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Academic year: 2021

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(1)1. UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO DIRETORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA MESTRADO EM EDUCAÇÃO. PRISCILA TORATTI DANIELE. POLÍTICAS DE VALORIZAÇÃO DOCENTE: UM ESTUDO DOS ESTATUTOS E DOS PLANOS DE CARREIRA E REMUNERAÇÃO DE DOIS MUNICÍPIOS DO GRANDE ABC. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2019.

(2) 2. PRISCILA TORATTI DANIELE. POLÍTICAS DE VALORIZAÇÃO DOCENTE: UM ESTUDO DOS ESTATUTOS E DOS PLANOS DE CARREIRA E REMUNERAÇÃO DE DOIS MUNICÍPIOS DO GRANDE ABC. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Educação da Universidade Metodista de São Paulo, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em Educação, sob a orientação da Profa. Dra. Cristina Miyuki Hashizume.. SÃO BERNARDO DO CAMPO 2019.

(3) 3. FICHA CATALOGRÁFICA. D227p. Daniele, Priscila Toratti Políticas de valorização docente: um estudo dos estatutos e dos planos de carreira e remuneração de dois municípios do Grande ABC / Priscila Toratti Daniele. 2019. 152 p. Dissertação (Mestrado em Educação) --Diretoria de Pós-Graduação e Pesquisa da Universidade Metodista de São Paulo, São Bernardo do Campo, 2019. Orientação de: Cristina Miyuki Hashizume. 1. Plano de carreira 2. Professores – Estatuto legal, leis, etc 3. Professores – Formação profissional 4. Política educacional 5. Educação – Região do Grande ABC (SP) I. Título. CDD 374.012.

(4) 4. Dissertação intitulada “POLÍTICAS DE VALORIZAÇÃO DOCENTE: UM ESTUDO DOS ESTATUTOS E DOS PLANOS DE CARREIRA E REMUNERAÇÃO DE DOIS MUNICÍPIOS DO GRANDE ABC”, elaborada por Priscila Toratti Daniele, apresentada e aprovada em 22 de agosto de 2019, perante banca examinadora composta por Profa. Dra. Cristina Miyuki Hashizume (Presidente/ PPGE - UMESP), Profa. Dra. Izabel Cristina Petraglia (Titular/ PPGE - UMESP) e Profa. Dra. Maria do Carmo Fernandes Martins (Titular/ PPGPS UMESP).. _________________________________________________________ Profa. Dra. Cristina Miyuki Hashizume Orientadora e Presidente da Banca Examinadora. ________________________________________________________ Prof. Dr. Marcelo Furlin Coordenador do Programa de Pós-Graduação. Programa: Pós-Graduação em Educação Área de Concentração: Educação Linha de Pesquisa: Políticas e Gestão Educacionais.

(5) 5. AGRADECIMENTOS. Agradeço à minha família, Álvaro (marido), Amarílis (filha) e Isaura e Célio (pais), o imensurável apoio durante meus estudos. Aos professores que participaram desta pesquisa pela coragem e sinceridade. À professora Adriana Barroso de Azevedo, pró-Reitora de pós-graduação, a generosidade e carisma. À minha orientadora Cristina Miyuki Hashizume por me deixar dissertar com liberdade e por compor os autores que fundamentam esta pesquisa. Às professoras Izabel Cristina Petraglia e Maria do Carmo Fernandes Martins os valiosos apontamentos na minha qualificação e defesa. Às professoras Patrícia Margarida Farias Coelho, o apoio e disponibilidade, e Denise D’ Aurea Tardeli, a simpatia e tolerância. Aos professores Marcelo Furlin, Roger Marchesini, Jean Lauand e Décio Azevedo as riquíssimas aulas. Aos professores do grupo de estudos de políticas e gestão educacionais, Elisabete Ferreira Esteves Campos e Sergio Marcus Nogueira Tavares, pelas importantes discussões. A duas diretoras da Educação Básica de SBC, cujos nomes manterei em sigilo, pela indicação dos professores e esclarecimentos diversos. À Priscila Roger pelo pronto atendimento. Aos queridos colegas de pós-graduação, aos companheiros de trabalho de SCS e a todos aqueles que contribuíram de alguma forma com a minha jornada acadêmica. E à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) por financiar uma parte dos estudos desta professora da Educação Básica pública brasileira..

(6) 6. A professora e o professor que avançam na visão política encontram novos sentidos sociais de seu fazer. Recuperamos o sentido social perdido. Nos sentimos próximos de outros profissionais do social, da cultura, do desenvolvimento humano, da consolidação dos direitos humanos, da construção lenta de outra sociedade. Miguel Arroyo. Vivemos um cenário social cambiante, onde competitividade e individualismos são traços característicos, em que sentimentos de realização ou de injustiça se constroem, em condições de multiculturalismo, de novas linguagens e da emergência de demandas por justiça social e equidade educacional. Nesta ambiência o trabalho dos professores e gestores educacionais se efetiva, a aprendizagem dos alunos se constrói. Compreender essas condições e seus impactos na educação escolar torna-se uma necessidade para quem busca caminhar na direção de superação de impasses educacionais e impasses sobrevenientes no campo do trabalho docente. Bernardete Gatti.

(7) 7. RESUMO. A investigação e a reflexão sobre as políticas públicas da carreira docente são importantes para entendermos os mecanismos que contribuem para o crescente quadro de desvalorização social, sobrecarga emocional e física do professor brasileiro. O objetivo desta pesquisa é investigar a valorização docente nos estatutos e planos de carreira e remuneração (PCR) e no conteúdo da fala dos professores de São Bernardo do Campo (SBC) e São Caetano do Sul (SCS). A escolha dos municípios tomou como referência as elevadas posições do Produto Interno Bruto (PIB) e Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), sendo SBC o 16º PIB do país e SCS o número um no IDHM do Brasil, valores vigentes em 2018, entre mais de 5.500 municípios. Questionamos, portanto, como desempenhos tão expressivas em termos econômicos e sociais de ambos os municípios se refletem na valorização docente. De abordagem qualitativa, os procedimentos metodológicos desta pesquisa consistem no estudo documental dos estatutos e PCR municipais e em entrevistas semiestruturadas com professores das cidades estudadas. Os dados foram analisados à luz das legislações nacionais que preconizam as novas diretrizes para a construção dos planos de carreira do magistério e dos autores das políticas educacionais, da valorização docente e da qualidade de vida no trabalho. Apresentamos, ainda, diversas fontes, como dados demográficos e publicações de diferentes representações. Os resultados fornecem um painel composto por acertos, contradições e equívocos, sinalizando a necessidade de mudanças e aprimoramentos nas políticas municipais. O estudo é relevante para a reflexão e conscientização de professores e futuros professores a respeito da importância do PCR e dos caminhos e descaminhos da valorização docente, para a criação de diferentes olhares sobre a região, contribuindo, ainda, para a sensibilização de gestores da educação em relação à saúde do corpo e da mente do professor, à qualidade de vida no trabalho e ao caráter motivacional de estatutos e PCR bem estruturados e efetivos. Palavras chave: estatuto e plano de carreira do magistério, valorização docente, políticas educacionais.. O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES)..

