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PATRIOTAS E TRAIDORES

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PATRIOTAS E TRAIDORES

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Patriotas e traidores : antiimperialismo, política e crítica social / Mark Twain ; tradução de Paulo Cezar Castanheira ; organizadora Maria Sílvia Betti. – São Paulo : Editora Fundação Perseu Abramo, 2003. – (Coleção Clássicos do Pensamento Radical)

Bibliografia ISBN 85-86469-81-5

1. Libertarianismo 2. Movimentos antiimperialistas 3. Twain, Mark, 1835-1910 - Crítica e interpretação I. Betti, Maria Sílvia. II. Título. III. Título:

Antiimperialismo, política e crítica social. IV. Série.

03-0732 CDD-810.9 Índices para catálogo sistemático:

1. Escritores norte-americanos: Aprecisação crítica : Literatura norte-americana 320.531

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PATRIOTAS E TRAIDORES

Antiimperialismo, política e crítica social

ORGANIZAÇÃO, INTRODUÇÃO,

TEXTOS DE ABERTURA E REVISÃO DA TRADUÇÃO

MARIA SÍLVIA BETTI

Professora de literatura norte-americana da Universidade de São Paulo

TRADUÇÃO

PAULO CEZAR CASTANHEIRA

EDITORA FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO

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questões internas. E é por isso que sou antiimperialista. Eu me recuso a aceitar que a águia crave suas garras em outras terras.”

MARK TWAIN

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Samuel Langhorne Clemens nasceu na cidade de Flórida, Missouri, nos Estados Unidos em 1835. Foi aprendiz de impressor, piloto nas barcas do rio Mississípi, jornalista, romancista, conferencista e ensaísta.

Ao ingressar na carreira literária na década de 1860, adotou o

pseudônimo de Mark Twain, expressão técnica usada para indicar condições seguras de navegação. Após a bem-sucedida publicação de

Inocentes no exterior (1869), Twain mudou-se para Hartford,

Connecticut, onde escreveu os clássicos As aventuras de Tom Sawyer (1876) e As aventuras de Huckleberry Finn (1884), que misturavam

autobiografia e ficção.

Exibiu sua face de crítico social em obras como O príncipe e o mendigo (1881), Um ianque de Connecticut na corte do rei Artur (1889) e Tragédia de Pudd’nhead Wilson (1894). O estilo da prosa humorística de Twain é considerado a base da moderna literatura norte-americana.

Mark Twain faleceu em 1910, em Redding, Connecticut, nos Estados Unidos.

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Diretoria

Hamilton Pereira (presidente) – Ricardo de Azevedo (vice-presidente) Selma Rocha (diretora) – Flávio Jorge Rodrigues da Silva (diretor)

Editora Fundação Perseu Abramo Coordenação editorial

Flamarion Maués

Editora Assistente Candice Quinelato Baptista

Assistente editorial Viviane Akemi Uemura

Revisão Maurício Balthazar Leal Márcio Guimarães de Araújo

Índice remissivo Marcello Lagonegro

Capa e projeto gráfico Hélio de Almeida

Foto da capa BoondocksNet.com

Editoração eletrônica Augusto Gomes

Impressão Gráfica OESP

1a edição: abril de 2003 Tiragem: 3.000 exemplares

Todos os direitos reservados à Editora Fundação Perseu Abramo Rua Francisco Cruz, 224 – CEP 04117-091 – São Paulo – SP – Brasil

Telefone: (11) 5571-4299 – Fax: (11) 5571-0910 Na Internet: http://www.efpa.com.br Correio eletrônico: [email protected] Copyright © 2003 by Editora Fundação Perseu Abramo

ISBN 85-86469-81-5

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MARK TWAIN: UMA REDESCOBERTA OPORTUNA

Maria Sílvia Betti... 9

ANTIIMPERIALIMO ... 45

HAVAÍ ... 107

RÚSSIA ... 143

ÁFRICA DO SUL E AUSTRÁLIA ... 163

GUERRA HISPANO-AMERICANA/FILIPINAS ... 195

CHINA ... 229

CONGO ... 261

RAÇA, GÊNERO E RELIGIÃO ... 295

FICÇÃO E JORNALISMO ... 343

POSFÁCIO – MARK TWAIN NO BRASIL Maria Sílvia Betti ...417

CRONOLOGIAS ... 425

FONTES DOS TEXTOS PUBLICADOS ... 439

ÍNDICE ... 445

ÍNDICE REMISSIVO ... 449

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A condição de inegável celebridade de Mark Twain sempre con- tribuiu, ironicamente, para que seus escritos antiimperialistas fossem, como ocorre ainda hoje, relativamente desconhecidos e pouco pre- sentes no campo dos estudos literários e historiográficos. Isso se deve à própria história do destino editorial de seu trabalho após sua morte, em 1910. Seria eufemismo falar-se em omissão ou em mero mascara- mento da produção relacionada ao tema do imperialismo e das fre- qüentes e veementes referências feitas a ele por Mark Twain, princi- palmente nos últimos 12 anos de sua vida. O termo correto é censura, e a posição de destaque que o autor ocupa no cânone literário norte- americano atesta este aspecto, tornando-o inequívoco sobretudo a par- tir do minucioso levantamento que vem sendo realizado, há cerca de dez anos, por Jim Zwick, pesquisador e professor norte-americano da Syracuse University a quem se devem as edições críticas e os estudos historiográficos utilizados como base para esta edição.

Não há muitos outros escritores na literatura norte-americana a terem alcançado a popularidade de Mark Twain, seja entre a crítica em geral, seja no setor editorial e na indústria da cultura. Homem de múltiplos talentos, Twain foi humorista, ficcionista, jornalista, confe- rencista, empreendedor comercial, contista e, acima de tudo, crítico das mudanças sociais registradas nos Estados Unidos no período com- preendido entre o final da Guerra de Secessão, em 1865, e o início do século XX.

UMA REDESCOBERTA OPORTUNA

Maria Sílvia Betti

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Figurando entre os maiores nomes da ficção norte-americana, Twain é considerado um “clássico” cujo trabalho resistiu ao tempo, como comprova a perene popularidade de obras como As aventuras de Tom Sawyer, As aventuras de Huckleberry Finn, O príncipe e o ple- beu e Um ianque na corte do rei Artur, para citar apenas alguns dos títulos principais. A fama que alcançou acabou servindo de pretexto para que o teor político de seu trabalho fosse posto de lado e ele pas- sasse a ser tratado por críticos e editores como autor de obras de cará- ter predominantemente cronístico e ligeiro, marcado por aspectos re- gionais e humorísticos.

Todo o teor de crítica de seu trabalho em relação ao imperialismo em geral e ao expansionismo imperialista norte-americano em parti- cular foi deliberadamente mantido, durante décadas, à margem das edições e dos estudos acadêmicos, mostrando ter sido objeto de ine- quívoca censura por parte do establishment editorial e acadêmico nor- te-americano.

Inicialmente um defensor manifesto do processo de anexações territoriais empreendido pelos Estados Unidos, Twain veio, gradativa- mente, a tornar-se um crítico ferrenho da rapina imperialista praticada pelo país, o que o levou, em seu retorno em 1900, após longa ausência, a fazer-se membro ativo da Liga Antiimperialista Norte-Americana. A partir desse momento, todo o seu prestígio literário e o seu talento na expressão escrita e oral foram colocados a serviço da causa antiimperia- lista, dando origem a uma produção extensa e diversificada que inclui artigos, cartas, panfletos, ensaios e textos satíricos.

DADOS BIOGRÁFICOS

A biografia de Mark Twain é longa e assombrosamente prolífica em várias áreas diferentes. Seu nome verdadeiro era Samuel Langhorne Clemens, e seu nascimento se deu em 30 de novembro de 1835 na pequena cidade de Flórida, no estado de Missouri. A primeira parte de sua infância foi passada na cidade de Hannibal, no mesmo estado, às margens do rio Mississípi. A família era proveniente do estado de

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Tennessee, no Sul, e a atmosfera social de Hannibal assemelhava-se muito à das cidades sulistas, principalmente devido à vigência da es- cravidão. Tratava-se de uma região fronteiriça, atravessada pelas enor- mes balsas e barcaças que subiam e desciam o rio, constantemente cruzada por viajantes e peregrinos das mais diversas procedências (muitos dos quais fugitivos), e nela Mark Twain viveu a primeira parte de sua meninice.

