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Processo 120/08.3TBMAC-A.E1 Data do documento 13 de outubro de 2011 Relator José Lúcio

TRIBUNAL DA RELAÇÃO DE ÉVORA | CÍVEL

Acórdão

DESCRITORES

Litigância de má fé > Decisão surpresa

SUMÁRIO

1 – Nada obsta à condenação como litigante de má fé da parte vencedora, se no decurso da lide esta faltar à verdade dos factos como previsto no art. 456º, n.º 2, al. b), do CPC.

2 – Litiga de má fé aquele que dolosamente nega factos pessoais, nomeadamente declara não ter feito a sua assinatura num documento apresentado pela parte contrária vindo a provar-se ser sua a autoria de tal assinatura.

Sumário do relator

TEXTO INTEGRAL

1. Relatório:

Nos presentes autos de oposição à execução que os executados F… e M… instauraram contra a exequente “F…, SA”, foi proferida sentença na qual foi julgada procedente a oposição e declarada extinta a execução. Todavia, na mesma sentença foi considerado que os executados tinham faltado dolosamente à verdade e incorrido por isso em má fé processual, pelo que ficaram condenados cada um deles na multa de 4 UCs. Inconformada com esta decisão, a requerente interpôs o presente recurso, exarando as seguintes conclusões:

1 ª Por douta sentença com a referência 301078 de 24 de Março de 2011, foram os executados condenados como litigantes de má fé na multa processual de 4 UCS cada um, artigos 456º, 266º e 266-A, todos do C.P.C. e 27º do Regulamento das Custas Processuais.

2ª A situação dos autos, integra uma condenação oficiosa de multa por litigância de má fé, por não ter sido suscitada por qualquer das partes.

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3ª Porém, é hoje entendimento pacifico na jurisprudência que por força do disposto nos artigos 3º e 3º-A do C.P.C. e sob pena de inconstitucionalidade por violação do disposto no artigo 20º da Constituição da República Portuguesa, o juiz sempre que oficiosamente entenda haver uma situação susceptível de litigância de má fé deve determinar audiência prévia da parte que possa vir a ser condenada, para que esta exerça o contraditório, evitando-se, assim, a denominada "decisão-surpresa".

4ª A notificação aos ora apelantes não aconteceu, pelo que houve preterição absoluta do direito fundamental de defesa.

5ª O tribunal a quo ao decidir condenar oficiosamente os executados como litigantes de má fé sem previamente os notificar para se pronunciarem sobre a questão, nem justificado que se tratasse de um caso de manifesta desnecessidade do cumprimento do princípio do contraditório, conheceu de questão de que não podia tomar conhecimento.

6ª Assim, a decisão está ferida de nulidade nos termos da alínea d) do n.º 1 do artigo 668º do C.P.C., pelo que procedendo o recurso nesta parte haverá que anular esta parcela da decisão.

7ª Por outro lado, a fundamentação da condenação dos executados em litigância de má fé, não deverá ser acolhida em face dos seguintes factos que não foram considerados pelo tribunal a quo:

8ª No presente caso os executados foram a parte vencedora.

9ª A execução foi proposta com base na livrança assinada pelos executados/recorrentes.

10ª Os executados em sede de oposição alegaram, em suma, que a livrança era ineficaz por o contrato de mútuo n.º… que lhe deu causa dever ser considerado resolvido simultânea e automaticamente com a resolução do contrato promessa de compra e venda que lhe deu causa e que fora resolvido pelos executados no dia imediatamente a seguir à sua assinatura ou seja em 14 de Janeiro de 2005.

11 ª Entre os factos que constam da sua oposição infere-se que aceitaram ter subscrito uma proposta para contrato de financiamento, classificado contrato de mútuo pela exequente e uma livrança.

12ª Este documento fora-lhe entregue pelo vendedor da D… LDA, no dia 13 de Janeiro de 2005.

13ª Referiram que não lhes foram entregues cópias dos documentos e muito concretamente do contrato de mútuo.

14ª Disseram ainda, com interesse para a causa e com base no requerimento de execução, que não tinham recebido o artigo prometido vender - aparelho ortopédico magnetizado.

15ª Invocou o direito de resolução do contrato dentro do prazo, junto da D...

