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Community-Based Tourism in the Citizens 'Territory of the Jalapão (TO): the Experience of Silver Quilombolas Communities e Mumbuca

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Academic year: 2021

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Resumo: este artigo tem como objetivo descrever a experiência vivida pelas co-munidades quilombolas do Prata e do Mumbuca na implantação de um projeto de turismo de base comunitária, ambas as comunidades pertencem ao Território da Cidadania do Jalapão no estado do Tocantins. A metodologia utilizada na cons-trução do trabalho foi roda de conversa, realizada com os atores das comunida-des envolvidas no projeto e a observação participante. A operacionalização dos roteiros turísticos nos moldes que foram elaborados ficou ativa por pouco tempo. Logo, a comunidade voltou a receber turistas da forma que recebia anteriormente, explorando apenas as belezas naturais. O reconhecimento pelas próprias comu-nidades da riqueza da sua identidade cultural e do potencial natural parece ser o que ficou de maior valor nessa experiência.

Palavras-chave: Turismo de base comunitária. Comunidade do Prata. Comunida-de Comunida-de Mumbuca. Jalapão.

THE EXPANSION OF HIGH EDUCATION IN THE STATE DO GOIÁS: NEW POSSIBILITIES FOR REGIONAL DEVELOPMENT

Abstract: this article aims to describe the experience lived by the quilombola com-munities of Prata and Mumbuca in the implementation of a community based tou-rism project, both communities belong to the Territory of Jalapão Citizenship in the state of Tocantins. The methodology used in the construction of the work was a talk round, carried out with the actors of the communities involved in the pro-ject and participant observation. The operationalization of the tourist routes in the molds that were elaborated was active for a short time. Soon, the community returned to receive tourists of the form that received previously, exploring only the natural beauties. The recognition by the communities themselves of the richness of their cultural identity and natural potential seems to be the most valuable in this experience.

A R

T I G O S

Maria Antônia Valadares de Souza, Nayara Silva dos Santos, Airton Cardoso Cançado

O TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA

NO TERRITÓRIO DA CIDADANIA

DO JALAPÃO (TO): A EXPERIÊNCIA

DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS

PRATA E MUMBUCA*

DOI

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Keywords: Community-based tourism; Community of the Silver; Community of Mumbuca. Jalapão. EL TURISMO DE BASE COMUNITARIA EN EL TERRITORIO DE LA CIUDADANÍA DEL JALAPÃO - TO: LA EXPERIENCIA DE LAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS PLATA Y MUMBUCA

Resumen: este artículo tiene como objetivo describir la experiencia vivida por las comunidades quilombolas del Plata y del Mumbuca en la implantación de un proyecto de turismo de base comunitaria, ambas comunidades pertenecen al Territorio de la Ciudadanía del Jalapán en el estado de Tocantins. La metodología utilizada en la construcción del trabajo fue rueda de con-versación, realizada con los actores de las comunidades involucradas en el proyecto y la obser-vación participante. La operacionalización de los itinerarios turísticos en los moldes que fueron elaborados quedó activa por poco tiempo. Luego, la comunidad volvió a recibir turistas de la forma que recibía anteriormente, explorando sólo las bellezas naturales. El reconocimiento por las propias comunidades de la riqueza de su identidad cultural y del potencial natural parece ser el que ha quedado de mayor valor en esa experiencia.

Palabras clave: Turismo de base comunitaria. Comunidad del Plata. Comunidad de Mumbuca. Jalapón.

O

Turismo brasileiro enquanto setor econômico é reconhecido como importante gerador de divisas, capaz de gerar oportunidades de trabalho e renda contri-buindo assim para a redução das desigualdades regionais e sociais em diferentes pontos do nosso território (BARTHOLO; SANSOLO; BURSZTYN, 2009). Para Zaoual (2009), nos últimos anos a demanda turística tem se tornado mais exigente, variada e variável; com isso o turismo de massa (aquele que privilegia o lucro imediato e a grande escala) perde força. Os turistas passam a procurar experiências que combinam a autenti-cidade, harmonia com a natureza e intercâmbio cultural.

É nesse contexto que o turismo de base comunitária ganha importância. Para além do as-pecto econômico ele colabora para a valorização da identidade local e contribui para a preserva-ção do “território” nos aspectos ambientais e proporciona um intercâmbio cultural. Nesse con-texto, o presente trabalho busca descrever a experiência vivida pelas comunidades quilombolas do Prata e do Mumbuca na implantação de um projeto de turismo de base comunitária. Ambas as comunidades pertencem ao Território da Cidadania do Jalapão no estado do Tocantins.

A metodologia utilizada na construção do trabalho foi roda de conversa com os ato-res das comunidades envolvidas no projeto e observação participante. De acordo Moura e Lima (2014) a roda de conversa é abordagem investigativa que busca compreender o sentido que o grupo social oferece ao fenômeno estudado. No âmbito da pesquisa é uma forma de produzir dados em que o pesquisador se insere como sujeito da pesquisa pela participação na conversa e, ao mesmo tempo, produz dados para discussão.

Neste sentindo a roda de conversa é um método que favorece a construção de uma prática dialógica em pesquisa, que possibilita o exercício de pensar compartilhado. No caso em questão, discussões nas rodas de conversa foram pautadas nas percepções que os atores locais têm sobre o projeto. As rodas de conversas nas comunidades deram ênfase nas dificuldades, nos motivos da paralização e no interesse de retomar as atividades, bem como na importância do Projeto de Turismo de Base Comunitária como alternativa eco-nômica sustentável para a comunidade.

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Já a observação participante consiste na inserção do pesquisador no interior do grupo observado, tornando-se parte dele, interagindo com os sujeitos, buscando partilhar o seu cotidiano para sentir o que significa estar naquela situação. A inserção dos autores aconteceu na oportunidade do trabalho realizado pelo Núcleo de Extensão em Desenvol-vimento Territorial.

