1. A concepção de pessoa e de personalidade jurídica
1.3 Conceito de direitos subjetivos
1.3.7 A teoria de Jean Dabin
O termo francês appartenance-maîtrise é de difícil tradução em língua portuguesa.
Appartenance significa o fato de pertencer a alguma coisa, ou alguém, ao passo que maîtrise é o controle exercido sobre alguma coisa ou alguém. Daisy Gogliano e Vicente
Ráo utilizam o termo “direito de pertença e senhorio”,134 que parece, realmente, ser o mais próximo do significado em francês, razão pela qual será aqui adotado.
De acordo com a teoria em comento, existe uma pertença que é causa e determinante do controle.135 O direito subjetivo decorre da existência de um bem ou valor
131 SALLEILES, Raymond. De la personnalité juridique. Paris: Librairie Nouvelle de Droit et de Jurisprudence, 1910. p. 543. Tradução livre: “O direito subjetivo é um poder colocado ao serviço de interesse de caráter social e exercido por uma vontade autônoma”.
132 DABIN, Jean. Droit subjectif, p. 78.
133 RÁO, Vicente. O direito e a vida dos direitos, p. 527. No mesmo sentido: DABIN, Jean. Le droit
subjectif, p. 79.
134 GOGLIANO, Daisy. Direitos privados da personalidade, p. 309; RÁO, Vicente. O direito e a vida dos
direitos, p. 530.
ligado à pessoa por um vínculo de pertença, chancelado pelo direito objetivo, de modo que aquela pessoa possa dizer que aquele bem ou valor é seu. Dessa forma, o autor em comento enxerga uma relação de pertença – appartenance – entre o sujeito e uma coisa.136 O direito não é um interesse, mas o domínio (pertença) de um interesse, ou de uma coisa que diz respeito ao sujeito e seu interesse. Essas coisas lhe pertencem porque lhe são próprias. Em síntese, o direito subjetivo é a somatória da ideia de pertença com a de senhoria, ou seja, a possibilidade de disposição da coisa adicionada à autonomia do titular, a quem o objeto do direito pertence.
Dessa forma, o direito subjetivo não tem qualquer relação com a vontade ou qualquer manifestação de vontade, mesmo nos termos de Windscheid.137 É possível ter direitos sem o saber porque é concebível ter bens ou interesses cuja existência se ignora. Assim se posiciona Dabin:
“l’ayant droit n’est ni celui qui veut, ni celui qui sait, ni celui qui jouit, ni celui qui agit, ni non plus celui qui souffre; c’est celui qui a comme sien. Le droit subjectif se traduit par un avoir (habere), avoir qui peut d’aillers porter, comme droit, sur l’être ou sur les facultés d’agir du titular lui-même”.138
Mais adiante em sua obra, o autor reforça: “Quant à la volonté, elle n’intervient à aucun degré dans la construction, et c’est pourquoi elle est passée sous silence”.139
As coisas que podem ser suscetíveis de pertença são as coisas exteriores e também aquelas que são internas e inerentes ao sujeito, como a vida e a integridade física, além das relações familiares – poder (dever) familiar –,140 os poderes pertinentes ao chefe de Estado, as atribuições dos órgãos da pessoa jurídica, as prestações decorrentes de direitos de crédito,141 entre outros.
A pertença, contudo, é condicionada pelo direito objetivo, como, aliás, verifica-se em relação às outras teorias estudadas anteriormente. Há que se entender o direito objetivo,
136 DABIN, Jean. Le droit subjectif, p. 81.
137 RÁO, Vicente. O direito e a vida dos direitos, p. 530.
138 DABIN, Jean. Le droit subjectif, p. 83. Tradução livre: “Aquele que tem o direito não é aquele que quer, nem aquele que sabe, nem aquele que usufrui, nem mesmo aquele que sofre; é aquele que tem como seu. O direito subjetivo se traduz por um ter (habere), um ter que pode, também, recair, como direito, sobre o ser ou sobre as faculdades de agir do próprio titular”.
139 DABIN, Jean. Le droit subjectif, p. 104. Tradução livre: “Quanto à vontade, ela não intervém em grau algum na construção [dos direitos subjetivos], e é por isso que sobre ela nada se disse”.
