O desenvolvimento dos debates de Dubai giraram em torno da disputa sobre as funções da IANA, e a polarização que se formou tinha de um lado os Estados Unidos tentando manter a ICANN como a detentora do contrato da NTIA, ao passo que a coalizão de países que tinha a frente Rússia e China pedia a passagem dessas responsabilidades para a União Internacional de Telecomunicações (ITU-ONU). Entretanto, antes de chegar neste ponto precisamos relembrar como se cristalizaram os núcleos de poder em torno da Internet e como foram criado o arranjo institucional que hoje garante a estabilidade da rede.
A Internet nasceu como um projeto militar nos Estados Unidos para melhorar a co- municação entre pontos estratégicos do país em tempos de guerra. Em 1962 o pesquisador Paul Baran, preocupado com a possibilidade de um ataque nuclear, passou a desenvolver uma forma de que fosse possível digitalizar e trocar mensagens de voz de forma que elas pudessem ser transmitidas por rádio em uma espécie de plano de comunicação – na linha do que pensamos hoje como uma rede – e não por meio de cabos e sistemas lineares que poderiam ser interrompidos muito mais facilmente. Suas ideias foram rechaçadas no mo- mento, mas fora retomadas depois por outros pesquisadores. Em 66 Lawrence Roberts e Thomas Merrill fizeram os primeiros experimentos com troca de pacotes entre computado- res em dois pontos distintos. A comutação de pacotes consiste no processo de se decompor um arquivo em partes menores e enviar cada uma dessas partes para seu destinatário de forma independente, de forma que cada pedaço do arquivo original pode seguir por um caminho distinto dos demais na rede. Essas partes menores, antes de serem enviadas, são encapsuladas em pequenos pacotes que deixam visíveis apenas o endereço de origem e de destino, como em um envelope de carta.
No final dos anos 60 começaram os primeiros esforços para transformar os compu- tadores da ARPA (Advanced Research and Projects Agency) em uma rede, e Lawrence Roberts foi chamado para ser um dos primeiros desenvolvedores da ARPANET. Foi já neste momento na formação das primeiras equipes de desenvolvimento da ARPANET que alguns nomes importantes começam a se envolver no projeto, como Vint Cerf, Steve
Crocker e Jon Postel13.
Bases militares e universidades ligadas pela ARPANET já montavam uma rede de comunicação que não limitava nenhum ponto a se comunicar apenas com um outro, cada ponto está conectado ao menos a outros dois, chegando a quatro conexões no caso da UCLA. A arquitetura de rede foi desenvolvida em um ambiente de guerra fria e tinha já em seu design original o pressuposto de que ela fosse muito difícil de ser desligada, e permitisse a comunicação entre dois pontos distintos.
13 Essas informações foram retiradas da entrevista de Vint Cerf para a IEE. O vídeo pode ser encontrado no link http://bit.ly/2fItt0O Vídeo acessado pela última vez em novembro de 2016.
3.4. A centralidade dos Estados Unidos na criação da Internet 53
Em 1969 Robert Kahn e Vint Cerf publicaram seu artigo documentando a criação do protocolo TCP/IP. Este artigo foi um marco pois com a criação destes protocolos, finalmente era possível transmitir dados de forma que o endereçamento dos computadores fosse otimizado e o processo de transformar informação em pequenos pacotes de dados que pudessem buscar as melhores rotas entre o computador emissor e o receptor pudesse se desenvolver. A melhora no endereçamento foi primordial para que fosse possível expandir o tamanho da rede. Em 1983 todos os computadores da ARPANET já usavam esses protocolos, e como a Internet como um todo cresceu a princípio como uma ramificação desta rede o pacote de protocolos TCP/IP se tornou uma das pedras que fundamentam toda a rede.
