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1 AS OBRAS ANALISADAS

2.4 A CHICK-LIT NO BRASIL

A chick-lit ainda não é um gênero de grande expressividade no Brasil, mas apesar de haver pouca produção associada ao filão, há uma vendagem significativa dos títulos que se enquadram na temática. Carina Rissi, intitulada por alguns blogs como a primeira autora de chick-lit nacional, já lançou quatro livros com essa

temática, e todos responderam muito bem às vendas. Outro exemplo é Uma bebida

e um amor sem gelo, por favor (doravante, Um amor...), de Liliane Prata, publicado

em 2006. A autora, em seu site (www.lilianeprata.com.br), diz não gostar do rótulo “chick-lit”, mas admite que o livro assim pode ser descrito. Há, de fatos, elementos da fórmula da chick-lit na construção do enredo, como a narração em 1ª pessoa, a linguagem coloquial, a tentativa de humorizar dramas e conflitos cotidianos. A

9 Em julho de 2013, a Harlequin lançou o selo “Flor da pele”, cuja temática é claramente erótica. As capas trabalham com cores fortes, como o vermelho e o negro, e com imagens sensuais, sugerindo cenas picantes. Deduz-se que a editora, atenta ao recente sucesso abiscoitado por livros femininos com enredo sexual, incrementou sua produção com títulos que atinjam esse filão e fujam do padrão mais amoroso e água-com-açúcar com o qual se popularizou.

protagonista, Marina, tem 24 anos, é publicitária e sofre muito por não ter um relacionamento sério, sofrimento esse que a leva a bloqueios profissionais. Em um chat virtual, conhece uma pessoa e se apaixona por ela, e só quando a encontra pessoalmente é que descobre que se trata de uma mulher. Nesse ponto, que seria o cerne da história, é que também reside seu maior imbróglio. A homossexualidade feminina não é comum à chick-lit, e o fato de trazê-la à tona poderia significar um vigor e uma ousadia inéditos ao gênero. Contudo, a temática é banalizada e abordada com falta de delicadeza e naturalidade, transformando o relacionamento entre duas mulheres em uma série de piadas e ironias que não refletem uma discussão mais amadurecida sobre a questão. Harzewski (2011) já havia apontado as limitações da chick-lit e a tendência em derrapar na abordagem de temas mais

graves e complexos, como aconteceu com Helen Fielding no livro A imaginação

hiperativa de Olivia Joules. A autora de Bridget Jones buscou acrescentar audácia e

atualidade social à fórmula que a tornou reverenciada, e o resultado foi desastroso, pois a chick-lit precisa de leveza e humor, o que não combina com o terrorismo (aproveitando o ensejo de 11 de Setembro) combatido pela protagonista. A teórica

define Olivia Joules como uma paródia que esgota o gênero, e não o alavanca.

Tragedy, when it exists in chick lit, has occupied more of a subplot status – the demise of a gay male secondary character to AIDS, for example. Nevertheless, as Olivia Joules may have been what we thought was Fielding´s swan song, or at least a departure from, the genre she inspired, widow lit marks a widening of protagonists´ marital status and transposes to a more somber register. As Fielding´s Bridget Jones´s Diary birthed a genre, her Olivia Joules dramatically showed its limitations (HARZEWSKI, 2011, p. 77).

No caso de Um amor..., não é a fórmula chick-lit que é ameaçada – afinal,

Marian Keyes adiciona assuntos menos engraçados aos enredos com maestria –,

mas a história em si, já que as piadas sobrepujam a discussão. Marina resiste em admitir que está envolvida com Rafaela, e na tentativa de gerar o riso na leitora, a protagonista se vale de um arsenal de chavões e clichês para analisar o relacionamento, mostrando-se fútil, infantil e pouco crível. Nota-se, no discurso de Marina, que um motivo para se revelar homossexual à sociedade seria a suposta modernidade de tal orientação sexual, como se ser gay fosse uma garantia de atrevimento e ela se tornasse mais descolada por isso. Ao ser descoberta por uma

colega de trabalho, que finge pensar ser “moderno” um namoro entre duas mulheres, Marina sente-se preparada para assumi-lo, encorajada pelo elogio:

No entanto, agora, eu entro na agência feliz porque sou lésbica e não preciso esconder mais isso de ninguém. Acho que o que está me confortando foi o comentário da Lu: "E tão moderno!".Tudo bem que a cultura geral da Luciana não engloba o período da Grécia Antiga, mas estou feliz do mesmo jeito. Agora, além de não ter que esconder mais nada de ninguém, eu sou uma mulher dinâmica e moderna (PRATA, 2006, p.131).

