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TIA ZELDA

No documento Magia (páginas 176-200)

— Muito bom dia a todos! — disse a voz animada de Tia Zelda para o monte de colchas e seus respectivos ocupantes, em volta da lareira. O Garoto 412 despertou em verdadeiro estado de pânico, esperando ter que pular do seu catre do Exército da Juventude e formar no exteri- or em menos de trinta segundos para a chamada da ma- nhã. Ficou olhando, sem compreender o que se passava, para Tia Zelda, que não se parecia nada com o seu ator- mentador matinal, o Cadete Chefe de cabeça raspada, que retirava grande prazer em despejar baldes de água gelada sobre quem não pulasse imediatamente da cama. Da últi- ma vez que isso tinha acontecido ao Garoto 412, tinha tido que dormir numa cama fria e molhada durante vários dias, até que secasse. O Garoto 412 pôs-se de pé de um salto com uma expressão aterrorizada no rosto, mas rela- xou um pouco quando percebeu que não era propriamen- te um balde de água gelada que Tia Zelda trazia nas mãos.

Pelo contrário, trazia um tabuleiro carregado com taças de leite quente e uma pilha enorme de torradas amanteigadas e quentinhas.

— Então, meu jovem — disse Tia Zelda. — Não há motivos para pressa. Volte a aconchegar-se na cama e beba isto enquanto ainda está quentinho. — Estendeu uma taça de leite e a maior fatia de torrada ao Garoto 412 que, na sua opinião, bem parecia estar precisando comer melhor.

O Garoto 412 voltou a sentar-se para trás, enrolou- se na colcha e, como que desconfiado, bebeu o leite quen- te e comeu a torrada amanteigada. Entre goles de leite e dentadas de torrada, correu os olhos cinzento-escuros muito abertos de apreensão em volta.

Tia Zelda sentou-se numa velha cadeira junto da la- reira e atirou alguns lenhos nas brasas. Não tardou que o fogo estivesse novamente a arder e Tia Zelda deixou-se ficar aquecendo as mãos, toda satisfeita. O Garoto 412 lançava olhares à Tia Zelda sempre que lhe parecia que esta não estava vendo. É claro que ela via, mas estava ha- bituada a cuidar de criaturinhas feridas e assustadas e viu logo que o Garoto 412 não era muito diferente da varie- dade de animaizinhos dos pântanos de que ela normal- mente cuidava e ajudava a se recuperar. Na verdade, fazia- lhe lembrar um pequeno e muito assustado coelho que ela resgatara das garras de um Lince dos Pauis há algum tem- po. O Lince tinha brincado com o coelho durante horas, mordendo-lhe as orelhas e atirando-o de um lado para o outro, desfrutando do terror paralisante do coelho, antes de se decidir a quebrar-lhe o pescoço. Quando, num ar- remesso entusiástico demais, o Lince atirara o coelho no caminho de Tia Zelda, ela apressou-se a pegá-lo, enfiou-o

na grande bolsa que levava consigo para todo lado e diri- giu-se imediatamente para casa, deixando o Lince à procu- ra de sua presa durante várias horas.

O coelho passara dias deitado junto à lareira, o- lhando para ela da mesma forma que o Garoto 412 estava olhando agora. O coelho se recuperara, pensou Tia Zelda, enquanto se ocupava do fogo, tendo o cuidado de não sobressaltar o Garoto 412 com algum olhar mais demo- rado e, tinha certeza, o Garoto 412 também iria se recupe- rar.

Os olhares de lado do Garoto 412 captaram o cabe- lo cinzento encaracolado de Tia Zelda, as faces rosadas, o sorriso caloroso e os amistosos olhos azuis brilhantes de bruxa. Foram precisos muitos olhares para conseguir a- barcar o seu largo vestido de retalhos, que tornava difícil descobrir qual seria a forma exata de Tia Zelda, especial- mente quando ela estava sentada. O Garoto 412 ficou com a impressão de que Tia Zelda tinha acabado de entrar numa tenda de retalhos e tinha, naquele exato momento, acabado de enfiar a cabeça pela abertura para ver o que se passava lá fora. A idéia provocou-lhe um breve e fugidio sorriso no canto da boca.

