A SÍLABA ENQUANTO UNIDADE ESTRUTURAL
1 (1939)Louis Hjelmslev O objetivo deste artigo é apresentar e discutir uma definição de sílaba que publiquei em 1937.
Eis a definição: sílaba é uma cadeia da expressão que compreende um único
acento.
Como toda definição científica, esta definição de sílaba faz parte de um conjunto sistemático de definições e não seria compreendida sem se considerar o sistema em sua totalidade.
Contudo, eu não principiarei pelo desenvolvimento de toda teoria dedutiva, nem pela apresentação da série de definições mais gerais a partir das quais a definição de sílaba é deduzida. Eu principiarei por familiarizá-los com minha concepção de sílaba, de uma maneira não comprometedora, do ponto de vista teórico.
A afirmação de que a sílaba é uma cadeia da expressão não parece necessitar de maiores justificativas. Parece evidente que em todo enunciado deve-se distinguir, de uma parte, o conteúdo ou sentido e, de outra, a expressão, e segue-se que em toda língua devem ser distinguidos dois níveis: o nível do conteúdo ou, se vocês preferirem, o nível interno, e o nível da expressão ou nível externo. A sílaba pertence evidentemente ao nível da expressão, e é constituida de um número mais ou menos importante de elementos da expressão.
A sílaba não é necessariamente de natureza fônica. Em toda expressão lingüística, ou seja, em todo conjunto de sons, de caracteres escritos, de gestos, de sinais, etc., as sílabas podem ou não estar presentes, segundo a estrutura da expressão considerada. No sânscrito védico, por exemplo, onde a escrita apresenta uma manifestação gráfica dos acentos, as sílabas podem ser identificadas diretamente pelo estudo da escrita, sem nenhum conhecimento da pronúncia. Não há nenhuma razão para não considerar da mesma maneira a situação do alemão moderno, onde o sistema fônico apresenta uma manifestação fonética dos acentos e onde, consequentemente, as sílabas podem ser identificadas diretamente pelo estudo da pronúncia, sem o recurso a qualquer conhecimento da escrita. A sílaba pode ser manifestada por uma cadeia de sons, de caracteres escritos, ou de quaisquer outros símbolos utilizáveis para tal fim. A sílaba deve ser definida independentemente de sua manifestação específica.
Minha definição de sílaba como cadeia da expressão que compreende um único acento pressupõe apenas uma noção particular: o acento. Fica claro, conforme o que já foi afirmado, que a manifestação específica do acento não afeta a definição dada; caso contrário não se poderia adotá-lo como base da definição de sílaba, que deve ser estabelecida independentemente do fenômeno da manifestação. Os acentos podem ser manifestados por diferentes graus de intensidade, por diferentes graus de altura, por diferentes modificações de intensidade, por diferentes modificações de altura, por signos diacríticos de toda espécie, ou seja, por todo som ou grafia ou outro símbolo utilizável para tal finalidade.
É necessário apenas acrescentar que os diferentes graus ou modificações de intensidade ou de altura, os diferentes signos diacríticos, etc., não são lingüisticamente pertinentes a não ser que a substituição de um desses símbolos por outro seja
1 “The Syllabe as a Structural Unit”, Proceedings of the Third International Congress of Phonetic Sciences,
suscetível de provocar uma diferença de conteúdo (uma alteração no sentido). Este teste, que eu descrevi com o nome de teste de comutação, será suficiente para mostrar se uma língua possui ou não acentos e, se for o caso, qual o seu número. Em alemão, por exemplo, os graus de intensidade são “comutáveis”, suscetíveis de acarretar uma diferença de conteúdo: cp. 'hinterge:an “seguir”; hinter' ge:an “enganar”. Em francês, os graus de intensidade não são “comutáveis”, eles não são suscetíveis de acarretar uma diferença de conteúdo. Mais que isso, o francês não possui nenhum outro símbolo acentual comutável. Consequentemente, o alemão possui acentos enquanto o francês não. Sendo a sílaba definida como uma função do acento, este não pode, inversamente, ser definido como uma função da sílaba. O acento deve ser definido como uma função de outra coisa. Por função nós entendemos aqui uma dependência direta de um tipo qualquer.
