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A política nacional do menor

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A POLlTICA NACIONAL DO MENOR

*

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

EDSON PASSETTI

VUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

* *

Eu queria conversar um pouco com vocês, primeiro sobre a fundação da

F UNABEM e o surgimento da Polrtica Nacional do Bem-estar do Menor,

ocor-ridos em 1964. Depois, refletir sobre quais são os fundamentos, no que implica a

rnstitucionalização. E, posteriormente, eu gostaria de abordar algo sobre o qual

s fala muito pouco, porque, quando se fala de menor, fala-se sempre das formas

pelas quais aqueles que estão vivendo na legalidade encontram para controlar o

problema do chamado menor. Então, eu quero discutir um pouco o que é

me-nor, o que não é menor. Quero discutir, também, quem é esse sujeito sempre

vis-to como objevis-to de controle, como é que ele se vê e como é que ele entende

es-a situes-ação. Isto é, eu queria fazer uma exposição que compensasse um pouco

sa relação do sujeito e do objeto. Eu sou o sujeito, eu detenho o poder do

conhecimento e o meu poder do conhecimento faz com que eu construa o

obje-to e submeta esse objeobje-to. Mas eu preferia fazer o contrário, eu queria que

nes-a exposição fôssemos cnes-aminhnes-ando na linha de ceder para o próprio objeto a sua

palavra.

Em 1964 houve, vamos dizer assim, uma mudança no regime, no Brasil.

Uma mudança extremamente autoritária. Extremamente não, porque quem é

u r t o r it ã r io é autoritário, não tem extremo, não tem extremamente. ~

autoritá-rio e pronto. Essa mudança, em 1964, acabou criando condições para que se

Introduzisse, no Brasil, uma forma diferente de enfrentar o problema da

crirni-nalidade, o problema das crianças, o problema da educação, o problema polí·

tICO, propriamente dito. A questão das crianças e dos jovens, em geral, foi um

toma imediatamente pensado. Pensado através da ideologia da Segurança

Na-cional, que conseguia, através da Escola Superior de Guerra, visualizar que nos

mos seguintes o crescimento da população seria razoavelmente grande. E

cres-* P a le s t r a p r o f e r id a d u r a n t e o I F ó r u m C e a r e n s e d e D e b a t e s S o b r e o M e n o r , F o r t a le z a , m a io d e 1 9 8 6 .

P r o f e s s o r U n iv e r s it á r io , C ie n t is t a P o lr t ic o . M e m b r o d o M o v im e n t o e m d e f e s a d o M e

-n o r ( S P )

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cimento de população significava crescimento de jovens e crianças, num País com uma taxa de miserabilidade muito alta. Vocês devem ter visto, agora há

pouco tempo, o professor Jaguaribe, colocando, em todas as televisões, rádios e jornais, que hoje no Brasil nós temos 77 milhões de pessoas que vivem em

es-tado de miséria absoluta.

Em 1964, prevendo-se chegar

VUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

a r . e ao mesmo tempo se querendo justifi-car uma forma de controle para não se chegar a esse número, pensou-se, então, em se criar um novo mecanismo p o lr t ic o que em âmbito nacional atendesse aos interesses da população, em torno do desenvolvimento das crianças e dos jovens. A partir dessa idéia, que na realidade não é uma idéia muito original, é que se foi pensar a chamada Polrtica Nacional do Bem-estar do Menor. E foi pensada essa

P o lr t ic a Nacional do Bem-estar do Menor, a partir de um acontecimento extre-mamente trágico que ocorrera no Rio de Janeiro, no irucio de 64, no chamado

Serviço de Atendimento ao Menor, quando um grupo de jovens presos dentro de Serviço de Atendimento, fez uma rebelião e simplesmente ateou fogo e

des-truiu todo o Serviço de Atendimento ao Menor do Rio de Janeiro.

A partir desse acontecimento e da possibilidade de crescer, de uma forma

muito assustadora, a chamada pobreza no Brasil, é que o Estado, então, foi pen-sar essa solução chamada Pol (tica Nacional do Bem-estar do Menor, pari! tentar

resolver um problema que até então era considerado um problema patológico: o problema do menor. E através da Política Nacional se tentou essa forma de ver, para a chamada forma biopsicossocial, ou uma abordagem interdisciplinar no

atendimento do menor. Isto é, uma abordagem, bio, porque procurava ver quais

eram as condições de carência do corpo dessa criança para ser suprida pela insti-tuição, através de alimentação, proteinas, etc. Psico, no sentido se procurar

per-ceber quais eram as deformações de personalidade dessas crianças, desses jovens

de um modo geral para que fossem corrigidas. E social, porque, pela primeira

vez, se reconhecia que o chamado problema do menor era decorrente, também, dessa situação de pobreza pela qual passava o Pafs,

A primeira forma que nós vamos encontrar, de elaboração dessa política

vem ancorada numa teoria que fez muito sucesso nos anos 50, que é a chamada teoria da marginal idade social. Bem, essa teoria da marginal idade social, foi

im-portante nesse momento de constituição da Polrtica Nacional do Bem-estar do Menor, porque pela primeira vez o Estado, no Brasil, se utilizou do pensamento cientrfico para tentar equacionar mecanismos de controle. Até então, a questão

do menor, vamos dizer assim, era uma questão de polrcia. como foi a questão da classe operária, nos anos 20, e como o foram outros segmentos sociais.

