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Esse item tem como objetivo identificar como a afetividade, a partir da teoria

de Henri Wallon, contribui para o processo de conhecimento dentro da sala de aula,

tanto presencial como virtual. Isso se dá, pois, as bases da afetividade contribuem

para oferecer condições ao aluno para que ele possa se desenvolver, independente

da modalidade.

Wallon, a partir da sua psicologia genética, esperava que os resultados

desses estudos fossem aproveitados pela pedagogia como fonte de pesquisas para

a educação. Também era esperado que eles gerassem princípios que orientassem o

desempenho do professor como criador de condições promotoras do

desenvolvimento de seus alunos (MAHONEY, 2004, p.21).

Nessa relação psicologia-pedagogia, o autor está indicando que a teoria

psicológica acrescenta dados, informações relevantes para o desempenho

do professor, sem ter, entretanto, um caráter normativo, restritivo. O

desempenho do professor precisa ter consistência, organização, sugeridas

tanto por conhecimentos teóricos sobre as características de cada estágio

do desenvolvimento como pelas formas em que esses conhecimentos se

traduzem no seu comportamento e que revelam também o seu saber,

derivado de sua prática, principalmente pelos resultados obtidos na situação

concreta de sala de aula (MAHONEY, 2004, p.22).

A teoria de Wallon contribui para a compreensão do papel da afetividade na

formação do professor, no momento em que o profissional vivencia os seus

sentimentos ao longo de sua trajetória profissional. Como esse contato impacta em

suas práticas docentes e nos processos formativos pelos quais é responsável

(PLACCO, 2014, p.12), Wallon defende uma teoria que explica a dimensão afetiva e

a sua relevância para a compreensão do desenvolvimento do processo de

ensino-aprendizagem. O trecho a seguir evidencia como esse entendimento apoia

atividades de formação de professores:

O processo ensino-aprendizagem só pode ser analisado como uma

unidade, pois ensino e a aprendizagem são faces de uma mesma moeda;

nessa unidade, a relação interpessoal professor-aluno é um fator

determinante. Esses atores são concretos, históricos, trazendo a bagagem

que o meio lhes ofereceu até então; estão em desenvolvimento, processo

que é aberto e permanente. O processo ensino-aprendizagem é o recurso

fundamental do professor: sua compreensão, e o papel da afetividade nesse

processo, é um elemento importante para aumentar a sua eficácia, bem

como para a elaboração de programas de formação de professores

(MAHONEY; ALMEIDA, 2005, p. 12).

No processo de ensino aprendizagem, o professor, para construir seu

conhecimento, precisa reconhecer o processo de desenvolvimento do aluno. Wallon

explica essas diferentes dimensões e suas relações, assim como a totalidade das

pessoas que contribuem para o desenvolvimento cognitivo.

É uma teoria que facilita compreender o indivíduo em sua totalidade, que

indica as relações que dão origem a essa totalidade, mostrando uma visão

integrada da pessoa do aluno. Ver o aluno dessa perspectiva põe o

processo ensino-aprendizagem em outro patamar porque dá ao conteúdo

desse processo – que é a ferramenta do professor- outro significado,

expondo sua relevância para o desenvolvimento concomitante do cognitivo,

do motor e do afetivo (MAHONEY, 2009, p.10).

A escola é considerada um dos meios em que os indivíduos circulam e se

relacionam. Como afirma Almeida, a escola possibilita interações sociais que

desenvolvem a competência dos alunos como indivíduos e como grupo para atuar

na sociedade (ALMEIDA, 2012, p.16).

Como um espaço legitimado, é neste ambiente que o processo de

aprendizado e apropriação do conhecimento é permitido, já que ele propicia outros

movimentos, como as relações sociais, na qual a afetividade está presente. Diante

disso, pode-se afirmar que as ações dos professores afetam a aprendizagem dos

alunos e a relação que eles estabelecem com o conhecimento. Como afirma

Almeida,

Ao professor compete canalizar a afetividade para produzir conhecimento;

na relação professor-aluno, aluno-aluno, aluno-grupo, reconhecer o clima

afetivo e aproveitá-lo na rotina diária da sala de aula para provocar o

interesse do aluno (ALMEIDA, 2004, p.126).