O Projeto de que trata este artigo iniciou-se em 2014, de forma concomitante na co-munidade do Prata e na coco-munidade do Mumbuca, que ficam aproximadamente a 50 km de distância. O objetivo do projeto era ampliar a geração de renda, através da implemen-tação de atividades de ecoturismo de base comunitária, com protagonismo e integração das comunidades quilombolas do Prata e do Mumbuca. Para atingir esse fim as comu-nidades foram organizadas e qualificadas para oferecer roteiros/pacotes turísticos com atividades de baixo impacto socioambiental. De forma geral, o projeto buscou estruturar o turismo de base comunitária, organizando as atividades de alimentação, hospedagem tipo “cama e café” e passeios.

Os roteiros oferecidos davam ênfase a cultura e a identidade das comunidades e con-templavam desde visitas aos principais pontos turísticos (cachoeiras, fervedouros, Dunas e praias fluviais) a atividades cotidianas da comunidade como: descanso em redes debaixo das árvores na comunidade; visita às roças familiares com engenho de cana manual e movido a boi; conhecer a produção artesanal do tradicional tijolo de adobe, usado pela maioria da po-pulação para construção de suas casas; participar de roda de sanfona e “contação de causos”. A ideia norteadora desse artigo é que a experiência vivida pelas comunidades do território da cidadania do jalapão possa contribuir para as discussões e reflexões acerca do turismo base comunitária e também da gestão social como um campo teórico em constante debate, além de compreender o processo de construção do projeto e discutir as situações-problemas que contribuíram para o insucesso da atividade.

Além desta introdução o artigo contém cinco seções, a primeira faz uma breve caracterização do Território da Cidadania do Jalapão, na secção seguinte é apresentada a história das comunidades do Prata e Mumbuca, na sequencia é abordado a parte concei-tual do turismo de base comunitária, a quarta secção apresenta a experiência das comu-nidades quilombolas Mumbuca e Prata com o turismo de base comunitária e por fim a ultima secção aborda as considerações finais.

CARACTERIZAÇÃO DO TERRITÓRIO DA CIDADANIA DO JALAPÃO

A região denominada Jalapão leva esse nome em função da existência de uma plan-ta nativa chamada Jalapa. Esplan-ta região abrange uma área de 34.113,20 km², foi classificada como Território da Cidadania em 2009 pelo governo federal, almejando um novo modelo de desenvolvimento econômico através da redução das desigualdades sociais, com uma agenda de combate à pobreza extrema e recuperando a capacidade de planejar e investir.

O Território da Cidadania do Jalapão é formado por oito municípios: Lagoa do Tocantins, Lizarda, Mateiros, Novo Acordo, Ponte Alta do Tocantins, Rio Sono, Santa Tereza do Tocantins e São Félix do Tocantins. Nessa região vivem, de acordo com o IBGE (2010), 30.629 habitantes dos quais 11.551 vivem na zona rural, o que corresponde

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a 37,69% do total. Caracterizado por ter um IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de 0,671, médio quando comparado aos demais territórios do estado. Apresenta um coe-ficiente de Gini também classificado como médio de 0,42. A região, entretanto, apresenta desigualdades socioeconômicas bem acentuadas. A economia da região está baseada na agricultura familiar, no turismo e no artesanato de capim dourado.

A fauna e flora do território do Jalapão é rica e diversificada e sua vegetação apresenta-se como um grande mosaico de diferentes fitofisionomias, típicas do cerrado brasileiro. O Jalapão é considerado uma região de cerrado crítica e prioritária para a conservação, estudos sobre a região têm sido constantes, como o do Ministério do Meio Ambiente (2007) para seleção de áreas para conservação da biodiversidade, que considera o Jalapão como de extrema importân-cia biológica e prioritário para ações de políticas públicas para a conservação.

Atualmente, existem no território diversas unidades de conservação, que em seu todo se constituem a maior soma de áreas protegidas do cerrado brasileiro. Essas reservas compreendem várias categorias no âmbito dos poderes públicos estadual, federal e muni-cipal e da iniciativa privada, conforme quadro abaixo:

Quadro 1: Unidades de conservação no território do Jalapão (TO)

UNIDADE DE CONSERVAÇÃO LEI DE CRIAÇÃO E ÁREA DADE DE CONSERVA-CATEGORIA DE

UNI-ÇÃO Parque Nacional das Nascentes do

Rio Parnaíba (Área de 729.813,551). Decreto Federal s/n em 16/07/2002 Proteção integral

Parque Estadual do Jalapão (Área

de 158.885,5 mil hectares). Lei Estadual 1.203 de 12 de janeiro de 2001 Proteção integral

Estação Ecológica Serra Geral do

Tocantins (Área 716.306 hectares). Decreto Federal s/n em 27 de setembro de 2001, Proteção integral

APA Estadual do Jalapão

(Área 461.730,00 hectares). Lei Estadual n° 1.172 de 31 de julho de 2000, área Unidade de conservação de uso sustentável

APA Serra da Tabatinga

(Área de 35.185,10 hectares). Decreto Federal n. 99.278 de 06/06/1990 Unidade de conservação de uso sustentável

Monumento Natural Canyons e Corredeiras do Rio Sono(Área de

1.665 hectares).

Decreto Municipal Nº 034 de

02 de julho de 2012. Proteção Integral

RPPN Catedral do Jalapão (Área de

325.65 hectares )

Portaria do Ministério do Meio Ambiente/ Instituto Chi-co Mendes de Conservação da Biodiversidade Nº 58 de 27.07.2010 .

Unidade de conservação de uso sustentável. Primei-ra unidade de conservação particular do Jalapão Nota: elaboração própria com base em dados do Ministério do Meio Ambiente (2011).