Eu estou me rerenndo a esse exemplo, de classe operária ser uma questão de

polícia, no período pré-30, só para chamar a atenção de vocês para o seguinte: é

justamente, o Estadoque sempre patrocina, no Brasil, as mudanças de enfrentamen-to dos problemas sociais com mecanismos de controle. Com relação a classe

ope-rária, todos nós sabemos que vivemos sob a legislação trabalhista, aquele hor-ror, que é a chamada CL T. É o Estado que busca essa tentativa de docilizar a classe operária. Em 1964, o mecanismo de tentativa de docilizar esse

contingen-36 Rev. de Psicologia, Fortaleza, 4 (2): 35 - 48,jul/dez. 1986

te de. ~enores que ~stá aumentando assustadoramente, num pafs que não tem condições de absorve-Ios no mercado de trabalho, nem no sistema educacional

ntão é criar essa Política Nacional do Bem-estar do Menor, com toda essa fa: chada intelectualista, com toda essa fachada de pensamento cientrfico

reconhe-cend~ a .ne~essidade d.e .incorpor~r conhecimentos da Psicologia, da S~ciologia, da, ~slq~latrla, da Medicina, da Biologia para, justamente, suprir aquilo que a fa-mllla. nao consegue dar e a escola complementar, que é o nível de sociabilidade

da criança.

Em 1964, não só no âmbito da Polrtica Nacional do Bem-estar do Menor

mas no âmb~to de toda pol (tica estatal, o saber cientrfico se transforma no sabe; do Estado. E o momento chave, vamos assim dizer, de nossa história onde o sa-her cienti'fi~o se trans!orma no saber do Estado. E a teoria da marginalidade, a rue eu havia me referido anteriormente, se transforma no saber desse Estado no

Brasil. '

O que é a teoria da marginalidade?

Em rápidas pinceladas, ela coloca o seguinte: que há um desenvolvimento 11 ntro da sociedade, mas desenvolvimento não engendra um processo contínuo Há regiões mais atrasadas e regiões mais avançadas. Por conseguinte, haverá sempre

um pólo moderno e um pólo arcaico, onde o moderno se caracteriza pelo urbano p I~ ~ndústria, pel.os p~dr~~s de consumo, pelos processos de democratização da~

d cisoes: ~ o ~rcalco Significa sempre o resquício das chamadas relações

tradicio-nars, patnarcars. o rural, o conservador. E que a tendência da sociedade é de se

modernizar, e modernizar significa transformar o conservador, o rural o patriar-c I, em urbano, industrial, desenvolvido, etc. '

Sabemos que esse tipo de raciocínio é um raciocínio bastante perigoso, porque vamos ter que ~perar numa escala de grau, e, nessa escala de grau, nós

va-fIlOS ~star sempre refendos. ao grau de desenvolvimento num determinado pars,

qu e quase que a grande Imagem, que todos os outros deverão seguir. E com

1 1 I ~ pequeno agravante: quando nós conseguirmos chegar naquele grau, aquele "IIS, que era a imagem, já está no outro e assim sucessivamente ad infinitum e nunca se vai resolver a situação propriamente dita. ' ,

Eu estou falando assim também, para chamar atenção a um certo surto de modernidade .que exist~ no Brasil. É uma coisa que anda muito na boca, princi-"llment~ de intelectuais, a modernidade, o pós-moderno, etc. Precisamos ter um

I1'10 CUidado com esse tipo de vivência, que é bem característico numa

socieda-di ~rbana de consumo. Porque, na realidade estamos conseguindo apreender o IlIl1Junto desses acontecimentos. Por isso, a nós nos conformamos muito com

IIU .Ia idéia. de desenvolvimento e subdesenvolvimento. Nós somos os

subdesen-volvidos, e ISSOa teoria da marginalidade está aI' para explicar: O Brasil convive

111m polos extremamente modernos, os seus centros urbanos, e pontos

extrema-11I ,He.trad.icionais, como a zona rural. E dentro disso, também, entre as grandes

I urtars existam as modernas, as tradicionais, e aI' nós ficamos estratificando es-I ,Illficando, estratificando, e jamais vamos chegar a entender absolutamente' na-I na-I

'I V de Psicologia, Fortaleza,4 (2): 35 - 48,jul/dez. 1986

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Quando olhamos essa questão do menor, que até então era chamada uma

questão de polícia, e passou a ser entendida como uma questão social nós vamos

ter que entender o que é isso que está sendo chamado de social. Não adianta

ape-nas falar que o problema não é mais uma questão de polícia, é uma questão

so-cial. Fica muito bonito o discurso, pois nós, os intelectuais, de um modo geral,

gostamos muito de falar do social. E não explicamos o que é isso. A forma de ex-plicação para esse social, que é dada pelo Estado brasileiro, por essa Política de

Bem-estar do Menor, é um social entendido como moderno e arcaico, como

pro-duto dessa situação, onde, o sujeito que vive marginal, que é chamado marginal é a-quele que não é um problema que afeta a zona rural, ele é pensado exclusivamente em termos de zona urbana. A marginal idade é vista como um produto do fluxo

mi-gratório dos sujeitos da zona rural para as zonas urbanas, em busca de melhorar

as suas condições de vida. Só que esses sujeitos, quando chegam na zona urbana,

eles não são qualificados para o mercado de trabalho. Por conseguinte, eles não

conseguem emprego, não conseguem trabalho e vivem no subemprego. Pai e

mãe são obrigados a sair para obter sustento e com isso nós temos, em primeiro

lugar, condições para essa farm'lia se desorganizar, e essa é uma palavra chave

dentro da Política· Nacional do Bem-estar do Menor. A farm'lia se desorganiza,

as crianças ficam expostas aos maus elementos e com isso nós temos condições

de entender a marginal idade.