Tia Zelda notou com agrado aquele esboço de sor- riso. Nunca tinha visto uma criança tão emaciada e assus- tada como aquela na vida, e deixava-a perturbada só de pensar no que poderia ter deixado o Garoto 412 assim. Nas suas raras visitas ao Porto tinha ouvido histórias so- bre o Exército da Juventude, mas nunca tinha acreditado muito no que lhe contavam. Certamente, ninguém era ca- paz de tratar crianças daquela forma? Mas agora começava a pensar se não haveria mais verdade nessas histórias do que ela jamais chegara a pensar.

Tia Zelda sorriu ao Garoto 412; depois, com um gemido confortável arrancou-se da cadeira e foi, preguiço- samente, buscar mais leite quente.

Enquanto ela não estava, Nicko e Jenna acordaram. O Garoto 412 olhou para eles e afastou-se um pouco, lembrando-se muito bem da chave de braços que Jenna lhe aplicara na noite anterior. Mas Jenna limitou-se a sor- rir-lhe, ensonada, e a dizer:

— Dormiu bem?

O Garoto 412 acenou que sim com a cabeça e dei- xou o olhar cair para a taça de leite quase vazia.

Nicko sentou-se, grunhiu um cumprimento na di- reção de Jenna e do Garoto 412, pegou numa fatia de tor- rada e ficou surpreendido com a fome que tinha. Tia Zel- da regressou para junto da lareira carregando uma caneca de leite quente.

— Nicko! — sorriu Tia Zelda. — Bem, mudou um bocado desde a última vez que te vi, é bem certo. Na épo- ca não passava de um bebê. Foi no tempo em que eu cos- tumava visitar sua mamãe e seu papai n’Os Bairros. Bons tempos.

Tia Zelda suspirou e passou-lhe sua taça de leite quente.

— E a nossa Jenna! — Tia Zelda dirigiu-lhe um a- fetuoso sorriso. — Sempre quis ir vê-la, mas as coisas fi- caram bastante difíceis depois de... depois de algum tem- po. Mas o Silas tem estado a recuperar o tempo perdido e contou-me muitas coisas sobre você.

Jenna sorriu-lhe, um bocado encabulada, contente por Tia Zelda ter dito «nossa». Aceitou a taça de leite quente que Tia Zelda lhe estendeu e deixou-se ficar o- lhando para as chamas, ensonada.

Por momentos manteve-se um silêncio agradável, interrompido apenas pelo ressonar de Silas e Max no an-

dar de cima, e pelo mastigar de torradas no andar de bai- xo. Jenna, que estava encostada à parede, perto da lareira, tinha a impressão de conseguir ouvir um tênue miar no interior da parede, mas como isso era claramente impossí- vel, decidiu que devia vir do exterior e ignorou-o. Mas o miado continuou. Tornou-se progressivamente mais forte e, pensou Jenna, mais rude. Encostou o ouvido à parede e ouviu os inconfundíveis sons de um gato zangado.

— Há um gato na parede... — disse.

— Continue — disse Nicko. — Essa não conheço. — Não é uma anedota. Há mesmo um gato na pare-

de. Consigo ouvi-lo.

Tia Zelda levantou-se de um salto.

— Oh, bolas. Esqueci completamente da Berta! Jen-

na, querida, importa-se de abrir a porta da Berta? — Jenna

ficou confusa, sem saber o que fazer.

Tia Zelda apontou para uma pequena porta de ma- deira ao fundo da parede, perto dela. Jenna puxou a porti- nhola. Esta abriu-se imediatamente e de lá saiu bambole- ante um pato furioso.

— Desculpe, Berta querida — desculpou-se Tia

Zelda. — Está esperando há muito tempo?

Berta bamboleou de forma desequilibrada por sobre

a pilha de colchas e deixou-se cair em frente da lareira. A pata estava furiosa. Voltou, muito deliberadamente, as costas à Tia Zelda e sacudiu as penas. Tia Zelda inclinou- se para a frente e fez-lhe uma festinha.

— Deixem-me apresentá-los a minha gata, Berta —

disse ela. Três pares de olhos espantados fitaram Tia Zel- da. Nicko acabou por inalar algum leite e engasgou-se. O

Garoto 412 parecia desapontado. Estava começando a gostar de Tia Zelda e afinal ela era tão louca como os ou- tros.

— Mas Berta é uma pata — disse Jenna. Estava

pensando que alguém tinha que dizê-lo, e era melhor dizê- lo de uma vez, antes que tivessem que entrar todos naque- le jogo do vamos-fingir-que-a-pata-é-uma-gata-para- agradar-à-Tia-Zelda.

