(1905)
te reveladora do sentimento de simpatia e de solidariedade de Twain diante da causa revolucionária, por ele avaliada como resultante de uma adesão consciente a um patriotismo que considera ao mesmo tempo racional e nacional.
Depois do seu banho matinal, o czar costuma meditar durante uma hora antes de se vestir – Do correspondente do London Times.
[Olhando-se no espelho] Nu, o que sou eu? Uma caricatura ma-gra, enrugada, de pernas de aranha da imagem de Deus! Veja a cabeça de cera – o rosto expressivo como um melão – as orelhas de abano – os cotovelos – o peito fundo – as canelas finas – e os pés, cheios de calos e juntas e ossos, a cópia de chapa de raios-x! Não há nada de imperial em mim, nada imponente, impressionante, nada que provoque res-peito e reverência. É diante disto que 140 milhões de russos beijam a terra? É a isto que adoram? Evidentemente, não! Em particular, nin-guém sabe disso melhor que eu: são as minhas roupas. Sem minhas roupas eu seria tão destituído de autoridade quanto qualquer outro homem nu. Ninguém me distinguiria do cura, do barbeiro, do dandy.
Então quem é o verdadeiro imperador da Rússia? Minhas roupas. Mais ninguém.
Como sugeriu Teudelsdrickh, o que seria um homem – o que se-ria qualquer homem – sem suas roupas? Quem pára para pensar sobre esta proposição percebe que sem roupas um homem nada seria; que as roupas não apenas fazem o homem, elas são o homem; que sem elas ele é um zero, um vazio, um ninguém, um nada.
Títulos, mais uma artificialidade, são parte das roupas. São elas e os adereços que escondem a inferioridade daquele que os veste e o fazem parecer grande e um fenômeno, quando no fundo ele nada tem de notável. Elas são capazes de fazer uma nação cair de joelhos e ado-rar sinceramente o imperador que, sem as roupas e o título, cairia ao nível do operário e seria engolido, desapareceria na multidão de irrelevâncias; um imperador que, nu num mundo nu, não seria nota-do, não seria comentanota-do, seria atropelado a cotoveladas como
qual-quer outro estranho sem importância, talvez até lhe oferecessem um copeque para carregar a mala de alguém; ainda assim um imperador que, pelo puro poder dessas artificialidades – roupas e títulos –, se faz adorado como um deus por seu povo, capaz de à sua vontade, sem contestações, exilá-lo, persegui-lo, destruí-lo, como só poderia fazer com ratos se um acidente de nascimento tivesse lhe dado outra voca-ção, que não o império, mais de acordo com sua capacidade. É uma força estupenda – a que reside nas roupas e nos títulos que a tudo ocultam; enchem de respeito quem as observa; fazem-no tremer; ain-da assim ele sabe que toain-da digniain-dade real hereditária comemora uma usurpação, um poder adquirido ilegitimamente, uma autoridade conferida por pessoas que não a tinham. Pois os monarcas têm sido escolhidos apenas pela aristocracia: jamais uma nação elegeu um.
Não existe poder sem roupas. São elas o poder que governa a raça humana. Dispam-se os governantes, e Estado algum será governado;
funcionários nus não terão autoridade; pareceriam (e seriam) iguais a qualquer outro – um lugar-comum, uma inconseqüência. Um policial sem farda é um homem; com a farda ele é dez. Roupas e título são a coisa mais poderosa, a mais formidável influência da terra. São eles que levam a raça humana a respeitar voluntária e espontaneamente o juiz, o general, o almirante, o bispo, o embaixador, o conde frívolo, o duque idiota, o sultão, o rei, o imperador. Nenhum grande título é eficiente sem as roupas que o apóiam. Nas tribos nuas de selvagens os reis usam algum tipo de trapo ou enfeite que os torna sagrados para si e que ninguém mais pode usar. O rei da grande tribo Fan usa uma pele de leopardo no ombro – ela é sagrada à realeza; o resto dele vive abso-lutamente nu. Sem esse pedaço de pele de leopardo para impressionar e impor respeito ao povo, ele não seria capaz de manter o emprego.
[Depois de um silêncio] Uma invenção curiosa, uma invenção sem autor – a raça humana! Os milhões de russos fervilhantes permitem há séculos que minha família os assalte, insulte-os, pisoteie-os, e eles viveram, sofreram e morreram sem nenhum outro objetivo na vida que não tornar confortável a vida da minha família! Essas pessoas não passam de cavalos – cavalos que têm roupas e religião. Um cavalo com
a força de cem homens se deixa açoitar, matar de fome, comandar; os milhões de russos permitem que um punhado de soldados os mante-nha na escravidão – soldados que são seus filhos e irmãos!