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O território contempla também várias comunidades remanescente de quilombos, até o momento a Fundação Palmares reconheceu 10 comunidades: a) Comunidade Bar-ra da AroeiBar-ra que abBar-range os municípios de Lagoa do Tocantins, Novo Acordo e Santa Tereza; b) Comunidade do Povoado do Prata, em São Félix; c) Comunidades Mumbuca, Carrapato, Formiga, Ambrósio, Riachão, Rio Preto, Margens do Rio Novo e Boa Espe-rança no Município de Mateiros.

Essas comunidades são grupos que possuem culturas diferentes da cultura predo-minante na sociedade e se reconhecem como tal. Esses grupos se organizam de formas distintas, ocupam e usam territórios e recursos naturais para manter sua cultura, tanto no que diz respeito à organização social quanto à religião, economia e ancestralidade. BREVE HISTÓRICO DA COMUNIDADE DO PRATA E DA COMUNIDADE DO MUMBUCA

O Povoado da Mumbuca é constituído por um pouco mais de 100 habitantes e faz parte do município de Mateiros1 (TO). A comunidade originou-se no final do século

XIX, com a ocupação da bacia do Rio Sono por famílias de negros que fugiam de uma forte seca no sertão da Bahia e se miscigenaram com índios da região. As primeiras casas foram construídas em uma localidade repleta de “abelhas-mumbuca”, um tipo de abelha nativa, comum na região e que dá origem ao nome do povoado (FALEIRO, 2002; PIRES, OLIVEIRA, 2006).

Até a metade do século XX, o povoado era marcado por um relativo isolamento de-vido à distância da cidade mais próxima, Porto Nacional (TO), localizada a 400 quilôme-tros (PIRES; OLIVEIRA, 2006). Em 2006, a comunidade foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo (Fundação Cultural Palmares, Port. Nº 2, de 17 de janeiro de 2006).

Na Mumbuca as moradias são construídas de forma artesanal, com paredes de tijo-los de adobe, teto de palha de piaçava ou buriti, portas e janelas de buriti (quando existen-tes) e chão de terra batida. Muito recentemente, alguns moradores têm instalado piso frio e janelas de alumínio em suas casas. Geralmente, há três ou quatro cômodos, com o fogão à lenha construído na área externa. Uma sala logo na entrada, a cozinha e dois quartos.

Os terrenos de cada casa costumam ser cercados e, nos quintais, há hortas de tempe-ros, como coentro e cebolinha. Nas “roças de toco” – que envolvem a derrubada e queima da vegetação, seguindo-se de cultivo – localizadas distante das residências, são produ-zidos alimentos como feijão-andu, abóbora, melancia, arroz, mandioca, milho, banana, batata e maxixe (PIRES; OLIVEIRA, 2006). Atualmente, quase todas as casas possuem energia elétrica, serviço relativamente recente na região.

A religião, junto com a produção de artesanato, mantém a coesão social da co-munidade (FALEIRO, 2002). O Povoado da Mumbuca conta com a Associação Capim Dourado do Povoado da Mumbuca, que organiza a comercialização do artesanato de capim-dourado.

A história do artesanato e da Mumbuca é indissociável. O artesanato de capim-doura-do, no povoado é o elemento articulador da interação de seus moradores com a sociedade,

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principalmente sob a perspectiva econômica (FALEIRO, 2002). Os moradores consideram a arte de tecer o capim não só como tradição, mas também como “Dom de Deus”.

A liderança feminina é característica da comunidade Mumbuca. A sra. Guilhermi-na Rodrigues Matos, conhecida DoGuilhermi-na Miúda2, foi a grande matriarca da comunidade do

Mumbuca e considerada responsável pela disseminação do artesanato feito com capim dourado (MEDINA, 2012).

A segunda comunidade estudada é a comunidade do Prata, que faz parte do municí-pio de São Félix do Tocantins3 e se localiza próximo ao Rio Prata. É também considerada

como um remanescente de quilombo (Fundação Cultural Palmares, Port. Nº 02, de 17 de janeiro de 2006). Com cercaa de 160 habitantes a comunidade é territorialmente extensa e caracteristicamente familiar, onde a distribuição espacial dos “quinhões” segue ordena-mento de parentesco (ANJOS, 2010).

Atualmente, as moradias tradicionais, construídas com adobe e teto de palha de pia-çava, ficam ao lado das casas de alvenaria, construídas com incentivo do governo federal. Muitas famílias possuem “casas de farinha” em seus quintais, onde a mandioca é proces-sada. As residências contam com fornecimento de energia elétrica e são comuns eletro-domésticos como televisão, fogões e geladeiras. Há uma distância relativamente grande entre as casas, devido às roças, extremamente diversificadas quanto ao que produzem.

O Povoado do Prata tem uma produção agrícola diversificada, mantida principalmen-te pela mão-de-obra masculina. Os principais produtos são: arroz, feijão, mandioca, milho, cana, verduras (rúcula, alface), temperos (cebolinha, coentro, alho), berinjela, jiló, maxixe, couve, tomate, manga, pitomba, jenipapo, jaca, banana, laranja, gergelim, coco verde, den-tre outros. Da cana produzida, extrai-se a garapa para a produção de melado e rapadura. Há ainda, criação de galinhas, galinha d’angola, pecuária extensiva e apicultura. Essa produção abastece as próprias famílias e, também, é escoada para feiras em São Félix do Tocantins e, esporadicamente, para outros municípios da região.