Aos 12 anos, com a morte de seu pai, Twain se vê na necessidade de trabalhar e, tornando-se aprendiz dos impressores locais, emprega- se como tipógrafo e posteriormente como jornalista, vindo a traba- lhar no jornal local de Hannibal, dirigido por seu irmão mais velho, Orion. É nesse jornal que Twain inicia sua carreira de ficcionista, es- crevendo pequenas histórias humorísticas sob a assinatura pomposa de W. Spaminondas Adrastas Blab.

Um período de profundas mudanças, tanto domiciliares como profissionais, inicia-se para ele ao completar 18 anos. Essas mudan- ças, que se estendem por cerca de quatro anos, levam-no a estabelecer- se sucessivamente em cidades localizadas entre o Meio-Oeste e o Les- te. Decidido a empreender uma viagem ao Sul, Twain desce o Mississípi rumo a Nova Orleans num dos famosos barcos a vapor característicos desse período. A viagem viria a transformar-se num marco importan- te de sua vida: nela, ele conhece o veterano piloto de bordo Horace Bixby e inicia o aprendizado do ofício de piloto, que se estende duran- te quatro anos. É na experiência adquirida na arte da navegação do Mississípi que o jovem Samuel trava contato com a expressão que pos- teriormente se converteria em seu próprio pseudônimo literário, Mark Twain. Guiado pelo veterano piloto Ben Thornburgh nas passagens de difícil travessia, o aprendiz aguardava ouvir do mestre o grito de aviso informando que a profundidade atingida já permitia prosseguir viagem. Esse grito era o esperado “mark twain” (indicador da profun- didade de 3,65 m), informando que a barra já havia sido transposta e que era possível seguir a todo vapor.

O início da guerra civil, em 1861, vem interromper o tráfego flu- vial entre Sul e Norte, e a pilotagem de vapores deixa de ser uma ativi-

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dade lucrativa. Engajado numa tropa confederada de voluntários, Twain desloca-se até o então recém-organizado território de Nevada.

Após um período inicial, em que se põe à procura de jazidas de prata e especula em reivindicações de terras, emprega-se como repórter no Enterprise, jornal local para o qual escreve pequenas histórias humo- rísticas. É nessa época que, pela primeira vez, utiliza o pseudônimo com o qual viria a notabilizar-se.

Em 1864, uma desavença com um jornalista local obriga-o a dei- xar a cidade. Estabelecendo-se temporariamente em São Francisco, Twain trabalha como repórter para o Golden Era. A atividade, exercida na qualidade de free lancer, permite-lhe paralelamente encontrar tem- po para a prospecção de ouro nas montanhas da Califórnia e para uma viagem às Ilhas Sandwich, cujos custos ele paga com colabora- ções para o Sacramento Union sob a forma de cartas. Essa era a mo- dalidade de trabalho que lhe convinha, permitindo-lhe associar as viagens à atividade cronística e jornalística. E é precisamente assim que Twain haveria de passar os anos que se seguem, estabelecendo-se como repórter nacional e realizando viagens que se estendem até a Europa e o Oriente Próximo. Esse período proporciona-lhe o primei- ro contato com uma cultura estrangeira in loco, assim como seus pri- meiros contatos com povos que sofrem na carne o processo expan- sionista norte-americano, e haveria de render-lhe os primeiros insights na direção de uma consciência crítica quanto à política externa nor- te-americana.

Paralelamente ao trabalho de correspondente, Twain inicia uma movimentadíssima carreira de conferencista, utilizando sua agudeza de observação e sua verve de contador de casos para relatar as expe- riências de viagens. O sucesso é tão grande que sua primeira turnê apresentando conferências rende-lhe uma série de 16 apresentações em várias partes do país.

A fama literária se faz sentir já no período posterior ao de sua via- gem às Ilhas Sandwich, em 1866, quando ele, de passagem por Nova York, trata de publicar seu primeiro livro, baseado em histórias que ou- vira na região das Sierras de Nevada: A célebre rã saltadora do condado

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de Calaveras e outras histórias. Twain era agora colaborador não apenas do Golden Era, da Califórnia, mas também do Tribune, de Nova York, e sua popularidade aumentava progressivamente, não apenas sob a for- ma impressa, por meio de seus escritos, mas também por intermédio das conferências, que o levaram a cruzar o país sucessivas vezes.

Em 1870 um acontecimento parece indicar uma mudança de ru- mos em sua vida de incessantes e incansáveis viagens: o casamento com a filha de um rico industrial de Nova York, Olívia Langdon, que ele cortejara insistentemente. Com a ajuda financeira do sogro, Twain compra parte de um jornal em Buffalo em 1871 e, no ano seguinte, estabelece-se em magnífica residência que faz construir em Hartford, em meio à elite da Nova Inglaterra. Sua primeira filha, Susan, havia acabado de nascer, e ele parecia aclimatado aos hábitos da burguesia, que caracterizavam os moradores de Hartford. Alguns de seus traba- lhos já eram, a essa altura, conhecidos em escala nacional. The Innocents Abroad havia atingido a casa de 100 mil exemplares vendi- dos, e ele podia desfrutar a estabilidade financeira de que agora dispu- nha e viver confortavelmente da profissão de escritor. Inicia-se assim um período prolífico e socialmente agitado. Uma viagem à Inglaterra, em 1874, possibilita-lhe travar contato pessoal com algumas das cele- bridades do mundo literário de então: o poeta Robert Browning, o escritor russo Ivan Turgueniev e o excêntrico reverendo e escritor Lewis Carroll. Nesse mesmo ano nasce sua segunda filha, Clara, e, em 1876, ele publica As aventuras de Tom Sawyer. Um contrato editorial para um livro sobre a Europa leva-o a viajar novamente entre abril de 1878 e setembro de 1879, período em que visita a França, a Bélgica e a Holanda.

Para Twain, as viagens estavam diretamente ligadas a sua produ- tividade literária: em 1880, ano em que nasce sua terceira filha, Jean, ele publica Um vagabundo no estrangeiro e, nos anos seguintes, O príncipe e o plebeu (1881), A vida no Mississípi (1883), As aventuras de Huckleberry Finn (1885) e Um ianque na corte do rei Artur (1889), interessante sátira política que alude, implicitamente, aos processos expansionistas e imperialistas do Reino Unido e dos Estados Unidos.

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O espírito empreendedor que sempre o caracterizou leva-o, em meio a essa fase de intensa criação, a associar-se a um amigo, James Paige, inventor de uma máquina tipográfica que ele resolve financiar.

Tratava-se de uma máquina de eficiência e rapidez superiores às habi- tuais, mas o surgimento do linotipo, nesse mesmo período, rapida- mente contribui para sua obsolescência. Utilizada em caráter experi- mental pelo Chicago Herald, a máquina é considerada um fracasso.

Twain, que havia investido nela contando com um lucrativo retorno, quase vai à bancarrota, sendo obrigado a encerrar sua participação na casa editorial Charles L. Webster & Co., que publicara muitos de seus trabalhos: os recursos por ele deslocados para investir na máquina de Paige haviam desequilibrado as finanças da editora e sua situação fi- nanceira pessoal havia se tornado crítica.

A salvação lhe veio por meio do auxílio de Henry Hatson Rogers, executivo da Standard Oil e um dos industriais mais bem estabeleci- dos daquele momento. Rogers era um admirador de Twain, com quem costumava beber e jogar pôquer, e intercedeu em seu favor, além de orientá-lo com relação à questão dos direitos autorais, fazendo de Livy (Olívia Clemens, mulher de Twain) a beneficiária oficial.

Em 1890, duas perdas levam Twain a fechar a residência em Hartford e, no ano seguinte, a transferir-se para a Europa: as mortes de Jane, sua mãe, e de Olive, sua sogra.

Entre 1892 e 1900, viaja incansavelmente, apresentando confe- rências e escrevendo. As viagens vão aos poucos modificando sua visão no que diz respeito à propalada legitimidade do imperialis- mo, ao mesmo tempo que lhe dão experiência de convívio com diferentes povos e culturas. Em 1893 e 1894, negócios e assuntos de família levam-no a retornar aos Estados Unidos, mas apenas provisoriamente. Em 1895 um contrato com a editora Harper &

Brothers para um livro sobre viagens leva-o a uma turnê que inclui visitas à Colúmbia Britânica, ao Havaí, às Ilhas Fiji e à Nova Zelândia.

Entre 1896, ano em que publica um livro sobre a vida de Joana d’Arc, e 1897, seguem-se viagens à Índia, à África do Sul, à Inglaterra,

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à Suíça e à Áustria, e, em 1898, à Tchecoslováquia e novamente à In- glaterra e à Suécia.