16ª No artigo 20º da sua oposição dá conhecimento de toda a correspondência trocada entre si -executados-, e a F…, S.A. - exequente.

17ª E esta apenas invoca nos referidos documentos que o executado marido dispunha de 7 dias úteis para proceder à revogação da declaração negocial nos termos do DL n.º 359/91, de 21 de Setembro.

18ª Ao que os executados responderam em sede de oposição e com base naqueles documentos de que nunca haviam sido notificados da aprovação do seu crédito pela exequente.

19ª No artigo 24º da sua oposição pediram à exequente que no estrito cumprimento do dever de colaboração juntasse aos autos o contrato de mútuo n.º 150754 e o comprovativo de que o mesmo havia sido endereçado aos executados.

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omitido à exequente a resolução do contrato efectuada pelos executados e que não entregara o produto, e que nos termos do artigo 6º do DL 143/2001, de 26 de Abril ficara obrigada a reembolsar os montantes pagos com base no direito de livre resolução do contrato.

21 ª Com base no mesmo Decreto Lei referiu quais os efeitos da resolução do contrato efectuado e concluíram que em face do exposto a livrança não poderia ser considerada titulo executivo com base na resolução do contrato que lhe dera causa.

22ª A exequente F… apresentou contestação, alegando que a oposição dos executados não passava de um mero expediente dilatório para protelar o pagamento que sabiam ser devido.

23ª E em sede do artigo 22º da sua contestação dizem: "Isto porque, tendo efectivamente recebido o bem, os executados renunciaram validamente ao direito de revogar o contrato celebrado, tudo conforme DECLARAÇÃO DE ENTREGA DO BEM E PEDIDO DE CONCRETIZAÇÃO DE FINANCIAMENTO e DECLARAÇÃO DE RENÚNCIA, documentos que os aqui Executados subscreveram, e que aqui se junta como documento nº 2." 24ª Nenhum dos factos alegados em sede de contestação à oposição se provou.

25ª Continuando, com interesse para a base deste recurso, a verdade é que os executados apenas lhes restava responder como o fizeram, isto é, como não podiam responder através de articulado próprio ao documento n.º 2 DECLARAÇÃO DE ENTREGA DO BEM E DO PEDIDO DE CONCRETIZAÇÃO DE FINANCIAMENTO E DECLARAÇÃO DE RENÚNCIA.

26ª Pelo que utilizaram a forma processual adequada, declarando não saber se a letra e assinatura dos documentos particulares apresentados são verdadeiras e em relação ao documento nº 2 declararam que a assinatura não correspondia à dos executados.

27ª Mas, não mentiram ao declarar o que declararam, porque quando o fizeram não se lembravam de ter visualizado tais documentos e muito menos de os ter assinado.

28ª Com interesse quanto a este documento releva a fundamentação de facto e de direito da douta sentença recorrida.

29ª Sendo certo que um dos fundamentos constantes da fundamentação da condenação em litigância de má fé dos executados é o de que a linha de defesa tomada pelos executados extravasava largamente o horizonte necessário ao cabal exercício do direito de que se arrogaram os executados, sic.

30ª Mas, nos articulados da execução, foi a exequente que por causa do ponto 7º da Base Instrutória que veio requerer o exame de reconhecimento de letra e assinatura dos executados oponentes, nos termos do artigo 584º, nº 1 do C.P.C ..

31ª E posteriormente a Mª. Juiz a quo por despacho com a referência 234496, datado de 21.09.2009, nos termos do artigo 578º, n.º 1 do C.P.C., considerou que a perícia requerida pela exequente não era nem impertinente nem dilatória.

32ª Considerando estes factos não se pode, salvo o devido respeito, fundamentar a condenação da litigância de má fé dos aqui recorrentes, que ao declararem que a assinatura não era a sua protelaram o célere e ágil andamento do processo, agravando o valor dos encargos a suportar pela parte vencida - a exequente.

