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1 AS OBRAS ANALISADAS

2.2 A CHICK-LIT

2.2.2 A beleza na chick-lit

No intuito de ser um retrato verossímel de uma possível mulher contemporânea, nem sempre todos os desejos das personagens são conquistados, bem como ilusões podem ser desmanchadas ao longo da narrativa. Harzewski auxilia no entendimento dessa ruptura com a tradição Harlequin:

Chick-lit parodies and modifies the latter through greater realism, a picaresque relation to money, and a vast diminishment of the hero. While chick lit is quintessentially postmodern as a romance of consumerism, its also presents a more realistic portrait of single life and dating, exploring the dissolution of romantic ideal or revealing them to be unmet, sometimes unrealistic, expectations (HARZEWSKI, 2011, p. 18).

A caracterização da protagonista, nesse ensejo, é outra mudança registrada por essa narrativa contemporânea. A mulher da chick-lit é menos idealizada. Se nos primeiros romances Harlequin as protagonistas eram infalíveis, reconhecidas pela virtuosidade e pela grandeza de caráter, hoje, a chick-lit é marcada, justamente, pela humanidade com que elas são ossificadas. São os defeitos, aliás, mais do que as qualidades, que as identificam: Bridget, por exemplo, é lembrada por ser desajeitada

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e ter pouca sorte no amor; Becky é uma compradora compulsiva que mente e trai para encobrir seu vício; Claire é pouco prática e sofre uma depressão pós-parto que a impede de cuidar integralmente de seu bebê. As heroínas do Harlequin são mais novas, donas de uma beleza exuberante e frequentemente descritas como inteligentes, sensuais e geniosas (HARZEWSKI, 2011), enquanto as protagonistas da chick-lit são criativas, mas equivocadas e menos atraentes – aliás, bastante conscientes de seus limites estéticos e da necessidade de contar as calorias para não perderem a forma.

Comparando-se títulos chick-lit com um exemplar de Harlequin, é perceptível como essas características são mineralizadas nas protagonistas. Kara, a heroína de

Viagem de Mel (título Harlequin), de Margaret Mayo, passa anos focada na carreira,

o que a leva a obliterar a vida amorosa e a própria aparência. Assim, logo no início da narrativa, ela é adjetivada como brilhante, competente, secretária exímia, contudo, também é descrita como uma mulher comum, sem atrativos, incapaz de despertar a atenção masculina, como se evidencia nesses trechos: “Não queria que a notassem, e sempre tentava ficar invisível, usando trajes clássicos escuros e pouca maquiagem, seus cabelos sempre para trás com um coque discreto e elegante (...)” (MAYO, 2012, p. 5) e “Não era linda, nem loura ou deslumbrante. Era uma mulher comum, com feições comuns, e nenhum homem jamais a olhara uma segunda vez” (ibidem, p.7). Depois, quando viaja com seu chefe e é compelida a se produzir, uma beleza estonteante é revelada, e não só o patrão passa a notá-la, como outros rapazes percebem que Kara é lindíssima. O trecho em que ela se arruma para um jantar de negócios é o estopim para essa inversão de moça comum a moça desejada:

Não conseguia tirar os olhos dela. O vestido cobria seu corpo como uma luva. E que corpo! Uma perfeita ampulheta. Nunca a vira vestida assim. Nem percebera seus cabelos espessos e exuberantes, castanhos com mechas cor de cobre. Soltos a deixavam com uma aparência sensacional. Batiam nos ombros e balançavam como uma cortina de seda quando se movia. (ibidem, p.26).