Mesmo com um duro golpe – a perda de sua filha mais velha, Susan, aos 23 anos de idade, em 1896 –, Twain não se deixa abalar, como atesta o seu cronograma de conferências e sua produção de to- dos esses anos pelo continente europeu. Em 1899, ano em que escreve

“O homem que corrompeu Hadleyburg”, ele volta à Inglaterra, onde fica por um ano, em Londres.

Em outubro de 1900, aclamado e recebido como uma celebridade nacional, Twain retorna aos Estados Unidos, fixando-se em Riverdale.

Seu fôlego de viajante não havia se esgotado, porém, e ele volta a via- jar, visitando a Flórida, o Caribe, o Meio-Oeste (inclusive a velha Hannibal, de sua infância, e St. Louis).

Com o agravamento do estado de saúde de sua mulher, Twain resolve voltar à Europa, onde permanece entre 1903 e 1904. O faleci- mento dela, ocorrido em Florença, e a crise nervosa que acometeu sua filha Clara levam-no a voltar aos Estados Unidos, estabelecendo-se em Nova York, em 1905.

Famoso e homenageado por seus 70 anos, Twain publica Os diá- rios de Adão e Eva e é recebido na Casa Branca pelo vice-presidente Theodore Roosevelt. Uma série de questões relativas a direitos auto- rais preocupam-no, e Twain dirige apelos aos membros do Congresso, procurando estimular a elaboração de uma legislação coerente.

Apesar das adversidades atravessadas e da agitação à sua volta, é um período bastante produtivo, em que ele publica “The $30,000 Bequest”, “What Is Man?” e “Chapters From My Autobiography”, e no ano seguinte, Christian Science.

Em 1907 Twain realiza sua última viagem à Inglaterra, onde rece- be um título honorário na universidade de Oxford. Nesse mesmo pe- ríodo, Albert Bigelow Paine é convidado por ele a tornar-se seu bió- grafo oficial e, passando a morar na residência do escritor, dá início à compilação de seus escritos e à elaboração do trabalho. Apesar de ter fixado residência em Connecticut, Twain realiza sucessivas viagens às Bermudas em 1908, 1909 (quando publica “Shakespeare está morto?”)

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e 1910, ano em que vem a falecer, aos 75 anos de idade, um ano após a morte de sua filha caçula, Jean.

MUITO ALÉM DO ÍCONE

Apesar de sua inegável celebridade e da elevada estima que tantas gerações de leitores e críticos lhe dedicaram, Twain foi sempre, predo- minantemente, considerado autor de uma obra infanto-juvenil, o que sem dúvida também contribuiu para que com freqüência se ignorasse o aspecto da militância antiimperialista. Isso se deve, em grande parte, à sua inclinação ficcional para uma literatura “de ação”, voltada ao desen- volvimento de enredos repletos de acontecimentos inesperados e de re- viravoltas do destino dos protagonistas. Indubitavelmente existe aí uma afinidade com características que a indústria cultural viria a tornar indissociáveis de uma faixa de leitores mais próximos à adolescência.

Por outro lado, o vigor juvenil de seu estilo permite-lhe tratar de forma pitoresca e inventiva de uma enorme gama de temas, seja em um estilo mais propriamente realista e impregnado da tão propalada

“cor local”, seja em um campo mais abertamente fantasioso, em que se permite liberar sua imaginação e desenvolver alegorias históricas e políticas.

Na produção ensaística e jornalística, Twain não deixou nunca de lado a sua bem-humorada ironia, que se transformava em corrosivo sarcasmo sempre que necessário e com freqüência se combinava ao recurso do paradoxo para produzir páginas de grande contundência crítica, quase sempre dotadas de caráter paródico.

Entre suas obras mais amplamente conhecidas destacam-se alguns títulos a essa altura considerados “clássicos” da literatura norte-ameri- cana, como os romances As aventuras de Tom Sawyer, de 1876, O prín- cipe e o plebeu, de 1881, As aventuras de Huckleberry Finn, de 1884, e Um ianque na corte do rei Artur, de 1889.

As aventuras de Tom Sawyer relata as peripécias que Tom, um garoto da região próxima às margens do Mississípi, experimenta du- rante um verão da década de 1840. Juntamente com seu amigo Huck

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Finn, um menino pobre cujo pai é o bêbado da cidade, Tom envolve- se numa aventura noturna em pleno cemitério e acaba presenciando o assassinato do Dr. Robinson, médico e cientista, pelo cruel Injun Joe.

A situação complica-se quando um inocente (Muff Potter) é acusado pelo crime. Após uma série de aventuras que envolvem a fuga dos dois garotos acompanhados pelo amigo Joe Harper para uma ilha deserta (a ilha Jackson) em meio ao Mississípi, a verdade é revelada: Tom en- contra o tesouro de Injun Joe e, com a ajuda de Huck, acaba sendo aclamado como um herói local.

O príncipe e o plebeu fantasia episódios reais da história da Ingla- terra ocorridos em 1547, quando morre o rei Henrique VIII e seu filho, Eduardo VI, assume o trono. No enredo concebido por Mark Twain, pouco após a morte do rei Henrique, o jovem herdeiro da coroa ingle- sa troca inadvertidamente de lugar com um sósia, Tom Canty, um pe- queno indigente. As experiências por que passam, em suas novas con- dições, colocam os meninos em situações desafiadoras: Eduardo é ator- mentado por John Canty, o pai de Tom, ladrão e dado à bebida. Logo na primeira noite, apanha por afirmar ser o príncipe de Gales, afirma- ção que repete constantemente sem conseguir que acreditem em suas palavras. Logrando finalmente escapar, encontra Miles Hendon, um nobre que retornava à Inglaterra após dez anos de ausência, período em que lutou como soldado e acabou sendo feito prisioneiro. Hendon decide protegê-lo, apiedando-se dele por julgá-lo louco.

Também Tom passa por alguém fora de seu perfeito juízo e é as- sistido pelo conde de Hertford, o lorde protetor do jovem rei. Apesar de desempenhar muito bem seu papel real e de tomar decisões bastan- te humanitárias com relação a seus súditos, Tom avista sua mãe verda- deira em meio ao povo em pleno dia da coroação e é tomado de culpa diante de sua própria conduta. Eduardo aparece, durante a cerimônia, a tempo de reclamar seu verdadeiro lugar como rei.

As aventuras de Huckleberry Finn é o relato das aventuras de Huck (o mesmo que participara do enredo de As aventuras de Tom Sawyer) e Jim, um escravo fugido, em seu percurso Mississípi abaixo em uma pequena jangada. O enredo inicia-se pouco depois das cenas finais de

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As aventuras de Tom Sawyer. Os capítulos iniciais apresentam o mun- do divertido e emocionante de Tom, Huck, Joe Harper e outros garo- tos, que resolvem formar uma gangue de aventureiros.

O conflito se apresenta quando Huck escapa ao cativeiro que lhe havia sido imposto por seu pai, o bêbado Pap Finn, e, juntamente com Jim, um escravo fugido proveniente de Hannibal, no Missouri, foge pelo Mississípi com destino a Ohio, estado onde a escravidão já fora abolida e onde Jim poderia viver e trabalhar como homem livre.

Um nevoeiro faz que eles errem o percurso e se envolvam em uma série de peripécias com King e Duke, dois trapaceiros que conhecem no caminho. O desfecho vem na seqüência de uma série de aventuras que contam com a participação de Tom Sawyer e apresentam a deci- são de Jim, mesmo após constatar-se liberto, de marchar para os terri- tórios onde a abolição já havia sido decretada.

Um ianque na corte do rei Artur é uma fantasia política que apre- senta as aventuras de Hank Morgan, cidadão norte-americano que, golpeado durante uma luta em Hartfield, nos Estados Unidos do sé- culo XIX, cai inconsciente e acorda na Inglaterra do ano 538, em plena corte do lendário rei Artur. Ao longo de um período de aproximada- mente dez anos de permanência na corte arturiana, Morgan acaba in- troduzindo uma série de modificações na sociedade da época.

O desenrolar dos fatos é relatado por um narrador que conhecera Morgan no castelo de Warwick, ouvira dele a história surpreendente de suas aventuras e, por fim, ganhara dele um manuscrito contendo a íntegra de sua fabulosa história, desde o momento em que despertara na Inglaterra lendária dos tempos arturianos e fora levado a Camelot por um cavaleiro.

A leitura do manuscrito pelo narrador ativa o desenvolvimento do enredo mediante uma estrutura episódica, enfatizando o aspecto surpreendente da forma como Morgan, usando sempre de astúcia, es- capa aos perigos mais incríveis. Fazendo-se passar por um mago capaz de fazer obscurecer o próprio Sol, Morgan, que na verdade se vale de um eclipse, acaba sendo nomeado ministro perpétuo e executivo do rei.

