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A CHOUPANA DA GUARDIÃ

No documento Magia (páginas 167-176)

Foi o silêncio que acordou Jenna na manhã seguin- te, na Choupana da Guardiã. Depois de dez anos acor- dando todas as manhãs com a azáfama d’Os Bairros, isso sem falar no tumulto e rebuliço dos seis rapazes, o silêncio era verdadeiramente ensurdecedor. Jenna abriu os olhos e, por momentos, pensou que ainda estava sonhando. Onde estava? Por que não estava em casa, no seu gavetão? Por que é que só Jo-Jo e Nicko estavam ali? Onde estavam todos os seus outros irmãos?

E depois recordou-se.

Jenna sentou-se em silêncio, tendo cuidado para não acordar os rapazes que dormiam a seu lado, junto das brasas refulgentes da lareira, no andar de baixo da chou- pana de Tia Zelda. Enrolou-se na colcha porque, apesar da lareira, o ar na choupana tinha um toque gélido de u- midade. E depois, de forma hesitante, levou uma mão à cabeça.

Com que então, era verdade. A tiara de ouro ainda

ali estava. Ainda era uma Princesa. Não tinha sido só uma brincadeira pelo seu aniversário.

Ao longo de todo o dia anterior, Jenna tinha tido aquela sensação de irrealidade que sempre sentia nos seus aniversários. A sensação de que aquele dia era, de alguma forma, parte de um outro mundo, de uma outra época, e de que tudo o que acontecia nos seus aniversários, não era real. E tinha sido essa sensação que ajudara Jenna a atra- vessar os fantásticos acontecimentos do seu décimo ani- versário, a sensação de que, acontecesse o que aconteces- se, tudo voltaria ao normal no dia seguinte e por isso não importava. Mas não tinha voltado. E importava.

Jenna apertou os braços em torno do corpo para se manter quente e ponderou o assunto. Ela era uma Princesa.

Jenna e a sua melhor amiga, Bo, tinham discutido várias vezes o fato de serem ambas Princesas-irmãs que tinham sido separadas à nascença e que o destino tinha voltado a reunir sob a forma de uma carteira partilhada na Turma 6 da Terceira Escola do Lado Oriental. Jenna qua- se tinha acreditado nisso; parecia bater tão bem. Apesar de que, quando ia ao quarto de Bo para brincar, Jenna não entendia como Bo podia pertencer a outra família. Bo era tão parecida com a mãe, com seu cabelo vermelho vivo e uma floresta de sardas, que tinha mesmo que ser filha de- la. Mas Bo tinha sido sarcástica quando Jenna mencionara esse fato, por isso não voltara a falar disso.

Mesmo assim, não tinha impedido Jenna de pensar em como ela própria era tão diferente de sua mãe. E do seu pai. E dos seus irmãos. Por que era ela a única com cabelo escuro? Por que não tinha olhos verdes? Jenna ti- nha desejado ardentemente que seus olhos se tornassem

verdes. Na verdade, até à véspera, ainda esperava que isso acontecesse.

Tinha ansiado pela excitação de que Sara lhe disses- se, como a vira fazer com todos os rapazes:

— Sabe, acho que seus olhos estão começando a

mudar. Hoje consigo mesmo ver um bocadinho de verde

neles. — E depois: — Está crescendo depressa mesmo.

Tem os olhos quase tão verdes como o seu pai.

Mas quando Jenna exigia que falassem dos olhos de- la, e do por que ainda não eram verdes como os dos ir-

mãos, Sara limitava-se a dizer:

— Mas você é a nossa menininha, Jenna. Você é es-

pecial. Tem os olhos lindíssimos.

Mas Jenna não se deixava enganar com isso. Sabia muito bem que as meninas também podiam ter olhos ver- des de Feiticeira. Bastava olhar para Miranda Bott que vi- via ao fundo do corredor, cujo pai tinha a loja de mantos de Feiticeiro de segunda mão. A Miranda tinha os olhos verdes, e era o avô dela que era Feiticeiro. Então, por que

não ela não tinha?

Jenna ficou preocupada ao pensar em Sara. Interro- gou-se sobre quando voltaria a vê-la. Chegou mesmo a perguntar-se se Sara ainda quereria continuar sendo sua mãe, agora que tudo tinha mudado.

Jenna estremeceu e disse a si mesma para deixar de ser palerma. Levantou-se, manteve a colcha apertada em torno do corpo e passou cuidadosamente por cima dos dois rapazes adormecidos. Deteve-se para olhar para o Garoto 412 e perguntou-se por que teria pensado que era Jo-Jo. Deve ter sido uma ilusão da luz, pensou.

