiste-mação”. A decadência re-fletiu o enfraquecimento dos estímu-los externos, pois o Brasil, como eco-nomia colonial, era apenas “uma das ramificações do capitalismo mundial, cujos centros estavam na Europa e nos Estados Unidos”, e suas crises não passavam de “simples adaptações às novas condições surgidas nos centros dinâmicos da economia capitalista” (ibid., p. 112). Da acomodação entre industriais em ascensão e grupos agrá-rios decadentes, que detinham os cen-tros de decisão política nacional, re-sultaram as dificuldades de diferen-ciação ideológica entre os dois seg-mentos. No plano político, a indefini-ção da classe industrial impediu a emergência de novas lideranças, ca-pazes de modernizar os marcos insti-tucionais brasileiros, fazendo com que homens ligados às oligarquias tradi-cionalistas continuassem a controlar os centros de decisão no país.

Em síntese, o Brasil não conheceu uma revolução burguesa clássica nos moldes da que presidiu o desenvol-vimento do capitalismo na Europa. Aqui, a indústria apenas se estabele-ceu como “subproduto do realismo na defesa dos interesses cafeiculto-res”, como “decorrência da crise da economia colonial e da forma como esta continua a defender-se, e não com o fator cau san te dessa crise” (ibidem, p. 113 e 129). Isso fez com que o país entrasse em fase de moficações estruturais com classes di-rigentes que, essencialmente, eram praticamen te as mesmas de an tes, sem consciência desse processo e in-capazes de implementar uma políti-ca industrial definida.

Além da dimen são con ciliadora com os setores agrários tradicionais, Furtado também salientou o fato de a burguesia industrial brasileira ter enveredado pela via da concessão aos capitais estrangeiros. Essa associa-ção, que do ponto de vista dos

inte-resses empresariais imediatos talvez tivesse sido a solução mais racional, revelou-se perversa para o país, pois a indústria se desenvolveu em estrei-ta dependência das divisas externas e em contradição com a capacidade decrescente do Brasil para importar. Os grupos internacionais se apropria-ram de parte da poupança nacional, “a taxas negativas de juros”, e a po-lít ica cam bial lh es p er m it iu qu e “reintroduzissem no país, a uma taxa de juros favorecida, os lucros que aqu i au feriam e rem etiam para o exterior”. Disso resultou ampla des-nacionalização da economia, que le-vou ao estrangulamento externo, dei-xando às claras as contradições en-tre os interesses do desenvolvimen-to nacional e as empresas controla-das por grupos estrangeiros (ibidem, p. 132-133).

É importante atentar aos desdobra-mentos políticos desse processo sui

generis de transição, deduzidos por Furtado. A burguesia industrial bra-sileira que emerge de sua análise é uma classe gestada em íntima cone-xão com a economia colonial e que, historicamente, não pôde se mostrar à altura de suas tarefas nacionais, eco-nômicas ou políticas. Trata-se de uma bu rgu esia cu ja p ecu liar id ad e so-mente pode ser explicada pelas con-d ições con-d o at r aso br asileiro: u m a classe com dificuldades de diferen-ciação id eológica fren t e às elit es agrárias; um grupo social disposto à conciliação com os setores latifun-diários, mesmo os mais atrasados (ligados à produção para consumo interno), em defesa da propriedade privada, especialmente nos momen-tos de maior tensão social; impos-sibilitada de apresentar um perfil em-presarial schumpeteriano; disposta a concessões a grupos externos e, por isso mesmo, incapaz de levar à frente um projeto de desenvolvimento nacional.

