Seguindo o Equador (Following the Equator), publicado em 1897, é um extenso relato da turnê mundial empreendida por Twain entre 1895 e 1896, realizando conferências sobre a Índia, a Austrália e a Áfri-ca do Sul.
A turnê era uma forma de ajudá-lo a reerguer-se financeiramente após a derrocada financeira sofrida por ocasião do fechamento de sua editora e das dívidas contraídas em razão de seu equivocado investi-mento na máquina de linotipos criada por seu amigo Paige.
O ponto de partida da viagem foi Paris. Por ocasião de sua passa-gem por Nova York, sua mulher Olívia e sua filha Clara decidiram juntar-se a ele e acompanhá-lo no restante da jornada.
A família partiu de Nova York acompanhada do major Pond, res-ponsável pela organização da porção norte-americana da excursão.
Após pararem durante algum tempo na Colúmbia Inglesa, os viajan-tes prosseguiram na direção do Pacífico e, evitando o Havaí, nesse momento dizimado por uma epidemia de cólera, singraram na dire-ção das Ilhas Fiji, da Austrália e da Tasmânia, encaminhando-se em seguida para Nova Zelândia, Ceilão2 e Índia.
Todo homem é uma lua e tem um lado oculto que nunca revela a ninguém.
Pudd’nhead Wilson’s New Calendar3
1. Capítulos LXVI e LXVII de TWAIN, Mark. Following the Equator – A Journey Around the World. Nova York, Dove, 1989.
2. Atual Sri Lanka. (N.T.)
3. O Novo Calendário de Wilson Cabeça de Pudim. (N. T.)
Quando, no ano passado, escrevi no meu caderno de notas o pa-rágrafo que encerra o capítulo anterior, tentava mostrar, de forma ex-travagante, duas coisas: a natureza conflituosa da informação relativa à política sul-africana oferecida pelo cidadão a um estrangeiro e a con-fusão resultante que se cria na mente do estrangeiro.
Mas hoje ela já não parece tão extravagante. Naquele tempo agita-do, a política sul-africana não era clara nem racional para o cidadão do país, porque seus interesses pessoais e seus preconceitos políticos não o permitiam; e não poderia ser clara ou racional para o estrangei-ro, pois suas fontes de informação eram o que eram.
Passei pouco tempo na África do Sul. Quando lá cheguei, o cal-deirão político estava fervendo. Quatro meses antes, Jameson e seus oficiais haviam atravessado a fronteira do Transvaal com cerca de 600 homens em armas, para “resgatar as mulheres e crianças” de Johannesburgo; no quarto dia de marcha, os bôeres já o haviam der-rotado em batalha e levado presos ele e seus homens para Pretória, a capital; o governo bôer havia devolvido Jameson e seus homens ao governo britânico para serem julgados, e os havia enviado para a In-glaterra; em seguida, mandara prender 64 cidadãos importantes de Johannesburgo como conspiradores e condenara seus quatro líderes à morte, comutando depois a sentença, e agora os 64 esperavam, presos, novos resultados. Antes do final do verão estavam todos livres, com exceção de dois que se recusaram a assinar o pedido de libertação; 58 haviam sido multados em 10 mil dólares, e os quatro líderes em 125 mil dólares, sendo que um deles recebeu também a pena de exílio per-pétuo.
Foram dias extremamente interessantes para um estrangeiro, e tive sorte de estar bem no meio da ação. Todo mundo falava, e eu esperava em pouco tempo entender completamente um dos lados da questão.
Mas fiquei desapontado. Havia singularidades, perplexidades, inexplicabilidades que não fui capaz de dominar. Não tinha acesso pessoal aos bôeres; além do que consegui entender das declarações publicadas, o lado deles era para mim um segredo. Logo descobri que minhas simpatias se dirigiam aos reformadores presos em Pretória,
seus amigos e sua causa. Pesquisando diligentemente, descobri, apa-rentemente, todos os detalhes de seu lado da questão, com uma única exceção: o que eles esperavam de um levante armado.
Ao que parece, ninguém sabia.