Gill e Herdieckerhoff já haviam alertado que esse desabrochar é um ingrediente da fórmula Harlequin: a protagonista não tem ciência da própria beleza, mas em algum momento isso aflora e ela passa a ser notada por esses predicativos. As virtudes de Kara, seguindo a prescrição do gênero, são inúmeras – ela é uma

moça boa, generosa, preocupada com a mãe, doce, prestativa, inteligente. Não há defeitos para deformá-la, e nenhum desvio de caráter é registrado. Bridget, Claire e Becky, em contraposição, para serem humanizadas, precisam aparentar falhas e problemas. Além disso, nenhuma delas é apresentada como uma garota linda, mas como alguém normal (com algum encanto, talvez), mas com excesso de peso ou com um corte de cabelo errado também. Gill e Herdieckerhoff, inclusive, elegem a preocupação com a aparência a chave da chick-lit e sua fonte de identidade: enquanto outras questões que poderiam se ligar ao feminino (como a maternidade) são solapadas, a beleza e o corpo são a chave da existência dessas mulheres, a ponto de transformá-las obsessivas pela imagem do espelho.

Depois de séculos agrilhoadas ao poderio masculino, seja pela dependência financeira a que eram submetidas, seja pela dependência psicológica que se inculcava nelas, as mulheres soltaram-se das amarras tradicionalmente impostas a elas, mas ainda não se viram livres. Após ganharem o mercado de trabalho e a instrução escolar tornar-se mais acessível a elas, a classe feminina poderia, teoricamente, ver-se, finalmente, equiparada aos homens, tão capaz e potente quanto eles, mas um novo senhorio veio escravizá-la: a beleza. “Quanto mais numerosos foram os obstáculos legais e materiais vencidos pelas mulheres, mais rígidas, pesadas e cruéis foram as imagens da beleza feminina a nós impostas” (WOLF, 1992, p.11), alerta Naomi Wolf, autora do livro O mito da beleza, no qual defende que a autoimagem foi transformada na inimiga da mulher – a busca pela perfeição, por um reflexo no espelho primoroso é o que admoesta as mulheres atuais. “À medida que as mulheres se libertaram da mística feminina da domesticidade, o mito da beleza invadiu esse terreno perdido, expandindo-se enquanto a mística definhava, para assumir sua tarefa de controle social”, explica Wolf (ibidem, p. 12). Acorrentadas à própria aparência, profissionais talentosas, inteligentes e autônomas nutrem como ponto fraco a imagem física.

Pesquisas recentes revelam com uniformidade que em meio à maioria das mulheres que trabalham, têm sucesso, são atraentes e controladas no mundo ocidental, existe uma subvida secreta que envenena nossa liberdade: imersa em conceitos de beleza, ela é um escuro filão de ódio a nós mesmas, obsessões com o físico, pânico de envelhecer e pavor de perder o controle (idem).

Wolf descreve que o mito da beleza assumiu posição de coerção social no lugar de antigos mitos, como o da maternidade, da domesticidade e o da castidade, os quais não conseguem mais controlar as mulheres como outrora. A publicidade, nesse sentido, teve grande contribuição na eleição desse novo monstro que aterroriza o cotidiano feminino: as propagandas de dona-de-casa felizes, comportadas e habilidosas, para quem se vendiam máquinas de lavar e sabão em pó, foram substituídas por anúncios de cosméticos e roupas, sinalizando o novo paradigma de feminilidade que se espera das consumidoras. A beleza, então, torna-se a virtude almejada, pertorna-seguida, pela qual torna-se luta e pela qual torna-se sofre. A busca por ela é, inclusive, motivo de rivalidade dentro da própria comunidade feminina, como sinaliza Wolf.

Ao atribuir valor às mulheres numa hierarquia vertical, de acordo com um padrão físico imposto culturalmente, ele expressa relações de poder segundo os quais as mulheres precisam competir de forma antinatural por recursos dos quais os homens se apropriam (ibidem, p. 15).

A autora ainda explica como se estabelecem as relações em torno desse valor.

A qualidade chamada “beleza” existe de forma objetiva e universal. As mulheres devem querer encarná-la, e os homens devem querer possuir mulheres que a encarnem. Encarnar a beleza é uma obrigação para as mulheres, não para os homens, situação esta necessária e natural por ser biológica, sexual ou evolutiva (...). A beleza da mulher tem relação com sua fertilidade; e, como esse sistema se baseia na seleção sexual, ele é inevitável e imutável (ibidem, p.14-15).

