1 AS OBRAS ANALISADAS
2.3 DEPOIS DA CHICK-LIT
Mitchell postula as memórias eróticas femininas como a mais atual forma
dessa tradição popular. Ela localiza na publicação de A vida sexual de Catherine M
(2001), de Catherine Millet, o início desse legado, seguido por inúmeros outros títulos, como Cem escovadas antes de ir para a cama8(2004), de Melissa P, e O
doce veneno do escorpião (2004), de Bruna Surfistinha. Esse gênero esboroa as
fronteiras entre ficção e memória e abre uma fenda no campo literário destinado a mulheres, garantindo um frescor à velha fórmula ao ambicionar registrar uma certa
liberdade sexual às meninas – elas podem não só falar de sexo como revelar
desejos e fantasias antes silenciados. Essa liberdade pode até ser falaciosa, mas já reflete uma sociedade que além de não mais se chocar com esses segredos, anseia em sabê-los. Nesse ensejo, a internet e os blogs têm um papel definitivo para a ascensão desse subgênero erótico. A rede possui fácil acesso, é instantânea, segura, garante produção e leitura gratuitas e anônimas – a expressão pessoal é totalmente encorajada pelo meio virtual (MITCHELL, 2012). Assim, multiplicam-se blogs no estilo “diário virtual” que divulgam as experiências sexuais femininas. Mitchell elenca os motivos pelos quais essas narrativas são notáveis, entrelaçando-as, inclusive, com a chick-lit:
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A despeito do que a teórica pressupõe sobre a literatura feminina erótica ser uma possibilidade de encarar as relações amorosas de um modo menos monogâmico, ao menos nesse livro, a protagonista vê o sexo como uma forma de escoar suas frustrações e dores, e para de praticá-lo com múltiplos parceiros e de modo despudorado quando encontra um homem por quem se apaixona, trocando a vida liberta e intensa pela certeza e tranquilidade de um único romance.
(…) first, for their interchangeability (regardless of whether they claim to be true-life accounts or novels) and particularly the interchangeability of their packaging (shades of pink, with animated, slightly suggestive images of women); secondly, for their close relationship to chick-lit (evident, again, in their packaging, but also in the deployment of similar motifs and concerns – romance, consumerism, 'having it all', the legacies of feminism/the meanings of post-feminism); thirdly, for their uneasy conflation of 'erotic memoir' and 'prostitute narrative' motifs, and fourthly, for the many of them began life as blog (MITCHELL, 2012, p. 135).
Roach também percebe a eclosão da temática erótica nos romances
femininos, o que conversa com uma mudança de padrões sociais.
A new era is opening up wherein women can write or read such erotica, “hook up” with multiple partners and different types of partners, post images of themselves on altporn sites like Suicide Girls, attend Tupperware-style sex toy parties, wear porno-chic fashion, work as strippers, or simply revel in Sex and the City and Desperate Housewives, yet still be “good girls”
(ROACH, 2010).
Mitchell relembra a afinidade desse discurso com o mercado e o consumo – é praticamente impossível falar sobre sexualidade no campo popular sem usar uma
linguagem voltada ao comércio e ao consumo. O sexo sempre vendeu – seja
explicitamente, confirmado pela alta lucratividade angariada pela indústria pornográfica, seja discretamente, como se nota com a popularidade dos romances sentimentais de temática erótica leve –, a abordagem atual é que difere. Por isso a pretensa e propalada liberdade sexual feminina é posta em cheque, já que está associada a uma prática capitalista, e não feminista. O sexo, nesse contexto, vira mais um objeto de consumo, um bem. Mitchell (ibidem, p. 136) ressalva a relevância de pensar esses romances sob esse aspecto:
Despite – or even because of this –, the book are extremely important as sociological documents, revealing the effects of both capitalism and neo-liberalism for our understanding of sexuality, the continued anxieties about female sexuality (and its discussion / representation within the public sphere), the conflicted legacies of second-wave feminism, and the continued fascination of popular cultural form with sex, gender and sexuality.