Os moradores do Prata começaram a produzir o artesanato por volta do ano 2000 (BORGES; FILHO, 2003), com incentivos da prefeitura de São Félix do Tocantins, como estratégia de implementar o turismo do Jalapão a partir do município (FALEIRO, 2002). Assim, como na comunidade do Mumbuca, na comunidade do Prata a primeira a aprender a técnica do artesanato do capim dourado foi uma mulher, conhecida como Dona Graça, que se encarregou de repassar a técnica para outras pessoas da comunidade. Hoje a venda de artesanato de capim-dourado representa um importante complemento de renda, principalmente para as mulheres. As vendas são feitas pela Associação Comunitária dos Extrativistas, Artesãos e Pequenos Produtores do Povoado do Prata, principalmente sob encomenda, já que o local, ainda, não é foco de roteiros turísticos do Jalapão.

TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA (TBC)

O Turismo de Base Comunitária desponta como alternativa ao modelo de turismo convencional. Ele emerge dentro de uma discussão que não interpreta a prática turística apenas pela sua vertente de mercado, mas, principalmente, como fenômeno social com-plexo da contemporaneidade (IRVING, 2009).

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Na América Latina o Turismo de Base Comunitária começou suas primeiras incur-sões a partir dos anos 80 por meio do Turismo Rural Comunitário (TRC). As experiências desenvolvidas na região procuram associar belezas naturais com manifestações culturais e tem como seu principal alicerce as comunidades rurais de origem indígena, onde muitas delas, ainda, mantêm tradições pré-colombianas (MALDONADO, 2009).

As publicações assinalam que não existe uma sistematização teórica delineada so-bre TCB. Muitas são as abordagens e entendimentos que norteiam o debat e existe uma diversidade do sentido de comunidade e do próprio conceito do turismo de base comu-nitária. O dissenso em termos conceituais resulta da heterogeneidade de experiências, contextos, histórias, personagens como também da origem do território.

A extensão geográfica e a diversidade de experiências encontradas no país também colaboram para a amplitude conceitual do TBC, uma vez que este é usado para tratar de contextos tão diversos e diferentes quanto comunidades urbanas e rurais, podendo estar referido às populações tradicionais ou a amálgamas sociais compostas pelos movimentos migratórios e processos de exclusão socioe-conômicos, entre outros (LTDS, 2011, p. 07).

Embora cada conceito traga sua especificidade, as perspectivas teóricas sobre o tema apresentam similaridade de princípios e abrangem dimensões antropológicas, so-ciológicas, econômicas, políticas, históricas, psicológicas e ambientais. De um ponto de vista teórico, os pilares do TBC vem de discursões que envolvem o conceito de desenvol-vimento endógeno, abordagem bottom-up, processos de aglomeração como os clusters, arranjos e sistemas produtivos locais.

Irving (2009) elenca seis princípios básicos no conceito de TBC, são eles: base en-dógena da iniciativa e desenvolvimento local; participação e protagonismo social no pla-nejamento, implementação e avaliação de projetos turísticos; escala limitada, impactos sociais e ambientais controlados; geração de benefícios diretos à comunidade; afirmação cultural e o “encontro” como condição essencial entre visitantes e visitados.

Maldonado (2009) conceitua turismo de base comunitária como toda forma de organização empresarial sustentada na propriedade e na autogestão sustentável dos recur-sos patrimoniais comunitários, de acordo com as práticas de cooperação e equidade no trabalho e na distribuição dos benefícios gerados pela prestação dos serviços turísticos.

Bursztyn, Bartholo, Delamaro (2009) o turismo de base comunitária trata-se de outro modo de visita e hospitalidade, diferenciado em relação ao turismo tradicional, ainda que porventura se dirija a um mesmo destino. Segundo os autores o TBC buscar respeita as heranças culturais, as tradições locais e tem centralidade na estruturação de uma relação dialogal e interativa entre visitantes e visitados. “Nesse modo relacional, nem os anfitriões são submissos aos turistas, nem os turistas fazem dos hospedeiros meros objetos de instrumentalização consumista” (BURSZTYN; BARTHOLO; DELAMARO, 2000, p. 86).

Sampaio et al. (2006) diz que a existência da relação dialética entre turista e co-munidade receptora (e não a sobreposição da coco-munidade ao turista ou o turista a comu-nidade), faz deste segmento um divisor de águas . Na interação, turista e comunidade são agentes de ação sócio-econômico-ambiental que devem repensar as bases de um novo

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tipo de desenvolvimento, regulando padrões de consumo e estilos de vida e de um conjun-to de funções produtivas e socioecológicas, regulando a oferta de bens e serviços e seus impactos ambientais.

O TBC é uma prática turística que busca conciliar o desenvolvimento local e a conservação da natureza. É uma alternativa que mantém vínculos não só com a dimensão ambiental, como também com a dimensão sociocultural, através do estímulo de trocas culturais entre visitantes e moradores, podendo igualmente apontar caminhos para a me-lhoria da qualidade de vida e do bem-estar da população receptora (HALLACK; BUR-GOS; CARNEIRO, 2011).

No Brasil, a reflexão sobre o turismo de base comunitária, durante muitos anos, trazia em sua expressão um sentido marginal, periférico. As primeiras experiências foram organizadas independentemente de ações públicas, distante da realidade e das tendências de políticas públicas nacionais e internacionais. Irving (2009) diz que a realidade come-çou a mudar em meados da década de 1990, quando um movimento de pesquisadores de diferentes inserções do país levou essa discussão para o Encontro Nacional de Turismo de Base Local.

Os encontros viabilizaram a consolidação de redes não formais de pesquisadores que, a partir de então, passaram a desenvolver pesquisas em colaboração, projetos em parceria com a gestão pública e a publicar textos de referência em pesquisas sobre o tema. Mas a discursão ganhou notoriedade no país, quando o turismo passou a ser interpretado, como alternativa possível para inclusão social, participação social e governança democrá-tica se tornou prioritária no âmbito internacional (IRVING, 2009).