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O desejo de aprimorar a qualidade de sua vida na corte leva-o, pouco a pouco, a introduzir pequenos utensílios como sabonetes, li- vros, canetas e tinta. Aos poucos sua notoriedade vai crescendo a pon- to de lançar sombra até mesmo ao mago Merlin, seu poderoso rival.

Passam-se muitos anos, durante os quais Hank introduz impor- tantes mudanças na sociedade inglesa do período, fundando indústri- as e escolas, dando treinamento a professores e apoiando a tolerância religiosa.

Nos anos que se seguem, Hank é responsável pela implementação de grandes progressos sociais e técnicos, inventando o telégrafo, o te- lefone, o barco a vapor e as ferrovias.

As experiências de Hank no século VI terminam quando ele, enve- nenado por Merlin, é condenado a dormir por 13 séculos. Merlin é morto ao tropeçar e cair sobre uma cerca eletrificada. A história se encerra quando o narrador, ao concluir o manuscrito, vai espiar o ador- mecido Hank, que, em meio ao sono, balbucia nomes de personagens dos eventos relatados.

O trabalho ficcional de Mark Twain transcende em muito os parâmetros dentro dos quais a tradição crítica e acadêmica veio a imortalizá-lo como ícone da literatura norte-americana. A sutileza crí- tica prenunciada na extraordinária riqueza de temas e formas traba- lhados vai muito além do mero registro cronístico saboroso e abre significativas possibilidades de discussão do processo vertiginoso de transformações vividas pelo país, passando pela guerra civil, pela ocu- pação do Oeste, pela urbanização em suas variantes regionais, pelos conflitos raciais, pela luta pelo voto feminino e pela ascensão do país à condição de potência internacional nos planos político e econômico.

A militância antiimperialista, abraçada por ele num momento (1898) em que desfruta indiscutível prestígio literário nacional e in- ternacional, encontra-se presente, ainda que muito embrionariamen- te, nas entrelinhas de obras anteriores de sua produção. Ao longo da cronologia de seus trabalhos pode-se acompanhar, implicitamente, a gradativa constituição de uma consciência crítica em relação aos mi- tos da nacionalidade norte-americana e aos seus pressupostos e con-

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tradições. No estágio atual de estudos da obra de Twain, é precisamen- te essa a diretriz de trabalho mais estimulante, pelo fato de convidar ao reexame de sua produção e de desdobrar-se em instigantes revela- ções e debates de surpreendente atualidade.

Imortalizado nas tradições literárias e culturais dos Estados Uni- dos e submetido à institucionalização daí decorrente, o nome de Twain foi, durante décadas, veiculado por iniciativas de propagação de uma

“americanidade” pouco condizente com a militância antiimperialista que desenvolveu.

O momento atual caracteriza-se, precisamente, pelo crescente in- teresse em relação ao estudo dos escritos antiimperialistas de Twain, sobretudo os pertencentes ao período de 1898 a 1910 (ano de sua mor- te). Isso tem aberto novas e significativas possibilidades de releitura do conjunto de seus trabalhos, não apenas no sentido da discussão política neles implícita, mas também no da reavaliação do próprio rendimento literário dos recursos e formas.

MARK TWAIN E O ANTIIMPERIALISMO

Embora o pensamento antiimperialista de Mark Twain não se ligue exclusivamente a sua atuação na Liga Antiimperialista Ameri- cana, foi sua entrada para essa associação que assinalou de forma mais sistemática a elaboração de escritos relacionados ao tema. A adesão ao movimento antiimperialista foi seguramente a mais longa e significativa forma de ativismo político de sua vida, tendo forneci- do farto material de inspiração a editorialistas e cartunistas políticos da época.

No âmbito específico da Liga, Twain foi, juntamente com William Dean Howells1, a figura de maior projeção pública, e o estudo de sua participação na entidade e da produção a ela relacionada possui crucial

1. 1837-1920. Escritor norte-americano e editor-chefe (1871-1920) do Atlântico Mensal (Atlantic Monthly), encorajou um grande número de escritores, entre eles Mark Twain e Henry James. Escreveu o romance A ascensão de Silas Lapham (The Rise of Silas Lapham), de 1885, entre outros, e muitos trabalhos de crítica literária.

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importância para uma rediscussão crítica tanto de sua obra como do debate antiimperialista nos Estados Unidos.

A história do processo de supressão da dimensão política do trabalho de Twain dentro do movimento antiimperialista associa-se diretamente à exclusão institucionalizada do imperialismo como tema de reflexão e debate, seja no campo da formação cultural do cidadão norte-americano comum, seja no âmbito da pesquisa acadêmica. O tratamento dispensado pela crítica aos escritos de Twain desde o pe- ríodo que se segue a seu falecimento indica que o esvaziamento do teor político de seu trabalho envolveu pressões políticas em vários níveis. Embora inúmeros outros autores tenham sido vítimas de me- canismos semelhantes, sua posição de inegável destaque no cânone literário norte-americano confere a essa história um especial inte- resse.

Como muitos outros escritores que viriam a tornar-se antiimpe- rialistas proeminentes, Twain acreditava, até seu retorno da Europa, em 1900, que a Guerra Hispano-Americana de 1898 havia sido trava- da visando a libertação de Cuba do jugo da Espanha. A leitura cuida- dosa do texto do Tratado de Paris leva-o a dar o primeiro passo no sentido de uma reavaliação desse julgamento e a concluir que a inten- ção política norte-americana era claramente a de subjugação.

Este foi o momento em que, de forma pública e inequívoca, Twain se declarou abertamente antiimperialista, e é também o momento em que ele começa a sofrer ataques de antagonistas políticos e de críticos descontentes com suas posições. Em fevereiro de 1901 um detrator, em Albany, tentou desacreditá-lo afirmando que, se fosse levado real- mente a sério por suas declarações, ele com certeza, àquela altura, já teria sido no mínimo linchado. O comentário foi feito a propósito do fato de o escritor haver se referido à bandeira norte-americana como uma bandeira desonrada. Twain respondeu de forma contundente num discurso em 23 de março, no Lotos Club:

Ele nada tinha de pessoal contra mim, exceto o fato de eu me opor à guerra política, e ele disse que eu era um traidor e não fui lutar nas

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Filipinas. Isso não prova nada. Não quer dizer que um homem seja um traidor. Onde está a prova? Somos 75 milhões aprimorando nosso pa- triotismo. Ele próprio fez a mesma coisa. Seria completamente diferen- te se a vida do país estivesse em perigo, sua existência em jogo; então – e esse é um tipo de patriotismo – seríamos todos voluntários ao lado da bandeira, e ninguém iria pensar se a nação estava certa ou errada; mas quando não se trata de qualquer ameaça à nação, mas apenas de uma guerrinha distante, então pode se dar que a nação se divida em torno da questão política, metade patriotas, metade traidores, e ninguém será capaz de distinguir entre eles.2

Suas palavras corroboram a posição firmada logo após seu retor- no da Europa, quando dissera aos repórteres que cobriram sua volta, no final de 1900: “Oponho-me a deixar que a águia ponha suas garras sobre qualquer outra terra”3. Uma série de discursos e entrevistas nos meses seguintes, já em 1901, vem confirmar sua posição, como o dis- curso “Saudação do século XIX ao século XX”, proferido no final desse mesmo ano, atacando frontalmente as quatro manifestações exponenciais do poder imperial do momento: a tomada da baía de Kiao Chow, na China, pela Alemanha, a ocupação da Manchúria pela Rússia, a Guerra dos Bôeres na África do Sul e a Guerra Filipino-Ame- ricana. Duas semanas após a publicação do discurso, Twain foi convi- dado a ocupar o posto de vice-presidente da Liga Antiimperialista, aceitando prontamente. Embora ele próprio não se imaginasse exer- cendo atividades exaustivas nessa função, ela lhe concedia um impor- tante canal para a expressão da solidariedade à luta contra o imperia- lismo. O ensaio intitulado “Para aquele que vive nas trevas”, escrito um mês depois, viria a ser publicado sob a forma de panfleto, tendo sido, segundo Jim Zwick, a publicação sem dúvida mais popular da entidade.

2. Zwick, Jim. “As regards patriotism”. http://www.boondocksnet.com/ai/twain/mtws_lotos010323.html [2002-09-02].

3. Zwick, Jim. Mark Twain’s Antiimperialist Writings in the American Century. http://www.

boondocksnet.com/twain/contested.html [2002-09-02].