É uma coisa estranha, quando se considera essa questão: o mundo aplica ao czar e ao seu sistema os mesmos axiomas morais que estão em voga e são aceitos nos países civilizados! Como nos países civiliza-dos é errado remover o opressor de outra forma que não o processo legal, afirma-se que a mesma regra se aplica à Rússia, onde não exis-tem leis – que não as da nossa família. Leis não passam de restrições;
não têm outra função que não a de restringir todas as pessoas, e res-tringi-las igualmente, o que é justo e imparcial; mas na Rússia as leis que existem fazem uma exceção – nossa família. Fazemos o que quere-mos; sempre fizemos o que quisemos durante séculos. Nossa profissão comum sempre foi o crime, nosso passatempo comum o assassinato, nossa bebida comum, o sangue – o sangue da nação. Sobre nossos rosários repousam milhões de mortos; mesmo assim o moralista pio afirma que assassinar-nos é um crime. Nós e nossos tios formamos uma família de serpentes lançadas sobre 140 milhões de coelhos, a quem torturamos e assassinamos, e dos quais nos alimentamos todo dia; ainda assim o moralista insiste em que matar-nos é um crime, não um dever.
Não posso confessar ao mundo, somente para alguém aqui den-tro – eu mesmo –, que isso tudo é de uma ingenuidade hilariante, ilógica. Nossa família está acima da lei; não existe lei que nos atinja, que nos restrinja, que proteja o povo de nós. Estamos portanto fora da lei. E um fora-da-lei é um alvo legítimo para a bala de qualquer um.
Ah, o que seria da nossa família sem o moralista? Foi sempre ele o nosso esteio, nosso apoio, nosso amigo; hoje ele é nosso único amigo.
Sempre que se falou em assassinato, ele avançou e nos salvou com a máxima proverbial: “Controlai-vos: ninguém jamais conquistou algo politicamente valioso pela violência”. É até possível que ele acredite.
Porque ele não tem na cabeceira um livro infantil de história do mun-do para aprender que essa máxima contraria as estatísticas. Tomun-dos os tronos foram estabelecidos pela violência; nenhuma tirania real
ja-mais foi derrubada sem violência; pela violência meus pais fundaram nosso trono; pelo assassinato, traição, perjúrio, tortura, banimento e prisão eles o mantiveram durante quatro séculos, e pelas mesmas ar-tes eu o mantenho hoje. Jamais existiu um Romanoff culto e experien-te que não reverexperien-tesse aquela máxima, dizendo: “Nada politicamenexperien-te valioso foi conquistado sem violência”. O moralista percebe que hoje, pela primeira vez na nossa história, meu trono está em real perigo e a nação acorda da imemorial letargia da escravidão; mas ele não enten-de que isso se enten-deve a quatro atos enten-de violência: o assassinato da Consti-tuição finlandesa por minha mão; o assassinato de Bobrikoff e Plehve por assassinos revolucionários; e o massacre de inocentes que ordenei outro dia. Mas o sangue que flui nas minhas veias – sangue informa-do, treinainforma-do, educado por suas heranças terríveis, sangue alertado por suas tradições, sangue que ao longo de 400 anos freqüentou a escola nas veias de assassinos profissionais, meus predecessores – ele percebe, ele entende! Aqueles quatro atos provocaram uma comoção no fundo inerte e escuro do coração nacional que moralista algum teria conse-guido; acordaram o ódio e a esperança naquele coração há tanto tem-po atrofiado; e, tem-pouco a tem-pouco, lenta, mas seguramente, aquele senti-mento há de penetrar em todos os peitos, e possuí-los. No devido tem-po, até mesmo no peito dos soldados – dia fatal, dia do juízo! Pouco a pouco haverá resultados! Como o moralista acadêmico conhece pou-co a tremenda força moral do massacre e do assassinato! De fato, ha-verá resultados! A nação está em parto; e logo haha-verá um portentoso nascimento – PATRIOTISMO! Dito com palavras rudes, simples e desagradáveis – o verdadeiro patriotismo, patriotismo real: lealdade, não a uma família e a uma ficção, mas lealdade à própria nação!
Existem 25 milhões de famílias na Rússia. Existe um homem-crian-ça no colo de toda mãe. Se esses 25 milhões de mães patriotas ensinas-sem diariamente a esses homens-crianças, dizendo: “Lembre-se ensinas- sem-pre disto, asem-prenda de cor, viva por isto, se for necessário, morra por isto: nosso patriotismo é medieval, velho, obsoleto; o patriotismo moderno, o verdadeiro patriotismo, o único patriotismo racional, é a lealdade à Nação TODO o tempo, lealdade ao Governo quando ele a
merecer”. Quando, em uma geração, houver 25 milhões de patriotas ensinados e treinados nesta terra, meu sucessor há de pensar duas ve-zes antes de mandar assassinar mil pobres e indefesos cidadãos que imploram humildemente bondade e justiça, como eu mesmo fiz ou-tro dia.
[Faz uma pausa e reflete] Bem, talvez eu tenha sido afetado por esses recortes deprimentes de jornal que encontrei sob o travesseiro.
Vou ler e ponderar mais uma vez. [Lê]
MULHERES POLONESAS AÇOITADAS Mulheres de reservistas tratadas com hor-rível brutalidade – Pelo menos uma foi morta.
Telegrama especial do NY Times
Berlim, 27 de novembro. Enfurecidas por-que as tropas polonesas se recusaram a abandonar mulheres e filhos, as autorida-des russas em Kutno, uma cidade na fron-teira polonesa, trataram o povo de forma quase incrivelmente cruel.
