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A TORRE DOS FEITICEIROS

No documento Magia (páginas 62-74)

Foi só quando as portas da Torre dos Feiticeiros se fecharam atrás de si, e ela deu consigo no enorme Saguão dourado da entrada, que Jenna percebeu o quanto sua vida passara a ser diferente. Jenna nunca, mas nunca mesmo, tinha visto ou sequer sonhado com um lugar assim antes. E sabia que a maioria das pessoas no Castelo nunca che- garia a ver um lugar semelhante. Já estava se tornando di- ferente daqueles que tinham ficado para trás.

Jenna olhava deslumbrada para as riquezas que a rodeavam enquanto permanecia paralisada no enorme Sa- guão circular. As paredes douradas cintilavam com ima- gens fugidias de criaturas mitológicas, símbolos e terras desconhecidas. O ar era agradável e cheirava a incenso. Estava preenchido com um suave zunido, o som da Mag- ya quotidiana que mantinha a Torre em funcionamento. O chão movia-se sob os pés de Jenna como se fosse areia. Era feito de centenas de cores diferentes que dançavam em redor de suas botas e soletravam as palavras BEM-

VINDA, PRINCESA, BEM-VINDA. E depois, enquanto ainda olhava surpreendida, as letras alteraram-se e escreve- ram, APRESSE-SE!

Jenna levantou os olhos para ver Marcia, que cam- baleava um pouco com o sentinela nos braços, subir para uma escada em espiral, de prata.

— Anda — chamou Marcia impaciente. Jenna cor- reu para ela, chegou ao degrau de baixo e começou a subir as escadas.

— Não, fique onde está — explicou Marcia. — As escadas fazem o resto. Vamos — disse Marcia mais alto e, para espanto de Jenna, as escadas em espiral começaram a girar. No início giravam devagar, mas logo ganharam ve- locidade, girando mais e mais depressa, subindo pela Tor- re até chegarem bem ao topo. Marcia desceu das escadas e Jenna seguiu-a, saltando um bocado tonta, antes das esca- das voltarem a girar para baixo, chamadas por outro Feiti- ceiro em algum lugar muito lá ao fundo.

A grande porta púrpura do quarto de Marcia já ti- nha se aberto para elas, e o fogo na lareira acendeu-se a- pressadamente. Um sofá veio colocar-se bem em frente à lareira, e dois travesseiros e um cobertor saltaram pelo ar e aterrissaram direitinho sobre o sofá sem que Marcia tives- se que dizer uma palavra.

Jenna ajudou Marcia a deitar o rapazinho sobre o sofá. Tinha mau aspecto. Tinha o rosto branco e esmaeci- do com o frio, os olhos fechados e tinha começado a tre- mer incontrolavelmente.

— Estar tremendo é bom sinal — disse Marcia com alguma animação. Depois estalou os dedos. — Rou- pa molhada fora.

O ridículo uniforme de sentinela voou do corpo do rapaz e tombou no solo numa colorida pilha encharcada.

— São lixo — disse Marcia para as roupas, e o uni- forme recolheu-se lugubremente e arrastou-se até à calha de escoamento de lixo, para onde se atirou e desapareceu.

Marcia sorriu.

— Boa viagem — disse. — Agora, vista roupa seca. Um pijama quentinho surgiu no corpo do rapaz, e ele começou logo a tremer com menos violência.

— Ótimo — disse Marcia. — Vamos só nos sentar aqui um bocadinho com ele e deixá-lo se aquecer. Vai fi- car bom.

Jenna sentou-se num tapete junto da lareira, e em breve apareceram duas fumegantes taças de leite quente. Marcia sentou-se ao lado dela. Jenna sentiu-se subitamente envergonhada. A Feiticeira ExtraOrdinária estava sentada no chão ao lado dela, tal como Nicko costumava fazer. O que devia dizer? Jenna não conseguia pensar em nada, a não ser que sentia frio nos pés, mas estava acanhada de- mais para descalçar as botas.

— É melhor tirar essas botas — disse Marcia. — Estão encharcadas.

Jenna desapertou os cordões e descalçou-as.

— Olha só para as suas meias. Que mau estado — repreendeu Marcia suavemente.

Jenna corou. Suas meias já tinham sido de Nicko, e antes disso tinham sido de Edd. Ou seriam de Erik? Eram quase só remendos e estavam muito grandes.

Jenna flexionou os dedos junto da lareira e secou os pés.

