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A ampla defesa e o princípio da paridade de armas

Capítulo III – A ampla defesa

3.8. A ampla defesa e o princípio da paridade de armas

O princípio da paridade de armas é aquele que possibilita às partes idênticas formas hábeis de provocar o convencimento judicial em abono a um seu interesse. Ou seja, se a uma das partes é conferido um determinado

156 STUMM, Raquel Denize, op. cit., p. 71.

comportamento ou oportunidade, à outra deve ser oportunizada as mesmas condições.

Segundo LEONARDO GRECO “Toda parte em um processo deve ter a

possibilidade de expor e defender a sua causa em condições que não a inferiorizem perante a outra. Sem isso, não há garantia de um processo justo”.158

NELSON LUIZ PINTO destaca a grande importância da manutenção do

equilíbrio processual entre as partes litigantes. “Um dos princípios basilares do Direito Processual Civil brasileiro, e que inspira grande parte da sistematização positiva, é aquele segundo o qual às partes, no processo, se deve dispensar tratamento equilibrado. Segundo o princípio da paridade de tratamento, as partes fazem jus a ‘oportunidades’ processuais equivalentes. Esta é, indubitavelmente, a regra geral”.159

Tal princípio vem descrito no art. 14 do Pacto de Direitos Civil e Políticos das Nações Unidas, em vigor no Brasil, que impõe a igualdade das partes perante os órgãos jurisdicionais quando estabelece que “todos são iguais perante os tribunais e demais cortes de justiça. Toda pessoa tem direito a que a sua causa seja ouvida eqüitativa e publicamente por um tribunal competente, independente e imparcial, estabelecido pela lei”.

Ensina-nos DIEGO MARTINEZ FERVENZA CANTOÁRIO que a paridade de

armas é repetida pela Constituição de vários países como Suíça (art. 8º, Constituição Federal), Alemanha (art.3º), Uruguai (art. 8º), Peru (art. 2º, II) e África do Sul (art. 9º)”.160

158 GRECO, Leonardo, A busca da verdade e a paridade de armas na jurisdição administrativa, Revista CEJ vol. 10 nº. 35, 2006, p. 126.

159 PINTO, Nelson Luiz, Execução fiscal e princípio da paridade de tratamento das partes, Revista de Processo n.º 52, 1988, p. 210.

160 CANTOÁRIO, Diego Martinez Fervenza, A paridade de armas como projeção do princípio da

igualdade no processo civil, Revista eletrônica da Faculdade de Direito de Campos, Campos dos

Goytacazes, 2007. Disponível em: <http://www.fdc.br/Arquivos/Revista/33/01.pdf>. Acesso em: 26.10.2011, p. 18-19.

A doutrina tem entendido que o princípio da paridade de armas possibilita ao juiz adotar medidas processuais, em favor da parte mais fraca, tendentes a equilibrar as forças dos litigantes. E, para tanto, poderia tomar iniciativas probatórias, distribuir dinamicamente o ônus da prova, além de se servir de indícios e presunções.

No dizer de LEONARDO GRECO, “para assegurar essa paridade de

armas, o juiz deve suprir as deficiências defensivas da parte em desvantagem. Isso é particularmente importante quando uma das partes está em situação de superioridade, como a Administração Pública”.161-162

Particularmente, não concordamos com isso. Efetivamente deve-se ter a justiça como um norte para o que o juiz possa tomar as medidas mais adequadas a cada caso concreto, mas isso não significa que estar o magistrado autorizado a defender interesses privados das partes em litígio, sob pena de ferir de morte a imparcialidade do juiz.163

A atividade judicial não deve imiscuir-se no comportamento das partes. O juiz deve manter-se equidistante das partes, a ponto de observar o processo e distribuir a justiça de acordo com o disposto nos autos.164-165

161 GRECO, Leonardo, op. cit., p. 126.

162 CANTOÁRIO, Diego Martinez Fervenza, op. cit.. Acesso em: 26.10.2011, p. 18-19, também entende neste sentido, citando premissas de justiça e igualdade para supedanear suas convicções.