O edital 01/2008 lançado pelo Ministério do Turismo, voltado para o financia-mento específico do turismo comunitário, marca o mofinancia-mento em que as discursões sobre o TBC rompem as barreiras acadêmicas e passar a integrar a agenda politica e institu-cional. No edital o ministério do turismo definiu turismo de base comunitária como um modelo de desenvolvimento turístico, orientado pelos princípios da economia solidária, associativismo, valorização da cultura local, protagonizada pelas comunidades locais, visando à apropriação por parte dessas dos benefícios advindos da atividade turística (MTur, 2008).

No Brasil existem iniciativas de turismo de base comunitária em todas as regiões e diferentes fases de implantação. Mielke (2009) afirma que muitos das experiências não avançam por razões socioambientais, pois o processo de desenvolvimento está condicio-nado à existência de um ambiente politico-institucional favorável na comunidade e sua ausência dificulta o estabelecimento de relações de cooperação. E também por razão de ordem metodológica, e à falta de conhecimento do processo como um todo, principal-mente com relação à dinâmica do mercado turístico nacional e internacional.

O turismo de base comunitária na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Ma-mirauá (RDSM)4, no Estado do Amazonas é uma iniciativa no brasil reconhecida como

bem-sucedida. A atividade de ecoturismo de base comunitária começou a ser desenvolvi-da na Reserva em 1998. O objetivo era contribuir com a preservação dos recursos naturais e gerar benefícios socioeconômicos para a população de moradoras desta Unidade de Conservação (BEZERRA; OZORIO; SILVA, 2011).

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A Pousada Uacari, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mami-rauá no município de Tefé (AM), é administrada em um sistema de gestão compartilhada entre a Associação de Auxiliares e Guias de Ecoturismo da Reserva Mamirauá (AAGE-MAM) e o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Atuam na gestão da pousada oito comunidades ribeirinhas, em um sistema de rodízio, onde um grupo de pessoas trabalham por alguns dias na pousada e após esse período, outro grupo chega para os próximos (BURSZTYN, 2012).

De forma geral, as comunidades ficam envolvidas na prestação de serviços de ho-telaria, na condução de visitantes, no gerenciamento da pousada, nas tomadas de decisão através da associação local, na divisão dos excedentes gerados pela atividade, no forneci-mento de produtos agrícolas, na venda de artesanato e na recepção de turistas em visitas às suas comunidades. Além de benefícios econômicos para a comunidade a operaciona-lização do turismo de base comunitária na reserva tem proporcionado oportunidades de troca de conhecimento com outras instituições e iniciativas de Turismo de Base Comuni-tária (TBC). A atualmente o Instituto Mamirauá oferece cursos Curso de multiplicadores em turismo de base comunitária, objetivando formar multiplicadores para o manejo do recurso cênico de ambientes naturais, por meio da atividade de turismo de base comuni-tária com foco na conservação.

Apesar dos benefícios que o TBC pode oferecer às comunidade, ele não é isento de riscos, e não pode ser apregoado como uma panaceia. A comunidade deve conhecer os riscos e debater sobre estes antes de iniciar um negócio e durante todo o seu ciclo de vida, para que possa resguardar seus interesses e minimizar os efeitos indesejáveis. Mais do que uma simples abertura ao exterior, com o turismo as comunidades enfrentam uma série de desafios para os quais, muitas vezes, não estão preparadas (MALDONADO, 2009).

EXPERIÊNCIA DE TURISMO DE BASE COMUNITÁRIA NOS POVOADOS DO PRATA E DO MUMBUCA

Em 2010 o projeto Turismo de base comunitária no Território da Cidadania do Jalapão, único selecionado no estado do Tocantins, tratou da implantação do ecoturismo de base comunitária com o objetivo de ampliar a geração de renda, com protagonismo e integração das comunidades quilombolas.

A ação de promover o ecoturismo de base comunitária faz parte das estratégias de política ambiental do Ministério do Meio Ambiente voltadas para o desenvolvimento sustentável e foi implementada no âmbito das ações inseridas no Programa de Aceleração do Crescimento - PAC Social, vinculada ao Programa Territórios da Cidadania, visando estimular o desenvolvimento regional sustentável e garantir o acesso a direitos sociais em 120 territórios da cidadania que apresentam o menor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do País e baixo dinamismo econômico.

Em 2014, a Agência de Desenvolvimento Turístico do Estado fez um recorte e se-lecionou duas comunidades quilombolas, Mumbuca no município de Mateiros e Povoado do Prata no município de São Félix, para iniciar uma experiência e contou com o apoio financeiro da Secretaria de Planejamento do Estado (SEPLAN) e do Banco Mundial,

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através do Projeto de Desenvolvimento Regional Integrado e Sustentável (PDRIS). Para isso, foi contratado o Instituto Meio, através de processo licitatório, uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos com experiência em projetos de geração de renda em comunidades tradicionais.

O projeto buscou aproveitar as belezas naturais, bem típicas da região do jalapão, o patrimônio cultural das comunidades quilombolas, formado por valores, crenças, co-nhecimentos e práticas. A identidade etno-cultural, o modo de vida, a hospitalidade das comunidades e a beleza das paisagens naturais que colocam a região como um dos mais promissores locais para o desenvolvimento do ecoturismo no Estado do Tocantins.

