aquilo que ele mais interagiu nos últimos tempos, ordena o que apresenta em suas pági- nas e oculta aquilo que parece ter pouca relevância. Como afirma Eli Pariser (PARISER, 2011) o processo de curadoria está passando para mãos de programadores que estão nos levando a nos isolar dentro de nossas próprias esferas de interesse, e a Internet está per- dendo a capacidade de nos fazer colidir com temas novos ou pessoas que tem opiniões que divergem das nossas. Processo esse que vem como uma nova espécie de resolução do conflito previsto por Touraine entre o processo tecnocrático de massificação de produtos
e a resistência da população (TOURAINE, 1969).
Curiosamente parece causar menos incomodo a ideia de que empresas controlem o que poderemos acessar na rede do que causaria caso os governos fizessem o mesmo. De qualquer forma os processos de filtragem de conteúdo estão sendo aplicados sobre nós tanto em nível nacional, quanto nas esferas mais particulares de redes sociais e buscadores da Internet. Este processo de filtragem e controle de acesso à conteúdo aceba se vinculando com força às duas esferas de que falamos anteriormente, pois muitos destes filtros são aplicados nos próprios hubs que ligam a rede do país à Internet como um todo. É este tipo de estratégia que é usada para dificultar o acesso ao Facebook na China, ou a sites de pornografia em países do Oriente Médio, ou mesmo ao PirateBay em alguns países europeus.
Como podemos ver neste último exemplo estas três esferas elas estão essencial- mente conectadas. O conteúdo que é produzido precisa ser transmitido e armazenado em algum servidor ao redor do mundo, e este mesmo conteúdo é organizado e categorizado por pela camada lógica por parte de programas que mantém as plataformas que usamos para compartilhar o conteúdo, e em uma camada mais baixa, temos protocolos que permitem que os computadores conversem entre si.
3.6 Concentração de poder: incomodo que levou a 2012
O desenvolvimento da rede, especialmente em seu início, teve muito mais força nos Estados Unidos do que em outros países ao redor do mundo. O cenário de guerra fria gerou investimentos que possibilitaram o desenvolvimento das camadas física e lógica no país; além disso a retenção de cientistas e engenheiros e uma tecnocracia ajudou no desen- volvimento que era em seu princípio essencialmente técnico. Investimentos e a presença de equipes com muito treinamento criaram nos EUA um ambiente propício para que a Internet se desenvolvesse.
Atualmente os Estados Unidos concentra o maior volume de recursos investidos nas
esferas de governança de que falamos acima24. Se olharmos para a presença de servidores
24 Entre os exemplos de estudos sobre o tema temos o estudo sobre a distribuição de Sistemas Autô- nomos temos o texto Critical resource: An institutional economics of the Internet addressing-routing
ao redor do mundo, e graduá-los pela quantidade de clientes que atendem conseguimos mensurar a influência dos servidores norte americanos em relação ao que é feito ao redor do mundo. O mapa da figura 07 mostra a presença e o volume de tráfico em servidores do mundo, onde os pontos vermelhos mostram o servidores com maior trafego; os dados
são de 2008 (HUFFAKER; FOMENKOV; CLAFFY, 2008).
Figura 8: Servidores de DNS pelo mundo, segundo sua densidade de tráfego (HUFFAKER; FOMENKOV; CLAFFY,2008)
Outro ponto que nos ajuda a pensar sobre a centralidade norte americana para a Internet é a grande concentração de cabos submarinos que ligam o mundo todo ao país, como pode se ver na Figura 08. Para conexões entre diversos países de áreas distantes do
globo ainda é necessário usar os EUA como um hub25.
Com essas duas informações, o maior volume de servidores nos EUA, aliado à um maior número de rotas para esses servidores sugere que uma parte considerável do tráfego de dados de Internet que se dão nos Estados Unidos são provenientes de outros países. As pessoas estão processando e armazenando dados lá, estão usando sites e redes sociais daquele país.
Essas características facilitam que essa estrutura uso seja usada para melhorar a competitividade de empresas norte americanas, e isso é especialmente notável quando
space (MUELLER,2010), e sobre questões os impactos da economia da Internet temos o texto Make Money Surfing the Web? The Impact of Internet Use on the Earnings of U.S. Workers (DIMAGGIO; BONIKOWSKI,2008)
3.6. Concentração de poder: incomodo que levou a 2012 63
Figura 9: Cabos submarinos de telecomunicaçõe em 2015
falamos de redes sociais, servidores de e-mail, plataformas de blogs, buscadores de Internet, e o sistema de direcionamento de publicidade online. Se observarmos na Figura 09 as dez
empresas que mais atraíram tráfego na Internet em 2014 segundo dados do site Statista26
seis são norte americanas, seguidas por quatro chinesas - este ponto será importante mais para frente quando formos falar do posicionamento chinês e russo frente aos EUA.