Entretanto, nós sabemos, razoavelmente bem, que a questão da migração

não envolve, única e exclusivamente, o sujeito que quer sair da zona rural para ir

para a zona urbana, por que na zona urbana ele consegue ter melhores condições de vida. Nós sabemos muito bem que o sujeito da zona rural, que vai para a zona urbana, vai porque ele é expulso de sua terra para os centros urbanos, e ele vai para esses centros urbanos, com um preço de força de trabalho rebaixada que é

utilizada, nesses grandes centros urbanos, de uma maneira bastante intensa, e

que contribuem negativamente para a chamada classe operária urbana, na

medi-da em que esses fluxos migratórios, ao chegar a esses grandes centros urbanos,

tendem sempre a pressionar a força de trabalho que está empregada e com isso

facilitam os processos de dispensa das empresas, com garantia para essas

empre-sas acumularem mais. Dispensa-se um sujeito a um salário X e se contrata outro

VUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

X / 2 ou X - V, como você queira chamar. E o capitalista com isso consegue acu-mular um pouco mais.

Na realidade, essa fundamentação da Política do Bem-estar do Menor acaba

colocando o problema da marginalidade, que ela diz ser social, em cima desse

sujeito que migra. Se é ele que saiu em busca de melhores condições de vida, se

ele não tem qualificação para ser absorvido dentro desse mercado, ele é o

res-ponsável pela marginal idade.

Então, nesse sentido, todo o aparato polfcial, judicial e assistencial deve ser

acionado para que se cuide desse problema do menor, segundo o código de

me-nores em situação irregular.

O que é menor em situação irregular?

38 Rev. de Psicologia, Fortaleza, 4 (2): 35 - 48, jul/dez. 1986

A situação irregular apenas identifica quem é o objeto de controle dentro da cidade. Para o código, quem cria a situação irregular é o sujeito que não tem

fa-mília organizada (família organizada significa pai, mãe, irmãos, morando dentro

de um teto, com emprego), que não tem condições de se sustentar, que vive nu-ma situação próxinu-ma de nu-marginal, isto é, beirando o mundo do crime. Com essas

características, o poder público acaba tendo condições de ir até lá e tutelar.

Como vocês estão reparando, nós estamos falando de uma política de

con-trole, e que objetiva claramente localizar e situar um determinado contingente da

população, que é o seu objeto de conhecimento e controle. Eu digo objeto de

conhecimento e controle, porque não é apenas uma atividade policial do

contro-le, mas é um controle tecnificado pelo saber cientifico. É um controle

especiali-zado, não é mais o controle meramente de tirar o sujeito que comete a infração e

c o lo c á - lo dentro de um reformatório.

Eu queria lembrar aqui de um trabalho sobre o qual eu e a professora Sandra

Francesca Conte de Alrneida trocamos algumas idéias e da qual gostamos muito,

que se chama Vigiar e Punir. Seu autor, um filósofo francês, chamado Michel

Foucault, diz o seguinte, e de uma forma muito clara: "A infração ou o chamado

ato anti-social (que é isso que os menores cometem). uma infração, ela não

ca-racteriza o delinqüente". A infração é algo que qualquer um pode cometer, e

es-a infres-ação, dependendo do aparato legal, isto é, dependendo de como está

es-truturada essa lei, ela pode ser absolvida por um mecanismo punitivo, que a lei

en-quadra. Ou a infração, dependendo do momento em que ela é praticada, acaba

ngendrando uma complementação dentro dessa lei. Porém, a infração em si não

racteriza o delinqüente. O que caracteriza o delinqüente é a partir da infração

do seu recolhimento, a vida dele dentro de uma instituição. Porque nenhuma

Instituição vai jamais cuidar da infração, mas ela precisa tomar esse sujeito

co-mo um todo, através da sua biografia de vida, reconstruí-Io, para depois dessa

re-onstrução aplicar os mecanismos de correção no sujeito como um todo.

Então, não é a infração que é tratada, mas a instituição transforma o sujeito

infrator em sujeito delinqüente. Não é a infração que é combatida, mas é o

su-l ItO que sai de uma infração e é transformado pelo saber da instituição.

Precisamos tomar muito cuidado, quando se fala de infratores e

delinqüen-, porquedelinqüen-, na realidadedelinqüen-, nós estamos falando de duas coisas um pouco

diferen-E, no caso dos menores, é um pouco mais complicado. A Política Nacional

1 0 Bem-estar do Menor, ao caracterizar a situação de marginalidade social, vai

I mbém classificar os menores. E vai c la s s if ic á - lo s em carenciados,

abandona-I e infratores. Só que a partir do momento em que a Política Nacional do

m· estar do Menor elabora o seu discurso, em torno da idéia de que é a

si-lu ção de marginalidade social que produz o menor, essa política vai afirmar

l i a tendência de todos os menores, que vivem nessa situação de

marginalida-I, ejam eles abandonados ou carenciados, é de se transformar em infratores. E

n sa medida que a criação da FUNABEM e a das FEBEM's em todos os

Esta-irá compreender não só as unidades para abandonados e carenciados, mas,

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principalmente, onde se produz conhecimento pleno desse menor: as unidades de recepção, triagem e educação de infratores.

A tendência, dentro dessa perspectiva da marginalidade social, é procurar en· tender a situação do menor, como tendo por destino a infração. E é assim que se constitui essa Política do Bem-estar do Menor.