— Ah, sim. Claro, neste momento é uma pata. Para

dizer a verdade, já algum tempo que ela tem sido uma pa- ta, não é, Berta?

Berta soltou um miado fraco.

— Sabem, os patos conseguem voar e nadar e isso é uma grande vantagem nos pântanos. E eu ainda estou para ver um gato que goste de molhar os pés, e a Berta não

é exceção. Por isso decidiu tornar-se uma pata e desfrutar da água. E desfruta, não desfruta, Berta?

Não houve resposta. Como a gata que realmente era, Berta tinha adormecido junto da lareira.

Jenna tocou hesitantemente as penas da pata, per- guntando-se se dariam a sensação de pêlo de gato, mas eram suaves e macias e pareciam-se completamente com penas de pato.

— Olá, Berta — sussurrou Jenna.

Nicko e o Garoto 412 não disseram nada. Nenhum deles estava na disposição de começar a falar com uma

pata.

— Pobrezinha da boa e velha Berta — disse Tia

Zelda. — Fica muitas vezes presa lá fora. Mas desde que os Duendes da Lama Gelatinosa entraram através do túnel dos gatos, tenho tentado manter a porta dos gatos Fecha- daPorEncanto. Não fazem idéia do choque que foi descer

as escadas nessa manhã e encontrar a casa abarrotada com aquelas criatutinhas detestáveis, como um mar de lama, a enxamear pelas paredes acima, e a enfiarem os seus longos dedinhos ossudos em tudo e mais alguma coisa e a olha- rem para mim com aqueles olhinhos vermelhos. Comeram tudo o que puderam e estragaram tudo o que não pude- ram comer. E depois, claro, logo que me viram, começa- ram com aqueles gritos agudos. — Tia Zelda estremeceu. — Fiquei com os dentes sensíveis por mais de uma sema- na. Se não fosse o Boggart, não sei o que faria. Passei a semana limpando o lodo dos livros, sem falar que tive que refazer todas as minhas poções. E por falar em lodo, al- guém quer experimentar um mergulho na fonte termal?

Um pouco mais tarde, Nicko e Jenna sentiam-se muito mais limpos depois de Tia Zelda ter lhes mostrado onde a fonte termal borbulhava na pequena cabana de banho no quintal. O Garoto 412 recusou-se terminante- mente a ter alguma coisa a ver com aquilo e continuou encolhido junto do fogo, a boina vermelha enterrada na cabeça por cima das orelhas e o casaco de marinheiro em pele de carneiro ainda apertado em volta do corpo. O Ga- roto 412 sentia-se como se ainda tivesse o frio do dia an- terior nos ossos e pensou que nunca mais voltaria a se sentir quente. Tia Zelda deixou-o ficar sentado junto da lareira por mais um bom tempo, mas quando Nicko e Jenna resolveram sair para explorar a ilha, ela espantou-o dali para fora, para que fosse com eles.

— Levem isto com vocês — disse ela, entregando uma lanterna a Nicko. Nicko lançou um olhar interroga- dor à Tia Zelda. Para que iriam precisar de uma lanterna no meio do dia?

— Hã? — perguntou Nicko.

— Haar. Por causa do Haar, a névoa salgada dos pauis, que vem do mar — explicou Tia Zelda. — Olha, hoje estamos cercados por ela. — Moveu a mão em volta num gesto largo. — Num dia limpo consegue-se ver o Porto daqui. O Haar está rasteiro hoje, e nós estamos su- ficientemente alto para estarmos acima dele, mas se se er- guer, cobre a nós também. Nessa altura, vai precisar da

lanterna.

E assim Nicko pegou a lanterna e, rodeados pelo haar, que assentava como um ondulante cobertor branco sobre os pântanos, partiram para explorar a ilha enquanto Tia Zelda, Silas e Marcia se sentavam no interior a conver- sar seriamente junto da lareira.

Jenna ia à frente, seguida de perto por Nicko, en- quanto o Garoto 412 se arrastava mais atrás, estremecen- do aqui e ali e desejando estar de volta à beira da lareira. A neve tinha derretido no clima mais quente e mais úmido dos pântanos e o solo estava úmido e ensopado. Jenna escolheu um caminho que os levou até às margens do Mott. A maré tinha descido e a água tinha desaparecido quase por completo, deixando o lodo a descoberto, ponti- lhado por milhares de pegadas de pássaros e alguns rastros de cobras d’água, em ziguezague.

