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O objeto e o sujeito dos direitos da personalidade

3. Feições atuais dos direitos da personalidade

3.3 O objeto e o sujeito dos direitos da personalidade

Uma das principais críticas aos direitos da personalidade era a aparente coincidência entre o sujeito e o objeto de tais direitos, que seria a pessoa humana. O equívoco advém da teoria segundo a qual os direitos da personalidade se restringiriam a um jus in se ipsum, ou seja, um direito sobre a própria pessoa.427

Santos Cifuentes entende que se trata meramente de uma questão técnica, quando se busca, em cada direito subjetivo, identificar o titular e o objeto de direito. Do ponto de vista prático, a distinção entre as duas posições não faz qualquer diferença para a tutela dos direitos da personalidade. A despeito deste fato, debruça-se sobre a análise da matéria, esclarecendo que o sujeito apenas se confunde com o objeto por ser o homem a entidade sobre a qual se torna concreto o objeto. Contudo, seus conteúdos são distintos. Como sujeito, a pessoa humana atua com todas as suas faculdades, físicas e morais de maneira

424 BORGES, Roxana Cardoso Brasileiro. Disponibilidade dos direitos de personalidade e autonomia

privada, p. 29.

425 SZANIAWSKI, Elimar. Direitos de personalidade e sua tutela, p. 137.

426 Esclarecendo que a mescla entre cláusulas gerais e direitos específicos tem predominado em países como França, Itália e Portugal: CAPELO DE SOUZA, Rabindranath Valentino Aleixo. O direito geral de

personalidade, p. 87-91.

indistinta. Como objeto, são abordados apenas aspectos especiais de sua personalidade. O autor frisa que, em algumas hipóteses, a perda do objeto implica também na perda do sujeito, como ocorre com a vida, mas isso não contradiz a existência de divergência de conteúdo entre os dois.428

Dessa forma, o objeto dos direitos da personalidade recai sobre certas manifestações físicas ou psíquicas da pessoa, objetivadas pelo ordenamento normativo e elevadas à situação de bem jurídico.429 São, assim, aquelas características que a individualizam e que lhe são essenciais.430

Quanto ao sujeito dos direitos da personalidade, entende-se que se trata da pessoa humana, fazendo-se a extensão de alguns deles para antes do nascimento (caso do nascituro), para depois da morte, e às pessoas jurídicas.

Com relação ao nascituro, há que se trazer a lume, novamente, as teorias sobre o início da personalidade tratadas no item 1.2. Para a doutrina natalista, a personalidade humana somente surge com o nascimento com vida. De acordo com a condicionalista, a personalidade se encontra condicionada ao nascimento com vida. Finalmente, os concepcionistas defendem que a personalidade emerge no momento da concepção. Se for adotada esta terceira teoria, como aqui se fez, não há qualquer dúvida na concessão de direitos da personalidade ao nascituro tendo em vista que este já possui personalidade. Se, contudo, for adotada uma das duas outras doutrinas, há de se entender que alguns direitos da personalidade projetam-se para antes mesmo do nascimento, de modo a se permitir a preservação da honra e da imagem, por exemplo, já no ventre materno, por aplicação do art. 2º, in fine, do CC.

A questão dos direitos da personalidade post mortem é de grande complexidade. É de conhecimento geral que os direitos normalmente exaurem-se com a morte de seu titular, mas isto não ocorre com alguns direitos da personalidade que, nas palavras de Haddad Jabur, “não fenecem com a pessoa e se perpetuam com e entre sucessores, como o direito à imagem-retrato (eternizada pela memória mecânica) ou à imagem-atributo (mantida pela natural preservação dos característicos pessoais amealhados em vida), à identidade (porque a defesa do nome não se esvai com a morte civil) e à honra (que também se funde e se

428 CIFUENTES, Santos. Derechos personalísimos, p. 172.

429 TOBEÑAS, José Castán. Los derechos de la personalidad, p. 18. No mesmo sentido: DABIN, Jean. Droit

subjectif, p. 169; e BORGES, Roxana Cardoso Brasileiro. Disponibilidade dos direitos de personalidade e autonomia privada, p. 20.

430 JABUR, Gilberto Haddad. Liberdade de pensamento e direito à vida privada – conflitos entre direitos da personalidade. São Paulo: RT, 2000. p. 75.

confunde com honra dos sucessores do finado), nos quais também se titularizará o direito de ação, cf. CP, art. 138, § 2º e Lei 5.250/67, art. 40, I, d. Genérica, mas suficiente, é a tutela aos personalíssimos direitos do falecido, destacadamente regrada no art. 12 do novo Código”.431

Com efeito, alguns direitos da personalidade se ligam à pessoa de modo perpétuo, mantendo-se mesmo após a morte.432 É o que destaca Rabindranath Valentino Aleixo Capelo de Souza, salientando que os bens da personalidade do finado continuam a influir no curso social, motivo pelo qual perduram no mundo das relações jurídicas, devendo ser objeto, portanto, de proteção jurídica, o que ocorre, especialmente, com o cadáver, as partes destacadas do corpo, a imagem, a honra, a intimidade e a vida privada, além dos direitos autorais.433