A rede de computadores nos Estados Unidos passou a se expandir cada vez mais com o desenvolvimento de um programa chamado National Science Foundation Network (NSFNET) com apoio do governo. O programa expandiu a rede e começou a atrair a comunidade acadêmica. Entre 1985 e 1995 o programa teve incentivo e cresceu ao ponto de podermos finalmente falar de Internet. Em 1990 o NSFNET se tornou o principal backbone da Internet. Este aumento da rede, veio acompanhado de um aumento do número de pessoas que usavam a rede e do número de usos dados a rede, e isso, consequentemente trouxe problemas organizacionais.
Um dos principais responsáveis pela organização da Internet no seus primeiros dias,
Figura 5: Mapa da ARPAnet de 1971
seja na forma como ela estrutura, seja nas pautas que serão seguidas para melhorar a rede tecnicamente, foi Jon Postel. Ele se tornou o principal responsável pela documentação do
processo de desenvolvimento da rede: ele era o editor do RFC14, foi o principal responsável
pela alocação do sistema numérico da Internet e da organização do DNS. Postel na época da ARPANET e depois com o desenvolvimento da Internet, até sua morte, foi responsável por todas as atribuições que hoje são conhecidas como as funções da IANA. Este cientista da computação foi responsável por desenvolver o sistema de organização que é usado hoje, e que é hoje disputado internacionalmente.
A criação de Postel tem como função principal organizar a lista de endereços na Internet e facilitar que eles fossem encontrados, funcionando como as páginas amarelas; no lugar de relacionar nomes à telefones o Sistema de Nomes de Domínio (DNS) rela- cionava números de IP e endereços de sites e computadores. O arquivo raiz, chamado de ‘HOST.txt’, era onde se encontra o banco de dados com todos os IP e os endereços correspondentes. Se o um desses binômios (endereço-IP) não se encontrasse no servidor raiz ainda seria possível acessa-lo, mas para tanto seria necessário saber o número de IP do site desejado. Como os números de IP são difíceis de memorizar era como se a presença de um endereço no servidor raiz praticamente determinasse sua existência, e como Postel controlava o servidor raiz, por alguns anos ele praticamente controlava quem estava dentro ou fora da Internet, um dos motivos pelos quais ganhou a alcunha de Deus da Internet. Conforme a Internet cresceu foi necessário criar novos servidores raiz espelhando o origi- nal, mas todos os administradores desses servidores em algum momento foram treinados por Postel, fazendo com que suas visão sobre como a Internet deveria foi uma das mais importantes nos primeiros anos da rede, tanto por sua atuação direta, quanto pelas ideias que passava aos que eram treinados por ele.
Este pequeno histórico nos permite ver não apenas que os Estados Unidos acumu- laram o poder que tem hoje sobre a Internet por terem sido o os primeiros a terem a rede instalada, mas por ter sido o berço de boa parte do trabalho intelectual que possibilitou o desenvolvimento todos fundamento desta rede; está nas universidades norte america- nas o celeiro dos principais protocolos que fazem com que a Internet funcione. O capital intelectual concentrado em um mesmo país ajuda no desenvolvimento de um ambiente que propicia o desenvolvimento de espaços de formação, e um ambiente em que as ideias relacionadas com a Internet se tornam mais presentes. Além disso, mesmo com a abertura
14 RFC é a abreviação de Request for Comments, que é uma lista de discussão sobre desenvolvimento da rede. Esta lista está disponível em sua íntegra no site http://www.ietf.org/rfc.html e contempla toda a documentação sobre todo o desenvolvimento da rede desde seus primórdios. Os tópicos abordados no RFCs são diversos e vão desde questões puramente técnicas e esboços para resoluções de problemas estruturais de protocolos, passam por algumas questões filosóficas sobre o desenvolvimento da Internet, e até mesmo tópicos humorísticos e sobre a socialização dos participantes da lista. A atuação dentro dos RFCs está vinculada a participação em grupo de trabalho do Internet Engineering Task Force, que por sua vez funciona com base em trabalho voluntário baseado em interesse e participação – está lá quem está lá.