Existe uma relação lógica que pontua esse raciocínio: uma mulher precisa ser desejada para conquistar um marido, segundo preconiza o senso comum. Uma mulher linda não ficará solteira, não será relegada ao abandono sentimental. Uma garota com atributos invejáveis seduzirá um futuro consorte e poderá ter filhos com ele. Segundo essa mítica, não são por outras qualidades femininas que o homem se apaixonará ou se interessará: é a beleza a capitã dos jogos amorosos. Assim, Claire, Bridget e Becky se sentem inferiorizadas perante mulheres mais belas, ao mesmo tempo em que acreditam que apenas se forem atraentes é que serão amadas. Claire, inclusive, cogita que a falta de beleza à época da gravidez possa ter sido um dos fatores que levou o marido a traí-la. Ostentar um corpo esguio é,

segundo Bridget, um dos segredos para ter sucesso com o público masculino, e quando ela se depara com a outra namorada de Daniel, a bala de prata da outra

para ofendê-la é perguntar: “— Mas, meu bem, você não disse que ela era magra?

(FIELDING, 1998, p.185).

As protagonistas da chick-lit são vítimas fáceis e dóceis desse mito – por serem naturalmente belas, as heroínas dos livros Harlequin podem parecer imunes a ele, mas também estão presas à juventude e à virgindade, conforme ensina Wolf,

As qualidades que um determinado período considera belas nas mulheres são apenas símbolos do comportamento feminino que aquele período julga ser desejável. O mito da beleza na realidade sempre determina o comportamento, não a aparência. A juventude e (até recentemente) a virgindade foram “bonitas” nas mulheres por representarem a ignorância sexual e a falta de experiência. O envelhecimento na mulher é “feio” porque as mulheres adquirem poder com o passar do tempo e porque os elos entre as gerações de mulheres devem sempre ser rompidos. As mulheres mais velhas temem as jovens, as jovens temem as velhas, e o mito da beleza mutila o curso da vida de todas (ibidem, p. 17).

A fala da autora é facilmente constatada nas três narrativas. Bridget, por exemplo, rivaliza com a mãe, Pam – ela acha a atitude materna inadequada, afinal, além de se separar do marido, pai de Bridget, ela se envolve com um rapaz mais novo e mais voluptuoso. Pam dá a entender que o novo relacionamento é muito mais emocionante, sexualmente falando, o que horroriza a filha. Bridget, por seu turno, é constantemente criticada por seu comportamento e até por suas roupas. A mãe pensa que se a filha se arrumasse mais ou ousasse nos trajes seria mais fácil de ela encontrar um homem que gostasse dela. Assim, mesmo ela sendo mais velha, é mais atrevida, o que torna a relação entre elas conturbada. Já Claire se espanta ao descobrir que a amante do marido é uma mulher normal. Por ter sido trocada, ela esperava alguém incrível, dona de uma beleza paralisante, mas saber que a moça em questão é mãe de família e mais velha que ela a deixa mais estarrecida do que se a outra fosse deslumbrante. Como ela a descreve,

O terrível é que ela sempre pareceu tão boazinha. Tem 35 anos (não me pergunte como sei disso, simplesmente sei. E, correndo o risco de parecer que falo por pura inveja e de perder a simpatia de quem me lê, a aparência dela é de quem tem mesmo trinta e cinco), é mãe de dois filhos e tem um bom marido (ou seja, bem diferente do meu) (KEYES, 2010, p. 11).

Este outro trecho evidencia como Claire procura pistas de um comportamento mais picante ou de uma aparência mais sedutora em Denise para descobrir o porquê de James tê-la traído.

Será que ela é diferente de mim na cama? Será que ela é melhor? Como será o corpo dela? Será que ela tem um bumbum menor, seios maiores, barriga mais lisa, pernas mais longas? Será que ela é realmente audaciosa e o deixa louco de paixão?

Imaginei tudo isso mesmo conhecendo Denise e podendo responder eu própria à maioria dessas perguntas. (Bumbum menor? Não. Seios maiores? Sim. Barriga mais lisa? Pouco provável. Pernas mais longas? Difícil dizer. Somos provavelmente da mesma altura.)

