Quando Jenna se lançou para a calha de lixo, estava tão aterrorizada com a Assassina que não teve tempo para se assustar com a queda. Mas à medida que mergulhava descontroladamente na escuridão impenetrável, sentia um pânico avassalador crescendo dentro dela.
O interior da calha de lixo estava tão frio e escorre- gadio como gelo. Era feita de ardósia negra, muito polida, impecavelmente cortada e unida pelos Mestres Pedreiros que tinham construído a Torre dos Feiticeiros há muitas centenas de anos. A queda era íngreme, íngreme demais para que Jenna pudesse ter qualquer controle sobre a ma- neira como caía, por isso dava cambalhotas e contorcia-se para lá e para cá, rolando de um lado para o outro.
Mas o pior de tudo era o escuro.
Um negro espesso, profundo e impenetrável. Salta- va sobre Jenna vindo de todos os lados ao mesmo tempo, e por muito que ela esforçasse os olhos para tentar ver
alguma coisa, fosse o que fosse, não adiantava. Jenna até pensou que tivesse ficado cega.
Mas ainda conseguia ouvir. E, por trás dela, se a- proximando rapidamente, Jenna podia ouvir o silvar de pêlo úmido de cão lobo.
Max, o cão lobo, estava se divertindo à valer. Gos-
tava deste jogo. Max tinha ficado um bocado surpreso ao
pular para o interior da calha, por não encontrar Silas à espera dele com a bola. Ficou ainda mais surpreso quando teve a impressão de que suas patas já não funcionavam, e teve que escavar um bocado para descobrir porquê.
Depois tinha batido com o nariz no pescoço daque- la mulher assustadora, e tentou dar uma boa lambida a qualquer coisa saborosa que ela tinha no cabelo, mas nessa hora ela tinha lhe dado um grande empurrão que o deixou de pernas para o ar.
E agora Max estava feliz. Mergulhando de cabeça e
com as patas encolhidas, era um veloz relâmpago de pêlo que ultrapassava a todos. Ultrapassou Nicko, que lhe agar- rou a cauda, mas a soltou logo. Ultrapassou Jenna, que lhe gritou ao ouvido. Ultrapassou o Garoto 412, que estava enrolado como uma bola. E depois ultrapassou o seu pró- prio dono e senhor, Silas. Max sentiu-se um bocado cul-
pado ao ultrapassar Silas, porque Silas era o Macho Alfa e
Max Não Podia Ir Na Frente do Macho Alfa. Mas o cão
lobo não tinha outra escolha — passou por Silas num chuveiro de guisado frio e lascas de cenoura, e continuou a cair.
A calha de lixo serpenteava em volta da Torre dos Feiticeiros, como uma enorme confusão enterrada pro- fundamente no interior das paredes espessas. Mergulhava abruptamente de andar para andar, arrastando não só
Max, Silas, o Garoto 412, Jenna, Nicko e Marcia, mas
também as sobras do almoço de todos os Feiticeiros, que nessa tarde tinham sido atiradas na calha. A Torre dos Fei- ticeiros tinha vinte e um andares de altura. Os dois anda- res mais altos pertenciam à Feiticeira ExtraOrdinária, e em cada andar abaixo desses havia dois apartamentos de Fei- ticeiros. E uma data de almoços. Para um cão lobo era o paraíso e, enquanto caía, Max comeu sobras que lhe che-
gavam para o dia inteiro.
Por fim, depois do que pareciam horas, mas não ti- nham sido mais do que dois minutos e quinze segundos, Jenna sentiu que a queda vertical se tornava menos acen- tuada, e a velocidade a que caía reduziu-se para um nível muito mais tolerável. Jenna não sabia, mas já tinha saído da Torre dos Feiticeiros e viajava agora por baixo da terra, abandonando as fundações da Torre e dirigindo-se para as caves das Cortes dos Guardiães. Continuava a estar escuro e gelado na calha, e Jenna sentia-se muito só. Aguçou o ouvido para tentar ouvir os sons que os outros pudessem fazer, mas todos sabiam como era importante manterem- se em silêncio e nenhum deles se atrevia a chamar pelos outros. Jenna pensou conseguir ouvir o deslizar da capa de Marcia por trás dela, mas desde que Max passara por
ela que não tivera qualquer outro indício de que mais al- guém estivesse ali consigo. A idéia de ficar sozinha no es- curo para sempre começou a tomar conta dela, dando ori- gem a uma nova onda de pânico. Mas exatamente quando Jenna achou que ia começar a gritar, um raio de luz bri- lhou através de uma fenda no chão de uma cozinha dis- tante, lá no alto, e ela conseguiu apanhar um relance do Garoto 412, enrolado como uma bola, um pouco mais à frente. Jenna sentiu-se mais animada por tê-lo visto, e deu
consigo a sentir pena do rapazinho sentinela, magro e ge- lado no seu pijama.
O Garoto 412 não estava em condições de sentir pena de quem quer que fosse, e muito menos de si pró- prio. Quando a menina maluca, com o aro de ouro na ca- beça, o tinha empurrado para o abismo, ele tinha se enro- lado instintivamente como uma bola e passara o resto da descida da Torre dos Feiticeiros a chocalhar de um lado para o outro da calha, como uma bolinha de gude num tubo. O Garoto 412 sentia-se arranhado e machucado, mas não mais aterrorizado do que se sentira ao acordar na companhia de dois Feiticeiros, de um rapaz Feiticeiro e um Feiticeiro fantasma. Quando a sua queda também a- brandou, os miolos do Garoto 412 recomeçaram a fun- cionar. As poucas idéias que conseguiu juntar diziam-lhe que aquilo só podia ser um Teste. O Exército da Juventu- de estava cheio de Testes. Os Testes Surpresa Aterroriza- dores apareciam sempre no meio da noite, quando esta- vam adormecendo, depois de terem posto a estreita cama tão confortável quanto possível. Mas este era um Teste Importante. Tinha de ser um daqueles Testes Fazer-ou- Morrer. O Garoto 412 apertou os dentes; não tinha certe- za, mas naquele exato momento parecia-lhe que estava na parte de Morrer do Teste. Fosse como fosse, não havia muito que ele pudesse Fazer. Por isso fechou os olhos com força e continuou a rolar.