Jenna fez que sim com a cabeça, envergonhada. Um par de espessas e quentinhas meias púrpura aparece- ram-lhe nos pés.

— Mas mesmo assim vamos guardar as antigas — disse Marcia. — Limpem-se — disse-lhes ela. — Do- brem-se. — As meias fizeram como lhes tinha sido dito; sacudiram a terra, que aterrou num montinho pegajoso sobre a lareira, e dobraram-se meticulosamente, pousando perto do fogo, junto de Jenna. Jenna sorriu. Estava con- tente por Marcia não ter dito que os melhores remendos de Sara eram lixo.

A tarde de Inverno arrastou-se, e a luz começou a desaparecer. O menino sentinela tinha finalmente deixado de tremer e estava dormindo calmamente. Jenna estava enrolada junto à lareira, folheando um dos livros de Mag- ya ilustrados de Marcia, quando se ouviu alguém bater freneticamente à porta.

— Anda, Marcia. Abra a porta. Sou eu! — ouviu-se

uma voz impaciente do outro lado. — É o papai! — gritou Jenna.

— Chh... — disse Marcia. — Pode não ser ele. — Pelo amor de Deus, quer abrir a porta? — vol- tou a voz impaciente.

Marcia fez um rápido Feitiço de Transparência. E como não podia deixar de ser, para sua grande irritação, do outro lado da porta estavam Silas e Nicko. Mas não era tudo. Sentado ao lado deles, com a língua a pender e baba a escorrer-lhe pelo pêlo, estava o lobo, com um lenço de bolinhas sobre o pescoço.

Marcia não tinha outra solução senão deixá-los en- trar.

— Olá, Jen. — Nicko sorriu. Pisou cuidadosamen- te no delicado carpete de seda de Marcia, seguido de perto por Silas e pelo lobo, cuja cauda a abanar de contente ati- rou rapidamente a coleção de vasos de Fadas-Frágeis ao chão.

— Nicko! Papai! — gritou Jenna e atirou-se para os braços de Silas. Parecia que tinham passado meses desde a última vez que o vira. — Onde está a mamãe? Ela está bem?

— Ela está bem — disse Silas. — Foi com os rapa- zes para a casa da Galena. Eu e o Nicko só viemos aqui para te dar isto. — Silas rebuscou nos seus bolsos bem fundos. — Espere — disse. — Está em algum lugar por aqui.

— Você está doido? — perguntou Marcia. — O que pensa que está fazendo ao vir aqui? E mantenha esse

miserável lobo bem longe de mim.

O lobo estava ocupado a pingar baba sobre os sa- patos de píton de Marcia.

— Não é um lobo — disse Silas. — É um cão lobo da Abissínia, descendente dos cães lobos dos Maghul Ma- ghi. E chama-se Maximiliano. Embora ele possa deixá-la tratá-lo por Max. Se for boa para ele.

— Boa! — exclamou Marcia, quase sem palavras. — Pensei que podíamos ficar aqui — prosseguiu Silas, despejando o conteúdo de um pequeno saco gordu- rento sobre o tampo de ébano da mesa de Ouija de Marci- a, e remexendo entre ele. — Já está muito escuro para ir- mos para a Floresta.

— Ficar? Aqui?

— Papai! Olhe para as minhas meias, papai — disse Jenna, sacudindo os dedos dos pés levantados.

— Mmm, são muito bonitas, boneca — disse Silas, ainda remexendo nos bolsos. — Onde é que eu o colo- quei? Tenho certeza que o trouxe comigo...

— Gosta das minhas meias, Nicko?

— Muito púrpuras — respondeu Nicko. — Estou gelado.

Jenna levou Nicko para a beira do fogo. Apontou para o menino sentinela.

— Estamos esperando que ele acorde. Ficou con- gelado na neve, e a Marcia salvou-o. Fez com que voltasse a respirar.

Nicko soltou um assobio, impressionado.

— Ei — disse ele. — Parece que está acordando. — O sentinela tinha aberto os olhos e estava olhando para Jenna e Nicko. Parecia aterrorizado. Jenna acariciou-lhe a cabeça raspada. Picava e ainda estava um bocado fria.

— Agora você está em segurança — disse-lhe ela. — Está conosco. Eu me chamo Jenna, e este é o Nicko. Como se chama?

— Garoto 412 — balbuciou o sentinela.

— Garoto Quatro Um Dois...? — repetiu Jenna, confusa. — Mas isso é um número. Ninguém tem um número como nome.