A razão da insatisfação dos reformadores e da sua disposição de mudar parecia clara. Dizia-se em Johannesburgo que os uitlanders (es-trangeiros) pagavam treze quinze avos dos impostos do Transvaal e ainda assim pouco recebiam em retorno. A cidade não tinha uma lei orgânica; não tinha governo municipal; não tinha o poder de cobrar impostos para drenagem, fornecimento de água, pavimentação, lim-peza urbana, esgoto sanitário ou polícia. Havia uma força policial, mas era composta por bôeres e mantida pelo governo do Estado, portanto a cidade não tinha controle sobre ela. A atividade mineradora era ex-tremamente custosa; o governo ainda aumentava mais os custos im-pondo pesados tributos às minas, sobre a produção, o maquinário, impostos pesados sobre os insumos, fretes altos. E, mais difícil de su-portar, o governo se reservava o monopólio da dinamite, insumo es-sencial, pela qual cobrava um preço exorbitante. O holandês detestado vindo do outro lado da água controlava todos os cargos públicos. O governo era assolado por enorme corrupção. O uitlander não tinha direito a voto e só o conquistava depois de 10 ou 12 anos de residência no estado. Não tinha representação no Raad (Legislativo), que o opri-mia e explorava. Não havia escolas de língua inglesa, e ainda assim a grande maioria da população branca do estado não falava outra lín-gua. O estado não tinha legislação de controle à bebida, mas permitia o comércio de um destilado barato para os negros, e o resultado é que 25% dos 50 mil negros empregados nas minas passavam a maior parte do tempo bêbados e incapacitados para o trabalho.
Pronto. Estava claro que, se as queixas apresentadas fossem reais, eram abundantes e razoáveis as razões para reivindicar mudanças.
O que os uitlanders queriam era a reforma, sob a República exis-tente.
O que propunham fazer era garantir tais reformas por orações, petições e persuasão.
E petições foram apresentadas. E publicaram um manifesto, cuja primeira frase era uma clarinada pela lealdade: “Queremos que esta república se estabeleça como uma verdadeira república”.
Poderia ser mais clara a relação das opressões e dos sofrimentos impostos aos uitlanders? Existiria algo mais leal, respeitoso e cidadão do que a atitude que expressavam em seu manifesto? Não. Tudo isso estava perfeitamente claro, perfeitamente compreensível.
Mas é aqui que começam a se acumular os mistérios, confusões e dúvidas. Acabamos de chegar a um ponto incompreensível.
Pois então se descobre que, em preparação para esta tentativa leal, legal e por todos os títulos normal de convencer o governo a dar solu-ção às suas queixas, os uitlanders haviam contrabandeado para a cida-de uma metralhadora Maxim e 1.500 mosquetões, que ficaram escon-didos em tanques de óleo e vagões de carvão, e haviam começado a formar e treinar companhias militares compostas de funcionários, comerciantes e cidadãos em geral.
O que estavam pensando? Que os bôeres os atacariam por terem apresentado requerimentos pedindo soluções? Impossível.
Acreditariam que os bôeres os atacariam por terem publicado um manifesto em que exigiam soluções a serem oferecidas pelo governo existente?
Aparentemente sim, pois o ar estava carregado de boatos sobre obrigar o governo a apresentar soluções, caso ele não o fizesse espon-taneamente.
Os reformadores eram homens de grande inteligência. Se falavam a sério, estavam correndo riscos extraordinários. Tinham proprieda-des extremamente valiosas a defender; a cidade estava cheia de mulhe-res e crianças; nas minas havia milhamulhe-res de negros fortes. Se os bôemulhe-res atacassem, as minas seriam fechadas, os negros sairiam em bandos para se embebedar; haveria desordens e lutas, e os bôeres poderiam impor aos reformadores, num único dia, perdas em dinheiro, sangue e sofrimento superiores aos ganhos auferidos em dez anos das espera-das compensações políticas, caso vencessem a luta e assegurassem as reformas.
Estamos em maio de 1897; já se passou um ano, e as confusões daquele dia já foram em grande parte esclarecidas. O Sr. Cecil Rhodes, o doutor Jameson e outros responsáveis pelo ataque já depuseram pe-rante a Comissão Parlamentar de Inquérito em Londres, e o mesmo fizeram o Sr. Lionel Phillips e outros reformadores de Johannesburgo, parteiros de uma revolução natimorta. Esses testemunhos muito es-clareceram. Três livros também lançaram luz sobre a questão: A África do Sul tal como é, do Sr. Statham, um escritor de grande competência que se alinha com os bôeres; A história de uma crise africana, do Sr.
Garrett, brilhante escritor que apóia Rhodes; e O papel de uma mu-lher na revolução, da Sra. John Hays Hammond, uma diarista vigoro-sa, que apóia os reformadores. Depois de fundir a evidência apresen-tada nos livros tendenciosos e nos depoimentos igualmente tenden-ciosos, e derramar o líquido resultante nos meus próprios moldes ten-denciosos, cheguei à verdade daquela intrigante situação sul-africana, que é a seguinte:
Os capitalistas e outros cidadãos de peso de Johannesburgo so-friam sob vários encargos impostos pelo Estado (A República Sul-Afri-cana, também chamada de “Transvaal”) e desejavam obter por meios pacíficos a modificação das leis.