A própria Ilha Draggen tinha pouco mais de qua- trocentos metros de comprimento e era como se alguém tivesse cortado um gigantesco ovo verde ao meio e o ti- vesse pousado sobre o paul. Um caminho corria por toda a volta da ilha, seguindo a margem do Mott, e Jenna le- vou-os ao longo do caminho, respirando o ar fresco e sal- gado que rolava do haar. Jenna gostava do haar que os

rodeava. Fazia-a sentir-se segura... ali ninguém podia en- contrá-los.

Além das galinhas que viviam no barco que Jenna e Nicko tinham visto nessa manhã, encontraram uma cabra presa no meio da erva alta. Também encontraram uma colônia de coelhos que vivia numa toca na margem e que Tia Zelda tinha cercado para manter os coelhos longe da leira de couves de Inverno.

O caminho bastante usado levou-os para lá das to- cas, através de uma quantidade de couves e até uma leira baixa, de lama e erva verde brilhante, bastante suspeita.

— Acha que alguns daqueles Duendes podem estar ali? — sussurrou Jenna a Nicko, deixando-se ficar um pouco para trás.

Umas quantas bolhas ergueram-se até à superfície da lama e ouviu-se um forte ruído de sucção, como se al- guém estivesse tentando libertar uma bota do lodaçal. Jenna pulou para trás, assustada, quando o lodo borbu- lhou e se agitou.

— Nã se eu t’ver alguma coisa a ver co’isso. — O rosto largo e castanho do Boggart abriu caminho até à superfície. Piscou os olhos negros e redondos para limpá- los da lama, e presenteou-os com um olhar remelento.

— B’dia — disse, devagar.

— Bom dia, Sr. Boggart — respondeu Jenna. — Só Boggart já ‘tá bem, ‘tá?

— É aqui que você vive? Espero que não estejamos incomodando. — perguntou Jenna, educadamente.

— Bom, por acaso, você até está incomodando. Eu

dorme de dia, ‘tá vendo? — O Boggart voltou a piscar os olhos, e começou novamente a afundar-se na lama. — Mas você não era pr’a saber disso. Só não volte a falar nos

Duendes, porqu’é isso que m’acorda, ‘tá vendo? Só d’ouvir falar neles fico logo acordado.

— Desculpe — disse Jenna. — Vamos embora e o deixaremos em paz.

— Isso — concordou o Boggart, e desapareceu no lodo.

Jenna, Nicko e o Garoto 412 afastaram-se na ponta dos pés, de volta ao caminho.

— Estava zangado, não estava? — perguntou Jen- na.

— Não — respondeu Nicko. — Parece-me que ele é sempre assim. Mas é legal.

— Espero que sim — desejou Jenna.

Continuaram a caminhar ao redor da ilha, até che- garem ao extremo rombo do «ovo» verde. Isso consistia numa grande colina verdejante, coberta com uma varieda- de de pequenos arbustos espinhosos. Vaguearam pela co- lina e pararam durante um tempo, para ver o haar rodo- piando abaixo deles.

Jenna e Nicko tinham estado calados, para não vol- tar a acordar o Boggart, mas uma vez no topo da colina, Jenna disse:

— Não tem uma sensação esquisita debaixo dos pés?

— De fato, as minhas botas não são muito confor-

táveis — respondeu Nicko. — Agora que falou nisso. A- cho que ainda estão molhadas.

— Não. Refiro-me ao chão debaixo dos pés. Parece um bocado... ahhh...

— Sim, é isso. Oco. — Jenna bateu o pé no chão, com força. O chão era suficientemente firme, mas havia qualquer coisa nele que parecia diferente.

— Deve ser por causa de todas essas tocas de coe- lhos — disse Nicko.

Voltaram a descer a colina e dirigiram-se para um grande tanque para patos, com uma casinha para patos de madeira num dos extremos. Uns quantos patos percebe- ram sua presença e começaram a correr bamboleantes so- bre a erva, com esperança de que tivessem trazido algum pão com eles.

— Ei, onde é que ele se meteu? — perguntou Jen- na subitamente, olhando em volta à procura do Garoto 412.

— Provavelmente voltou para a choupana — disse Nicko. — Não me parece que ele goste muito da nossa companhia.

— Não, não acho que goste... mas não deveríamos ir à procura dele? Ele pode ter caído na leira do Boggart, ou no canal, ou um dos Duendes pode tê-lo apanhado.