(8) 8. ABSTRACT. Research and reflection on public policies of teaching career are important to understand the mechanisms that contribute to the scenario of increasing social devaluation, emotional and physical overload of Brazilian teachers. This research aims to investigate the teacher appreciation based on statutes and career paths and pay (PCR) and on data collected from interviews with teachers of São Bernardo do Campo (SBC) and São Caetano do Sul (SCS). These municipalities were chosen due to their high positions of the Gross Domestic Product (GDP) and the Municipal Human Development Index (MHDI), considering that, according to 2018 data, SBC holds the 16th highest GDP and SCS ranks number 1 in the MHDI amongst over 5,500 cities in Brazil. Therefore, we question how such expressive performances in economic and social terms of both municipalities are reflected in the appreciation of teachers. From a qualitative approach, the methodological procedures of this research consist of the documentary study of the municipal statutes and PCR and semi-structured interviews with teachers of the studied cities. The data were analyzed in the light of national laws that advocate the new guidelines for the construction of career paths for teachers and the authors of educational policies, teacher appreciation and quality of life at work. We also present several sources, such as demographic data and publications of different representations. The results provide a panel composed of hits, contradictions and misconceptions which signal the need for changes and improvements in municipal policies. The study is relevant to the reflection and awareness of teachers and future teachers about the importance of PCR and the ways and pathways of teacher appreciation, for the creation of different perspectives on the region, also contributing to the awareness of education managers regarding the health of the teacher's body and mind, the quality of life at work and the motivational character of well-structured and effective statutes and PCR.. Keywords: teacher statute and career path, teacher appreciation, educational policies..

(9) 9. LISTA DE FIGURAS E QUADROS. Quadro 01: Dissertações e Teses sobre Plano de Carreira e Remuneração ................... Quadro 02: Dissertações e Teses sobre Valorização Docente ...................................... Quadro 03: Remuneração Média Ponderada por Carga Horária Padronizada para 40h semanais/ 2014 .............................................................................................................. Figura 01: Número de matrículas em cursos de graduação em licenciatura ................. Figura 02: Licenciatura em número de matrículas/ 2017 ............................................. Quadro 04: Municípios de São Paulo: Plano de Carreira e Lei do Piso ....................... Quadro 05: Piso Salarial Profissional Nacional ............................................................ Figura 03: Região Metropolitana de São Paulo ............................................................ Quadro 06: Dados da Educação Básica/ 2017 .............................................................. Quadro 07: Repasses do Fundeb .................................................................................. Quadro 08: Faixa de valores do IDHM ......................................................................... Quadro 09: Elementos medidos no IDHM – Educação/ 2010 ..................................... Quadro 10: Participação das atividades econômicas do PIB em 2015 ......................... Quadro 11: Percentuais de Senhoridade/ SBC .............................................................. Quadro 12: Folha de Pagamento/ SBC ......................................................................... Quadro 13: Componentes da Folha de Pagamento – Professor Nível I/ SCS ............... Quadro 14: Componentes da Folha de Pagamento – Professor Nível II/ SCS ............. Quadro 15: Exemplo de progressão funcional do MEC ............................................... Quadro 16: Progressão Funcional/ SBC ....................................................................... Quadro 17: Pontuação para progressão horizontal/ SBC .............................................. Quadro 18: Pontuação do enquadramento de professor/SCS ....................................... Quadro 19: Critérios de pontuação por título/ SCS ...................................................... Quadro 20: Dados da Educação Básica - Formação dos professores/ 2017 ................. Quadro 21: Identificação dos entrevistados .................................................................. Quadro 22: Categorias ................................................................................................... 17 20 28 29 29 42 48 58 62 62 63 63 64 76 76 78 78 83 84 84 86 87 91 98 98.

(10) 10. LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS. ADCT APM BNCC CAAE CAPES CEB CEP-UMESP CF CLT CNE CNTE Confetam CUT EB EJA FAPESP Fetam FGTS Fundeb Fundef HTP HTPC HTPL IBGE IDHM Inep INSS LDB LDBEN LER/DORT MDE MEC OCDE OIT ONG PARFOR PCR PECS PIB PME PNE PPP PSDB PSPN. Ato das Disposições Constitucionais Transitórias Associação de pais e mestres Base Nacional Comum Curricular Certificado de Apresentação para Apreciação Ética Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil Câmara de Educação Básica Comitê de Ética em Pesquisa – Universidade Metodista de São Paulo Constituição Federal Consolidação das Leis do Trabalho Conselho Nacional de Educação Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal Central Única dos Trabalhados Educação Básica Educação de Jovens e Adultos Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo Federação dos Servidores Públicos Municipais Fundo de Garantia do Tempo de Serviço Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Magistério Hora/ Horário de Trabalho Pedagógico Hora/ Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo Hora/ Horário de Trabalho Pedagógico em Local de Livre Escolha Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Índice de Desenvolvimento Humano Municipal Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira Instituto Nacional do Seguro Social Leis de Diretrizes e Bases Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Lesão por Esforço Repetitivo/ Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Ministério da Educação Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico Organização Internacional do Trabalho Organização não governamental Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica Plano de Carreira e Remuneração Plano de Empregos, Carreiras e Salários dos servidores municipais Produto Interno Bruto Plano Municipal de Educação Plano Nacional de Educação Projeto Político Pedagógico Partido da Social Democracia Brasileira Piso Salarial Profissional Nacional.

(11) 11. PTB QVT SBC SCS SDHL SE Seeduc SINDSERVSBC SINDSERVSCS SINESP Unesco. Partido Trabalhista Brasileiro Qualidade de Vida no Trabalho São Bernardo do Campo São Caetano do Sul Serviço de Documentação da História Local Secretaria Municipal de Educação (SBC) Secretaria Municipal de Educação (SCS) Sindicato dos Servidores e Empregados Públicos Municipais e Autárquicos de São Bernardo do Campo Sindicato dos Servidores Públicos e Autárquicos de São Caetano do Sul Ensino Público Municipal de São Paulo Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.