O Sr. Cecil Rhodes, chefe do governo da colônia britânica do Cabo, milionário, fundador e diretor gerente da territorialmente imensa e financeiramente improdutiva South Africa Company, criador de am-biciosos esquemas de unificação e consolidação de todos os Estados sul-africanos numa comunidade ou império à sombra e sob a prote-ção da bandeira inglesa, acreditou ver uma oportunidade de usar pro-dutivamente a insatisfação uitlander mencionada acima – fazer o gato de Johannesburgo tirar das brasas a sardinha de seu projeto de conso-lidação. Com este objetivo ele assumiu a tarefa de fermentar as peti-ções e os requerimentos legais e legítimos dos uitlanders, transfor-mando-os num discurso sedicioso, e suas queixas em ameaças, cujo resultado final seria a revolta e a rebelião armada. Se conseguisse cau-sar um confronto violento entre aquelas pessoas e o governo bôer, a Grã-Bretanha seria chamada a intervir; os bôeres resistiriam à
inter-venção; ela os atacaria e incorporaria o Transvaal às suas colônias sul-africanas. Não era uma idéia idiota, era prática e racional.
Depois de dois anos de cuidadoso planejamento, o Sr. Rhodes foi recompensado; o caldeirão revolucionário fervia em Johannesburgo, e os líderes uitlanders apoiavam suas reivindicações ao governo – trans-formadas agora em exigências, em ameaças de agir pela força e derra-mar sangue. Em meados de dezembro de 1895 a explosão parecia imi-nente. O Sr. Rhodes colaborava diligentemente de seu posto distante na Cidade do Cabo. Comprava armas para Johannesburgo; tomava providências para mandar Jameson cruzar a fronteira e marchar até Johannesburgo à frente de 600 cavaleiros. Jameson, provavelmente seguindo instruções de Rhodes, solicitou aos reformadores uma carta pedindo-lhe que viesse em seu socorro. Outra boa idéia. Grande parte da responsabilidade pela invasão seria dos reformadores. A carta che-gou, a carta famosa em que lhe era implorado que viesse em socorro das mulheres e crianças. Ele a recebeu dois meses antes de partir. Mas os reformadores, ao que parece, pensaram melhor e decidiram que não haviam agido ponderadamente, pois um dia depois de enviar a Jameson o documento incriminador eles já queriam retirá-lo e deixar mulheres e crianças em perigo; mas foram informados de que já era tarde. O original já havia sido enviado ao Sr. Rhodes na Cidade do Cabo. Jameson guardara apenas uma cópia.
A partir daquele dia, e até 29 de dezembro, os reformadores se afanaram energicamente para evitar a vinda de Jameson. A invasão de Jameson havia sido fixada para o dia 26. Os reformadores não esta-vam prontos. A cidade não estava unida. Alguns queriam a paz, e ou-tros um novo governo, uns queriam a reforma do governo existente;
aparentemente poucos queriam realizar uma revolução que interessa-va à bandeira imperial – britânica – e era apoiada por ela; ainda assim começou a circular a notícia de que a ajuda embaraçosa oferecida pelo Sr. Rhodes tinha esse objetivo.
Jameson já estava na fronteira, o freio nos dentes, ansioso para cruzá-la. Depois de muito insistir, os reformadores conseguiram um pequeno adiamento, mas insistiam num adiamento de 11 dias.
Apa-rentemente, os agentes de Rhodes apoiavam esses esforços – na verda-de sobrecarregaram o telégrafo tentando fazê-lo voltar. Rhoverda-des era o único homem em condições de efetivamente reter o avanço de Jameson, mas isso seria desvantajoso para seus planos; na verdade, dois anos de trabalho seriam perdidos.
Jameson agüentou durante três dias, depois decidiu não esperar mais. Sem outra ordem que não o significativo silêncio do Sr. Rhodes, ele cortou os fios do telégrafo no dia 29 e avançou naquela noite, cor-rendo a socorrer as mulheres e crianças, atendendo a uma carta rece-bida nove dias antes – considerada a data – mas realmente datada de dois meses antes. Leu a carta para seus homens, que ficaram sensibili-zados. Nem todos ficaram igualmente sensibilisensibili-zados. Alguns viram nela uma pirataria de duvidosa sabedoria e não gostaram de saber que haviam sido reunidos para atacar um território amigo, quando espe-ravam atacar os kraals nativos.
