2 DIREITO À LIBERDADE E AUTONOMIA DA VONTADE
3.4 A PROTEÇÃO INTEGRAL DA PESSOA IDOSA E A GARANTIA DE SUA
3.4.5 A autonomia do idoso no direito internacional
A Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Assembleia Geral das
Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, surgiu num momento em que o mundo mostrava-se sensibilizado com as atrocidades ocorridas durante a Segunda Guerra Mundial. O propósito almejado, ao se elaborar tal documento, não era proteger um grupo ou outro de pessoas, e sim realçar a necessidade de resguardo das pessoas em geral, dada a sua natureza humana.
Nessa perspectiva, a Declaração Universal dos Direitos Humanos302 não dedicou
um único artigo à proteção específica da pessoa idosa. Referiu-se à velhice apenas uma vez, quando preceituou, em seu artigo XXV, que todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar-lhe saúde, bem-estar e segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência.
Como se percebe, a velhice foi tratada, em tal documento, simplesmente como um
infortúnio ou desventura, a ser amparada, tal como se deveria amparar a pessoa em situação de desemprego, invalidez e doença. Pode-se afirmar, então, que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, não obstante seu incomensurável valor no tocante ao resguardo das liberdades individuais303, não se mostrou relevante na construção da ideia de respeito à vontade da pessoa idosa.
Seguindo o mesmo compasso, o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e
Políticos304, aprovado em 16 de dezembro de 1966, embora seja um documento
internacional de grande relevância no que diz respeito ao ideal de homem livre, também não apresentou repercussão considerável quanto ao amparo à vontade da pessoa idosa. Aliás, como não se pôde deixar de observar, o seu Artigo 2, ao determinar aos Estados Partes o compromisso de respeito e garantia, a todos os indivíduos, dos direitos nele
302
Disponível em: <http://www.dudh.org.br/wp-content/uploads/2014/12/dudh.pdf>. Acesso em: 7 fev. 2016.
303
Conforme mencionado no capítulo 2 desta dissertação, para onde se remete o leitor, a Declaração Universal dos Direitos Humanos constituiu documento da mais elevada importância no fomento de uma cultura de liberdade e de respeito aos direitos do ser humano.
304
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, de 16 de dezembro de 1966. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990- 1994/D0592.htm>. Acesso em: 7 fev. 2016.
reconhecidos, sem discriminação por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião, origem, situação econômica, nascimento ou qualquer condição, perdeu a oportunidade de incluir expressamente nesse rol a proibição de discriminação em razão da idade.
Por sua vez, o Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais305, adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 16 de Dezembro de
1966, também não teve influência, no cenário internacional, na consolidação da ideia de resguardo da autonomia da pessoa idosa.
Depreende-se, por conseguinte, que esses três últimos documentos citados não trouxeram tributo considerável à temática da proteção da pessoa idosa, no âmbito internacional, provavelmente porque, à época em que foram concebidos, o mundo ainda não havia compreendido a relevância e premência de se conferir uma proteção mais específica à pessoa idosa306.
Registre-se, igualmente, que o Pacto de San José da Costa Rica – Convenção Americana de Direitos Humanos307 – também não evidencia qualquer significância nessa seara de amparo à vontade do idoso.
O primeiro grande documento de abrangência internacional que dispõe
especificamente sobre a proteção da pessoa idosa desponta no continente americano apenas em 2015. A Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou, em 9 de junho de 2015, a Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos dos Idosos, a qual conferiu especial destaque ao tema autonomia da pessoa idosa. De fato, perscrutando-se o texto dessa convenção, pode-se perceber a existência de alguns dispositivos que evidenciam a reverência ao respeito à autonomia do idoso.
Nessa perspectiva, vale aduzir que a Convenção elegeu como princípios gerais a
dignidade, independência, o protagonismo e a autonomia do idoso308. Além disso, restou expressamente reconhecido o direito do idoso de tomar decisões e de definir seu plano de vida, incumbindo aos Estados Partes o dever de assegurar o respeito à autonomia do idoso na tomada de suas decisões e a independência na realização de seus atos, bem como de
305
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais, de 19 de dezembro de 1966. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990-1994/D0591.htm>. Acesso em: 7 fev. 2016.
306
BARROS, Marcus Aurélio de Freitas. Comentários ao art. 10, caput, do Estatuto do Idoso. In: PINHEIRO, Naide Maria (Org.) Estatuto do Idoso comentado. Campinas: Servanda, 2012. p. 101.
307
Disponível em: <http://www.aidpbrasil.org.br/arquivos/anexos/conv_idh.pdf>. Acesso em: 7 fev. 2016.
308
Art. 3º, letra "c", da Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos dos Idosos. Disponível em: <http://www.ampid.org.br/v1/wp-content/uploads/2014/08/conven%C3%A7%C3%A3o- interamericana-sobre-a-prote%C3%A7%C3%A3o-dos-direitos-humanos-dos-idosos-OEA.pdf>. Acesso em: 6 fev. 2016.
garantir que o idoso tenha a oportunidade de escolher onde e com quem quer residir, em igualdade de condições com as demais pessoas, de modo que não se veja obrigado a viver de acordo com um sistema de vida específico309.
Por conseguinte, infere-se que, também no ordenamento jurídico internacional, há
normas que protegem a pessoa idosa quanto às investidas de terceiros voltadas ao aviltamento da sua vontade.
3.4.6 Proteção da pessoa idosa versus resguardo de sua autonomia
A velhice é um estágio da existência em que ocorre, via de regra, o decréscimo de
algumas habilidades e a fragilização do corpo. Tais circunstâncias compelem os demais membros da comunidade ao entendimento de que as pessoas que se encontram nessa etapa da vida necessitam de uma especial proteção.
Não se pode olvidar, todavia, que a velhice não é igual para todos, havendo pessoas idosas em situação de muito maior vulnerabilidade que outras que contam com a mesma idade cronológica. A assertiva de que esse estágio de vida varia de pessoa para pessoa torna-se relevante para o entendimento de que a proteção a ser conferida a cada uma delas deve levar em consideração as especificidades individuais.
Deve-se ter em mente, sempre, a ideia de que, eventualmente, "proteção desprotege310", especialmente quando, sob o pretexto de se amparar a pessoa idosa, dessa forem suprimidos direitos essenciais a uma existência digna.
Dito isso, um desafio emerge das águas turvas da doutrina da proteção integral:
como manter preservada a autonomia da pessoa idosa e, ao mesmo tempo, conferir-lhe proteção integral?
A primeira observação a ser feita, com o escopo de lançar luzes sobre a aparente
antinomia, é a de que a proteção integral a que faz jus a pessoa idosa não admite, tampouco pressupõe, o aniquilamento da sua capacidade civil. Embora ao idoso seja conferido o direito de receber proteção integral, isso nem de longe significa que ele transmite a seu eventual protetor a gerência de sua vida.
Quando o art. 2º da Lei 10.741/2003 dispõe que o idoso goza de todos os direitos
fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata
309
Art. 7º, da Convenção Interamericana sobre a Proteção dos Direitos Humanos dos Idosos.
310
A expressão "proteção desprotege" foi utilizada na composição da música Filho Único, de autoria de Erasmo Carlos e Roberto Carlos, que enfatiza a insatisfação de um filho com a desmedida ingerência de uma mãe obstinada a "parir" o destino do filho. Letra da música disponível em <http://www.vagalume.com.br/erasmo-carlos/filho-unico.html>. Acesso em: 24 dez. 2015.