O caráter funcional do acento aparece evidente com atenção a dois aspectos. De um lado, um acento está ligado a uma cadeia de outras unidades, que não são elas mesmas acentos. Em 'dvk°ta, existe um acento manifestado na pronúncia po r uma intensidade forte, e, em minha notação, por uma barra vertical, o qual nós podemos arbitrariamente denominar de acento n° 1, e existe um outro acento manifestado na pronúncia por uma intensidade fraca, e, em minha notação, por um círculo, o qual nós podemos arbitrariamente denominar de acento n° 2. No nosso exemplo, o acento n° 1 está ligado à cadeia dvk, e o acento n° 2 à cadeia ta. Já em °dvk°ta'smiθ, o acento n°
2 está ligado à cadeia dvk, assim como à cadeia ta, enquanto o acento n° 1 está ligado à cadeia smiθ. Estas cadeias, que não são elas mesmas constituidas de acentos, mas
com as quais cada acento contrai uma função, podem ser denominadas de temas
acentuais; os elementos compreendidos nestes temas acentuais podem ser
denominados de constituintes, enquantos os acentos podem ser denominados
expoentes.
De outro lado, um acento pode depender de um outro acento da mesma cadeia. Assim, em °dvk°ta'smiθ, a presença de um acento n° 2 em °dvk substituindo o acento
n° 1 deve-se à presença de um acento n° 1 em 'smiθ . Considerando agora 'dvk°ta
como uma cadeia independente, a presença de um acento n° 1 em 'dvk em vez de um acento n° 2 deve-se à presença de um acento n° 2 em °ta. Nos dois casos a dependência deve-se ao fato que o inglês não admite grupos acentuais que compreendam mais ou menos que um único acento n° 1. Decorre desta lei que um grupo acentual que possua a estrutura ' ° ' , por exemplo em 'dvk°ta'smiθ é
impossível uma vez que ele compreende mais que um acento n° 1 ('dvk°ta'smiθ
compreenderia mais do que um grupo acentual e não um único) e que um grupo acentual dotado da estrutura ° °, por exemplo °dvk°ta é impossível porque possui menos que um acento n° 1 (°dvk°ta seria parte de um grupo acentual, mas não constituiria, por si só, um grupo acentual).
Esta dependência entre acentos de uma mesma cadeia deve se aparentar a uma espécie de recção. A interdependência dos acentos, ou expoentes da expressão, não é fundamentalmente diferente da interdependência das unidades gramaticais, ou unidades do conteúdo. Assim como o nome pode possuir dois casos, onde um deve ser escolhido numa conexão e o outro em outra conexão, um tema acentual como dvk pode ter dois acentos, onde um deve ser escolhido numa conexão e outro em outra conexão. O tema acentual possui uma declinação acentual. Nunca foi admitido que possam existir fenômenos de concordância e de flexão no plano do conteúdo assim como no plano da expressão; mas isso nos parece incontestável.
A recção pode ser utilizada como critério de distinção entre constituintes e expoentes. Demos nós ao tema acentual munido de seu acento o nome de sintagma
acentual; por exemplo, em 'dvk°ta'smiθ , existem três sintagmas acentuais 'dvk, °ta, e
'smiθ. Se nós consideramos a recção que liga os sintagmas acentuais, ou as unidades
estabelecida entre os constituintes: nunca se vê o constituinde de um sintagma reger o constituinte de outro sintagma, mas sempre se observa o acento de um sintagma reger o acento de outro sintagma.
Observa-se também este tipo de recção entre as modulações. Assim, em alemão, em ( ) existem duas modulações manifestadas na pronúncia por modificações de altura ( e por barras oblíquas em nossa notação). A primeira dessas modulações pressupõe a segunda. A entoação ascendente (ou a barra inclinada para o alto) cria a expectativa de uma entoação descendente (ou uma barra inclinada para baixo). Segundo uma teoria bastante conhecida, esta é a razão pela qual a a modulação manifestada por uma entoação ascendente é empregada nas interrogações. A questão pressupõe a resposta; / pressupõe \.