Os alunos interpretam as (re)ações dos professores e conferem um sentido

afetivo à própria aprendizagem, ao conhecimento que circula e à sua imagem

enquanto pessoa e estudante (TASSONI, LEITE, 2013, p.263). Galvão afirma:

A perspectiva abrangente pela qual Wallon se propõe a estudar a criança

em desenvolvimento traz significativas contribuições para o modo de olhar e

compreender suas condutas no contexto escolar. Confirma a intuição de

tantos professores que se recusam a se dirigir a seus alunos como se

fossem intelectos abstratos ou sujeitos sem história. Fornece subsídios para

que se compreenda a complexidade dos planos em que se estrutura a

criança e da trama que se tece entre ela e o meio social (GALVÂO, 2003,

p.82).

Como dito anteriormente, a teoria walloniana possui seus fundamentos no

materialismo dialético que aceita o conhecimento do real, sem com isso se

conformar (ALMEIDA, 2012, p.12). A partir da visão do contexto escolar, onde

diferentes atores (como alunos e professores) se relacionam, é possível criar uma

forma de relação que compõe aspectos afetivos e cria o processo de

ensino-aprendizagem.

Se tomarmos a teoria de Wallon como instrumento para pensar as

atividades em sala de aula, poderemos afirmar que educar significa

promover condições que respeitem as leis que regulam o processo de

desenvolvimento, levando em consideração as possibilidades orgânicas e

neurológicas do momento e as condições de existência do aluno. A

essência do educar é, pois, respeitar essa integração no seu movimento

constante (MAHONEY, 2009, p.18).

Quando nos propomos a falar de afetividade no processo escolar, não

estamos considerando situações em que professores são bonzinhos, alunos se

comportam de forma adequada ou de professores que determinam limites para o

comportamento dentro da sala de aula. Na verdade, de acordo com Almeida,

trata-se de entender a afetividade dentro da teoria psicogenética, como um conjunto de

funções psíquicas que, ligado a outros conjuntos, o cognitivo e o motor, constitui a

pessoa (ALMEIDA, 2012, p. 14).

O conjunto ou a dimensão afetividade, conforme postula a teoria de

desenvolvimento de Henri Wallon, oferecem as funções responsáveis pelas

emoções, pelos sentimentos e pela paixão. Esses sinalizadores de como se

é afetado são recursos de expressão, de comunicação, de sociabilidade,

tanto para atrair como para repelir o outro. Emoções, sentimentos e paixão

diferem em níveis de duração, visibilidade, intensidade e controle: emoções,

com predominância do orgânico, têm curta duração, maior intensidade e

visibilidade, e o controle da razão sobre elas é menor; os sentimentos, com

predominância da representação, são mais duradouros, menos intensos e

mais controlados; já a paixão é encoberta com completo autocontrole sobre

o comportamento, para atingir um objetivo; é mais duradoura e mais intensa

que o sentimento (ALMEIDA, 2012, p. 14).

Galvão (2003, p.83) afirma que, ao sinalizar para a complexidade da relação

existente entre os vários campos que compõem a atividade psíquica, a perspectiva

walloniana permite romper com falsas verdades normalmente aceitas pelo discurso

escolar. A autora descreve que um exemplo de falsas verdades é a afirmação que

um bom desempenho intelectual do aluno depende de um estado afetivo saudável e,

dessa forma, confere um cenário de dificuldade e de aprendizagem a um distúrbio

afetivo, frequentemente associado a complicações na vida familiar.

Ora, com base na reflexão anterior, temos que a família não é a única

responsável pela dimensão afetiva do aluno e, juntando a essa ideia a de

que inteligência e afetividade se constroem reciprocamente, numa complexa

relação de interdependência, podemos romper com essa explicação linear.

Por exemplo, substituindo-a pela aposta de que o êxito no plano intelectual

pode ter impacto muito positivo sobre a vida afetiva, invertendo a sequência

normalmente esperada (GALVÃO, 2003, p.83).