(12) 12. SUMÁRIO. INTRODUÇÃO ................................................................................................................ Teses e dissertações .......................................................................................................... Metodologia ...................................................................................................................... Sujeitos .............................................................................................................................. 1. VALORIZAÇÃO DOCENTE ...................................................................................... 1.1 Imagem do Professor: o real e o imaginário .......................................................... 1.2 Os Descaminhos da valorização ............................................................................. 1.3 Os Caminhos da valorização .................................................................................. 1.3.1 Constituição Federal ....................................................................................... 1.3.2 LDB ................................................................................................................ 1.3.3 Fundeb ............................................................................................................ 1.3.4 PSPN .............................................................................................................. 1.3.5 Resoluções CNE/CEB .................................................................................... 1.3.6 PNE – Meta 18 ............................................................................................... 1.4 Qualidade de vida no trabalho ................................................................................ 2. PAINEL GERAL DOS MUNICÍPIOS ......................................................................... 2.1 São Bernardo do Campo ........................................................................................ 2.2 São Caetano do Sul ................................................................................................ 2.3 Dados demográficos ............................................................................................... 3. ESTUDO DOS ESTATUTOS E PLANOS DE CARREIRA E REMUNERAÇÃO MUNICIPAIS ................................................................................................................... 3.1 Elaboração ou adequação do Plano de Carreira e Remuneração com base na legislação estabelecida pelo MEC ................................................................................ 3.1.1 São Bernardo do Campo ................................................................................. 3.1.2 São Caetano do Sul ......................................................................................... 3.2 Jornada de trabalho ................................................................................................ 3.2.1 São Bernardo do Campo ................................................................................. 3.2.2 São Caetano do Sul ......................................................................................... 3.3 Composição da remuneração ................................................................................. 3.3.1 São Bernardo do Campo ................................................................................. 3.3.2 São Caetano do Sul ......................................................................................... 3.4 Progressão funcional .............................................................................................. 3.4.1 São Bernardo do Campo ................................................................................. 3.4.2 São Caetano do Sul ......................................................................................... 3.5 Estímulo à formação continuada ............................................................................ 3.5.1 São Bernardo do Campo ................................................................................. 3.5.2 São Caetano do Sul ......................................................................................... 4. A VOZ DOCENTE ....................................................................................................... RESULTADOS E DISCUSSÃO ...................................................................................... CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... REFERÊNCIAS ................................................................................................................ ANEXO A – Termo de consentimento livre e esclarecido ............................................... ANEXO B – Roteiro de entrevista semiestruturada/ SBC ............................................... ANEXO C – Roteiro de entrevista semiestruturada/ SCS ................................................. 13 17 21 23 25 30 35 43 44 46 47 47 49 50 52 57 58 60 61 65 66 66 68 70 71 72 74 75 77 82 83 85 90 92 95 97 130 136 138 150 151 152.

(13) 13. INTRODUÇÃO.

(14) 14. As problemáticas relacionadas à educação e, especificamente, à docência, como más condições de trabalho, defasagem salarial, cobranças e conflitos de diversas naturezas elevam a estatística de doenças físicas e emocionais entre os professores e reforçam o desprestígio do docente e da educação pública, impulsionando a realização de numerosas pesquisas acadêmicas sobre as diferentes causas e consequências da desvalorização docente. O esvaziamento de sentido da escola e do saber é resultado da crise moral, cultural e política das sociedades capitalistas, cuja lógica de mercado promove o desvinculo socioeducativo e almeja, acima de tudo, inserir no sistema educacional o esquema de gerenciamento empresarial, naturalizando e formatando os alunos desde cedo para a realidade econômica (LAVAL, 2004). Com o enfraquecimento dos propósitos essenciais da escola, como a formação do cidadão e a promoção dos valores culturais e políticos do saber, o jovem, a escola e o professor deixam de ser vistos como agentes transformadores e questionadores, para desempenhar o papel de reprodutores dessa lógica, maquiada por políticas inovadoras e globais. Divergentes interesses e constantes mudanças na educação brasileira repercutem na carreira docente, dentro e fora da sala de aula, comprometendo a qualidade de vida pessoal e profissional do professor e acentuando sua sensação de mal-estar. O termo “mal-estar”, utilizado no título da obra1 de Zaragoza (1999) para discorrer sobre o esgotamento docente e suas repercussões negativas, segundo o autor, foi intencionalmente ambíguo, pois significa um “desolamento ou incômodo indefinível”. Diferente da dor, facilmente localizável, no mal-estar temos a percepção de que algo não está bem, mas não conseguimos definir exatamente o quê. Para Zaragoza é necessário definir causas, sintomas e buscar soluções para lidarmos com o malestar docente. No entanto para enfrentarmos as adversidades é preciso que os principais atores também sejam ouvidos, como afirma Ferreira:. O problema se agrava, principalmente, quando as causas reais e primeiras do malestar no trabalho permanecem intocáveis e, sobretudo, os trabalhadores (inclusive os que atuam no campo da gestão) não são chamados para expressarem o que pensam sobre a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT), suas fontes de bem-estar e mal-estar no trabalho. As ações de QVT devem ser parte integrante de uma abordagem que integre uma política de gestão organizacional, articulando as esferas da vigilância, perícia, assistência e promoção da saúde no contexto organizacional (FERREIRA, 2011, p. 103).. Em março de 2016, o jornal O Estado de São Paulo publicou uma reportagem relatando que a rede estadual de ensino paulista concedia 372 (trezentas e setenta e duas) licenças médicas a professores por dia. Em 2015, foram aproximadamente 136 mil afastamentos médicos 1. O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores..

(15) 15. concedidos. A principal causa de afastamento eram transtornos mentais e comportamentais, responsáveis por 27,8% (vinte e sete vírgula oito por cento) dos casos. Segundo o jornal, o Relatório do Ministério do Trabalho e da Previdência Social de 2015 mostrava que transtornos mentais estavam entre os quatro principais motivos para conceder benefícios previdenciários no país. De acordo com Zaragoza (1999), para confrontar de maneira eficaz o mal-estar docente, deve-se priorizar a melhoria das condições de trabalho e do apoio que o professor encontra ao realizá-lo. Na tentativa de fomentar esse apoio ao docente, políticas de valorização vêm surgindo ao longo dos anos em diversos dispositivos legais, tais como a Constituição Federal de 1988, as Leis de Diretrizes e Bases (LDB), o Plano Nacional de Educação (PNE), entre outros. O caderno do Ministério da Educação (MEC), Planejando a próxima década: Conhecendo as 20 metas do Plano Nacional de Educação, traz análises e informações sobre cada uma das metas do Plano Nacional da Educação (2014 – 2024) e afirma que:. Um quadro de profissionais da educação motivados e comprometidos com os estudantes de uma escola é indispensável para o sucesso de uma política educacional que busque a qualidade referenciada na Constituição Brasileira. Planos de carreira, salários atrativos, condições de trabalho adequadas, processos de formação inicial e continuada e formas criteriosas de seleção são requisitos para a definição de uma equipe de profissionais com o perfil necessário à melhoria da qualidade da educação básica pública. Portanto, estabelecer política de valorização dos profissionais da educação em cada rede ou sistema de ensino é fundamental para que a política educacional se fortaleça (BRASIL, 2014, p.12).. Contudo, muitas leis de valorização docente ainda não se concretizaram em grande parte das redes públicas de ensino e estão a serviço, muitas vezes, de reproduzir o ideário que coloca o professor como elemento essencial para a melhoria da qualidade de ensino, ignorando os inúmeros fatores causadores do fracasso escolar. Para Frigotto (2001), o binômio qualificação e educação surge como “panaceia” na tentativa de solucionar os desequilíbrios sociais e pessoais, como se os problemas pudessem ser reduzidos em ser ou não qualificado. A qualidade de ensino passou a ser vinculada ao desempenho dos alunos em avaliações externas, à assiduidade do professor, às premiações de grandes corporações, entre outros condicionamentos, portanto, nessa lógica de mercado, quando ocorrem bom desempenho, assiduidade e reconhecimento social deve ocorrer também a valorização docente. Assim como Frigotto (2001), que retira da educação a sobrecarga de resolver as mazelas do mundo, Zaragoza faz o mesmo ao não concordar que os professores sejam considerados “os únicos responsáveis pelos fracassos de um sistema educacional massificado, apressadamente maquiado para fazer.

