— Tio Alther! — exclamou Jenna, feliz da vida. Correu margem abaixo para se juntar a Alther, que estava parado na praia, olhando muito espantado para uma vara de pesca que tinha na mão.
— Princesa! — Alther rejubilava enquanto lhe dava um abraço fantasmagórico, o qual sempre fazia Jenna sen- tir-se como se uma leve brisa de Verão a tivesse atravessa- do de um lado ao outro.
— Ora, ora — disse Alther. — Costumava vir pes- car aqui quando era criança, e ao que parece trouxe a vara e tudo. Contava poder encontrar a todos aqui.
Jenna riu. Não conseguia acreditar que Tio Alther também pudesse ter sido um rapazinho.
— Você vem conosco, Tio Alther? — perguntou. — Desculpe, Princesa. Não posso. Sabe como são as regras da fantasmidade:
Um fantasma só pode voltar a pisar Onde, quando vivo, costumava andar.
— E, infelizmente, quando era rapaz nunca fui muito além desta praia. Aqui podia apanhar muitos peixes, sabe. Bem, bem — disse Alther, mudando de assunto —,
é um cesto de piquenique que eu estou vendo ali no fundo do barco?
Debaixo de um rolo úmido de corda, estava o cesto de piquenique que Sally Mullin tinha preparado para eles. Silas inclinou-se para pegá-lo.
— Ai, minhas costas — gemeu. — O que ela pôs
aqui dentro? — Silas levantou a tampa do cesto. — Ah, isso explica tudo — suspirou. — Está atravancado de bo- lo de cevada. Mas deu um excelente lastro, heim?
— Papai — repreendeu-o Jenna. — Não seja mau-
zinho. Aliás, nós gostamos de bolo de cevada, não é, Nic- ko?
Nicko fez uma careta, mas o Garoto 412 pareceu animado. Comida. Estava com uma fome — já nem se
lembrava do que tinha sido a última coisa que tinha comi- do. Ah, sim, era isso, uma tigela de mingau de aveia fria e ressequida, um pouco antes da chamada das seis da ma- nhã. Parecia que tinha sido há uma vida.
Silas foi tirando as outras, e bem amassadas, coisas que estavam por baixo do bolo de cevada. Uma caixa de mechas e acendalhas secas, uma lata com água, um pouco de chocolate, açúcar e leite. Começou a preparar uma pe- quena fogueira, e pendurou a lata com água sobre as cha- mas para ferver, enquanto os demais se reuniam em torno das chamas bruxuleantes, aproveitando para aquecer as mãos geladas, quando não estavam mastigando umas e- normes fatias de bolo.
Até Marcia preferiu ignorar a bem conhecida ten- dência que o bolo de cevada tinha para colar os dentes de cima aos de baixo, e comeu quase uma fatia inteira. O Ga- roto 412 comeu a sua parte toda e ainda despachou os restos que todos os outros tinham deixado. Depois dei-
xou-se cair para trás na areia úmida e interrogou-se se conseguiria voltar a se mexer de novo. Sentia-se como se alguém tivesse despejado cimento dentro dele.
Jenna enfiou a mão no bolso e puxou para fora Pe- trocha Trelawney. Ficou muito quieto e calado na palma da mão dela, até Jenna lhe fazer uma festinha com a mão. Nessa altura o Petrocha estendeu as suas quatro patinhas curtas e agitou-as desesperadamente no ar. Estava deitado de costas como um escaravelho encalhado.
— Ups, lado errado para cima — riu Jenna. Endi- reitou-o imediatamente, e Petrocha Trelawney abriu os olhos e piscou-os devagarinho.
Jenna colou uma migalha de bolo de cevada no po- legar e deu-a a Petrocha.
Petrocha Trelawney voltou a piscar os olhos, ob- servou cuidadosamente o bolo de cevada e, finalmente, deu uma mordidinha delicada na migalha. Jenna não cabia em si de contente.
— Comeu! — exclamou ela.
— Tinha que comer — disse Nicko. — Bolo duro como uma pedra, para uma pedra de estimação. Não po- deria ser melhor.
Mas nem Petrocha Trelawney conseguiu agüentar mais do que uma grande migalha do bolo de cevada. Fi- cou mais uns minutos olhando em volta, depois voltou a fechar os olhos, e deixou-se dormir no quentinho da mão de Jenna.
Depois de pouco tempo a água na lata já estava fer- vendo. Silas derreteu os quadrados de chocolate na água e juntou leite. Misturou tudo a seu gosto, e quando estava quase transbordando, acrescentou o açúcar e mexeu.