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A Liga Antiimperialista havia sido fundada dois anos antes, em 1898, em Boston, logo após o final da Guerra Hispano-Americana, quando o governo norte-americano passou a demonstrar abertamen- te não estar disposto a libertar Porto Rico, Guam e as Filipinas. Políti- cos, empresários, líderes trabalhistas, educadores, religiosos e intelec- tuais haviam aderido, afirmando seu apoio ao movimento. Rapida- mente filiais da Liga organizaram-se por todo o país, arregimentando, entre outros, figuras cujas ligações com o movimento antiimperialista eram as mais diversas, e até, em alguns casos, suspeitas: encontram-se, entre os membros, o industrial Andrew Carnegie4, o presidente da Fe- deração Americana do Trabalho (American Federation of Labor), Samuel Gompers5, os pensadores William James e John Dewey6, o ex- presidente Grover Cleveland7, as reformadoras sociais Jane Addams8 e Josephine Shaw Lowell, os líderes do movimento de direitos civis Moorfield Storey e Oswald Garrison Villard, e até mesmo Benjamin R.

Tillman, um dos líderes do movimento contrário à extensão do direi- to de voto aos negros e defensor caloroso das leis de segregação no Sul.

O imperialismo era uma questão polêmica em todos os movi- mentos sociais de então, e a oposição a ele aglutinou membros indis- cutivelmente inconciliáveis em outras áreas. A Liga congregava tanto setores que condenavam o imperialismo por julgá-lo negativo para o trabalho como outros que o condenavam por seus efeitos negativos para o mundo empresarial. A diversidade de opiniões abrangia, ainda, racistas que brandiam a bandeira do antiimperialismo por entender

4. 1835-1919. Industrial e filantropo nascido na Escócia, reuniu fortuna considerável na indústria do aço e doou milhões de dólares para a causa pública.

5. 1850-1924. Líder trabalhista nascido na Inglaterra e presidente da Federação Americana do Trabalho (1886-1924, com exceção de 1895). Obteve salários mais altos, redução do número de horas de trabalho e maior liberdade para os sindicalizados.

6. 1859-1952. Filósofo e educador norte-americano que liderou o movimento pragmático e rejeitou os métodos tradicionais de ensino por meio da repetição mecânica em prol de um sistema amplamente baseado na experiência.

7. 1837-1908.Vigésimo segundo e vigésimo quarto presidente dos Estados Unidos, conhecido pelas campanhas contra a corrupção e a prática de se recompensar eleitores em troca de votos.

8. 1860-1935. Líder pacifista e reformadora social, fundadora da Hull House (1889), um centro assistencial e educacional para os pobres de Chicago. Trabalhou também pela paz e pelas reformas sociais.

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que os territórios anexados iriam, ao final, tornar-se estados da União, levando assim à inclusão de povos considerados “inferiores” ao con- junto da população norte-americana. Estes setores em particular aca- baram por afastar-se da entidade assim que o recém-firmado Tratado de Paris se encarregou de deixar claro que o temor era infundado e que as colônias anexadas não haveriam de tornar-se estados: nas pala- vras do comissário de Paz Whitelaw Reid, era necessário “resistir à dou- trina insana que pressupõe que o governo deriva seus poderes e legiti- midade do consentimento dos governados”9.

A campanha contra a ratificação do Tratado de Paris, em janeiro de 1901, foi a primeira organizada pela Liga e destinava-se a denun- ciar a existência de campos de concentração organizados por norte- americanos em território filipino e a cobrar do governo uma investi- gação a respeito. Fazendo uso de uma propaganda intensiva e de uma grande diversidade de formatos e materiais, a Liga procurou utilizar- se, tanto quanto possível, da mídia disponível naquele momento, fa- zendo circular panfletos, folhetos, brochuras, livros, poemas avulsos, jornais, cartazes, circulares e cartas.

Sem dúvida alguma Twain manteve-se sempre atualizado em relação à literatura antiimperialista da época e recebeu uma grande variedade de livros e panfletos publicados pela Liga, entre os quais encontram-se os discursos de Carl Schurz10, enviados em dezembro de 1900, pronunciamentos de congressistas sobre a captura do líder filipino Emílio Aguinaldo, a íntegra da Lei Tarifária Filipina, de 1901, panfletos sobre as atrocidades norte-americanas nas Filipinas, um pan- fleto e um livro de Louis F. Post (editor do jornal The Public), uma cópia do bem-conceituado estudo historiográfico de Henry Parker Willis intitulado Nosso problema filipino: um estudo da política colo- nial americana (nunca publicado no Brasil) e, provavelmente, cópias da maioria dos panfletos publicados pela Liga Antiimperialista de Nova

9. Zwick, Jim. Mark Twain’s Antiimperialist Writings in the American Century. Loc. cit.

10. 1829-1906. Oficial do Exército, político e editor nascido na Alemanha. Senador por Missouri (1869- 1875), disseminou as idéias políticas do Partido Republicano com seus discursos e, posteriormente, com seus editoriais.

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York e pela Liga Antiimperialista nacional, regularmente enviados aos membros dessas entidades11.

Foi no âmbito da Liga que Mark Twain fez suas mais importantes contribuições à causa antiimperialista. A condição de celebridade que desfrutava e sua indiscutível habilidade de escritor permitiram-lhe produzir para a organização documentos como a já mencionada “Sau- dação...”, de dezembro de 1900, que circulou de costa a costa por todo o país, tanto separadamente, sob a forma de cartão, como em jornais, chegando a ser publicado juntamente com declarações de William McKinley12, Theodore Roosevelt13e William Jennings Bryan14 (presi- dente e vice-presidente eleitos e o seu oponente na recém-concluída campanha presidencial) a propósito do novo século.

Também o ensaio “Para aquele que vive nas trevas”, ironizando a idéia da civilização como “bênção” concedida aos povos “libertados”, teve ampla circulação após ter sido publicado no número de fevereiro de 1901 da North American Review. Uma edição paralela, preparada pela própria Liga sob a forma de panfleto, teve a mais ampla tiragem entre todas as suas publicações, atingindo a casa dos 125 mil exempla- res. Twain tornou-se simultaneamente e num curto espaço de tempo o mais influente e o mais odiado crítico das políticas adotadas pela Casa Branca, fato que, na época, veio a dividir seu próprio público

11. Zwick, Jim. Mark Twain’s Arguments against War and Imperialism. http://www.boondocksnet.com/

ai/twain_d.html

12. 1843-1901. Vigésimo quinto presidente dos Estados Unidos (1897-1901). Sua presidência foi marcada pela Guerra Hispano-Americana, pela anexação de Cuba e das Filipinas, pela abertura de uma política de livre comércio com a China e pela aprovação do Ato do Padrão Ouro (1900). Foi assassinado por um anarquista em Buffalo, Nova York.

13. 1858-1919. Vigésimo sexto presidente dos Estados Unidos (1901-1909). Herói da Guerra Hispano- Americana e governador de Nova York (1899-1900), assumiu a Presidência após o assassinato de William McKinley, em setembro de 1901. Sua administração foi marcada pela regulamentação de monopólios, pela construção do canal do Panamá, por uma política externa de livre comércio com a China e pela política externa do big stick, que pregava a idéia de impor-se pela força. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1906 por sua mediação na Guerra Russo-Japonesa.

14. 1860-1925. Advogado e político, candidatou-se sem sucesso à Presidência em 1896, 1900 e 1908. É famoso por seu discurso intitulado “Cruz de Ouro” (1896), defendendo o lastro de prata para a moeda norte-americana, por sua atuação como promotor e por sua defesa do fundamentalismo no julgamen- to de Scopes, um professor processado por ensinar a teoria da evolução das espécies de Darwin num município de Tennessee em 1925.

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leitor. Um admirador, em carta dirigida a ele nesse período, resume bem a questão: “Até aqui o senhor foi estimado pelos amigos que con- quistou; agora o senhor deve ser estimado pelos inimigos que faz”15.

A associação de Twain com a Liga irá desempenhar a partir de então uma influência marcante em seus escritos, além de levá-lo a em- preender a revisão de uma série de princípios que defendera até pouco antes. Isso se dá principalmente no que diz respeito à idéia de uma

“missão” norte-americana diante das demais nações e de uma suposta natureza “não-americana” do imperialismo. A afirmação de que os Estados Unidos “importaram” o ideário imperialista da Europa e de que esse ideário era “estranho” à expansão dos ideais da república nor- te-americana cai fragorosamente por terra diante da forma de atuação norte-americana no plano internacional e do discurso inegavelmente imperialista que predomina no plano institucional em todo o país.