O interior da choupana ainda estava escuro, com exceção do brilho pálido da lareira, mas Jenna já tinha se

acostumado à penumbra, e começou a vaguear pela casa, arrastando a colcha pelo chão e absorvendo lentamente aquilo que a rodeava.

A choupana não era grande. Havia um comparti- mento no andar de baixo; num dos lados havia uma e- norme lareira aberta, com uma pilha de troncos que ainda ardia suavemente, sobre a pedra quente. Nicko e o Garoto 412 estavam dormindo profundamente em frente da larei- ra, cada um deles aconchegado numa das quentes colchas de retalhos de Tia Zelda. No meio da sala havia um lance de estreitos degraus com um armário no vão, com as pala- vras POÇÕES INSTÁVEIS E VENENOS PEKULIA- RES escrito na porta fechada a sete chaves, com letras de cursivo dourado. Espiou pelas escadas estreitas que leva- vam a um amplo quarto escurecido onde Tia Zelda, Mar- cia e Silas ainda estavam dormindo. E, claro, Max, cujos

roncos e fungadas chegavam até Jenna. Ou eram os ron- cos de Silas e as fungadas de Max? Quando estavam dor-

mindo, o cão e o dono eram muito parecidos.

No andar inferior os tetos eram baixos e deixavam ver as vigas de madeira das quais a choupana era feita. Das vigas pendia todo o tipo de coisas: remos de barcos, cha- péus, sacolas com conchas, pás, sacos de batatas, sapatos, fitas, vassouras, feixes de ervas, nós de salgueiros e, obvi- amente, centenas de molhos das ervas que Tia Zelda plan- tava ou comprava no Mercado da Magya, que se realizava

a cada ano e um dia no Porto. Como Bruxa Branca, Tia Zelda servia-se de ervas para encantamentos e poções, e para fins medicinais e era preciso alguém ter muita sorte para conseguir dizer alguma coisa à Tia Zelda, fosse sobre que erva fosse, que ela já não soubesse.

Jenna olhou em volta, apreciando a sensação de ser a única acordada, livre para vaguear por ali um bocado sem que ninguém a importunasse. E enquanto vagueava por ali, pensou no estranho que era estar numa choupana que tinha quatro paredes só para si, sem que estivessem juntas às paredes de mais ninguém. Era tudo muito dife- rente da balbúrdia d’Os Bairros, mas Jenna já se sentia ali como se estivesse em casa. Continuou com a sua explora- ção, notando as cadeiras velhas, mas confortáveis, a mesa bem desgastada, mas que não parecia que ia cair para o lado a qualquer momento e, o mais admirável de tudo, o chão de pedra recém-varrido e que estava completamente

vazio. Não havia nada no chão, a não ser alguns tapetes

gastos e, junto da porta, um dos pares de botas de Tia Zelda.

Deu uma espiadinha na pequena cozinha embutida, com a sua enorme pia, alguns bules e panelas cuidadosa- mente alinhados e uma pequena mesa, mas fria demais para demorar muito tempo ali. Depois perambulou até o fundo do compartimento onde prateleiras de frascos e jarros com poções enchiam as paredes, fazendo-a lem- brar-se de casa. Lá estavam algumas que ela reconhecia e se lembrava de ver Sara utilizar. Suores de Sapo, Mistura Maravilhosa, e Chás Chamativos eram nomes com que Jenna estava familiarizada. E depois, tal como em casa, rodeando uma pequena escrivaninha coberta por resmas ordenadas de papel, canetas e blocos de notas, havia pilhas balançantes de livros de Magya que chegavam até o teto. Eram tantos que cobriam quase por completo uma das paredes, mas ao contrário do que acontecia em casa, não cobriam o chão também.

A luz da aurora começava a infiltrar-se pelas janelas cobertas de gelo, e Jenna decidiu dar uma espiadinha no exterior. Foi na ponta dos pés até à grande porta de ma- deira e, lentamente, correu a enorme tranca bem lubrifica- da. Depois abriu cuidadosamente a porta, esperando que não chiasse. E não chiou, porque Tia Zelda, como todas as bruxas, era muito picuinha com as portas. Uma porta que chiasse na casa de uma Bruxa Branca era mau sinal, um sinal de Magya mal aplicada e feitiços desnecessários.