— O melhor chocolate quente de todos os tempos — sentenciou Nicko. Ninguém discordou enquanto pas- savam a lata uns aos outros, até ter acabado, mais depressa do que desejavam.
Enquanto estavam todos comendo, Alther tinha es- tado a treinar a técnica de arremesso de linha com a sua vara de pesca, preocupado, e quando viu que já tinham terminado, arrastou-se para junto da fogueira. Parecia muito sério.
— Aconteceu uma coisa depois de vocês terem partido — disse sombriamente.
Silas sentiu que um peso lhe entupia a boca do es- tômago, e não era apenas do bolo de cevada. Era receio.
— O que foi, Alther? — perguntou Silas, horrivel- mente convencido que ia ouvi-lo dizer que Sara e as crian- ças tinham sido capturadas.
Alther sabia o que ele estava pensando.
— Não foi nada disso, Silas — disse ele. — Sara e os meninos estão bem. Mas foi uma coisa muito má. DomDaniel regressou ao Castelo.
— O quê? — exclamou Marcia. — Ele não pode
regressar. Eu é que sou a Feiticeira ExtraOrdinária — sou
eu que tenho o Amuleto. E deixei a Torre cheia de Feiti- ceiros — há Magya mais do que suficiente na Torre para manter o velho ultrapassado nas Terras Inóspitas, que é o lugar dele. Tem certeza que ele regressou, Alther, e que não se trata de uma peça que o Supremo Guardião — essa ratazana nojenta — quer pregar enquanto estou longe?
— Não é peça nenhuma, Marcia — disse Alther. — Eu mesmo o vi. Logo que o Muriel desapareceu por
trás do Calhau do Corvo, ele Materializou-se no Pátio da Torre dos Feiticeiros. O lugar todo começou a crepitar de
Magya Negra. Cheirava horrivelmente. Lançou os Feiticei- ros num pânico cego, a correrem de um lado para o outro, como uma multidão de formigas quando pisamos um formigueiro.
— Uma vergonha. Mas em que é que eles estavam pensando? Não sei, mas a qualidade dos Feiticeiros Nor- mais hoje em dia é surpreendentemente má — disse Mar- cia, lançando um olhar na direção de Silas. — E onde es- tava Endor? Supunha-se que era a minha substituta — não me diga que Endor também entrou em pânico?
— Não. Não entrou. Veio para fora e enfrentou-o. Pôs um Barrote atravessado nas portas da Torre.
— Oh, graças a Deus. A Torre está a salvo — sus- pirou Marcia, aliviada.
— Não, Marcia, não está. DomDaniel atacou En- dor com um RelâmpagoTrovão. Matou-a. — Alther deu um nó particularmente complicado na linha de pesca. — Lamento — disse.
— Morta — balbuciou Marcia. — E depois Removeu os Feiticeiros. — A todos? Para onde?
— Foram todos atirados para as Terras Inóspitas — não havia nada que pudessem fazer. Presumo que os mantenha prisioneiros numa das Covas que tem lá.
— Oh, Alther.
— Nessa hora chega o Supremo Guardião — aque- le homenzinho horrível — com seu séquito, perdidos em vênias e lambidas de botas, praticamente babando sobre o seu novo Mestre. Quando dei por ele, já escoltava Dom- Daniel para o interior da Torre e... anh, bem, para os seus aposentos, Marcia.
— Os meus aposentos? DomDaniel está nos meus aposentos?
— Bom, ao menos vai gostar de saber que quando chegou lá não estava na melhor das condições para apreci- á-los, já que tiveram que fazer o caminho todo pelas esca- das. Já não sobrava Magya suficiente para que as escadas continuassem funcionando. Para dizer a verdade, para o que quer que fosse pudesse continuar funcionando.
Marcia abanou a cabeça, recusando-se a acreditar. — Nunca pensei que DomDaniel pudesse fazer uma coisa dessas. Nunca.
— Nem eu — disse Alther.
— Pensei — continuou Marcia — que enquanto os Feiticeiros pudessem se agüentar até a Princesa ter idade suficiente para usar a Coroa, estaríamos em segurança. Nessa altura poderíamos nos ver livres dos Guardiães, do Exército da Juventude e de toda essa Escuridão que infes- ta o Castelo e torna a vida das pessoas tão miserável.