(16) 16. frente à avalanche da crise social, econômica e intelectual de nossa sociedade” (ZARAGOZA, 1999, p. 19). Se de um lado estão todos os fatores que sobrecarregam o professor, no outro, é preciso investigar quais são os ganhos simbólicos e materiais, capazes de trazer algum equilíbrio para esse profissional. Assim, esta pesquisa estuda os estatutos e os planos de carreira e remuneração dos professores municipais de São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, sendo a escolha do primeiro devido ao alto Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), ser o 16º (décimo sexto) Produto Interno Bruto (PIB) do país e por suas históricas lutas trabalhistas; e a escolha de São Caetano do Sul, por configurar o primeiro lugar no ranking de IDHM e constar entre as 100 (cem) cidades brasileiras com o maior PIB do país, valores que simbolizam um respeitável quadro de desenvolvimento econômico, histórico e social de ambos os municípios. Localizadas na Região Metropolitana de São Paulo, as duas cidades ajudam a compor o Grande ABC, também formado por Santo André, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Juntos, os sete municípios concentram o quarto maior PIB do país e têm uma população estimada de 2,77 (dois milhões e setecentos e sete mil) habitantes, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2018). O IDHM de toda a região do Grande ABC é considerado elevado. O índice varia de zero a um e a medida é composta por indicadores de três dimensões do desenvolvimento humano: educação, longevidade e renda. Conforme o Atlas do Desenvolvimento Humano no Brasil, plataforma de consulta ao IDHM dos municípios brasileiros, em 2010, os municípios do ABC pontuaram entre 0,862 (oitocentos e sessenta e dois milésimos) a 0,749 (setecentos e quarenta e nove milésimos), sendo classificado como muito alto em Santo André, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, e alto em Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. De acordo com o Ministério da Educação, as políticas de valorização dos profissionais da educação compreendem vários aspectos, dentre eles a formação inicial adequada ao nível de ensino em que desempenha; uma política pública de formação continuada; Plano de Carreira e Remuneração; condições de trabalho adequadas e participação no processo de elaboração, execução e avaliação do projeto político-pedagógico da escola. Para Laval (2004), os professores desempenham uma função cujas vantagens simbólicas e materiais sofreram grande perda ao longo dos anos. Por isso, comparar o que o Ministério da Educação determina com suas leis, ainda que frequentemente ignoradas pelas redes de ensino, e o que as prefeituras realmente têm realizado, pode nos conduzir a um melhor entendimento da (des)valorização docente atual, proporcionar diferentes reflexões e, ainda, buscar a.

(17) 17. sensibilização dos gestores da educação em relação ao caráter motivacional de tais políticas na carreira docente. Em vista disso, estudamos as recompensas materiais e o reconhecimento do status do professor, citados por Zaragoza (1999), averiguando como os recursos e riquezas de polos industriais com grande força política se refletem nos investimentos para a valorização docente no Grande ABC. A compreensão do vínculo entre professor e poder público é relevante para entendermos a desmoralização docente, as ideologias e lógicas que governam as políticas educacionais da região. Portanto, saber interpretar e formar juízos independentes é o pilar em que se assenta a construção de autonomia pessoal e das possibilidades de contrapontos que permitem superação de condições vivenciais desafiantes – na vida cotidiana, na atividade científica, no meio ambiente, nas condições societárias (GATTI, 2017, p. 732,733).. A conscientização das políticas que regem à carreira docente e dos processos históricosociais da educação é o primeiro passo, se não o principal, na busca pela valorização e pela conquista de vínculos mais significativos e respeitosos para com o professor, motivos pelos quais justificamos esta pesquisa.. Teses e dissertações. Com base nas pesquisas cadastradas no Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), do período de 2014 a 2018, catalogamos 24 dissertações de mestrado e 6 teses de doutorado, totalizando 30 pesquisas, cujo foco é o Plano de Carreira e Remuneração dos professores; e 14 dissertações de mestrado e 2 teses de doutorado, em um total de 16 pesquisas que abordam a Valorização Docente. De todas as 46 pesquisadas citadas, 27 são produzidas em Universidades Federais, 13 em Universidades Estatuais e 6 em Universidades Particulares. Nessa pesquisa, os estados com maior índice de produções sobre os temas PCR e Valorização Docente são de São Paulo (10), Pará (6) e Mato Grosso do Sul (5).. Quadro 01: Dissertações e Teses sobre Plano de Carreira e Remuneração Ano 2018. Autor(a) FERREIRA, Jose Mateus Rocha da Costa. Título Carreira e remuneração de professores do sistema de organização modular do Ensino Médio – SOME no Pará. Universidade Universidade Federal do Pará, Belém. Grau Mestrado.

(18) 18. Ano 2018. Autor(a) SOUZA, Maria Veronica de. 2017. ALVES, Charles Alberto de Souza. 2017. ARAUJO, Fadyla Kessia Rocha de. 2017. PEREIRA, Mariane Gomes. 2017. PINHEIRO, Raimundo Walber Da Silva SOUZA, Michele Borges de. 2017. 2016. DELMONDES, Asheley Godoy. 2016. IMHOF, Eden Luciana Boing. 2016. OLIVEIRA, Victor Manoel Alab de. 2016. PEREIRA, Claudia Alves. 2016. RODRIGUES, Luciana Cristina Nogueira Honorio SOARES, Marina Gleika Felipe. 2016. 2016. TEIXEIRA, Eliara Cristina Nogueira da Silva. 2016. THOMAZINI, Leandro. Título Valorização Docente no Plano e Ações Articuladas (Par): Análise Do Processo De Implementação Das Ações Em Dois Municípios SulMato-Grossenses (2011-2014) A política de remuneração dos professores da rede estadual de Educação Básica do Pará Desafios da valorização dos professores da Educação Básica da rede pública estadual de ensino do Rio Grande do Norte: carreira e remuneração (2009−2015) Valorização do trabalho docente no plano de cargos e carreira de Uberlândia: a perspectiva dos profissionais da rede municipal de ensino Políticas de remuneração de professores da Educação Básica em municípios do estado do Pará A política de valorização docente na rede pública de ensino do estado do Pará (2007-2016): o caso Parfor O vencimento salarial dos professores da rede estadual de ensino de Mato Grosso do Sul (2006 a 2013) Políticas públicas de valorização da profissão docente no Brasil: avanços e contradições em seus processos de materialização Política de remuneração do Magistério Público no município de Rio Branco/Acre: repercussões na valorização do magistério Remuneração docente como política pública no Ensino Fundamental no estado de São Paulo Remuneração e Piso Salarial em Minas Gerais: valorização ou precarização do trabalho docente? Remuneração e carreira dos professores da Educação Básica: o impacto da lei do piso na rede estadual do Piauí. Impactos da Lei do Piso Salarial Nacional no município de Pindaí-BA e suas implicações na valorização docente: sentidos dos/as professores/as Carreira e vencimento de professores da Educação Básica no estado de São Paulo. Universidade Universidade Católica Dom Bosco, Campo Grande. Grau Doutorado. Universidade Federal do Pará, Belém. Doutorado. Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal. Doutorado. Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia. Mestrado. Universidade Federal do Pará, Belém. Mestrado. Universidade Federal do Pará, Belém. Doutorado. Fundação Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Campo Grande Universidade do Oeste de Santa Catarina, Joaçaba. Mestrado. Universidade Federal do Acre, Rio Branco. Mestrado. Universidade de São Paulo, São Paulo. Mestrado. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte Fundação Universidade Federal do Piauí, Teresina. Mestrado. Universidade Estadual do Sudoeste Da Bahia, Vitória da Conquista. Mestrado. Universidade Federal de São Paulo, Guarulhos. Mestrado. Mestrado. Mestrado.