— Chiuuu. Ainda acaba acordando o Boggart outra

vez.

— Sim, mas pode mesmo ter sido apanhado por um

Duende. Deveríamos tentar encontrá-lo.

— É capaz de ter razão — concordou Nicko, pou- co convencido. — Tia Zelda pode ficar aborrecida se o perdermos.

— E eu também — disse Jenna.

— Não me diga que gosta dele... — quis saber Nic-

ko. — Especialmente depois do palerminha quase ter morto a todos...

— Ele não fez de propósito — retorquiu Jenna. — Agora entendo isso. Estava tão assustado quanto nós. E pense nisso, provavelmente esteve a vida toda no Exército da Juventude e nunca teve uma mamãe ou um papai. Co- mo nós. Quer dizer, como você — corrigiu-se Jenna.

— Você teve uma mamãe e um papai. Ainda tem.

Patetinha — disse Nicko. — Muito bem, se é isso que quer, vamos procurar o menino.

Jenna olhou em volta, sem saber por onde começar, e percebeu que já não conseguia ver a choupana. Na ver- dade, já não conseguia ver muito do que quer que fosse, com exceção de Nicko e isso porque a lanterna dele liber- tava uma tênue luz avermelhada.

20

O GAROTO 412

O Garoto 412 tinha caído num buraco. Não tinha sido de propósito, e não fazia idéia de como tinha aconte- cido aquilo, mas lá estava ele, no fundo do buraco.

Mesmo antes de cair no buraco, o Garoto 412 tinha decidido que estava farto de andar atrás da Menina- Princesa e do Menino-Feiticeiro. Não pareciam querê-lo com eles, e ele sentia-se aborrecido e com frio. Por isso tinha resolvido escapulir de volta à choupana, esperando poder ter a Tia Zelda só para ele durante um tempo.

E nessa hora o haar tinha se levantado.

Se não tivesse servido para mais nada, pelo menos o Exército da Juventude preparara-o para uma eventuali- dade destas. Por diversas vezes, em noites de nevoeiro, o seu pelotão tinha sido abandonado no meio da Floresta, para encontrar o caminho de volta. Nem todos consegui- am, é claro. Havia sempre algum menino que caía nas gar- ras de um carcaju esfomeado, ou ficava abandonado numa das armadilhas colocadas pelas Bruxas Wendron, mas o Garoto 412 tinha tido sorte, sabia manter-se calado e mo- ver-se rápida e silenciosamente pelo nevoeiro noturno. E assim, tão silencioso como o próprio haar, o Garoto 412 tinha começado o seu caminho de volta à choupana. A

certa altura, tinha passado tão perto de Nicko e Jenna que bastava que estendessem as mãos para o tocarem, mas esgueirou-se por eles sem o menor ruído, desfrutando da liberdade e daquela sensação de independência.

Depois de um tempo, o Garoto 412 chegou a uma grande colina coberta de erva no extremo da ilha. Isso confundiu-o, pois tinha certeza de que já tinha passado por ela e já devia estar quase chegando à choupana. Talvez fosse uma colina diferente? Talvez também houvesse uma colina no outro extremo da ilha? Começou a pensar se não teria se perdido. Ocorreu-lhe que era capaz de ser possível continuar a andar em círculos e mais círculos em volta da ilha sem nunca chegar à choupana. Preocupado

com aquelas idéias, o Garoto 412 sentiu o chão escorregar debaixo dos pés e caiu de cabeça sobre um arbusto pe- queno, mas desagradavelmente coberto de espinhos. E foi nessa hora que aquilo aconteceu. Num momento o arbusto

estava ali e no momento seguinte o Garoto 412 tinha caí- do através dele e mergulhava na escuridão.

Seu grito de surpresa foi engolido pelo ar úmido e espesso do haar, e ele aterrissou de costas, com uma forte pancada. Sem ar, o Garoto 412 deixou-se ficar quieto por um tempo, perguntando-se se teria quebrado alguma coi- sa. Parece que não, pensou, enquanto se levantava devaga- rinho. Não parecia haver nada que lhe doesse muito. Teve sorte. Tinha caído sobre o que parecia ser areia, e isso ti- nha amortecido o tombo. O Garoto 412 endireitou-se e bateu logo com a cabeça numa rocha do teto, por cima dele. Isso sim, doeu.

No documento Magia (páginas 176-200)