Roach (2010) também analisa que, apesar das pressões mercadológicas, os romances com essas temáticas mais contemporâneas e ousadas podem abrir um canal de autoconhecimento para as leitoras. Além disso, segundo sua visão, essa nova vereda pode sugerir uma quebra no paradigma patriarcal, ainda registrado pelos romances populares femininos mais tradicionais. Embora Roach sustente que
esses livros não são lidos de forma acrítica – posto que consumidos vorazmente –, ela também concorda que o padrão monogâmico/heterossexual ainda é dominante nessas narrativas. Assim, embora livros como chick-lit atualizem a imagem da mulher (mais instruída, mais inteligente, menos passiva), o final só é feliz se ela tiver um homem para cuidar dela. Ou seja, da tríade mencionada por Cawelti, a “monogamia” permanece vigente, ainda que enfraquecida. Não houve uma troca, uma inversão total nessa categoria sociológica. A princípio, ela pode parecer forte e independente, mas vai sucumbir às exigências de submissão ao homem, o peso do amor ainda vigora. O casamento, por outro lado, no sentido legal e religioso, não foi totalmente abolido, mas substituído por ideias de união que tragam segurança, felicidade e satisfação sexual, nem sempre celebrada por um padre ou oficializada juridicamente. A temática erótica surge, então, como uma tentativa de ruptura com esses ideais, relatando uma outra via para encarar a sexualidade feminina – e se não é bem sucedida por ainda escorregar nas fórmular cristalizadas e desaguar sempre em searas românticas, ao menos é um meio em que as mulheres falam abertamente sobre sexo, sendo reconhecidas, e não julgadas, por isso.
(…) the rise of women’s erotica as indicative of an important cultural moment of change and counter-resistance. Romance authors are opening up restrictive sexual taboos in ways that have true potential to lessen social injustices (for women, sexual minorities, and men too long restricted to a narrow macho role). These new romance narratives can unchain young women from an often destructive and desperate sense they have to find “Mr. Right” early on and not let go. They can give people permission to explore love and sexuality, and ultimately themselves, in new liberatory ways, but these ways are, admittedly, at the same time clearly fraught with risk and danger (ROACH, 2010).
Mitchell enfatiza o ofício dicotômico proposto à popular fiction em relação ao gênero e à sexualidade: oferecer realidade ao mesmo tempo em que a leitora quer gozar fantasias e escapismo, entretê-la e diverti-la sem aliená-la, ser acessível a um público heterogêneo e, simultaneamente, tocar em medos e desejos privados, dosar conservadorismo com lascívia, desbravar as possibilidades para os papéis de gênero, mas também contê-los (MITCHELL, 2012). Ela percebe, além disso, o preconceito com que ainda se encaram os estudos de gênero e de popular fiction, posto que essenciais:
Despite the increasing academic attention paid to various kinds of genre fiction and popular culture (to wich this collection attests), ' the popular'
continues to be disparaged for the reasons and in terms that are notably gendered; nevertheless, this disparagement itself reveals the importance of the popular cultural arena as both a key source of evidence in the study of gender and sexuality, and a crucial space for the elaboration and enactment of the fantasies which structure and complicate our own experiences of being gendered, desiring individuals in the world (idem).
Como se vê, a tradição de escrita popular feminina segue profícua e fértil, reinventando-se de tempos em tempos e adaptando-se ao gosto das consumidoras, que exigem uma leitura atualizada à sua realidade. O gênero é amplo e abarca desde os romances românticos a enredos históricos ou eróticos, mas que têm em comum o público de mulheres interessadas em uma leitura leve, comovente, muitas vezes engraçada, que serve para diverti-las, emocioná-las ou inspirá-las em sonhos. Atualmente, a chick-lit abriu espaço para uma temática mais sexual, iniciada com
Cinquenta Tons de Cinza, de E. L. James, mas assim como o romance Harlequin
continua vigoroso e produzindo centenas de títulos atualmente9, a chick-lit também permanece vívida e cinde-se em subgêneros para atender perfis femininos cada vez mais variados.