— Eu também — disse Alther —, mas segui DomDaniel enquanto subia pelas escadas. Estava a gabar- se ao Supremo Guardião sobre como nem podia acreditar na sorte que tinha tido — não só você tinha deixado o Cas-
telo, como tinha levado o único obstáculo ao seu regresso. — Obstáculo?
— A Jenna.
Jenna olhou para Alther, completamente surpreen- dida.
— Eu? Um obstáculo? Por quê?
Alther fitou a fogueira, imerso em pensamentos. — Ao que parece, Princesa, por um motivo qual- quer, tem impedido aquele Necromante velho e horroroso de regressar ao Castelo. Só por estar lá. E, provavelmente,
a sua mãe tinha feito o mesmo. Sempre me interroguei por que ele tinha enviado o Assassino para a Rainha e não para mim.
Jenna estremeceu. Sentiu-se subitamente com mui- to medo. Silas pôs um braço em volta dela.
— Já chega, Alther. Não ganha nada em estar as- sustando a todos nós. Sinceramente, acho que se limitou a adormecer e teve um pesadelo. Sabe muito bem que de vez em quando tem desses pesadelos. Os Guardiães não passam de um bando de rufiões que qualquer Feiticeiro ExtraOrdinário decente já teria despachado há muito tem-
po.
— Não vou ficar aqui para ser insultada desta ma- neira — indignou-se Marcia. — Não faz a menor idéia das coisas que tentamos para nos vermos livres deles. Não faz idéia nenhuma. Às vezes, quase nem conseguíamos man- ter a Torre dos Feiticeiros funcionando. E nunca tivemos a sua ajuda, Silas Heap.
— Bom, não sei qual é o problema, Marcia, Dom- Daniel está morto — retorquiu Silas.
— Não, não está — respondeu Marcia, muito sombria.
— Não seja pateta, Marcia — resmungou Silas. — Alther atirou-o do topo da Torre há quarenta anos.
Jenna e Nicko quase ficaram sem ar.
— É verdade, Tio Alther? — quis saber Jenna. — Não! — exclamou Alther, indignado. — Não a- tirei nada. Foi ele que se atirou.
— Seja como for — insistiu Silas, teimoso. — Con- tinua morto.
— Não necessariamente... — disse Alther em voz baixa, ainda fitando a fogueira. A luz das brasas projetava
sombras bruxuleantes sobre todo mundo com exceção de Alther, que flutuava entre eles, infeliz, tentando distraida- mente desfazer o nó que tinha acabado de dar na linha de pesca. O fogo reavivou-se por um breve instante, ilu- minando o círculo de pessoas à sua volta. Subitamente, Jenna falou.
— O que aconteceu mesmo no topo da Torre dos
Feiticeiros com DomDaniel, Tio Alther? — sussurrou ela. — É uma história um bocado assustadora, Prince- sa. Não quero assustá-la.
— Oh, vamos lá. Conte-nos — pediu Nicko. — A Jen gosta de histórias que metem medo.
Jenna anuiu, sem a certeza de querer mesmo ouvi- la.
— Bom — começou Alther —, é difícil contá-la por minhas próprias palavras, mas vou contá-la como a ouvi ser contada certa vez em volta de uma fogueira num acampamento bem no interior da Floresta. Era uma noite como esta, meia-noite com a lua cheia bem alta no céu, e foi contada por uma velha e sábia Bruxa Mãe Wendron às suas bruxinhas.
E assim, ao lado da fogueira, Alther Mella alterou a sua forma até ser a de uma mulher grande, de aspecto simpático, vestida de verde. Falando no tom gutural e calmo das Bruxas da Floresta, começou a contar a história.
— É aqui que a história começa: no topo de uma Pirâmide dourada, que encima uma alta Torre de prata. A Torre dos Feiticeiros reluz sob o sol matinal e é tão alta que a multidão de pessoas reunida na sua base parece um amontoado de formigas ao jovem que está escalando os lados da Pirâmide. O jovem já tinha olhado para as formi- gas uma vez e sentira-se tonto pela vertiginosa sensação
de altura. Agora mantém o olhar fixo na figura que segue à sua frente — um homem mais velho, mas admiravel- mente ágil que, para sua grande vantagem, não tem medo de alturas. O manto púrpura do homem mais velho esvo- aça nos braços do vento cortante que sopra sempre em volta do topo da Torre e, para a multidão lá embaixo, ele não parece mais do que um agitado morcego púrpura que se arrasta para o vértice da Pirâmide.
