Sentada num canto do sofá, Patrícia olhava pela janela acompanhando as pessoas qua andavam pela rua. Alguns apressados e outros como se o tempo corresse devagar pra eles. Invejava a liberdade,
mas já havia deixado de sonhar com ela. Sua vida se parecia com as novelas mexicanas que via na tv.
Soltou um longo suspiro sentindo-se derrotada.
Levantou-se horas depois e foi a cozinha preparar algo pra comer. Estava aliviada por saber que teria a semana livre de Jorge. Ele estava fora do país a negócios.
Seu celular tocou e ela sabia que só duas pessoas tinham aquele número, Jorge e Milena.
Ela e Milena haviam se encontrado há pouco tempo nos corredores da faculdade. Milena apesar de ser três anos mais nova, estava adiantada pois não teve seus estudos interrompidos.
Ao menos Jorge a deixava estudar. Dizia que uma mulher culta sabia colocar-se no seu lugar. Se era verdade ou não, Patrícia ainda não havia descoberto. Mas tentava portar-se bem para que ele não lhe tirasse a única coisa que lhe fazia feliz.
Ela regressou a sala e encontrou o aparelho por cima da mesa de jantar.
" Alô"
" Oi. Tudo bem?" Milena falava animada.
" Tudo optimo. E contigo?"
" Também. Vou sair com uns amigos e queria saber se não queres juntar-te a nós?"
Patrícia pensou o que responder. Jorge não a deixava sair muitas vezes e ela evitava pedir para não irrita-lo. Mas estava cansada de ficar confinada naquele apartamento.
" Deixa ver se consigo me livrar dos outros compromissos e te respondo já." Ela falou esperançosa.
" Ok. Até já."
Respirou fundo e se encheu de coragem para mandar uma mensagem para Jorge. Era mais fácil escrever que falar e ouvir o não naquela voz cruel e fria.
Patricia: oi . Posso sair com algumas colegas da faculdade? Prometo não demorar.
Ansiosa , começou a andar de um lado pro outro a espera da resposta. E quando o celular vibrou hesitou por uns segundos olhar pro ecrã.
Jorge: Colegas mulheres?
Patrícia: Sim.
Jorge: Conheces as regras. Nada de conversas com estranhos . Podes ir
Patrícia: Obrigada Jorge.
Jorge: Espero que vejas o quão sou bom pra ti e saibas agradecer quando nos virmos minha flor.
Ela não queria pensar no que suas palavras queriam dizer. Imediatamente enviou uma mensagem pra Milena confirmando e pedindo que lhe enviasse o endereço do local onde iam encontrar-se.
Felizmente as marcas já haviam desaparecido e o olho estava menos negro. Não precisava exagerar na maquiagem. Rapidamente vestiu umas calças de jeans , uma blusa justa que era própria das jovens da sua idade e uma sapatilhas. Saiu levando sua bolsa, o celular e as chaves. Entrou num táxi e deu o endereço ao homem ao volante. Em menos de 15 minutos o táxi parava em frente a um centro comercial. Pagou e desceu do táxi. Tirou o celular da bolsa pra ligar pra Milena quando dois braços a enrolam por trás.
" Chegaste!!!" Milena falava alegre apertando-a num abraço.
" Oi. Claro. Eu disse que viria "
" Vamos, os outros já estão a espera."
Milena a puxou e juntas atravessaram as portas rolantes do centro comercial.
De mãos dadas percorreram os corredores conversando animadas sobre as aulas e planos pra depois da faculdade . Entraram num bar e as luzes no interior davam a impressão que era noite.
Caminharam até uma mesa onde estavam os amigos de Milena. Muitos deles frequentavam a mesma faculdade que Patrícia e já os havia visto algumas vezes.
" Ola. Esta é a Patrícia" Milena anunciou logo que chegaram.
" Olá." Patrícia cumprimentou tímida.
Todos cumprimentaram e deram lugar para as duas sentarem. Em vez do Martini que ela bebia quando saia com Jorge , Patrícia partilhou a jarra de sangria com as outras.
Por algumas horas ela seria igual a qualquer outra jovem da sua idade e queria aproveitar ao máximo. Ouvia atenta as histórias que alguns contavam, das viagens e festas que frequentavam. Ela sabia que não devia desejar algo assim pra ela , mas era impossível não fantasiar.
Milena puxou-a pra acompanhar-lhe ao w.c. e caminharam até la as gargalhadas.