O rapaz limitou-se a fitar Jenna. Depois voltou a fechar os olhos e adormeceu mais uma vez.

— É estranho — disse Nicko. — O Pai me disse que

eles só usavam números no Exército da Juventude. Havi- am dois deles lá fora quando viemos, mas o pai conven- ceu-os de que éramos Guardas. E lembrou-se da palavra- passe de anos atrás.

— O bom e velho Papai. Só que — disse Jenna, pensativa — acho que ele não é o meu Papai, e você não é meu irmão...

— Não seja burra. É claro que somos — disse Nicko bruscamente. — Nada pode mudar isso. Princesa pateta.

— É, acho que não — considerou Jenna. — É claro que não — disse Nicko.

Silas tinha ouvido a conversa deles.

— Hei de ser sempre o seu papai, e a mamãe será sempre a sua mamãe. É só que além dela também tem uma primeira mamãe.

— Era mesmo uma Rainha? — perguntou Jenna. — Sim. A Rainha. A nossa Rainha. Antes de ter-

mos estes Guardiães. — Silas parecia pensativo, e depois sua expressão desanuviou-se ao lembrar-se de algo, e tirou o espesso chapéu de lã. Lá estava, no bolso do chapéu. É

claro.

— Encontrei-o! — disse Silas triunfante. — O seu presente de aniversário. Feliz aniversário, boneca. — Deu a Jenna o presente que ela tinha deixado para trás.

Era pequeno e surpreendentemente pesado para o tamanho que tinha. Jenna rasgou o papel colorido e ficou segurando um pequeno saquinho azul, de cordões. Desa- pertou cuidadosamente os cordões, prendendo a respira- ção de contentamento.

— Oh! — exclamou, incapaz de esconder a decep- ção. — É um seixo. Mas é um seixo muito bonito, Papai. Obrigada. — Pegou na pedra cinzenta, lisa, e a colocou na palma da mão.

— Não é um seixo. É uma rocha de estimação — explicou ele. — Experimente fazer-lhe cócegas debaixo do queixo.

Jenna não tinha certeza de que lado ficava o queixo, mas mesmo assim fez cócegas na pedra. Lentamente, a pedra abriu os seus pequeninos olhos negros e olhou para ela, depois esticou quatro pernas entroncadas, levantou-se e passeou por sua mão.

— Oh, Papai, é genial! — exclamou Jenna.

— Achamos que ia gostar. Arranjei o feitiço na Lo- ja das Pedras Errantes. Mas não lhe dê comida demais, senão fica muito pesada e preguiçosa. E precisa de um bom passeio todos os dias.

— Vou chamá-la de Petrocha — disse Jenna. — Petrocha Trelawney.

Petrocha Trelawney parecia tão satisfeita quanto um seixo poderia se sentir, o que era praticamente o mesmo aspecto que tinha antes. Encolheu as pernas, fe- chou os olhos e preparou-se para dormir. Jenna colocou-a no bolso para mantê-la quentinha.

Enquanto isso, Max estava entretido mastigando

papel e babando sobre o pescoço de Nicko.

— Ei, chega p’ra lá, monte de baba! Anda, deite-se

— dizia Nicko, procurando empurrar Max para o chão.

Mas o cão lobo não queria se deitar. Estava olhando fixa- mente para um grande retrato na parede, de Marcia com o vestido do dia de sua Graduação como Aprendiz.

Max começou a uivar baixinho.

Nicko fez uma festa em Max.

— É um quadro que mete medo, heim? — sussur- rou ele ao cão, o qual abanou a cauda tristemente, e de- pois soltou um latido quando Alther Mella apareceu atra-

vés do retrato. Max nunca se habituara às aparições de

Alther.

Max choramingou e enterrou a cabeça debaixo do

cobertor que cobria o Garoto 412. O seu nariz frio fez com que o rapaz acordasse sobressaltado. O Garoto 412 sentou-se como se empurrado por uma mola e olhou em volta como um coelho assustado. Não gostou nada do que viu. Na realidade, estava perante o seu pior pesadelo.