(19) 19. Ano 2015. Autor(a) FERRON, Aline. 2015. GUIMARAES, Marielson Rodrigues. Título Plano de carreira e remuneração do magistério: valorização profissional em um estudo de caso. Universidade Fundação Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo Universidade Federal do Pará, Belém. Grau Mestrado. Carreira e remuneração dos Mestrado profissionais do Magistério Público do município de Breves-PA 2015 PIMENTEL, Adriana A Carreira do Magistério Público da Universidade Federal Mestrado Marinho Rede Municipal de Ensino do do Pará, Belém município de Oriximiná-PA: um estudo a partir do plano de cargos, carreira e remuneração – Lei n.º 7.315/10 2015 SANTOS, Fabiana Valorização docente em municípios Universidade Federal Mestrado Rodrigues dos de Mato Grosso do Sul: análise a da Grande Dourados, partir do plano de ações articuladas Dourados (PAR) 2015 SOBZINSKI, Janaina Valorização dos professores: análise Universidade Mestrado Silvana dos planos de carreira de municípios Estadual de Ponta do Paraná Grossa, Ponta Grossa 2014 BARBOSA, Janaina Vencimento e a remuneração do Universidade Federal Mestrado Lopes Magistério Público municipal de do Rio Grande do Natal/RN: repercussões da Norte, Natal implementação do Fundeb (20072010) 2014 CASTRO, Silvania A política de remuneração dos Fundação Mestrado Uchoa de professores da rede pública municipal Universidade Federal de ensino de Teresina – PI (1996 a do Piauí, Teresina 2012). 2014 FIGUEIREDO, Ana Trabalho docente: condições de Universidade Federal Mestrado Hérica Brasil trabalho, carreira e salário do do Ceará, Fortaleza magistério da rede pública estadual do Ceará 2014 GODOY, Marina de Vencimento, remuneração e carreira Universidade Federal Mestrado docente no estado do Paraná (2005do Paraná, Curitiba 2012) 2014 GUARIZZO, A precarização do trabalho docente Universidade Cidade Mestrado Alexandro Biazi na rede pública estadual paulista: a de São Paulo, São questão do plano de cargos e carreiras Paulo 2014 PAZ, Fabio Mariano Estatutos, planos de carreira e Universidade Doutorado da valorização do Magistério Público: Estadual Paulista um estudo dos municípios sedes das Júlio de Mesquita regiões administrativas do estado de Filho, Presidente São Paulo Prudente 2014 SILVA, Rosangela Promoção, vencimento e avaliação de Universidade Federal Doutorado Maria de Oliveira desempenho: o PCCR da rede do Rio Grande do municipal de ensino de Natal/RN Norte, Natal (2004-2010) 2014 SIMOES, Jacqueline Vozes docentes: o estatuto do Universidade de São Mestrado de Souza magistério municipal de Diadema Paulo, São Paulo (SP) e a qualidade da educação 2014 SOUZA, Jéssica Política de remuneração e carreira Universidade Federal Mestrado Ignácio de dos professores da rede estadual de de Santa Catarina, ensino de Santa Catarina (2011Florianópolis 2014): a parcialidade na implementação do Piso Nacional e a (des)valorização docente Fonte: a autora (2019), com base no Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES)..

(20) 20. Quadro 02: Dissertações e Teses sobre Valorização Docente Ano 2018. Autor(a) LUHM, Daiana Cristina. Título Política de valorização dos profissionais da educação: dimensões do financiamento da Educação Básica no município de Céu Azul no Paraná (2009 - 2016) A política de valor e des-valor do trabalho docente nos documentos da OCDE A valorização do magistério da Educação Básica no Planos Nacionais de Educação (2001 e 2014): análise das metas e estratégias A valorização do trabalho do professor? Considerações a partir de uma análise das políticas federais, das políticas estaduais e da APEOESP A valorização da profissão docente na rede estadual paulista de educação básica: um estudo comparativo. 2018. OLIVEIRA, Jose Rogerio de. 2017. FONTES, Lana Mara Couto Oliveira. 2017. RODRIGUES, Robson da Silva. 2017. ROSA, Diaico dos Santos. 2016. BERTONCELI, Mariane. O trabalho docente na Educação Infantil: entre a precarização e valorização profissional. 2016. FRANCO, Kaio Jose Silva Maluf. A valorização profissional docente da educação básica em Goiás (1990-2015). 2016. JUNIOR, Paulo Roberto Vieira. 2015. ARANDA, Flavia Paula Nogueira. 2015. BASILIO, Mariana da Rocha. 2015. GARCIA, Ana Flavia Gomes. 2015. LIMA, Potiguara Mateus Porto de. 2015. OLIVIERA, Claudineia da Silva de. 2015. SOUZA, Jeferson Mello de. Saúde docente e condições de trabalho: estudo quantiqualitativo realizado em uma instituição da Rede Federal de Educação Profissional Científica e Tecnológica de Minas Gerais A valorização docente na formulação do plano municipal de educação de Dourados-MS Valorização do trabalho docente ou uma miríade de novas responsabilidades e exigências ao professor nos decretos do governo paulista? Trabalho docente e valorização do profissional da Educação Básica: o que diz a legislação (1996–2013) Concepção e valorização do trabalho docente: políticas meritocráticas na educação pública A valorização do professor do Ensino Médio nos estados de Santa Catarina e Paraná: entraves, desafios e possibilidades A construção da carreira docente no sistema municipal de ensino de Rio Claro: profissionalização e valorização profissional. Universidade Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Cascavel. Grau Mestrado. Universidade de Brasília, Brasília. Mestrado. Universidade Federal Fluminense, Niterói. Mestrado. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Rio Claro Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Franca Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Francisco Beltrão Instituição de Ensino: Universidade Federal de Goiás, Jataí Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte Universidade Federal da Grande Dourados, Dourados Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Rio Claro. Mestrado. Mestrado. Mestrado. Mestrado. Doutorado. Mestrado. Mestrado. Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia Universidade Estadual de Campinas, Campinas Universidade do Sul de Santa Catarina, Tubarão. Mestrado. Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita filho, Rio Claro. Mestrado. Mestrado. Mestrado.