Jenna esgueirou-se silenciosamente para fora e sen- tou-se no degrau com a colcha enrolada em volta do cor- po e o hálito quente a transformar-se em nuvens brancas no ar gelado da manhã. A neblina dos pântanos pairava pesada e baixa. Agarrava-se ao solo e serpenteava sobre a superfície da água e em volta de uma pequena ponte de madeira que atravessava um canal mais largo para o paul do outro lado. A água transbordava sobre as margens do canal, que era conhecido como o Mott, e que corria por toda a volta da ilha de Tia Zelda como se fosse um fosso. A água era escura e tão plana que era como se tivesse uma pele muito fina esticada sobre a superfície, e no entanto, enquanto Jenna olhava para ela, podia ver que a água su- bia lentamente pelas margens e avançava sobre a ilha.

Durante anos Jenna tinha visto as marés subindo e descendo, e sabia que a maré nessa manhã era uma maré viva alta, depois da lua cheia da noite anterior, e sabia que em breve voltaria a arrastar-se para trás, tal como fazia no rio que ela conseguia ver da janelinha do seu quarto quan- do estava em casa, até estar tão baixa quanto tinha estado alta, despindo a lama e a areia onde as aves podiam mer- gulhar os seus bicos longos e recurvos.

O disco pálido do sol de Inverno ergueu-se lenta- mente através do espesso cobertor de névoa e, em torno de Jenna, o silêncio começou a transformar-se nos sons matinais de animais que despertam. Um cacarejar espalha- fatoso fez com que Jenna desse um pulo, surpreendida, e olhasse para o lugar de onde o som provinha. Para seu espanto, Jenna podia ver o vulto indistinto de um barco de pesca através da neblina.

Para Jenna, que tinha visto mais coisas extraordiná- rias nas últimas vinte e quatro horas do que jamais sonha- ra ser possível, um barco de pesca tripulado por galinhas não era uma surpresa tão grande quanto isso. Limitou-se a ficar sentada no degrau e esperar que o barco passasse por ela. Depois de alguns minutos o barco parecia não ter se movido, e ela interrogou-se se teria encalhado na ilha. Al- guns minutos depois disso, percebeu o que era: o barco de pesca era um galinheiro. Descendo delicadamente pelo passadiço vinha uma dúzia de galinhas, preparadas para começar o atarefado trabalho do dia. Debicando e esgara- vatando, esgaravatando e debicando.

As coisas, pensou Jenna, nem sempre são o que pa- recem.

Um esganiçado canto de pássaro chegou até ela a- través da neblina e alguns chapinhares abafados vindos da água, que pareciam pertencer a animais pequenos e, espe- rava Jenna, felpudos. Ocorreu-lhe a idéia de que poderiam ser causados por cobras d’água ou enguias, mas decidiu não pensar nisso. Jenna encostou-se contra a porta e ins- pirou o ar fresco e ligeiramente salgado do paul. Era per- feito. Calmo e sossegado.

— Nicko — protestou Jenna. — Você é tão baru- lhento. Chiu.

Nicko sentou-se no degrau, junto de Jenna e puxou um bocado da colcha para se cobrir também.

— Por favor — disse-lhe Jenna. — O quê?

— Por favor, Jenna, posso partilhar a sua colcha? Sim, pode, Nicko. Oh, muito obrigado, Jenna, é muito simpático da sua parte. Não é preciso agradecer, Nicko.

— Pronto, ‘tá bem, então não agradeço. — Nicko sorriu. — E suponho que também tenho que fazer corte- sias e salamaleques agora que você é a Miss Alteza e Pode- rosa.

— Os rapazes não fazem cortesias — riu Jenna. — Tem que fazer vênias.

Nicko levantou-se de um salto e, tirando um cha- péu imaginário da cabeça com um largo movimento de braço, curvou-se numa vênia exagerada. Jenna aplaudiu.

— Muito bem. Pode fazer isso todas as manhãs. — Voltou a rir.

— Obrigado, Sua Majestade — disse Nicko com solenidade, voltando a colocar o chapéu imaginário na cabeça.

— Gostaria de saber por onde anda o Boggart — disse Jenna, sentindo-se ensonada.

Nicko bocejou.

— Provavelmente por aí, no fundo de uma poça de lama qualquer. Não acredito que esteja todo aconchegado na cama.

— Iria detestar, não é? Tudo tão seco e limpo. — Bem — disse Nicko —, eu vou voltar para a

você não precise. — Desvencilhou-se da colcha de Jenna e voltou para dentro, para sua própria colcha, que estava enrolada num monte perto da lareira. Jenna percebeu que também se sentia cansada ainda. Começava a ter aquela sensação de areia nas pálpebras que lhe dizia que não ti- nha dormido o suficiente, e estava começando a sentir frio. Levantou-se, enrolou a colcha à sua volta, esgueirou- se de volta à penumbra da choupana e, com muito cuida- do, fechou a porta atrás de si.

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No documento Magia (páginas 167-176)