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PARA A TORRE

No documento Magia (páginas 57-62)

Jenna não podia acreditar no que lhe estava aconte- cendo. Mal tivera tempo de dar um beijinho de despedida em todo mundo, e Marcia já a cobria com o seu manto púrpura e lhe dizia que se mantivesse junto dela. E depois a grande porta negra dos Heap abriu-se de forma relutante com um chiar de dobradiças, e Jenna foi surrupiada do único lar que conhecera.

Provavelmente era melhor que Jenna, coberta co- mo estava pela capa de Marcia, não pudesse ver a expres- são desorientada dos seis rapazes Heap, ou a desolação nos rostos de Sara e Silas enquanto viam o manto púrpura com quatro pernas esvoaçar na dobra da esquina no ex- tremo do corredor 223 e desaparecer de vista.

Marcia e Jenna seguiram pelo caminho mais longo para a Torre dos Feiticeiros. Marcia não queria arriscar-se a ser vista no exterior com Jenna, e os escuros e labirínti-

cos corredores do Lado Oriental pareciam ser uma aposta mais segura do que o percurso mais curto de que se servi- ra nessa manhã. Marcia avançava a passos largos, e Jenna tinha que correr para conseguir manter-se lado a lado com ela. Por sorte, não levava mais do que uma pequena mo- chila às costas, com um punhado de tesouros para se lem- brar de sua casa; embora, com toda aquela pressa, tivesse se esquecido do seu presente de aniversário.

Já estavam a meio da manhã e a hora de pico já ti- nha passado. Para grande alívio de Marcia, os corredores bolorentos estavam praticamente vazios enquanto ela e Jenna avançavam silenciosamente, virando desembaraça- damente quando deviam, à medida que Marcia se recorda- va de suas antigas deslocações à Torre dos Feiticeiros.

Escondida sob o pesado manto de Marcia, Jenna não conseguia ver quase nada, por isso concentrou-se nos dois pares de pés que via por baixo de si: os seus próprios pezinhos rechonchudos nas gastas botas castanhas, e os longos e pontiagudos sapatos de Marcia, nas peles de pí- ton púrpura, que avançavam sobre as escuras lajes cinzen- tas do corredor. Em breve Jenna deixara de reparar nas suas botas e ficara como que hipnotizada pelas pítons púrpura e bicudas que dançavam em frente dos seus olhos — esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita — enquanto atravessavam quilômetros e quilômetros de in- findáveis corredores.

E desta forma o estranho par avançou sem ser no- tado através do Castelo. Passando pelas pesadas portas sussurrantes que escondiam as várias oficinas onde as pes- soas do Lado Oriental passavam as suas longas horas de trabalho fazendo botas, cerveja, roupas, barcos, camas, selas, velas, pão e, mais recentemente, armas, uniformes e

grilhetas. Passando pelas frias salas de aula onde crianças aborrecidas repetiam a tabuada e passando pelos grandes e vazios armazéns cheios de ecos de onde o Exército dos Guardiães tinha recentemente retirado a maior parte das provisões de Inverno para seu próprio uso.

Por fim, Marcia e Jenna atravessaram a estreita ar- cada que levava ao pátio da Torre dos Feiticeiros. Jenna prendeu a respiração no ar frio e atreveu-se a uma espia- dela por sob a capa.

Soltou uma exclamação.

Erguendo-se à sua frente estava a Torre dos Feiti- ceiros, tão alta que a Pirâmide dourada que tinha no topo quase desaparecia nuns farrapos de nuvens baixas. A Tor- re brilhava prateada sob o sol de Inverno, tão brilhante que lhe fazia doer os olhos, e o vidro púrpura nas cente- nas de janelinhas refulgia e cintilava com uma misteriosa escuridão que refletia a luz e escondia os segredos que es- tavam por detrás dele. Uma fina névoa azulada pairava em torno da Torre, graduando seus contornos, e Jenna mal conseguia dizer onde terminava a Torre e começava o céu. O ar era diferente também; tinha um cheiro doce e esqui- sito, de encantamentos mágicos e incenso antigo. E en- quanto Jenna ficava ali, incapaz de mais um passo, sabia que estava rodeada pelos sons, suaves demais para serem ouvidos, de antigos encantos e sortilégios.

Pela primeira vez desde que saíra de casa, Jenna es- tava com medo.

Marcia colocou um braço protetor sobre os ombros de Jenna, pois até ela se lembrava como era quando se via a Torre pela primeira vez. Aterrorizador.

— Anda, estamos quase lá — murmurou de forma encorajadora, e juntas escorregaram e deslizaram por so-

bre a neve que cobria o pátio em direção aos enormes de- graus de mármore que conduziam à cintilante entrada de prata. Marcia estava preocupada em manter o equilíbrio, e foi só quando chegou à base das escadas que percebeu que não havia mais ninguém de sentinela. Confusa, olhou para o relógio. O render das sentinelas só devia acontecer dali a quinze minutos, por isso onde estava o rapaz que ela repreendera nessa manhã por atirar bolas de neve?

Marcia olhou ao redor, repreendendo-se a si mes- ma. Alguma coisa estava errada. A sentinela não estava ali. E no entanto, ainda estava ali. Estava, compreendeu ela,

entre o Aqui e o Não Aqui. Estava quase morto.

Marcia mergulhou repentinamente em direção a um pequeno amontoado de neve junto da arcada, e Jenna fi- cou a descoberto.

— Cave! — sibilou Marcia, começando a esgarava- tar no montículo de neve. — Está aqui. Congelado.

Sob o monte de neve estava o corpinho branco e magro do sentinela. Estava todo enrolado, e o seu fino uniforme de algodão estava ensopado pela neve e colava- se gelado ao corpo, as cores brilhantes do bizarro unifor- me parecendo muito espalhafatosas sob o frio sol de In- verno. Jenna estremeceu ao ver o rapaz, não por causa do frio, mas por uma desconhecida memória, sem palavras, que lhe atravessou o pensamento.

Marcia limpou cuidadosamente a neve que cobria a boca azul escura do rapaz, enquanto Jenna punha uma mão no braço branco e fino como um galho. Nunca senti- ra alguém tão frio antes. Com certeza já estava morto, ou não?

Jenna viu como Marcia se debruçava sobre o rosto do rapazinho e murmurava algo que não conseguiu ouvir. Marcia calou-se, pôs-se à escuta e parecia preocupada. Depois voltou a murmurar, com mais urgência:

— Apresse-se, Pequena Cria. Apresse-se. — Inter- rompeu-se por um breve instante, e depois soprou uma longa e lenta expiração sobre o rosto do rapaz. A respira- ção tombava infindável da boca de Marcia, uma morna nuvem rosada que envolveu a boca e o nariz do rapazinho e que, lentamente, muito lentamente, parecia estar afas- tando o horrível tom azul e a substituí-lo por uma cor de maior vivacidade. O rapaz não se moveu, mas Jenna teve a impressão de já conseguir ver um tênue subir e descer em seu peito. Já respirava novamente.

— Depressa! — sussurrou Marcia a Jenna. — Se o deixarmos aqui não vai conseguir sobreviver. Temos que levá-lo para dentro. — Marcia pegou o rapaz no colo e subiu com ele os largos degraus de mármore. Ao chegar ao topo as sólidas portas de prata da Torre dos Feiticeiros abriram-se silenciosamente perante si. Jenna respirou fun- do e seguiu Marcia e o rapaz para o interior.

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No documento Magia (páginas 57-62)