Quando Jorge ligou a meio da tarde informando que viria leva-la mais tarde pra sair , Patrícia entrou em pânico. Com calma, tentou convencer Jorge a deixa-la em casa , por não estar a sentir-se bem.
Mas logo Jorge a lembrou quem dava as cartas naquela relação.
Depois de ter deixado Allan no meio da rua e ter saído correndo depois do beijo, Patrícia temia cruzar-se com ele esta noite.
A hora marcada Jorge estava a sua porta e em poucos minutos entravam no carro . Chegaram ao local e Patrícia ficou aliviada por ver que não era o mesmo onde havia conhecido Allan. De mãos dadas atravessaram as portas e entraram no grande salão . Jorge fez várias paragens para
cumprimentar e trocar dois dedos de conversa com algumas pessoas. Patrícia fazia a sua parte, em silencio apenas sorrindo ocasionalmente.
Aproximaram-se de outro grupo onde Patrícia viu uma cara conhecida.
“ Jorge, fico feliz que se tenha juntado a nós” Um dos homens falou.
“ Não perderia esta oportunidade por nada” Jorge respondeu entusiasmado.
“ So faltavas tu. Vamos começar?”
Jorge virou-se pra Patrícia e ia falar algo quando a mulher que Patrícia havia reconhecido interrompeu-o.
“ Eu tomo conta dela. Podes ir descansado.”
Jorge franziu a testa , hesitando aceitar a ajuda da mulher.
“ Patrícia, esta é a Cristina. Já sabes as regras, eu volto já.”
Patrícia acenou com a cabeça fazendo perceber que havia entendido.
Os homens afastaram-se, desaparecendo por uma porta.
Patrícia olhava ao seu redor e sua respiração parou quando viu Allan do outro lado da sala. Falava com outro homem e ainda não a tinha visto. Ele estava vestido de forma casual, uma camisa de mangas compridas, mas que estava dobrada até ao cotovelo, calças de caqui que o ajustavam na perfeição.
“ Metade das mulheres nesta sala já tentou sua sorte com ele. Ele despreza mulheres como nós.”
Cristina falou , vendo onde os olhos de Patrícia estavam.
“ Hum…o que? “ ela falou tentando disfarçar.
“ O Allan, é esse o nome do homem que despias com o olhar a poucos minutos.”
“ Eu não…” Patrícia não terminou a frase. Cristina a interrompeu falando por cima da sua voz.
“ Relaxa, eu não direi nada a ninguém. Estamos apenas a conversar.”
Patrícia não disse nada com medo de se comprometer mais. Continuou a olhar ao seu redor ficando de costas voltadas pra onde Allan estava parado.
Cristina mudou de assunto, falando animada sobre as festas e mostrando as pessoas que Patrícia devia se associar se quisesse manter o seu status social.
Quase uma hora se passou e Jorge continuava ausente. Apesar da excelente companhia de Cristina , ela começava a ficar cansada das suas conversas. Felizmente um homem chamou a atenção de Cristina e ela desculpou-se e foi ao encontro dele.
Discretamente, Patrícia virou-se olhando pro lugar onde tinha visto Allan. Mas pra sua decepção ele havia desaparecido.
Devia estar aliviada , mas por alguma razão que ela desconhecia, estava triste. Até ouvir a voz rouca e ofegante de Allan atrás dela.
Se antes ela o achava louco, hoje ela tinha certeza. Allan era louco e perigoso. Duas coisas que a fascinavam tanto quanto a aterrorizavam. Seu coração batia descompassado a cada segundo só de pensar que Jorge os podia apanhar. Teve que ceder e prometer encontrar-se com Allan para que ele fosse embora. Quando ela ia respirar de alivio Cristina estava do seu lado e a olhava sorrindo.
“ Devias ter mais cuidado, querida. Jorge não é o tipo de homem que aceitaria ser traído e deixar passar.”
“ E porquê eu faria tal coisa?” Patrícia perguntou fazendo-se de desentendida.
“ Honestamente, Allan é um homem lindo e atraente. Qualquer mulher perderia a cabeça com um homem como ele seduzindo-a. E eu não sou cega. Ele esta interessado.”
“ Mas eu não.”
“ Que bom que sabes o que é melhor pra ti. Jorge pode dar-te o mundo. Allan é só um pobre coitado que tem que trabalhar duro pra ter alguns trocados. O que ele ganha não pagaria nenhum dos teus vestidos.” Cristina falou num tom de deboche.