33ª E concluir em sede da sua fundamentação "Que os executados alteraram dolosamente a verdade dos factos, sem fundamento sério para o fazer estribado no exercício do direito de defesa, incorrendo, pois, em

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omissão grave do dever de cooperação para a obtenção breve e eficaz da justa composição do litígio ( ... )" 34ª Como refere Abrantes Geraldes: "( ... ) o sistema não está apetrechado de mecanismos destinados a chancelar os seus resultados com o selo da infalibilidade, admite a possibilidade de serem proferidas decisões contrárias ao direito ou à verdade material, para tanto bastando uma falha em algum dos degraus de acesso à decisão judicial (transmissão deficiente entre o interessado e o seu mandatário, transposição insatisfatória dos factos jurídicos para os autos, viciada percepção ou apreensão da verdade histórica por parte dos intermediários, erros na formação da convicção ou na afirmação dos factos provados, incorrecta aplicação do direito em qualquer dos graus da hierarquia judiciário, etc)."

35ª Entendemos que, salvo o devido respeito, aquilo que a Mª. Juiz a quo considerou alteração dolosa da verdade dos factos, com base na falta de fundamento sério para o fazer estribado no direito de defesa, não deve ser atendido, porque toda a prova produzida em sede de audiência de julgamento e que está gravada comprovar que os executados estavam convencidos da veracidade dos factos que alegaram em sede do seu requerimento.

36ª Isto porque, todo o processo de preenchimento de papéis ocorreu no meio de um restaurante, onde se adquiriu um aparelho ortopédico magnetizado e que tudo ocorreu num contexto de demonstração que estavam a levar a efeito.

E que não foram entregues quaisquer cópias de documentos aos executados, a não ser a nota de encomenda e o contrato promessa de compra e venda.

Mais, decorreu da produção de prova que a testemunha indicada pela exequente disse que junto ao contrato de mútuo (que não foi entregue qualquer cópia aos executados) tinha anexo a declaração de entrega do bem e do pedido de concretização do financiamento e a declaração de renúncia que seria separada por picotados.

37ª Acresce e sem prescindir,

Que a maior prova que os executados têm de não terem qualquer interesse em não cooperar ou protelar o andamento do processo é o de se verem desapossados das suas economias pela penhora nos presentes autos de execução dos seus depósitos bancários, bem como as suas pensões.

38ª Sendo certo que através da quantia depositada no Banco Espírito Santo, penhorada, a exequente conseguiu assegurar, desde logo, a quantia exequenda e as despesas, isto desde 2008.

39ª Logo, é legitimo concluir que o que motivou a actuação dos executados foi o desconhecimento do que efectivamente assinaram no dia 13 de Janeiro de 2005, até porque não lhe foram entregues duplicados/cópias de todos os documentos que assinaram.

40ª Pelo que não se pode concluir como se concluiu na douta sentença recorrida de que os executados incorreram em omissão grave do dever de cooperação para a obtenção breve e eficaz da justa composição do litígio.

41 ª Decidindo-se como se decidiu, a douta sentença recorrida violou o disposto nos artigos 266º e 266º-A do C.P.C ..

42ª Termos em que em face do supra alegado e não obstante as assinaturas deverem ser do conhecimento pessoal dos executados não se deverá operar a condenação em litigância de má fé só porque se provou que as assinaturas eram do seu punho.

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43ª Por sua vez a Mª. Juiz a quo não indicou, por evidente lapso, a norma aplicável atenta a classificação jurídica e a má fé praticada pelos executados, artigo 669º do C.P.C ..

44ª O que leva à diminuição da defesa por parte destes.

45ª Pelo que tal fundamentação está eivada de nulidade, caso não venha a ser rectificada artigo 668º, n.º 1, alínea b), do C.P.C ..

Por mera cautela e dever de patrocínio sempre se dirá: Quanto à multa aplicada:

46ª Estabelece o artigo 27º do Regulamento das Custas Processuais que a multa por litigância de má fé é fixada entre 0,5 e 5 UCS.

E que o seu montante é fixado tendo em consideração os reflexos da violação da lei na regular tramitação do processo e na correcta decisão da causa, a situação económica do agente e a repercussão da condenação no património deste.

47ª Mas a multa sendo um tipo de sanção deverá sempre obedecer aos princípios de adequação e proporcionalidade.

48ª O que, salvo o devido respeito, não aconteceu na condenação dos executados, pois os mesmos foram condenados em 4 UCS cada um.

49ª Fazendo apelo à fundamentação do recurso supra alegado, não só não se aceita que tenha havido violação da lei na regular tramitação do processo como na correcta decisão da causa, porquanto, repete-se, os executados não foram condenados no pedido principal.