A calha levava-os cada vez mais para baixo. Voltou à esquerda e passou por baixo da Câmara do Conselho dos Guardiães, torceu à direita para ultrapassar os Gabine- tes do Exército, e depois seguiu direto, atravessando as grossas paredes das cozinhas subterrâneas do Palácio. Foi aqui que as coisas se tornaram particularmente com-
plicadas. As Empregadas da Cozinha ainda estavam ocu- padas com a limpeza depois do Banquete de Meio-do-Dia do Supremo Guardião, e as comportas das cozinhas, que não ficavam muito acima dos viajantes da calha de lixo, abriam-se com uma freqüência alarmante, banhando-os com a mistela de restos do festim. Até Max, que nessa
altura já tinha comido tanto quanto podia, achou aquilo desagradável, sobretudo depois de um pudim solidificado lhe ter acertado em cheio no nariz. A jovem Empregada de Cozinha que despejara o pudim apanhou um relance de
Max e durante semanas teve pesadelos com lobos na calha
do lixo.
Para Marcia, aquilo também era um pesadelo. En- rolou-se com força na sua capa de seda púrpura manchada de molhos, com o debrum de pêlo coberto de mostarda, desviou-se de um chuveiro de couves de bruxelas e tentou ensaiar o Feitiço de Lava a Seco Num Segundo, para usar logo que conseguisse sair da calha.
Por fim a calha afastou-os das cozinhas e as coisas ficaram um bocado mais limpas. Jenna permitiu-se um momento de descontração, mas ficou subitamente sem ar quando a calha mergulhou de repente a pique sob a mura- lha do Castelo, em direção ao seu destino final, a lixeira na margem do rio.
Silas foi o primeiro a refazer-se do súbito mergulho e calculou que a viagem devia estar acabando. Espreitou pela escuridão, tentando descobrir a luz no fundo do tú- nel, mas não conseguia ver absolutamente nada. Embora soubesse que por essa altura o sol já devia ter se posto, contava que com o nascimento da lua cheia se pudesse ver alguma luz. E nessa altura, para sua surpresa, foi deslizan-
do contra qualquer coisa sólida. Qualquer coisa macia e pegajosa, que cheirava horrivelmente. Era Max.
Silas estava se perguntando por que Max estaria
bloqueando a calha do lixo quando o Garoto 412, Jenna, Nicko e Marcia lhe acertaram como balas de canhão, um após outro. Silas percebeu que não era só Max que era
macio, pegajoso e cheirava horrivelmente — estavam to- dos assim.
— Papai? — A voz assustada de Jenna ouviu-se na escuridão. — É você, Papai?
— Sou, boneca — sussurrou Silas.
— Onde estamos, Pai? — perguntou Nicko com voz rouca. Odiava a calha do lixo. Até ter pulado para o seu interior, Nicko não fazia idéia de que não conseguia suportar espaços fechados; que boa maneira para desco- brir, pensou ele. Nicko tinha conseguido ultrapassar o medo, dizendo a si próprio que pelo menos estavam em movimento e em breve estariam lá fora. Mas agora tinham parado. E não estavam lá fora.
Estavam encravados. Presos.
Nicko tentou sentar-se, mas bateu com a cabeça na lousa fria por cima dele. Estendeu os braços, mas eles en- contraram as paredes macias como gelo de ambos os la- dos, antes ainda de estarem completamente esticados. Nicko sentiu que sua respiração se acelerava cada vez mais. Achou que era capaz de ficar louco se não saíssem dali bem depressa.
— Por que paramos? — sibilou Marcia.
— Há alguma coisa bloqueando — sussurrou Silas, que tinha tateado para lá de Max e chegado à conclusão de
que tinham ido contra uma enorme pilha de lixo que esta- va bloqueando a passagem.
— Bolas — resmungou Marcia.
— Pai. Quero sair daqui, Pai — arfou Nicko.
— Nicko? — sussurrou Silas. — Você está bem? — Não...
— É a porta dos ratos! — exclamou Marcia triun- fante. — Há uma grelha que serve para impedir os ratos de entrarem na calha. Foi colocada depois de Endor ter descoberto um rato na panela dele. Abra-a, Silas.
— Não consigo chegar até ela. Há muito lixo no caminho.
— Se tivesse usado o Feitiço de Limpeza como ti- nha dito, não haveria esse lixo todo, não é?
— Marcia — sibilou Silas —, quando se tem a im- pressão de que está prestes a morrer, as limpezas domésti- cas não são propriamente a maior prioridade.
— Pai — chamou Nicko, desesperado.
— Eu faço isso — rosnou Marcia. Fez estalar os dedos e pronunciou qualquer coisa em voz baixa. Houve um clang abafado, e a porta dos ratos abriu-se, e um zing
quando o lixo saltou obedientemente da calha e se derra- mou sobre a lixeira.
Estavam livres.
A lua cheia, que se erguia acima do rio, derramava sua luz clara e brilhante sobre a escuridão da calha, con- duzindo os seis viajantes cansados e arranhados para o lugar onde todos eles estavam mortinhos para chegar.