Justifica-se, então, o novo tipo de atendimento, não mais patológico do

problema, mas biopsicossocial, isto é, interdisciplinar, envolvendo psicólogos, e

pedagogos, médicos, assistentes sociais, psiquiatras, professores de um modo

ge-ral e sociólogos também, economistas, administradores, etc. Reconstrói-se,

des-sa forma, aquilo que existia nos vários estados, ou como recolhimento

provisó-rio de menores, ou serviços de atendimento de menores. Tudo era tão "sadio"

que precisou mudar. Era uma instituição "sã" precisou mudar. E se procurou,

através dessa idéia de FUNABEM, um órgão centralizado, orientador e

normati-vo, se criar em todos os Estados da Federação as FEBEM's, com exceção de

São Paulo, que foi um dos últimos lugares a ter introduzido FEBEM, e que

tam-bém possui uma autonomia administrativa muito grande, isto é, não depende de

verba da FUNABEM, porque está diretamente ligado à Secretaria de Promoção

do Governo do Estado. Todas as outras FEBEM's dependem de verba estadual.

Então, além do controle normativo, você tem aí o controle via verba. Então, se

você não estiver desenvolvendo um programa que a FUNABEM acredita ser

ade-quado, você não recebe verba. E isso vocês sabem muito bem que engendra um

mecanismo de poder, no aparelho como um todo, onde ou você tem sujeitos

que realmente estão de acordo com a política do Estado, ou eles estão fora de

qualquer possibilidade de enfrentar o problema, se o seu objetivo é enfrentar

es-se problema dentro do Estado.

Eu estou dizendo isso também, porque há uma certa tendência em afirmar

que todo problema do menor é monopólio do Estado e que, se tirar o

monópo-lio do Estado e passar para a sociedade, está resolvido o problema. Nós não

pode-mos esquecer que essa Política Nacional do Bem-estar do Menor e esse Estado

aprendeu, enquanto forma de conhecimento com as chamadas instituições

pri-vadas os orfanatos, de um modo geral, que são recolhimentos de crianças

aban-donadas, as técnicas de controle de adestramento desses corpos para a volta à

sociedade. Então, é importante tomar um certo cuidado, não sp.r muito ingênuo

de achar que o problema está no autoritarismo do Estado que criou a

FUNA-BEM, etc, etc, está lá, é óbvio. Está aí, continua estando. Mas também não

es-tá para enfrentar o problema do menor se você não balear as instituições

parti-culares, porque elas também produzem esse mesmo saber. Com um discurso mais chulo talvez mais simples, mais modesto.

Eu estou dizendo tudo isso, porque toda essa política é criada em âmbito

nacional, e essas entidades particulares passam também a responder

normativa-mente à FUNABEM. E estou dizendo isso, porque essa política pensada dessa

maneira procura um coro lá rio e o corolário dela é esse: essas crianças

carencia-das, abandonadas e infratoras, que são recolhidas às instituições de bem-estar

es-40

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taduais, através desse processo biopsicossocial, estarão, a partir de um certo

mo-mento, em condições de se integrarem dentro da sociedade. lr-teqraçêo, aqui

en-tendida, como integradas no trabalho.

Bom, a Política basicamente se fundamenta nessas idéias. Gostaria de

so-mente acrescentar, nesse sentido, que ela, em primeiro lugar, quando criada,

es-teve diretamente subordinada à Presidência da República, até meados dos anos

70, o que significa que era muito importante para o Estado brasileiro e,

somen-te em meados dos anos 70, ela é transferida para o Ministério da Previdência

Social. E outra coisa ainda, essa Política Nacional do Bem-estar do Menor,

cria-da em 1964, já está com 22 anos, portanto, já é maior, na linguagem jurídica já

é maior, e até hoje não aconteceu qualquer revisão dentro dela. Absolutamente

nada. A não ser trocar presidente, o resto não aconteceu nada. Troca

presiden-te, troca ostaff do presidente. Diversifica-se a burocracia, aumentam-se cargos,

aumenta o número de empregos, etc. Mas não acontece absolutamente nada.

Aliás, a melhor maneira para não acontecer é realmente você diversificar a

buro-cracia, criando mais empregos, porque o segredo burocrático continua

preserva-do nas mãos da burocracia.

O segundo ponto, que eu gostaria de abordar, vem um pouco na direção de

quem é esse menor. Se nós pegarmos o Código de Menores, veremos lá escrito

que todo sujeito menor de 18 anos, com idade aba ixo de 18 anos, é considerado menor. O que significa que todas as crianças e jovens que existirem no País, com idade inferior a 18 anos, são menores. No entanto, quando analisamos o Código

de Menores e a Política Nacional do Bem-estar do Menor, veremos que a

pala-vra menor não significa, não tem o significado jurídico que é atribuído à faixa

etária: a palavra menor aparece agora com uma conotação social.

Quando nós falamos de sujeitos com idade inferior a 18 anos que não vivem

a situação de marginal idade, que nós vamos encontrar na Política Nacional e no

Código de Menores, nós estam os falando de jovens e crianças que podem ser re-beldes, que podem ter seus problemas, que podem viver com família

desorganiza-da, que podem estar inclusive no chamado mundo do crime, mas esses não são

menores, esses são jovens, esses são crianças, não é? E está aí toda a Psicologia

para referendar o comportamento dos adolescentes como um comportamento

es-sencialmente rebelde e que essa rebeldia é extremamente importante na

socieda-de ocisocieda-dental moderna, para justamente contribuir mais tarde para o

aperfeiçoa-mento do conjunto institucional. Os psicólogos sabem melhor do que eu essa

ale-gação.

No entanto, aqueles sujeitos, menores de 18 anos que vivem na situação de

marginal idade, segundo o Código de Menores e a Política Nacional do Bem-estar do Menor, esses não são rebeldes, esses não têm problemas de comportamento que possam ser resolvidos com alguma solução direta da infração, não é? Como

um psicólogo, ou um pequeno envolvimento com terapias de grupo, ou até, às

vezes, indo para um colégio durante um ou dois anos. Colégio bom, claro.

