• Nenhum resultado encontrado

1 AS OBRAS ANALISADAS

2.2 A CHICK-LIT

2.2.5 A autoestima das personagens

As protagonistas da chick-lit são mulheres frágeis cuja autoestima, não raro, é estilhaçada. Dois fatores são preponderantes para a aferição do valor que as personagens conferem a si próprias: os relacionamentos amorosos e a imagem física.

A preocupação com a autoimagem é excessiva nas três. Enquanto o dilema de Bridget é manter-se jovem e magra, Becky procura estar sempre bem vestida, ostentando as marcas mais refinadas. Claire compartilha com Bridget a busca pela perda de peso (no caso daquela, adquirido na gravidez) – frequentemente, Claire se autointitula “melancia” ou “gorda”. As três são descritas com uma certa beleza, mas

não como modelos deslumbrantes – Bridget e Claire, em especial, são expostas

como mulheres normais, com alguns defeitos físicos, mas com alguns atrativos também. Percebe-se, além do grande valor dado à estética, uma tentativa de reproduzir padrões midiáticos. Elas procuram assemelhar-se à imagem vendida pelas revistas femininas e pelo cinema por mulheres inatingíveis: cabelos claros, altas, magérrimas e manequim P. Além da aparência, a mídia também dita um modelo de mulher moderna, o qual constantemente entra em confronto com o pensamento da sociedade e com os próprios desejos. Enquanto a Mulher Moderna propalada pelas publicações é bem-resolvida, independente, profissional talentosa, a família espera que ela seja uma moça comportada, que cuide bem da própria vida e, preferencialmente, constitua um casamento sólido e confiável. Não raro, esse contraste do que é esperado delas as angustia, pois não conseguem atender essas expectativas (Bridget não é casada, Claire não foi capaz de segurar o marido, segundo o pensamento geral, Becky não teve controle sobre suas finanças, desdizendo o modelo de mulher próspera).

Outro termômetro que indica a autoestima das personagens são os relacionamentos. Quando estão apaixonadas e são correspondidas, sentem-se ótimas (“Deusa do Sexo”, segundo Bridget); quando o namoro acaba, igualmente escoa o amor-próprio, que parece um delicado castelo de areia – é árduo erigi-lo, mas com um sopro é desfeito. Bridget considera-se péssima ao ser traída por Daniel:

Minha cabeça não está nada boa, outra vez. Não suporto a ideia de Daniel ter outra mulher. Passam mil fantasias pela minha cabeça de coisas que os dois estão fazendo. Fiquei distraída dois dias com o plano de emagrecer e mudar de personalidade, mas depois desmontou tudo na minha cabeça. Percebi que era apenas um jeito complicado de enganar a mim mesma. Estava achando que podia me reinventar em poucos dias e assim anular o impacto da dolorosa e humilhante infidelidade de Daniel, ocorrida numa encarnação anterior e que jamais se repetiria no meu novo ego melhorado. Infelizmente, agora vejo que o único motivo para me reinventar, combater a celulite e emagrecer era fazer com que Daniel percebesse seu erro (FIELDING, 1998, p. 193, grifos da autora).

Bridget é visceral, fenece com as vicissitudes para encontrar alguém – tanto que se transforma em icônica a frase proferida por Mark, “Gosto de você como você é”, ou seja, ele a ama sem rejeitá-la, sem subjugá-la, ama-a apesar de ela ser ou porque ela é canhestra e espontânea. Ele a aceita, ainda que seus defeitos sejam mais pronunciados que as virtudes. Becky também se ressente quando suas tentativas de relacionamento dão errado, mas ao contrário de Bridget, cujo pilar que a sustenta é, sobretudo, o namoro, a personagem consumista é mais facilmente afetada por suas próprias atitudes. Quando um plano dá errado ou ao se enredar em peripécias ligadas ao consumo, Becky se frustra e sua autoestima é derrubada: ela se vê humana, falível, fraca. É possível afirmar que Becky, das três protagonistas analisadas, é a mais descolada de determinantes externos para solidificar sua autoimagem. Sem ser orientada por julgamentos de homens ou amigos, Becky se constrói a partir da autoavaliação do próprio comportamento. Ela também destoa em

outros aspectos de Bridget e Claire. Ela pouco se refere à própria aparência – não

se sabe como são seus cabelos ou cor dos olhos, por exemplo. Por outro lado, sua autoestima está muito ligada ao consumo. Se ostenta acessórios de grifes e está bem maquiada, vê-se bela, requintada. Ela é perpetrada pelo que pode mostrar – sua identidade e sua autoestima são moldadas ao sabor dos bens que possui, e ela quer ser vista como uma mulher especial. Se for apartada de seus produtos e roupas, Becky sente-se vazia, oca, ofuscada.