Em alguns aspectos, tais direitos são transmissíveis por sucessão mortis causa, cabendo a alguns legitimados promover a sua defesa contra terceiros. Não se deve confundir, entretanto, o direito do falecido com o daqueles que têm capacidade jurídica para defender sua memória em juízo. A pessoa falecida tem interesses que lhe são próprios, os quais representam continuação de suas aspirações em vida, e que continuam a atuar autonomamente, podendo, inclusive, configurar contribuição para posteridade.434

Explica-se a projeção desses direitos pela necessidade de proteção da dignidade do indivíduo mesmo após a sua morte. Nesse sentido, o parágrafo único do art. 12 funciona como uma cláusula geral de tutela da personalidade da pessoa falecida. A dignidade da pessoa humana é peça central do sistema jurídico brasileiro, e esta não se extingue com o falecimento. Convém afastar, igualmente, a assertiva de que o verdadeiro interesse protegido é o dos familiares do falecido, tendo em vista que o respeito às pessoas falecidas, e aos seus direitos da personalidade, é de interesse de todas as pessoas, justamente por estar relacionado com sua própria dignidade.

É evidente que nem todos os direitos da personalidade se prolongam após a morte, tendo em vista que alguns deles pressupõem um titular vivo, como o direito à vida e à

431 JABUR, Gilberto Haddad. Limitações ao direito à própria imagem no novo Código Civil. In: DELGADO, Mário Luiz; ALVES, Jones Figueiredo (Coord). Questões controvertidas. São Paulo: Método, 2006. p. 15.

432 MALUF, Adriana Caldas do Rego Freitas Dabus. Direito da personalidade no novo Código Civil e os elementos genéticos para a identidade da pessoa humana, p. 88.

433 CAPELO DE SOUZA, Rabindranath Valentino Aleixo. O direito geral de personalidade, p. 188-193. 434 ZANINI, Leonardo Estevam de Assis. Direitos da personalidade – aspectos essenciais, p. 199.

liberdade. Por sua vez, são bastante relevantes, no que tange ao falecido, os direitos à imagem, à intimidade e à honra.435

Os direitos de proteção da imagem e da intimidade se encontram em frequente conflito com a liberdade de imprensa e o direito de informar.436 Se a informação é verdadeira e é indispensável para que seja veiculada determinada notícia, poderá haver a intrusão à vida privada. A situação, entretanto, torna-se mais intrincada à medida que se observa o fenômeno da banalização de notícias, que acaba por vilipendiar a intimidade alheia. Esse problema também se manifesta com os direitos da personalidade post mortem.

Como exemplo, faz-se menção à ação de indenização proposta por Maria de Lourdes Morais Albuquerque, esposa do jogador de futebol Almir Morais Albuquerque, em face da TV Globo. A demanda foi motivada pela dramatização da vida do falecido (cujo personagem não era identificado pelo seu próprio nome, mas possuía características indiscutivelmente a ele pertencentes) na mencionada emissora. O programa televisivo mostrava-o como desonesto e sem caráter. Foi concedida indenização a seus familiares, tendo o acórdão, proferido nos autos de Recurso Extraordinário, salientado o direito à preservação da memória da pessoa falecida.437

Sendo assim, entende-se que os direitos da personalidade podem ser estendidos à pessoa falecida, assim como ao nascituro, dentro das hipóteses que sejam compatíveis com suas respectivas situações.

A questão das pessoas jurídicas é o ponto fulcral desta tese, motivo pelo qual será desenvolvida no Capítulo 5. Como já destacado nos capítulos anteriores, refutam-se veementemente os entendimentos que pretendem igualar os entes coletivos às pessoas naturais para fins de direitos da personalidade.

435 Carlos Alberto Bittar salienta que a honra acompanha o indivíduo desde o seu nascimento, por toda a sua vida e mesmo depois de seu falecimento (Os direitos da personalidade, p. 129). Em sentido contrário, Adriano De Cupis aduz que o falecido não tem direito à honra, o que não impede que, com a ofensa à sua memória, surjam danos aos parentes próximos sobrevivos (Os direitos da personalidade, p. 126-127). Como se infere do quanto supra salientado, defende-se posicionamento diverso, já que se entende que a pessoa falecida tem um direito de personalidade autônomo, que não se confunde com o de seus familiares.

436 GODOY, Luciano de Souza. A liberdade de imprensa e o segredo de justiça – uma questão de respeito à privacidade como direito da personalidade. In: HIRONAKA, Giselda Maria Fernandes Novaes (Coord.).

Direito e responsabilidade. Belo Horizonte: Del Rey, 2002. p. 422-423.

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