Jameson teria de percorrer cerca de 250 quilômetros. Sabia da exis-tência de suspeitas a seu respeito no Transvaal, mas esperava chegar a Johannesburgo antes que elas se generalizassem e criassem empeci-lhos. Mas um dos fios do telégrafo não havia sido cortado. E a notícia da invasão se espalhou, e poucas horas depois do início da marcha os fazendeiros bôeres já acorriam de todas as direções para interceptá-lo.
Tão logo souberam que ele estava a caminho para salvar as mulhe-res e crianças, o povo agradecido colocou as mulhemulhe-res e crianças num trem e despachou-as para a Austrália. Na verdade, a aproximação do salvador de Johannesburgo criou pânico e consternação, e uma multi-dão de homens pacíficos correram para os trens como uma tempestade de areia. Os primeiros tiveram sorte; garantiram seus lugares e neles ficaram sentados desde oito horas antes da partida do primeiro trem.
O Sr. Rhodes não perdeu tempo. Enviou por cabo a famosa carta de Johannesburgo para a imprensa de Londres, a mais velha fábula a correr pelos cabos.
O novo poeta laureado não perdeu tempo. Produziu um poema emocionante em louvor do heroísmo de Jameson ao correr imediata-mente em socorro das mulheres e crianças; pois o poeta, enganado
pela falsa data da carta, dia 20 de dezembro, não poderia saber que ele esperou durante dois meses antes de partir.
Jameson foi interceptado pelos bôeres no dia de Ano-Novo e se rendeu no dia seguinte. A cópia da carta estava em seu poder, e ele tinha instruções, que foram lealmente obedecidas, de, se as condições assim o determinassem, fazer que ela caísse nas mãos dos bôeres. A Sra. Hammond o censura asperamente pelo suposto descuido e acen-tua seus sentimentos em itálicos ardentes: “Ela foi encontrada no campo de batalha dentro de um alforje de couro que supostamente equipava a sela do Sr. Jameson. Em nome da discrição e da honra, ele deveria tê-la engolido! ”.
Ela está exigindo demais. Ele não estava a serviço dos reformadores, ou estava apenas ostensivamente; estava a serviço do Sr. Rhodes. Ela era o único documento inglês claro, sem disfarces de códigos nem mistérios, responsavelmente assinado e autenticado, e implicava dire-tamente os reformadores na aventura, e o Sr. Rhodes não tinha o me-nor interesse em que fosse engolida.
Além disso, tratava-se apenas de uma cópia, não era o original. O original estava com o Sr. Rhodes, e ele não o comeu. Ele o enviou para a imprensa de Londres. Já havia sido lido na Inglaterra, nos Estados Unidos e em toda a Europa antes de Jameson perdê-lo no campo de batalha. Se o subordinado merecia castigo, o mandante merecia pelo menos o dobro.
Aquela carta é um documento deliciosamente dramático e mere-ce toda a sua mere-celebridade, em razão dos efeitos estranhos e variados que produziu. No curto espaço de uma semana, ela havia transforma-do Jameson em ilustre herói na Inglaterra, pirata em Pretória e um idiota indiscreto em Johannesburgo; produziu também a explosão colorida de um poeta laureado que encheu os céus do mundo de es-plendores estonteantes, e a informação de sua vinda para salvar mu-lheres e crianças tirou de Johannesburgo toda essa parcela da popula-ção. É muito, para uma carta tão antiga. Para uma carta que já tinha dois meses, ela fez maravilhas; se já tivesse um ano, teria feito mila-gres.
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Agarre primeiro o seu bôer, para depois chutá-lo.
Pudd’nhead Wilson’s New Calendar Foram dias de grande preocupação para os reformadores amea-çados.
A Sra. Hammond nos informa que no dia 31 (um dia depois de Johannesburgo tomar conhecimento da invasão), “o Comitê Refor-mador repudiou a invasão do doutor Jameson”.
E também torna pública a sua intenção de aderir ao manifesto.
E pede enfaticamente à população que evite atos abertos de agres-são ao governo bôer.
Também “distribui armas” no Palácio do Tribunal e fornece cava-los aos “voluntários recém-recrutados”.
Traz a bandeira do Transvaal para a sede do comitê, que unani-memente jura lealdade a ela, “de peito aberto e braços erguidos”.
Também manda distribuir “mil fuzis Lee-Metford” para os rebel-des.
O reformador Lionel Phillips também informa, em discurso, que a Delegação do Comitê Reformador “havia sido recebida com cortesia pela comissão do governo”, e “dela recebido garantias de que suas pro-postas seriam seriamente avaliadas”. E que, embora lamentasse a ação precipitada de Jameson, “o Comitê Reformador não tencionava abandoná-lo”.