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peculiaridade histórico-estrutural de país subdesenvolvido esculpiu as fei-ções da burguesia brasileira, também diferenciou sua classe trabalhadora. Segundo Furtado, o desenvolvimen-to na periferia, ocorrido pela absor-ção de fatores de produabsor-ção da econo-mia arcaica preexistente e pela utili-zação de tecnologia transplantada das áreas centrais, permitiu que os capi-talistas estivessem numa situação pri-vilegiada frente aos trabalhadores, em razão da grande oferta de mão-de-obra (remanescente da agricultura arcaica) que a tecnologia industrial importada (poupadora de mão-de-obra) não absorveu, gerando uma si-tuação tendente a inibir o processo de luta de classes. Como decorrência, os capitalistas se acomodaram, mostran-do-se pouco dinâmicos e acostuma-dos a elevadas taxas de lucro, que não eram postas em xeque por pressão das massas assalariadas. Por sua vez, es-sas mases-sas eram compostas por tra-balhadores urbanos, empregados no setor terciário; por subempregados que viviam nas grandes cidades, ex-pulsos pela miséria do campo, ocasio-nalmente absorvidos em obras públi-cas e na construção civil; por campo-neses dispersos, submetidos aos lati-fundiários, incapazes de desenvol-ver um movimento político autôno-mo; por operários industriais, que compunham um agrupamento ho-m ogên eo, p or ého-m n u ho-m er icaho-m en t e inexpressivo. Esses trabalhadores, di-ferentemente do proletariado dos países centrais, tinham dificuldades de de-senvolver uma consciência de classe, prin cipalmen te porqu e a primeira geração não conseguia perceber suas condições como resultado de um pro-cesso de degradação social, como ocorria com os artesãos europeus du-rante a Revolução Industrial. Vindos em sua maioria de Minas Gerais e do Nordeste, de condições muito seme-lhantes às de “servos rurais”, os

ope-rários se viam como um grupo em ascensão social.

Algu mas con clu sões podem ser auferidas dessas análises. Se no Bra-sil as instituições políticas clássicas (como o legislativo), enredadas por processos conciliatórios entre os an-tigos e os novos grupos dominantes, mostravam-se inoperantes em face da modernização capitalista; se faltava espírito empreendedor e liderança política aos industriais, cujos limi-tes de consciência os inabilitavam para um projeto coerente de desen-volvimento autônomo, algo deveria tomar seu lu gar n a con du ção das reformas que eliminasse os desequi-líbrios estru tu rais do país. Como pode ser percebido nas formulações de Furtado, um poder ex-machina, fora dos arranjos convencionais das classes dominantes, deveria imprimir racionalidade ao espaço político e implementar o desenvolvimento no país. Esse poder, o único capaz de condicionar modos racionais de atua-ção e engendrar uma política indus-trial consistente, assumia a forma de um Estado intervencionista, mane-jado por uma elite intelectual que, em razão do conhecimento científi-co, da neutralidade com que usava o instrumental técnico e do lugar es-p ecial qu e ocu es-p ava n a socied ad e (acima dos con dicion an tes sociais imediatos), estaria em condições de viabilizar um projeto de reformas, dando feição aos interesses nacionais e respondendo com eficácia às aspi-rações da coletividade.

Dessas colocações, infere-se que, para Furtado, o jogo puramente par-lamentar, nos moldes liberais clássi-cos, não tinha condições de respon-der com eficácia às demandas do pro-cesso de transformação capitalista no Brasil, mostrando-se incapaz de fa-zer frente às contradições do subde-senvolvimento. Em princípio, a re-form a do Estado era apresen tada

como solução para a crescente falta de legitimidade política da classe di-rigente e para a necessidade de se adequarem instituições aos impera-tivos da nova ordem industrial. Os agentes responsáveis pela “definição das aspirações coletivas”, pelo “tra-balho crítico de ação renovadora”, que fariam o sistema funcionar, im-prim in do eficácia ao Estado, n ão eram as tradicionais lideranças ou representantes da burguesia industrial. Isso ficaria a cargo dos membros da “classe dos trabalhadores intelectu-ais”, extrato em condições de “inter-pretar os valores em todos os cam-pos da cultura” e “identificar aque-las aspirações que traduzem as ten-dên cias mais profu n das do sen tir social” (ibidem, p. 49). Furtado se referia aos economistas e administra-dores públicos versados no planeja-mento democrático.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

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singularida-des que justificavam suas propostas de intervenção estatal, que iam além das práticas anticíclicas keynesianas. Para o Estado, reservava o papel de demiurgo da nação – soberana e de-senvolvida –, a exemplo do que an-tes h aviam feito ou tros ideólogos brasileiros compromissados com a modernização. Para a intelligentsia, cientificamente preparada no mane-jo das técnicas planificadoras, desti-nava as funções de imprimir racio-nalidade aos movimentos da políti-ca e substituir políti-capitalistas destituí-dos de vocação para o comando do desenvolvimento nacional.