A insegurança quanto à nova experiência é estampada em diversas passagens da história, como “Além do mais, eu não viro gay assim que ler, viro? Não que eu tenha preconceito, acho até moderno ser gay e tudo mais, mas o caso é que eu NÃO SOU gay” (ibidem, p. 84). A visão artificiosa com que ela encara relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo também é indicada quando ela diz ser contra a natureza duas mulheres ficaram juntas:

O fato é que dormi com a consciência limpa: não estou sendo preconceituosa, ao contrário do que ela disse ontem. Encaro com a mais absoluta naturalidade o fato de mulheres namorarem, fazerem sexo e até terem filhos umas com as outras — neste último caso, quem não encara com naturalidade é a própria natureza, mas eu não tenho nada com isso. O que não encaro com naturalidade é EU ficar com outra mulher (ibidem, p. 111).

Em algumas passagens, a verossimilhança, tão preconizada pela chick-lit, é ameaçada por comportamentos pouco condizentes à idade da protagonista, comprometendo o enredo. Além disso, a superficialidade da personagem é de tal modo incrustrada em suas ações que situações comuns à chick-lit, como as compras compulsivas, a preocupação com a beleza física e com o peso, soam esquemáticas – talvez por Bridget Jones ser escrito em formato de diário, as inserções desses comentários soem mais alocadas, com o propósito de relatar os

acontecimentos do dia, enquanto em Um amor..., muitas vezes, a menção a eventos

como dieta parece forçada, apenas para escancarar uma característica da protagonista. Marina, eventualmente, diferencia-se da típica protagonista chick-lit por possuir uma autoestima mais elevada e sólida que suas pares. Por mais que em

alguns momentos ela apresente uma fragilidade emocional – basicamente causada

pela instabilidade amorosa que vive –, suas observações a respeito da própria imagem são generosas e otimistas. A primeira impressão que se tem sobre seu

visual vem da fala de Juliana, sua melhor amiga, que diz para Marina: “Você não precisa desinchar nada. Está ótima. Quem me dera ter esse corpo e esse cabelo” (ibidem, p. 10). Nestes outros dois trechos, enquanto ela se produz para encontrar Rafaela, evidencia-se que ela, acima de críticas e queixas passageiras, aprova a própria aparência e sente-se bela: “O ideal mesmo é vestir um modelo provocante, para fazer raiva nela. Afinal, se ela partiu meu coração fazendo com que eu me apaixonasse por um ser inexistente, vou partir o dela também, mostrando um corpo lindo em que ela nunca vai colocar a mão” (ibidem, p. 91) e “Combino a minissaia com uma blusa que tem um decote discreto, mas que é justa o suficiente para mostrar que minha barriga é malhada, capricho no salto, faço uma maquiagem fatal e saio. Ah, a Rafaela vai sofrer, coitada” (idem). Talvez essa opção por uma protagonista linda seja para sublinhar que, apesar de possuidora de atributos físicos invejáveis, nem por isso ela consegue um relacionamento feliz e duradouro, mas também pode revelar que é a imaturidade emocional de Marina que afasta seus amores, e nem sua aparência consegue resguardá-los.

Um outro ponto que distingue essa chick-lit das outras analisadas no presente trabalho é a ausência do happy end ao lado de um amor. Se em Bridget Jones,

Melancia e Becky Bloom as três protagonistas finalizam suas histórias com a

promessa de um relacionamento sério e longevo, Marina termina sua narração sozinha, já que seu namoro com Rafaela acaba. Apesar de a última fala do livro sugerir que ela não mais se importa se o futuro envolvimento será com um homem ou com uma mulher, páginas antes Marina diz estar procurando um rapaz para ter um novo relacionamento. No site Skoob, uma espécie de jornal coletivo e amador com resenhas sobre vários títulos literários, a avaliação de Um amor... é oscilante. Enquanto alguns leitores o elogiam pelo suposto ineditismo de se trazer um amor homossexual em uma obra de entretenimento (suposto, pois a originalidade é desmentida por alguns usuários que veem semelhanças entre o livro e o filme

Beijando Jessica Stein), outros o criticam pela construção frágil da protagonista. De

todo modo, é inegável que vários os traços da receita chick-lit compõem Um amor...,

e ainda que ele os organize com um método menos aperfeiçoado que as outras obras presentemente analisadas, é bem sucedido no fito de se apresentar como uma chick-lit com sabor nacional.

3 A INDÚSTRIA CULTURAL E A POPULAR FICTION