50ª Por outro lado, a Mª. Juiz a quo não tomou conhecimento nem ponderou a situação económica dos executados e a repercussão da condenação no património destes, conforme se verifica da fundamentação ou da falta da mesma nestes pontos.

51 ª Pelo qual violou a douta sentença o disposto no artigo 668º, n.º 1, alínea b) do C.P.C., nulidade que se invoca para os legais e devidos efeitos.

Termos em que, deve julgar-se procedente o recurso declarando-se nula a sentença, por excesso de pronúncia, na parte em que condenou os executados como litigantes de má-fé e ainda que assim se não julgue o que só por mera hipótese se coloca que os elementos fornecidos pelos autos não permitem a condenação dos executados como litigantes de má-fé.

A exequente não respondeu, mas a Mma. Juíza recorrida sustentou a decisão impugnada.

O recurso foi admitido, correctamente, como de apelação, com subida imediata, nos próprios autos e com efeito suspensivo (fls. 229).

*

Estabelece o art. 705º do CPC que “Quando o relator entender que a questão a decidir é simples, designadamente por ter já sido jurisdicionalmente apreciada, de modo uniforme e reiterado, ou que o recurso é manifestamente infundado, profere decisão sumária, que pode consistir em simples remissão para as precedentes decisões, de que se juntará cópia.”

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atenta a simplicidade da questão a decidir, nomeadamente por essa questão já estar suficientemente esclarecida pela jurisprudência existente ou por o que vem pedido no recurso se apresentar manifestamente infundado.

Este conceito de manifestamente infundado deve aproximar-se do previsto no art. 234ºA, n.º 1, do CPC, quando este fala em pedido manifestamente improcedente, ao prever a possibilidade de indeferimento liminar,

Por outras palavras: a lei processual pretende que nas situações em que surja como claro e pacífico que o recurso não pode proceder, ou a decisão se apresente notoriamente simples, seja isso dito pelo relator em decisão sumária, sem as delongas que implicaria a intervenção do colectivo no tribunal superior. Assim deve ser nas situações em que a questão a decidir revista manifesta simplicidade.

Afigura-se que é essa a situação do presente recurso, atentos os factos e argumentos de direito apresentados pela recorrente e vista a matéria de facto considerada na primeira instância (que não vem questionada).

Entendemos que no respeitante à revogação da condenação em litigância de má fé o recurso se mostra manifestamente improcedente, que é evidente que não pode proceder o que nele está pedido, vistas as normas legais aplicáveis e considerados os factos e as posições jurisprudenciais conhecidas; e no respeitante ao montante das multas julgamos evidente que a decisão impugnada o fixou em montante excessivo, pelo que há que proceder à respectiva redução.

Assim passaremos a demonstrar, apreciando e decidindo como se segue.

2. Objecto do recurso.

O objecto dos recursos é delimitado pelas conclusões das alegações de recurso, como resulta do disposto nos artºs. 684º, nº3 e 685º-A, nº1, ambos do Código de Processo Civil.

Considerando as conclusões da recorrente, importa decidir:

- se estão reunidos os pressupostos legais para a condenação dos recorrentes como litigantes de má fé; - se, sendo desatendido esse pedido, deve considerar-se excessivo o montante das multas fixadas, e reduzir o seu montante.

3. Fundamentação.

3.1 Dos factos.

A decisão recorrida tem o seguinte teor:

“Diz-se litigante de má fé quem, com dolo ou negligência grave:

a) Tiver deduzido pretensão ou oposição cuja falta de fundamento não devia ignorar; b) Tiver alterado a verdade dos factos ou omitido factos relevantes para a decisão da causa; c) Tiver praticado omissão grave do dever de cooperação;

d) Tiver feito do processo ou dos meios processuais um uso manifestamente reprovável, com o fim de conseguir um objectivo ilegal, impedir a descoberta da verdade, entorpecer a acção da justiça ou protelar, sem fundamento sério, o trânsito em julgado da decisão.

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(artigo 456.º do Código do Processo Civil).