Mui-to bom.

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Essas pessoas, esses sujeitos são chamados menores. Então quando nós

cha-mados Política Nacional do Bem-estar do Menor, quando nós falamos de Código

de Menores, nós estamos falando de alguma coisa que sirva para todas as crian-ças e jovens que existam no Pafs, na faixa etária abaixo de 18 anos. Mas nós

esta-mos falando de um sujeito nue juridicamente é menor e que socialmente é

es-tigmatizado como o menor, porque ele provém de uma situação que o Código e a

Política Nacional chama de marginal idade social.

Bem, vamos destrinchar um pouco essa idéia. Nós já sabemos, há muito

tem-po, que vivemos numa sociedade capitalista. Isso não quer dizer que seja bom ou

ruim, eu não vou julgar. Mas, numa sociedade capital ista, isso já é conhecido

plena-mente, você só tem as condições da reprodução dessa sociedade, na medida em

que eu tenha uma exploração da força de trabalho, isso é óbvio. E, ao haver essa

exploração da força de trabalho, é claro que eu tenho um chamado exército

in-dústrial de reserva, ou seja, um contingente que eu utilizo, enquanto capitalista,

em momentos de expansão, para em momentos de retração da economia eu de-

VUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

v o t v ê - lo à situação anterior. Já se chamou isso de exército industrial de reserva,

porque é um grande exército mesmo que você recruta, é um contigente Que

vo-cê recruta e que vovo-cê devolve à sociedade, na medida em que vovo-cê vive uma crise econômico-social.

Bom, só que a coisa não pára nisso. Quando eu tenho um momento de

ex-pansão eu absorvo, quando eu tenho um momento de retração eu devolvo.

Acon-tece que essa sociedade capitalista moderna também vive um processo de

tecnifi-cação e o processo de tecnifitecnifi-cação e qualificação acaba exigindo um número cada

vez menor de força de trabalho, em relação ao que tinha antefiorrnente em termos

absolutos. Isso significa que, em primeiro lugar, você não tem mais uma força de

trabalho que é utilizada exclusivamente numa jornada extensa, isto é trabalhar

10, 12, 14, 16 horas, mas você substitui esse mecanismo pela chamada jornada

intensiva de força de trabalho, que é reduzir a jornada e tirar o máximo de

pro-dutividade dessa força. E, para isso, dentro da fábrica se desenvolvem

mecanis-mos de cooperação entre o capital e o trabalho, que está aí. Toda a teoria da

administração para mostrar os chamados recursos humanos da empresa, que

procura criar os mecanismos de cooperação entre o trabalhador e a empresa,a

fim de engendrar maior lucro.

E nesse processo, então, de criação, de substituição da exploração da força

de trabalho, da jornada extensa para a jornada intensa, eu tenho um exército de

reserva que aumenta e, se esse processo éregular, eu tenho, nos momentos de

ex-pansão, uma absorção cada vez menor do exército industrial, o que cria

condi-ções para que se desenvolva um outro contingente dentro da chamada classe

operária, que se denominou também proletariado, isto é, o proletariado

margi-nal, a escória, os farrapos, onde se encontram as prostitutas, os criminosos, os

delinqüentes, delinqüentes porque já passaram pela instituição e sairam.

Então, você tem a formação, dentro da chamada sociedade capitalista,

des-se chamado também proletariado e, nesse sentido, nós temos a tendência, vamos

42 Rev. de Psicologia, Fortaleza, 4 (2): 35 - 48, jul/dez. 1986

dizer assim, de uma classe operária que vai se especializando, se qualificando,

um exército de reserva que vai sendo absorvido cada vez menos, e um também

proletariado que cresce cada vez mais. Isso que o Prof. Jaguaribe andou falando

por aí, que 77 milhões de brasileiros vivem em miséria absoluta, é justamente

esse contingente do exército de reserva e do também proletariado.

Venho sempre colocando isso, sempre discutindo, porque é em cima desse

grande contingente pauperizado que vão surgir os movimentos, que nós

conhece-mos como de contra-reforma ou contra-revolucionários. No Século XIX, alguns

movimentos ocorreram na França, onde esse também proletariado contribuiu de·

cisivamente para acabar com a classe operária, para tanto, bastaria ver o que

ocorreu na França de Napoleão 111, a constituição desse império. Por outro lado,

não podemos esquecer algo bem próximo a nós que foi o nazismo. Por que, em

torno da situação de miserabilidade da Alemanha, nos anos 20, é que se vai criar

todo um movimento que é chamado de nazismo, ou do Partido Nacional

Socia-lista Alemão, que recrutava os seus quadros, o quadro das suas milícias armadas

dentro do chamado exército industrial de reserva e do também proletariado,

on-de muitas crianças e jovens, muitos menores alemães daquela época, entraram

pa-ra esse corpo repressivo, criado dentro da própria sociedade e que somente mais

tarde, pelo mecanismo democrático da eleição, é que tomou o poder dentro da

Alemanha.

Então, eu estou me referindo a esses fatos,' por achá-Ios importantes,

quan-do falamos de menores, porque temos que estar perfeitamente sintonizados com

as possibilidades históricas que podem desembocar numa situação como essa:

a utilização desses contingentes por forças repressoras, repressoras em todos os

sentidos, não apenas policial e também o outro lado da questão. Então, ess

estigma do menor como é que vem? Ele aparece na medida em que situações

como essa no Brasil se localizam dentro da cidade, na chamada periferia. Quan

do eu falo periferia, eu não estou dizendo a situação social, mas eu estou locali

zando aquele que eu devo controlar.

