2. UM PERCURSO PESSOAL 1 Os primeiros anos
2.2. O profissional do riso: O teatro ligeiro
2.2.3. É preciso viver: 1948-
A primeira fase da aventura d’Os Comediantes de Lisboa terminou, como se verá, em Abril de 1947, depois da fraca recepção do público à grande montagem que representou O cadáver vivo, a que se seguiu uma curta itinerância do agrupamento por Setúbal e Alcobaça. No segundo semestre desse ano, Francisco Ribeiro regressou ao teatro de revista, fazendo no final do mesmo a sua terceira e última incursão como encenador no teatro do Centro Universitário da Mocidade Portuguesa. Até ao final de 1948, Os Comediantes de Lisboa voltaram a juntar-se. No entanto, o agrupamento já não gozava da saúde dos primeiros três anos de vida e foi assim que Francisco Ribeiro regressou às lides do teatro mais comercial.
Depois de se encarregar da direcção artística da revista O melhor do mundo, Francisco Ribeiro jogou a cartada brasileira, tal como tantos outros colegas faziam desde o século anterior44.
Quanto à comédia ligeira, só em Novembro de 1949 se voltará a encontrá-lo ao lado de Maria Matos, Vasco Santana e António Silva, como actor e encenador de mais um espectáculo baseado num texto espanhol contemporâneo, Quem manda são elas, de Carlos Llopis.
No final de 1950, definitivamente terminada a exploração d’Os Comediantes de Lisboa, Francisco Ribeiro lançou-se num novo empreendimento: uma sociedade com os actores António Silva, Laura Alves, Irene Isidro, Barroso Lopes e Carlos Alves, que explorou o Teatro Apolo durante um ano (de Novembro de 1950 a Novembro de 1951). Este conjunto de actores pôs em cena sobretudo teatro de revista, mas também uma comédia de que Francisco Ribeiro foi também co-autor, A grande mina. Esta sociedade poderá ter sido criada como reacção à falência do empresário Piero 45, que
44 Pouco se sabe sobre esta digressão de Francisco Ribeiro ao Brasil. Há todavia conhecimento que
integrou uma companhia da empresa de Piero Bernandon e que apresentou a revista Alto lá com o
Charuto!, no Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro com António Silva, João Villaret e Irene Isidro, entre outros companheiros de cena. Francisco Ribeiro regressou a Portugal com a expectativa de voltar ao Brasil para trabalhar com o jornalista, empresário e diplomata Pascoal Carlos Magno (1906-1980) no Teatro do Estudante (segundo carta à guarda do Museu Nacional do Teatro – PT/MNT/FR/196871) o que não chegou a acontecer.
45 Piero Bernardon chegou a Portugal em 1929 e começou por trabalhar como bailarino e coreógrafo do
teatro de revista. Foi o primeiro coordenador das várias componentes da revista (SANTOS 1978: 44 e 55) Com a morte do empresário António Macedo assumiu a exploração das salas de espectáculo que aquele tinha sob a sua alçada. Em 1949 surgiu a notícia de que teria fugido para o estrangeiro por se encontrar fortemente endividado. Com ele afastou-se também do nosso país, ainda que temporariamente, o talentoso cenógrafo Pinto de Campos que tinha colaborado com Piero entre 1934 e 1949. As montagens de espectáculos da sua empresa, sobretudo no que ao teatro de revista diz respeito, eram
terá deixado muitos artistas descontentes, endividados e sem trabalho. Aliás, na crítica a A grande mina, Irene Isidro é apresentada como «agenciadora do espectáculo». Na mesma crítica, Matos Sequeira considera que este espectáculo revelava um desejo de renovação que, no entanto, não se concretizou46.
Entretanto, Ribeirinho surgiu também como «director artístico» (é assim que é referido na publicidade) da comédia De braço dado (outro êxito em Espanha e na América Latina), protagonizada por Artur Semedo e Maria Lalande.
No Verão de 1951, Francisco Ribeiro foi convidado por um grupo de jovens actores para encenar mais uma comédia, desta feita Os novos patrões, de Paul Nivoix. Este colectivo, que nascera da iniciativa de Costa Ferreira e de Armando Cortez, procurou também o repertório de fácil aceitação junto do público burguês:
...passei a colaborar na busca da peça. Tratava-se de encontrar uma comédia moderna, de bom nível, mas que agradasse ao público burguês (noutro nem sequer se podia pensar).