Assim, as modulações são expoentes, tanto quanto os acentos. A diferença emntre as modulações e os acentos reside na extensão do tema: o tema da modulação tem uma extensão mais vasta que o tema acentual, e os acentos pertencem ao tema da modulação embora a recíproca não seja verdadeira. Mais precisamente, a diferença reside no fato que uma modulação pode ser o expoente de todo um enunciado, enquanto o acento não pode fazê-lo. Em (/), a modulação manifestada pela entoação ascendente constitui o expoente de todo um enunciado, e os acentos, assim como os constituintes, pertencem ao tema da modulação. Em (\'já:), o acento expresso pela intensidade forte deve, consequentemente, pertencer ao tema da modulação, e a modulação manifestada pelo tom descendente é o expoente do enunciado enquanto tal.
Il va sans dire que a manifestação específica não é pertinente para a definição de modulação, como também para a definição de acento. A definição é válida para toda e qualquer modulação, independentemente de sua manifestação particular na pronúncia por graus de altura, modificações de entoação, graus de intensidade, modificações de intensidade; e, na escrita, por traços de diferentes tipos, etc. As definições dadas são puramente funcionais: um expoente é tudo aquilo que é suscetível de uma tal recção entre sintagmas acentuais ou entre unidades mais amplas que os sintagmas acentuais. Um constituinte é alguma coisa que não é suscetível de submeter-se a uma tal recção. Uma modulação é um expoente que contrai uma função com um enunciado completo. Um acento é um expoente que não pode contrair uma função com um enunciado completo.
Dado que podem existir temas de diferentes extensões (temas de modulação que são mais extensos, temas acentuais que são menos extensos), segue-se que podem existir sintagmas de extensão diferente: um sintagma de modulação, ou seja, uma modulação com seu tema, possui uma extensão mais ampla que um sintagma acentual, ou seja, um acenbto com seu tema. Por razões práticas, podem ser introduzidas expressões mais sintéticas para os sintagmas de diferentes ordens: o sintagma mínimo, ou sintagma acentual pode ser denominado sintagmatema da expressão, e o sintagma de modulação pode ser denominado nexus da expressão. O sintagmatema da expressão corresponde exatamente a minha definição de sílaba como cadeia de expressão que compreende um e apenas um acento. A sílaba não é nada além do sintagmatema da expressão.
Uma vez definida a sílaba é possível distinguir dois tipos de unidades constituintes: vogais e consoantes. A vogal é definida como a unidade central mínima de um tema acentual, a consoante como a unidade periférica mínima de um tema acentual. Praticamente, as vogais podem ser definidas como as unidades mínimas capazes de constituir por si mesmas um tema acentual. A função que liga a parte central à parte periférica de uma sílaba é uma recção estabelecida no interior de um tema acentual. Ainda uma vez, a manifestação específica dos constituintes é estranha à definição: o l da palavra tcheca vlk “lobo” responde totalmente à definição de vogal no sentido funcional do termo.
Decorre da definição que existem línguas que não possuem sílabas. Uma língua sem acentos será uma língua sem sílabas. O francês constitui um exemplo disso. Na maioria das línguas sem sílabas é impossível distinguir as vogais e as consoantes. Somente podemos dintingui-las se a língua possui palavars feitas de uma única unidade constituinte, como o à e ou em francês. No caso do francês, as outras vogais podem ser distinguidas, enquanto tais, pois elas são regidas pelas mesmas consoantes que regem à e ou. Uma vez estabelecida desta maneira a diferença entre vogais e consoantes, uma unidade que não comporta mais que uma e apenas uma vogal pode ser definida como pseudo-sílaba.
Numa língua que não possui acentos nem palavras feitas de um constituinte mínimo, será por vezes possível distinguir dois tipos de constituintes examinando sua recção mútua, mas nunca será possível determinar quais deles devem ser caracterizados como vogais e quais como consoantes, e em numerosos casos a distinção em si mesma se revelará impossível. Numa língua desse tipo mesmo as pseudo-sílabas seriam praticamente inexistentes.
Isto ajuda a demosntrar que a consoante e a vogal somente podem ser realmente definidas quando a sílaba, no sentido próprio do termo, é tomada como unidade de base. Todas as nossas definições devem ser dedutivas, passando gradualmente das unidades mais amplas às unidades mais restritas. No curso da dedução, a sílaba tem um papel definido, na medida em que é pressuposta pelas definições de vogal e consoante. A sílaba é uma noção operacional, na acepção científica do termo. Tal não é o caso da pseudo-sílaba: esta noção não tem nenhuma utilidade é pode, estritamente falando, ser considerada como supérflua; ela não nos permite descobrir nada que não tenha já sido descoberto; ela nos apresenta apenas uma perspectiva diferente da recção que liga dois tipos de constituintes.