Os aspectos considerados para justificar o projeto nas duas comunidades foram: a) o potencial da região e o fato do ecoturismo ser a segmentação de turismo que mais ganha projeção no Brasil e no mundo; b) a atividade de ecoturismo atende um nicho de mercado diferenciado, geralmente esse turista se preocupa com o consumo consciente onde a prin-cipal motivação de viagem é ter contato com a natureza e conhecer culturas diferentes; c) as atividades serão geridas pela própria comunidade (autogestão) e os equipamentos utilizados serão os mesmos utilizados nas tarefas cotidianas; d) a necessidade de incluir as comunidades no cenário atual do turismo na região do Jalapão pretende ampliar o desenvolvimento da atividade com a inclusão social das comunidades quilombolas e de exploração dos atrativos naturais, com o devido ordenamento; e) O Brasil é uma das 20 nações que integram a Força Tarefa Internacional para o desenvolvimento do turismo sus-tentável, uma iniciativa voluntária, que é liderada pelo governo da França, voltada para estimular o desenvolvimento sustentável do turismo em todo o planeta.

A implantação do projeto nas comunidades foi divido em quatro etapas A pri-meira etapa do processo foi a realização do levantamento do potencial turístico, através de oficinas participativas com as comunidades e visitas técnicas aos pontos turísticos. Posteriormente, essas informações foram sistematizadas pela equipe técnica do Instituto Meio, com a supervisão da equipe da Agência de Desenvolvimento Turístico – ADTUR. Os resultados foram apresentados para a comunidade através de oficinas participativas, momento em que foram eleitas as prioridades para a formatação de um projeto piloto de Turismo de Base Comunitária para cada uma das comunidades.

A segunda etapa do projeto foi à realização de uma visita técnica em setembro de 2014 ao Projeto Griôs de Lençóis5 desenvolvido pela associação Grãos de Luz em

Len-çóis na Bahia. A escolha do projeto Trilhas do Griôs de LenLen-çóis para a prática de

bench-marking se deu em função da similaridade das atividades desenvolvidas, principalmente

pelo motivo de ambos os projetos serem desenvolvidos em comunidades quilombolas. Para essa visita cada comunidade escolheu duas representantes, além destas foram tam-bém uma representante do Instituto Meio e uma da ADTUR.

O objetivo da visita foi proporcionar as representantes da comunidade a oportuni-dade de conhecer experiências da operacionalização turismo de base comunitária em outras localidades. Essa troca de experiência contribui para a preparação da comunidade na execução das ações definidas no âmbito do projeto de turismo de base comunitária. A visita técnica teve a duração de sete dias e todos os visitantes tiveram a oportunidade de vivenciar o dia a dia do projeto.

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Com o retorno da visita técnica, foi realizada uma oficina que estava prevista no plano de execução do projeto, onde as representantes das comunidades relataram a expe-riência vivida o que motivou a todos, pois elas assinalaram todo o potencial que a região tem para um projeto nesse segmento. Enfatizaram que, na percepção delas, a região do Jalapão apresenta até mais potencial que a região dos lençóis da Bahia.

A terceira etapa consistiu nos ajustes do projeto para as duas comunidades com a definição de objetivos, metas e indicadores, destacando o perfil ambiental, social e cul-tural de ambas.. Nesta fase, a comunidade com auxilio da ADTUR e o Instituto Meio e levando em consideração os atrativos naturais existentes nos arredores das comunidades, formataram dois roteiros/produtos turísticos (um para Mumbuca e outro para Prata).

Esses roteiros contemplavam desde visitas aos principais pontos turísticos, com cachoeiras, fervedouros, praias fluviais, a atividades cotidianas da comunidade como: descanso em redes debaixo das árvores da comunidade; caminhada na comunidade para conhecer uma roça familiar com engenho de cana manual movido a boi, passando tam-bém pela produção artesanal do tradicional tijolo de adobe, usado pela maioria da popu-lação da comunidade; participar de roda de sanfona e “contação de causos”.

Na comunidade do Prata as refeições foram programadas para serem servidas no Restaurante “Sabor do Quilombo” e na comunidade do Mumbuca no restaurante “Da To-nha” e “Dona Nem”. O cardápio foi elaborado seguindo as comidas típicas, suco de frutas do cerrado e a rapadura feita na comunidade como sobremesa.

A quarta etapa consistiu na operação teste dos dois produtos que foram aprovados pela comunidade, pela ADTUR, Prefeitura Municipal de São Félix, Prefeitura Munici-pal de Mateiros, Instituto Meio, Agência Rota da Iguana de Palmas e a Operadora de Turismo Sustentável Aoka de São Paulo. Na operação teste do roteiro a comunidade foi devidamente remunerada por todas as atividades definidas (alimentação, hospedagem, guiamento, agendamento e as demonstrações das atividades cotidianas das comunidades incluídas nos roteiros).

O projeto previu que após a fase de implantação a comunidade teria: a) uma marca definida para divulgar imagem do turismo comunitário na região do Jalapão; b) roteiros/ pacotes turísticos com atividades de baixo impacto socioambiental formatado; c) meios de hospedagem estruturados; d) prestação de serviços de alimentação organizados; e) programa de qualificação comunitária para a implementação e gestão do ecoturismo de base comunitária executado; f) parcerias comerciais realizadas; e g) ações de promoção realizadas.

Nos primeiros três meses (aproximadamente) após a operação teste dos dois rotei-ros as comunidades receberam um fluxo considerável de turistas, mas a movimentação turística e operacionalização dos roteiros nos moldes que foram elaborados ficaram ativas por pouco tempo. Logo a comunidade voltou a receber turista da forma que recebia ante-riormente ao projeto, explorando apenas as belezas naturais do território.

Economicamente a atividade turística nas comunidades quilombolas do Prata e Mumbuca, fora do conceito de turismo de base comunitária, não gera o mesmo retorno para as comunidades, visto que a principal empresa turística que operacionaliza essa rota tem uma logística de transporte própria e fornece hospedagem e alimentação completa

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aos turistas , não consumindo quase nada da comunidade. O que existe nesse sentindo é um pequeno retorno para comunidade, através das compras que os turistas fazem do artesanato em capim dourado.