(21) 21. 2014. MEDEIROS, Gilvan. A valorização do professor do ensino Universidade do Sul Mestrado médio em Santa Catarina e Minas de Santa Catarina, Gerais: limites e possibilidades Tubarão 2014 RIBEIRO, Josete A jornada de trabalho dos professores Universidade Federal Doutorado Maria Cangussu da escola pública em contexto de do Rio Grande do políticas de valorização docente e Sul, Porto Alegre qualidade da educação Fonte: a autora (2019), com base no Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES).. As pesquisas estudam os planos de carreira e remuneração e os elementos que compõem a valorização docente de diferentes regiões do Brasil, prevalecendo uma abordagem crítica e questionadora a respeito das políticas meritocráticas, do financiamento da Educação Pública, da desvalorização e precarização do trabalho docente, dos impactos das leis educacionais, dos avanços e contradições na carreira do professor brasileiro. A respeito dos municípios analisados em nosso estudo, São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul, encontramos a dissertação de Leandro Thomazini (2016), cuja pesquisa, “Carreira e vencimento de professores da Educação Básica no estado de São Paulo”, inclui SCS. Não localizamos nenhuma dissertação ou tese sobre o estatuto e PCR de SBC.. Metodologia. O objetivo geral desta pesquisa é investigar a valorização docente nos estatutos e planos de carreira e remuneração da educação básica pública dos municípios de São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul. O objetivo específico é analisar tais políticas municipais na fala dos professores, de modo a refletir sobre como elas impactam na carreira, no exercício do magistério e na vida desses profissionais. Problematizamos como o expressivo desenvolvimento econômico e social de São Bernardo do Campo e São Caetano do Sul se reflete na valorização dos professores de suas redes municipais. A hipótese que sustenta esta pesquisa é que a valorização docente, apesar de prevista em diversas leis, fica aquém do desenvolvimento social e econômico presentes nos municípios estudados, polos industriais com grande força política, financeira e social, desempenhos evidenciados no ranking do IDHM, no PIB e em suas históricas lutas pelos direitos do trabalhador. Este estudo tem uma abordagem qualitativa de caráter descritivo-analítica com base em pesquisa documental e em entrevistas semiestruturadas com professores sobre as políticas de valorização docente de dois municípios do Grande ABC paulista, São Bernardo do Campo e.

(22) 22. São Caetano do Sul. As entrevistas foram analisadas com base em Bardin (2011), a partir de seus conteúdos, categorizando-as em respostas semelhantes ou não, sob a perspectiva dos teóricos estudados na revisão de literatura. Os dados demográficos das regiões estudadas foram obtidos junto às Sinopses Estatística da Educação Básica e do Ensino Superior de 2017, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep); website do Tesouro Nacional, página das Transferências Constitucionais, com relação aos repasses do Fundeb aos municípios pesquisados em 2017 e 2018; IBGE, para o levantamento do IDHM, PIB Municipal, PIB per capita e diversos dados municipais. A coleta das legislações nacionais e municipais foi realizada por meio de acesso digital em sites governamentais, municipais e pela plataforma “Leis Municipais”2. As informações históricas dos municípios foram pesquisadas em livros do Serviço de Documentação da História Local (SDHL) e Secretaria de Educação, Cultura e Esportes de São Bernardo do Campo, Prefeituras de SCS e SBC, IBGE, entre outros. O estudo das legislações nacionais e municipais, dos estatutos e planos de carreira e remuneração do magistério e a análise de conteúdo das entrevistas dos professores têm o respaldo de autores como Arroyo (2000, 2015), Carvalho (1987), Ferreira (2004, 2009, 2011a, 2011b), Frigotto (2001, 2011, 2003), Gatti (2013, 2017), Hashizume (2014, 2018a, 2018b), Jesus (2007), Laval (2004), Noronha (2016), Piolli (2014, 2015, 2017), Saviani (2008a, 2008b, 2015), Sennett (2009), Shiroma et. al. (2011), Zaragoza (1999), entre outros. Com relevantes contribuições, os autores trazem reflexões a respeito da valorização docente e seus diversos temas interligados. Arroyo (2000, 2015) alerta para a importância da conscientização política do professor, sobre a construção da identidade docente e as idealizações em torno da profissão; Zaragoza (1999) analisa o mal-estar docente, suas causas e repercussões profissionais, sociais e psicológicas; Ferreira (2004, 2009, 2011a, 2011b) aborda a importância da qualidade de vida no trabalho do funcionário público e da gestão organizacional; Hashizume (2014, 2018a, 2018b) discorre sobre a saúde e o trabalho docente, e a carência de uma efetiva participação política dentro da categoria para a criação de melhores condições de trabalho; Jesus (2007) estuda a psicologia da saúde docente; Gatti (2013, 2017) reflete sobre a valorização e a formação docente. Aprofundando-se nas políticas públicas, Frigotto e Shiroma (2001, 2011, 2003) fazem um resgate histórico e crítico das reformas educacionais; Piolli (2014, 2015, 2017) analisa o. 2. https://leismunicipais.com.br.

(23) 23. PNE, os impactos da desvalorização na atratividade da profissão, o modelo gerencial e a mercantilização da educação; Saviani (2008a, 2008b, 2015) critica a teoria do Capital Humano e diversas leis, como a LDB; Laval (2004) discorre sobre o neo-liberalismo presente no sistema escolar mundial; Noronha (2016) discute as reivindicações da categoria docente; Sennett (2009) revela os impactos do novo capitalismo nas relações de trabalho e Carvalho (1987) examina a histórica alienação e separação política dos brasileiros. O estudo dos estatutos e planos de carreira e remuneração dos municípios também se deu à luz da legislação que preconiza as diretrizes para a construção de planos carreira e remuneração docente, tais como a Constituição Federal de 1988, art. 206; Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional (LDB), arts. 67, 69 e 70; Lei nº 11.494, de 20 de junho de 2007, que regulamenta o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb), art. 40; Lei nº 11.738, de 16 de julho de 2008, que regulamenta o piso salarial profissional nacional para os profissionais do magistério público da educação básica (PSPN), arts. 2º, 5º e 6º; Resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE) e Câmara de Educação Básica (CEB) nº 2/2009, que fixa as diretrizes nacionais para os planos de carreira e remuneração dos profissionais do magistério da educação básica pública; Resolução CNE/CEB nº 5/2010, que fixa as diretrizes nacionais para os planos de carreira e remuneração dos funcionários da educação básica pública e Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014, que fez entrar em vigor o Plano Nacional de Educação 2014-2024, Meta 18. Faz-se importante destacar que, apesar de não ter sido nosso objetivo analisar a fundo tais legislações, a sua leitura e análise foram necessárias para melhor compreensão do contexto e do cenário legal que amparava o trabalho e carreira docente dos municípios estudados.. Sujeitos. Contou-se com a participação de seis professores nas entrevistas semiestruturadas sendo três da rede municipal de São Bernardo do Campo e três de São Caetano do Sul, com a finalidade de contextualizar os componentes estudados dos estatutos e planos de carreira e remuneração municipais (ANEXOS B e C). O critério de escolha dos entrevistados foram por tempo de serviço na rede, sendo dividido em três faixas: de 5 a 12 anos, de 13 a 20 anos e acima de 20 anos de exercício do magistério no município. Com duração aproximada de 40 a 60 minutos, as entrevistas aconteceram fora das escolas em que os docentes lecionam, com a.