!:

ali que está o foco do controle. Quando

eu digo periferia, eu estou localizando, dentro do espaço da cidade, um determi nado segmento da sociedade que, seja pela parte, seja pelo todo, está sempre sen

do colocado sob suspeição. E não existe nenhum mecanismo de controle, não

existe nenhum mecanismo político, que se sustente em âmbito do Estado,

não identificar quem é o inimigo, se não pode identificar quem tem quer ser co-locado sob suspeita.

E, na sociedade capitalista, nós não somos ingênuos, para achar que tudo vi

ve em harmonia social. Afinal, o Positivismo foi um movimento do século XIX

e já acabou faz tempo e já se desmembrou tudo o que o Positivismo podia ter

falado. Nós sabemos, hoje em dia, que a sociedade em que nós vivemos é uma

sociedade de classes sociais mesmo, dividida. E que os interesses não são com

plementares. São interesses bastante diferenciados.

Eu localizo esse sujeito dentro da cidade e eu digo que é na periferia que e

-tá o marginal. E na periferia não es-tá o marginal. Na periferia es-tá o sujeito qu

trabalha, o sujeito que vive a sua vida normalmente com os seus filhos, etc, qu

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é o trabalhador de um modo geral. E, também estão aqueles que habitam esse

mundo do exército de reserva ou do também proletariado. Então, quando eu

falo a periferia, eu estou localizando, alí está o marginal, eu estou colocando,

através disso, toda uma classe, a classe social como um todo sob suspeita. E

não estou mais localizando apenas o infrator, porque não me interessa o

infra-tor. Ele não me interessa quando dentro da instituição, eu o considero como de-linqüente.

Essa chamada questão do menor é uma questão social e de ambos os lados.

E aí, já vou começar minha terceira reflexão.

~ uma questão social de ambos os lados, porque é uma questão social do

ponto de vista do Estado, que estigmatiza e identifica o seu inimigo, através

des-ses segmentos. E basta você olhar a história do Brasil, nos últimos anos, para ver

que a classe operária como um todo foi colocada sob suspeita, até meados dos anos 70, sob o manto da subversão. A partir da segunda metade dos anos 70 para

cá, o surto é a chamada criminalidade dos grandes centros urbanos. A hora que

aparecer qualquer outro fenômeno mais contestado, então a classe operária

nova-mente, como um todo, será colocada sob suspeita, sob um outro manto. ~ isso

que eu gostaria de chamar a atenção de vocês. Este fenômeno da criminal idade,

ele não é próprio da sociedade capitalista. O que é próprio dela é essa situação

que eu acabei de relatar. ~ uma situação histórica da civilização

greco-ociden-tal, desde a cidade-estado grega, nós temos essa questão da criminal idade. Os

juristas sabem muito bem que já houve leis muito mais penosas sobre o menor.

E eu espero que nós não retrocedamos na história. Porque nós temos,

principal-mente no Brasil, um hábito terrível de sempre redroceder para o lado policial,

violento e retroceder na história. E quando nós começamos a avançar, não se

dá tempo para nada se estruturar e já se quer a volta do que há de mais

conser-vador, de mais violento, de mais repressivo e reacionário.

Eu estou dizendo isso, porque gostaria de entrar na terceira fase do meu

ra-ciocínio, dentro da qual gostaria de falar um pouco dos meninos de rua e do

cha-mado menor, de um modo geral.

Ele vem dessa chamada situação de miserabilidade, ou de pauperismo, que

nós encontramos, que não bate com a explicação oficial do Estado brasileiro,

pa-ra as instituições públicas, ou para as instituições privadas. Então, nós

precisa-mos saber o que é que esse sujeito quer da vida, o que ele objetiva. Por que? O

trajeto dele dentro da política oficial, é qual? Situação de marginal idade,

come-te a infração, é recolhido através das delegacias, encaminhado à FEBEM, que

de-senvolve os seus programas biopsicosociais e o coloca de volta, integrado dentro

da sociedade. Se não tiver condições de ser integrado, ela recolhe dentro das suas dependências.

Na realidade, não é isso que acontece, isso é uma coisa muito simplista. Na

realidade, esse sujeito vive essa situação de pauperismo, esse garoto vive com

uma famllia desorganizada, chamada desorganizada. Mas eu duvido que aqui

nes-sa nes-sala, não tenha gente que vive em família de pais separados, e é perfeitamente integrado.

44 Rev. de Psicologia, Fortaleza,4 (2): 35 - 48, jul/dez, 1986

Nós temos então esse menor, que vai começar a trabalhar num mercado, que

também não é o chamado mercado legal da sociedade. Porque na sociedade

exis-te o mercado legal, a empresa, os tributos, a força de trabalho com carteira de

trabalho assinada, essa insignificância que são os proventos da Previdência Social

e tudo mas é um mercado legalmente constituído. Mas o capitalismo não vive só

desse marcado legal. O dinheiro não tem bandeira, capital não tem bandeira, não é brasileiro, americano. Capital é capital, se realiza em qualquer lugar do planeta,

e com isso, também não tem legalidade ou ilegalidade no capital. O que existe

são condições de acumulação. Então, nós temos um mercado que também é um

mercado ilegal. Estou chamando mercado ilegal não só aquilo que nós

podería-mos chamar a circulação da mercadoria numa segunda via, que são as chamadas

mercadorias roubadas e que voltam para o mercado particular. ~ o mercado

on-de você compra mercadorias roubadas. Como eu tenho também, o mercado

capi-tal ista. propriamente dito, de empresa, que vai desde a droga, porque vocês não

vão me dizer que na produção de cocaína não se extrai mais-valia do trabalhad~r. Extrai-se, só que é ilegal. O comércio de drogas, de um modo geral, é um comer-cio ilegal, mas ele cria condições de sobrevivência para grande parcela da popula-ção.