Patrícia não teve que responder, pois a conversa teve que ser cortada quando viram Jorge aproximar-se. Sorridente, ele segurou a mão de Patrícia , despedindo-se dos outros.
“ Pensei que fossemos ficar pra festa” Patrícia falou enquanto caminhavam pra saída.
“ Já consegui o que queria e preciso celebrar. E quero celebrar contigo minha flôr, usufruindo cada centímetro desse corpo .”
AS palavras de Jorge a fizeram acordar pra realidade. Ela era propriedade do homem que a levava pelo braço. Allan era apenas uma fantasia.
Quando acordou na segunda-feira, não tinha ânimo nenhum pra sair da cama. Talvez se não fosse a faculdade não teria que fugir do Allan . E ele desistiria desta loucura. Era o sensato a fazer. Mas que graça teria ser sensata?
Estava distraída durante as aulas e olhava pro relógio constantemente. Quando viu a hora marcada aproximar-se Patrícia não conseguia mais manter-se quieta na cadeira. A ansiedade estava a tomar conta dela.
Saiu da aula e caminhou apressada , saindo do campus . Mas apenas deu dois passos e o carro de Allan parava do seu lado.
“ Entra.” Ele gritou la de dentro.
Ela olhou pros lados primeiro e só depois entrou.
“ Estamos a ser irresponsáveis.” Patrícia reclamou.
“ Eu sei. Mas precisava de uns instantes a sós contigo”
“ Pra onde vamos?” Patrícia perguntou logo que o carro pôs-se em movimento .
“ É surpresa” Allan respondeu esboçando um sorriso de orelha a orelha.
A Viagem foi marcada pelo silêncio de ambas as partes. Patrícia arregalou os olhos quando fizeram um desvio para uma estrada de terra. A paisagem era de tirar o fôlego, um campo de girassóis que se estendia por quilómetros ate perder de vista. O carro parou em frente a uma cabana no meio de tantas flores.
“ Que lugar é este?” Ela falou saindo do carro.
“ É de um cliente e amigo meu. Ele cultiva girassóis .” Allan falou estendendo sua mão para ajudar Patrícia a sair do carro em segurança.
Ele abriu uma das portas traseiras e de lá retirou uma cesta. Allan começou a caminhar entre os girassóis e Patrícia o seguiu, tocando com os dedos os girassóis enquanto passava por eles. Pararam quando chegaram num espaço onde havia uma pequena estufa e relva . Allan pousou a cesta na relva e de lá tirou algo que parecia uma toalha de mesa. Estendeu-a no chão e sentou-se convidando Patrícia a juntar-se a ele.
Ela soltou uma gargalhada depois de vê-lo confortável sentado no chão mas juntou-se a ele. Allan retirou bolos , sumos e duas garrafas de agua da cesta colocando sobre a toalha.
Com muito boa disposição os dois partilharam a comida e Patrícia ouviu Allan contar algumas histórias da sua infância.
“ Dá pra ver que tiveste uma infância cheia de aventuras.” Ela falou entre risos.
“ Algumas. E tua, como foi? “ ele perguntou .
O sorriso desapareceu no rosto de Patrícia e Allan reparou que algo não estava bem.
“ Patrícia??!!”
Ela levantou-se e sacudiu as calças. Allan foi pego de surpresa e não conseguia entender a reação de Patrícia a uma pergunta tão inocente.
“ Preciso ir, já se faz tarde.” Ela falou tentando disfarçar suas emoções.
Allan segurou sua mão impedindo-a de afastar-se mais. Aproximou-se acabando com a distancia que os separava.
“ Se não queres falar da tua infância, tudo bem. Mas fica mais um pouco.” Ele sussurrou olhando-a nos olhos.
“ Allan…” ela começou a protestar mas Allan cortou-a
“ Por favor…” ele falou inclinando para a beijar.
“ Allan, tu sabes que não pode haver nada entre nós. “ Patrícia falou mas nem ela conseguia resistir ao magnetismo que os unia.
“ Podemos esquecer o resto do mundo por uns instantes? Esperei demais por este momento.” Allan falou e não deu tempo a Patrícia de responder
No instante seguinte seus lábios tocavam os de Patrícia, num beijo lento mas intenso e voraz.
Patrícia sabia que tudo havia mudado pra sempre em sua vida. Aquele momento , aquele lugar e o homem que a beijava como se sua vida dependesse disso , eram tudo que ela sempre sonhou. E agora? Como continuar a viver no inferno depois de ter experimentando o paraíso?