3. Feições atuais dos direitos da personalidade
3.4 A classificação dos direitos da personalidade
Com escopo de sistematização da matéria, convém apresentar a classificação dos direitos da personalidade, tal qual externada por alguns autores.
A mais célebre dessas, ao menos no Brasil, é a de Rubens Limongi França, que divide os direitos da personalidade em três espécies, levando em conta os aspectos físicos, intelectuais e morais da pessoa humana. A mencionada classificação é apresentada da seguinte forma: a) direito à integridade física; b) direito à integridade intelectual; e c) direito à integridade moral. A integridade física incluiria, basicamente, o direito à vida e aos alimentos, ao próprio corpo, ao corpo alheio e às partes separadas do corpo, vivo ou morto (nos três casos). A integridade intelectual abrangeria o direito à liberdade de pensamento e o direito pessoal de autor científico, autor artístico e inventor. Por fim, o direito à integridade moral seria composto pelo direito de liberdade civil, política e religiosa, pelo direito à honra, à honorificiência,438 ao recato, ao segredo pessoal, doméstico e profissional, à imagem e à identidade pessoal, familiar e social.439
Silmara Juny de Abreu Chinelato adota a classificação de Limongi França, mas faz importante distinção: os direitos da personalidade são divididos em quatro categorias, a fim de conferir uma delas exclusivamente ao direito à vida, vez que este seria pressuposto dos demais direitos.440 A posição da autora é relevante, porém contraditória aos direitos da personalidade da pessoa falecida, mencionada no item anterior.
Carlos Alberto Bittar confere outra classificação a esses direitos, dividindo-os em: a) direitos físicos; b) direitos psíquicos; e c) direitos morais. Os primeiros se refeririam a componentes materiais da estrutura humana, como a vida, a integridade corporal, com suas subdivisões, a imagem e a voz. São identificados, portanto, como direitos físicos aqueles elementos extrínsecos da personalidade. Os psíquicos seriam aqueles relativos a elementos internos à personalidade, como a integridade psíquica, que, em seu entender, compreende a liberdade, a intimidade e o sigilo. Os direitos morais seriam aqueles relativos a atributos valorativos da pessoa na sociedade, representados pelo patrimônio moral que
438 A honorificência pode ser definida como aquilo que causa distinção ao indivíduo, v.g., o título de professor honoris causa concedido por universidades.
439 FRANÇA, Rubens Limongi. Direitos da personalidade – coordenadas fundamentais. Direitos da personalidade e responsabilidade civil. Revista do Advogado, n. 38, p. 5-13, dez. 1992, p. 9. Verifique-se, igualmente, Manual de direito civil, v. 1, p. 329.
440 CHINELATO, Silmara Juny de Abreu. Tutela civil do nascituro, p. 293; e Código Civil interpretado: artigo por artigo, parágrafo por parágrafo, p. 40.
compreenderia a identidade (nome), a honra e as manifestações do intelecto. Observa o autor que os direitos físicos e psíquicos estão relacionados com a pessoa em si mesma, ao passo que os direitos morais se referem à sua posição frente à sociedade, ou seja, sua projeção na coletividade.441
É interessante notar, a partir das duas classificações, a dificuldade que alguns temas apresentam em inserir-se em uma categoria específica. Verifique-se, por exemplo, o direito à imagem, que possui uma conotação física (a chamada imagem-retrato) e uma conotação moral (a chamada imagem-atributo). Limongi França priorizou o aspecto moral, ao passo que Carlos Alberto Bittar destacou o aspecto físico.442 Nenhum dos dois está equivocado, mas o direito dá margem à discussão. A inserção do direito à intimidade (ou à vida privada) também é intrincada, já que a lesão à intimidade pode atingir tanto a esfera psíquica quanto a esfera moral do indivíduo.
Santos Cifuentes apresenta, como os demais, uma classificação tripartida, da qual são excluídos o direito ao nome e o direito moral de autor, em razão dos motivos explicitados anteriormente.443 São suprimidos, ademais, outros direitos relacionados com a atividade comercial e industrial, como o segredo, e as marcas e patentes, no que seu pensamento é irretocável.444 Procedidas a essas supressões, a divisão apresentada se dá entre a) integridade física, b) liberdade e c) integridade espiritual. Na integridade física, são incluídos os direitos que permitem que a pessoa exercite faculdades sobre seu corpo – vida, meios de proteção e obtenção da saúde, e destino do cadáver. Na esfera da liberdade, são inseridos: a expressão de ideias, a realização de atos jurídicos e o emprego de força física ou espiritual. Por fim, junto à integridade espiritual, figuram a honra, a imagem, a intimidade, a identidade, e o segredo, considerando-se o último uma esfera mais restrita do direito à intimidade.445,446
Walter Moraes, finalmente, não apresenta, propriamente, uma classificação dos direitos da personalidade, mas enumera aqueles que considera principais, procedendo à
441 BITTAR, Carlos Alberto. Os direitos da personalidade, p. 17 e 64-65. 442 Verifique-se item 5.4.
443 Verifique-se item 3.1.
444 Verifique-se o Capítulo 5, especialmente 5.7.
445 Esse também é o posicionamento aqui perfilhado, conforme exposto no item 5.5. Convém salientar que está sendo adotada a teoria dos três círculos concêntricos, na qual a esfera mais restrita é a do sigilo, a intermediária é a da intimidade propriamente dita, e a mais ampla é a da vida privada. A esfera mais ampla envolve informações pessoais de conhecimento de um grande número de pessoas e, conforme o observador se dirige ao centro do círculo, vai encontrando alojadas as informações mais exclusivas, como aquelas decorrentes de confidência e de tratamento psicológico terapêutico.
exclusão dos que extravasam os limites da individualidade humana. Com isso, são arrolados: o direito ao corpo, de modo a abranger a saúde e todos os seus desdobramentos; a integridade psíquica; a vida; a obra intelectual; a imagem; a condição de família; a liberdade e a dignidade; a identidade, abrangendo a verdade pessoal e o nome; e a intimidade.447 A enumeração, assim como as demais categorias aqui mencionadas, é apenas uma referência para facilitar a identificação dos direitos que são realmente essenciais, não se pretendendo tratar os direitos da personalidade como numerus clausus.
Atualmente, tendo em vista a já mencionada predominância da teoria do direito geral de personalidade, as diversas classificações dos direitos da personalidade são questionadas, sob o argumento de que implicam no fracionamento e na tipificação dos direitos decorrentes da personalidade em diversos direitos perfeitamente identificáveis,448 o que poderia impedir a apreciação de novos direitos. A crítica, contudo, é infundada, tendo em vista que os doutrinadores supramencionados mantêm a abertura do sistema de classificação proposto, e em nenhum momento afirmam que estes são os únicos direitos da personalidade possíveis. São, ao contrário, aqueles que puderam ser pensados naquele momento, divididos em categorias propositadamente amplas a fim de abarcar outros direitos, que possam ser objeto de discussão posteriormente. As diversas classificações detêm evidente interesse didático e de modo algum prejudicam o avanço da matéria, ou introduzem elementos que possam prejudicar o estudo dos direitos da personalidade, razão pela qual não se vê qualquer motivo para que sejam desaprovadas.