A multa por litigância de má fé é fixada entre 0,5 e 5 UC (artigo 27.º do Regulamento das Custas Processuais, aplicável aos processos pendentes por força do disposto no artigo 27.º, n.º 3, alínea c) do diploma que aprovou aquele, DL n.º 34/2008, de 26 de Fevereiro, na redacção conferida pelo artigo 156.º da Lei n.º 64-A/2008, de 21 de Dezembro), montante que é fixado tendo em consideração os reflexos da violação da lei na regular tramitação do processo e na correcta decisão da causa, a situação económica do agente e a repercussão da condenação no património deste.

Como decorre dos artigos 266.º, n.º 1 e 266.º-A do Código do Processo Civil, as partes devem agir de boa fé e observar os deveres de cooperação, mesmo entre si, concorrendo para a obtenção, com brevidade e eficácia, da justa composição do litígio.

Nos autos provou-se que as assinaturas apostas na declaração de renúncia ao direito de revogação do contrato de crédito pertencem efectivamente aos executados e aí foram apostas pelos seus próprios punhos – ponto 7) dos factos provados. Este facto pessoal não podia, de boa fé, ser desconhecido dos executados que, todavia, conscientemente o negaram. Só após realização do competente exame pericial, com os inerentes custos e delonga processual, se apurou tal realidade, sendo certo que, como se veio a demonstrar, tal linha de defesa extravasava largamente o horizonte necessário ao cabal exercício do direito de que se arrogaram os executados. Bem podiam, portanto, desde logo, ter assumido a assinatura de tal escrito, sem que a decisão, por tal facto, lhes pudesse ser desfavorável. Não o fazendo, em nada acrescentaram à sua defesa e apenas protelaram o célere e ágil andamento do processo, agravando o valor dos encargos a suportar pela parte vencida (no caso, a exequente).

Entendemos, assim, que os executados alteraram dolosamente a verdade dos factos, sem fundamento sério para o fazer estribado no exercício do direito de defesa, incorrendo, pois, em omissão grave do dever de cooperação para a obtenção breve e eficaz da justa composição do litígio, que deve ser sancionada. Litigaram de má fé, pelo que vão condenados, cada um dos executados, na multa processual de 4 (quatro) UC.

No processado em referência constata-se o seguinte:

a) Na sua contestação à oposição deduzida pelos executados, e para contrariar as razões expostas por eles contra a execução, a exequente escreveu que estes haviam renunciado validamente ao direito de revogar o contrato celebrado, conforme declaração de renúncia que os próprios executados haviam subscrito e que foi junta com o articulado (tal como outros documentos).

b) Em reacção, os executados vieram dizer genericamente que impugnavam a letra e assinatura dos documentos juntos, por não saber se eram verdadeiras, e referindo-se especificamente ao documento n.º 2, aqui em causa, afirmaram que “a assinatura não corresponde à dos executados, impugnando-se assim a sua veracidade”.

c) Na sequência disso, foi essa questão levada à base instrutória, perguntando-se se as assinaturas controvertidas tinham sido feitas pelos próprios executados (ponto 7).

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reconhecimento a essas assinaturas, o que foi deferido pela juíza do processo (fls. 67).

e) Feito o exame determinado, após recolha de autógrafos dos executados, ficou estabelecida a autoria das assinaturas em causa, como sendo dos executados.

f) A realização desse exame pericial importou em € 1.452 (mil quatrocentos e cinquenta e dois euros), e prolongou o processo por período superior a um ano (a decisão de ordenar a perícia data de 21 de Setembro de 2009, os resultados desta foram juntos a 15 de Novembro de 2019).

g) Feito o julgamento, foi dado como provado o ponto 7 da base instrutória, referente à autoria das assinaturas que os executados haviam negado; porém, aplicando o direito, a sentença veio a concluir que independentemente da veracidade das ditas assinaturas a oposição à execução era procedente, pelo que os executados tiveram vencimento de causa.

h) Foi, todavia, decidido condená-los por litigância de má fé com base nessa falta consciente à verdade dos factos.