A população também fica “em estado de grande entusiasmo”, e “é quase impossível controlá-la; quer sair ao encontro de Jameson e escoltá-lo em triunfo até a cidade”.
O alto comissário britânico também fez publicar, no dia 1o de ja-neiro, uma proclamação de condenação a Jameson e a todos os ingle-ses que apoiaram sua aventura.
Os reformadores ficam numa posição delicada, cheia de dificul-dades e perplexidificul-dades. Têm uma série de tarefas duras, mas claras:
Têm de repudiar a invasão, mas apoiar o invasor.
Têm de jurar lealdade ao governo bôer, mas distribuir cavalos aos rebeldes.
Têm de proibir atos abertos de agressão ao governo bôer, mas dis-tribuir armas aos seus inimigos.
Têm de evitar colisões com o governo britânico, mas apoiar Jameson e o novo juramento ao governo bôer, prestado de cabeça des-coberta e diante da bandeira.
Na medida do possível, fizeram todas essas coisas; tentaram realizá-las todas; na verdade realizaram todas, uma de cada vez, mas não multaneamente. Dada a sua natureza, era impossível que fossem si-multâneas.
Ao se preparar para uma revolução armada e ameaçar com a re-volução, estariam os reformadores blefando ou falando sério? Se esti-vessem falando sério, estavam assumindo um grande risco, como já foi mostrado. Um cavalheiro de alta posição me informou, em Johannesburgo, estar de posse de um documento impresso que pro-clamava um novo governo e indicava seu presidente, um dos líderes da reforma. Disse-me ele que aquela proclamação já estava pronta para publicação, mas havia sido retida quando a invasão fracassou. Talvez eu não tenha entendido bem, pois não vi nenhuma menção impressa a esse importante incidente.
Espero estar errado, pois, se estiver, será possível argumentar que privadamente os reformadores não falavam a sério, tentavam apenas assustar o governo bôer para forçá-lo a concordar com as reformas desejadas.
O governo bôer ficou assustado, o que era compreensível. Pois, se o plano do Sr. Rhodes era provocar uma colisão que forçasse a inter-venção da Inglaterra, a questão era muito séria. Se for possível de-monstrar que esse era também o plano dos reformadores, estará pro-vado que eles cancelaram um projeto viável, apesar da quase certeza de sofrerem pesadas perdas antes da chegada dos ingleses. Mas parece evidente que eles não tinham esse plano ou desejo. Se, quando o pior se concretizasse, eles queriam realmente derrubar o governo, preten-diam também manter seu patrimônio.
Esse plano não poderia ter sucesso. Com um exército de bôeres diante dos portões e 50 mil negros revoltados em seu meio, a probabi-lidade de fracasso teria sido muito grande, ainda que toda a cidade estivesse em armas. Com apenas 2.500 fuzis, eles não teriam a menor chance.
A meu ver, os problemas militares da situação são hoje mais inte-ressantes do que os políticos, pois, por disposição, sempre gostei de guerras. Ou melhor, de discutir guerras e de dar conselhos militares.
Se estivesse com Jameson no dia em que ele partiu, eu o teria aconse-lhado a voltar. Segunda-feira foi o dia em que ele recebeu o primeiro aviso de fonte bôer para não invadir o território amigo do Transvaal, o que demonstrava que sua invasão já era esperada. Se estivesse com ele na terça-feira, quando chegaram novos avisos, eu teria lhe repetido meu conselho. Se ainda estivesse com ele no dia seguinte – o dia de Ano-Novo –, quando recebeu a notícia de que algumas centenas de bôeres o esperavam poucos quilômetros adiante, eu não lhe teria acon-selhado, e sim ordenado a retirada. E se estivesse com ele algumas ho-ras depois, o que para mim é inconcebível, eu o teria obrigado pela força a retornar, pois essa foi a hora em que recebeu a informação de que as poucas centenas de soldados eram agora 800; e isso significava que o que já estava crescendo ia continuar a crescer.
Pois, de acordo com a autoridade do Sr. Garrett, sabe-se que os 600 de Jameson não passavam de 530, quando se descontavam os guias nativos e outros; e que os 530 consistiam principalmente de “recrutas verdes”, “soldados inexperientes”, sem treinamento, e não soldados in-gleses com experiência de batalha; e eu ainda teria dito a Jameson que aqueles rapazes eram incapazes de atirar a galope na confusão da ba-talha e que, ademais, não haveria contra quem atirar, somente rochas, pois os bôeres estariam esperando protegidos atrás das rochas, e não em campo aberto. E ainda lhe teria dito que 300 atiradores bôeres de elite, protegidos pelas pedras, venceriam com folga os seus 500 recru-tas a cavalo.