140 GOGLIANO, Daisy. Direitos privados da personalidade, p. 311: “Concebido o direito subjetivo dentro da noção pertença-domínio, os direitos da personalidade podem ser perfeitamente compreendidos no seu aspecto estrutural, porque, nas palavras de DABIN, os bens e valores que se pode ter como seus não se limitam às coisas exteriores, porque também compreendem, e de modo mais próximo, os bens ou valores inerentes à pessoa física ou moral, como: a vida, a integridade do corpo, as liberdades etc.”.
141 Nesse caso, o autor entende que a relação de pertença é atingida de maneira intermediária, por meio do devedor (DABIN, Jean. Le droit subjectif, p. 103).
entretanto, como um amplo complexo que abrange o direito positivo e o direito natural, cabendo ao primeiro deles consagrar os preceitos emanados do segundo, ou então criar novos direitos.142
No que tange à segunda parte da definição – maîtrise, ou o controle –, ele existe porque o sujeito tem a coisa como sua, ele lhe detém o controle.143 A pertença, ou o fato de pertencer a alguém, é atributo da coisa, ao passo que o controle é o atributo do sujeito em relação à coisa.144 Como há o controle, é possível tanto exercer como não exercer o direito. As modalidades de disposição variam de acordo com o direito – a mais ampla possível com relação às coisas materiais, e bem reduzida no que tange aos direitos da personalidade. O mesmo se diga em relação aos direitos-deveres: o direito objetivo impede que a pessoa disponha dele como quiser.145 O poder de controle, note-se, independe do exercício desse controle.
Outra consideração feita por Dabin é a necessidade de analisar, além da relação do sujeito com a coisa que lhe pertence, a relação do sujeito com os outros. É equivocado, como se observa em outras definições, não colocar em destaque o aspecto externo da noção de direito subjetivo. Assim, há que se considerar que a relação de pertença-controle é oponível a outras pessoas – não existe controle se não há outros sujeitos em face de quem controlar.146 Esta oponibilidade pode ser representada pela abstenção por parte dos terceiros, ou então pelo cumprimento de uma obrigação (no caso de direito de crédito).
O autor realça mais um elemento: a exigibilidade. Aquele que detém o controle tem o direito de reivindicar ou de defender aquilo que lhe pertence. A exigibilidade, contudo, não integra o conceito de direito, sendo uma consequência deste, e sua garantia.147 De fato, é necessário que sejam providas as vias legais para a preservação dos direitos, o que, contudo, não lhes altera o significado.
Finalmente, o autor define o direito subjetivo como a prerrogativa concedida ao sujeito cujas finalidades e extensão são estabelecidas pelo direito objetivo, e garantidas pelas vias legais, de “disposer en maître d’un bien qui est reconnu lui appartenir, soit
142 OLIVEIRA, J. Lamartine Corrêa de. Conceito de pessoa jurídica. Tese (Livre-docência em Direito) – Faculdade de Direito, Universidade do Paraná, Curitiba, 1962. p. 27.
143 CASTAÑEDA, Ilya Miriam Hoyos. El concepto jurídico de persona, p. 226. 144 DABIN, Jean. Le droit subjectif, p. 87.
145 DABIN, Jean. Le droit subjectif, p. 91-92. 146 DABIN, Jean. Le droit subjectif, p. 94-95. 147 DABIN, Jean. Le droit subjectif, p. 96.
comme sien, soit comme dû”.148 Assim, o direito subjetivo é tudo aquilo que o sujeito tem como seu, seja porque este bem sempre lhe pertenceu (como ocorre com os direitos da personalidade), seja porque este bem lhe é devido de algum modo (o que se verifica, por exemplo, com os direitos de crédito). Nesse caso, de um lado, pouco importa a vontade, que não precisa ser exercitada; de outro, os interesses não são completamente afastados, mas se relacionam apenas com a exigibilidade dos direitos, que, conforme dito anteriormente, não lhes altera o conteúdo.
Uma vez concluída a análise das teorias que reconhecem a existência de direitos subjetivos, passar-se-á ao estudo dos principais teóricos que rejeitavam sua existência: Duguit e Kelsen.