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1 AS OBRAS ANALISADAS

2.2 A CHICK-LIT

2.2.4 O trabalho na chick-lit

2.2.4 O trabalho na chick-lit

Outra questão sublinhada por Gill e Herdieckerhoff é relativa à carreira. Segundo elas, no romance Harlequin a esfera profissional é coadjuvante na vida das protagonistas, sendo a união amorosa o foco principal dos enredos. Já as mulheres da chick-lit possuem uma profissão e um emprego, mas isso não implica êxito nessa área:

In this respect, the female characters in chick lit novels seem markedly different, as they are invariably portrayed as employed and committed to the idea of a career. Most chick lit heroines are, a la Bridget Jones, employed in underpaid positions, typical of the actual situation in which most working women are concentrated in low paid jobs in the service sector (GILL & HERDIECKERHOFF, 2010).

Além dessas particularidades ressaltadas por Gill e Herdieckerhoff, não raro a

chick-lit coloca a protagonista como uma profissional inferior – Harzewski já indicou que

as narrativas privilegiam ofícios ligados à área de comunicação, como jornalismo e publicidade, e a maioria das personagens é confusa, desatenta e menos astuta do que o esperado. Assim, problemas no trabalho que envolvam sua dispersão ou sua falta de conhecimento não só endossam o humor dos livros, mas também marcam as mulheres como pouco competentes e desinteressadas em uma carreira séria e ascendente. As autoras falam ser típico do gênero, após o encontro com o homem e a consolidação da relação, a protagonista finalmente reunir coragem e se estabelecer em um emprego ou em uma função para a qual tenha talento,

chegando, assim, ao sucesso. “Positive models of independence and career success

are conspicuous by their absence in chick lit, and it would seem that within this genre women are only allowed to be successful at work if this is achieved with the support

and endorsement of a loving man”, finalizam Gill e Herdieckerhoff (idem). Em

resumo, as teóricas defendem que a chick-lit se filia mais à tradição do que à contemporaneidade que almeja tocar:

On the one hand chick lit heroines are much more likely than their romantic forebears to be presented as financially independent, working outside the home, and sexually assertive. On the other, as we have noted, heroines still frequently require 'rescuing' at regular intervals – from crooks and conmen, single motherhood, or even from themselves – as when male characters recognise that the hard, successful outer shell is not the real woman inside (in this sense showing that men in chick lit, like earlier romantic heroes, are still presented as knowing better about what women want and who they are than women themselves) (idem).

Josênia Vieira, a respeito da formulação da identidade da mulher, disserta que

o trabalho como força estruturante da identidade feminina desempenha papel altamente significativo, pois, se a mulher não trabalhar, nunca atingirá a forma mais expressiva de independência feminina, que só será alcançada

pelo poder econômico, o qual é obtido principalmente pelo trabalho. A outra forma de independência, não menos importante, é a conquistada pelo letramento (VIEIRA, 2005, p. 234).

Na outra ponta do século, dissecando os costumes e ideários que vigoraram no Brasil (e também no mundo) no raiar do século XX, Marin Maluf e Maria Lúcia Mott observam que

As desigualdades entre as funções desempenhadas por homens e mulheres, que os identificaram ou com a rua ou com a casa, não vieram desacompanhadas de uma valoração cultural. Isto é, as atividades masculinas foram mais reconhecidas que as exercidas pelas mulheres, razão pela qual foram dotadas de poder e de valor. (MALUF E MOTT, 1998, p. 380).