Muitos antiimperialistas defendiam esse mesmo ponto de vista (ou seja, acreditavam que o imperialismo era uma deturpação do ver- dadeiro americanismo) e aceitavam como historicamente indiscutível o fato de que um império não apenas não se constituía numa repúbli- ca, como vinha a tornar-se um risco para a sobrevivência política des- ta. Zwick cita, como representativo dessa posição, o discurso proferi- do no Congresso pelo deputado John F. Shafroth:

As repúblicas formam-se somente após as revoluções. A mudança para o império é lenta e gradual. Uma das mais tristes lições da história é que, quando quer que estas escolas políticas se confrontem, nas repú- blicas antigas, a escola imperial, com sua ofuscante influência da rique- za e do poder, sempre vence.16

Muitos dos escritos de Twain a respeito do tema apontam na mes- ma direção do discurso de Shafroth, ou seja, ressaltam a idéia da dege- neração dos ideais fundadores dos princípios políticos da nação. Para

15. Zwick, Jim. Mark Twain’s Antiimperialist Writings in the American Century. Loc. cit.

16. Zwick, Jim. Mark Twain’s Arguments against War and Imperialism. Loc. cit.

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Jim Zwick esta seria uma das razões pelas quais muitos pesquisadores consideram “pessimista” o tom de Twain nos escritos dessa fase, que é também a fase final de sua carreira. Os chamados “escritos sombrios”

(dark writings), como foram designados os textos elaborados nesse período, encontram-se impregnados de antiimperialismo, aspecto no qual, aliás, o autor nunca esteve isolado, dispondo sempre de um nú- mero amplo e significativo de correligionários dentro e fora do campo literário e jornalístico. O propalado “pessimismo” é incompatível com o vigor e o empenho demonstrados por Twain em sua militância an- tiimperialista, que se concentra precisamente nesses últimos 12 anos de sua vida. Não é difícil, portanto, entender por que a maior parte da crítica, durante muito tempo, insistiu em descrever esse período como de amargura e declínio: ao depreciar a importância da produção nele desenvolvida, punha-se também em segundo plano a discussão de seu trabalho antiimperialista, o que sem dúvida alguma atendia aos inte- resses dominantes, tanto no mundo acadêmico como no editorial.

Outro aspecto de importância a ser lembrado é a forma singular como Twain, decano da literatura do país e celebridade de renome internacional, permite-se rever sua posição acerca do imperialismo e modificá-la, levado pela análise dos fatos e de suas implicações. Dis- correndo a respeito da posição norte-americana diante de Cuba logo após seu retorno da Europa, Twain afirmara que os Estados Unidos estavam “jogando o jogo americano”, ou seja, apoiando, segundo ele ainda acreditava no momento, um movimento libertário. Segundo um raciocínio análogo, sua visão inicial da Guerra das Filipinas levava-o a enxergar um caráter libertário e humanista como fator para a partici- pação norte-americana. Pouco tempo depois, ele próprio revia essas avaliações em entrevista ao jornal New York Herald:

Eu dizia com meus botões: aqui está um povo que sofre há 300 anos.

Temos capacidade de torná-los livres como nós, dar-lhes um governo e um país que sejam só seus, colocar uma miniatura da Constituição americana a flutuar no Pacífico, fundar uma república absolutamente nova que há de tomar seu lugar entre as nações livres do mundo. Pare-

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ceu-me grandiosa a tarefa que nos havíamos imposto. Mas repensei muito desde então, li com todo cuidado o Tratado de Paris e vi que nunca tivemos a intenção de libertar, mas a de subjugar aquele povo.

Fomos até lá para conquistar, não para salvar.

Evidentemente as palavras de Twain ilustram o vigor de seu pen- samento e sua notável disponibilidade para pensar de forma crítica. A despeito disso, é importante lembrar, por outro lado, que ele é essen- cialmente um homem de sua época. Para Twain, assim como para outros antiimperialistas, o aspecto mais nefasto desse processo era o de traição do que acreditava serem os “ideais republicanos” do país, uma vez que os Estados Unidos haviam sido a primeira nação surgida de uma revolução contra um império colonial. A idéia fundamental era que a constituição de um império por parte dos Estados Unidos teria um efeito desagregador em relação aos princípios verdadeira- mente fundadores dessa república. Esse argumento demonstra o quanto o autor ainda acreditava no caráter indiscutível desses princípios, crença que se incorporava de forma inseparável aos seus mais calorosos argu- mentos antiimperialistas.

Alguns desses argumentos encontram-se em uma série de fanta- sias históricas escritas a partir de 1901 abordando a ascensão hipotéti- ca de uma monarquia despótica ou de uma ditadura militar que der- ruba a República e implanta a censura a livros e bibliotecas, levando ao esquecimento das tradições americanas e reescrevendo a história de modo a glorificar o imperialismo e o autoritarismo.

A idéia de uma forte ligação entre a expansão paralela do comér- cio e do império havia sido anteriormente formulada, aliás, num livro escrito por um autor do qual, com razões muito compreensíveis, o presidente Theodore Roosevelt era um dos mais influentes admirado- res: A influência do poder marítimo sobre a história, do capitão Alfred T. Mahan17. Para Mahan, os três pontos-chave para se entender as his-

17. 1840-1914. Oficial da Marinha norte-americana e historiador. Este seu livro desencadeou um verda- deiro processo de armamentismo naval no período imediatamente anterior à Primeira Guerra Mundial.

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tórias e as estratégias políticas das nações dotadas de fronteiras marí- timas eram a produção, associada à necessidade do intercâmbio de produtos, o comércio marítimo, pelo qual o intercâmbio se processa- va, e as colônias, que facilitavam e aumentavam as operações de em- barque e tendiam a protegê-lo mediante a multiplicação dos pontos de segurança18.

Por ocasião da Guerra Hispano-Americana (1898), as idéias de Mahan e de outros teóricos do imperialismo rapidamente populariza- ram-se nos meios de comunicação de massa. À guisa de exemplo, Jim Zwick cita o subtítulo de um dos panfletos de 1898 sobre “As Ilhas Filipinas”, que anunciava oficialmente os benefícios do imperialismo de forma tão exageradamente entusiástica a ponto de parecer paródica:

“Anexação: como ela americanizará, civilizará e desenvolverá as mui- tas ilhas, expandirá nosso comércio ao extremo, absorverá nossa pro- dução, manterá nosso circuito comercial ativo e dará emprego a todo o nosso povo”19.

Durante a campanha presidencial de 1900, o Comitê Republicano Nacional publicou um panfleto intitulado “Expansão comercial”, que apesar de reiterar muitos dos argumentos de forma um pouco mais sóbria encerrava-se com um “Mapa do Oriente mostrando Manila, Filipinas, como Centro Geográfico do Campo Comercial Oriental”.

Muito estrategicamente, na campanha presidencial daquele ano a pla- taforma republicana não fazia a mais leve menção aos benefícios eco- nômicos a serem obtidos com a tomada das Filipinas, mas afirmava a obrigação do país de “subjugar insurreições armadas e conferir as bên- çãos da liberdade e da civilização a todos os povos libertados”20.

Com o intuito de assegurar e proteger a nova expansão comercial, os contingentes da Marinha norte-americana haviam sido aumenta- dos e novas bases navais haviam sido estabelecidas em Cuba, Porto Rico, Guam e nas Filipinas. Também o exército permanente havia pra-

18. Zwick, Jim. Mark Twain’s Arguments against War and Imperialism. Loc. cit.

19. Zwick, Jim. Mark Twain’s Arguments against War and Imperialism. Loc. cit.

20. Zwick, Jim. Mark Twain’s Arguments against War and Imperialism. Loc. cit.

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ticamente quadruplicado, passando de 26.800 soldados em 1898 a 104.000 em 1901. Pela primeira vez na história norte-americana o au- mento das tropas do exército tornava oficial a distribuição de contin- gentes no além-mar. As próprias milícias estaduais, autônomas até 1903, foram reorganizadas sob controle militar federal, e o apoio norte-ame- ricano ao Panamá, em sua luta pela independência da Colômbia, só se dá em troca do controle exclusivo da zona do canal.

Acompanhando de perto a distribuição das novas posições mili- tares no exterior estabelecidas pela Lei Militar de 1901, Twain chega a afirmar que esse processo haveria de estender-se até 1946. Por uma grande ironia, a data projetada por ele viria marcar, na verdade, o iní- cio de um novo ciclo: o do estabelecimento militar e armamentista da Guerra Fria, quando mais uma vez o intervencionismo externo seria justificado com os argumentos da defesa às instituições democráticas.