Ela não agia nem se comportava como nenhuma gatinha erótica. Sempre pareceu tão boazinha e, bem... comum, eu acho, mas agora em minha cabeça ela era Helena de Tróia, Sharon Stone ou Madonna (ibidem, p. 91).

Contudo, sempre que Claire deseja destratar ou desabonar Denise, chama-a de “gorducha” ou diz que os braços da rival têm celulite, como se atacando sua beleza pudesse se sentir superior a ela.

Wolf também assinala que a beleza é uma definidora da identidade feminina e que isso pode fragilizar a mulher. “(...) a nossa identidade deve ter como base a nossa ‘beleza’, de tal forma que permaneçamos vulneráveis à aprovação externa, trazendo nosso amor-próprio, esse órgão sensível e vital, exposto a todos”, afirma a estudiosa (WOLF, 1992, p. 17). A imagem da mulher é moldada de acordo com os cuidados delegados por ela ao físico, à mesma maneira que, antigamente, a dona-de-casa era avaliada por seus dotes culinários e por sua capacidade de manter o lar organizado. A atividade de se manter bela é quase uma função paralela a tantas

outras assumidas no dia a dia, como estabelece Wolf: “A ocupação com a beleza,

trabalho inesgotável porém efêmero, assumiu o lugar das tarefas domésticas, também inesgotáveis e efêmeras” (ibidem, p. 20). Bridget Jones elabora uma interessante metáfora para a cansativa rotina de se manter ajustada aos padrões – o ritual de se fazer bela é comparado a uma lavoura, na qual qualquer descuido pode comprometer fatalmente a colheita.

Completamente exausta depois de passar o dia todo me preparando para o encontro. Ser mulher é pior do que ser lavrador — tem tanta coisa para cuidar na plantação e na colheita: depilar pernas com cera, raspar axilas, tirar sobrancelhas, passar pedra-pomes nos pés, esfoliar e hidratar a pele, tirar os cravos, pintar a raiz dos cabelos, completar o desenho das pestanas, lixar as unhas, massagear a celulite, exercitar os músculos da barriga. A coisa é tão complexa que basta você esquecer durante uns dias e lá se vai a plantação. Às vezes penso como eu ficaria se deixasse tudo por conta da natureza — barba comprida, bigode de pontas viradas,

sobrancelhas grossas, rosto igual a um cemitério, cheio de células mortas, espinhas na pele, unhas longas como as de Mortícia Adams, cega como um morcego sem minhas lentes de contato, o corpo flácido balançando. Argh, argh. É de espantar que as garotas sejam inseguras? (FIELDING, 1998, p.38).

O mito da beleza foi afervorado como uma forma de combater a expansão do feminismo e de conter a valorização das mulheres, diz a estudiosa (WOLF, 1992), afinal, o sistema econômico vigente precisava criar freios ao crescimento vertiginoso das mulheres.

Assim que o valor social básico da mulher não pôde mais ser definido pela encarnação da domesticidade virtuosa, o mito da beleza o redefiniu como a realização da beleza virtuosa. Tal redefinição criou um novo imperativo de consumo e uma nova justificativa para a desigualdade econômica no local de trabalho, que substituíram os que já não exerciam influência sobre a mulher recém-liberada (ibidem, p. 23).

Percebe-se, então, que a obrigatoriedade de ser linda é alimentada por um sistema ainda com fortes raízes patriarcais, o qual quer cindir o potencial da mulher, reprimindo-a, agora, por meio de seus aspectos físicos. Para isso, inventam-se ideais cada vez menos humanos e possíveis, ao passo em que a indústria cosmética, a medicina cirúrgica e dermatológica e a publicidade tornam-se mais apelativas e encantadoras. Estas cooptam clientes que, na ânsia de atenderem à expectativa visual de uma sociedade que só aceita quem é bonita, veem-se inseguras e insatisfeitas, prendendo-se cada vez mais aos desmandos do mito da beleza.