Os espectadores lá embaixo perguntam-se o que es- tará fazendo o seu Feiticeiro ExtraOrdinário? E não é o Aprendiz dele que o segue logo atrás, quase se podia dizer, que o persegue?
O Aprendiz, Alther Mella, tem agora o seu Mestre, DomDaniel, ao alcance da mão. DomDaniel chegou ao pináculo da Pirâmide, uma pequena plataforma quadrada de ouro martelado incrustado com os hieróglifos pratea- dos que Encantam a Torre. DomDaniel endireita-se, mui- to alto, o seu manto púrpura a esvoaçar por trás dele, o cinto de ouro e platina de Feiticeiro ExtraOrdinário fais- cando ao sol. Está desafiando seu Aprendiz para que se aproxime ainda mais.
Alther Mella sabe que não tem escolha. Num salto corajoso e aterrorizado, atira-se ao seu Mestre e apanha-o de surpresa. DomDaniel é derrubado e o seu Aprendiz salta sobre ele, agarrando o Amuleto Akhu, de ouro e lá- pis-lazúli, que o Mestre usa ao pescoço, numa grossa cor- rente de prata.
Muito lá embaixo, no pátio da Torre dos Feiticei- ros, as pessoas exclamam de surpresa, ao verem, através de olhos semicerrados contra a luminosidade da Pirâmide dourada, o Aprendiz a digladiar-se com o seu Mestre. Ro- lam de um lado para o outro da minúscula plataforma,
enquanto o Feiticeiro ExtraOrdinário tenta que Alther Mella largue o Amuleto.
DomDaniel fita Alther Mella com um olhar sinis- tro, os olhos verde-escuros relampejando de fúria. Os o- lhos verde-brilhantes de Alther agüentam o olhar sem pes- tanejar, e sente que o Amuleto se solta. Puxa com força, a corrente parte-se em centenas de pedaços, e o Amuleto está livre, em suas mãos.
— Fique com ele — sibila DomDaniel. — Mas prepare-se, pois hei de voltar para recuperá-lo. Hei de vol- tar com o sétimo do sétimo.
Um grito acutilante ergue-se das pessoas lá embai- xo, quando vêem o Feiticeiro ExtraOrdinário saltar do topo da Pirâmide e precipitar-se da Torre. Seu manto a- bre-se como um magnífico par de asas, mas não atrasa a vertiginosa queda em direção ao solo.
E nesse momento desaparece.
No topo da Pirâmide, seu Aprendiz segura o Amu- leto Akhu e contempla em estado de choque aquilo que acabou de ver — seu Mestre penetrando no Abismo.
A multidão amontoa-se em torno do pedaço de ter- ra carbonizada que marca o ponto onde DomDaniel atin- giu o solo. Cada uma daquelas pessoas viu uma coisa dife- rente. Um diz que ele se transformou num morcego e vo- ou para longe. Outro viu surgir um cavalo negro que se afastou a galope em direção da Floresta, e ainda outro viu DomDaniel transformar-se numa serpente e deslizar para baixo de uma rocha. Mas nenhum deles viu a verdade co- mo Alther.
Alther Mella desce da Pirâmide com os olhos fe- chados para não ter de ver a altura vertiginosa em que es- tá. Só abre os olhos depois de ter se enfiado pela pequena
comporta que leva à segurança da Biblioteca, que se situa no interior da Pirâmide dourada. E então, com uma terrí- vel sensação de fatalidade, vê o que aconteceu. Suas sim- ples vestes de lã verde de Aprendiz de Feiticeiro torna- ram-se numa rica seda púrpura. O singelo cinto de couro que usa sobre a túnica tornou-se bem mais pesado; agora é feito de ouro com as intricadas gravações em platina de runas e encantamentos que protegem e dão poder ao Fei- ticeiro ExtraOrdinário em que Alther, para seu grande espanto, se tornou.
Alther olha para o Amuleto que segura na mão trêmula. É uma pequena pedra redonda de lápis-lazúli ul- tramarino, com veios de ouro e gravado com um dragão mágico. A pedra pesa-lhe na mão, envolta num fio de ou- ro apertado em cima para formar um anel. Deste anel nas- ce um elo de prata quebrado, arrebentado quando Alther arrancou o Amuleto da sua corrente de prata.