Embora evidentemente voltado à atuação do país no plano inter- nacional, o pensamento crítico de Mark Twain a respeito do imperia- lismo não deixa de lado sua repercussão interna no país. A idéia de patriotismo é um dos tópicos mais constantes neste campo, principal- mente a veiculada junto à opinião pública pelos canais oficiais do Es- tado e pela imprensa. Procurando defender os antiimperialistas da acusação de serem antipatrióticos, Twain apóia sua defesa numa ana- logia de grande eficácia argumentativa: assim como os antiimperialis- tas nesse momento, também os nortistas, opositores da escravidão, haviam sido desprezados e sofrido perseguições no período que pre- cedera a guerra civil, quando a causa abolicionista não se encontrava ainda associada à causa “patriótica” da União.

Para o autor, os momentos de crise cívica são precisamente aque- les em que a grande massa da população preocupa-se prioritariamente em estar do lado vencedor, qualquer que seja ele: o relativismo do jogo político e a natureza dos fatores que o compõem associam-se àquilo que é costumeiramente chamado de patriotismo, e que consiste, como ele acentua, na covardia moral e na acomodação às circunstâncias do- minantes. O ponto central da análise desenvolvida por Twain a respei- to é a necessidade de preservar o direito individual de livre manifesta-

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ção, mesmo em situação de discordância em relação ao Estado, sob o risco de tornar “grotesca” e “risível” a prática do chamado patriotismo.

Twain preocupa-se em analisar também a natureza do pensa- mento imperialista no plano conceitual. Para ele, a idéia de imperia- lismo encontra-se associada à de monarquia, o que o leva a classifi- car de “monárquica” a atitude do governo ao impor aos cidadãos uma noção fechada e indiscutível do que é politicamente certo e de- fensável. “Nossa pátria, certa ou errada!”, a lição cívica que ele pró- prio ouvira repetidas vezes ao longo de sua formação escolar, seria agora o equivalente ao dogma do monarquismo segundo o qual “O rei não erra” 21. Ao ser chamado publicamente de “traidor” pelo fato de não ter apoiado a guerra contra as Filipinas, Twain ironiza e ques- tiona os tênues limites que separam patriotas de traidores diante dos interesses e conveniências dos diversos grupos. O ponto de vista im- plícito é o professado pela Liga desde sua fundação, estabelecendo uma oposição fundamental entre dois lados antagônicos: o da luta pelos valores associados aos princípios fundadores da nação ameri- cana e o das recentes políticas “não-americanas” do imperialismo. A plataforma que orientou as posições da Liga desde o início de suas atividades é clara a este respeito:

Afirmamos que a política conhecida como imperialismo é hostil à li- berdade e tende ao militarismo, um mal do qual sempre nos orgulha- mos de estar livres. Lamentamos que tenha sido necessário, na terra de Washington e Lincoln, reafirmar que todos os homens, qualquer que seja sua raça ou cor, têm o direito à vida, à liberdade e à busca da felici- dade. Defendemos a idéia de que os governos extraem seus justos pode- res do consentimento dos governados. Insistimos que a subjugação de qualquer povo é “agressão criminosa” e deslealdade aberta aos princí- pios distintivos de nosso governo.22

21. http://www.boondocksnet.com/ai [2002-3-17].

22. Zwick, Jim. Mark Twain’ Arguments against War and Imperialism. Loc. cit.

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A estreita e pública associação de Twain com a Liga leva-o, gra- dualmente, a aceitar convites como o da Associação Americana de Reforma do Congo (American Congo Reform Association), em 1905, para atuar como seu representante, e o do comitê de organização de uma homenagem a Maxim Gorky, para presidir a cerimônia destina- da a levantar fundos para a Revolução Russa.

As atividades de Twain em apoio à Revolução Russa são geral- mente desconhecidas ou ignoradas pela maior parte da crítica. Twain foi co-fundador da entidade denominada Amigos Americanos da Li- berdade Russa (American Friends of Russian Freedom), e seu ensaio

“O solilóquio do czar”, publicado em 1905, trata diretamente do as- sunto. No início de 1906 Twain escreve uma carta para ser lida em um encontro destinado a arrecadar fundos para a revolução. “Alguns de nós”, afirmou ele nessa ocasião, “podem viver para ver o dia abençoa- do em que czares e grão-duques serão tão escassos como acredito que sejam no céu”.

A IDÉIA ANTIIMPERIALISTA NOS ESTADOS UNIDOS

O historiador Michael Parenti define o imperialismo como o pro- cesso no qual uma nação, baseada em seus próprios interesses políti- co-econômicos dominantes, expropria outras nações de territórios, mão-de-obra, matérias-primas e mercados tendo em vista unicamen- te seu próprio enriquecimento23.

O imperialismo é historicamente muito anterior ao surgimento do capitalismo. Os grandes impérios da Antiguidade, como o persa, o macedônio e o romano, apresentam-se aos olhos contemporâneos como formas ancestrais do imperialismo, ostentando já algumas de suas características mais essenciais.

Sob a forma capitalista, o imperialismo constrói seus mecanismos de controle por meio de investimentos realizados nos países domina-

23. Parenti, Michael. “Against the empire”. Chapter 1. http://www.michaelparenti.org/

Imperialism101.html

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dos, transformando e direcionando a economia, a política, as ativida- des financeiras e a produção para o sistema internacional de capital.

No contexto norte-americano, o imperialismo faz parte de um processo de expansão colonialista registrado no final do século XIX, que apresentou, desde o início, características diversas das observadas entre os grandes impérios constituídos nas fases anteriores.

Desde 1823 o lema “A América para os americanos”, postulado nos termos da Doutrina Monroe, criara uma divisão de domínios em relação à Europa, procurando assegurar-se de que não haveria intervenções por parte das potências européias, e muito menos esta- belecimento de novas colônias, no continente americano. O Corolário Roosevelt, promulgado sob a presidência de Theodore Roosevelt, em 1904, acrescentou à Doutrina Monroe um adendo fundamental aos interesses norte-americanos instituindo a chamada política do big stick, ou seja, oficializando a possibilidade de intervenção externa norte-americana sempre que os Estados Unidos a considerassem ne- cessária.

A ideologia do Destino Manifesto, que se difunde em torno de 1845, e a tese historiográfica da Fronteira como princípio fundador do caráter nacional norte-americano, foram ambas instrumentos de indiscutível importância no estabelecimento das bases para o avanço do imperialismo norte-americano. Embora o Destino Manifesto não estivesse associado a uma estrutura definida de princípios políticos, a idéia nele disseminada, de expansão territorial como “missão” do país, permitiu que se associasse o avanço rumo ao Oeste a uma saudável e desejável extensão das chamadas instituições democráticas. Escamo- teava-se, assim, o caráter violento da marcha rumo ao Oeste e o mas- sacre das populações nativas.

Paralelamente, a tese da Fronteira, surgida do postulado central de um ensaio do historiador Frederick Jackson Turner, de 1896, ace- nava com a necessidade de se encontrar novas fronteiras que permitis- sem à nação manter vivo o seu senso de identidade. Segundo Turner, o sentido de constante avanço rumo aos limites da faixa inicialmente ocupada pelos pioneiros da colonização havia permitido forjar-se o

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caráter nacional norte-americano, principalmente no que diz respeito ao seu pragmatismo empreendedor.

As formulações ideológicas do Destino Manifesto e da tese da Fron- teira atuaram amplamente como justificações para o expansionismo em curso: não é casual, portanto, o fato de o Show do Oeste Selvagem de Buffalo Bill (Buffalo Bill’s Wild West Show) ter incorporado cenas da intervenção norte-americana em Cuba. O sentido épico da con- quista, anteriormente associado à marcha rumo ao Oeste, associava- se, agora, às anexações de países latino-americanos, justificando assim a política externa norte-americana.

Entre o final da Guerra Civil (1865) e o início do século XX, os Estados Unidos foram rápida e significativamente guindados à condi- ção de potência imperialista. Já na década de 1850 tropas norte-ame- ricanas estavam sendo enviadas para a Argentina, a Nicarágua, o Ja- pão, o Uruguai e a China, e Cuba encontrava-se na mira.

No final do século XIX a crescente economia industrial dos Esta- dos Unidos se vê forçada a lidar com um enorme excedente de produ- tos. A superabundância da produção leva o país a procurar novos mercados no exterior.

O período que se segue ao final da Guerra Hispano-Americana (1898) intensifica as idéias expansionistas associadas ao Destino Ma- nifesto. No Congresso chega-se a falar em anexação de todos os terri- tórios espanhóis. Alguns jornais falam em anexação da própria Espa- nha, enquanto os líderes expansionistas, como o presidente Roosevelt, postulam abertamente a idéia de um império americano, idéia inten- samente combatida pela Liga Antiimperialista num momento em que Mark Twain encontrava-se já entre as fileiras de seus militantes.