De forma geral na Comunidade do Prata o processo de visitação praticamente nasceu com um conceito de Turismo de Base Comunitária. Antes do projeto os turis-tas visitavam somente os pontos turísticos ( fervedouros, cachoeiras ) e não existia um ponto/ um momento onde o turista realmente encontrava-se com a comunidade, com a história e saberes locais. Com o projeto a associação, antes utilizada apenas como ponto de venda do artesanato de capim de dourado e dos produtos típicos da região, com o óleo natural de buriti, rapadura, teve sua estrutura adaptada para hospedar os turistas, oferecer alimentação e atividade cultural possibilitando uma vivência maior dos turistas. A co-munidade do Prata partilhou mais de conceitos básicos de turismo de base comunitário, teve a ideia de autogestão, da divisão de tarefas , do compartilhamento comunitário mais difundida. A comunidade reconhece que o turismo neste formato pode ser uma atividade capaz de conciliar a conservação da biodiversidade e o desenvolvimento de uma alterna-tiva econômica que beneficia a manutenção da cultura local.

Nas rodas de conversas, realizadas aproximadamente um ano depois em que o ro-teiro deixou de ser operacionalizado, a comunidade demonstra o desejo de retomar a operacionalização do ecoturismo, conforme o definido no projeto. Questionada sobre os principais problemas do projeto a comunidade de forma geral reconhece que a descon-tinuidade do projeto é decorrente da falta de apoio do poder público, da falta de interesse/ dedicação de parte da comunidade e também das empresas operadoras de turismo na região em não estabelecer parcerias, visto que elas já “exploram” sem pagar nada para a comunidade.

Já nas Rodas de Conversas com a Comunidade Mumbuca, também realizadas um ano depois em que o roteiro deixou de ser operacionalizado, percebe-se que a comuni-dade já tinha uma vivência mais forte com o turismo, mas um turismo desenvolvimento da maneira tradicional, sem o formato de turismo de base comunitária. Mesmo antes do projeto já existia um fluxo turístico maior nessa comunidade, visto que o município de Mateiros é conhecido como o “coração” do Jalapão por concentrar a maioria dos atrativos e por ser a primeira comunidade quilombola a receber turista em função da produção do artesanato de capim dourado.

Essa relação com o turista, em função do artesanato, talvez tenha contribuído para a comunidade reduzir o olhar sobre a diversidade do seu potencial que ultrapassa significa-tivamente os limites da produção artesanal. A comunidade Mumbuca também reconhece que o turismo de base comunitária pode oferecer melhores benefícios a comunidade e ao meio ambiente. E aponta a falta de apoio do poder público e das empresas operadoras como as principais responsáveis pela descontinuidade do projeto, assim como a comuni-dade do Prata.

As duas comunidades enfatizam que a descontinuidade do projeto deu-se mais por falta das ações do poder público, especialmente pela não divulgação adequada desse produto turístico que tem um nicho de mercado, tanto no Brasil como no exterior o que demonstra que a comunidade, ainda, não se encontra preparada para caminhar sem a

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tu-tela do estado. As comunidades quilombolas Mumbuca e Prata estão dispostas a continuar os enfrentamentos para desenvolvimento de uma atividade com potencial significativo no Território da Cidadania do Jalapão e que pode ser ampliada para outras comunidades.

De forma geral, percebe-se que ambas as comunidades enfrentam as mesmas situa-ções problemas que ocasionam a descontinuidade dos projetos que são: a dificuldades para acessar o mercado; o estabelecimento de parcerias e gestão interna. Segundo Mielke (2009) a maioria dos projetos de TBC no Brasil enfrenta esse mesmo quadro de proble-mas. E segundo o autor a ineficácia de um ou mais destes processos faz com que mais de três quartos dos projetos de TBC sejam frágeis e/ou insustentáveis a longo prazo.

O acesso ao mercado torna-se um problema quando as relações com os canais de distribuição não estão estabelecidas, não estão claros ou não há recursos para saber onde está e como atrair o público de interesse.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O potencial natural, o patrimônio cultural e a identidade local foram alguns dos fatores que motivaram o projeto de turismo de base comunitária nas comunidades tradi-cionais Mumbuca e Prata. O objetivo era valer-se do potencial turísticos e cultural da re-gião para contribuir com o rompimento do ciclo de pobreza que essas comunidades estão expostas. De forma geral, o projeto foi elaborado e executado com a intenção de habilitar as comunidades na condução de todo o processo.

Neste sentindo Cançado, Sausen e Villela (2013, p.19) argumentam que “a gestão social se configura como um processo de construção da emancipação do ser humano. Emancipação entendida como livrar-se da tutela de alguém e buscar autonomia”. O obje-tivo fim do projeto era emancipar as comunidades na capacidade de conduzir o processo. Nesse sentindo, o objetivo não foi de um todo alcançado, pois com o fim do acompanha-mento do poder público (tutela) as atividades perderam a continuidade. Os roteiros se encontram parcialmente desativados e as atividades, hoje, caminham pela casualidade e são executadas de “maneira informal”, sem programação definida.

A capacidade autogestionária da comunidade pode ser apontada como um dos prin-cipais gargalos dessa experiência, sendo esse o principal desafio para o desenvolvimento sustentável do projeto, visto que a dependência de uma equipe condutora externa torna o processo fragilizado. A autogestão implica na participação de seus membros em todas as fases da operação turística: planejamento, prestação de serviços ao turista, promoção e venda do produto e gestão.

É certo que a comunidade não conseguiu sua independência na gestão do projeto, mas não deve ser a ela imputada toda culpa, pois o Estado no ato de elaboração do projeto se propôs a acompanhar o desenvolver das atividades (o período de acompanhamento não foi definido de forma clara) e prestar toda uma assessoria no processo. Além da falta de assistência, a saída da figura do Estado foi abrupta, quando na verdade estava programada para ser gradativa.