Figura 10: Empresas de Internet com maior tráfego de usuários únicos por em 2014 segundo Statista
O pioneirismo foi chave para o grande desenvolvimento das indústrias que vieram junto com a rede, mas como apontamos antes, além da exportação da cultura, além
do dinheiro ganho, esse pioneirismo levou o Estados Unidos a pautar a maior parte do direcionamento e da estruturação político-institucional da Internet.
Um dos pontos de grande importância a se considerar é a regulação do sistema de DNS, e as implicações de sua regulação ser feita pela ICANN. Se o IP funciona como o endereço de algo na rede, o DNS funciona como uma forma de organizar estes endereços por meio de uma hierarquia. Esta hierarquização é a principal responsável pela unicidade da Internet, ela é a responsável pelo processo de organização que permite que acessemos
conteúdos aos quais nunca nos conectamos antes27.
Essa predominância na estrutura física e lógica, além de uma grande vantagem no alcance de suas empresas, fez com que ficasse claro que os Estados Unidos conseguissem nos primeiros quarenta anos da Internet assegurar que cada esfera de sua governança ti- vesse influência norte americana. Da mesma forma como a predominância americana na Governança da Internet se deu com o desenvolvimento de estruturas – no governo e no setor privado - que cobrissem as três esferas de governança, as tentativas de interpretar as propostas de mudança na estrutura global de governança a partir de apenas uma destas esferas pode nos levar a distorções pautadas por determinados interesses econômicos, po- lítico, culturais e sociais. Ou seja, é preciso entender como uma empresa como o Facebook pode ser influenciada pela regulação de cabos submarinos, ou quaisquer outras interações entre diferentes esferas da governança da rede.
Agora que já abordamos como a internet e algumas das entidades que atuam na sua governança surgiram podemos passar para a análise das disputas sobre a rede. Esses capítulos pelos quais passamos até agora nos servem de preparação para entender um pouco do que está em jogo nas disputas da governança da Internet. Os próximos dois Capítulos falam sobre eventos e sobre as disputas na Conferência Mundial de Telecomu- nicações Internacionais e são o principal foco da dissertação.
27 O sistema de DNS é responsável pela tradução de nomes de sites e e-mails em endereços de IP. Assim é possível que mesmo sem que saibamos nenhum número de IP sejamos capazes de nos conectar a outros ambientes hospedados em servidores espalhados pelo mundo.
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4 Reuniões internacionais sobre Governança
da Internet
A Internet global, um construto que gerencia fluxos de informação, molda negócios e capturou o imaginário das pessoas. E com a noção dessa importância vários encontros vêm sendo feitos a partir dos anos 2000 para melhorar a gestão e o desenvolvimento da Internet. Nos últimos anos grande parte dos debates vêm sendo feitos em torno de pilares como privacidade, liberdade de expressão, segurança, o desenvolvimento de uma indústria da Internet, e a governança global da rede. Como esses pilares se relacionam é comum a interferência de um sobre o outro gerando atritos. Como exemplos aqui podemos lembrar que com o fortalecimento da privacidade dos usuários da Internet será muito mais difícil defender a indústria de entretenimento prevenir que seus produtos(filmes ou músicas) sejam pirateados; da mesma forma que se torna mais difícil usar a rede para se prevenir contra ataques terroristas; ou a disseminação de pornografia infantil; por outro lado a violação da privacidade da população como um todo para prevenir contra estes tópicos é algo sensível. Em outra frente; a exigência de um país para que empresas guardem dados de seus cidadãos em servidores em seu país pode dificultar o desenvolvimento de negócios; mas diminui a possibilidade de que outros países usem essas informações de formas que seriam estrategicamente danosas. Essas questões influenciam diversas camadas da sociedade, e cada uma destas camadas faz pressão para que ouvida nos debates de seu interesse. Uma das estratégias para gerir esses encontros era a de que cada um dos interessados fosse representado. O esquema de representação em que mais de dois setores
são representados é multissetorial1, e ele vem sendo defendido como o melhor modelo
para debates sobre a Internet e está presente em instituições como o CGI.br, a ISOC e a ICANN, e eventos como o IGF e o NETMundial.