E, fora isso, nós temos também algumas empresas que não dão qualquer

ga-rantia para o seu trabalhador e vendem ainda as suas mercadorias nas ruas,

atra-vés de ambulantes que, também, não têm garantias do seu trabalho. São os

su-jeitos que vendem, por exemplo, contra roubos de automóveis, vassouras, etc.

Então, nós temos, também, esse chamado mercado ilegal. Quem vai

traba-lhar nesse mercado ilegal, é o sujeito que não foi absorvido, seja no momento de

expansão ou retração do mercado capitalista, dentro do que eu estou chamando

agora de mercado ilegal, mas vai para esse chamado mercado ilegal procurar

justa-mente obter os seus meios de subsistência.

VUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

É nessa condição que ele é chamado

de marginal. Ele é marginal frente ao mercado legal, frente à lei, mas frente ao capital, de um modo geral, ele não é legal ou ilegal. F rente à força de trabalho

como um todo, não tem a força de trabalho legal ou ilegal. Está obtendo meios

de subsistência. E, ao se obter esses meios de subsistência, tem-se uma situação,

onde esse menor, o chamado menor, aí estigmatizado, vai viver uma situação

par-ticular, que é a de se desenvolver no chamado mundo do crime.

Se ele está no mundo do crime, ele está diretamente ligado com o aparato

policial. Nesse chamado mercado, então, você tem a lei que se transforma

dentro da sociedade, num mecanismo social que se chama polícia. Assim, o

su-jeito que vive nesse mercado ilegal, ele está diretamente se confrontando com

a pol ícia. E de onde vem a pol ícia, quem fornece os guardas da polícia? ~ o

mesmo contigente que fornece os sujeitos chamados marginais. ~ uma diferença

de farda, é uma diferença circunstancial. Em São Paulo, por exemplo, é muito

comum você encontrar o bandido e o policial sendo até, às vezes, dois sujeitos

que cresceram juntos e que tomaram uma direção diferente por alguma razão,

que não vem ao caso atribuir genericamente qual seja.

(7)

Bom, esse confronto da polícia com os menores, ou com esse mundo de cri-minalidade, engendra, também, um mecanismo de impostos. Eu não estou aqui

generalizando que é a polícia como um todo. Mas existe o chamado mecanismo de impostos, que é cobrado pelo policial nos grandes centros urbanos como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte, onde os chamados mar-ginais pagam, seja ou quinzenalmente ou semanalmente, aos policiais que

fazem a ronda em determinada zona da cidade, para poderem agir dentro

daque-le lugar. ~ o mecanismo de sobrevivência de ambos os lados. ~ uma estratégia de sobrevivência do policial e uma estratégia de sobrevivência do delinqüente, pois

nesse mundo não dá para dizer quem é o bandido e quem é mocinho: são situa-ções particulares.

Bem, o que acontece? Quando há uma quebra nessa relação, éque esse me-nor é apanhado pelo policial, seja por que ele não quer mais pagar, o que em São Paulo se chama "pagar pau", para o policial, seja porque a quadrilha ou a

gan-gue se excedeu; ou matou um policial, ou fez uma série de delitos regulares den-tro de uma determinada área da cidade que a própria população, os meios de comunicação pressionam, então esses meninos são recolhidos.

Bom, são recolhidos, mas não vão ainda direto para a FEBEM, vão para a de-legacia. Na delegacia, existe também uma coisa chamada acordo. Se você tem

"algum" para bancar o acordo, que é bem a linguagem, se você tiver "algum",

você faz o acordo e sai. Se você não tiver aquele "algum", você não sai porque

dentro das delegacias, também, o mecanismo de corrupção de pagamento de "pau" funciona regularmente.

Suponhamos que o sujeito tenha sido apanhado, suponhamos que ele foi para a delegacia e não conseguiu escapar. Aí ele vai para a FEBEM. Aí ele vai

cheqar na FEBEM. E, ao chegar lá, ele pode sair, logo de cara, porque, se é a primeira vez, ou a segunda, se ele não tiver homicídio nas costas, como eles

cha-mam, eles sabem muito bem como passar uma cantada numa assistente social. Quem é assistente social aqui, sabe muito bem, como esses meninos são exímios

passadores de cantadas em assistente social. Eles prometem que nunca mais vão fazer, que caíram, porque não sei lá, choram.

VUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

É tudo isso. E saem também.

O que acontece regularmente é que, dentro da chamada FEBEM, recolhendo infratores, esse terminal, vamos dizer assim, seria Um terminal, abandonado, ca-renciado, infrator, que é o terminal que a Política Nacional diz que todas ten-dem a ir.

Esse sujeito que entra na situação de infratores numa FEBEM, ele pode,

pri-meiro, ser o sujeito realmente malandro, violento, criminoso, que não conseguiu escapar dos outros mecanismos anteriores, até ele chegar ali; como pode ser tam-bém o que eles chamam de "laranja", que é o otário, que éaquele que cometeu

os seus primeiros roubos e não conhece, ainda, a malandragem e não conhece, ainda, o funcionamento do mercado e que vai parar dentro da FEBEM. E, den-tro da FEBEM, ele vai se transformar, realmente, num grande malandro. Malan-dro é sempre diferente do delinqüente. Delinqüente é aquilo que a instituição constitui, como ela constitui o objeto. O malandro é como o objeto se vê pas-sando pela instituição.