" Estou tão feliz que estejas aqui." Milena falou esboçando um sorriso de orelha a orelha.
" Eu também estou feliz por estar aqui. Não me divertia tanto faz tempo."
" Tu és sempre tão séria e tão dedicada aos estudos. Duvido que te divirtas de todo."
As duas riram-se tanto que as outras mulheres as olhavam de cara feia.
" É melhor voltarmos. Acho que não somos bem vindas aqui." Milena falou entre risos.
Saíram e caminhavam de volta quando uma mão segura Patrícia pelo braço. Ela assusta-se e solta um grito que chama a atenção de Milena que para e vira-se pra perceber o que se passa.
" Calma. Não queria assustar-te"
Patrícia levanta a cabeça e fica em pânico ao perceber quem era o homem a sua frente.
" Esta tudo bem Patrícia? Quem é este homem.?" Milena perguntou vendo a cara pálida da sua amiga.
" Ola. Eu sou o Allan. " ele falou estendendo sua mão pra Milena.
Milena olhou a mão mas não apertou. Sua atenção voltou pra Patrícia que continuava em silêncio.
" Conhecemo-nos há algumas noites ..."
" Na fila da farmácia." Patrícia falou cortando Allan.
Milena olhava para Allan de forma suspeita. Mas não disse nada.
" Vai andando Milena. Não me demoro" Patrícia falou agora mais calma.
" Ok. Mas estarei de olho em ti." Ela falou olhando pra Allan de forma ameaçadora.
Logo que Milena afastou-se Patrícia soltou um longo suspiro.
" Hum...então os teus amigos não conhecem esse lado da tua vida, Patrícia." Ele falou esboçando um sorriso malandro.
" E nem precisam saber."
" O que ganho por guardar teu segredo?" ele falou aproximando-se.
Ela sentindo a proximidade deu um passo pra trás.
" Cheguei a pensar que fosses diferente dos homens daquele meio. Mas parece que tal como eles não perdes a oportunidade de aproveitar-se de uma mulher." Ela falou tentando não denunciar seu medo.
" Em primeiro lugar, todas as mulheres naquele meio vão de livre e espontânea vontade. Então não creio que estejam a ser " aproveitadas" . E segundo, dei-te a escolher o que receberia em troca."
Patrícia franziu a testa e olhou pra ele.
" Nesse caso, terás minha eterna gratidão." Ela falou esboçando um sorriso.
Allan deu um passo ficando a poucos centímetros dela. O aroma do perfume do Allan invadia seus sentidos e pela primeira vez ela sentia-se atraída por alguém do sexo oposto.
Normalmente tinha nojo e aversão ao toque dos homens, por conta de experiências amargas em sua vida.
" Achas que é uma troca justa?" ele sussurrou olhando pra Patrícia.
Aqueles olhos a hipnotizavam e não conseguia pensar em nada pra responder. Mas precisava ser forte e libertar-se do feitiço.
" É tudo que posso dar" ela falou ofegante.
" Ok. Por agora vai servir. Foi bom ver-te Patrícia. " ele falou e afastou-se contornando-a.
Ela ficou parada no mesmo lugar tentando se recompor.
" Devias vestir-te assim mais vezes. Aquelas roupas põem-te adulta demais." Allan falou enquanto desaparecia pelo corredor em direção ao espaço onde havia mesas.
Patrícia só regressou a sua mesa depois que conseguiu controlar suas emoções.
" Esta tudo bem?" Milena perguntou preocupada.
" Tudo optimo."
Ficou por mais um par de horas e depois despediu-se de todos. Apanhou um taxi de volta pra seu apartamento. O celular tocou logo que colocou o pé no interior do apartamento. Tirou o aparelho da bolsa e viu que Jorge ligava.
" Alô"
" Minha flôr, como foi o passeio?"
" Foi Bom. Obrigada Jorge."
" Que bom. Fico feliz quando a minha flôr também está. Volto em três dias, as saudades são tantas que decidi antecipar o meu regresso."
" Fico feliz." Patrícia respondeu mas ela estava o oposto de feliz. A sua semana livre havia sido cortada ao meio.
" Bom descanso. Ligo-te amanhã."
A chamada terminou e ela atirou o celular para o sofá. Foi ao quarto e sentou na cama. O cheiro de Allan ainda estava na sua memória e ela se viu a imaginar como teria sido se ele a tivesse beijado.
" Para de sonhar Patrícia. Isso não é pra pessoas como tu" ela murmurou pra si.