Um exemplo da prática da teoria walloniana é o Projeto Letras e Livros7,

implantado na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de

São Paulo e que traz uma experiência bem-sucedida da aplicação da teoria

desenvolvida pelo autor.

No contexto escolar, esse tipo de posicionamento alinhado à teoria de

Wallon contribui para um clima social propício para o conhecimento e o saber fazer,

reconhecendo as manifestações emocionais e inspirando os professores com

propostas que atendam as diferentes demandas de seus alunos. Wallon defende

uma educação que considera o homem completo, levando em consideração sua

individualidade, sua formação biológica e as condições em que se deu sua

formação. Significa dar condições de oferecer para a criança e o jovem as melhores

bases para o seu desenvolvimento motor-afetivo-cognitivo (ALMEIDA, 2004, p.123).

Almeida apresenta uma reflexão que resume o papel do professor alinhado a

teoria apresentada:

Nós, professores, sabemos que o fio condutor de nossa ação é a

experiência de cada um, constituída na trajetória pessoal e profissional.

Sabemos também que aprender, para nós e para os alunos, não significa

7 Um exemplo de ação inspirada nessa relação de reciprocidade entre inteligência e afetividade é o

Projeto Letras e Livros, implantado na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP

(DANTAS; PRADO, 1994; ISEPI, 1999). Concebido por Heloysa Dantas com a equipe de orientação

educacional da escola, destina-se a crianças das duas primeiras séries do Ensino Fundamental com

dificuldades de alfabetização. Apoia-se no pressuposto de que, para algumas crianças, a

aprendizagem depende da elevação da temperatura afetiva (isto é, da intensificação do vínculo)

possível numa situação de mais intimidade. As atividades do Projeto consistem em sessões de

leitura individualizadas que ocorrem na biblioteca da escola. Vários são os recursos utilizados para

criar uma atmosfera propícia à aprendizagem: em primeiro lugar, garante-se o entendimento

(possível num espaço de intimidade) dos gostos e das fantasias pessoais do aluno; em segundo,

mantém-se permanente atenção aos traços expressivos de seu comportamento, procurando

descobrir, por exemplo, o que há por trás de uma inquietação postural: cansaço mental, cansaço

físico, desinteresse. Por fim, para afugentar o medo tão frequente nas crianças ameaçadas (ou já

vitimadas) pelo fracasso escolar, o professor procurar escolher tarefas que garantam êxito na leitura

– “nada ilustra com tanta nitidez a hipótese walloniana de antagonismo entre razão e emoção

quanto o bloqueio cognitivo das crianças assustadas” (DANTAS; PRADO, 1994: 109) -, supondo

que o “destravamento ” das inteligências depende do “saneamento” da atmosfera emocional.

Trata-se de uma prática muito simples, factível, Trata-sem grandes recursos e que pode mostrar resultados

surpreendentes (GALVÃO, 2003, p.84).

simplesmente acumular informações, mas selecioná-las, organizá-las e

interpreta-las em função de um sentido que lhes atribuímos, decorrente de

nossa biografia afetivo-cognitiva (ALMEIDA, 2004, p.119).

Essa postura representa, dentro da teoria walloniana, o papel ativo do

professor na constituição da pessoa do aluno dentro das dimensões motora, afetiva

e cognitiva. O professor deve ter como base fundamental a premissa de que o aluno

conquiste, no plano afetivo, um lastro para o desenvolvimento cognitivo e vice-versa

(ALMEIDA, 2004, p. 126).

Wallon defendeu uma escola antes de tudo acessível. Ele acreditava que

este ambiente era um dos meios para formar o homem-cidadão e que os alunos têm

direito à cultura e o professor a um papel ativo na constituição da pessoa e do aluno

(ALMEIDA, 2004, p.138).

No próximo capítulo, faremos uma análise do meio digital e como a

tecnologia está impactando as culturas no mundo todo, tanto na forma de viver,

como no processo de ensino-aprendizagem.

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