Vieira dissertará também a respeito da dicotomia entre as profissões ditas femininas e as exclusivamente masculinas: já acostumadas aos cuidados com os filhos e tidas como maternais, às mulheres era legada, também na escola, a condição de educadora, por isso era (e é) tão comum ser o magistério exercido por uma moça. Ao se separar de James, nem se discute que a guarda da recém-nascida Cate será responsabilidade de Claire. A maioria de pedagogos e professores de educação infantil são mulheres, enquanto os professores de ensino médio e superior (cargo, supostamente, de maior prestígio e que exige mais intelecto do que

afabilidade) são, sobretudo, homens7. Maluf e Mott relembram que na década de 20

e 30, era uma vergonha ao homem ter uma esposa que exercesse trabalho remunerado, pois isso tirava dele a aura de provedor exclusivo, mas, mesmo assim, as atividades empreendidas pelas mulheres ainda eram basicamente ligadas ao lar, como artesanato ou costura. Algumas, pertencentes às classes menos abastadas, eram, por vezes de modo subumano, lavadeira, e eram esses ofícios os lícitos às garotas, que deveriam ser, primeiramente, exímias donas-de-casa. Vieira (2005), trazendo a discussão para a contemporaneidade, diz já haver mulheres tomando conta das finanças da casa ou atreladas a serviços pesados e antes tidos como viris, mas que ainda paira uma desconfiança sobre aquelas que o fazem. A autora ainda enfatiza que “Na constituição de uma autêntica identidade profissional para o gênero feminino, a palavra de ordem é êxito. A mulher contemporânea tem de ser bem-sucedida nas suas atividades profissionais (...)” (VIEIRA, 2005, p. 231). Nesse

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sentido, a chick-lit destoará dessa tendência moderna, afinal, as protagonistas não apresentam a agressividade e a ambição tidas como paradigmáticas da nova mulher, que quer se impor como tão inteligente e prodigiosa quanto os homens, portando-se como executivas ou diretoras que sobrepujam qualquer outro aspecto da vida em detrimento de sua realização profissional (e, por que não, financeira). As personagens desse gênero literário são menos gananciosas, mais preguiçosas e acomodadas, ainda que já se preocupem genuinamente com os rumos de sua carreira.

É relevante desenhar o cenário anterior, aludido por Maluf e Mott, para perceber como ele desemboca na chick-lit. Nenhuma protagonista é dona-de-casa ou dedica-se com afinco ao lar - na verdade, Becky, Bridget e Claire possuem uma certa ojeriza ao serviço doméstico, protelando para fazê-lo. Bridget tem problemas com suas roupas sujas e com a geladeira constantemente vazia (“Comecei a escolher a roupa de baixo. Como não tenho lavado nada, as únicas calcinhas existentes na gaveta eram calções de algodão branco” [FIELDING, 1998, p. 100]), enquanto Claire admite que era do marido a função da faxina mais pesada e da organização da casa, especialmente em dia de festa:

(...) ele [James] era sempre muito bom em matéria de trabalho caseiro e especialmente para limpar tudo, depois dos mencionados jantares festivos. Nunca ficava tão bêbado quanto eu, então, no mínimo, estava em condições físicas de remover a maior parte da carnificina da mesa de jantar e levá-la para a cozinha, de modo que, de manhã, pelo menos a sala estava razoavelmente apresentável (KEYES, 2010, p. 161).

Claire também relata adorar cozinhar, ao contrário da mãe, pouco vocacionada à culinária e que mantinha a família à base de comida congelada. Já Becky não faz menção alguma à limpeza ou arrumação de um lar. Nesse aspecto, há uma ruptura do paradigma da moça atrelada aos cuidados domésticos, e que, de alguma forma, sente-se satisfeita ao realizá-la com primor. O caráter e as virtudes das mulheres já não são julgados a partir de quão boas donas de casas elas são, e nem há uma espera social de que elas o sejam. As profissões das protagonistas, entretanto, depõem que, ainda que escolarizadas e diplomadas, as meninas seguiram por caminhos que são associados ao feminino. Como Wolf (1992) estabelece e Vieira aquiesce, as mulheres da geração contemporânea já romperam com a dependência financeira, e possuir renda própria faz parte desse perfil.

a identidade feminina na pós-modernidade assume postura, tipicamente, capitalista, independente economicamente, que consome e dita as leis no mercado, inclusive nas relações com o sexo masculino. Não aceita mais ser a escolhida, deseja também ter o direito de escolha com as exigências de quem também detém o poder em suas mãos. Essa nova mulher trabalha, possui salário próprio, sustenta-se e não depende do sexo masculino para sobreviver (VIEIRA, 2005, p. 236).