(24) 24. intenção de que os entrevistados se sentissem mais à vontade para expor suas vivências, opiniões sobre estatutos e os planos de carreira e apreciações de suas redes de ensino. O projeto foi aprovado pelo CEP-UMESP e registrado na Plataforma Brasil, após a análise e exame criterioso de todos os itens que compõem os documentos do protocolo de pesquisa, incluindo os itens presentes no roteiro de checagem para o parecerista e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Nada foi constatado no processo que fira os princípios e as normas da ética em pesquisa3. Os excertos selecionados das entrevistas são categorizados em quatro grupos: carreira, condição de trabalho, relações interpessoais e laborais e valorização. A maioria das categorias e subcategorias já estavam previstas na elaboração do questionário, pois foram baseadas nos elementos estudados dos estatutos e PCR, no entanto outras emergiram na leitura das transcrições. A análise de conteúdo, baseada em Bardin (2011), a partir de citações diretas dos entrevistados, apresenta observações críticas e interpretações de acordo com os autores que fundamentam este estudo. A fala dos professores contextualizam as políticas municipais, assim como os estatutos e planos de carreira e remuneração estudados, e nos fornecem dados parciais para compreender a relação e interação desses docentes com os vários elementos que permeiam sua profissão.. 3. CAAE: 00822218.4.0000.5508. Número do Parecer: 3.050.741..

(25) 25. VALORIZAÇÃO DOCENTE.

(26) 26. Valorizar é o exercício de dar valor. Em o Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, entre as várias definições da palavra valor, encontramos: “1. Qualidade de quem tem força; audácia, coragem, valentia, vigor. 2. Qualidade pela qual determinada pessoa ou coisa é estimável em maior ou menor grau; mérito ou merecimento intrínseco; valia [...]. 10. Estima, apreço. 11. Importância, consideração” (FERREIRA, 1986, p. 1750/1751). Desta forma, entendemos a valorização docente como o reconhecimento desse profissional por meio de políticas educacionais concretizadas, que lhe garantam remuneração digna, correspondente ao seu nível de formação e complexidade laboral; boas condições de trabalho, com apoio técnico e humano; efetiva participação pedagógica e política; formação continuada consistente, considerando as necessidades e o contexto de cada rede de ensino; planos de carreira e remuneração atrativos – foco de nosso estudo, pois integram todas as premissas anteriores, entre outras que compõem as demandas da categoria. Salários defasados, excesso de cobranças e críticas, conflitos escolares, frequentes alterações das vigências pedagógicas, conduzem o professor da educação básica ao desprestígio social e ao desgaste do corpo e da mente. Sobre esse último, Seligmann (2011) apresenta os estudos que investigam a relação trabalho e distúrbios mentais, principalmente, psicossomáticos e psicossociais. Esses estudos estão vinculados a diferentes correntes científicas, tais como a teoria do estresse, os referenciais psicanalítico e do desgaste. Formulada nos anos de 1930, pelo médico canadense Selye, a teoria do estresse advém da Fisiologia e do Behaviorismo. Esse modelo, aprimorado ao longo das décadas, auxilia nos estudos quantitativos e epidemiológicos, buscando identificar os fatores de risco no trabalho e elaborar técnicas de terapias comportamentais. O referencial psicanalítico foca nos processos subjetivos e intersubjetivos das relações de trabalho, oferecendo suporte às pesquisas qualitativas e aos diferentes tratamentos. Já o referencial do desgaste, a partir da abordagem integradora, vem se desenvolvendo à medida que agrega as contribuições da psicologia social, das ciências sociais e da psicanálise, abordando as relações desiguais de poderes impostos ao trabalhador (SELIGMANN, 2011). Todas essas abordagens estudam as doenças apresentadas pelos trabalhadores, como exemplo, o esgotamento. O estado de se esgotar no professor e suas repercussões negativas chamaram a atenção de muitos pesquisadores a partir dos anos de 1980. Um desses quadros de esgotamento é a Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional. O termo burnout (queimar-se) foi usado pela primeira vez em 1974 pelo psicanalista alemão Herbert J. Freudenberger, para descrever uma condição médica que ocorre devido à exposição prolongada de estresse no trabalho, gerando exaustão física, mental e emocional. O conceito atual de.

(27) 27. burnout está baseado na perspectiva social-psicológica da psicóloga norte-americana Christina Maslach, criadora do Maslach Burnout Inventory (MBI), ferramenta diagnóstica da Síndrome (ALVES, 2017). De acordo com Zaragoza (1999), o termo burnout aparece pela primeira vez, associado à docência, em um artigo de Pamela Bardo em 1979, intitulado “The pain of teacher burnout: A case history”. Bardo, segundo Zaragoza, declarou que o professor com síndrome de autoqueimar-se era um fenômeno conhecido dos professores da escola pública, porque envolvia sintomas comuns à profissão, por exemplo, absentismo, desejo anormal por férias, autoestima baixa, descompromisso pedagógico, entre outros. A bibliografia na língua francesa introduziu o termo malaise enseignant, traduzido para o espanhol por malestar docente e em português, mal-estar docente. Zaragoza explica a expressão mal-estar como um desolamento ou incômodo indefinível que o professor sente, elencando as suas principais consequências, tais como sentimento de desconforto e insatisfação perante os problemas do magistério; inibição para evitar o envolvimento pessoal com o trabalho; pedidos de transferência; desejo de abandonar a docência; cansaço físico contínuo; ansiedade; depressão etc. Os fatores primários que desencadeiam o mal-estar estão vinculados ao que ocorre em sala de aula ou diretamente na ação docente, gerando tensões associadas a sentimentos e emoções negativas. Já os fatores secundários são referentes às condições ambientais, ao contexto da docência, fatores indiretos que reduzem a motivação do professor. Zaragoza (1999) explica que isolados, os fatores têm apenas um significado intrínseco, mas quando se acumulam, influenciam a imagem que o professor tem de si, do seu trabalho, gerando a crise de identidade. Notícias de violência contra o professor, por exemplo, geram no plano psicológico um efeito do problema cinco vezes maior. Essa reflexão leva Zaragoza a citar Hoyle (1969), “segundo o qual a autoimagem de um grupo profissional depende, em parte, da sua imagem pública, de tal forma que, quando a imagem pública de uma profissão se deteriora, diminui a satisfação no trabalho dos profissionais que a exercem” (HOYLE, 1969, apud ZARAGOZA, 1999, p. 55). Pesquisas recentes mostram que se por um lado a imagem dos professores para os jovens é positiva, informa Gatti et. al (2010, apud GATTI, 2013), pois traz a perspectiva da importância do papel docente na sociedade e na própria educação desse jovem, por outro, a imagem é negativa, uma vez que representa uma carreira pouco promissora, repleta de dificuldades. Para a autora, a representação contraditória, de não valorização da docência, vem se mantendo ao.