Quando os representantes da Espanha e dos Estados Unidos reu- niram-se em Paris para a elaboração de um tratado de paz, a maioria dos membros da comissão designada pelo presidente McKinley era composta por adeptos das políticas expansionistas. As colônias cujos destinos estavam ali sendo decididos não tiveram representação.

O processo imperialista norte-americano estava longe, no entan- to, de ter encontrado seu limite: Panamá, República Dominicana e

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Nicarágua foram os alvos seguintes, sofrendo formas prolongadas e ostensivas de intervenção.

No decorrer do século XX os interesses capitalistas norte-america- nos mudam gradativamente de figura: as transformações do mundo produtivo e dos grandes capitais tornam possível, agora, a captação e o controle da riqueza das nações dominadas sem que seja necessário um processo de ocupação e de administração territorial. Como afir- ma Michael Parenti, sob essa nova forma de imperialismo a bandeira

“fica em casa” e o dólar vai aonde quer que se deseje, devidamente respaldado pelos aparatos armamentistas.

O imperialismo é a força histórica mais poderosa em atuação nos últimos quatro ou cinco séculos. Ao sabor de seus avanços rumo ao Novo Mundo, os povos nativos desagregaram-se, perderam suas iden- tidades e foram massacrados.

Apesar disso, o tema do imperialismo como objeto de discussão crítica e de pesquisa tem sido recorrentemente ignorado ou “pasteuri- zado” nos Estados Unidos, em abordagens historiográficas nas quais as nações anexadas são brandamente designadas como “territórios” e as intervenções militares consideradas assuntos de defesa nacional, de

“segurança” e de “manutenção da estabilidade”.

A dominação imperialista é muitas vezes explicada como resul- tante de um desejo “inato” de expansão e dominação, embora o impe- rialismo territorial não seja mais a modalidade predominante. No mundo contemporâneo o poder imperialista manifesta-se por meio de outros mecanismos, cabendo sempre ao capital financeiro a parte do leão dos recursos geradores de lucros. É o que caracteriza as formas atualmente designadas como “império informal”, “neocolonialismo”,

“colonialismo sem colônias” e “neoimperialismo”.

Grosso modo, o chamado Terceiro Mundo tornou-se como um paraíso fiscal, oferecendo esquemas de produção e consumo com taxas de lucro consideravelmente mais altas do que as que poderiam ser obtidas num país com forte regulamentação econômica. Sob o neoimperialismo, as nações do Terceiro Mundo arcam com os custos administrativos de suas próprias gestões, enquanto os interesses

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imperialistas ficam livres para concentrar-se na acumulação de capital.

Ao longo dos séculos de colonização as perspectivas de estudo dos processos históricos do imperialismo foram sujeitas a diversas formas de manipulação ideológica. Fala-se, por um lado, da nature- za “tropical” como determinante de uma índole supostamente me- nos produtiva, de tal forma que a condição de pobreza pareça resul- tante de uma tendência “natural”, e não de um processo de explora- ção. Fala-se do “atraso cultural” dos países do Terceiro Mundo, numa tentativa implícita de justificar investimentos ditos de atualização cultural e técnica. As condições de pobreza são, via de regra, explicadas por meio de processos que as façam parecer o resultado de um con- junto de fatores não relacionado à ação da potência hegemônica em questão.

Nos Estados Unidos, a interpretação dominante nos últimos 50 anos baseia-se na idéia de que é função das nações economicamente fortes auxiliar no processo de modernização econômica dos países em sua órbita de influência.

A idéia subjacente é justificar o intervencionismo econômico por meio do propósito de supostamente promover o reerguimento dessas nações pobres, escamoteando assim o interesse em fomentar merca- dos onde colocar seus produtos segundo regras determinadas por seus próprios interesses.

Na verdade, o que se tem feito sentir no Terceiro Mundo é a presen- ça de uma forma de capitalismo dependente e explorador. Ao contrário dos postulados das teorias mencionadas, o problema crucial não se en- contra na pobreza natural da terra ou na improdutividade de seu povo, mas no processo de exploração e na desigualdade social. As condições econômicas têm se deteriorado intensamente com o crescimento dos investimentos das corporações transnacionais. O legado da dominação imperial não é apenas a miséria, mas uma estrutura dominada por re- des internacionais de corporações ligadas a empresas matrizes na Amé- rica do Norte, na Europa e no Japão. As economias do Terceiro Mundo permanecem fragmentadas e desarticuladas interna e externamente.

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Nesse contexto, o levantamento das reflexões e dos escritos antiim- perialistas de Mark Twain assume indiscutível importância pela forma profundamente crítica e reflexiva com que ele é levado a examinar e implicitamente documentar o teor dos debates acerca do antiimperia- lismo num momento tão decisivo para a ascensão dos Estados Unidos como nação hegemônica no plano econômico internacional.

A CENSURA AO LONGO DO SÉCULO

Apenas parte dos escritos antiimperialistas de Mark Twain foram publicados por ele em vida, embora seu ativismo nunca tenha sido interrompido ao longo de sua prolífica carreira e das inúmeras entre- vistas e declarações que deu. Somente após a fundação do Projeto Mark Twain (Mark Twain Project) e dos Documentos Mark Twain (Mark Twain Papers), que ocorreu após a morte de Clara Clemens (filha e herdeira de Mark Twain) em 1962, tornou-se possível o livre acesso aos originais do autor. A maior parte de seus críticos teve de conten- tar-se, até aquele momento, com edições que, conforme as pesquisas posteriores de Jim Zwick revelaram, eram produtos do esforço de manutenção de uma certa imagem pública de Mark Twain, associada à sua celebridade como humorista, satirista de costumes e integrante de uma forma de criação já completamente identificada à tradição literária e cultural do país.

Esse processo encontra-se associado, particularmente, às edições preparadas sob a responsabilidade do biógrafo oficial de Twain e exe- cutor de seu testamento literário, Albert Bigelow Paine, nas décadas que se seguiram à sua morte. O tipo de recepção predominante à obra do autor veio a ser extraordinariamente influenciado pela biografia escrita por Paine e publicada em 1912, e pela série de edições extraídas do caderno de anotações do autor, em lançamentos editoriais que se estenderam de 1912 a 1935.

Mediante colaboração entre Paine e Frederick A. Duneka, da edi- tora Harper & Brothers, inúmeras edições póstumas trouxeram a pú- blico trabalhos provenientes do levantamento dos três manuscritos

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inconclusos. É o caso de O estranho misterioso (The Mysterious Stran- ger), de 1916, O que é o homem? E outros ensaios (What is Man? And Other Essays), de 1917, Europa e alhures (Europe and Elsewhere), de 1923, Discursos de Mark Twain (Mark Twain’s Speeches), também de 1923, Autobiografia de Mark Twain (Mark Twain’s Autobiography), de 1924, e Caderno de Mark Twain (Mark Twain’s Notebook), do mes- mo ano. Essas publicações, sob a orientação de Paine, forneceram os padrões para as séries lançadas pela editora Harper & Brothers, que por sua vez tornaram-se a base para inúmeras outras coleções de tra- balhos do autor.

O caráter e o critério de Paine como editor passaram inquestiona- dos durante décadas, não apenas por ter sido ele o biógrafo oficial, mas por ter trabalhado a partir do acervo de escritos originais do au- tor, o que em princípio parecia implicar a garantia de que as edições apoiavam-se em textos autênticos e inalterados, contrariamente ao que depois se viria a constatar.

O que caracteriza a relação de Paine com o material ficcional e ensaístico de Mark Twain é seu desejo de acomodar a imagem do autor aos moldes do estereótipo que a opinião pública foi levada a fixar e que, evidentemente, deixava de lado os aspectos de sua crítica ao imperialismo norte-americano. A preocupação de Paine a esse res- peito é explicitada em uma carta que ele dirige a um editor da Harper

& Brothers em 1926, sugerindo que todos os esforços possíveis fos- sem feitos para evitar que outros ensaístas ou pesquisadores escreves- sem sobre o autor, sob pena de verem a imagem do Twain “tradicio- nal”, que haviam preservado, começar a perder o brilho e a transfor- mar-se. O apelo do biógrafo à casa editora encontra respaldo num argumento poderoso dentro da lógica do mercado editorial: o fato de que, em sua avaliação, o material literário de que a Harper era pro- prietária sofreria, se isso acontecesse, um processo de depreciação24, decorrente da agregação de aspectos que destoariam dos já estabele-

24. Zwick, Jim. “Mark Twain Uncensored”. http://www.boondocksnet.com/twainwww/essays/

uncensored020114.html

Referências

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