3.2. Do direito.

As questões a decidir, tendo em conta as conclusões dos recorrentes, reportam-se antes do mais à falada nulidade da decisão e de seguida, julgando-a válida, ao próprio mérito desta. Por último, ao quantum das condenações.

a) Das nulidades

Alegam os recorrentes que a decisão está ferida de nulidade nos termos da alínea d) do n.º 1 do artigo 668º do C.P.C., uma vez que o tribunal a quo conheceu de questão de que não podia tomar conhecimento “ao decidir condenar oficiosamente os executados como litigantes de má fé sem previamente os notificar para se pronunciarem sobre a questão, nem justificado que se tratasse de um caso de manifesta desnecessidade do cumprimento do princípio do contraditório” sendo certo que “é hoje entendimento pacifico na jurisprudência que por força do disposto nos artigos 3º e 3º-A do C.P.C. e sob pena de inconstitucionalidade por violação do disposto no artigo 20º da Constituição da República Portuguesa, o juiz sempre que oficiosamente entenda haver uma situação susceptível de litigância de má fé deve determinar audiência prévia da parte que possa vir a ser condenada, para que esta exerça o contraditório, evitando-se, assim, a denominada "decisão-surpresa"; “a notificação aos ora apelantes não aconteceu, pelo que houve preterição absoluta do direito fundamental de defesa.”

Não discordamos da doutrina exposta pelos recorrentes, mas afigura-se evidente que esta foi mesmo a seguida no caso dos autos. Como se verifica pela leitura da acta da audiência de julgamento, a fls. 187, no início desta “o Juiz advertiu as partes que a matéria de facto apurada nos autos será igualmente atendida para efeitos de verificação da existência do vício processual de litigância de má fé, do que as mesmas declararam ter ficado cientes”.

Desta forma, como refere a Mma. Juíza recorrida no seu douto despacho de sustentação, não pode falar-se em decisão-surpresa, visto que com a citada advertência feita no início da audiência ambas as partes ficaram cientes da possibilidade dessa condenação, e sobre isso se pronunciaram em sede de alegações. Foram dessa forma respeitadas as exigências legais e constitucionais respeitantes ao princípio do

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contraditório, bem como todos os direitos de defesa, ao contrário do que vem dito pelos recorrentes. De igual modo não têm razão os recorrentes ao alegarem que “a Mª. Juiz a quo não indicou, por evidente lapso, a norma aplicável atenta a classificação jurídica e a má fé praticada pelos executados, artigo 669º do C.P.C …o que leva à diminuição da defesa por parte destes…pelo que tal fundamentação está eivada de nulidade.”

Com efeito, da simples leitura da decisão impugnada constata-se a referência expressa ao art. 456º do CPC, como norma fundamentadora da condenação, enquadrando-se ali a situação em análise na figura da alteração dolosa da verdade dos factos, integrante da citada previsão legal.

Não se vislumbra, portanto, qualquer nulidade na decisão em apreço.

b) Da litigância de má fé

Outra coisa será a qualificação dos factos como litigância de má fé.

E também nesse ponto não podemos deixar de acompanhar a decisão recorrida.

Na verdade, segundo o disposto pelo artigo 456º, nº 2, al. b), do CPC, diz-se litigante de má fé, quem, no decurso da lide processual, com dolo ou negligência grave, tiver alterado a verdade dos factos (para além do restante conteúdo da norma, aqui sem aplicação).

Tendo litigado de má fé, a parte será condenada em multa e numa indemnização, a favor da parte contrária, se esta a pedir, nos termos do estipulado pelo artigo 456º, nº 1, do CPC.

A má fé traduz-se, em última análise, na violação do dever de cooperação que os arts. 266º, nº 1, 266º-A e 456º, nº 2, al. c), todos do CPC, impõem às partes.

Aliás, no intuito de moralizar a actividade judiciária, o artigo 456º, nº 2, do CPC, oriundo da revisão de 1995, procedeu mesmo ao alargamento do conceito de má fé de forma a abranger a negligência grave, o que não pode deixar de considerar-se significativo.

Enquanto que, anteriormente, a condenação como litigante de má fé pressupunha uma actuação dolosa, isto é, com consciência da falta, a conduta processual da parte está agora sancionada civilmente mesmo que se caracterize apenas por negligência grave.

O Tribunal a quo, considerando que os recorrentes negaram factos pessoais que se demonstraram verdadeiros, bem sabendo que assim faltavam à verdade, entendeu verificado, expressamente, o pressuposto definido pela alínea b), do nº 2, do artigo 456º, do CPC, revelador da existência do dolo característico da litigância de má fé.