(28) 28. longo dos tempos, porque a estrutura sócio-histórica-política de componentes para superar e reconstruir essa representação não tem se efetivado de verdade. A contradição entre carreira docente e imagem docente é antiga. Nóvoa (1992), ao descrever as políticas do regime autoritário do Estado Novo em Portugal (1933 – 1974), contanos que o Estado concomitante ao controle ditatorial sobre os professores, degradando seu estatuto, também investia na propaganda ideológica para enaltecer a imagem e o prestígio docente, sem que isso representasse uma melhoria da situação socioeconômica do professor. Os recentes dados materializam em números a histórica desvalorização da carreira no magistério. A remuneração média dos docentes (Inep, 2017), em exercício na educação básica brasileira por 40 (quarenta) horas semanais, considerando bonificações, gratificações e outros benefícios, com base em dados de 2014, foi de:. Quadro 03: Remuneração Média Ponderada por Carga Horária Padronizada para 40h semanais/ 2014 Redes de ensino Número de Média Média de horas no Brasil docentes padronizada semanais do 40 horas semanais contrato Federal 23.921 R$ 7.767,94 39,3 Estaduais 717.144 R$ 3.476,42 31,1 Municipais 1.065.630 R$ 3.116,35 30,6 Pública 1.806.695 R$ 3.335,06 30,9 Privada 377.700 R$ 2.599,33 30,2 Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2017.. O levantamento revela que a maior remuneração é a dos professores da Rede Federal de ensino. As redes municipais, 45 (quarenta e cinco) vezes maiores que a Federal, paga menos da metade. E a rede privada tem os salários mais baixos. Os dados evidenciam as disparidades regionais e inter-regionais na remuneração de professores; existem casos de estados em que os professores que trabalham 20 (vinte) horas semanais possuem remuneração maior do que professores com carga de 40 (quarenta) horas semanais de outras regiões. A Sinopse Estatística da Educação Básica de 2017 registrou 2.192.224 (dois milhões, cento e noventa e dois mil, duzentos e vinte e quatro) professores na Educação Básica no Brasil. Já Sinopse Estatística da Educação Superior do mesmo ano revelou que 1.589.440 (um milhão, quinhentos e oitenta e nove mil, quatrocentos e quarenta) alunos frequentam cursos de licenciatura no Brasil, o que representa 19,3% (dezenove vírgula três por cento) do total de alunos na educação superior de graduação..

(29) 29. Figura 01: Número de matrículas em cursos de graduação em licenciatura/ 2017. Fonte: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, 2017.. Em 2017, a matrícula na modalidade a distância continuou crescendo, enquanto a modalidade presencial apresentou o mesmo número de alunos de dez anos atrás. Acima de 80% (oitenta por cento) dos estudantes de licenciatura de instituições públicas frequentam cursos presenciais, à medida que na rede privada, predominam os cursos a distância, com quase 65% (sessenta e cinco por cento) dos alunos. Figura 02: Licenciatura em número de matrículas/ 2017. Fonte: Inep, 2017..

(30) 30. O curso com maior procura da licenciatura é o de pedagogia. Segundo os dados, nos últimos dez anos, o número de alunos em cursos de licenciatura cresceu apenas 49,7% (quarenta e nove vírgula sete por cento), ao passo que o número de alunos de cursos tecnológicos cresceu 141% (cento e quarenta e um por cento). A baixa atratividade, representada por 19,3% (dezenove vírgula três por cento) do total de alunos em cursos de licenciatura, é o reflexo do desprestígio profissional, com salários pouco atrativos, falta de planos de carreira, além dos diversos problemas da esfera escolar. Conforme o relatório Políticas Eficientes para Professores de 2018, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), apenas 2,4% (dois vírgula quatro por cento) dos jovens brasileiros de 15 anos querem ser professores. Em 2014, o déficit de professores nas áreas de matemática, física e química era de 180 (cento e oitenta) mil professores, pois muitos desses profissionais conseguem melhores condições de trabalho e salários fora da docência, em laboratórios, fábricas, institutos de pesquisa e demais áreas (NORONHA, 2016). Outro aspecto relevante dos dados do MEC são as crescentes licenciaturas a distância, que viabilizam a graduação de milhares de pessoas, com valores de mensalidades acessíveis e locomoção reduzida, contudo também acentuam ainda mais a desvalorização do professor, com formações rápidas e contato mínimo com o fazer docente. Gatti (2017) alerta que a educação não é um processo solitário, é um processo cultural, vinculado não somente às ciências. A essência do processo educacional é a formação das pessoas, constituídas pelo desenvolvimento cognitivo, afetivo, moral, do conhecimento, do fazer, entre outros.. 1.1 Imagem do professor: o real e o imaginário O ensino é sonho. O educador espanhol José Manuel Esteve Zaragoza abre a introdução da obra “O mal-estar docente: a sala de aula e a saúde dos professores” (1999) com a enigmática frase, que pode ser decifrada nas páginas seguintes ou mesmo analisada sob diferentes prismas para além do texto em que foi aplicada. O autor compara os professores com a personagem Segismundo, da peça teatral “A vida é sonho”, do dramaturgo e poeta espanhol Pedro Calderón de La Barca (1600-1681). Segismundo, filho do rei da Polônia, vive acorrentado na escuridão da masmorra desde pequenino, por ordem de seu próprio pai, que recebeu a profecia que seu herdeiro traria desgraças ao reino. Anos mais tarde, o rei se arrepende e decide soltá-lo. Segismundo é dopado e retirado da prisão. Ao despertar, em pleno palácio, limpo e bem vestido, informam-lhe que é um príncipe e tudo que viveu até o momento fora um sonho ruim. Segismundo, nada preparado.

(31) 31. para viver em sociedade, comete erros considerados graves, confirmando a profecia feita por sua própria mãe, morta durante o parto. O rei, então, decide mais uma vez encarcerá-lo. Segismundo é sedado e acorda em sua masmorra escura. Clotaldo, seu carcereiro, convence-o de que sua experiência fora da prisão não passou de um sonho. Nesse dramático ato, Zaragoza conta ao leitor que Segismundo, conforme a versão que assistiu da peça, ao filosofar sobre a vida, não percebe a mudança de cenário ao fundo. Dois funcionários do teatro entram em cena para colocar um manequim de minissaia e peruca colorida. O ator, na pele de Segismundo, continua sua inflamada declamação, que vai se enfraquecendo com o aumento da intensidade do holofote sobre o palco, até que por fim, emudece. Nosso pobre Segismundo continua vestido em seu casaco de peles, preso a seu papel e à parede, provocando um curioso contraste com o cenário luminoso, rosado e fluorescente. O contraste é tão chocante que boa parte do público, apesar do desconcerto, ri abertamente (ZARAGOZA, 1999, p. 16).. Segismundo/ator simboliza o professor, conforme a alegoria de Zaragoza, o público representa a sociedade e os roteiristas são aqueles que estão escrevendo as mudanças bruscas de cenário, embora não fique claro, provavelmente, são os articuladores das políticas e reformas educacionais. Para o autor, mediante as mudanças, encontramos basicamente duas reações comuns do professor: a primeira, o docente interrompe sua representação, reconhece publicamente as alterações de cenário e continua seu texto, solicitando silêncio e concentração sempre que necessários. A segunda reação, o docente decide ignorar as mudanças. Dentre esse último, pode-se diferenciar dois perfis de professores: um está convencido da dignidade e maestria de seu papel, assimilando o riso do público como uma ofensa pessoal e os aplausos são o reconhecimento de sua grandeza; já o outro tipo de docente decide se inibir, se fechar, pois acredita que o cenário não é da sua conta, que ele é pago apenas para representar, portanto recuperado do susto inicial, ele segue ignorando seu público. A reação do docente perante as mudanças educacionais, de acordo com Zaragoza (1999), deveria ser de enfrentamento dos roteiristas e do público, chamando todos à responsabilidade pelo atual cenário, numa tentativa de manter a coerência e restaurar os papéis, visto que o professor não é o único responsável pela atual situação. Não é vítima ou algoz, no entanto, como Segismundo, vive regido por uma educação/profecia que desconhece, deixandose enredar pelas ilusões..

Referências

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