Atualmente, o projeto encontra-se em uma fase de “reestruturação”, mas passa a fazer parte das estatísticas brasileiras que mostram a falta de continuidade de projetos públicos, mesmo sendo elaborado de forma participativa com a comunidade.

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A experiência das comunidades do Prata e Mumbuca, ainda, não podem registrar um típico “final feliz”, mesmo diante de tanto potencial. Mas, é importante ressaltar que a experiência foi importante para comunidade, para a sua percepção e convivência com pessoas de outras culturas, de “outros mundos”. Pessoas que tem interesse naquilo que parece simples e sem valor - o modo de viver de comunidades quilombolas do interior do Tocantins. O reconhecimento pelas próprias comunidades da riqueza de sua identida-de cultural parece ser o que fica identida-de maior valor nessa experiência. Isso, no entanto, não quer diminuir a importância da reativação do projeto nas comunidades e sim reforça sua necessidade. Uma novela no horário nobre chamada “O Outro Lado do Paraiso” está, atualmente, realizando uma divulgação das belezas naturais do Jalapão. Apesar de não ter compromisso com a verdade e o enredo ser produto de ficção, talvez ampliar a divulgação sobre o local sem, ainda, está preparado para o possível aumento do fluxo turístico não vai contribuir para uma consolidação adequada do Ecoturismo de Base Comunitária.

Notas

1 Os Núcleos de Extensão em Desenvolvimento Territorial (NEDETs) tem o objetivo de contribuir para a consolidação da abordagem territorial como estratégia de desenvolvimento sustentável para o Brasil Rural, apoiando os Colegiados Territoriais, institucionalidades representativas dos territórios rurais que contam com a participação do poder público e da sociedade civil. Os NEDETS foram criados pela Chamada 11/2014 do CNPq em parceria com o então Ministério de Desenvolvimento Agrário – MDA. 2 Mateiros é um município brasileiro do estado do Tocantins, fica a quase 300 km da Capital do Estado.

Sua população estimada em 2004 era de 1.831 habitantes. Possui uma área de 5913,75 km². É em Mateiros que fica localizada a maior parte da região eco turística do Jalapão, sendo que o Parque Estadual do Jalapão fica integralmente localizado no município (IBGE, 2012).

3 Guilhermina Rodrigues Matos (Dona Miúda) morreu com 82 anos, em 11 de novembro de 2010, foi considerada uma das 21 mulheres da História do Tocantins, em 2009, e coroada rainha do capim dourado em festa da colheita no mês de setembro de 2010, dois meses antes de morrer (MEDINA, 2102). 4 São Félix do Tocantins é um município brasileiro do estado do Tocantins, fica 386km da Capital do

Estado. Tem população estimada de 1.831 habitantes (IBGE, 2010). Possui uma área de 1916,41 km². 5 A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamiraua, RDSM (Amazonas – Brasil) está localizada

na confluência dos rios Solimões, Japurá e Auati-Paraná. É uma unidade de conservação estadual e possui 1.124.000 de ha. Esta área foi reconhecida pela Convenção Ramsar como uma área úmida de importância mundial e é parte da Reserva da Biosfera da Amazônia. O governo do Estado do Amazonas partilha a gestão da reserva com Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá.

6 O projeto Trilhas Griôs de Lençóis/BA é promovido pela Associação Grãos de Luz e Griô, ele oferece, sob o conceito de turismo comunitário, a oportunidade de entrar em contato com as belezas naturais e os saberes na Chapada Diamantina.

Referências

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* Recebido em: 08.11.2017. Aprovado em: 20.11.2017. Este texto foi produzido no âmbito dos Núcleos de Extensão em Desenvolvimento Territorial - NEDETs, com o apoio das seguintes entidades: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq, Ministério do Desenvolvimento Agrário - MDA, por intermédio da Secretaria do Desenvolvimento Territorial – SDT e da Diretoria de Políticas para Mulheres Rurais – DPMR/SECEX/MDA e a Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República – SPM/PR.

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MARIA ANTÔNIA VALADARES DE SOUZA

Mestre em Ciências do Ambiente pela Fundação Universidade Federal do Tocantins -UFT (2006). Especialista em Planejamento e Gestão Ambiental (1999) e graduação em Bacha-relado e Licenciatura Plena em Geografia pela Universidade do Tocantins (1997). Tem experiência na área de Geografia, com ênfase em Geoecologia, atuando principalmente nos seguintes temas: gestão social, dinâmica da paisagem, meio ambiente, ecoturismo e turismo comunitário. Membro do Núcleo de Desenvolvimento Regional (NUDER) da Universidade Federal do Tocantins-UFT. E-mail: [email protected] NAYARA SILVA DOS SANTOS

Mestre em Desenvolvimento Regional na Universidade Federal do Tocantins, Especialis-ta em Gestão Pública Municipal pela Universidade Federal do Maranhão, graduada em Administração pela Faculdade Atenas Maranhense. Tem experiência na área de Adminis-tração, com ênfase em Organizações Públicas e Desenvolvimento Territorial . Atualmente é professora substituta no Instituto Federal do Ciência e Tecnologia do Tocantins. E-mail: [email protected]

AIRTON CARDOSO CANÇADO

Realizando Estágio Pós-doutoral na HEC Montreal. Doutor em Administração pela UFLA (2011), Mestre em Administração pela UFBA (2004) e graduado em Administração com Habilitação em Adm. de Cooperativas pela UFV (2003). Realizou Estágio Pós-doutoral em Administração pela EBAPE/FGV (2013). Atualmente é professor do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional, do Mestrado Profissional em Gestão de Políticas Públicas e do Curso de Administração da UFT. E-mail: airtoncardoso@yahoo. com.br

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