46

Rev. de Psicologia, Fortaleza, 4 (2): 35 - 48, jul/dez, 1986

Nesse sentido, eu vou deixar para o debate toda uma d i,scussão que, ,há em torno disso, a contribuição dos psicólogos, dos assistentes SOCiaiS, ~os socióloqos, dos pedagogos, para que essa instituição cresça, para que a repressao Interna

de~-tro dessas instituições continue. E é tão grande que, estatisticamente falan?o, nos

poderrarnos dizer que existem muitos funcionários, m~ito mais do que

Infra~o-res. Nós sabemos disso. Quem trabalha com o problema sabe disso. Tem murto mais funcionários do que infratores. Aí começa o que, seria a ~uart~ parte da

minha discussão, que é o seguinte: o que é, o que significa, voce, hoje em dia,

querer reformar uma instituição como essa? Porque nós ~a~os nos defr~n~ar com um outro problema: o que fazer com todos esses funciona nos que estao

I~-tegrados, que são perfeitamente normais, que têm família ~rganizada, ~esorganl-zada, tanto faz, e que vivem do crime, vivem da reprodução desse objeto, desse

sujeito como objeto, vivem, tiram o sustento. . , , Não não estou falando que isso é negativo, ou punitivo, ou aquela coisa

as-sim, cristã - vamos nos penitenciar porque nós fazemos isso. Mas é real. A

so-ciedade capitalista, ela transforma o crime em algo que p~oduza e~pregos úteis. Eu estou aqui falando, porque existe o crime. Vocês estao aqui assl~tl~do,

e trabalham, seja na FEBEM, seja em instituições particulares, seja no J u d ic iá r io ,

seja na polícia, porque existe o crime. Quer dizer, nós vivemos diss,o,. _ , , Então, o que nós vamos fazer. Vamos lutar con.tra essas ln~tltUlçoes puniti-vas, repressivas, no terminal. Ou vamos procurar ajeitar as COisas, p~ra ver se

nós conseguimos fazer com que elas reproduzam, mudamos o seu discurso. E transformamos em algo que para nós fique acomodado, porque ternos o nosso

lugar garantido. Porque nós não temos corage~ de enf~entar q~e o crime . eas instituições repressivas, principalmente para crianças e jovens, é uma estupidez

humana. , ,

Nós devíamos ser um pouco mais honestos conosco, e dizer: bem, no~ que-remos é realmente defender o menor, ou nós queremos encontrar mecanismos

mais sutis de fazer esse controle com a nossa consciência mais leve. Porq~e, se o

nosso problema é realmente enfrentar a situação de frente, e defender os interes-ses do menor, significa brigar dentro desses terminais repressivos qu~ se chama~

FEBEM, manicômios, prisões. É alguma coisa q,ue ou nós !azemos ISSO,,ou nao nos iludamos que o socialismo seja uma marorra, ou paraiso. Porque nos

sabe-mos que, numa sociedade socialista, não se usa tanto a .p~isão, com~ elem.ento castrador, porque não é mais o crime contra o patr rmoruo que esta em jogo,

mas o crime ideológico, é o manicômio que se aperfeiçoa. .

Então, nós não podemos ficar pensando em generalidades, ou em utopias, quando nós mexemos com uma realidade extremament: Violenta, t:uncada e

objetiva como a nossa. Então, se nós quebramos ess,a rel~çao"que eu disse no

co-meço, sujeito-objeto, se nós conseguirmos quebrar ISSO, IStO e, dar a palavra para o prisioneiro, dar a palavra para o louco, dar a pala~~a para esse chamado

me-nor, e pararmos de tanto preconceito e de tanta sutill~~,d,e para contro~e, talve~

nós encontremos um mecanismo extremamente t r a n q ü iliz a d o r par~ nos convi-vermos com uma situação como essa. Porque, se não, nós vamos ficar,

(8)

II

tsrqponmlkjihgfedcbaZYXWVUTSRQPONMLKJIHGFEDCBA

mente assim. E, daqui a trinta anos, vocês me chamam de novo e aí eu venho

aqui bem caquético e falo, "Tã vendo, lembra quando eu falei no primeiro lá,

que a gente ia ficar, fazendo encontros". Eu acho que não vale a pena a gente

perder, principalmente, essa iniciativa que o pessoal daqui de Fortaleza fez,

por-que nós somos tão poucos por-que mexemos com esse assunto, por-que enfrentamos

es-se assunto, porque dentro das instituições são muitos os que se acomodam.

A-gora, dentro das instituições já existem alguns que estão incomodados e que

querem brigar. E existem alguns que não querem entrar na instituição e que

bri-gam fora. Mas somos muito poucos.

O pessoal de Fortaleza foi extremamente gentil, porque eu sei da

dificulda-de que nós, que trabalhamos nessa área, temos para produzir um evento como

este. E estou imensamente feliz de ver uma sala extremamente cheia, como essa,

de pessoas que estão de certa maneira incomodadas com esse problema. Eu só

espero que essa incomodação, que é extremamente saudável, leve vocês a uma

re-flexão, que não seja aperfeiçoar sutilmente esses mecanismos repressivos e leve

também vocês a não proporem mais violência ou um retrocesso, como aconteceu

em São Paulo, que é a volta da questão do menor ser uma questão de polícia,

quando as autoridades são obrigadas a vir de público e reconhecer que

construí-ram uma prisão de menores.

Eu espero que vocês aqui, que já começaram a discutir com bastante

liberda-de, de várias tendências, tenham condições de realmente enfrentar essa situação,

para que vocês não tenham que, como em São Paulo se reconhecer de público,

com uma política chamada de humanização, que se construiu finalmente uma

prisão de menores.

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