(FERREIRA 1985: 300)
D’Os seis novos fizeram parte os actores Costa Ferreira, Fernanda Borsatti, Maria Emília Baptista, Joaquim Rosa, Armando Cortez e Pizani Burnay, quase todos alunos do Conservatório, tendo os dois últimos já trabalhado com Francisco Ribeiro no Teatro do Centro Universitário da Mocidade Portuguesa.
É nos moldes do actor-empresário e do sistema de vedetas que vai surgir em 1952 a Companhia de Comédias Vasco Santana. É possível que esta companhia tenha sido uma reacção à falência de Piero, ou ainda uma forma de pôr à prova e tirar partido dos talentos da família Santana (para além de Vasco Santana, o seu filho Henrique também encenava e representava; eJosé Manuel Santana colaborava na cenografia). Francisco Ribeiro fará parte desta companhia entre Junho de 1952 e Maio de 1954. O agrupamento apresentava como reclamo primeiro o nome de Vasco Santana, ao qual se associavam outros profissionais da comédia como Hortense Luz, Costinha e a actriz Maria Lalande, que fazia aqui mais uma das suas incursões na comédia. Este agrupamento actuou sobretudo em Lisboa, mas fez também importantes tournées pela província não apenas no Verão e uma marcante digressão estival pela Madeira e pelos Açores (1953).
frequentemente muito aparatosas. Tal como António Macedo, foi um dos grandes empregadores da classe teatral no período em estudo.
Para além de Henrique Santana, a companhia deu ainda ensejo a alguns jovens actores de pisarem o palco. Foi o caso de Maria Helena Matos, Rogério Paulo e Artur Semedo. O repertório compôs-se de comédias francesas contemporâneas, como O amor perfeito, de Jean Guiton, e as tradicionais reprises que constituíram o grosso dos espectáculos levados à cena47.
Este agrupamento correspondeu a uma fase crepuscular da carreira de Vasco Santana, a um certo cansaço e esgotamento dos seus recursos como cómico e da própria comédia tal como ela era apresentada nos palcos portugueses (TRINDADE 2008: 137). É porém verdade que deu a este actor a oportunidade de representar papéis um pouco fora do seu emploi, tais como Armando Porel em O amor perfeito (um homem que sofreu uma desilusão sentimental) e Beverley em O caso Barton (o astuto e experiente investigador que esclarece o caso policial que é a base do argumento do espectáculo), mantendo sempre, não obstante, uma dimensão cómica.
Na Companhia de Comédias Vasco Santana, Francisco Ribeiro foi apenas actor e nem sempre desempenhou papéis principais. O protagonismo foi-lhe oferecido em Andam maridos no ar, Os irmãos Meireles, O pato e O homem da massa.
A leitura da crítica confirma a desconfiança em relação à ideia de que, apesar de a estrela da companhia se encontrar numa fase já um pouco decadente, a representação se sobrepunha aos textos. Isto era uma realidade para quase todos os elementos das Companhia, mas sobretudo para os mais experientes, entre os quais se encontrava Francisco Ribeiro. Comentava Matos Sequeira a propósito de O amor perfeito:
Os três actos da comédia [...] vêem-se e ouvem-se com agrado [...] acabam sem que os espectadores tragam do teatro um ensinamento ou conselho prejudicial. O que fica a perdurar e se mantém na lembrança agradável, mais que o assunto, é a interpretação. E esta esteve ontem, no Variedades, num plano alto.
M.S. «Representações: Teatro Variedades» in O Século (07/06/52)
47 Por exemplo, O Costa de África, já tinha sido posto em cena com o título A greve geral pela
Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro (em 1924 e 1938); Os irmãos Meireles já fora apresentado como O outro eu pela Companhia Rosas & Brasão (em 1902) e pela Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro (em 1923, 1924, 195, 1942 e 1943); O caso Barton já tinha sido protagonizada por Chaby Pinheiro com o título O grande mágico; com o mesmo actor à cabeça, também se representou O
patriota, crismado pela Companhia de Comédias Vasco Santana com o nome Andam maridos no ar, ou
ainda Três rapazes e uma rapariga, estreada em 1950 na fase final d’Os Comediantes de Lisboa. Na Companhia foram ainda representadas outras comédias recorrentes na cena portuguesa como O
Conde Barão de Ernesto Rodrigues, Félix Bermudes e João Bastos (por exemplo, apresentada em 1918 pela Companhia Aura Abranches – Chaby Pinheiro e pela Companhia Maria Matos - Mendonça de Carvalho ou, em 1941 pela Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro, ou mesmo n’Os Comediantes de Lisboa) e O pato de Feydeau (por exemplo, apresentada em 1921 pela Companhia Maria Matos – Mendonça de Carvalho)