Sabe-se que uma mulher foi açoitada até a morte e que muitas outras foram feridas.
Cinqüenta pessoas foram atiradas na mas-morra. Alguns dos prisioneiros foram tor-turados até a inconsciência.
Ainda faltam detalhes das brutalidades, mas parece que os cossacos arrancaram os reser-vistas dos braços de suas mulheres e filhos e depois açoitaram as mulheres que seguiram os maridos até a rua.
Quando os reservistas não eram encontra-dos, suas mulheres eram arrastadas pelos ca-belos para a rua e lá açoitadas. O oficial co-mandante do distrito e o coronel de um re-gimento ficaram observando enquanto tudo isso acontecia.
Uma menina que havia ajudado a distribuir panfletos socialistas foi tratada com terrível atrocidade.
CZAR É O UNGIDO DO SENHOR Povo passa a noite orando e jejuando antes de visita de Sua Majestade a Novgorod.
London Times – NY Times. Telegrama especial.Copyright 1904, NY Times Londres, 27 de julho. Os correspondentes russos do London Times informam que o seguinte extrato do Peterburger Zeitung, que descreve os atos recentes do czar em Novgo-rod, mostra um exemplo típico da adulação servil que os súditos do czar consideram necessária.
“A bênção dos soldados, que se ajoelharam devotamente diante de Sua Majestade, foi um espetáculo comovente. Sua Majestade ergueu bem alto o ícone sagrado e deu em voz alta uma bênção em seu nome e no da Imperatriz.
“Milhares choraram de emoção e de êxtase espiritual. Alunas de escolas femininas es-palharam rosas no caminho do monarca.
“As pessoas se comprimiram até a carrua-gem para guardar indelevelmente na memó-ria as feições sagradas dos Senhores Ungi-dos. Muitas pessoas haviam passado a noite rezando e jejuando para serem dignas de olhar o rosto de sua Majestade com a alma pura e sem pecado.
“Há grande entusiasmo na felicidade assim oferecida ao povo.”
[Comovido] Que vergonha!... Que tristeza!... Como é grotesco!...
E pensar que fui eu quem fez todas essas crueldades. Não há como evitar a responsabilidade pessoal – fui eu quem fez isso a elas. E fui quem recebeu aquela adoração rastejante e aterrorizada! Eu – esta coi-sa no espelho – esta cenoura! Com uma mão eu açoitei uma mulher inocente até a morte e torturei prisioneiros até a inconsciência; e com a outra eu ergui um fetiche até o Deus meu colega no céu e invoquei sua bênção para os meus adorados animais, aos quais, e a cujos ances-trais, com Sua sagrada aprovação, eu e os meus ensinamos as dores do inferno ao longo de quatro longos séculos. É um quadro! Pensar que esta coisa no espelho – este vegetal – é a divindade aceita de uma na-ção poderosa, de uma hoste incontável, e ninguém ri; e ao mesmo tempo é um demônio profissional prático, e ninguém se espanta, nin-guém descobre as incongruências nem as incoerências! Será que a raça humana é uma piada? Será que ela foi inventada e construída numa época de ócio em que não havia nada para fazer? Será que ela não tem o menor respeito por si mesma?... Acho que meu respeito por ela está decaindo, acabando – e junto vai o meu respeito por mim mesmo. Só existe uma solução – Roupas! Roupas que revivem o respeito e reani-mam o espírito! O melhor presente dos céus ao homem, sua única proteção contra o autoconhecimento: elas o enganam, conferem-lhe dignidade, pois sem elas ele não a tem. Como são caridosas as roupas, como são bondosas, poderosas, como são inestimavelmente precio-sas! As minhas são capazes de expandir um zero até um portento que assombra o mundo; elas cobram o respeito do mundo inteiro – inclu-sive o meu, que está acabando. Vou me vestir.
Discurso proferido em 1905 por ocasião de um espetáculo em benefício dos russos, que naquele momento passavam pelos terríveis episódios do massacre e da repressão ao movimento revolucionário abortado. O evento contou com a participação de Sarah Bernhardt, atriz francesa considerada a diva do teatro europeu daquele momen-to. Após reverenciar o talento e a beleza da atriz, Twain discorre sobre o tema da oportunidade perdida, ilustrando-a com uma espécie de parábola que, lida à luz dos acontecimentos políticos da Rússia na-quele momento, constitui-se numa inequívoca alusão de solidarieda-de à causa revolucionária.
No dia 18 de dezembro de 1905 houve um espetáculo no cassino em benefício dos russos sofredores. Depois da apresentação, o Sr.
Clemens falou.
Senhoras e senhores,
Parece uma crueldade infligir a uma audiência como esta a nossa rude língua inglesa, depois de termos ouvido um divino discurso fluin-do na lúcida língua gaulesa.
Ela sempre me maravilhou – a língua francesa; sempre foi um mistério para mim. Como é linda. Como parece expressiva. Como é cheia de graça.
E, quando vem de lábios como esses, como é eloqüente e líquida.
Mas, oh, para mim é sempre um desapontamento, sempre espero ser capaz de entendê-la.