Bridget, além dos percalços inventados ou enxergados por ela que a impedem de se sentir uma mulher incrível e emocionalmente madura e forte, ainda tem uma rival que constantemente a derruba e a dilacera: a mãe. Diante de constantes comentários derrogatórios a respeito de hábitos, aparências e escolhas, a mãe de Bridget é uma das responsáveis pela insegurança da filha, como se comprova no seguinte trecho:

Agora perdi o jornal na tevê, mamãe foi para um queijos-e-vinhos e me deixou parecendo uma perua num conjunto azul-petróleo sobre uma blusa verde e com os olhos pintados de sombra azul que ia até as sobrancelhas. — Não seja boba, querida – disse ela, ao sair. — Se não fizer alguma coisa

em relação à aparência, jamais conseguirá um novo emprego, quanto mais um novo namorado! (FIELDING, 1998, p. 201, grifos da autora).

A insegurança permeia toda a narrativa de Bridget. A personagem é incerta quanto à sua inteligência, desenvoltura, peso, idade. Um comentário é capaz de incomodá-la, pois ela não se ama o bastante para criar uma redoma contra

avaliações perniciosas. É por isso que ela busca orientações budistas – que

preconizam o equilíbrio interior –, ainda que não as siga. Bridget é a mais religiosa das três e se agarra à espiritualidade para ficar mais confiante.

Claire, por seu turno, é ambígua. Ainda que em alguns momentos ela registre sua insatisfação com o reflexo que vê no espelho, ela, em tantas outras passagens,

descreve-se como bonita ou até estonteante – ou seja, ela tem alguma (talvez até

em um grau superior ao esperado pelo perfil das garotas do gênero chick-lit) estima por si mesma. Enquanto ela se produz para o encontro com Adam, não poupa elogios ao próprio visual: “Delineador cinzento e rímel preto fizeram meus olhos parecerem realmente azuis E, com meu cabelo recém-lavado e brilhante, fiquei muito satisfeita com o efeito geral” (KEYES, 2010, p. 183). Após emagrecer, ela se mostra bem resolvida e confortável com o corpo. Se no começo da narrativa ela está incerta e melancólica, ao longo do livro ela se reergue para, ao final, gostar de quem é e aprovar o que vê no espelho.

Além disso, Claire, em comparação às outras duas, revela-se mais petulante e, por vezes, pernóstica e arrogante. Apesar de primeiramente sofrer com o desprezo de James, depois ele não só tenta voltar com ela, como implora por seu amor: ela é endeusada, e o tom das declarações margeia o paródico. Soa farsesca a

situação, Claire emula dissimulação e sai fortalecida – amada, ela flana, soberana,

soçobrando os resquícios de desilusão que restavam do casamento arruinado. Por outro lado, Adam, ao revelar que a deseja, também injeta ânimo nela, endossando a imagem positiva que ela vinha construindo a respeito do próprio poder de sedução: além de ele ser lindo, ele preteriu Helen, a irmã bela e sempre cobiçada por onde passa.

É notório que a busca pela identificação empreendida pela chick-lit reside também em pintar as personagens com cores reais – sem serem estonteantes, ao serem registradas com defeitos e imperfeições, é mais fácil para as leitoras enxergarem-se nelas, tornando as situações vividas mais verossímeis. A caracterização das personagens sem atrativos colossais coroa a intenção da narrativa, que é dialogar abertamente com o público, sem colocá-las acima da

realidade. Nesse sentido, há, sem ser forçoso afirmar, um trabalho na autoestima da leitora também, que ao admirar as personagens por suas características, não necessariamente ligadas à beleza e à sensualidade, repensam as próprias virtudes. A mulher pode ser especial em outros aspectos de sua rotina – Bridget é uma ótima amiga, Becky é muito criativa e Claire soube se reinventar, e nenhuma se safou dos problemas por conta da aparência.