163 Como preleciona THEODORO JÚNIOR, Humberto. Os poderes do juiz em face da prova, RF 263, ano 74, fascículos 901/903, p. 47, “a iniciativa de provas “ex ofício” deve respeitar os seguintes princípios: a) o juiz não deve, necessariamente, defender o interesse de uma das partes, procurando realizar prova útil à sua defesa, mas que deixou de ser requerida em tempo hábil. Isto importaria, quase sempre, advogar a causa de um dos litigantes, o que fere os princípios da igualdade das partes e da imparcialidade do julgador; b) a iniciativa do juiz deve restringir-se, apenas à eliminação de situações de perplexidade diante de provas contraditórias, confusas ou incompletas, ou diante de controvérsias que exijam, forçosa e obrigatoriamente, certas provas, cuja existência o juiz conhece, mas cuja produção não foi oportunamente requerida pela parte; b) as provas 'ex officio' podem ser determinadas em qualquer fase do procedimento, antes da sentença, mesmo depois de encerrada a audiência de instrução e julgamento, porque não há preclusão para a faculdade judicial de busca da verdade real; d) o juiz, a pretexto de esclarecimento da verdade, não pode determinar prova de fatos outros que não aqueles trazidos pelas partes ao processo; há de restringir-se ao tema probatório traçado pelo litígio, dentro dos fatos deduzidos pelas partes em juízo...”.

164 Com semelhante opinião, entendendo haver limites para a atuação ex oficio do juiz, ALVIM, Arruda, Manual de direito processual civil, 9ª ed., vol. 2, São Paulo, Revista dos Tribunais, 2005, p. 392, para quem “em face do que dispõe o art. 130 do CPC, a única limitação à atividade do

Sem embargo da corrente diversa, parece que limites hão de ser impostos às iniciativas do juiz. Alguns juristas, com razão em nossa opinião, afirmam que o juiz poderia tomar tais atitudes quando o objeto da lide diga respeito a direitos indisponíveis ou quando o interesse público for preponderante, na clara intenção de limitar a atividade ex oficio do juiz.

Porém, não obstante a isso, não podemos olvidar a intrínseca relação existente os princípios da paridade de armas e da ampla defesa. Em nosso sentir, aquele funciona como uma das vertentes deste.

A paridade de armas mostra-se como uma das acepções da ampla defesa, vez que oportuniza a ambas as partes idênticas oportunidades processuais.

ADA PELEGRINI GRINOVER sustenta que “a plenitude e a efetividade do

contraditório indicam a necessidade de se utilizarem todos os meios necessários para evitar que a disparidade de posições no processo possa incidir sobre seu êxito, condicionando-o a uma distribuição desigual de forças. Como se notou, a quem age ou de se defende em juízo devem ser asseguradas as mesmas possibilidades de obter a tutela de suas razões”.166

Quando se procura equilibrar a relação processual, nada mais se está a fazer do que possibilitando às partes a defesa mais completa possível de seus interesses. Neste sentido, permitindo que qualquer das partes possa exercer

juiz com relação à atividade instrutória é a de que a ele não é dado ir além do tema probatório, ou seja, da lide ou do objeto litigioso, nem infringir o princípio do ônus (subjetivo) da prova. É com esta limitação que se há de entender o art. 130 do CPC, a respeito da qual era claro o Código de Processo Civil estadual da Bahia (art. 306)”.

165 DINAMARCO, Cândido Rangel, Instituições... op. cit., p. 57, sintetiza as razões autorizantes para o juiz tomar iniciativas probatórias: “(a) dever do magistrado promover a igualdade entre as partes, (b) a dignidade da jurisdição, que quer o juiz como agente da justiça e não mero refém das condutas e omissões das partes e (c) a indisponibilidade dos direitos e relações jurídico- substanciais em certos casos”.

166 GRINOVER, Ada Pellegrini, Novas tendências do direito processual: de acordo com a

as mesmas possibilidades que o adversário, em última análise, está sendo prestigiada a ampla defesa em sua premissa mais pura.167

Estes princípios, portanto, como decorrência do devido processos legal, complementam-se e inserem-se mutuamente no conceito do outro.