Depois de um breve momento de hesitação, Alther abaixa-se e remove um dos cordões de couro das botas. Enfia-o pelo anel do amuleto e, como sempre fizeram to- dos os Feiticeiros ExtraOrdinários que o precederam, co- locou-o no pescoço. E então, com o longo cabelo casta- nho ainda desgrenhado pela luta, o rosto pálido e ansioso, os olhos verdes escancarados de espanto, Alther percorre o longo caminho Torre abaixo para enfrentar a multidão expectante lá embaixo.
Quando Alther surge através das enormes e maci- ças portas de prata que protegem a entrada da Torre dos Feiticeiros, é recebido com uma exclamação de surpresa. Mas nada mais é dito, pois não é possível discutir a pre- sença de um novo Feiticeiro ExtraOrdinário. Por entre
alguns resmungos murmurados, a multidão dispersa, em- bora uma voz ainda grite:
— Assim como o ganhou, também há de perdê-lo! Alther suspira. Bem sabe que é verdade.
Enquanto regressa, solitário, à Torre, para lançar mãos à obra à tarefa de desfazer a Escuridão de DomDa- niel, num pequeno quarto não muito distante, um bebê nasce numa família pobre de Feiticeiros. É o seu sétimo filho, e chama-se Silas Heap.
Gerou-se um longo silêncio em torno da fogueira, enquanto Alther retomava sua própria forma. Silas estre- meceu. Nunca tinha ouvido a história sendo contada as- sim.
— É assombroso, Alther — disse Silas, num mur- múrio rouco. — Não fazia idéia. C... como é que a Bruxa Mãe soube tantas coisas?
— Era uma das que estavam assistindo no meio da multidão — respondeu Alther. — Veio falar comigo mais tarde, nesse mesmo dia, para me dar os parabéns por ter- me tornado o Feiticeiro ExtraOrdinário, e contei-lhe a minha parte da história. Se quer que a verdade seja conhe- cida, então não é preciso mais do que contá-la à Bruxa Mãe. Ela acaba contando para todo mundo. Claro, se os outros acreditam ou não, isso já são outros quinhentos.
Jenna estava pensando furiosamente.
— Mas, Tio Alther, por que é que estava perse- guindo DomDaniel?
— Ah, boa pergunta. Isso não contei à Bruxa Mãe. Há determinadas matérias Negras sobre as quais não é conveniente falar de ânimo leve. Mas você precisa saber, por isso vou contar. É que, sabe, naquela manhã, como em todas as outras manhãs, eu estava arrumando a Biblio-
teca da Pirâmide. Uma das tarefas dos Aprendizes é man- ter a Biblioteca organizada, e eu levava meus deveres mui- to a sério, mesmo que os desempenhasse para um Mestre
tão desagradável. Seja como for, nessa manhã específica, tinha descoberto um estranho Encantamento, escrito com a letra de DomDaniel e enfiado num dos livros. Já tinha visto um semelhante por lá antes, mas não tinha sido ca- paz de entender o que estava escrito, mas ao estudar este, tive uma idéia. Pus o Encantamento em frente do espelho e vi que tinha razão: estava em escrita de espelho. Nessa altura comecei a sentir um mau pressentimento quanto àquilo, porque sabia que tinha que se tratar de um Encan- tamento Inverso, usando Magya do lado Negro — ou do Outro lado, como prefiro chamá-la, já que o Outro lado não se serve só de Magya Negra para conseguir os seus fins. Mas continuando; tinha de descobrir a verdade sobre DomDaniel e do que ele andava fazendo, por isso resolvi arriscar-me a ler o Encantamento. Mal tinha começado, quando aconteceu uma coisa terrível.
— O quê? — murmurou Jenna.
— Apareceu um Espectro por trás de mim. Bem, pelo menos podia vê-lo no espelho, mas quando me vol- tei, não estava lá. Mas podia senti-lo. Podia senti-lo pondo uma mão em meu ombro, e nessa altura... ouvi-o. Ouvi sua voz vazia falando comigo. Disse-me que tinha chega- do a minha hora. Que, tal como combinado, tinha chegado a
hora de vir me recolher.
Alther estremeceu com a recordação, e levou uma mão ao ombro esquerdo, tal como o Espectro tinha feito. Ainda lhe doía com uma sensação de frio, como sempre acontecera desde aquela manhã.
Todos os outros estremeceram também e juntaram- se mais em volta do fogo.
— Disse ao Espectro que ainda não estava pronto.
Ainda não. Sabem, na época eu já sabia o suficiente sobre
o Outro lado para saber que nunca devemos negar nada.
Mas eles estão dispostos a esperar. Para eles o tempo não