A mística do plano – crença nas possibilidades quase ilimitadas de o planejamento e a ação racionalizado-res das elites superarem os limites do ordenamento social adverso, as fragi-lidades da acumulação e as contradi-ções sociais – deu ao projeto de Fur-tado um inequívoco caráter utópico e voluntarista, que os movimentos da realidade se encarregaram de desve-lar. Suas análises, capazes de identifi-car a crise do processo de substitui-ção de importações, a dimensão his-tórica do subdesenvolvimento, a im-possibilidade de a burguesia brasilei-ra levar à frente um projeto de capi-talismo autônomo, o caráter passivo das experiências nacionais de

“revo-luções pelo alto”, não lhe possibilita-ram entender, de imediato, a nova eta-pa da acumulação capitalista, aberta com o golpe militar. No exílio, em 1966, analisando os primeiros movi-mentos da política econômica da di-tadura, prognosticou a “pastorização” do país e uma longa estagnação, exa-tamente no momento em que o capi-tal monopolista internacional trans-formava o Brasil num de seus espa-ços de reprodução e preparava o “mi-lagre brasileiro”.

Os novos tempos desmentiram os prognósticos de regressão econômi-ca, caso a industrialização se disso-ciasse da soberania nacional, das re-formas estruturais de base e da incor-poração das massas ao mercado. A ditadura comprovou que era suficien-te uma reconcentração de poder e de renda para que a economia, perver-samente, se expandisse. O novo mo-delo de desenvolvimento não deman-dava mudanças na estrutura produti-va, bastando-lhe o aprofundamento e a diversificação do consumo das clas-ses média e de altas rendas.

No plano teórico, a cidadela das teses nacionalistas de Furtado foi ata-cada à esquerda, por novas interpre-tações sobre o desenvolvimento na América Latina. Ganharam força terpretações que desvinculavam a

in-dustrialização ampliada da emancipa-ção nacional. O desenvolvimento de-pendente e associado era apontado como o “desenvolvimento possível” para a periferia, isto é, a idéia de que a acumulação industrial oligopolista poderia avançar, apesar da dependên-cia de capitais estrangeiros e da ex-clusão de parcelas significativas da população. Segundo os “dependentis-tas”, os investimentos estrangeiros não seriam obstáculos, mas alavancas para os países periféricos.

Apesar disso, a história reservou um lugar de honra no pensamento brasileiro às formulações de Celso Furtado. Sua pauta de resistência teó-rico-oposicionista aos efeitos social-mente perversos do capitalismo ex-clu den te n o país ain da h oje serve como referência para economistas e administradores públicos identifica-dos com essa aspiração.

NOTAS

1 Este texto é uma versão de parte de uma

pes-quisa sobre o pensamento de Celso Furtado, fi-nanciada pelo Núcleo de Pesquisa e Publicações (NPP) da FGV-EAESP.

2 BIELSCHOW SKY, R. Pensamento econômico

bra-sileiro. O ciclo ideológico do desenvolvimentismo. Rio de Janeiro: IPEA/INPES, 1988.

Rosa Maria Vieira

Professora do Departamento de Fundamentos Sociais e Jurídicos da FGV-EAESP e do Departamento de Economia da FEA PUC-SP. Doutora em História Social pela PUC-SP. Interesses de pesquisa nas áreas de história do pensamento econômico brasileiro, produção sociológica nacional e história empresarial brasileira.

E-mail: [email protected]

Endereço: Av. 9 de Julho, 2.029, Bela Vista, São Paulo – SP, 01313-902.

Referências

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