Bridget e Becky, no começo de cada história, são apresentadas como profissionais pouco expressivas, até dispensáveis. Não há brilhantismo intelectual nelas. Elas não consomem alta literatura ou espetáculos eruditos. Embora Claire tenha diploma em Letras e diga adorar livros cultos, durante seu período em Dublin, logo após ser abandonada por James, ela não pratica nenhuma atividade intelectual. Todas já são formadas, mas não prosseguiram os estudos e nem se aprimoraram nas respectivas profissões. Embora sempre pareçam inferiores aos homens, inclusive com os quais se relacionam, elas também se comparam com outras mulheres, que possuem uma posição mais exitosa que a delas. Essas características, em algum momento, deixam-nas deprimidas e com a autoestima

abalada. Há dois trechos de Becky Bloom que ilustram como a autoimagem é

perturbada pelos fracassos no âmbito produtivo:

Engulo fundo, sentindo-me doente de humilhação. Pela primeira vez percebo como Luke Brandon me vê. Como todos eles me veem. Sou apenas uma comédia, não sou? Sou a garota fútil que faz tudo errado e faz as pessoas rirem. A garota que não sabia da fusão do SBG com o Rutland Bank. A garota que ninguém jamais pensaria em levar a sério. (KINSELLA, 2008, p. 223).

E

(...) Não mereço a bondade dessas pessoas. Acabei de levá-las a um prejuízo de mil libras, só por ser preguiçosa demais para me manter em dia com os acontecimentos que deveria saber. Sou uma jornalista econômica, pelo amor de Deus. (...) O que tenho a meu favor? Nada. Nem uma única coisa. Não consigo controlar meu dinheiro, não consigo fazer meu trabalho e não tenho um namorado (...). (ibidem, p. 308).

Além de Becky, as outras protagonistas também são inferiorizadas. Bridget constantemente se sente boba ao se encontrar com Mark, pois está sempre em uma situação constrangedora, além de ser melindrada por Daniel, que a caçoa por sua falta de conhecimento:

Eis o que estou mandando agora: Mensagem para Cleave

A saia não demonstra estar doente ou auzente. Surpresa com a atitude fortemente preconceituosa da chefia em matéria de comprimento. Concidero a possibilidade de recorrer ao tribunal de trabalho, comunicar o fato a tablóides sensacionalistas etc.

Jones

Ai, meu Deus. A resposta que recebi: Mensagem para Jones

Ausente, Jones, e não auzente. Considero e não concidero. Por favor, tente pelo menos escrever com alguma correção. Isso não significa absolutamente que a linguagem seja algo imutável e fixo e não sempre em mutação, sendo uma ferramenta variada de comunicação (segundo Hoenigswald), talvez seja útil checar antes no corretor ortográfico.

Cleave (FIELDING, 1998, p.20).

Claire vê-se perdida sem James, pois ele, como contador, era quem cuidava dos problemas burocráticos e práticos, e ela pensa estar alijada sem as orientações do marido. Mesmo desenhadas desse modo prosaico, as três são afortunadas por uma oportunidade para mostrar ao mundo o quão incríveis podem ser: graças à ajuda de Mark, Bridget consegue uma entrevista importante com exclusividade, Becky transforma-se em um guru financeiro com os conselhos que dá em um programa de televisão e Claire assume o comando do divórcio, lidando melhor que o ex-marido com as questões legais da separação.

Destarte, percebe-se, nas obras analisadas, um tracejar dessa imagem da mulher que se pretende infundir modernamente. O padrão feminino moderno é ter uma vocação, um trabalho, um diploma e independência financeira, porém, tal ideal, apesar de apresentado na chick-lit, vem impregnado de estigmas. As personagens

femininas não são muito inteligentes ou ambiciosas – elas conquistam mais as

pessoas por seu carisma ou simpatia do que por seus atributos intelectuais.