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para colaboração de desenvolvedores em espaços remotos, como o surgimento dos debates via RFCs, devemos lembrar que a escolha das alternativas para o desenvolvimento são feitas por meio de consenso em grupos de trabalho, e essa busca por consenso encontra maior facilidade em grupos mais coesos; sendo assim é importante notar que o fato de muitos dos fundadores e evangelistas da Internet, como Cerf e Postel, terem vindo da mesma universidade – ambos estudaram na UCLA – e se conhecerem de longa data faz com o processo de desenvolvimento se fortaleça.
Apesar da Internet ter se desenvolvido como um projeto apoiado pelo governo americano foi só no final dos anos 90 que o governo Clinton fez um movimento para assegurar seu domínio sobre esta força que já começava a mudar significativamente o mundo. O primeiro grande impacto contra essa tentativa de controle veio de Jon Postel. A questão em jogo era o controle sobre a Governança da Rede; submeter sistematicamente o controle das funções da IANA para alguma organização governamental de forma que fosse possível usar a Internet como um um recurso de vantagem geopolítica. A forma de
fazer isto seria tomando controle dos servidores raiz 15 em que estavam armazenados os
sistemas de endereçamento de sites, o DNS. Naquele momento ter o controle de todos os servidores de DNS representava ter controle sobre quem poderia ter acesso a quais porções da Internet. Em um primeiro momento Postel se recusou a passar o controle, e em uma demonstração de enfrentamento e poder, solicitou a todos os civis responsáveis por servidores raiz a fazerem com que seu computador se tornasse o ponto focal do sistema de DNS, o que de fato ocorreu, levando ao momento em que Postel controlava todos os servidores raiz controlados por civis. Ele quebrou a base do DNS e assumiu o controle de oito dos doze servidores raiz que permitiam a existência da Internet na época. A resposta do governo norte americano foi rápida e sob muita pressão e ameaças de prisão Jon Postel acabou sedendo. Ele continuou coordenando as funções da IANA pelos seis meses depois do evento, até sua morte em outubro de 1998 – esta história é contada com maiores
detalhes no livro “Who controls the Internet” (GOLDSMITH; WU,2006), bem como em
diversos sites16.
Após este evento as funções da IANA são passadas ara a ICANN, organização que seguiu como a signatária do contrato da NTIA até 2016. Desde então os conflitos em relação ao controle da Internet só cresceram, especialmente tendo em vista do aumento da relevância da Internet para a manutenção de os governos, empresas e sociedade civil tanto no que diz respeito a comunicação quanto a serviços.. Esse cenário criou um vinculo forte entre as funções da IANA de gestão, administração e padronização da Internet com os Estados Unidos. Apesar da questão de governo estar presente aqui, a questão da
15 Root servers.
16 Matérias de jornal e outras fontes podem ser encontradas nos links: http://bit.ly/2fL27Yd ; http://bit.ly/2g9NGda ; http://bit.ly/2fL2KRz . Matérias acessadas pela última vez no dia 20/11/2016
territorialidade que está posta talvez seja ainda mais crucial, pois vincula a atuação da ICANN com a legislação dos Estados Unidos e do estado da Califórnia.
Entre os casos que ilustram quão sensível é a presença da ICANN sob a supervisão dessas entidades norte-americanas são a disputa sobre o domínio .amazon entre a em- presa Amazon e os países da região amazônica; a pressão feita usando o tema da pirataria
por vias digitais no Relatório Especial 30117 para fechar parcerias comerciais entre paí-
ses; e finalmente o caso em que advogados norte-americanos pediram como indenização
por atentados terroristas os domínios do Irã18. Ou seja, a regulação de recursos críticos
da Internet por uma entidade sujeita a regulamentação de comercio norte-americana os transforma em potenciais instrumentos de barganha tanto pelo governo do Estados Uni- dos quanto dos lobistas de empresas do país. O arranjo político institucional aqui implica numa vantagem competitiva para o setor privado norte-americano