Eu desenvolverei agora sucintamente a totalidade do paradigma dedutivo que conduz à definição de sílaba e à distinção enntre vogais e consoantes.
Uma língua é uma categoria constituída de dois membros chamados planos, que são definidos como estando ligados um ao outro, de tal modo que uma unidade formada de elementos de um plano pode remeter a uma unidade constituída de elementos pertencente a outro plano.
Um destes planos, o plano pleremático, dá forma ao conteúdo, à substância ontológica; o outro, o plano cenemático, forma a expressão, à substância física (sons, escrita, gestos, etc). Cada plano é uma categoria composta de dois membros denominados espécies: os constituintes e os expoentes. Se a recção entre os “temas acentuais” ou as unidades mais amplas é chamada direção, os constituintes e os expoentes dintinguem-se pelo fato de que apenas estes últimos têm a capacidade de ser regidos. Os expoentes pleremáticos são os morfemas, os expoentes cenemáticos são os prosodemas (o termo prosodema sendo escolhido para designar tanto os elementos do acento quanto os da modulação). Cada espécie constitui uma categoria geralmente composta de dois membros chamados tipos. Os expoentes se dividem em tipos segundo a extensão de seu tema. NO caso mais frequente onde existem dois tipos de expoentes, nós temos os expoentes extensos: eles são sucetíveis de caracterizar a totalidade de um enunciado completo; e os expoentes intensos que podem apenas caracterizar uma cadeia mais restrita que um enunciado completo. Em pleremática, os membros de tipo extenso são geralmente categorias como a pessoa, a voz, a ênfase, o aspecto, o tempo, o modo; enquanto os morfemas intensos são sobretudo as categorias de caso, comparação, número, gênero, artigo. Os prosodema s correspondentes são as modulações, que são extensos, e os acentos, que são intensos. Uma unidade composta de constituintes e de expoentes é chamada
sintagma. Um sintagma caracterizado como uma unidade mínima de expoentes
sintagmatema cenemático é a sílaba. Os constituintes se dividem em dois tipos segundo sua função na unidade de base, em geral o sintagmatema.
Os constituintes – em pleremática : os pleremas, em cenemática: os cenemas – são habitualmente de dois tipos: os constituintes periféricos e os constituintes centrais. Os pleremas centrais são conhecidos sob o nome de radicais, os pleremas marginais são os derivativos. Uma unidade mínima constituída de cenemas centrais é chamada
vogal. Uma unidade mínima constituída de cenemas periféricos é chamada consoante.
Os constituintes centrais definem-se como aqueles que por si mesmos podem constituir um sintagmatema.
O paralelismo impressionante entre a estrutura dos dois planos, o plano do conteúdo e o plano da expressão corrobora grandemente o valor intrínseco de minha definição da sílaba.
A totalidade desta teoria dedutiva da pleremática e da cenemática, estabelecida por M. Uldall e por mim mesmo sob o nome de glossemática, funda as definições das formas sobre as funções que as ligam. A sílaba, a vogal, a consoante são unidades de forma funcionais e somente podem ser definidas como tal.
Mas à descrição das formas puras é possível acrescentar uma descrição das substâncias que elas informam: uma descrição do sentido e da pronúncia, da escrita, etc. Define-se por sua vez a substância a partir de relações funcionais que elas estabelecem com as formas, e elas não podem ser descritas adequadamente senão por dedução a partir das formas. Se a fonética ainda não teve êxito ao dar uma definição consequente da sílaba, da vogal e da consoante, a razão está em que estas unidades foram concebidas como puras unidades sonoras. Elas são unidades sonoras e formais ao mesmo tempo, e são unidades sonoras apenas porque são unidades formais. A sílaba fonética e a sílaba gráfica devem ser definidas como manifestações da sílaba cenemática, nas línguas onde a sílaba cenemática se realiza no sistema formal.