A qualquer momento o Comandante do Exército da Juventude viria buscá-lo, e aí sim, estaria metido em encrencas. A privar com o inimigo — era como eles dizi- am sempre que algum deles falava com os Feiticeiros. E aqui estava ele com dois deles. E ainda com o que parecia

o fantasma de um velho Feiticeiro. Sem falar nas duas cri- anças esquisitas, a menina com uma espécie de coroa na cabeça, e o menino com os olhos verdes de Feiticeiro que o denunciavam imediatamente. E o cão imundo. Também tinham lhe tirado o uniforme e obrigado a vestir roupas civis. Podia ser fuzilado como espião. O Garoto 412 ge- meu e enterrou a cabeça nas mãos.

Jenna aproximou-se e pôs-lhe um braço em volta dos ombros.

— Está tudo bem — sussurrou ela. — Vamos to- mar conta de você.

Alther parecia agitado.

— Aquela mulher, a Linda. Ela disse-lhes para onde

vocês foram. Eles vêm para cá. Mandaram a Assassina. — Oh não — disse Marcia. — Vou FecharPorEn- canto as portas principais.

— Tarde demais — exclamou Alther. — Já está aqui dentro.

— Alguém deixou a porta aberta — disse Alther. — Silas, seu idiota! — rosnou Marcia.

— Bom, sendo assim, vamos andando — disse Si- las, dirigindo-se para a porta. — E vou levar Jenna comi- go. É óbvio que não está em segurança contigo, Marcia.

— O quê? — guinchou Marcia indignada. — Ela não está segura em parte nenhuma, seu palerma!

— Não me chame de palerma — cuspiu Silas. — Sou tão inteligente quanto você, Marcia. Só porque não sou mais do que Feiticeiro Normal...

— Parem com isso! — gritou Alther. — Não é hora

para discussões. Pelo amor de Deus, ela já está subindo as escadas.

Chocados, todos se calaram e puseram à escuta. Es- tava tudo silencioso. Silencioso demais. Exceto pelo sibilar das escadas de prata que giravam regularmente enquanto traziam lentamente um passageiro através da Torre dos Feiticeiros, bem até ao topo, bem até à porta púrpura de Marcia.

Jenna estava assustada. Nicko pôs um braço em volta dela.

— Eu a protejo, Jen — disse ele. — Comigo está em segurança.

De repente, Max atirou as orelhas para trás e soltou

um uivo de gelar o sangue. Todos ficaram com o cabelo em pé.

Crás! A porta abriu-se violentamente.

Recortada contra a luz, estava a silhueta da Assassi- na. Tinha o rosto pálido, apreciando a cena que se abria diante de si. Correu friamente os olhos em volta, procu- rando a sua presa. A Princesa. Na mão direita segurava

uma pistola de prata, a mesma que Marcia tinha visto pela última vez há dez anos na Sala do Trono.

A Assassina deu um passo em frente.

— Estão presos — disse ameaçadoramente. — Não é preciso que digam nada. Serão levados daqui para um certo lugar e...

O Garoto 412 levantou-se, tremendo. Era mesmo como ele estava à espera — tinham vindo buscá-lo. Len- tamente, caminhou até a Assassina. Ela olhou para ele fri- amente.

— Saia do caminho, rapaz — rosnou a Assassina. Deu um bofetão no Garoto 412, que o atirou ao chão.

— Não faça isso! — gritou Jenna. Correu até o Ga- roto 412, que estava estendido no chão. Ao ajoelhar-se para ver se ele estava bem, foi agarrada pela Assassina.

Jenna contorceu-se. — Me larga! — gritou.

— Quieta, Rainhazinha — riu a Assassina. — Há

uma pessoa que quer te ver. Mas quer vê-la... morta.

A Assassina apontou a pistola para a cabeça de Jenna. Bang!

Um RelâmpagoTrovão voou da mão estendida de Marcia. Atirou a Assassina no chão e deixou Jenna fora de seu alcance.

— Rodeia e Protege! — gritou Marcia. Uma bri- lhante folha de luz ergueu-se do chão como uma lâmina reluzente e rodeou-os, separando-os da Assassina incons- ciente.

Depois Marcia abriu a comporta que cobria a calha de lixo.

— É a única saída — disse. — Silas, você vai na frente. Tente fazer um Feitiço de Limpeza enquanto des- ce.

— O quê?

— Ouviu muito bem. Anda, vai! — rosnou Marcia,

empurrando Silas pela comporta aberta. Silas caiu na calha de lixo e depois, com um grito, desapareceu.

Jenna ajudou o Garoto 412 a pôr-se de pé.

— Anda — disse, e empurrou-o de cabeça pela comporta. Depois saltou ela, seguida de perto por Nicko, por Marcia e por um entusiasmado cão lobo.

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