Os anos 2000 trouxeram algumas questões importantes e mudanças significativas em relação a como usamos a Internet. Houve um aumento da presença de ferramentas de busca como o Google; Yahoo e Bing; o que levou ao desenvolvimento de um processo de curadoria feita por algorítimos; geralmente vemos o que está nas primeiras posições dos buscadores; segundo o que os algorítimos dos buscadores avaliaram como mais relevante.
As redes sociais passaram a proliferar; passando das mais gerais2 como o Orkut; Face-
book e Twitter; às mais específicas como redes de contatos profissionais (LinkedIn); apenas compartilhamento de imagens (Pinterest); apenas relacionamentos amorosos (Tinder); ou
1 A composição típica neste tipo de evento abrange representantes oficiais de governos; empresas re- lacionadas às diversas camadas da Internet desde Data Warehouses até redes sociais; acadêmicos; especialistas técnicos e a sociedade civil.
2 Por redes sociais gerais nos referimos a redes sociais que têm como atributo básico conectar pessoas que se conhecem; sem necessariamente ter um tema.
temas ainda mais específicos como moda ou cerveja (Hookit e Beer Tap). Estas redes so- ciais também desenvolveram modelos próprios de curadoria de conteúdo via algorítimos e desenvolveram seus modelos de capitalização sobre seus usuários; ou sobre as informações de uso de suas redes. Pessoas da maior parte dos países acessam a Internet tendo como principais pontos de partida para desbravamento da rede essas duas ferramentas. Entre- tanto, com o aumento da penetração da Internet, essas ferramentas passam a ser usadas não apenas para interagirmos com a rede, mas com o mundo todo a nossa volta graças ao aumento no número de aparelhos ligados à Internet como telefones, relógios e carros. E acima de tudo essas empresas de buscadores e redes sociais; que penetraram com tanta força no cotidiano dos centros urbanos; se tornaram um dos principais negócios contem- porâneos; então em grande medida os investimentos; os lobbies; muito da influência sobre os rumos da governança vem destas empresas.
No que diz respeito aos novos caminhos de desenvolvimento da rede vemos um
processo de ampliação do número de TLD genéricos3 com um destaque para a amplia-
ção de alfabetos usados; e o desenvolvimento de outros que privilegiem negócios como o
.amazon; o esgotamento dos IPv4 e o lançamento do IPv6 trazendo simultaneamente a
ampliação dos números de IPs e os problemas de incompatibilidade entre os dois sistemas de endereçamento; além das diferenças globais no domínio da nova tecnologia. Também surgem questões relacionadas ao acesso a bens de consumo que estão ligados à Internet como o crescimento do número de telefones celulares com acesso à Internet em países em
desenvolvimento e o desenvolvimento da Internet das coisas4 nas regiões mais abastadas
do mundo faz com que a rede penetre cada vez mais na vida e no dia a dia das pessoas. Grande parte das decisões que são incorporadas à Internet acontecem durante o dia a dia de técnicos envolvidos na tentativa de solucionar problemas para o funcionamento de alguma faceta da rede. Em um passo um tanto mais lento vemos governos e empresas estressando a barreira do aceitável tentando descobrir quanto controle exercer sobre o que acontece na Internet e com seus usuários; disputando por influência e captação de recursos. A todo momento listas de discussões e redes sociais se transformam em arenas onde o futuro das coisas vai sendo debatido. Ainda assim existem alguns momentos em que estes temas convergem e as pessoas se encontram para debater; ai se dão os eventos globais de governança. Estes eventos geralmente atraem representantes de toda sorte de instituições como governos, empresas e organizações educacionais e sem fins lucrativos. Cada instituição vem em defesa de seus interesses desde computação em nuvem aos direitos
3 A parte dos links que usamos para entender a função do site na Internet; como: .com para negócios,
.edu para universidades e sites relacionados à educação ou .gov para sites governamentais.
4 Internet das coisas é o fenômeno de conectar à Internet aparelhos que originalmente não eram co- nectados. O primeiro expoente deste movimento foram os telefones celulares, mas hoje, graças a processos de automação existem casas inteiras conectadas à rede, bem como carros, aparelhos para o monitoramento da saúde de pacientes etc