De facto, as partes na lide processual não gozam do direito de afirmar uma versão oposta à realidade por si sabida. A ordem jurídica coloca limites de natureza ética ao princípio da licitude do exercício dos meios processuais conferidos por lei, que impõe a quem litiga em juízo.

Voltando à situação dos autos, impõe-se considerar que, tendo os recorrentes/executados alegado que eram falsas as assinaturas que tinham feito naquele concreto documento que a parte contrária tinha apresentado, com o intuito de demonstrar a falta de fundamento das posições deles, executados, tratando-se, porém, de factos pessoais, que eram por eles conhecidos, ou seja, que tinham eles próprios colocado as suas assinaturas no citado documento, alteraram a verdade dos factos que bem conheciam.

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até aos resultados inequívocos dos exames periciais, conhecidos já em Novembro de 2010, passando por todas as peripécias de caminho, como as recolhas de autógrafos.

Não obstante terem obtido ganho de causa, porquanto foi julgada procedente a oposição à execução que haviam deduzido, e, em consequência, extinta a execução (por considerandos de ordem jurídica que não foram prejudicados pelas referidas assinaturas), não pode deixar de considerar-se que na situação em apreço actuaram os recorrentes de forma dolosa, litigando de má fé.

E nada obsta a que a parte vencedora possa ser condenada como litigante de má-fé, quando tenha procedido com dolo tal como ficou descrito.

Na verdade, tendo os recorrentes, falsamente, afirmado, contra o que se veio a demonstrar, e era por eles sabido, não lhes pertencerem as assinaturas apostas no documento em causa, mostra-se verificada a factualidade determinante da sua responsabilidade processual subjectiva, com base em litigância de má fé, nos termos do disposto pelo artigo 456º, nºs 1 e 2, b), do CPC .

Improcedem, pois, as conclusões constantes das alegações dos recorrentes, devendo nesta sede confirmar-se a contestada condenação.

b) O montante das multas

Resta conhecer da questão das multas aplicadas aos ora recorrentes.

Recordam estes que o artigo 27º do Regulamento das Custas Processuais estabelece que a multa por litigância de má fé é fixada entre 0,5 e 5 UCs, e que o seu montante dada a sua natureza de sanção deverá sempre obedecer aos princípios de adequação e proporcionalidade.

Além disso, na sua fixação, haverá que ter em conta os reflexos da violação da lei na regular tramitação do processo e na correcta decisão da causa, a situação económica do agente e a repercussão da condenação no património deste.

Ora os executados, mesmo sendo parte vencedora na lide, foram condenados na multa de 4 UCs cada um. No caso vertente, cremos que a justificação para a fixação das multas em montante tão elevado está relacionada com as graves consequências que advieram da infracção cometida em termos de custas finais e de arrastamento temporal do processo. Com efeito, no que se refere a influência na correcta decisão da causa acabou por verificar-se a irrelevância da questão levantada; e a situação económica dos infractores não é conhecida nos autos.

Todavia, e sem ignorar a realidade dessas consequências negativas da falta sancionada, entendemos exagerada a medida determinada para as multas, a aproximar-se do limite máximo abstractamente previsto.

Os executados, marido e mulher, vieram a juízo opor-se à execução contra eles instaurada e a sentença proferida veio a dar-lhes razão quanto à questão de fundo em discussão.

A má fé verificada, porque ilícita tal como ficou atrás explanado, e com efeitos processuais gravosos, deve ser sancionada – porém afigura-se mais adequada, proporcional e equilibrada a fixação das correspondentes multas no montante de 2 UCs, atenta a moldura punitiva a considerar (0,5 a 5 UCs). Assim se decide, em conformidade com o que ficou dito e tal como se segue.

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4. Decisão:

Face ao exposto, decide-se negar provimento ao recurso interposto por Francisco Marques Canas e Maria Teresa Silva Pires no que se refere à sua condenação como litigantes de má fé, e confirmar nessa parte a decisão recorrida, mas conceder provimento ao mesmo recurso no que respeita ao montante das multas aplicadas no despacho recorrido, as quais ficam fixadas em 2 UCs para cada um dos recorrentes.

Custas do recurso pelos recorrentes, dado o seu decaimento, na proporção de metade (cfr. art. 446º, n.ºs 1 e 2, do CPC).

Notifique.

Évora, 2011-10-13

José António Penetra Lúcio

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